terça-feira, 24 de maio de 2016

Vamos falar de cultura

Cultura é a roda de samba, a cerveja depois do trabalho, a praia no final de semana, o improviso das favelas, o biquíni das meninas, o pão com manteiga de manhã, a feijoada no sábado, o churrasco no domingo, a moqueca na Semana Santa, a roda de capoeira, a molecada jogando futebol num campinho qualquer, as tantas manifestações folclóricas…

Cultura são os cantores das noites, as bandas de amigos, os blocos de carnaval, os artistas das ruas, os artesãos das feirinhas, os homens dos cordéis, as mulheres das rendas, os repentistas do sertão, os funkeiros dos morros, os violeiros do pantanal, os rappers da periferia, os aposentados das praças, os pintores e escritores independentes, os poetas dos bares…

Cultura independe do governo. Cultura não se fabrica. Não se controla. Cultura é como o mercado. Acontece. Incontrolável. Indomável como a língua, que se transforma o tempo todo, a despeito do que os acadêmicos planejam. Quando a cultura vira política de governo, deixa de ser cultura. Vira panfleto.

O fim do ministério da Cultura teria um único resultado prático: Artistas que se acostumaram a com o dinheiro do governo teriam que captar recursos diretamente na sociedade.

Se o MinC e as leis de incentivo fossem extintas, pessoas como Chico Buarque teriam que fazer mais shows para manter seus estilos de vida. Teriam que se aproximar do povão. Aqueles que não quiserem se “vender ao mercado” buscando patrocínio de empresas privadas, teriam que fazer campanhas de crowdfuding na internet, assim como milhares de artistas independentes já estão fazendo. Com toda certeza, artistas consagrados não teriam dificuldades em viabilizar seus projetos a partir de doações espontâneas de pessoas comuns, suas fãs. As produtoras que se especializaram em captar recursos via leis de incentivo teriam que se especializar em captar recursos no mercado, na sociedade.

O ministério da Cultura representa um dos piores efeitos da democracia: A maioria sendo obrigada a financiar projetos que apenas uma pequena minoria usufrui. Cidadãos sendo obrigados, via pagamento de impostos, a bancar projetos que não lhes interessam. Filmes inteligentinhos. Exposições grotescas. Livros que ninguém lê.

O argumento de que o fim do MinC seria um atentado contra a cultura nacional insulta os inúmeros artistas que trabalham por conta própria, vivendo do talento que têm, sustentando suas vidas e suas artes na medida em que satisfazem outras pessoas.

O ministério da Cultura sempre foi um cabidão de empregos e uma fonte de dinheiro para uma elite composta por artistas famosos ou apadrinhados.

O ministério da Cultura é um vetor de concentração de renda. Metade dos recursos captados em 2015 foram destinados a apenas 3% dos projetos aprovados. Como levantou o Spotniks, entre 2005 e 2015 o orçamento da Ancine saltou de R$ 19 milhões para R$ 660 milhões, obtendo resultados nada proporcionais. Em 2008, foram lançados 79 filmes. Em 2015, 128. O número de expectadores cresceu de 89 para 155 milhões no período, porém, mantendo a média de 12% de interesse nos filmes nacionais. O que isso significa? Que por mais que se injete dinheiro no setor, o grande público não passa a se interessar mais pelos filmes nacionais; e por uma razão muito simples: A maioria das produções é feita apenas para o prazer da elite cultural.

E por falar em cinema…

A maior produção cinematográfica do mundo está na Índia, onde são feitos mais que o dobro do número de filmes feitos em Hollywood, sem dinheiro do governo. Sem programas de proteção ao cinema nacional, apenas 10% dos filmes assistidos na Índia são americanos. Os indianos pobres assistem até 5 vezes mais filmes do que os ricos. São vendidos mais de 3 bilhões de ingressos por ano. Na Índia, atores e produtores não trabalham para emocionar Hollywood, Cannes ou Berlin. Trabalham para emocionar dos indianos.

Falta honestidade ao cinema brasileiro.

A Ancine se assemelha em conceito, prática e resultado ao BNDES. Ambos injetaram dinheiro público em determinados setores que hoje continuam dependentes do governo, comprovando o que os liberais dizem desde sempre: Subsídios geram ineficiência.

A TV Brasil, criada por Lula, têm quase zero % de audiência, mas conta com um orçamento de meio bilhão por ano. Por que o povão não assiste o canal? Porque sua programação é um lixo. É para isso que existe o governo: Dizer que lixo é cultura.

É preciso esclarecer que a lei Rouanet não é uma simples lei que converte impostos em investimentos culturais. A burocracia do “benefício” exclui a quase totalidade dos artistas, já que para desvendá-la é necessária a contratação de uma agência ou produtora especializada. Por isso não vemos micro e pequenas empresas patrocinando artistas desconhecidos. Elas não conseguem sequer preencher os formulários, dada a complexidade e restrições da papelada.

Mesmo que um projeto vença a burocracia, ele e seu autor serão avaliados por uma comissão com escancarado viés ideológico. Projetos ou artistas avaliados como ameaça aos ideais socialistas são vetados. Parece exagero, mas é assim mesmo que funciona. Em resumo, a lei Rouanet é uma mera formalidade entre amigos.

Graças a lei Rouanet, R$ 1,4 bilhão deixaram de ser pagos em impostos em 2015. A título de comparação, a Polícia Federal contou com uma verba de R$ 1 bilhão no mesmo ano; e Dilma, antes de sair, mandou reduzir a verba da PF em 13%.

A extinção do MinC não acabaria com a cultura nacional. Acabaria apenas com a elite cultural bancada com dinheiro público, fazendo com que a classe artística e intelectual se tornasse mais criativa, se aproximasse mais da sociedade, se tornasse independente.

Ainda não foi dessa vez.

Acuado, Michel Temer recriou o MinC uma semana depois de extingui-lo. Não suportou a pressão.

Comprovou-se, assim, que a elite cultural utiliza seu poder de mobilização apenas em benefício próprio, esbanjando demagogia, arrogância e soberba. Apesar do discurso, não tem nada de altruísta. É completamente indiferente à situação do país. Exige que seus projetos sejam tratados com prioridade nacional. Não tem pudor em dizer que se não tiver acesso ao dinheiro público, a cultura do país cairá em desgraça. Não por acaso, dessa elite nunca vimos um único protesto contra os absurdos do governo do PT. Foram 13 anos de bajulações.

A cultura somos nós. Eles são os parasitas
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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Isolado e solitário

A boa noticia é que a gente pode descansar a mente. Não existe motivo para preocupação. Não se fala mal do Brasil no hemisfério norte. A má noticia é que ninguém fala do Brasil. Ele não esta no radar. É terra distante sobre a qual pouco se sabe e quase nada se fala. Está ausente da memoria, dos corações e mentes do resto do mundo.

