segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A fome e o consumo de batom

Dia desses li em um jornal africano um interessante relatório sobre a fome neste planeta. Decidi, a partir dele, buscar mais alguns dados que, isoladamente, pouco diriam - mas cuja mensagem, no conjunto, chega a ser chocante.

Vamos começar considerando que neste planeta 870 milhões de semelhantes nossos passam fome. Isto significa que uma a cada oito pessoas vão dormir com fome todos os dias - algumas delas ali na frente da gente, do outro lado da rua.

Em seguida, meditemos sobre o fato de que a fome ocupa o primeiro lugar na lista de riscos para a saúde - sozinha, ela mata mais gente que a AIDS, a malária e a tuberculose combinadas.

A estatística seguinte é especialmente dolorosa: um terço de todas as mortes de crianças abaixo de cinco anos nos países em desenvolvimento está relacionado à desnutrição. Mas pensemos nas que sobrevivem: os primeiros mil dias da vida de um ser humano são a fase crítica no que toca à nutrição. Uma dieta adequada ao longo deste período é fundamental para evitar uma série de males mentais e físicos na vida adulta.

Um problema sério, não? Mas vamos às soluções - e elas são muitas e simples. Para começar, se as mulheres que vivem nas áreas rurais tivessem o mesmo acesso que os homens a terra, tecnologia, serviços financeiros e educação o número de famintos seria reduzido em quase 150 milhões!

Para completar, custa apenas US$ 0,25 por dia alimentar uma criança com todas as vitaminas e nutrientes necessários a um crescimento saudável e regular - cálculos da WFP. Isto dá cerca de R$ 0,50. Cinquenta centavos! Calculou-se que com apenas US$ 50, uns R$ 100, dá para alimentar uma criança durante todo um ano escolar. É destes números tão simples que muitas verdades começam a aparecer.

Dizem que a corrupção, e só ela, custa ao Brasil R$ 83 bilhões a cada ano - dados da FIESP. Fiz algumas contas e concluí que com este dinheiro daria para nutrir adequadamente 454.794.520 crianças ao longo de todo um ano. Sim, só com o que se desvia no Brasil alimentaríamos quase a metade dos famintos do planeta todo.

Mudemos de escala: segundo cálculos do Banco Mundial, a corrupção custa ao mundo não menos que US$ 1 trilhão. Voltei à calculadora e concluí que com esta dinheirama resolveríamos o problema da fome de 10.958.904.109 pessoas - dá umas 12 vezes o total atual de famintos do mundo inteiro.

A conta é assustadoramente simples: se a roubalheira - e só ela - acabasse poderíamos eliminar os famintos deste planeta inteiro e ainda sobraria para atendermos outros onze, acabando com a fome das crianças de Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão e de mais dois de algum outro sistema solar. Seríamos os benfeitores da galáxia!

Há ainda o desperdício. Só com os alimentos desperdiçados nos EUA e Europa seria possível alimentar a humanidade inteira três vezes! Aqui mesmo no Brasil, segundo cálculos realizados pela ONU/FAO, 64% de tudo que é plantado se perdem na produção, distribuição e consumo.

Vejam que só falamos, aqui, do óbvio ululante - aliás, sobre este, é conhecida uma piada segundo a qual alguém procurava um objeto debaixo de um poste de iluminação, apesar de tê-lo perdido longe dali, em um canto escuro, por ser mais cômodo enxergar onde há luz.

Há alguns dias li uma propaganda segundo a qual com o preço de um batom dá para nutrir um refugiado lá do Quênia durante três semanas. Então é isso: a culpa da fome é dos consumidores de batom.

Pedro Valls Feu Rosa

Tanto burro mandando

Há tantos burros mandando
Nos homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência.

Orlando Tejo

Estado de sítio

O Brasil é uma ilusão de ótica, uma miragem no meio de um deserto de homens, mulheres, LGBTs e ideias. Na verdade, o Brasil é uma novela da Globo disfarçada de país, onde tudo o que existe, com exceção do Projac, é de mentira. Tudo não passa de uma invenção da direita reacionária e da mídia golpista.

Mas que raciocínio complexo é este que ocupa a minha mente atormentada? Será que estou virando o Arnaldo Jabor? Será que sou homoafetivo e não sabia? E, neste caso, existe mesmo a cura gay? Vou ter que procurar o Secretário de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, o pastor Ezequiel, senão vou acabar dando a bunda.


Estes pensamentos vertiginosos assaltam a minha mente desde que passei uns dias em Atibaia, no sítio do Lula (que não é do Lula). Descobri que ao lado do terreno instalaram uma enorme torre de celular da Oi (que não é da Oi). E todo mundo sabe que o Lula não tem celular, não tem nem o dedo pra digitar um número no celular. E por que o Lula, que não tem celular, precisaria de uma torre de celular num sítio que nem é dele? Ninguém consegue explicar este mistério. Nem o Lula e nem a Agatha Christie.

Foi por isso que Luísque Inácio Lula da Silva e sua patroa, Dona Marisa Botox da Silva, não compareceram à delegacia da Barra Funda para depor. O casal matrimonial (e principalmente patrimonial) não foipara não ter que se ver cara a cara com o boneco Pixuleco (que não é ele vestido de presidiário). Sou amigo íntimo do casal Lula, por isso mesmo frequento o sítio de Atibaia (que não é deles), onde o Lula faz questão de me emprestar o seu celular particular, mesmo porque ele não tem nenhum. Quando não está lendo literatura russa, jogando xadrez ou resolvendo equações diferenciais parciais, Luísque Inácio gosta de sentar comigo para tomar uns gorós e lembrar dos velhos tempos em que ele era pobre e miserável. Hoje, graças a Deus e às “empresteiras ”, Lula só é miserável.

Outro dia mesmo lembrei quando ele foi presidente do Brasil. Lula tomou um susto, mas em seguida tomou mais um gole e reagiu: - Tá maluco, Agamenon? Eu, presidente do Brasil? Só se eu estivesse de porre...

Agamenon Mendes Pedreira também tem duas antenas de celular na testa. Quem instalou foi a Isaura, a sua patroa. 

Potemkin às avessas

Realidade tem se revelado tão distante da promessa quanto as estatísticas de casos de zika e síndrome de Guillain-Barré

Os marqueteiros encarregados de dar visibilidade ao mutirão de combate ao zika conseguiram inovar no gênero entretenimento: criaram uma ficção ruim para uma realidade que estava boa. Talvez nem Serguei Eisenstein, o revolucionário mestre do cinema mudo que criou uma obra-prima de ficção a partir de um fato histórico, ousasse tanto.

Eisenstein baseou-se na rebelião de marujos ocorrida a bordo do “Potemkin” na Rússia czarista de 1905 para fazer uma obra universal sobre poder coletivo. E até hoje seu filme de 1925 é debatido pelo arrojo de efeitos especiais, experimentações e montagem.

