domingo, 6 de março de 2016

Velho infrator

Septuagenário, Lula, após ter sido convidado a prestar depoimento na Polícia Federal, foi levado ao aeroporto de Congonhas , e lá ficou por três horas. Ao sair, parecia um desses jovens infratores que, encaminhados às delegacias especializadas e, na certeza de que serão libertados , surgem nas televisões, com imagem distorcidas e vozes digitais, falando besteiras, afrontando policiais, xingando repórteres e proclamando que são "dimenor".

O líder dos enfurecidos companheiros, comportando-se como incentivador de badernas e violência, usando a sua emissora privada, prometeu colocar seus ilegais guerreiros nas ruas para exigir respeito e privilégios.

DESCOBRIRAM PAI DA FACCAO LULA SUSTO DILMA VE TV SOFA E O GIBSON NOVELA REGRA DO JOGO

Sendo "dimaior", o ex-presidente, com a colaboração de vídeo postado nas redes sociais pela "aliada Jandira Feghali", fala ao telefone com a ameaçada sucessora, e diz que podem enfiar, no orifício anal - para não ser chulo como o ex-presidente - os processos contra ele. Lula, que já havia feito discurso midiático, debochando da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça e da maioria do povo brasileiro, com a divulgação do vídeo de Jandira confirmou a sua fama de debochado e desbocado.

É inacreditável que tenhamos sido governado, por tantos anos, por uma pessoa que incita a violência, destrata interlocutores, desafia a mídia, além de preferir bebidas fortes a vinhos refinados, apesar de possuir adega climatizada em um sítio emprestado de um amigo.

A fama de apreciador contumaz de cachaça, Lula deve ter tomado uns tragos antes de proferir o seu discurso. Olhos empapuçados, cabelos ralos e desgrenhados, voz rouca vinda da garganta sofrida, o ex-presidente encontrou o palanque que ,a tempos, buscava e vociferou ameaças aos ventos.

Em um momento terrível para o Brasil, Lula deveria se espelhar no africano Nélson Mandela que, após vinte e sete anos de injusta prisão, pregou a paz e o perdão aos seus concidadãos. A preferência do assustado conduzido depoente pela África, governada por ditadores, aclara o interesse de investir fortunas naquelas paragens. Deve ser este o ideal do político decadente: governar o país sem oposição, sem democracia e sem justiça para todos.

Lula sabe que os seus dias de liberdade estão por um fio e, desesperadamente, retoma as rédeas do seu séquito e pretende sair às ruas do país, cobrando dos mais pobres a dívida por ter proporcionado a eles melhores condições de vida. Esses cidadãos não devem nada ao ex-presidente, ao contrário, todos governantes devem proteger os carentes, desde que não coloquem uma parte dos recursos em seus bolsos através de artifícios.

A derrocada da maioria dos nossos políticos é a verdadeira prova dos desmandos causados por corruptos e incompetentes. As investigações que desmancham as maravilhas do Brasil líder mundial já levaram à condenação e prisão homens de confiança de Lula e, agora, se aproximam, implacavelmente, ao governo da presidente Dilma.

Deve ser duro para uma menina que sonhava, erroneamente, implantar uma sociedade mais justa, estar atolada no lamaçal arrasador que destruiu não uma represa, mas, uma nação.

Dilma, que também é "dimaior", mas não tem os privilégios dos septuagenários, deveria se afastar das más companhias para não ser convidada, ao amanhecer, antes sair nas constantes pedaladas, a depor no processo da Lava-Jato perante ministros do Supremo Tribunal Federal.

O número 13

O número 13, associado ao dia de sexta-feira, ganhou fama de maldito por via da conjuração contra a Ordem dos Templários, formada por cavaleiros que se intitulavam depositários do tesouro do rei Salomão, do Santo Gral, cálice que recolheu o sangue de Cristo, e da chave da sabedoria antiga.

Essa ordem celibatária, composta de monges guerreiros cristãos, pelas regras severas no limite do desprezo da dor física que adotavam, se transformou numa força transnacional poderosa como nenhuma outra. Seus adeptos tinham na ilha de Malta e em Rodes seus centros e bases de apoio, construídos na época das cruzadas para reconquistar Jerusalém e o Santo Sepulcro. Ainda hoje em Rodes existe o castelo da ordem, transformado em museu, que guarda a história e os brasões dos grandes mestres templários.

A ordem foi fundada em Jerusalém, em 1118, por oito cavaleiros (daí a lenda da Mesa Redonda) e passou em seguida a herdar de seus membros, que provinham de famílias abastadas da Europa, verdadeiras fortunas.

O tesouro da ordem também contava com o butim das conquistas em terras de infiéis. A riqueza deu origem a uma espécie de Banco Central do mundo ocidental, com sedes por todo lado e controle do mar Mediterrâneo. Os pagamentos e financiamentos passaram a ser apanágio da ordem. Poder acima do poder, maior que das endividadas famílias reais (dinastias merovíngias) da Europa; assim, a ordem, depois de dois séculos de expansão, trombou, no início do século XIV, com o rei da França, Felipe IV, o Belo.

Com o prestígio minguando e para restaurar o domínio em grande parte cedido aos templários banqueiros (e dar, assim, um calote na ordem), as realezas europeias, orquestradas por Felipe IV, pelo fraco papa Clemente V e por Guilherme de Nogaret (mentor da trama), fizeram chegar, bem em cima da hora, a mesma “ordem” escrita para prender, em qualquer país, e matar, na primeira hora de sexta-feira de 13 de outubro de 1307, os templários. Deu-se assim um extermínio no mundo ocidental já nas primeiras horas da sexta maldita. O plano, salvo algumas exceções, correu à risca; o grande mestre da ordem Jacques de Molay foi rendido e preso.

Depois de sete anos de masmorra, Jacques de Molay foi executado ardendo no fogo no dia 14 de março de 1314. Assim que a fogueira foi atiçada, ele teria desferido uma maldição aos inimigos pedindo que no mesmo ano todos fossem levados ao inferno sofrendo horrores.

Coincidência ou não, o papa Clemente V expirou em 20 de abril por doença intestinal; Felipe, apesar de Belo, caiu do cavalo, e um javali o rasgou, arrastando suas entranhas, em 29 de novembro; e Nogaret encontrou seu fim, por doença, exatamente no dia 31 de dezembro de 1314.

Os templários que escaparam da conspiração se organizaram em seitas, deixando de ser guerreiros e continuando a se vangloriar de depositários do Santo Gral e de outras façanhas do rei Salomão. Teriam originado a Ordem dos Cavaleiros de Malta, dos rosa-cruzes, dos Illuminati di Baviera, que até hoje emergem hora ou outra como manobristas da ordem mundial.

O número 13 ficou na história e na superstição; mesmo sem ser associado à sexta-feira, restou como número de má sorte, mas, para alguns, o número seria o contrário, de sorte. Ainda contra ele pesa o número de participantes da Santa Ceia, 12 apóstolos e o Mestre.

Ao se escolher o 13, se enfrenta sempre o dilema, hamletiano: bom ou ruim? Em alguns países o número 13 foi varrido como andar de prédios, como número de rua, e, se numa mesa sentam-se 13, mais um tem que ser chamado.

O próximo dia 13 será um dia decisivo para medir a capacidade de enfrentar a onda do impeachment, que depois de um recuo volta com força, aumentada pela recessão e pelo desemprego, a bater às portas do Planalto.

Lula, acossado como nunca, desceu do trono da popularidade e disputa agora o papel que lhe resta, de mito, para não passar por aquele de vilão. Sairá destruído ou fortalecido.

Resta o fato de que no Brasil a produção em qualquer setor (exceção para a agricultura) vem despencando verticalmente, fazendo empresas fecharem as portas, despejando multidões de desempregados. O governo enfrenta uma rejeição nunca registrada antes.

No horizonte e no Planalto não se enxerga algo que possa servir de freio à queda livre, e, sobretudo, dar sinal de controlar a confusão instalada na política e na economia, devastando as esperanças no Brasil e o conceito lá fora.

O Brasil precisa deixar para trás a insegurança, tem o dever de crescer, desenvolver, dar soluções às demandas de 200 milhões de brasileiros.

Novos tempos

Os poderosos perderam o medo de serem chamados de ladrões. É uma desfaçatez
José María Guelbenzu, em O poderoso quer tudo, recém lançado na Espanha 

Preso por excesso de honestidade

O mais honrado e honesto brasileiro foi levado nesta sexta-feira por condução coercitiva a prestar depoimento na Polícia Federal por excesso de honestidade e de honradez? Foi o que Lula passou em sua conclamação à militância, hoje tão minguada que só lota ônibus com bolsa mortadela.

O ex-presidente sentiu o golpe de entrar no camburão da PF.

Não é a mesma coisa quando o pelego entrava no camburão da Polícia, nos tempos da ditadura, seguindo para o DOPS. Era então livre e íntimo que mais parecia integrante policial do que passageiro em ação coercitiva.

Era apenas líder sindical, lutando por interesses dos trabalhadores, mas na manhã dessa sexta-feira era um ex-presidente que deve se explicar sobre a promiscuidade entre o público e o privado. O Pai dos Pobres, beneficiário das zelites empresariais, não se explicou publicamente ainda. Fez apenas o que sempre faz: balançou a pança e convocou as massas, hoje magérrimas. Dá uma de pobre, que não é mais, esnjando os prêmios da Bolsa-Família que lhe rendeu os favores de inexplicáveis milhões.

Fez o velho discurso do pobre que subiu na vida como é do gosto petista. Da mesma forma, muitos companheiros conseguiram "emprego" e fizeram "carreira" de ex-pobres semi-analfabetos a novos ricos alfabetizados na cartilha petista. 
 
O super ex, que desafia a justiça e menospreza a polícia, ainda se achando com foro de imunidade, se desmontou. Sente que não está apenas na mira, mas nas mãos da Polícia Federal da qual sempre correu. Não tem mais aqueles companheiros aguerridos, hoje presos, esquecidos propositalmente pr ele, a fim de não se sujar. Traição, que é um traço no seu carreirismo, bem sabem os abandonados pelos caminho pelo honesto santo.