Por aqui, não se sabe das palmeiras e muito menos se ouvem os sabiás. Não é ignorância. É simples desinteresse. Afinal, depois de tanto tempo investindo no isolamento, atingimos o objetivo buscado com tanta força e paixão. Estamos sozinhos.

Seria simples culpar os outros países pela nossa solidão. Afinal, eles sabem mesmo pouco sobre o país. Não seguem o que se passa. Não se interessam. Culpa-los, entretanto, seria exercício inútil de perda de tempo.

A falta de informação é função do desinteresse. Antes de mais nada, um dos maiores obstáculos a serem superados pelo país é que, realisticamente, não existem incentivos para que estrangeiros se envolvam, informem, ou mesmo visitem o Brasil.

As evidencias estão por toda parte. O Brasil recebe poucos turistas, pouca imigração, pouco investimento, pouca atenção, enfim. O Brasil não tem marcas conhecidas, produtos populares, não mais exporta musica, não tem cinema relevante. O isolamento é palpável.

Culpa nossa, sem dúvida. De um lado, desestimulamos qualquer interesse no país. De outro, minimizamos as oportunidades para que este interesse seja despertado. E tudo isto traz consequências.

A falta de engajamento do país e de seus agentes econômicos com o mundo exterior torna o pais não somente isolado, mas cada vez menos relevante para os outros países. A vida segue, mesmo que nos recusemos a dela participar. E o isolamento vai se cristalizando em irrelevância.

Talvez seja mesmo hora de mudar. A hora ideal para integrar ao comercio exterior passou. Faz tempo. Resta agora correr atrás do prejuízo. Abrir-se para o mundo. Rapidamente. E escolhendo melhor os aliados e parceiros.

Gigante brasileiro

Nunca tivemos uma dívida interna tão grande e tão cara. O Brasil pagou de juros, no ano passado, o equivalente a 10% do PIB (Produto Interno Bruto). Isso é algo como duas vezes o que pagou o Tesouro grego. É a maior conta de juros do mundo
Gustavo Franco

Cada vez mais felliniana, política brasileira supera 'House of Cards'

Charge O Tempo 22.05.2016
Se tivesse a sorte de ter nascido no Brasil, o diretor Federico Fellini teria ainda mais inspiração criativa, porque é aqui, do lado debaixo do Equador, que a ensandecida realidade consegue superar o talento criativo do cineasta italiano. Na política brasileira, o predomínio é da ficção e o nosso jogo de aparências faz o seriado “House of Cards” parecer obra de principiante. e um dos papéis principais, é claro, cabe à presidente Dilma Rousseff. No roteiro de terror dela, é preciso denunciar o golpe, a trama das elites, a opressão do capitalismo internacional, o fim dos programas sociais e a entrega do pré-sal às multinacionais.

Para se distrair entre uma cena e outra, Dilma montou no Palácio Alvorada um gabinete virtual da “pronta resposta”. O objetivo é usar suas páginas no Facebook e no Twitter para desmoralizar a gestão de Michel Temer, que ela chama de “governo provisório”. Ou seja, Dilma ainda acredita que, no final do filme, será levada nos braços do povo para retomar o poder, mas esqueceu de combinar com o roteirista.

Sempre querendo roubar a cena, depois de ter dilapidado o patrimônio nacional, Lula da Silva agora faz papel de um Al Capone sindicalista, que tenta despistar os intocáveis agentes federais e anuncia que será candidato em 2018 para impedir que os programas sociais sejam suspensos, vejam como a política o transformou num homem muito caridoso, que tudo faz para ajudar sua família e também as pessoas mais próximas, como a companheira Rosemary Noronha, o marido e a filha dela.

Lula e Dilma se odeiam, mas o roteiro obriga a atuarem juntos, entre tapas e beijos, um elogiando o outro publicamente, mas em disputa encarniçada nos bastidores.

Com a criativa maquiagem nas contas públicas, Dilma poderia até ganhar o Oscar de Efeitos Especiais, mas o resultado foi trágico, porque ela conseguiu derrubar todos os cenários econômicos em meio às filmagens.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso insiste em continuar em cena, no papel de dono do PSDB e oráculo da política brasileira. Busca ser novamente protagonista, mas fica parecendo um comediante aposentado que tenta encontrar alguma forma de aparecer. Como se o partido lhe pertencesse, FHC vai logo avisando: “Se o governo Temer for para o lado errado, o PSDB o abandonará”.

Seus livros de memórias também são hilários. No mais recente, resolveu fazer uma refilmagem da compra da emenda da reeleição, que foi adquirida a preços módicos no Congresso. Mas agora ele tenta alterar o roteiro original, para fazer crer que a reeleição foi aprovada de graça, porque todo mundo queria que ele permanecesse eternamente no poder. Sua desfaçatez é como o pecado que mora ao lado.

Com o lançamento do novo livro, esta semana FHC ganha mais 15 minutos de fama, mas logo terá de sair do palco, porque o respeitável público já se cansou dele.

Debaixo dos holofotes, em cena aberta, Michel Temer agora tenta fazer o papel do jovem audaz no trapézio volante. Apesar da idade avançada e da falta de preparo físico, ele se segura como pode, porque embaixo não existe rede protetora.

Como não há condições de dar sozinho o salto triplo, teve de chamar Henrique Meirelles e compartilhar o governo com ele. É a primeira fez que o país tem dois presidentes no poder – um deles cuida da parte mais importante, a recuperação da economia, e o outro apenas toca a administração, mas não tem como realizar grande coisa, pois os recursos da produção são escassos e não há Lei Rouanet que dê jeito.

Mesmo assim, no melhor estilo felliniano, la nave va. Mas ninguém sabe para onde. O roteiro das cenas finais ainda não foi escrito, porque depende da evolução da dívida, que somente será resolvida mediante um calote monumental, pois não há como sonhar com um “happy end”, após a tragédia encenada na Era do PT, uma espécie de “Apocalypse Now” em versão tropicalista.

Rumo ao novo

O Ministério da Cultura, eterna aspiração de artistas e intelectuais brasileiros desde Gustavo Capanema, foi criado pelo primeiro presidente do PMDB, assim que se encerrou a ditadura. Trinta e um anos depois, quando um novo presidente do PMDB assume o poder, o MinC quase é extinto, virando secretaria incorporada ao Ministério da Educação. Um “puxadinho burocrático”, como disse com precisão Nelson Motta em sua coluna. O PMDB destruiria o que o PMDB criou, aquilo de que deve se orgulhar – uma forma democrática, moderna e eficiente de administração da cultura no Brasil.

Com sabedoria, o governo interino recuou e recriou o MinC, nomeando ministro da Cultura Marcelo Calero, até aqui secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, agora substituído pelo excelente Júnior Perim, fundador e animador do Circo Crescer e Viver (desde a nomeação para a Funarte de Guti Fraga, do Nós do Morro, um produtor de cultura popular não assumia um cargo dessa importância).