Já o mutirão zika, segundo revelou a “Folha de S.Paulo” desta sexta feira, submeteu um pacato cidadão brasileiro, além do presidente do Banco Central, e como coadjuvante o país inteiro, a uma encenação que alguns podem qualificar de apenas ridícula. Ou patética.

Mas ela é grave pelo que traz embutido.

Sábado, 13 de fevereiro, foi o dia em que a presidente Dilma Rousseff, 28 ministros, prefeitos e governadores, com suas respetivas comitivas, além dos 220 mil homens e mulheres das Forças Armadas, se espalharam país afora para deslanchar a Mobilização de Combate ao Aedes Aegypti nas capitais e grandes centros urbanos. Camiseta #ZikaZero no peito, folheto explicativo em mãos de assessores, os ocupantes do poder através do sacrifício coletivo de saírem às ruas contagiariam as massas na necessária mobilização popular de combate ao mosquito. Agenda positiva com farta cobertura da mídia nacional e internacional.

A “Folha” entrevistou Elder Fernandes, borracheiro de Brazlândia, cidade a 50 km de Brasília, que no dia da mobilização estava no roteiro do núcleo composto por Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, Renato Santana, vice-governador do DF, mais alguns secretários e deputados.

Dez minutos antes da passagem da comitiva, o borracheiro recebera a visita de pessoas que lhe perguntaram se tinha pneus para descartar. Respondera que sim, e mandaram que os colocasse do lado de fora para serem recolhidos. Por isso, havia perto de 20 pneus empilhados na rua quando as autoridades e o séquito de fotógrafos apareceram.

A partir daí, tudo só podia dar errado. Ao ser fotografado jogando um dos pneus numa escavadeira, para fazer algo útil para a campanha, o presidente do Banco Central da República do Brasil, à sua revelia, acabou desempenhando papel de coadjuvante da maquiagem. E o cidadão Elder, ao ser repreendido em público pelas autoridades, virar motivo de chacota na vizinhança e ter sido feito de bobo, foi dormir pior do que acordou.

O borracheiro mora numa região que concentra 26% dos casos de dengue do Distrito Federal, e sua filha já foi picada pelo mosquito. Seu cuidado de pai com águas paradas, portanto, já era anterior à campanha do governo.

O motivo da gravidade desse episódio está no que ele retrata de perverso: a manipulação do poder público, o descaso para com o cidadão comum, a confiabilidade de respostas à crise.

Ontem, sábado, houve novo mutirão nacional. Desta vez foram despachadas 35 autoridades para a malha escolar do país e envolveu estudantes tanto do ensino público como privado. Louvável, sem dúvida. Mas nesse ziguezague que vai de Petrolina a Juazeiro, de Palmas a Teresina, São José dos Campos a Pindamonhangaba, Campo Grande a Cuiabá, entre outros, não constava, pelo menos até sexta-feira, nenhuma passagem por Campina Grande, na Paraíba, onde está fincado o Isea, principal maternidade pública da cidade e onde atua a médica Adriana Melo, a quem o Brasil deve o estabelecimento da relação entre o zika e a má-formação do cérebro de bebês.

Apesar da garantia de amparo formulada pela presidente Dilma às grávidas e mães de crianças diagnosticadas com microcefalia ou problemas congênitos, a realidade tem se revelado tão distante da promessa quanto as estatísticas do Ministério da Saúde referentes a casos de zika e síndrome de Guillain-Barré.
Não deixa de ser surpreendente que nem a presidente nem o ministro da Saúde nem a ministra das Mulheres e dos Direitos Humanos tenham feito uma única visita oficial a uma unidade hospitalar com atendimento a mães de bebês microcéfalos, para embalar um deles no colo e sinalizar, aí sim, alto e bom som na presença ostensiva da mídia mundial, qual o rosto, o custo humano, a dor da doença. Sem maquiagem.

No GLOBO de 29 de janeiro deste ano, esse retrato apareceu pela primeira vez numa foto emocionante e corajosa de quase meia página. Um pai amoroso segurava seu bebê diminuto contorcido pelo choro interminável que, aprendemos, vem junto com a microcefalia. A partir dessa reportagem de Ana Lucia Azevedo e Renata Mariz, o dique se abriu, e a mídia tem mostrado bebês e suas mães saírem da clandestinidade.

Falta ao poder público fazer muito, senão tudo nessa parte da tragédia. Sem efeitos especiais baratos.

Dorrit Harazim

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Tempos sinistros

Como trailer de filme de terror, a primeira semana do ano que começou após o carnaval foi de arrepiar. O país aprofundou-se nas trevas do crescimento negativo, com o registro da queda de 4% do PIB em 2015 e previsões tenebrosas para 2016, se viu rebaixado pela segunda vez consecutiva pela mesma agência internacional de avaliação de risco, assistiu ao desemprego crescer 41,5% e à inflação não ceder um único milímetro. E nenhum dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – escapou de produzir assombros.

Ao desastre na Câmara de aprovar a inclusão de artigos contra o aborto e as políticas LGBT na Medida Provisória 696, que trata da reforma administrativa, somaram-se as rasteiras que o Senado deu em seu presidente, Renan Calheiros, e na Petrobras, para impedir a votação do projeto do senador José Serra (PSDB-SP), que retira da petroleira a exigência de ser operadora exclusiva do pré-sal.

Renan negociara com a presidente Dilma Rousseff a tramitação do projeto e foi surpreendido pelo vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC), que, enquanto Renan despachava com Dilma, leu uma MP, travando a pauta por pelo menos 45 dias. Ato contínuo, a senadora Simone Tebet (PMDB-MS) protocolou uma PEC para manter o exclusivismo da Petrobras. Pasme-se: com apoio de 48 pares, incluindo alguns tucanos.

Na Câmara, Dilma comemorou a reeleição do deputado Leonardo Picciani a líder do PMDB. Uma vitória de pirro.

A presidente, que no sábado participara do circo oficial contra o mosquito – ou mosquita – transmissor da dengue, chicungunha e zica, jogou pesado. Despachou o ministro da Saúde de volta para o Parlamento, provando que ele não faz falta alguma, e entregou mais um ministério à sigla. Mas o placar de 37 a 30 sobre Hugo Motta (PMDB-PB) pouco aliviou a sua barra. Na verdade, mostrou o inverso: o presidente da Casa, Eduardo Cunha, desgastadíssimo em todas as frentes, ainda fala grosso diante de quase metade da bancada ativa.

Para a sexta-feira, dia sacramentado pelas bruxas, Dilma guardou o anúncio de cortes. Um pacote que prevê contingenciamento de R$ 23,4 bilhões e um pedido, de novo, para que o Congresso aprove um rombo, desta vez de mais de R$ 60 bilhões. Em suma, corte algum, e sim déficit.

No anúncio de ajuste falou-se em tesouradas nos investimentos, na Educação, na Saúde, no PAC, e até em congelamento do salário mínimo. Mas, outra vez, o governo não sinalizou com cortes de verdade, nem mesmo os simbólicos. Nada de extinguir cargos, reformar autarquias ineficientes, parar de gastar com coisas tipo TV Brasil ou com estatais ressuscitadas para nada fazer, como a Telebras, responsável pelo extinto programa de banda larga e que, ainda assim, realizou, em 2015, concurso público para contratar mais gente.