Resta carregar com a família o peso criminoso dos presentes das zelites empresariais a quem ataca só de boca pra fora, porque dentro dos bolsos sempre cabe mais um dindim. . 

Perda de consciência antes da guilhotina

São clássicos dois fenômenos de ciência política ocorrendo hoje no Brasil. O primeiro é a alienação cega dos governantes em relação ao quadro real dos momentos históricos decisivos pré-ruptura institucional. O segundo é o retardo dos atores das forças políticas em assimilar e se sintonizar com o clamor popular, ocasionando a ruptura.

Quanto ao primeiro, a passagem mais emblemática é a atribuída a Maria Antonieta reagindo ao clamor da plebe por pão. Teria sugerido brioches, a sério. Resultado: foi decapitada por uma engenhoca engendrada por um médico, um certo Doutor Guillotin na Revolução Burguesa de Paris. Alegava o doutor que o seccionamento abrupto da medula espinhal logo abaixo do bulbo cerebral evitava o sofrimento dos enforcados, pois a perda da consciência era imediata. Enganava-se o doutor.A perda da consciência dos decapitados já se dera no exercício do poder.


Hoje já se sabe que L'Autrichienne (a austríaca) ou L'Autre-chienne (a outra cadela), como era apelidada raivosamente pelo povo a última rainha da França, jamais proferiu tal frase sobre os brioches. Mas era notória a sua alienação e distanciamento das agruras populares num gueto palaciano em saraus operísticos, enquanto os miseráveis proliferavam à sua volta e a burguesia se armava para derrubar a monarquia.

Outro exemplo clássico do mesmo fenômeno dessa alienação cega é o episódio histórico do Baile da Ilha Fiscal. A monarquia já caíra de fato, e seus ocupantes bailavam.

O baile, às margens da Baía da Guanabara, se realizou a exatos seis dias da Proclamação da República. Oficialmente, era para homenagear a tripulação de um navio chileno, o Almirante Cochrane, que se encontrava fundeado em águas brasileiras.

Mas o Visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho de Ministros, aproveitou para saudar pomposamente as bodas de prata da Princesa Isabel com o Conde D’Eu, gastando na festança o equivalente a 10% do orçamento da província fluminense, retirados da verba do Ministério da Viação e Obras para socorro das vítimas do flagelo da seca nordestina.

Enquanto isso, no Clube Militar, em terra firme, Benjamin Constant exortava os militares a derrubar a monarquia. Há outros exemplos. Mas esses dois já nos bastam. Qualquer semelhança com as falas reformistas, espúrias barganhas ministeriais, viagens internacionais, discursos na ONU e passeios de bicicleta da nossa “presidenta” é mera coincidência.

O segundo fenômeno é o delay técnico entre a ação parlamentar em se sintonizar adequadamente com o brado retumbante das ruas, apesar de todas as evidências, hoje potencializado pelos resultados das pesquisas de opinião, pelo próprio noticiário das televisões e da intensa mobilização pela internet no Brasil.

São inúmeros os exemplos históricos, sendo o mais significativo o episódio da República de Weimar. Governava-se um país em fermentação xenófoba e nacionalista com as massas se organizando militarmente em torno das propostas de Hitler, e os parlamentares de Weimar assistiam ao filme da normalidade institucional.

Na Itália, o mesmo fenômeno é tratado de modo magistral no romance épico de Giorgio Bassani, “Il giardino dei Finzi Contini”, não menos genialmente transportado para o cinema pelo talento de Vittorio De Sica, retratando a alienação da alta burguesia italiana dos anos que antecedem imediatamente à Segunda Guerra Mundial.

Qualquer semelhança com a situação brasileira de hoje também é mera coincidência.

Parece que o Parlamento brasileiro está localizado em outro país. Não é à toa que Brasília é apelidada a “capital da lua”.

Os presidentes das duas casas, membros do maior partido da base de sustentação do governo, sob investigação policial, o segundo maior partido com dois tesoureiros, um ex-presidente encarcerados e um senador, líder do governo, preso pelo STF em flagrantes e graves delitos, que abre o jogo em bombástica delação premiada, envolvendo diretamente a “presidenta” enquanto a Polícia Federal vasculha as residências de Lula e famiglia.

A República desgovernada, a economia em frangalhos, e o Parlamento agindo como se as manifestações que colocam multidões nas ruas estivessem acontecendo na Bessarábia.

As ruas pedem probidade na representação, e a cada dia se revelam mais escândalos de roubalheira do dinheiro público nos três níveis da desacreditada representação popular.

As ruas pedem a renúncia ou o impeachment de uma presidente desmoralizada, conivente com a incúria e a inépcia, e o maior partido no Congresso fortalece sua aliança com um Executivo apodrecido, através da barganha de ministérios, dando o da Saúde (o maior orçamento ministerial e onde se dá a qualidade mais sofrível do serviço público) a um ilustre desconhecido, apenas porque pertence aos quadros de um legislativo apequenado e fisiológico em tempos de epidemia mundial de zika.

As ruas rejeitam mais impostos e, em sua primeira e patética entrevista, esse ministro picaresco declara que não irá lutar apenas pela reimplantação da CPMF, mas por dobrar sua incidência.

São os tais brioches de Maria Antonieta ou o farto menu da Ilha Fiscal para o banquete de cinco mil convidados com o dinheiro dos flagelados da seca endêmica do reinado em decadência. Ou o Doutor Guillotin redivivo amolando a lâmina de sua engenhoca mortífera.

Nelson Paes Leme

sábado, 5 de março de 2016

AUTO_amarildo-2

Está inaugurada a democracia brasileira

Corria o ano da graça de 1605 e a força do Poder Judiciário inglês onde todo julgamento continuava sendo baseado na forma tradicional como cada queixa ou cada crime sempre fora tratado, estava encurralada pelo rei James, o primeiro da dinastia Stuart. Ele queria para si os mesmos poderes absolutos que os reis da Europa Continental tinham conseguido amealhar justamente acabando com esse modo de fazer justiça que fora comum a toda a Europa, Portugal inclusive.

Por volta de 1300 abre-se esse desvio a partir da Universidade de Bolonha onde foi costurado, sob o disfarce de “um renascimento do direito romano”, o esquema que poria os tribunais a serviço do rei, garantido seus poderes absolutos.

A Inglaterra, protegida pela sua condição de ilha, foi exceção. Por essa mesma altura – 1300 – resolveu sistematizar o seu método tradicional. Desde essa época todo julgamento na Inglaterra é minuciosamente documentado em duas versões, um relato dos fatos em discussão e outro, igualmete minucioso, do cumprimento dos ritos que, aos poucos, foram sendo estabelecidos para o processo. Foi constituido um juri de “iguais” das partes em litígio e neutros em relação à queixa? Convocadas testemunhas dos acontecimentos para restabelecer a verdade dos fatos? Elas foram interrogadas pela acusação e pela defesa? As duas versões são aquivadas e, para se requerer do Poder Judiciário uma satisfação, passa a ser obrigatório encontrar o “precedente” do seu caso para reivindicar do sistema “a mesma satisfação que sempre foi dada a casos semelhantes“. É o juri quem diz, ouvidas as testemunhas e reconstuida a verdade dos fatos, “sim“, ou “não“, o caso é exatamente semelhante ao anterior, cabendo então ao juiz passar sentença obrigatóriamente idêntica à do caso precedente. Nenhum espaço para arbítrio. Nenhuma brecha para a corrupção ou a negociação de sentenças diferentes para casos iguais.

Com o acumulo desses relatos ao longo dos séculos, torna-se necessário criar um índice de resumos tecnicamente perfeitos de acesso a eles, para que os queixosos encontrem, na montanha de precedentes, qual o parecido com o seu, já que esta deve ser a exata formulação de qualquer queixa a ser julgada. A importância dessa função e a precisão exigida desses índices de “writs” é o pilar fundamental do sistema. Por isso só dois autores dos ultimos tres séculos, naquele alvorecer dos anos 1600, são reconhecidos como portas autorizadas de entrada nos tribunais.

Mas então surge a prensa de Guttemberg e o mundo do conhecimento sofre um choque muito parecido com o que a internet está provocando hoje, guardadas as proporções. Passa a ser muito mais fácil e barato editar e publicar livros que ate então, tinham de ser copiados a mão. Na Inglaterra, uma das áreas afetadas por essa “disrrupção” é a desses índices de “writs”. Começam a surgir “vulgatas” acessiveis em qualquer canto nas quais não ha nenhuma garantia de precisão num sistema que ainda não sabia se defender dessa ameaça. A confusão é tanta que a certeza jurídica fica abalada…

James I aproveita a brecha. Institui a Corte da Chancelaria, “tribunal eclesiástico” apoiado pela Igreja que fornece os “juizes” que nela operam, e esta começa a dar sentenças não mais com base nos fatos ou na tradição mas segundo a parte que o rei quer agradar.

O Judiciário verdadeiro resiste. Tem à frente o juiz supremo Edward Coke. Ele cassa as sentenças das cortes do rei, anula seus decretos na velha Corte de Queixas Comuns (Common Pleas) que toda a Ingaterra aprendera a respeitar. Resiste. Luta. Mas o rei tem, sim, poderes extremos sobre a pessoa de seus suditos. “Traição” é uma acusação que leva diretamente à morte. O jogo é pesado. James espreme, ameaça, persegue. Mas Coke é, ele mesmo, uma instituição. Não é fácil tocá-lo impunemente.

O confronto final é inevitável. O rei chama à sala do trono todos os juízes. O ambiente é de quase pânico. Todos cabisbaixos, a capitulação é iminente. Menos Coke…

É ele mesmo quem relata:

“…o rei disse que acreditava que a lei estava fundada na razão e que tanto ele quanto outros eram possuidores de razão, assim como os juízes. Ao que eu respondi que sim, Deus tinha concedido a sua majestade excelente ciência e grandes dotes naturais; mas sua majestade não é versado nas leis deste reino da Inglaterra e nas causas concernentes à vida, à herança, aos bens e à fortuna de seus súditos; que essas coisas não devem ser decididas pela razão natural mas pela razão artificial e pelo julgamento da lei cujo conhecimento requer longo estudo e experiência; e que a lei é a ferramenta de ouro e a medida para julgar as causas envolvendo os súditos e para manter sua majestade em paz e segurança.