Conheço pouco Marcelo Calero, mas acompanhei com simpatia seu bom desempenho à frente da secretaria municipal. Cordial e discreto, Calero é um homem de diálogo, imagino sua aflição com as atuais tensões na área e com a radicalização do ódio na política brasileira. Mas o problema não é quem vai para o posto, e sim para onde vai o posto. Aliás, que posto é esse?

A convenção imprecisa e tácita em torno do que é cultura nos impede de pensar suas sofisticadas ambiguidades. Tudo aquilo que é invenção do homem, o que não pertence originalmente à natureza, é cultura. Da cerâmica marajoara aos games eletrônicos, tudo é criação humana e, portanto, cultura. É dessas criações que tiramos nossa singularidade, a identidade de nosso grupo ou nação.

A expressão cultural contemporânea é fruto de uma troca de experiências criativas e de sua oferta aos outros. Ou seja, de uma troca de bens materiais e imateriais entre seus consumidores. Isso é conhecido como “economia criativa”, não só fonte de valores espirituais, mas também instrumento de produção de riqueza e soft power.

Pesado, caro, inacessível à gestão de diletantes, o audiovisual, elemento característico dessa economia criativa, é um setor bem estruturado e bem organizado de nossa produção cultural. Suas políticas e seus instrumentos de fomento e regulação estão consolidados por leis e são bancados, além de por incentivos fiscais, não pelo Tesouro Nacional, mas pela Contribuição ao Desenvolvimento do Cinema (Condecine), uma taxa paga pelo próprio setor, hoje num valor de cerca de R$1,5 bilhão ao ano.

A soma dos orçamentos de equipamentos do audiovisual no MinC, como o Conselho Superior de Cinema, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a Agência Nacional de Cinema (Ancine), o Centro Técnico de Audiovisual (CTAV) e a Cinemateca Brasileira, equivale ou é mais elevada que a do restante do ministério somado. Sufocado, o audiovisual acaba sempre sufocando politicamente seus parceiros artesanais da cultura.

Hoje, o audiovisual responde por 0,46% do PIB brasileiro, de acordo com o IBGE, e injeta cerca de R$ 19 bilhões por ano na economia do país. Segundo pesquisa da Motion Picture Association na América Latina e do Sindicato Interestadual da Indústria do Audiovisual, feita a partir de dados do mesmo IBGE, o faturamento anual bruto da atividade é de R$42,8 bilhões. Com um peso econômico maior do que o da indústria farmacêutica ou o do turismo, o audiovisual gera 150 mil empregos diretos e indiretos, com remuneração acima da média nacional.

Com esse peso todo, não faz mais sentido subordinar o audiovisual às políticas das demais áreas da cultura, nem sufocar essas com seu gigantismo. O novo MinC é uma boa oportunidade para que se crie uma secretaria nacional, fortalecida, independente e específica da atividade.

Cacá Diegues 

'Ter Ministério da Cultura é fruto de mentalidade patriarcal, burocrática e centralizadora'

Um dos principais pesquisadores sobre a política cultural no Brasil, o escritor, museólogo e professor Teixeira Coelho não está pessimista com o fim do Ministério da Cultura.

Para ele a maneira centralizada com que o MinC vinha funcionando nos últimos anos era obsoleta e não dava lugar ao principal ente da cultura: as cidades. "A nação nesse sentido é uma ficção. A cultura existe nas cidades", afirmou em conversa com a BBC Brasil.


O Estado sempre se serviu da cultura para se defender. Com uma identidade, você tem controle mais fácil sobre as pessoas. Se não tiver um Estado para nos dizer isso, vamos viver num mundo bem melhor
Na sua visão, a discussão sobre o fim do órgão resvala em uma noção, ainda bastante patriarcal, do Estado como provedor e centralizador de um discurso cultural que parece já não caber em uma sociedade tão fluida, tão diversa.

"Ter um ministério assim é fruto de um pensamento aristocrático, paternalista, patriarcal e centralizador. A cultura não pode ser centralizadora."

No bate-papo, o ex-diretor do Masp (Museu de Arte de São Paulo) expõe uma preocupação maior com a rediscussão do papel do Estado na área do que com a resistência cultural ao fim do MinC: "O Estado não é um salvador da cultura, ela existe fora dos jogos governamentais".

'Governar é administrar pressões'

O anúncio do novo ministério pelo presidente Michel Temer trouxe a festejada expectativa de se reduzir o tamanho do Estado, sempre questionado como um dos maiores equívocos da administração pública e sua forte torrente de gastos – muitos de questionável qualidade e, especialmente, de prioridade. Num país pobre, de uma população, na sua grande maioria, com agravos a sua saúde, uma educação seletiva e de baixa qualidade, sem investimentos em pesquisa e precários incentivos à geração de trabalho e renda, a manutenção de quase quarenta ministérios, gastando o que o caixa não tem para pagar é, para ser educado, irresponsabilidade e burrice. Pior, sabendo-se que esses espaços, muitas vezes, servem apenas para acomodação de acordos políticos de duvidosa reputação. A transformação de algumas dessas áreas em secretarias – desde, é claro, que se reduzisse também o elenco de assessores, de cargos comissionados, a frota de veículos, os cartões corporativos, celulares, representações – até o Mantega sabia que era necessária e queria; não é preciso se luminar para entender que só se gasta o que se tem e que, em se tendo, também não faz bem quem gasta mal.


Passamos esses últimos dias ouvindo a classe artística e alguns intelectuais em manifestações contra, exatamente, a transformação do Ministério da Cultura em secretaria, vinculada ao Ministério da Educação. Nada que, no entender de muita gente, significasse um descompromisso com a cultura, se essa secretaria se deslocasse para um espaço além de conceder benefícios jogados ‘de grila’, descontados do que contribuintes pagam de Imposto de Renda. E não é pouca grana que rola por aí. As redes sociais se ocuparam de repercutir o protesto de artistas, teatrólogos, músicos, promotores de tudo, empresários de circo, numa bem articulada e eficaz manifestação, com nomes da intelectualidade e das artes. No vácuo, vieram os construtores de projetos culturais que o MinC analisa para fazê-los candidatos aos valores abatidos do imposto a pagar, por contribuintes simpáticos à abordagem que recebem de corretores dessas verbas ou até mesmo confiantes na seriedade dos projetos apresentados. Há centenas desses projetos que merecem tais incentivos. Tudo funcionando como um relógio, e ninguém perde. Só o Tesouro mas, bem feito, ganha a sociedade. Na contrapartida, as mesmas redes sociais trouxeram o apoio raso de simpatizantes com a ideia da transformação do MinC em Secretaria (havia os que brigavam para ser departamento, divisão, sala da cultura, grêmio e até cantinho da cultura), sempre comparando o que o Minc gasta com a eventual construção de postos de saúde, construção de escolas, compra de cestas básicas, viaturas de radiopatrulha, rolos de esparadrapo, soro antiofídico e lacto-purga. Enfim, comparando o incomparável. E aí não há ideia que se sustente.