No Supremo, além de decisões positivas, mas polêmicas, como a de dar início à pena após condenação em segunda instância e de permitir a Receita Federal o livre acesso às contas dos contribuintes -- votação que continuará na quarta-feira, mas que já tem seis votos favoráveis -, o ministro Teori Zavaski mandou soltar o petista Delcídio Amaral, provocando dúvidas e furor.

Embora seus advogados neguem, fontes do Ministério Público garantem que ele se beneficiou da delação premiada. A hipótese deixa o governo, petistas e aliados de todos os escalões de cabelos em pé.

A semana teve ainda o estranho pedido de liminar que acabou por suspender o testemunho do ex Lula e sua mulher, Marisa Letícia, sobre o tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia. Foco de ação entre amigos – todos investigados pela Lava-Jato – para garantir o conforto e o lazer do ex-primeiro casal no campo e na praia, a questão perdeu as manchetes depois da entrevista da ex-namorada do ex Fernando Henrique Cardoso, festejada pelos petistas como prêmio de loteria.

Imaginam com isso conseguir – e talvez até consigam – exorcizar os pecados de Lula. Como sempre, misturam todos os bugalhos aos alhos, confundindo e apostando na ignorância do distinto público. É mais do que um filme. É horror mesmo.

A lição do socialismo

Os Estados Unidos estão ignorando solenemente o pobre Brasil na próxima – e última – viagem que o presidente Barack Obama fará ao cone sul do continente americano. O presidente norte-americano visitará a Argentina de Macri… e Cuba!!!

Isto demonstra visivelmente que o “comunismo que presta” – nenhum comunismo presta, mas alguns foram mais densos e influentes, como na China, Rússia e Cuba – quer salvar as últimas aparências mandando às favas a ideologia se alinhando logo com o Tio Sam antes que morram, que ninguém é besta de querer perder o bonde da evolução humana para ficar cacarejando essa cartilha manca. A reaproximação das múmias cubanas com a civilização é mostra mais que evidente que a coisa toda não passava de um projeto de eternização no poder vagabundo e truculento, que cobra seu preço agora num país literalmente ilhado e falido.

Meu irmão mais velho – e mais perto da sepultura que eu pela lógica inexorável da vida – tem algumas observações interessantes a fazer sobre esse momento crítico da existência marreta. Para ele, numa certa idade, você só quer saber do design do caixão que irá acomodá-lo. Cientes disso, as duas múmias cubanas sabem que, se apontarem a nau comunista de volta para a pujante economia americana – nem tão pujante assim, mas serve –, poderão ainda desfrutar de alguma sobrevida histórica dos seus embustes, ao levar a massa falida de seu país pela abertura do Mar Vermelho, agora proporcionada pelos norte-americanos.

Já no Brasil, alguns presidentes parecem ter feito o caminho inverso. Numa economia pujante e incipiente, conseguiram matar qualquer chance que resta de empreender no país, com esse cacarejo indecente e essa justiça achada no lixo. Engalfinham-se agora pela divisão do butim, enquanto hordas de demitidos pelo “milagre econômico do PT” se preparam para rapinar supermercados, num claro indício de que estamos alinhados na burrice tão somente com a Venezuela. É espantoso que esquerdistas arraigados, como os que vicejam em redações e bares da orla carioca, não consigam alcançar o golpe de vista de dois velhos caquéticos como as múmias cubanas, abrindo as perninhas bambas para os Estados Unidos enquanto ainda há tempo.

O comunismo faliu. Salve-se quem puder. Roubem o que houver nas gavetas da repartição, que a turba faminta e feita de otária se aproxima. Acho que o país que presta não precisava passar por essa penúria de mais de uma ano de uma presidente pedaleira, superfaturada, fraudada e ancorada na ideologia, embora “proba”, “honesta” e que não rouba um clipe da mesa de trabalho, segundo seus coleguinhas de ideologia porca e cacarejos indecentes. Em contrapartida, o país que não presta simplesmente não presta. E ainda sofreu pouco, se considerarmos que somos já 10 milhões de desempregados para sustentar 100 mil cargos de confiança petralhas aboletados nesse governo. Inclusão social é isto. Inclua só o meu na parada. Parei.

O perfil político que o Brasil quer

Qual é o perfil político mais adequado ao momento que o país está atravessando?

Invariavelmente, a resposta a esta pergunta abarca uma bateria de princípios e valores de feição muito previsível.

Os eleitores apontariam certamente, entre outros, conceitos como ética, respeito, responsabilidade, compromisso, decência, zelo, integridade. Tanto nas regiões mais distantes e ainda sob influência de caciques políticos quanto nos centros de maior consciência política, a valoração ancorada na moralidade assume a liderança das preferências.

As demandas nessa direção são diretamente proporcionais ao intenso noticiário midiático dando conta da ladroagem que, nos últimos anos, assaltou o Estado brasileiro.


Por isso, as eleições de outubro próximo deverão ser mais seletivas que as de 2012, na crença de que o eleitorado comparecerá às urnas com um sentimento de que poucos políticos estão a merecer o seu voto. A constatação mais comum que se flagra na interlocução cotidiana é a de que “todos os políticos são farinha do mesmo saco”. Ante a expansão da descrença social, é oportuno resgatar os traços que ornam o perfil político do gosto do eleitor. Vejamos.

A primeira exigência que a população faz é que ele mantenha sintonia fina com as demandas sociais. Não precisa ser ele necessariamente um despachante ou um assistente social distribuindo benefícios. Infelizmente em algumas regiões a figura do despachante é ainda bem popular. Esta sintonia fina se ampara no contato rotineiro com as bases. Por isso, a proximidade com o povo é um conselho a ser respeitado.

A desconfiança que se espraia em relação a tudo que se liga à política leva o eleitor a querer ouvir candidatos, sentir seu pulso, examinar de perto se a palavra dada será cumprida. Afinal, político é, hoje, sinônimo de mutreta.

O cidadão quer enxergar o valor da autoridade. Regra geral, o brasileiro médio sente-se atraído pela figura do pai, que expressa autoridade, respeito, domínio do ambien­te doméstico, o homem providencial capaz de suprir as necessidades da família. Não se deve confundir autoridade com autoritarismo, conceito este que abriga outras componentes, como a arbitrariedade, o castigo imerecido, a brutalidade.

Equilíbrio é outro valor que se exige, pela necessidade de se distinguir um sujeito harmônico, sereno, capaz de traduzir sentimento de justiça. Estes valores se integram e acabam conferindo ao político confiabilidade e respeita­bilidade, valores que foram esgarçados ou mesmo eliminados pelo tufão de escândalos que assola a vida política. Resgatar a crença na política não é tarefa fácil. E só alguns conseguirão ser bem-sucedidos nessa missão.