Com o que o rei se mostrou muito ofendido e disse que era traição um homem afirmar que ele devesse estar submetido à lei. Ao que eu retruquei que sim, o rei não está submetido a homem nenhum, mas está submetido a Deus e à lei”.

“…under god and under the law”, significando, esse “under god”, que nem mesmo sua majestade podia reescrever ou negar os fatos ao seu bel prazer; eles, mais a lei, é que tinham de prevalecer para orientar o oferecimento de justiça ou não poderia haver paz nem segurança jamais.

Estava nascendo a democracia moderna!

Nos tribunais, como prisioneiro na Torre, no Parlamento depois que fecharam-lhe as portas do Judiciário, Edward Coke segue com sua luta para desmontar os poderes arbitrários do rei. Sua obra vai ser coroada pelaPetition of Right, elemento basilar do moderno Estado de Direito, aprovada pelo Parlamento em maio de 1628, dando aos representantes do povo inglês e às leis por ele aprovadas os mesmos poderes soberanos que têm até hoje.

411 anos depois ver esta mesma cena se repetir no Brasil ainda me emociona. É longo, muito longo o caminho pela frente, mas foi finalmente plantada a pedra fundamental da democracia brasileira.

A perda da razão

Delírio! Quer dizer que vivemos um golpe aplicado pela dobradinha Judiciário-Mídia?

Quer dizer que é golpe uma operação policial autorizada pela Justiça?

Quer dizer que Lula "foi sequestrado por Moro" só por ter sido levado para depor em local seguro na companhia de advogados dele?

É mentira dizer que Lula sempre esteve à disposição da Justiça. Ele tem usado e abusado de todos os meios para escapar dela.

Enquanto o PT bate na Justiça e na mídia, o que ocorre por aqui é reconhecido no mundo como exemplo de vitalidade democrata.

Quando o PT se dará a chance de reconhecer seus graves erros e de tentar começar tudo de novo?

O PT humilha sua militância ao forçá-la a sair em defesa do indefensável.

Se empresas envolvidas em roubalheira entopem os bolsos de Lula com dinheiro e o presenteiam com reformas em imóveis, tal relação promíscua não merece ser investigada?

Se qualquer um de nós pode ser convocado ou levado para depor por que Lula não? No que ele é melhor do que nós?

Por que aumenta a cada dia o número dos brasileiros que dizem que não votarão de jeito nenhum em Lula em 2018? Serão uns tolos?

Se Lula nada deve, nada deveria temer. Se for injustiçado, os brasileiros saberão reconhecer que foi e ficarão ao seu lado.

Lula faz mais mal à esquerda brasileira do que ela quer admitir. Do que ela admitirá um dia.

O PT perdeu a razão.

Justiça brasileira ainda deve prova de isenção política

AUTO_bruno
Certamente não caíram do céu os agentes da Polícia Federal que, cedo da manhã desta sexta-feira (04/03), levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para depor. Há semanas que se fala do suposto envolvimento dele no esquema investigado na Operação Lava Jato. Mesmo assim, a condução coercitiva do ex-presidente tem um grande impacto, pois sinaliza que também ele – apesar de toda a sua popularidade – não está acima da lei.

No Brasil, porém, isso não é exatamente algo óbvio para todos. Afinal, a lista dos que são culpados, nas nunca foram acusados; dos que foram acusados, mas nunca foram condenados; e dos que foram condenados, mas nunca foram punidos, é longa.

Os dois casos mais famosos estão por aí, livres, leves, soltos e no poder: o ex-presidente Fernando Collor de Mello representa desde 2007 o estado de Maceió no Senado. E o ex-governador e ex-prefeito Paulo Maluf – acusado de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos, com vários mandados de prisão no exterior e origem do verbo "malufar" – é deputado em Brasília.

Por que essas pessoas são reeleitas é algo que se deve perguntar a quem vota nelas. Por que elas podem concorrer, porém, é uma questão que deve ser feita à Justiça brasileira.

Desde 2010 existe um instrumento legal: a Ficha Limpa, assinada por Lula, que torna inelegíveis por oito anos as pessoas que já foram condenadas ou tiveram um mandato cassado – ao menos na prática, pois a aplicação da lei exige promotores e juízes independentes e eficientes.

Só que desses há poucos, afirmam muitos brasileiros – sobretudo os partidários de Lula, da presidente Dilma Rousseff e do PT. Eles fazem acusações graves à Justiça brasileira: por que nomes do alto escalão do PT foram condenados à cadeia no escândalo do mensalão e, ao mesmo tempo, o escândalo de corrupção – bem menor, mas na essência muito semelhante – do mensalão mineiro, que envolve o PSDB, não foi investigado com o mesmo fervor?

Já os adversários do PT rebatem perguntando por que Lula não foi questionado na Justiça sobre como é possível que ele, na condição de presidente da República, não soubesse que deputados eram comprados para votar com o governo.

Quem sempre fez essa pergunta deve agora estar sentindo uma certa satisfação. Mas isso não quer dizer que essas pessoas acreditem na imparcialidade da Justiça.

Mais de 30 anos depois da redemocratização, está mais do que na hora de a Justiça começar a melhorar sua credibilidade. Os investigadores da Lava Jato colaboram para isso, sem dúvida – nem tanto, porém, porque têm a coragem de levar para depor uma das pessoas mais conhecidas e populares do Brasil. Muito mais importante é que, ao longo da Lava Jato, haja investigações amplas, não importa de que partido.

Decisivo para a reputação da Justiça brasileira é que ela se mantenha firme e também no futuro investigue suspeitas sem considerar implicações partidárias ou empresariais.

Jan D. Walter

Acordado pela polícia, Lula descobriu o Brasil redesenhado pela Lava Jato

Há dois dias, o comentário de 1 minuto para o site de VEJA constatou que, por negar-se a enxergar as mudanças operadas pela Lava Jato na paisagem brasileira, a alma penada de Lula ainda não descobrira que, hoje, nenhum fora da lei está acima da lei. Descobriu nesta manhã, quando a mão do destino ─ disfarçado de Polícia Federal ─ bateu à porta do apartamento do ex-presidente em São Bernardo.

Até este histórico 4 de março, Lula acreditava que, se todos são iguais perante a lei, ele sempre seria mais igual que os outros. Esse status de condenado à perpétua impunidade lhe permitiria, por exemplo, rejeitar intimações judiciais, zombar de autoridades dispostas a fazer Justiça e debochar do Estado Democrático de Direito. Acordou para a vida real ao ser acordado pela 24ª fase da Lava Jato, batizada de Alethea.

dh
Conduzidos coercitivamente ao local do depoimento, Lula e o filho Lulinha tiveram de abrir o bico ─ pela primeira vez ─ sobre as bandalheiras em que se meteram. A família que se julgava inimputável foi enquadrada por juízes, procuradores e policiais que não temem criminosos da classe executiva. Alethea, convém ressaltar, é uma palavra grega que significa “busca da verdade”. Nesta sexta-feira, a verdade venceu a mentira.

A busca da verdade não cessará tão cedo. Mas a Era da Canalhice está perto do fim, confirmaram a discurseira do chefão e a contra-ofensiva ensaiada pelo Mestre e seu rebanho agonizante. Um dia depois de divulgado o desastroso desempenho do PIB em 2015, Lula tornou a festejar o Brasil Maravilha que só existe na cabeça baldia de embusteiros e na imaginação de cretinos fundamentais.

Ele também relançou a candidatura à Presidência que as revelações de Delcídio do Amaral haviam afundado de vez na véspera. A Alethea, por sinal, já dispunha de munição suficiente quando Delcídio começou a contar o que sabe ─ e o que sabe o ex-líder do governo no Senado vai adicionar toneladas de dinamite ao vasto arsenal da Lava Jato. Como Lula tentará escapar da sequência de explosões?

A resposta é fácil: ele vai ampliar ainda mais o acervo de mentiras que engordou algumas arrobas com o falatório desta tarde. Os truques e vigarices do mágico de picadeiro já não iludem sequer marilenas chauís. De novo, Lula não deu um pio sobre as acusações que o transformaram em campeão de impopularidade. Ele simplesmente não tem como justificar as delinquências que protagonizou, sobretudo as praticadas no ofício de camelô de empreiteira.

A “mobilização nacional da militância” prometida por cartolas do PT e pelegos que prosperam nos “movimentos sociais” só serviu para reafirmar que o partido que virou sinônimo de roubalheira tornou-se um ajuntamento de fanáticos sem cura. Manifestaram-se nesta sexta os devotos que restam. Os protestos da turma da estrela reuniram menos gente que procissão de vilarejo.

Muito mais abrangente e eficaz foi a mobilização da Polícia Federal decretada pela Alethea. Munidos de mandados de busca e apreensão, destacamentos de agentes vasculharam residências, escritórios e esconderijos de gente graúda engajada no projeto criminoso de poder. Declarações de delegados envolvidos na ofensiva atestaram que a Lava Jato já reuniu muito mais provas do que se imaginava.

Outras tantas foram recolhidas na devassa que atingiu 44 alvos, de Marisa Letícia e três lulinhas a Paulo Okamotto e o bunker no Instituto Lula, da Odebrecht e da OAS aos sitiantes de araque Fernando Bittar e Jonas Suassuna, passando por coadjuvantes como o engenheiro que trabalha de graça nas férias. Ficou ainda mais variado o elenco recrutado pela operação que investiga o maior esquema corrupto descoberto desde o Dia da Criação.

Hoje se ouviu o choro das carpideiras transformadas em animadoras de velório. Em 13 de março, a imensidão de indignados invadirá as ruas para exigir, além da punição de todos os poderosos patifes, o imediato despejo do governo destroçado pela incompetência, pelo cinismo, pela corrupção e pelo Código Penal. Oito dias depois dos uivos da subespécie em extinção, a nação ouvirá o rugido do país que presta.