Mas o pior veio dias depois do anúncio feito por Temer: não resistente às pressões, o presidente em exercício cedeu, desistiu de extinguir o MinC e já até nomeou seu futuro ministro. Não se discute mais se deveria ou não ser extinto o MinC, mas a velocidade de se atender às reações que seu ato, que se agora se pode dizer ter sido precipitado, despertou. Aí mora o perigo, principalmente se observarmos a velocidade como andam indicações e nomeações, muitas vindas de quem a MinC cumpre apenas procedimentos de praxe e a liberação de vagas para colocar na cadeia.

Governo poderoso


Os órgãos democráticos são governados por poderes não democráticos: o poder do dinheiro
José Saramago

A caravana do atraso

Conservador é uma coisa, direita é outra, mas os males de Pindorama nunca vieram de uma nem da outra. Vieram do atraso que sustenta um pedaço do andar de cima.

Michel Temer entrou no Planalto com a bandeira da reforma da Previdência. Ela gira em torno da elevação da idade com que os brasileiros podem se aposentar. Faz sentido que ninguém vá para a conta da Viúva antes dos 65 anos. Falta explicar como ficarão as pessoas do andar de baixo que estão há décadas no sistema do INSS. Não foram eles quem quebraram a Previdência.

Foi o atraso. Michel Temer, procurador do estado de São Paulo, requereu sua aposentadoria em 1996, aos 55 anos. Desde então passou a receber R$ 9.300 mensais. Naqueles dias, o cardiologista Adib Jatene, ícone da medicina brasileira comentava: “Tenho 66 anos de idade e 38 de serviço público. Não me aposentei”. À época o deputado Temer relatava a reforma da Previdência dos outros.

O deputado Ricardo Barros, ministro da Saúde de Temer, diz que o SUS deve restringir suas atividades e aplaude a proliferação de planos privados. Ele não é freguês do SUS, mas sua campanha recebeu uma doação de R$ 100 mil da operadora de saúde privada Aliança.

Já o ministro do Desenvolvimento Social, doutor Osmar Terra, ponderou que é preciso “oportunizar” a saída de gente do Bolsa Família, e que esse cheque não pode virar “coleira política”. Tem toda razão, mas nem todo mundo é capaz de “oportunizar” um acesso à “coleira” da Odebrecht, que injetou R$ 190 mil na sua campanha eleitoral.

Como disse Temer ao justificar seu pedido de aposentadoria, tudo foi feito dentro da legalidade, pois do contrário pareceria que era um “safardana”. Nem ele, nem Barros ou Terra são safardanas. São apenas parte de um enorme e histórico processo de predominância do atraso.

Os doutores nem novidade são. O patrono do ensino de Economia no Brasil é José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu (1756-1835). Ele foi o primeiro professor de “Ciência Econômica” e propagava as ideias do escocês Adam Smith, o da “mão invisível” do mercado.

Quando foi transferido de escola, Smith ofereceu-se para devolver aos alunos o dinheiro do curso. Cairu aposentou-se aos 50 anos e nunca deu uma aula.

Desmonte e monte, desmonte



Fico olhando minha gatinha arrumando o lugar em que vai deitar. Ela apalpa, com uma pata e outra, alternando, como se macerasse uvas para produzir um bom vinho. Durante longos minutos fica ali, meio alheia, concentrada na sua atávica tarefa de arrumação, que não sei se é para esquentar ou esfriar o lugar, que nem sempre é o mesmo. Me faz pensar se nós também não vivemos por aí montando e desmontando nossas próprias camas, palavras e atos. Efeito borboleta

Ando pensativa. Acontece sempre, mas especialmente quando está para mudar de um ano para o outro, ou eu mesma mudar de ano, aumentar um número. E também na Lua cheia ou quando a vida me coloca diante de obstáculos ou decisões. Quando preciso desmontar alguma acomodação para logo montar algum caminho que chegue a outra acomodação. Igual ao solo, a terra que se amolda aos nossos pés, busco meu lugar, no espaço e tempo, para continuar crescendo. Sobrevivendo, agindo.

É uma atividade muito solitária e particular. Porque é como se entrássemos numa máquina do tempo e levados a revisitar determinados períodos, e aí aparecem alguns fatos, pessoas e decisões que moldaram o que é agora, formando um painel que você precisa primeiro estilhaçar, picotar, para formar o quebra-cabeça que quer remontar, criando um novo desenho.

Não é fácil desmontar. Nada. Principalmente nessa selva cheia de armadilhas e camas de gato da experiência humana, quando para se livrar de uma teia, cai em outra. Não é fácil desmontar a insídia que você nem ao menos conhece o teor total e criada por alguém para desconstruir e pulverizar sua imagem diante do que ama. Desmontar o ódio, o ciúme, a mentira e a ignorância que catequiza os distraídos.

Não é fácil desmontar os malfeitos e isso também, por óbvio, é pensamento que surge no delicado momento político que vivemos no país, diante dos olhos de quem quer ver, e inquietando a todos nesse prazo de dias em seis meses que passamos a percorrer. Em que tentamos sair do atoleiro e para isso temos de por correntes em rodas pouco confiáveis, mas as únicas que temos e que têm de girar, até porque não temos mais forças para sair atrás empurrando, preferindo esperar do outro lado da linha.

Os brinquedos de nossas tenras infâncias, muitos, eram de montar e desmontar. Se não eram, desmontávamos só para ver como é que tinham sido feitos, curiosos como cabe às crianças ser. O problema sempre era perder as peças, que espalhávamos, e aí não conseguir nunca mais fazer voltar ao que era, original. A solução fazer bico, olhando em busca de ajuda, ou deixar para lá, escondendo tudo, e logo nos encantando por outro brinquedo. Esse é o lado bom de ser criança. A responsabilidade relativa.

Mas não somos mais, infelizmente, petizes, e nem mais brinquedos são os fatos com os quais temos de lidar, agora sem tempo para troças.

De repente parece que ao redor não se deram conta disso, e baixou algum Erê (o espírito criança, que gosta de guaraná e bolo e se suja, se lambuza quando vem nesse plano) em pessoas que considerávamos mais sérias e maduras. Ou o que foi aquilo do prefeito de São Paulo de molecagem passando trotinho no opositor de quem não gosta, que dele fala mal? O que é que se pensa ordenando os meninos a irem para as ruas escracharem o que nem bem entendem, armados com sprays de tinta, contra armas, cassetetes e pimenta, pensando estar vivendo em cenas de HQ, ficção, algum Mad Max da Avenida Paulista? Brincando de brigar, de fazer fusquinha? Amigos atacando amigos, pessoas demonizando artistas, artistas demonizando cidadãos que, se são do bem não se sabe, mas como desinformados que certamente são acabam agindo e pensando de forma grotesca.