Os desafios da administração pública e as demandas crescentes das comunidades estão a exigir conhecimento e experiência dos políticos, fer­ramentas necessárias para o encontro de soluções rápidas, factíveis e justas. Quanto à experiência, não carece ela ter sido realizada na vida pública, podendo o candidato trazer da iniciativa privada uma bagagem de empreendimentos e feitos. As pessoas, regra geral, desconfiam de aventureiros e ignorantes por consi­derá-los uma “aposta cega, um tiro no escuro”.

O preparo, o discurso bem ordenado, a fluidez de ideias compreensíveis pode ajudar a elevar a ima­gem. Será melhor ainda se as propostas e os programas dos políticos fossem endossados por grupos sociais organizados e consolida­dos. Ou seja, se ele tiver o endosso de uma entidade de fins sociais. Seria uma maneira de puxar das margens para o centro a matéria política, o ideário, na esteira da desejável democracia participativa.

A sociedade brasileira está bem organizada e representada por enti­dades, algumas muito fortes. Quem tiver condições de fazer estaarticulação, de lá para cá, do poder centrípeto para o poder centrífugo, estará intermediando com legitimidade os interesses da coletividade. Este grupo que assim se comporta abre mais espaços de futuro.

Ao contrário, ao permanecer todo tempo trancado em gabinetes e escritórios, aquele que aspira a vida política corre o risco de jamais sentir o calor das ruas ou o “cheiro das massas”. Distancia-se e se desequilibra, pois os pés de um político devem, todo tempo, caminhar nas trilhas percorridas por suas bases. E o que as pesquisas indicam como valores negati­vos?

Indecisão é um deles por estar associado à ideia de político fraco, temeroso, tíbio. (A propósito, a imagem de ficar em cima do muro é colada aos integrantes de um partido. Por uma questão ética, este escriba omite o nome).

Encrenqueiro e corrupto são outros traços negativos. O brasileiro continua desconfiado de estilos rompantes, im­petuosos, viradores de mesa. É claro que mudanças são desejáveis, contanto que sejam gradativas, sem grandes sustos. Infelizmente, nos últimos tempos, grupos partidários têm se engalfinhado nas ruas em defesa e ataque a seus maiores protagonistas.

Quem está ligado a coisas suspeitas, à teias de corrupção, mensalão e petrolão, enfim, à situações embaraçosas e não bem explicadas, será visto com desconfiança. Precisa se esforçar muito para se purgar. As Operações Lava Jato e Zelotes, que apuram desvios e eventos imorais, serão acompanhadas atentamente pelo olho mais apurado do eleitor. A população está mais atenta aos fatos da política, distinguindo os espaços do bem e do mal, do bom e do mau político. Perfis sem ideias na cachola, sem programas, sem conhecimento, terão voo curto na campanha que se aproxima. Alguns não passarão no primeiro teste.

Há, porém, um valor-conceito que expressa o esqueleto vertebral do político: trata-se da identidade, que abrange a história, o pensamento, a coerência, os sentimentos e a maneira de ser. Se a identi­dade é forte e positiva, o candidato será sempre associado às lembranças boas de seus eleitores e admiradores. Uma boa imagem, porém, não nasce e cresce da noite para o dia. Foquem a lupa para enxergar erros e acertos, pois a população já usa lentes há muito tempo.

Pardais, saúvas e mosquitos

O mutirão nacional contra o Aedes Aegypti convocado pela Presidente Dilma, lembra um episódio na antiga China de Mao Tse Tung, em que o líder comunista convocou a população do campo e das cidades chinesas para matar pardais. Isso mesmo, em um delírio autoritário, Mao acordou certa manhã e julgou ter uma brilhante solução para aumentar a produção agrícola chinesa, tornando-a capaz de alimentar suas centenas de milhões de habitantes. Ordenou então que todos os chineses saíssem à caça de pardais, que para ele representavam enorme ameaça às plantações de grãos, base da alimentação de seu povo. A população atendeu o chamamento do ditador (até porque desobedecê-lo resultaria em mais do que fome). Todos, estudantes, operários, lavradores, soldados, professores, saíram às ruas para caçar os infelizes pássaros. Reza a lenda que os pardais que não eram trucidados pela população, morriam de cansaço, porque simplesmente era impossível encontrar um local livre de seus algozes. Pois bem, os pardais foram dizimados, mas as lagartas, que eram por eles comidas, proliferaram livremente e causaram muito mais males às plantações do que os pardais.

Da mesma forma, houve uma época em que se dizia que ou o Brasil acabava com a saúva, ou a saúva acabaria com o Brasil.

Relato estes exemplos apenas para demonstrar a inigualável criatividade dos governantes para eximir-se de suas responsabilidades, sempre atribuindo a dificuldade de resolver os problemas a fatores extraordinários.

A incapacidade sistêmica do Brasil de dar fim ou ao menos reduzir a níveis aceitáveis a proliferação de um mosquito, dá bem a dimensão da irresponsabilidade e da incompetência de nossos governantes. Enquanto a enorme maioria de nossa população não tiver acesso ao saneamento básico, enquanto a periferia de nossas cidades conviver com água não tratada e com esgotos a céu aberto, por mais que a população de esforce, o problema persistirá. Pouco adianta a Presidente, como Mao, recorrer a um chamado patriótico para a união nacional em torno do combate a um inseto, se o governo não der cumprimento às suas responsabilidades e investir maciçamente em saneamento.

Este não é um problema apenas do governo federal, deste ou dos passados, mas o contínuo descaso nos levou a uma situação trágica, como a multiplicação dos casos de microcefalia. Há décadas, a população brasileira vem sendo acometida pela dengue. Absurdamente, passou a fazer parte da rotina das famílias ter alguém acometido pela doença, com consequências naquela época de pouca gravidade. Os surtos se repetiam, nada de efetivo foi feito para combater o mosquito e a dengue hemorrágica se alastrou, causando já centenas de mortes. Mesmo assim, apenas o fumacê e esparsas campanhas educativas continuaram a ser o remédio aplicado. Para se ter uma ideia, há hoje milhares de pessoas que foram acometidas por dengue há dois anos e que ainda não tiveram o diagnóstico confirmado por exames laboratoriais.

No Brasil de hoje, a Presidente Dilma, como fez Mao Tse Tung, faz um apelo à nação para se envolver, num tom patriótico, num chamamento heroico para salvar o país do mosquito. O povo brasileiro vai atender a esse chamado, mas não esquecerá que tivessem ela e os demais governantes cumprido seu dever, certamente a situação seria outra.

Mao está hoje embalsamado na Praça da Paz Celestial, louvado apenas pelos mais antigos, visto quase com indiferença pelas novas gerações da China Moderna. Um símbolo de um tempo que muitos preferem esquecer. Mas os pardais foram dizimados. As saúvas continuam por ai. Quanto a Dilma e aos mosquitos, vai depender do povo brasileiro.

Paulo Marcelo Ribeiro Costa

Desconstrução da esquerda

Os constantes noticiários sobre a Lava-Jato têm levado militantes dos partidos do governo a dizerem que está em marcha uma campanha de desconstrução do PT e da imagem do ex-presidente Lula, cujo objetivo seria a desconstrução da esquerda.