Vergonha

Nem se prendessem a Dilma ficaria pior. Porque a prisão do Lula, filhos e dirigentes de empresas a ele ligadas equivaleu, na manhã de ontem, à maior das vergonhas jamais registradas no Brasil. Preso ele já tinha sido, mas com honra, por haver liderado greve geral de trabalhadores em pleno regime militar. Daí, porém, a ser levado à representação da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, para explicar os recursos entregues sem prestação de serviços ao Instituto Lula, é olímpica a distância. Provas de que um ex-presidente da República tenha se beneficiado por receber dinheiro de empreiteiras, jamais havia sido evidenciado. Nunca governantes jamais foram liberados para agir como se tivessem liberdade para fazer do país o seu quintal. A acusação é de que, a pretexto de palestras e conferências pretensiosamente pronunciadas por ele, chegou a faturar 20 milhões de reais.

A ser verdadeira a acusação, concluir-se-á não ter limites a desfaçatez com que se avança sobre a coisa pública. Não tarda a se conhecer os limites de até onde o Lula considerou como sua e de seus familiares a propriedade coletiva.

Conduzido à prisão, mesmo por poucas horas, o ex –presidente acaba de destroçar a imagem do partido um dia tido como a esperança da redenção nacional. Leva com ele os companheiros, os filhos, e os empresários envolvidos mas, acima de tudo, apanha a sucessora. Madame não vale mais nada, como presidente da República. Mesmo que nada tenha a ver com as lambanças do antecessor, Dilma encontra-se umbelicalmente ligada a ele.

O espetáculo verificado no aeroporto de Congonhas, para onde o Lula foi levado, exigiu a presença da Polícia Militar de São Paulo. Não foi fácil evitar a confusão entre os militantes do PT, exasperados pela prisão do Lula, de um lado, e seus adversários, de outro. O grave foi e ainda é o choque.

Há quem suponha que essa inusitada ação da Polícia Federal se deu à demissão do ministro da Justiça, por muitos meses acusado pela oposição de não conter o ímpeto da Polícia Federal contra o PT. Assim,o novo ministro teria decidido avançar sobre o partido, para demonstrar que não se intimida.

Cardápio de medos

Com exceção de tempos em guerra, as gerações costumam deixar futuro melhor para seus jovens; sobretudo, um futuro alentador. Mas, de todas as dificuldades que os adultos de hoje estão deixando para os jovens brasileiros, nenhuma é mais imperdoável do que o medo. Nosso legado é um cardápio de medo.

Não estamos sendo capazes de oferecer as ferramentas necessárias para os jovens enfrentarem as incertezas criadas pelas mudanças no mundo, e ainda estamos criando novos medos brasileiros. Por força das transformações no mercado de trabalho, devido ao avanço técnico, os jovens estão com medo de desemprego, sem um sistema educacional capaz de enfrentar os desafios criados pelo avanço tecnológico; e ainda estamos provocando desemprego conjuntural, devido à recessão econômica criada pela incompetência e irresponsabilidade do governo atual.

Os jovens têm medo de andar nas ruas, usar tênis da moda ou um relógio que o pai presenteou. Todos estão com medo de epidemias, especialmente dengue, ainda mais as mulheres jovens, assustadas com o risco de seus filhos sofrerem microcefalia. E a imensa maioria, que depende do sistema de saúde pública, teme pela falta do necessário atendimento médico.

Estão com medo de que não terão um sistema sólido de aposentadoria, porque começam a perceber que a vantagem de uma vida mais longa vai exigir reformas que lhes obrigarão a trabalhar por mais tempo; e temem que a falta da reforma ameace a solidez do sistema.

Como todos os brasileiros, os jovens estão assustados com a inflação. Eles cresceram acostumados à estabilidade monetária e agora temem, com razão, o que vai acontecer no país se não conseguirmos recuperar a estabilidade monetária. E temem também as consequências que o enfrentamento deste problema provocará, devido aos cortes de verbas na educação, na saúde, na infraestrutura.

Sofrem com o medo da recessão econômica, que diminuirá a renda per capita que lhes caberá, diminuirá a posição do Brasil no mundo, degradará nossa infraestrutura econômica e social, reduzirá o nível de consumo e o bem-estar.

Estamos deixando aos jovens o medo do desequilíbrio ambiental, o aquecimento global, um dia enchentes, noutro falta de água, os recursos naturais ficando escassos. Não fomos capazes de acenar para eles um futuro no qual o progresso não signifique degradação ambiental, concentração de renda, violência, desigualdade social.

Medo do trânsito que ameaça a vida por acidentes, especialmente envolvendo motos e bicicletas, e rouba a vida silenciosamente pelas perdas de tempo no dia a dia dos engarrafamentos.

Também têm medo da corrupção e suas consequências, inclusive de nós, dirigentes, que hoje estamos construindo o futuro em que eles viverão, com medo. Medo de que em 2018 nenhum candidato a presidente prometa e ofereça, transmitindo confiança, credibilidade e competência, os caminhos para assegurar aos jovens que eles terão um país sem medo. Pelo menos isto: um Brasil sem medo.

Cristovam Buarque

O ídolo que cambaleia

Aconteceu na última campanha eleitoral, em um comício do Partido dos Trabalhadores na periferia sul e pobre de São Pulo. Lula, com a camiseta vermelha do partido e a voz cavernosa e cansada depois de semanas de forçar a estropiada garganta, entrou em cena para pedir outra vez o voto em Dilma Rousseff. Um operário metalúrgico o ouvia da rua, com um sorriso de orelha a orelha. Diante da pergunta sobre se gostava de Lula, o operário respondeu, sem parar de sorrir: “Há muitos anos, ele, Lula, vinha a nossas fábricas nos dizer quando tínhamos de protestar, quando tínhamos de fazer greve. Eu voto nele porque o conheço, porque não mudou”.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva deixou o poder depois de governar o Brasil durante oito anos, de 2003 a 2010, armazenava uma inaudita popularidade de mais de 80%. Não estava mal para um operário convertido em sindicalista convertido em presidente de um país de 200 milhões de habitantes, chegado sem estudos a São Paulo na década de cinquenta com seus seis irmãos e a mãe na traseira de um caminhão procedente de um dos rincões mais miseráveis do país. Ele era um a mais entre os milhões de habitantes do Nordeste brasileiro que buscavam na grande cidade uma saída do labirinto da pobreza, seca e desemprego.


Durante seu mandato, cerca de 30 milhões de pessoas sem trabalho fixo entraram no sistema: começaram a desfrutar de um contrato, de férias, de seguro desemprego, começaram a pagar impostos, sentir-se cidadãos, protestar. Lula e os ideólogos do Partido dos Trabalhadores os denominaram de nova classe média, surgida daqueles que migravam em caminhões rumo ao sul. A maioria deles continuava vendo Lula como um a mais.

Hoje o índice de rejeição a Lula, segundo pesquisas recentes, é de 47%. E a causa deve ser buscada, sobretudo, nas acusações de corrupção que pesam sobre ele e sua família, e que o perseguem há meses. Ele nega tudo. Afirma, com a mesma veemência que empregava ao pedir o voto em Dilma Rousseff nos comícios de campanha na periferia, que não existe no Brasil uma “alma mais honrada”. Ainda pensa em apresentar-se às eleições de 2018. Há alguns dias dizia que então terá 72 anos e o tesão de um de 30. Mas será preciso ver se sua gente ainda o considera um dos seus. Se ainda consideram que não mudou. Que o Ministério Público o acuse de aceitar presentes milionários das empresas envolvidas na peçonha da Petrobras, que o Ministério Público considere que essas mesmas empresas lhe pagam, entre outras coisas, os eletrodomésticos de cozinha de primeira e os móveis de luxo de um apartamento de três andares na praia não vai ajudar em nada.

Bordel em pânico

O ainda senador petista e ex-líder do governo, Delcídio do Amaral, escancarou a porta do bordel. Sua delação parcial expôs a orgia governamental, deixando claro que não há inocentes a bordo.

As suspeitas que pesavam sobre Lula e Dilma já não são meras suspeitas. Ganharam materialidade na voz de alguém que privou da intimidade e da confiança de ambos, cumprindo missões que agora revela. A rigor, quem acompanha de perto as investigações – na imprensa, na polícia, no Congresso – não teve qualquer surpresa.

Nenhum dos fatos arrolados era desconhecido. Muitos já haviam sido noticiados, com base em fontes que se mantinham anônimas. O impacto e a novidade ficam por conta de agora terem um informante que, longe de ser mero observador privilegiado, era um agente, cujo depoimento equivale a uma confissão, o que, no direito, é também chamada de rainha das provas.


Seu papel, nesse processo, é semelhante ao de Roberto Jefferson no Mensalão. Com agravantes: era o líder do governo, a voz da presidente no Senado. Jefferson era personagem periférico no Mensalão, presidente de um partido da base, o PTB, que se queixava exatamente do tratamento secundário que recebia.

Delcídio, não. Era, no Congresso, o próprio governo e também o elo entre Dilma e Lula, com os quais mantinha contatos quase diários. Ao abordar o filho de Nestor Cerveró, propor-lhe um plano de fuga e oferecer mesada – empreitada que o levou à cadeia -, Delcídio disse que cumpria missão a mando de Lula. Terá oportunidade de demonstrá-lo com mais dados.

O argumento do governo, expresso pelo ex-ministro da Justiça e novo advogado geral da União, José Eduardo Cardoso, de que Delcídio não tem credibilidade e está apenas querendo se vingar, é frágil. Pior: burro. Primeiro: se não tem credibilidade, por que era líder do governo? Segundo: numa delação premiada – que, se falsa, aumenta a pena do réu -, não há espaço para leviandades.

Colocar em dúvida a existência da delação de Delcídio dispensa comentários. Todos sabem que existe, carecendo apenas de homologação pelo STF – que, agora, diante do que já provocou, dificilmente a rejeitará. Se o fizer, aprofundará o seu descrédito.