Como vamos desmontar esse foguete complexo?

Pergunto porque não sei respostas, nem as minhas, quanto mais as de nós todos, e muito menos as desse jogo político que lembra o rouba montes dos jogos de cartas. No momento tento só recuperar umas peças que andei perdendo, enquanto percorria outras fases dessa nossa longa história na qual os personagens principais envelhecem, mas ainda dão frutos que podem ser decisivos para começar de novo.

domingo, 22 de maio de 2016

Artistas voltam ao protesto sem explicar por que querem ministério

Possivelmente para debelar algum tipo de disputa política na Nova Iorque dos anos 30, o prefeito que virou nome de aeroporto, Fiorello LaGuardia, disse que não havia uma forma de direita ou de esquerda de varrer rua.

— Existe a forma correta.

Também não sei se existe uma forma de direita ou de esquerda, conservadora ou progressista, de estruturar um organismo público de preservação e fomento dos bens culturais do país.

Deve existir uma forma correta.

De que tamanho? Com que objetivo? Quais seus limites? Secretaria enxuta de definição de políticas ou Ministério super estruturado para atender demandas da indústria do entretenimento?

O problema é que não parece haver ninguém habilitado a responder, a começar pelos artistas. Como na frase famosa de que guerra é assunto muito sério para ser entregue a generais, parece que a discussão sobre as dimensões de um órgão como esse é assunto muito sério para ser entregue a artistas.

Porque não vi uma argumentação convincente em toda a polêmica que se arma nas invasões e nas redes sociais contra a transformação do Ministério numa pasta vinculada ao Ministério da Educação, como foi até 1985.

A defesa de figurões respeitáveis como Marieta Severo, Fernanda Montenegro ou Caetano Veloso não passa de chavões, tenta luta política para desqualificar o governo que julgam ilegítimo ou, num maior esforço de argumento, que se trata de um retrocesso à data em que foi criado, há 30 anos.

Ora, por esse raciocínio, o que foi criado não pode ser extinto e basta uma existência para justificar uma continuidade, mesmo que não sobrevivam mais os motivos que gerou. Mesmo que funcione mal, seja deturpado ou, como parece ser o caso, mal se sabe explicar para que serve.
Políticas públicas

Não tenho dúvidas de que é necessário uma estrutura de serviço público para garantir a preservação do patrimônio histórico e artístico — museus, monumentos, bens imateriais — e estruturar planos e projetos de estímulo à produção de entretenimento cultural, da mesma forma que existe para estimular a produção de soja, roupas e máquinas.

Quando trabalhei na Secretaria de Estado da Cultura, entre 1985 e 87, uma diretora de planejamento muito brilhante horrorizou a classe artística ao defender que o Estado deveria pensar estruturalmente sobre suas prioridades de fomento na área de cultura da mesma forma que as definia para estimular a produção de leite, carne e minério de ferro.

Queria dizer que o Estado não poderia ficar refém das demandas dos que tinham acesso ao balcão da Secretaria para conseguir patrocínio a seus projetos. Um clientelismo tal e qual o dos fazendeiros que tomam dinheiro do Banco do Brasil, pulveriza os recursos e prejudica o investimento numa política de investimento de fato abrangente e democrática.

Como no caso do BNDES nos anos Lula e Dilma: ao invés de o Estado definir em que áreas convém investir — tecnologia, infra-estrutura ou turismo —, fica apagando incêndios localizados para atender demandas de balcão.

O atendimento por demanda e não políticas de Estado cria distorções como a do excesso de filmes produzidos ou espaços construídos sem público.

(Por um bom tempo no início dos 2.000, 1/3 dos filmes financiados com verba pública não conseguiram exibição, como se o ministro da Educação jogasse pela janela 1/3 da verba de merenda escolar. Por conta do lobby pesado da indústria cultural, Belo Horizonte ganhou nos últimos anos quase um dezena de grandes teatros e centros culturais para os quais não há suficiente demanda, nem de espetáculos de qualidade e nem público, na mesma área nobre onde há décadas se pede por um posto de saúde ou uma delegacia de polícia decentes.)

Nessa linha, considerando a atividade cultural um ramo da produção tão importante como a de laranja, carne processada ou software, ela poderia estar, quem sabe?, no Ministério da Indústria e do Comércio. Seus bens culturais abertos à visitação pública, como igrejas, parques e museus, poderiam estar num Ministério mais agressivo como o do Turismo, por exemplo.

Considerando que seja destinado a apenas definir as grandes políticas que estimulem o setor — Precisamos de teatros? Precisamos normatizar o financiamento? Precisamos criar incentivos à aquisição de obras de arte ou a produção de filmes e peças de teatro? —, uma Secretaria enxuta deve bastar.

Considerando que tenha que ser um grande balcão para atender demandas de todos os dias dos artistas que vão carimbar seus projetos para conseguir patrocínio por renúncia fiscal, qual o tamanho necessário? Há que ter uma representação em cada estado para os produtores não terem que viajar a Brasília beijar a mão do ministro?

Considerando que tenha que ser um Ministério autônomo mesmo, super estruturado, para quê, fora isso? Quais as vantagens?

Só imagino uma que ninguém disse e minha experiência na área pública me ensinou: numa estrutura autônoma, diretamente vinculada ao topo do comando da administração, o presidente da República no caso, facilita tudo.

É crucial para convencer e sentir o real interesse do comando central a suas políticas. Numa Secretaria, teria que convencer em pelo menos uma instância a mais, um ministro nem sempre tão afinado com os propósitos da área.
Ruptura a governos, qualquer governo

Toda a polêmica, se não serviu para esclarecer nada, restaurou um velho bem imaterial do país que é a velha oposição dos artistas a todo tipo de governo, qualquer governo.

Artistas sempre foram, por natureza, agentes de ruptura, de denúncia do status quo, de usar seu imenso poder de comunicação para mostrar que o rei está nu. Para o bem ou para o mal, nunca foram as pessoas mais indicadas para cuidar de números, gestão, burocracia. Têm por natureza d’alma certo desprezo pelo apego a bens materiais e acumulação de riqueza.

Seu espaço é o da praça pública, ir aonde o povo está, para falar em seu nome contra qualquer tipo de opressão e controle.

Ser de liberdade, nada mais avesso à alma de artista do que o comando.

Só mesmo nos governos Lula e Dilma, por um desses cataclismas que acontecem no espaço de gerações ou no realinhamento de planetas, é que eles aderiram e defenderam tudo o que o partido do governo defende, a ponto de inovar na assinatura de manifestos a favor.

Para o bem ou para o mal, a decisão do presidente Michel Temer de extinguir o Ministério devolveu-os ao lugar de onde nunca deveriam ter saído.

Voltamos à normalidade.