É até possível que as oposições estejam usando as notícias com esta intenção; mas a desconstrução foi feita pela própria esquerda, contando com a colaboração do Lula, do PT e demais partidos de apoio ao governo.
A desconstrução da esquerda ocorreu por causa da aceitação da corrupção, sob o argumento de que todos a praticam; pela perda do vigor transformador e o consequente acomodamento; a falta de imaginação para formular nossas alternativas para avanço social; a incapacidade para perceber e entender a vertiginosa transformação tecnológica e política no mundo e o desprezo por compromissos programáticos e ideológicos.

A esquerda não foi capaz de entender o pleno significado da queda do Muro de Berlim, do fim do socialismo pela distribuição da produção e o consumo industrial depredador; a consolidação do poder sindical da aristocratização do proletariado em contraposição aos interesses das grandes massas; não entendeu a dimensão da crise que vai além da luta de classes e contesta a própria base da civilização industrial; não tem proposta para a ampliação do bem-estar, combinado com o equilíbrio ecológico; não percebe a força da globalização implantando o livre comércio, quebrando as fronteiras nacionais; nem a realidade da economia atual, onde o principal fator de produção é o conhecimento, não o capital financeiro, nem os recursos naturais.

A esquerda desconstruiu-se ao adotar a voracidade pelo poder e seus cargos e privilégios, envenenando os músculos de sua militância por estupidez e imoralidade. Faz parte também deste esforço da autodestruição, a anulação, pela cooptação, dos movimentos sociais como UNE, CUT, MST.

Somado à irresponsabilidade fiscal que provoca a maldade da inflação; o aparelhamento e a má utilização do Estado; a degradação de estatais símbolos da nação, como a Petrobras e os Correios; o desmantelamento do funcionamento do Estado e a desnacionalização do parque produtivo por causa da desvalorização cambial.
No lugar de criar novas utopias, formular novas propostas, a esquerda preferiu cair nos braços do sistema tradicional, reduzindo seus programas a meras transferências de renda já implantadas por governos anteriores; colocou o poder como meta suficiente, não como etapa necessária; aceitou qualquer aliança, desconstruindo a própria imagem.

A foto de Lula no jardim de um palacete para eleger seu candidato poderá ser um dia mostrada como marco da desconstrução da esquerda no Brasil, tanto quanto as fotos de jovens derrubando as pedras do Muro de Berlim significou a desconstrução do socialismo real na Europa.

A esquerda se auto desconstruiu sobretudo ao não perceber seus erros e jogar a culpa da desconstrução nos adversários.

O sonho transformado em pesadelo

Há pelo menos três anos o ex-presidente Lula anuncia imediatas viagens pelos Estados, iniciando ampla temporada de renovação do PT. Bem antes da blitz que se abateu sobre sua vida particular e antecedendo, mesmo, suas primeiras desavenças com a sucessora, vinha o primeiro companheiro alertando para a necessidade de balançar a roseira do partido, apagando a crescente imagem de que cada um preocupava-se mais em ocupar maiores espaços de poder, cargos, funções e até ministérios. Também começavam a empenhar-se em aumentar suas contas bancárias. Privilegiados proletários mudavam de classe, até permitindo-se essa facilidade ao mais importante deles, quem sabe por direito divino. O irônico é ter o Lula percebido a metamorfose, ainda que se julgasse no direito de estar acima e além da lei, como todo grande governante.

O diabo é que as viagens não saíram. As tais caravanas não deixavam os camelódromos. O máximo uma ou outra incursão ao Norte ou ao Nordeste. O resultado aí está: verdadeiro ou fictício, o alvo recebe flechas cada vez maiores de adversários, aliados e de indiferentes. O ex-presidente insurge-se, ainda que com certa educação, diante do modelo adotado por Madame diante da crise, ou seja, a volta da CPMF, a reforma da Previdência Social, a supressão de direitos sociais, o aumento de impostos e de preços, a desindexação e demais maldades.


Distancia-se, o Lula, do outrora caminho amplo e aberto do retorno ao palácio do Planalto em 2018, hoje premido por acusações verdadeiras, ou nem tanto, de proprietário de triplex, sítios de luxo, conferencista sem conferência e sucedâneos.

Faz muito já deveria ter iniciado o périplo da recuperação de sua base. Hesita. Apoiar-se na juventude ainda intocada pelos vícios do poder seria a salvação, ignorando-se se por pudor, desilusão ou descrença prefere perder tempo. Tem consciência de que a perda de popularidade não atinge apenas a sucessora. Só andando para a frente conseguirá recuperar o tempo perdido, se for possível.

Em pequenos arraiais petistas sente-se uma espécie de ânimo juvenil capaz de estimular o chefe maior não apenas a salvar-se, mas a salvar o partido, mesmo precisando atropelar parte do projeto agora adotado por Dilma. Se for preciso isolá-la ou mesmo sacrificá-la, outra alternativa não haverá, se o resultado final vier a ser a preservação do poder. Ou do sonho transformado em pesadelo.

O que positivamente não dá é ficar o Lula protestando em casa, Dilma aderindo aos adversários, no palácio, e o povão pagando mais impostos e praguejando contra o custo de vida...

Menos negociata

 Política não é bate-boca, é diálogo. Requer discernimento, capacidade de avaliar as circunstâncias, levar em conta o conjunto da situação. Sua distorção prejudica toda a sociedade. O que se revela muito grave hoje é constatar que o objetivo dessas “doações” não era só financiar campanhas, era se servir delas para manter no poder o mesmo grupo, sem brecha para quem não fosse dos quadros, sem chance de alternância, com um sistema aparelhado. Uma prática que, além de irrigar com dinheiro público uma patota privilegiada, desrespeita a discordância, reduz o dissenso, limita a liberdade de opinião, cerceia a democracia. Esse é seu aspecto politico mais execrável, por antidemocratico, além de imoral. Basta ver quantos ótimos quadros, ao longo do tempo, deixaram o partido que traiu seu sonho. Seus escrúpulos serão golpe?
Ana Maria Machado

S. Pedro troveja sobre o circo de Quaquá

Em tempos de crise no país, era para ser uma sexta-feira santificada para o magnânimo prefeito de Maricá e presidente regiuonal do PT. São Pedro preferiu despejar raios, trovões e muita água para estragar o circo petista de lançamento do outro "novo" hospital municipal.

Marca registrada da incompetência da prefeitura petista, qualquer obra recebe as bençãos governamentais apenas no lançamento. Uma jogada espertíssima do "menino pobre" que faz estardalhaço antes e durante, porque dificilmente haverá depois. As intermináveis "obras" semeiam os dois mandatos sem nenhuma conclusão, mas são fermento para crescer no prontuário do grande realizador de obra parada.