As revelações, seguidas pela condução coercitiva de Lula a um depoimento que se empenhava em evitar, sugerem que as manifestações do próximo dia 13 devem superar as anteriores.

A militância do PT – ruidosa, agressiva, insensata – é numericamente inexpressiva. Não reflete nem de longe a sociedade brasileira. Consegue se fazer presente com agilidade, a qualquer dia ou hora, nos locais estratégicos, porque vive disso. Não trabalha em outra coisa. São profissionais do protesto.

Mas as pesquisas demonstram reiteradamente que a imensa maioria da população – na escala dos 90% - exige que as investigações se aprofundem e justiça seja feita com rigor, seja lá quem esteja em pauta: Lula, Dilma ou o mais obscuro lobista.

O PT alega que a Lava Jato estaria agindo politicamente. O que se dá é o contrário: os políticos do governo é que estão, há anos, agindo criminosamente, a ponto de transformar a análise política em criptografia policial. Não se trata de ideologia: crime não é de direita ou de esquerda – é crime. E o partido que o promove e oculta merece o título de organização criminosa, máfia em estado pleno.

Prova disso é que, até aqui, o empenho do governo e de seu partido – Lula à frente – não foi o de se defender, mas o de evitar a Justiça, obstruindo-a e cancelando depoimentos, recorrendo aos mais diversos e sórdidos ardis processuais. Quem deve, teme.

O argumento do líder do PT, José Guimarães, de que Lula jamais se recusou a depor - e que, portanto, a coerção não era necessária -, é falso. Na festa dos 36 anos do PT, Lula disse que não iria depor de maneira nenhuma. E acusou a Polícia Federal, a Justiça e a imprensa, dando palavras de ordem à militância.

Tão espantoso quanto tudo isso é a reação frouxa, intimidada (quase solidária) da oposição, sobretudo do PSDB.

A sociedade está mobilizada, há uma manifestação nacional prevista para daqui a uma semana, revelam-se denúncias gravíssimas de um ex-líder do governo – que, em circunstâncias normais imporiam a deposição da presidente - e a oposição age como quem tem dúvidas. Em vez de ir às ruas, fecha-se, intimidada, em gabinetes. O PT mobiliza seus diretórios e organizações que sustenta (CUT, MST, MTST, UNE etc.) com dinheiro público para que ocupem as ruas e promovam badernas. E a oposição faz o quê? Aguarda.

O líder tucano Cássio Cunha Lima diz que “não vai sapatear sobre o governo”, mesmo sabendo que o governo, rodeado de indícios consistentes de que praticou crimes, não tem feito outra coisa sobre a sociedade. Com isso, apenas dá substância às insinuações do PT, de que tem também o que ocultar. Terá?

O bordel está em pânico. A festa, ao que parece, acabou.

É o fim do projeto do PT

A sexta-feira, 4 de março de 2016, é um dia histórico e divide apaixonadamente a opinião pública do Brasil, onde Luiz Inácio Lula da Silva nasceu nos rincões áridos do Nordeste, cruzou o país continental num pau-de-arara, comeu o pão que o Diabo amassou, foi o maior líder sindicalista e virou o presidente da República mais popular em décadas. É um dia profundamente triste, mas é também um marco: ninguém, nem mesmo Lula, está acima da lei.

A condução coercitiva de Lula e de seu primogênito, Fábio Luiz, não foi nenhuma surpresa no mundo político, mas é daqueles fatos que todo mundo espera, mas, quando acontecem, são como uma explosão atômica. Com Lula depondo na Polícia Federal e acossado, junto com a presidente Dilma Rousseff, pela delação premiada do ex-líder do governo Delcídio Amaral, não há outra conclusão possível senão a óbvia: é o fim do projeto do PT, o fim de uma era.

Até por isso, a Justiça, o Ministério Público, a Polícia Federal e a Receita Federal cercaram-se de todos os cuidados. Há meses vinham dando indícios de que Lula seria preso, mas isso só ocorreria quando as provas fossem consistentes, inquestionáveis. "Não podemos morder o Lula. Quando chegarmos nele, é para engolir", diziam os investigadores, ilustrando a consciência de que, deixar brechas de contestação, seria não apenas implodir a Lava Jato, mas também desmoralizar as instituições responsáveis.

Hoje, a Lava Jato engoliu Lula e, com ele, o projeto de eternização do PT no poder. De uma forma simples e direta, há provas de que havia uma triangulação criminosa: o dinheiro saía da Petrobrás, passava pelas empreiteiras e parte dele ia para o ex-presidente em forma de pagamentos dissimulados de palestras, viagens pelo mundo, o sítio de Atibaia e o triplex do Guarujá. Lula, portanto, seria beneficiário dos desvios da maior companhia brasileira, hoje uma das maiores empresas mais endividadas do mundo. Sem falar na Operação Zelotes...

A condução coercitiva de Lula, a prisão do marqueteiro dele e de Dilma, a delação do ex-líder do governo sobre o envolvimento de Dilma na compra suspeitíssima da refinaria de Pasadena e na tentativa de manipular o Judiciário para soltar empreiteiros amigos... tudo isso configura um cerco a Lula e a Dilma que, apesar de dependerem visceralmente um do outro, entram na dolorosa fase do "salve-se quem puder" ou, de outra forma, "cada um por si".

Como pano de fundo, a crise política e a economia. Por uma macabra coincidência, ou não, o resultado da economia em 2015 saiu no dia do vazamento da delação de Delcídio e na véspera da condução coercitiva de Lula e de seu filho. O Brasil teve uma recessão de 3,8% e ficou em 30º lugar entre 32 países pesquisados, só atrás da Venezuela, que quebrou, e da Ucrânia, que vem perdendo parte do seu território para a Rússia.

Tudo somado, Dilma está totalmente isolada em seus palácios, enquanto Lula se despe da roupagem do "Lulinha paz e amor" e conclama suas tropas para a guerra. A possibilidade de impeachment de Dilma é cada vez mais real e a próxima etapa de todo esse processo deve ocorrer nas ruas. Vêm aí as manifestações do dia 13 contra Dilma, Lula e o PT, mas, antes delas, já começam os confrontos. As bandeiras vermelhas, em minoria, vão tentar ganhar no grito - ou na pancadaria.

Lava Jato enquadra agressividade de Lula e protestos ganham força

A inédita operação visando diretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma demonstração pujante de força institucional da Operação Lava Jato e um reforço simbólico ao movimento que pede a saída do governo petista do poder. Ela ocorre justamente no momento em que o petista anunciou publicamente sua disposição de ir para o enfrentamento.

Com o crescente cerco da Lava Jato, mas não só ela, sobre si e sua família, Lula buscou vestir novamente o figurino de líder sindical raivoso. Com discursos inflados, decretou a morte do "Lulinha paz e amor" que envergava para não assustar as elites que conquistou e nutriu para ter dois bem-sucedidos mandatos à frente da Presidência.

De duas semanas para cá, criou site para tentar intimidar jornalistas. Prometeu processar Deus e o mundo. Esbravejou na Justiça, e obteve vitórias no intento, que não poderia ser investigado. Derrubou José Eduardo Cardozo da pasta da Justiça com a enésima queixa de que ele não controlava a PF que agora bateu à sua porta.

Deu no que deu. Como outros personagens, sendo João Santana e sua mulher exemplos mais recentes, sabem, a Lava Jato não perdoa soberba. Obviamente, ser implacável anda de mãos dadas com correção: para o bem do futuro da força-tarefa, é bom que haja motivos bem sólidos para tudo o que está acontecendo na manhã desta sexta.

O recado para os poderes constituídos é brutal. Como disse, no hoje longínquo 2014, um dos capitães da investigação, "não sobrará ninguém". Perguntei se isso incluiria os próceres do poder e a resposta foi um assertivo sorriso.

A reação, previsivelmente, será também de força. A imagem de carros de polícia na frente da casa de Lula certamente remeterá, para os que ainda o apoiam no espectro petistas-governista, ao sindicalista preso na ditadura militar. Lula irá usar a analogia, buscará a vitimização a fim de somar o martírio à sua usual hagiografia.

Isso pode dar certo, embora seja incerto dado que os indícios acumulados contra o petista são muito grandes –de quebra, sítios e apartamentos, a fração teoricamente menos grave do que se imputa no escopo da Lava Jato ao líder petista, são ícones de fácil assimilação pela sabedoria popular.

Ainda assim, é previsível também que subiu o grau de risco de confronto no próximo fim de semana, para quando está marcado o próximo protesto pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Militantes a soldo e apoiadores espontâneos de Lula, cada vez mais pertencentes a nichos com demandas específicas e autointituladas progressistas, talvez tentem fazer frente ao provável engrossamento do coro antipetista em centros urbanos.

Politicamente, é um prego no caixão cada vez mais fundo na terra do PT e do governo. No caso do partido, Lula é passado, presente e futuro sob ameaça. É o único presidenciável viável da sigla, com respeitável apoio popular, ainda que decadente de forma acelerada.

O cerco contra o líder encima um longo processo pelo qual os petistas e suas práticas reveladas são as responsáveis centrais, apesar do choro contra elites, imprensa e os suspeitos de sempre. Nesse sentido, o batismo da operação, Aletheia, remete ao desvelamento da verdade além das aparências. Soa apropriado, ainda que alguém possa implicar com a associação nazista do principal filósofo a trabalhar o conceito no século 20, Martin Heidegger.

Já para Dilma, que em outros momentos talvez até agradecesse ver o antigo mentor e não ela no centro do fogo, não há boa notícia possível. Após a pré-delação vazada do seu ex-líder no Senado Delcídio do Amaral (PT-MS) a colocar diretamente na mira da Lava Jato, a petista vê a queda em desgraça do homem que a criou politicamente –e a quem entregou a cabeça de Cardozo, numa demonstração de fraqueza compatível com sua baixíssima popularidade e com o esfarelamento econômico e político do país sob seu comando.