Dias de pequenez

Derrotas políticas nunca são boas, por mais esforço que haja nas tentativas de encontrar palavras de consolo ─ é comum ouvir que o personagem derrotado “caiu de pé”, por exemplo, ou que saiu “engrandecido”, ou que a sua derrota teve “sabor de vitória”, como se diz em jogos de futebol. Mas sempre é possível, no momento do fracasso, tornar as coisas ainda piores do que já são naturalmente. É o que está acontecendo com a presidente Dilma Rousseff, colocada na reta final da sua deposição pelas últimas decisões do Senado Federal no julgamento do impeachment. Depois de passar um ano inteiro, pelo menos, fazendo tudo o que podia para perder o cargo, ela faz agora tudo o que pode para liquidar qualquer possibilidade de simpatia em seu favor. Pôs para si própria o objetivo de apresentar-se como vítima; só consegue na prática, e cada vez mais, aparecer como uma perdedora mal-humorada, agressiva e carregada de rancor, despeito e soberba. Num dos momentos mais extraordinários na história moderna do país, transformou sua desgraça pública em espetáculo de pequenez.

Tudo de que Dilma precisa para manter-se na presidência da República é conseguir, nestes próximos 180 dias de suspensão do seu mandato, que 28 senadores não votem por sua condenação nos crimes de fraude contábil dos quais é acusada. São apenas 28 votos num total de 81, meta que até algum tempo atrás parecia coisa bem fácil ─ será que não arruma nem isso? Mas, por mais que a aritmética comum esteja do seu lado, ela agiu com tanta tenacidade pela própria destruição que o punhado de votos necessários à sua salvação se tornou uma soma imensa, que exige portentos de natureza desconhecida para ser alcançada hoje. A ópera não acaba até a senhora gorda cantar, diz a expressão coloquial criada nos tempos em que era permitida a presença nos palcos de sopranos com excesso de peso. O impeachment também não; só acabará na hora em que o plenário do Senado fizer a votação final. Mas ninguém é capaz nem sequer de imaginar que tipo de governo seria possível com Dilma de volta ao Palácio do Planalto ─ não numa situação em que a presidente da República tem contra si algo como 75% do Congresso, para não falar da população, o presidente da Câmara foi cassado da função, seu sucessor legal é uma nulidade encurralada pela Justiça penal e o presidente do Senado tem contra si uma cordilheira de doze inquéritos.

Seja como for, a derrota já contratada para o futuro próximo vai virando, pela atuação direta de Dilma, um drama de circo com qualidade cada dia mais baixa. Dilma culpa o impeachment pelo desemprego de 11 milhões de brasileiros arruinados pela recessão que o seu governo criou de 2014 para cá. Inventa acusações desligadas de qualquer fato real ─ como a de que o seu sucessor vai “cortar” o Bolsa Família de “36 milhões” de pessoas. Na última avaliação internacional do Brasil antes de ser afastada da presidência, foi humilhada com mais um rebaixamento de nota. A poucas horas da suspensão do seu mandato, ainda tentava armar chicanas para segurar o cargo ─ incluindo uma prodigiosa tentativa de anular a votação de 367 deputados que autorizou o Senado a julgar o impeachment. Fracassou, frequentemente sob um coro de risos, piadas e vaias, em tudo o que tentou. Queria aparecer como uma mulher de “coração valente”; conseguiu ser apenas incompreensível, e todo o seu esforço para aparentar resistência acabou reduzido a uma exibição miúda de neurastenia, insignificância e irresponsabilidade teimosa. Onde teria ido parar a gravidade dramática que pode dar, às vezes, um verniz de fato histórico sério a derrotas como essa? Não apareceu. Não vai aparecer.

Dilma Rousseff não é ajudada pelo fato de que não precisou, em nenhum momento desses episódios, praticar algum ato de coragem. Não é uma versão de Salvador Allende, de capacete, colete à prova de balas e metralhadora na mão, resistindo no Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile ─ não há ninguém atirando nela do lado de fora. Não precisou, como Perón na Argentina, refugiar-se numa canhoneira paraguaia para escapar à prisão ─ não há nenhuma tropa armada atrás de Dilma. Vai para os confortos do Palácio da Alvorada, onde viverá o futuro próximo com sustento garantido pelo Erário, cercada de advogados e livre para ir aonde bem entender. O futuro de presidentes em via de deposição, na América Latina de hoje, positivamente não é mais o que costumava ser. Melhor para ela e para todos, é claro.

O que será de Lula?

A análise de viabilidade política é uma complexa equação que abriga um conjunto de fatores, entre os quais o vetor de peso de cada protagonista envolvido com fatos e situações; as circunstâncias que balizam os acontecimentos; as expectativas e demandas da sociedade.

Não é fácil, pois, projetar o que pode acontecer amanhã, particularmente na política, uma esfera que muda tão rapidamente como as nuvens, conforme já dizia o mineiro Magalhães Pinto. Mesmo assim, é razoável apostar em rumos, tendências, possibilidades, a partir do que se vê, se ouve e se sente.


A Operação Lava Jato, por exemplo, vai até onde? Ela poderá refluir? Em outras palavras, haveria força capaz de deter a continuidade das ações que se processam na “República de Curitiba”?

A análise dessa hipótese, sob o prisma da metodologia da análise política, aponta para a irreversibilidade do processo. O vetor-patrimônio administrado pelo juiz Sérgio Moro, aliado ao vetor-momento, sinaliza que a Lava Jato ganhou vida própria, navegando no piloto automático, sendo praticamente impossível deter sua trajetória.

À guisa de esclarecimento: o vetor-patrimônio, na concepção de Carlos Matus, cientista social chileno, é o ativo político de um ator, a força acumulada por ele. Moro é hoje um dos perfis mais admirados dos brasileiros. Detém um dos mais completos patrimônios morais do pais.

Já o vetor-momento abriga o tempero das circunstâncias e estas, por sua vez, embutem expectativas da sociedade organizada. O Juiz de Curitiba, como é sabido, conta com o endosso social às tarefas que lhe cabem na Operação Lava Jato. Por isso, a dedução fica fácil: seu empreendimento correrá por um bom tempo nas cercanias da política e dos negócios efetuados nos vãos e desvãos do Estado.

Aceita tal hipótese, entremos, agora, num segundo plano de análise. Onde o juiz Sérgio Moro quer chegar? Quem conhece os caminhos da Operação Mani Puliti, ocorrida na Itália e iniciada em fevereiro de 1992 (2.993 mandados de prisão, 6.059 pessoas investigadas, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, entre os quais quatro ex-primeiros-ministros), sabe que, ao farejar o caminho do dinheiro, ele quer chegar ao comandante da Operação.