Quaquá, como se o município fosse uma ilha de outro país em tempos de bonança, alardeia que enfim no segundo semestre deste ano(!!!) a população poderá recorrer a um hospital de primeiro mundo que custará R$ 44 milhões, sem contar aparelhamento. Se o prazo de conclusão é imensamente reduzido, improvável para uma obra de tal vulto, não se pode dizer o mesmo do custo, quase cinco vezes superior ao previsto para outro "novo" hospital prometido para ser concluído em 2013.

O município convive com a promessa há mais de dez anos, quando a obra seria do governo peemedebista em troca da autorização para se instalar um mega-empreendimento imobiliário em Área de Proteção Ambiental. O terreno escolhido foi mantido pelos petistas que até lançaram o projeto do hospital Ernesto Che Guevara com direito à cópia da imagem do revolucionário argentino - réplica da fachada do ministério do Interior em Havana.

Com o veto das autoridades ambientais, o faro governamental descobriu no final do ano passado uma nova e maior área. E foi nesse local que Quaquá instalou a parafernália do lançamento imobiliário (ups!), quer dizer, hospitalar.

Não faltou música, participação maciça do comissariado com um imenso outdoor, mas nenhuma placa indicando a legalização da obra. Daria a largada nas obras que já começaram em novembro com a terraplenagem do terreno. Um projeto de mágica construção a preço milionário para um município que leva zero em saúde, zero em saneamento e dez, nota dez, em armação eleitoreira. Mas São Pedro definitivamente não quis compactuar e dar céu de brigadeiro à festa circense com dinheiro público. Tascou temporal na pelegada petista.

Alguma semelhança?

Populismo midiático significa apelar diretamente à população por meio da mídia. Um político que domina bem o uso da mídia pode moldar os temas políticos fora do parlamento e até eliminar a mediação do parlamento
Umberto Eco

Memento mori - tudo passa, até a atual doença do Brasil

Na minha mesa de trabalho, rodeado pelos meus computadores, smartphones, cadernos, canetas e outras traquitanas, assenta-se Aristóteles, minha caveira de estimação, ali postada como um lembrete de que tudo passa.

Tenho também uma versão mobile, uma caveirinha portátil. Como um smartphone, cabe na mão, e é eventualmente levada a participar de algumas reuniões. Esse é Aristides, cujo objetivo é relembrar aos participantes de alguns eventos que o tempo urge, que é importante ter clareza sobre as coisas prioritárias e as de real significado para nossas vidas.
A dupla de caveiras faz bem relembrar que o inexorável ciclo do nascimento, desenvolvimento, decadência e morte se aplica a tudo e a todos. Erga omnes, isto é, vale para todos.

Atualmente, devo confessar que me sinto positivamente desiludido com o estado geral de nosso país. Como assim, positivamente? A questão é que, durante um bom tempo, fui negativamente iludido.

Desde o começo deste século 21 até aí pelo final da década passada, mais precisamente até meados de 2009, quando comemorávamos a conquista da condição de anfitriões dos maiores megaeventos do planeta (Copa 2014 e Olimpíadas 2016), eu fazia parte do enorme contingente de brasileiros que julgava que a nação navegava com rumo mais ou menos correto.

Acreditava que poderíamos nos desvencilhar enfim e de vez do “complexo de vira-latas”.

Minha ingenuidade me fez acreditar que a rotatividade democrática do poder no Brasil ia acabar operando correções nos problemas que emergiam acerca do poder e sua legitimidade. Acreditava eu que iríamos restaurar o espírito e atitude positivos com que nós, brasileiros, atravessamos a virada do século 20 para o 21.

Agora não dá mais. O cheiro de putrefação elevou-se a tal ponto que a náusea tornou-se sufocante. Mais e mais cadáveres estão sendo retirados do armário por frentes sucessivas de investigações. Mas o que é ruim pode sempre piorar. Não são mais inverossímeis certas hipóteses que apontam que alguns cadáveres possam ser mais do que metafóricos.

Não dá mais para relativizar. Não se trata mais meramente de um acúmulo de casos de corrupção ligados ao poder. Está cada vez mais evidente que para se chegar ao poder tudo foi feito e que para se manter o poder, qualquer coisa foi e será feita.

É cada vez mais eloquente a realidade que se desvela ante nossos olhos. Vai sendo exposto que a nação foi vítima de uma monumental conspiração antirrepublicana. Provavelmente, nos próximos meses, as várias frentes de investigação vão desaguar na possível instalação de um Nuremberg à brasileira.

Infelizmente o Brasil está doente, muito doente. Felizmente, a contemplação do Aristóteles e do Aristides me relembra que tudo passa! O pesadelo que nos assombra são mortos vivos insepultos, que se negam a reconhecer que seu tempo acabou.

Senado gasta R$ 269,2 mil com frentistas e lavadores de carro

Além do gasto de milhões com a locação de veículos para transporte de senadores, o Senado Federal também reserva recursos para contratação de frentistas e lavadores de automóveis. Ao todo, R$ 269,2 mil foram empenhados para que seis funcionários façam esse serviço. O valor atende ao período de um ano.

Os recursos correspondem à demanda de dois frentistas (R$ 97,2 mil), para controle de abastecimento de veículos, e quatro lavadores de automóveis (R$ 172 mil). O serviço é prestado pela empresa “Interativa Empreendimentos e Serviços de Limpeza e Construções Ltda”. A empresa tem contrato com o Senado desde 2012.

De acordo com o edital de licitação do contrato, a justificativa do gasto está no fato de o Senado Federal não dispor das categorias profissionais objeto desta licitação em seu quadro de servidores.

“Há necessidade de dotar a Coordenação de Transportes do Senado Federal de uma equipe mínima para proceder à lavagem e abastecimento dos veículos que atendem aos Senadores e órgãos do Senado Federal”, explica o edital.

O quantitativo de mão-de-obra solicitado é suficiente para a lavagem e abastecimento de 92 veículos, sendo 81 dos Senadores, quatro da direção da Casa, três da Secretaria de Polícia, dois que atendem à Presidência do Senado Federal e duas ambulâncias.

Os frentistas devem desenvolver atividades como abastecer os veículos, fazer recebimento de combustível, fazer controle do abastecimento de veículos, registrando em formulários próprios, colher assinatura dos condutores nos formulários e abastecer apenas a cota de combustível autorizada para cada tipo de combustível.

Também estão entre as atribuições do cargo o impedimento da entrada na sala de controle de pessoas alheias à atividade de abastecimento, verificação os níveis de combustível nos tanques do posto de abastecimento da COTRAN e avisar ao encarregado-geral quando houver necessidade de reposição, verificação de níveis de óleo de motor e de líquidos no sistema de arrefecimento, avisando ao encarregado-geral quando houver necessidade de reposição e controle da qualidade do combustível recebido, utilizando-se de equipamentos disponibilizados pelo encarregado-geral.

Já os lavadores de automóveis são responsáveis por executar os trabalhos de limpeza de veículos do Senado Federal, proceder à lavagem dos veículos e máquinas e à lubrificação externa de veículos e máquinas. Os funcionários ainda operam máquinas de lavagem de veículos, fazem limpeza interna dos veículos e enceram o veículo e dar brilho nas laterais dos pneus com uso de produto específico.