A queda de Lula, que, ressalte-se, nem de longe pode ser considerada definitiva, só favoreceria uma Dilma em momento de força, algo que não acontece desde os protestos de junho de 2013. Agora, mesmo com ambos estremecidos, restará um tentar apoiar-se no outro. Lula é mestre em ressurreições e tem a resiliência política mais conhecida do país, mas tal abraço poderá ser de afogados sob os jatos d´água de Curitiba.

Lula isolou-se da realidade em sua bolha petista

As pessoas ficam falando mal do Lula, mas, na verdade, ele só merece pena. É uma vida desgraçada a do ex-presidente petista. Está certo, dá dinheiro. Dá muito dinheiro. Dá dinheiro demais —R$ 30 milhões em palestras e doações ao Instituto Lula feitas por empreiteiras pilhadas assaltando a Petrobras, noves fora o salário e a aposentadoria do Estado. O excesso de liquidez é uma das misérias da ex-presidência petista.

Outros seres humanos vivem com rendimentos exagerados. Mas o ex-presidente do PT é dependente do exorbitante. É como aquelas pessoas doentes que, não podendo respirar oxigênio, são isoladas numa bolha. Lula sofre com a insensibilidade do Sérgio Moro com o seu vício pela anormalidade.

“[…] É forçoso reconhecer que se trata de valores altos para doações e palestras, o que, no contexto do esquema criminoso da Petrobras, gera dúvidas sobre a generosidade das empresas”, anotou o juiz da Lava Jato no despacho em que ordenou que Lula fosse retirado da bolha para ser interrogado no Brasil real.

No interior da bolha petista vigora uma monarquia absolutista. Ali, o ex-presidente Luís Inácio autoproclamou-se Dom Lula 1º (e único), o venturoso. Isolado do meio ambiente exterior, respira exorbitância, sua substância vital. Faz isso como se nada tivesse sido descoberto sobre o que ele fez nos verões passados.

Coisas estranhas sucedem com o ex-presidente no reino da bolha. Imóveis lhe caem no colo —um sítio do tamanho de 24 campos de futebol, um triplex à beira mar… Empreiteiras se oferecem para reformar as propriedades. Composta de gente incompreensiva, a força-tarefa da Lava Jato destila suspeição em documento oficial:

“A suspeita é que os valores com que o ex-presidente foi agraciado constituem propinas pagas a título de contraprestação pelos favores ilícitos obtidos no esquema Petrobras. A vantagem não precisa ser dinheiro, não precisar estar diretamente ligada ao ato. Nós podemos verificar que mesmo após o exercício da Presidência podem estar sendo pagos ainda vantagens ao ex-presidente.”

Arrancado “coercitivamente” do reino da bolha pela Política Federal, Dom Lula 1º (e único) se deparou nesta sexta-feira com a República, cuja proclamação ele passou a considerar um erro. Sobretudo depois que as instituições republicanas começaram a iluminar seus calcanhares de vidro, o sítio de vidro, o triplex de vidro, as palestras de vidro, o instituto de vidro, a biografia de vidro…

Depois de interrogado, o ex-presidente petista foi liberado para retornar ao mundo da bolha. Disse que, por algumas horas, se sentiu como um “prisioneiro”. Horas depois, declarou ter sido “sequestrado” pela Polícia Federal. O soberano estava de volta ao seu abiente (i) natural.

Uma claque de devotos realiza o trabalho humanitário, estimulando com urros e palavras de ordem um ex-presidente notoriamente despreparado para lidar com a realidade. A militância faz as vezes de qualquer mãe com seu filho problemático. Estimula-o a desfrutar de sua anormalidade.

Meio choroso, Lula acenou com a hipótese de trocar a bolha pelo Planalto em 2018, se o doutor Moro deixar. “Cutucaram o cão com vara curta. Eu quero oferecer a vocês esse jovem de 70 anos de idade, com tesão de 30, corpo de atleta de 20 anos. Não tenho preguiça de acordar às 6h e dormir as 22h. A partir de hoje a única resposta à insolência e ofensa que fizeram a mim é ir pra rua e dizer: ‘Eu tô vivo e sou mais honesto que vocês’.”

Alguma coisa subiu à cabeça do soberano petista. E não é nada que se pareça com sensatez. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva.''

A jararaca é capaz de tudo, menos de dar explicações. Elitizada, declara-se perseguida pela “elite”. Quem não é devoto não consegue entender os efeitos que a prosperidade exerce sobre uma cobra criada no reino da bolha, respirando exorbitância.

Lula e o chamado ao confronto


As chicanas da alma mais honesta do país não adiantaram, e na manhã de sexta-feira o ex-presidente Lula acabou forçado a prestar depoimento à Polícia Federal. O mandado de condução coercitiva contra Lula foi o mais relevante entre os 44 expedidos pela Aletheia, a 24.ª fase da Operação Lava Jato. Ainda que o ex-presidente não tenha sido preso, apenas conduzido para prestar esclarecimentos, a reação da cúpula do Partido dos Trabalhadores e de parte da sua militância passou dos limites, merecendo repúdio e atenção da sociedade.

A conta do PT no Twitter, por exemplo, lançou a hashtag #LulaPresoPolítico – uma falsidade dupla, não apenas porque Lula não foi preso, mas porque a própria expressão “preso político” deixa implícita a noção de que o país vive um estado de exceção, em que as liberdades democráticas não vigoram. O próprio partido se encarregou de dissipar a dúvida sobre o que realmente pensa ao divulgar nota, assinada pelo presidente da legenda, Rui Falcão, segundo a qual “a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa um ataque à democracia e à Constituição” e “a nação está sendo sangrada pela construção de um regime de exceção e arbítrio”. O vice-líder do partido na Câmara, Wadih Damous, chegou ao ponto de dizer que “isso não foi condução coercitiva, foi um sequestro perpetrado pela Polícia Federal a mando do juiz da Lava Jato” – declaração cuja irresponsabilidade é ainda maior por vir de um ex-presidente da seccional fluminense da OAB.

Mas antes se tratasse apenas de palavras. Parte da militância partidária e entidades-satélites do petismo foram às ruas, protagonizando cenas de confronto com cidadãos contrários ao PT e a Lula. Equipes de filmagem também foram hostilizadas em São Paulo. Não foi exatamente uma surpresa: o discurso de ódio que divide o país, especialmente entre pobres e ricos, sempre foi uma tônica de Lula e das lideranças petistas, mas desde o início do ano passado essa retórica adotou um tom belicista, com a menção de Lula ao “exército de Stédile” e o presidente da CUT falando em “armas na mão” em evento com a participação da presidente Dilma Rousseff. Na manhã de sexta-feira, Falcão afirmou, na nota, que “os petistas estão chamados a defender, ao lado de nossos aliados, nas ruas e nas instituições, as regras constitucionais e a inocência do ex-presidente Lula”. O mesmo tuíte que chamou Lula de preso político afirmava que “não podemos deixar barato. Precisamos todos reagir. Agora!” Parlamentares petistas ouvidos pelo jornal O Globo em Brasília foram ainda mais explícitos: “Se querem transformar o Brasil na Venezuela, vão conseguir. Se preparem”, afirmou um deles. “Estamos com ódio, uma indignação muito grande, faca nos dentes, sangue nos olhos. Não temos mais nada a perder, agora mexeram com o Lula”, disse outro.

Incitar o confronto desta forma é apenas agravar a polarização que as lideranças petistas alimentaram nos últimos anos, é arrastar para a violência político-partidária um país que já sofre com uma grave crise econômica, com inflação e desemprego, consequências das escolhas erradas do governo petista na condução da economia. É preciso parar para pensar: se uma condução coercitiva já é suficiente para provocar tal reação, o que não aconteceria em caso de prisão, ainda que embasada em sólidas evidências? A vigilância da sociedade é fundamental para evitar um esgarçamento ainda maior do tecido social e novas agressões às instituições democráticas.

sexta-feira, 4 de março de 2016

País à deriva

Quem governa o Brasil? Dilma? Lula por meio de Dilma? Sérgio Moro por meio da Lava-Jato? O Supremo Tribunal Federal diante da fraqueza do Congresso e do governo Dilma? Ninguém governa?

Governam os fatos. A verdade é essa. O país navega ao sabor dos fatos que se sucedem. Os fatos podem derivar da ação de um dos poderes, da ação de todos eles e da inação do governo e do Congresso.

Mas eles mandam. E como se sucedem mais ou menos livremente, e em muitos casos de maneira contraditória, o horizonte muda de direção com frequência. Como um país pode avançar assim? Não avança.



Como um país do porte do nosso poderá se arrastar assim por mais dois ou três anos? Não pode. Ou não deveria poder. Não é aconselhável que possa. Só teremos a perder com isso.

Em um regime presidencialista como o nosso, imperialmente presidencialista, espera-se que o servidor número um da República ofereça um norte. Diga com segurança: “É por aqui”.

Não se trata do triunfo da vontade de uma só pessoa, nem mesmo de um só partido ou de um conjunto de partidos. Trata-se de um elenco de escolhas que foram avalizadas pela maioria do povo em eleições livres.

E no que votaram aqueles que elegeram Dilma para governar pela segunda vez? No país que ela garantiu que era possível. Ocorre que o país prometido por ela era uma grossa mentira, e ela sabia disso. Mentiu deliberadamente.

O resultado está aí. O país em crescimento rola ladeira abaixo. O país do Minha Casa Minha Vida oferece menos casos e uma vida mais degradada. No país da inflação sob controle, a inflação está próxima dos dois dígitos.

O país com mais empregos perdeu milhões deles. No país da guerra sem tréguas à corrupção, a guerra foi perdida. A corrupção, agora, engolfa aqueles que se apresentaram como seus maiores adversários.

Restou o país do Bolsa Família, que por falta de dinheiro não comporta mais ninguém.

A pergunta que mais faço a políticos, empresários, magistrados e estudiosos da situação é: “O que vai acontecer?” Eles, primeiro hesitam. Depois de olham meio aparvalhados.