Agora, um dado relevante: a recente decisão do juiz de Curitiba, ao condenar o ex-todo poderoso Chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, a 23 anos de prisão, mostra uma pista. A mais longa pena conferida no bojo da Lava Jato encerrará a vida pública do ex-presidente do PT. Mas o que chama a atenção é o fato de o juiz não reconhecer Dirceu “como o comandante do grupo criminoso, pelo menos considerando-o em toda a sua integralidade (empresários, intermediários, agentes públicos e políticos)...”

Dessa consideração, surge a pergunta: se ele não foi o comandante da Operação, quem seria? Nesse ponto, a análise de viabilidade sugere puxar outros veios que formam a cadeia situacional. Entra em cena, agora, a denúncia feita no STF pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, atribuindo ao ex-presidente Lula “papel central” na trama para tentar barrar a Lava Jato. Disse ele: “o ex-presidente impediu e/embaraçou investigação que envolve organização criminosa”. Lula teria, desse modo, determinado a ação delituosa referente à obstrução à Justiça, envolvendo Nestor Cerveró (plano de fuga e ajuda de custo para a família do ex-diretor da Petrobras).

Ganha fôlego, mais uma vez, o nome do ex-presidente Luiz Inácio. Que teria ele a ver com as situações criminosas que começaram com o mensalão e chegaram até os dutos do petrolão? Seria o alvo de Sérgio Moro, no entendimento de que o juiz de Curitiba conserva a clara determinação de identificar a origem e a inspiração dos escândalos que se sucedem às margens do Estado?

A postura do magistrado pauta-se pela cautela. Afinal, Lula é o último dos políticos carismáticos. E mesmo reconhecendo que seu vetor-patrimônio foi corroído pela rede de corrupção escancaradamente estendida na era PT, Luiz Inácio ainda detém razoável bagagem de aplausos e aceitação das massas. Hoje, essa taxa pode ser medida pelos 20% de votos detectados por pesquisas. Coisa que pode diminuir ou aumentar nos próximos tempos, a depender da performance dos atores políticos (Congresso Nacional) e do presidente em exercício, Michel Temer.

Se a economia exibir sinais de recuperação, com a consequente aprovação das margens sociais e do centro às políticas e programas do novo governo, a possibilidade de revermos o palanqueiro petista voltar a brilhar no cenário é remota. A recíproca é verdadeira.

O juiz Sérgio Moro, mesmo agindo sob rigor técnico-jurídico, estará atento a tais alternativas, eis que tem demonstrado ser um exímio analista de momentos e circunstâncias. Haveria enorme diferença entre a detenção de um Lula desprestigiado e a prisão de um líder ainda aclamado pelas margens.

O fator tempo, pois, se faz presente na lista da Lava Jato. Paciência é o que não falta ao rigoroso magistrado. Ele é o ícone do espírito cívico que impregna a Nação. Sabe que contará com os entusiasmados aplausos da comunidade nacional.

Em suma, se José Dirceu não foi o comandante das ações criminosas que abocanharam parcela ponderável dos recursos do país e se Lula acaba de entrar na lista principal do procurador Janot como o agente que teria tentado obstruir a Justiça, a inferência se escancara: ele está, sim, na cartela de suspeitos afixada pela equipe do MP e do Judiciário de 1ª. instância. O desenlace poderá, até, ser bem mais adiante. Não se pense que ficará sob o tapete.
Moro aguarda o momento adequado para chegar ao homem certo. Muito difícil acreditar que a Operação que comanda seja encerrada sem apontar o grande responsável pela roubalheira. Figuras sairão das sombras. Convém, porém, lembrar que na política tudo é possível. Até a ressurreição de um desacreditado “Salvador da Pátria”.

O imprevisível acontece. No caso de Lula, toda a descrença deste analista.

O prazo de Temer

Os partidos geralmente deixam de apresentar e fundamentar programas, ficam nas promessas mirabolantes e, como mágicos, tiram coelhos da cartola.

Mais que mostrar como darão meios de emancipação ao indivíduo, deixando-o soberano de seu destino, enfiam-lhe na cabeça que poderá ficar abrigado debaixo de um paternal sistema público, com pés de barro e cabeça de chumbo.

Promete-se acesso a uma boa educação e ao emprego, sem explicar como se realizarão as façanhas, entregando a obra a pessoas desqualificadas e incompetentes.


Realidade é que o “mágico”, ao alcançar o comando, adota a fórmula de Nero, “panis et circenses”. Quer dizer, “cestas” para matar a fome e “festas no circo”. Copas, Olimpíadas, turnê em palanques. Isso antes de Roma pegar fogo.

Cestas e festas servem unicamente à manutenção de um curral eleitoral para dele cobrar fidelidade a fim de continuar nos palácios.

Para tanto, precisa do confinamento intelectual e social e, mais ainda, de acentuar o sentimento de divisões de toda ordem e de injustiças que o demagogo saberá evitar.

“Nós contra eles”, “bem contra o mal”, sem entender ao certo quem é esse “nós” ou onde reside o “bem”.

Na dança da desinformação, os indivíduos viram presas do populismo, de direita ou de esquerda, em nada muda o quadro.

O “projeto de poder” dura até cair por sua fragilidade e defeitos estruturais.

Provavelmente, o novo governo de Temer não é moralmente mais qualificado que outros, tem elementos que ocupam as mesmas cadeiras que Dilma lhe deu e sérias denúncias de maltrato da coisa pública.

Mas, ao contrário de governos legitimados pelas urnas, este não vai poder se dedicar caninamente ao “projeto de poder” de um grupo. Deverá olhar mais para o bem da pátria do que para seu projeto.

A precariedade e a indefinição da autoridade de Temer levam a usar cada minuto que lhe foi dado pelo destino para procurar avanços e soluções reais.

“Condenado” está a dar resultados, depois poderá pensar o resto.

Como Itamar Franco, que subiu pelo elevador dos fundos com a queda do então presidente Fernando Collor, Michel Temer tem “uma” oportunidade. Esta, ainda mais frágil que a de 1993, sob ameaça de Dilma voltar.

Certamente, Michel está com pouca margem de ação e uma confiança dramaticamente perecível.

Ou provoca uma retomada econômica consistente, e mais empregos, ou dará possibilidade de retornar à “afastada”. Bem por conta dessa ameaça sofrerá a mais determinada oposição e uma onda desta para, quanto pior, ótimo será para Dilma.

A missão quase impossível é dar resultado palpável antes de 18 de agosto, início da campanha eleitoral, quando os candidatos em palanques se apresentarão associando-se a sucessos ou malhando os fracos resultados de Temer.

O rombo herdado exige necessariamente um enorme esforço para preencher a cratera e nela plantar boas sementes de ciclo rápido, quase imediato.

Temer, como afirmou em seu primeiro discurso, deverá trabalhar dia e noite, sábados e domingos, e afinar uma equipe que, além de competente, tenha disposição ao sacrifício de uma missão em terreno revolto.

Torcer contra Temer seria torcer para que a desgraça que desabou sobre o Brasil se ampliasse. Certamente, não é o sentimento que prevalece na nação que espera e torce por uma saída da crise.