A jornada de trabalho dos funcionários é de 44 horas semanais, sendo: de segunda a sexta-feira 8 horas diárias, com uma hora de intervalo, no período compreendido entre 7h e 17h. Deverá ser permitida a compensação de horas, a ser feita por meio de “BANCO DE HORAS”.

Como o Contas Abertas divulgou no início de fevereiro, a Casa empenhou R$ 1,7 milhão para a locação de veículos automotores para deslocamentos de senadores no Distrito Federal. Os recursos atendem ao período de 1º de janeiro de 2016 a 18 de setembro de 2016. O valor não inclui os motoristas e o combustível que será utilizado pelos senadores nos trajetos.

O número de veículos locados é o mesmo de senadores: 81, isto é, cada um deverá contar com carro privativo. A empresa LM Transportes Serviços e Comércio LTDA é contratada do Senado desde 2011. Os recursos a serem desembolsados em 2016 são parte do 5º aditivo de prorrogação do contrato.

Dyelle Menezes

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A última porta antes do Inferno

A uma geração de distância o Brasil já não se lembra de onde foi que o Plano Real o resgatou. Não dá sinal de ter consciência clara da profundidade do abismo que anda rondando e da curtíssima distância que nos separa do ponto de não retorno.

Empreguismo, ordenha do Estado, incompetência voluntarista, desinstitucionalização e corrupção em metástese derramados por cima de camadas sucessivas de privilégios e entulho legislativo populista acumulado em aluvião desde a Constituição de 88 para ampliar e manter clientelas votando a contento de eleição em eleição, rompeu finalmente todos os limites do suportável. Essa mistura de descontrole de gastos com a derrocada da arrecadação que decorre da paralisia da economia por falta de segurança jurídica é explosiva. O crescimento geométrico da divida que nos levou à hiperinflação num passado recente está de volta com força total.

Se o governo gastar só o que está legalmente obrigado a gastar ela cresce, no mínimo, 6% ao ano acima da inflação segundo as contas de Raul Velloso, o homem que melhor conhece as entranhas da máquina de moer dinheiro do estado brasileiro. O deficit da União foi de R$ 120 bilhões em 2015. O dos estados de mais R$ 30 bilhões. Ainda entraram US$ 57 bilhões em investimentos estrangeiros que disfarçaram o buraco, mas essa fonte está secando. Os juros em que vêm mamar esses dólares estão muito alem do suportável e aumentá-los seria uma confissão de intenções suicidas. O rombo de 2015 já não levou o governo ao mercado; o déficit está sendo finananciado com emissão monetária, ainda que disfarçada.

Na projeção matemática de Raul Velloso a folha de salários da União, que já consome 75% dos gastos públicos e custou 12% do PIB em 2012 deveria dobrar essa proporção do PIB até 2040. Mas a realidade ainda não é tão benfazeja. Ha forças muito mais elementares que “ideologia” empurrando-nos para o desastre. Enquanto aqui fora ha pânico, naquele Brasil dos indemissíveis para todo o sempre onde “performance” é palavra tabu, os salários não param de subir. Brasilia, como sempre, vai de vento em popa e por isso não tem pressa. Os “auxílios” mil – à alimentação, à saude, à “assistência pre-escolar”, à moradia e ao diabo a quatro, não tributáveis e não computados como salário para não mudar o contemplado de faixa no imposto de renda – são os preferidos. Nem por isso abre-se mão do sagrado aumento do “por dentro”. Condescende-se, quando muito, em parcela-lo. A média dos 32 acordos e 6 projetos de lei já aprovados nas “negociações salarias” dos empregados/militantes do PT se aproxima da casa dos 30% nos próximos quatro anos, o que dá como certo, por enquanto (as categorias com “poder de barganha” ainda brigam por bem mais que isso e “à vista”), R$ 50,2 bi a mais na folha do funcionalismo até 2019. Uma vez e meia a CPMF de R$ 32 bi com que sonha dona Dilma.

“O homem é o lobo do homem”…

A imagem virtual do país que tais práticas vão desenhando pôde ser entrevista nos números do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço ventilados na imprensa quando dona Dilma, sob ordens do PT, anunciou que vai usa-lo “para turbinar o consumo”. Dos R$ 273 bilhões depositados lá, a multidão dos trabalhadores da economia privada que sofrem o desemprego que custam os privilégios do Brasil da “1a Classe” detém R$ 18,7 bi (6,8%). A casta dos empregados do Estado, instâncias estadual e municipal incluídas, é dono de R$ 168,4 bilhões (61,7%). Já a imagem física que esses números traduzem é a das quase favelas das imensas “periferias” caóticas e insalubres que vão recobrindo o país do Oiapoque ao Chuí, entre “invasões” eleitoralmente incentivadas e “loteamentos” de araque comprados a vereadores ladrões em torno de núcleos urbanizados minúsculos que explicam mais que suficientemente a tomada de assalto do país tanto peloAedes aegypti quanto pela epidemia de crime que reduziu a vida no Brasil a uma espécie de roleta russa.

O colapso da economia a partir desse patamar é um desastre de proporções ciclópicas. Algo eleitoralmente tão tóxico que Dilma já não tem apoio nem do PT e Lula espera apenas o melhor momento para traí-la. Mas, como é ela que está à frente do esquema de sustentação dos “Sem Crise”, é por ela que, até segunda ordem, eles lutarão na rua e no front clepto-parlamentar, a esta altura regido por gambiarras jurídicas e fabricações de “maiorias” à venezuelana que enterram cada vez mais fundo a segurança jurídica sem a qual é impossível construir.


É sobre esse pano de fundo que Raul Velloso sugere seis medidas capazes de reduzir de 24% para 14% do PIB a projeção do custo da folha de pagamento do Estado em 2040, o que sinalizaria, ao menos, que o país retomou o controle sobre suas contas, reajuste do salário mínimo pelo PIB per capita; limite das pensões a 70% da aposentadoria do morto; idade mínima de 65 anos para aposentadoria; correção dos beneficios assistenciais por 75% do salário mínimo;
idade minima para a fruição de beneficios assistenciais de 65 para 67 anos;
fim do abono salarial (o Bolsa Família garante os realmente miseráveis); e uma manobra política de emergência para contornar a guerra PT x Congresso e manter o país vivo até que ela chegue onde tiver que chegar: os governadores, todos juntos, patrocinariam esse pacote.

Velloso aposta na foça do instinto de sobrevivência. Os governadores estão falidos e isso tiraria o seu caixa tanto quanto o da União do sufoco; pertencem a multiplos partidos, o que garantiria a condição de união nacional imprescindível à aprovação das medidas; proporcionaria ao PT um “álibi” para permitir que se inicie ao menos a remoção do entulho populista mais difuso, sem tocar diretamente na ferida dos seus empregados/militantes. Feita a ressuscitação do Brasil, depois ve-se o que fazer com Dilma, o PT e o seu estado dentro do Estado para além do que o juiz Moro já está fazendo.