A resposta mais comum que obtenho costuma ser: “Não sei. Mas algo haverá de acontecer. Do jeito que está, não dá”.

Esse “algo” tão esperado terá começado a acontecer ontem com as revelações sobre a delação premiada do senador Delcídio Amaral? Não sei. Quem sabe? Ou esse “algo” ainda está por vir? Quem sabe?

É o império dos fatos sem governo
.

PF faz buscas na casa de Lula e leva ex-presidente para depor


Dilma já não gere os fatos, é governada por eles

O acordo de delação premiada firmado pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS) com a Procuradoria-Geral da República deixou o governo tonto. Arrastada pela primeira vez para o epicentro do escândalo da Petrobras, Dilma Rousseff teve um primeiro impulso de desqualificar o delator. Um auxiliar recordou à presidente que, antes de ser preso, Delcídio era líder do governo dela no Senado. Como explicar a escolha de um desqualificado para exercer as atribuições de líder do governo? O Planalto se deu conta de que sua reação não poderia ser improvisada.


Dilma manteve a decisão de tentar desacreditar Delcídio, atacando-lhe a reputação. Não lhe restaram alternativas. Depois de passar a manhã remoendo os termos do acordo de delação do ex-líder, ainda pendente de homologação do STF, os auxiliares de Dilma começaram a se manifestar. Acertaram os ponteiros com a presidente. Referem-se a Delcídio como um falastrão. Afirmam que suas declarações não fazem nexo. O Ministério Público Federal pensa de outro modo, tanto que submeteu a delação ao crivo do ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF.

Em privado, Dilma repete um bordão que já recitou em público: Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa o bastante para atacar a minha honra?, ela pergunta. Delcídio, segundo Dilma, não teria condições de emparedá-la. O problema da presidente é que nenhum delator da Lava Jato saiu de um convento. E a qualidade das revelações cresce na proporção direta do encolhimento das biografias.

Dois detalhes diferenciam Delcídio de outros delatores: 1) Ele é o primeiro petista a suar o dedo na Lava Jato. 2) Sua proximidade com o Planalto fez dele um personagem com um arsenal de informações que permitem reescrever a fábula do “eu não sabia”, já bastante desmoralizada. Além de Dilma, o senador alvejou Lula. Mal comparando, Delcídio aciona um fósforo tão perigoso quanto o que foi riscado por Roberto Jefferson ao acender o pavio do mensalão, em 2005. Naquele escândalo, Delcídio estava do outro lado do balcão. Presidiu a CPI dos Correios, que ofereceu farta matéria-prima para a denúncia que levou a cúpula do PT para a penitenciária da Papuda.

A novidade sobre o destampatório de Delcídio chegou em péssima hora, um dia em que as manchetes escancaram o tamanho da ruína econômica produzida sob Dilma: o PIB de 2015 despencou 3,8%. Esse dado expõe, uma vez mais, a empulhação do enredo que embalou a campanha presidencial de Dilma em 2014. O mentor desse enredo, o marqueteiro João Santana, encontra-se na cadeia. A Procuradoria pediu ao juiz Sérgio Moro a renovação da cana de Santana e da mulher dele, Mônica Moura, agora por tempo indeterminado.

O maior receio do governo é o de que o encontro da estagnação da economia com a lama da Petrobras produza uma espécie de pororoca que leve o asfalto a roncar novamente nas manifestações programadas para 13 de março. Governistas e oposicionistas concordam num ponto: o impeachment só tem chances de avançar se as ruas empurrarem o pedido que se encontra na Câmara, pendente de votação.

De resto, a delação de Delcídio compromete o esforço que Dilma vinha fazendo para passar a impressão de que seu governo ainda tem capacidade para fazer e acontecer. Na verdade, a presidente tenta equilibrar-se em meio ao entrechoque de dois fenômenos: o desastre gerencial em que se converteu o seu governo e as investigações que expõem os porões da corrupção com uma voracidade histórica.

Para desassossego de Dilma, a impressão de que seu governo tornou-se uma estrutura pendurada no ar foi reforçada depois que o STF decidiu antecipar a execução das penas de prisão a partir das sentenças da segunda instância do Judiciário. Ao farejar o odor do calabouço, a oligarquia enrolada na Lava Jato passou a coçar a língua. Executivos das empreiteiras OAS, Andrade Gutierrez e até da Odebrecht, a maior delas, tornaram-se delatores esperando na fila para acontecer.

Dilma já não governa os fatos que condicionam o futuro do seu governo. É governada por eles. Até aqui, a presidente se limitava a perseguir dois objetivos estratégicos: não cair e passar a sensação de que comanda. O segundo objetivo já foi comprometido. Dilma segura-se na cadeira como pode. Revela uma enorme disposição de permanecer ao volante, ainda que lhe falte um itinerário.

Pequenos assassinatos

A que ponto chegamos.

Aposto que você já ouviu essa frase em algum lugar que frequenta, ou na conversa com um amigo, um parente, um vizinho. Ou até mesmo na TV, na voz de um ministro do Supremo.

O que nós estamos vivendo aqui neste momento guarda alguma semelhança com a “teoria da janela quebrada” (broken windows theory), que é o resultado de um estudo realizado por dois professores de Harvard - um cientista político e um psicólogo criminologista - mostrando que há relação de causalidade entre desordem e criminalidade.

Em resumo, a tese é a seguinte: se uma janela do apartamento de um prédio quebrar a não for consertada imediatamente, as pessoas são levadas a crer que aquele apartamento está abandonado, já que ninguém se importa com ele, e esse abandono incentiva depredações de outras janelas, mais atos de vandalismo e até invasão do prédio.

Ou seja: quem não se preocupa com pequenos atos de marginalidade acaba sendo cada vez mais tolerante com a criminalidade em todos os seus estágios. Até que ela se instale definitivamente.

A confusão entre pequenos e grandes crimes acaba provocando uma perda de referência por onde se infiltra e se instala esse vírus de amoralidade, essa anomia que destrói os nervos e que corrói a alma do país.

Achar graça numa estrela vermelha que a primeira dama instala no jardim do Palácio da Alvorada é o primeiro vidro da janela quebrada. Desconhecer o que significa a promiscuidade entre público e privado, entre governo e partido, entre governo e Estado, entre Estado e partido, pode parecer uma minúcia, uma ridicularia, mas não é. Pelo menos em países sérios não é.

Quebrado a primeira janela, passa-se a zombar dos pequenos delitos, como se eles não fossem a pura ressonância dos delitos maiores: ah, o pedalinho dos netos do ex-presidente, ah, a canoa baratinha da dona Marisa, ah, o elevador privativo do tríplex do Guarujá.

Quanta implicância desses coxinhas, como se fosse normal alguém receber benesses de empreiteiras que vivem de contratos públicos e como se fosse normal recusar-se a prestar depoimentos solicitados pela Justiça sobre eles.

Perdido o referencial daquilo que separa a bravata ideológica do crime puro e simples, acontece isto: um sindicalista de nome Armando Tripodi, que foi chefe de gabinete do presidente da Petrobras entre 2003 e 2012, nas gestões José Eduardo Dutra e José Sergio Gabrielli, publica no site oficial da Petrobras a confissão de um crime e nada acontece com ele. Talvez tenha até sido elogiado pelo companheiro-chefe.

Num depoimento ao site institucional “Memória Petrobras” ele conta que usou o dinheiro do imposto sindical para fazer campanha para o companheiro Lula, e narra, cheio de orgulho, todos os lances de seu heroico crime. É proibido por lei usar dinheiro do imposto sindical para campanhas políticas, mas quem se lixa?

Se a janela está quebrada, o prédio está abandonado e tudo é permitido.

Da janela quebrada ao pântano moral em que o País mergulhou, a distância é mínima. Princípios morais não têm peso, nem largura, nem altura, nem espessura. Ou existem ou não existem.

A delação premiada de Delcídio do Amaral mostra não apenas que a janela está quebrada. Mostra que o prédio já ruiu em cima do governo, e mesmo que ele sobreviva, está irremediavelmente ferido de morte.

Sandro Vaia

É isso um governo?

O sábado é uma ilusão, ensinamento de Nelson Rodrigues que talvez ajude a explicar por que Dilma Rousseff disse no sábado que não governa “só para o PT”, mas para 204 milhões de brasileiros, e na segunda-feira, esvanecidas as ilusões e governando só para o PT como tem sido quando o poste governa, demitiu o ministro da Justiça.

Não que José Eduardo Cardozo ou qualquer outra cabal nulidade dos trinta e tantos ministros façam alguma diferença para os milhões de brasileiros que pagam a conta de a presidente governar só para o PT com ministros situados entre a inépcia e a delinquência, mas a sujeição do Estado às patologias do partido operada mostra, na demissão de Cardozo, que o projeto do regime antes restrito à manutenção do poder passou a configurar-se em vigaríssima trindade: a irrenunciável manutenção do poder, a trama sórdida de inimputabilidade do jeca e as malandragens para salvar o governo ilegal.

Transferido para a Advocacia Geral da União, Cardozo, que sai para dentro, num reforço para defender Dilma que se mostrará ilusório no curso da Lava Jato, caiu não por não tentar melar as investigações – o ex-ministro teve encontros com os advogados dos investigados e com Janot à margem das agendas oficiais de ambos para os quais a decência, essa desconhecida dos petistas e aliados, cobra explicações –, Cardozo foi demitido por Lula pelo fracasso parcial das tentativas.

O jeca acordou invocado na ressaca daquele aniversário micado e decidiu resolver essa história de tríplex e sítio: trocar de ministro. O obscuro Wellington César, trazido por um certo compositor investigado pela Lava Jato, já chega chegando ao governo ilegal: ele próprio é uma ilegalidade já que não pode assumir o cargo por ser membro do Ministério Público. Se menos petista e mais ministro, Jaques Wagner conheceria a lei que barra o fantoche sob encomenda dos interesses espúrios da seita e do caudilho.