Esse é o sentimento do momento. Apoio ao timoneiro que tem a tarefa de tirar o barco da tempestade.

Muitos foram para a cultura sem terem passado pela educação

Nunca se falou e se escreveu tanto sobre cultura em nosso país. Até parece que saímos de um recital de canto para um concerto e daí para o teatro. Afinal, o governo Temer decidiu fundir num único MEC os ministérios até agora existentes para cuidar dessas duas áreas de ação governamental. O motivo da gritaria não é propriamente a fusão, mas o receio de que a Cultura, perdendo status de ministério, perca, também, parte da grana que paga o caviar dos companheiros do meio artístico, sempre prontos para assinar manifestos e notas de apoio ao PT. Contra a fusão das duas pastas, ergueu-se multidão de artistas, gerando protestos políticos de repercussão. Entende-se: muitos foram para a Cultura sem terem passado pela Educação.

Não deveria ser necessária uma crise fiscal mastodôntica como esta a que fomos conduzidos pela irresponsabilidade do governo afastado para que os gestores públicos fossem parcimoniosos, zelosos e criteriosos na concessão de incentivos fiscais. Incentivos fiscais são recursos provenientes de impostos que todos pagamos e que, sob certos parâmetros legais, são fatiados do bolo para atender demandas específicas. Entre elas, as originárias no mundo da cultura. É aí que as manipulações políticas começam a produzir seus inevitáveis absurdos. 

Há poucos dias, o Coral das Meninas de Petrópolis encerrou suas atividades após 40 anos, por falta de patrocínio. Mas na outra ponta da elite "cultural" brasileira, Luan Santana levou R$ 4 milhões para "democratizar a cultura" numa turnê em diversas cidades do país, Claudia Leite pegou um troco de R$ 1,2 milhão para o mesmo fim, Maria Bethânia coletou R$ 1,3 milhão para um blog de poesia, uma turnê da peça Shrek foi autorizada a captar quase 18 milhões. E por aí vai a lista. E por aí vão nossos milhões que poderiam estar destinados a atividades de maior interesse público, nas funções essenciais do Estado.

Sim, é verdade que a arte precisa de mecenas. Mas essa afirmação envolve a combinação de dois elementos: o mecenas com seu dinheiro e o artista com sua arte. Falo de mecenas que o sejam com recursos próprios e de arte que mereça o nome. No entanto, o que temos no Brasil é um mecenato com recursos do erário, subsidiando projetos de qualidade e utilidade mais do que duvidosa, repassando vultosas quantias a quem não precisa. Não estou propondo a extinção das leis de incentivo à cultura. Estou dizendo que a urgência é outra. Precisamos criar no Brasil um ambiente que valorize o bem e o belo, o saber e a verdade, mas tudo isso parece muito improvável com a atual distribuição dos recursos para a produção cultural e artística e com as hegemonias que, há muito, se instalaram no mundo da Educação e da Política.

Percival Puggina

Aperte o cinto, você está aterrissando no Brasil

Um campo minado ou areias movediças, escolha sua metáfora para o cenário escolhido por Michel Temer para aterrissar os brasileiros depois que sua equipe sobrevoou por sete dias as ruínas herdadas de Dilma Rousseff. Um pouso forçado num Brasil com aparência de sumidouro talvez seja a descrição mais adequada para o que está acontecendo.

Na segunda semana do seu governo provisório, Temer apresentará o resultado do inventário preparado por sua equipe. Juntará casos de barbeiragem administrativa, irregularidades e insinuações de sabotagem para pintar um quadro caótico. Depois de diagnosticar todas as culpas ao governo de Dilma, Temer dirá que, para que o país saia do caos, será necessário aumentar a dose do purgante.


Nesta sexta-feira, os ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Romero Jucá (Planejamento) prepararam o pouso. Saímos de uma meta de superávit de R$ 24 bilhões para 2016, que Dilma já havia pedido ao Congresso que convertesse num buraco de R$ 96,7 bilhões. E chegamos numa cratera que, depois de estimar em até R$ 200 bilhões, a turma de Temer fechou em R$ 170,5 bilhões —um buracaço.

Jucá criticou o vaivém que marcou a gestão Dilma, conhecida por divulgar metas que não se cumpriam. “A postura deste governo será diferente”, disse o novo titular do Planejamento. “A meta fiscal não é novela para ser feita em capítulos. Vamos trabalhar para fazer com que os números ganhem confiança. A visão deste governo é diferente do outro exatamente porque não estamos escamoteando a verdade.”

Meirelles ecoou Jucá. A meta “é trasparente e realista”, disse. “A mensagem fundamental é essa. É uma meta realista e estimada dentro de critérios rigorosos —o mais próximo possível do estimado hoje pelo mercado. Ela é feita com parâmetros realistas e próximos a parâmetros de mercado”, acrescentou Meirelles, antes de enumerar os imprevistos que podem conspurcar o realismo da nova meta.

Nas palavras de Meirelles, os novos cálculos incluem itens com “margem grande de incerteza”. Ele citou, “por exemplo, a questão da regularização de capitais do exterior. Existem determinadas provisões sobre o que será arrecadado com isso. Existe a renegociação da dívida dos Estados, o pagamento de passivos e despesas. Existe uma série de previsões que estão consolidadas nessa meta.”

Quer dizer: os economistas do novo governo tomam as decisões que precisam tomar, apertam os botões que têm que ser apertados e depois são obrigados a esperar para ver como reagirão esses seres terríveis e imprevisíveis que são as pessoas.

Quantos brasileiros se animarão a repatriar o dinheiro de sonegação escondido em contas abertas no estrangeiro? Os governadores de Estados endividados vão cooperar? São tantas as variáveis que condicionam o resultado da equação que a economia fica parecendo uma forma de bruxaria.

De certo mesmo, por ora, só os 11 milhões de desempregados, o PIB de 2016 apontando para nova queda nos arredores dos 4%, a inflação renitente e a perspectiva de mais sacrifícios. Alguém precisa pensar nas mães e nos pais que sobreviverem ao pouso forçado no sumidouro. Eles têm cada vez menos exemplos para dar aos filhos. “Não minta, meu filho, não minta. Olha que você acaba trabalhando no Palácio do Planalto.”

O diabo e a política


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Naquela aldeia, todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.

Pouco adiante, já fora dos muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na maior sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.

O frade ficou admirado:

"O que está fazendo aí, nessa boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua, assim eu pensava até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de Diabo, você é um vagabundo!".

Sem pressa, acabando de tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:

"Para quê? Eu trabalho desde o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a transparência, é um pega-pra-capar generalizado. Eu estava sobrando, não precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem".
Jogou o coco fora e botou um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:

"Quando entra a política, eu dou o fora, não precisam mais de mim".
Carlos Heitor Cony