É isso um governo? Ou a encenação cruenta, pública, repugnante e ostensiva dos medíocres enlouquecidos na sordidez sem limites? Nessa indiferença implacável com o Brasil de agora e com o das gerações futuras, recursos públicos (humanos e financeiros) e toda a estrutura do Estado são drenados para a sobrevida dos cafajestes obcecados por uma perenidade gozosa. Saberão que já bastou, que não têm o direito de fazer isso com o país que enxergam apenas como uma ilusão que cabe num sábado de quatro mandatos (e mais, se puderem) nefastos.

O comodismo, a desesperança e o salvacionismo são ilusões sabotadoras do sonho dos indignados das quais se nutrem as ilusões de perenidade dessa escória. Dia 13 de março é domingo, é sonho que esvanecerá todas elas.

O que Delcídio me contou


O ex-presidente, desde os seus tempos de líder sindical, sempre soube de tudo o que acontecia ao seu redor. Tudo controlava. Mas se irritava quando ficava claro que ele sabia.
Distribuía tarefas entre os seus seguidores. Esperava que eles as cumprissem. Mas não queria saber do que pudesse comprometê-lo mais tarde. Queria apenas resultados.
Os resultados estão aí. A casa caiu!

Brasil com data de validade vencida

Como alertam as bulas dos bons laboratórios, não use medicamento com prazo de validade vencido. "Caso ainda esteja no prazo de validade, observe o aspecto do produto e se houver alguma mudança no aspecto, consulte o farmacêutico para saber se poderá utilizá-lo”.

Aqui no Rio 1 tonelada de medicamentos (incluindo larvicidas imprescindíveis no combate aos mosquitos assassinos) foi incinerada. Por quê? Porque estavam com a data de validade vencida!

Essa notícia é de indignar qualquer um. O governo do Estado do Rio nos deve uma explicação e o Ministério Público deveria punir exemplarmente os responsáveis por essa barbaridade.

Mas, como dizem os ingleses, “quando chove, é temporal” (when it rains, it pours). Infelizmente, essa não foi a única barbaridade que sofremos. Estamos sendo inundados por notícias horríveis, em todas as áreas.

Na Economia está tudo muito feio e muito apavorante.

Na Política, é um verdadeiro horror o que vemos suceder diariamente. A impressão que dá é que o Governo Federal e o Congresso estão há muito com a validade vencida.

Mas Deus lembrou-se que é brasileiro e nos deu a Operação Lava-Jato, que tem retirado de circulação alguns políticos, assim como marqueteiros e empresários que com eles se acertavam.

Claro que isso incomodou nossos representantes. ‘Onde já se viu querer desmontar nossa igrejinha?’, é o que parecem se perguntar.

Dona Dilma, sem prumo e sem rumo, só diz coisa sem coisa e só sabe piorar o que já está muito ruim. Diz ela que não governa só para o PT, mas sim para todos os brasileiros. Ela só não diz que governa mais para si mesma e pela manutenção do Poder.

Ontem, dia da publicação pela revista Isto É da delação premiada do senador Delcídio Amaral, dona Dilma esqueceu do PT. Nesse momento, ela e seus auxiliares mais diretos logo se preocuparam em desmentir o senador – ex-líder do Governo dela até ser preso no ano passado – naquilo que se refere a ela. Da defesa do ex-presidente Lula, fundador e guru do partido que a colocou no Planalto, ninguém tratou.

No entanto, há muito poucos dias ela se lembrou que é petista e trocou o ministro da Justiça, desafeto antigo do ex-presidente Lula, por um petista conectado ao Poder via Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, hoje ministro chefe da Casa Civil da sapiente presidente. Nessa hora ela estava fazendo a vontade de Lula e do PT.

Quer dizer, a cada dia a sua agonia. Ora ela é petista, ora talvez nem se lembre mais a quem deve o Poder...

O aspecto do Brasil todo está muito esquisito. Assim, seguindo o conselho das bulas, apelo a nossos “farmacêuticos”: o Ministério Público, a Polícia Federal e o juiz Sergio Moro, para que verifiquem bem se nosso país ainda tem validade.

Caso contrário, pelo amor de Deus, livrem-nos dessa tormenta.

Menos ideologia, mais biblioteca

Em recente entrevista, o Ministro da defesa do Uruguai, Eleuterio Fernández Huidobro, pertencente ao partido de esquerda Frente Ampla, o mesmo de Mujica e do atual presidente, declarou que a posse de armas é um atributo para a liberdade e que os cidadãos devem possui-la para, se necessário, lutar contra governos de ditadores fascistas. Também citou governos de ditadores “disfarçados” de esquerda – aqui ele tentou dissociar a esquerda de gente como Hugo Chávez, Maduro, et caterva – em clara crítica aos proto-ditadores que infestam a América Latina. Para ele, é um enorme erro a esquerda apontar para o desarmamento como algo benéfico.

A entrevista caiu como uma bomba no atual governo de Tabaré Vázquez que tenta aprovar uma lei mais restritiva para posse e porte de armas no Uruguai, seguindo assim a agenda esquerdista que nós conhecemos muito bem. Encabeçado por Eduardo Bonomi, ministro do Interior, encarregado pela polícia e pela segurança pública, o projeto visa a criação de novas restrições no país. Como bons hipócritas, claro, ficará intacto o privilégio para os deputados e senadores uruguaios, que têm direito de portar armas sem nenhum tipo de restrição. Também foi de Bonomi o programa chamado “Armas para a Vida”, que trocava armas de fogo por computadores e bicicletas e que se mostrou um enorme fracasso com insignificante participação popular.

Ao ser duramente criticado pela imprensa, por membros do próprio governo e de seu partido, Huidobro defendeu-se afirmando: “Eu tenho uma biblioteca, não uma ideologia”. Com essa frase – que eu adoraria ser o autor! – o ministro escancarou algo que nós já sabemos faz muito tempo: defensores do desarmamento, quando não são simplesmente ignorantes sobre o assunto ou idiotas úteis, são pautados pela ideologia e não pelo conhecimento técnico e por estudos não ideológicos sobre o tema. Foi um tiro certeiro em toda a manipulação que envolve o tema. A realidade uruguaia mostra que ele está certo!

O país possui 32 armas de fogo por 100 habitantes, a maior taxa de posse de armas da América Latina e a nona mais alta do mundo, de acordo com a organização Small Arms Survey. Na questão dos homicídios o país vizinho pode se orgulhar em ter a segunda menor taxa de toda América do Sul, uma taxa que a despeito das deturpações feitas pelo próprio governo e pela imprensa canhota do Uruguai, se mantém bastante estável nos últimos 12 anos, com normais variações para mais e para menos, em uma faixa dos 7 homicídios por 100 mil habitantes. Basta uma rápida comparação com países que adotaram o desarmamento, como o Brasil e a Venezuela, para verificar que menos armas não significam menos crimes. Exemplos contrários também estão aqui no continente e os três países com menos homicídios, o Chile, o Paraguai e o próprio Uruguai, possuem legislações bastante liberais no que diz respeito à posse e ao porte de armas. Mais armas, menos crimes! E quem afirma o contrário precisa de mais biblioteca e menos ideologia.

Pra que discutir com madame?

De repente não mais que de repente, como dizia o poeta, o cerco vai se fechando contra a Dilma, mas a Bahia que é também de todos os santos, já comparece com dois – um procurador para Ministro da Justiça e um policial federal hoje no cargo de Secretário de Segurança para Diretor Geral do Departamento de Policia Federal.

O Eduardo não aguentava mais estar Ministro da Justiça. Nos primeiros meses no cargo consumiu maior parte do tempo como se repetisse o aperreio que desafiava a paciência dos seus antecessores. Todo dia era dia de índio.


Passa essa FUNAI adiante, Eduardo. Aconselhei. Tem outros Ministérios mais apropriados. Resgata a agenda do Márcio e faz do que ele não teve tempo para fazer o teu legado. Dá mais visibilidade politica ao Ministério. Como fez o Petrônio. A transição da ditadura para a democracia ainda não se completou. O Estado brasileiro segue autoritário como antes.

O Eduardo é um jurista, um professor de Direito, um politico comprometido com causas republicanas. É só ler os Anais da CPI dos Correios, aquela de onde saíram os primeiros sinais de que o mensalão existia mesmo, para se avaliar a seriedade com que ele se houve nas investigações. Ele, um Deputado do PT de São Paulo.

A Polícia Federal não é uma repartição do Governo, mas uma Policia de Estado.

A Polícia Federal tem a função exclusiva de Policia Judiciária da União, estando sujeita unicamente às requisições do Poder Judiciário ou do Ministério Público para apurar as infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme.

Incumbe ainda a Policia Federal, independentemente de requisições, prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência.

A devassa que o País conhece pela primeira vez nas entranhas do Poder Federal, contaminando inclusive a legitimidade do poder com a derrama de dinheiro ilícito nas campanhas eleitorais, resulta do profissionalismo da Policia Federal, do Ministério Público Federal e da Justiça Federal de primeiro grau, esta sob a batuta do jovem magistrado Sérgio Moro.

A jurisdição do Executivo, através do Ministério da Justiça, sobre a Policia Federal é apenas administrativa. Ou seja, cabe ao Ministro prover a instituição com os meios indispensáveis ao seu funcionamento. Nada mais.

Não pode o Ministro de Estado, nem o Presidente da República, mandar a Policia Federal suspender qualquer investigação. O arquivamento de Inquérito Policial é competência do Judiciário, ouvido o Ministério Público.

E o Eduardo não suportava mais tanta cobrança. Quem o encontra agora percebe o quanto está aliviado.

Colocar homens da confiança pessoal do Ministro da Casa Civil, que os baianos, jocosamente, cognominam de Feijó de Irecê e Marquês de Camaçari, plantado por Lula para ver se segura a Dilma, não vai desativar a Lava Jato. Sonho dourado do PT.

Entrementes, como nas histórias em quadrinhos, mistério. A tradutora da Dilma, chamada Leticia, foi readmitida menos de quarenta e oito horas depois de perder o emprego. A moça é quem traduz para o português as conversas da Dilma com estadistas como Nicolas Maduro, Raul Castro, Evo Morales, dentre outros.

Edson Vidigal