Triste? É. Difícil? Mais ainda. Mas é o que temos pra hoje, considerado que pode não haver amanhã.
Fernão Lara Mesquita


PT diz como salvar o país: mantendo Dilma no poder e Lula fora da cadeia

Evidenciei num post nesta madrugada quão dramático é para o Brasil o casamento da vitória de Leonardo Picciani na disputa pela liderança do PMDB na Câmara com o novo rebaixamento da nota de crédito do Brasil, decidido pela Standard & Poor’s. Por quê? O primeiro evento indica que será um pouco mais difícil do que seria saudável apear Dilma do poder. O segundo evidencia uma queda ainda mais acentuada na expectativa de que a presidente possa dar uma resposta à crise econômica, política e de confiança que toma conta do Brasil. Ou por outra: ela é um vetor dos desatinos. Se sai fortalecida de um pequeno evento, então o Brasil é que se enfraquece. Mais: a intervenção do Planalto no PMDB implica empurrar a parte derrotada para a oposição aguerrida. Sigamos.

nani
Para efeitos de raciocínio, vamos fazer de conta que Dilma, com a vitória de Picciani, acaba de dar início a um ciclo virtuoso. Ora, na política, algo é virtuoso ou vicioso em relação a alguma coisa. Por que a presidente precisa de musculatura? No momento, o diagnóstico é unânime entre as pessoas responsáveis, ela precisa dar uma resposta à crise fiscal e acenar com algum futuro. Assim, é forçoso que consiga conter gastos no presente e demonstrar suas virtudes visionárias com uma reforma da Previdência responsável.

Mas nada disso vai acontecer. Em primeiro lugar, porque o Planalto não quis a vitória de Picciani em razão de algum objetivo estratégico. O objetivo era derrotar desafetos. E, em segundo lugar, porque o PT não vai aderir nem à agenda dos cortes nem à reforma da Previdência.

Os deputados federais do partido se reuniram nesta quinta para definir as prioridades de 2016. O resultado é assombroso.

A conclusão é que este não é o momento de implementar uma reforma na Previdência Social. Wadih Damous (RJ), uma espécie de boneco de ventríloquo de Lula, mas com curso universitário, foi um dos mais enfáticos na recusa a uma eventual reforma, pois, segundo ele, “colocá-la como centro da agenda geraria tensão na base social do governo, nos movimentos sociais”.

Carlos Zarattini (SP) disse que mudanças na Previdência podem ser deixadas para depois. Para ele, o importante agora seria adotar “medidas como a retomada do crédito e o fortalecimento de programas como o Minha Casa Minha Vida”. Vale dizer: a receita do petista para o país sair da crise é aumentar gastos.

Mas ninguém conseguiu sintetizar com tanta precisão o que quer o PT como o líder da bancada, Afonso Florence (BA): segundo ele, as prioridades do partido são enterrar o pedido de impeachment de Dilma e defender o ex-presidente Lula.

E como isso ajudaria o Brasil? Simples: para Florence, “os rebaixamentos da nota brasileira [pelas agências de classificação de risco] trouxeram a crise política como um dos motivos”.

Entenderam? Florence acredita que, se nenhuma suspeita mais houver contra Lula e se ficar claro que Dilma permanece no poder até 2018, então o Brasil sai da crise. É claro que isso não explicaria como o país entrou na dita-cuja, uma vez que Lula não era ainda perseguido pelo seu passado, e Dilma, longe de ser ameaçada com o impeachment, conquistou um segundo mandato. É um raciocínio asnal.

Vocês entenderam por que nada vai acontecer e por que tudo vai piorar? Vocês conseguem ter a noção do grau de loucura e irresponsabilidade que toma um partido quando seus luminares decidem que a sua prioridade é impedir a queda do governo e salvar a biografia do chefe? Vocês entenderam a que nos condena essa agenda, que pretende mandar o futuro às favas e, no presente, radicalizar os fatores que condenaram a economia ao buraco.

Enquanto Dilma e o PT estiverem por aí, assim será. A crise está se aprofundando. Dilma está brincando com fogo. Acabará se queimando. É uma pena que, se isso acontecer, gente inocente também vai acabar pagando o pato.

Como chegamos até aqui

Dia desses, conversando sobre a situação econômica do país, um amigo perguntou como deixamos a coisa chegar nesse ponto?  Esta não é uma pergunta simples, e a resposta bastante complexa.  Tinha razão o velho Nelson Rodrigues quando disse que “o subdesenvolvimento não se improvisa; É obra de Séculos”.

Sem dúvida, nossa história está repleta de oportunidades perdidas e de governos horrorosos.  Para começar, o único governo relativamente liberal que já houve nestas plagas, encabeçado por um homem probo e culto – D. Pedro II –, acabou sendo abruptamente encerrado por um golpe de Estado, que desencadearia numa sucessão secular de governos presidencialistas tacanhos, fossem eles empossados a golpes de estado ou eleições – com as raras e honrosas exceções de praxe.



Mas a pergunta do meu amigo referia-se ao período mais recente, protagonizados por governos que conseguiram transformar a pouca ordem econômica que ainda preservávamos num verdadeiro caos, onde se destacam a atual depressão econômica (queda de 4,08% do PIB em 2015), inflação na casa dos dois dígitos, dívida pública em franca expansão, irresponsabilidade fiscal galopante e, last but not least, índices de competitividade e produtividade em declínio acentuado.

Como já mencionado, a explicação para tanto descalabro não é simples, nem os problemas estão limitados a uma só causa, mas se tivesse de apontar um fator principal para nossos infortúnios econômicos atuais, eu miraria na eclosão sem precedentes do chamado capitalismo de compadrio em Pindorama, pois acredito que todos os problemas citados acima estão, direta ou indiretamente, de alguma maneira, atrelados a esta erva daninha que corrompe os mercados de qualquer nação onde se instale.

Como ensinou Murray Rothbard em seu clássico “Power & Market”, existem apenas duas maneiras [legais, embora não necessariamente legítimas] de se adquirir renda: os meios econômicos (produção e trocas voluntárias) e os meios políticos (obtenção de privilégios especiais à custa de terceiros). No processo de livre mercado são utilizados apenas os meios econômicos e, consequentemente, os ganhos de todos estão atrelados, obrigatoriamente, ao que os outros indivíduos na sociedade estão dispostos a pagar por nossos serviços.  Nesse arranjo, não há espaço para transferência forçada de renda e de riqueza.

Quando os subsídios e favores do governo entram em cena, no entanto, a situação muda de figura.  Através deles são disponibilizados os meios políticos para a obtenção de renda.  Enquanto no livre mercado a acumulação de riqueza é apenas uma resultante de escolhas voluntárias de todos os indivíduos e, por extensão, o meio segundo o qual os homens servem uns aos outros, no sistema de compadrio o subsídio governamental abre o caminho para a repartição da renda em função da capacidade das pessoas ou grupos de pessoas de obter o controle sobre o aparelho de Estado.

A ingerência ostensiva do governo nos mercados, portanto, cria um processo de distribuição de lucros e perdas diferente, onde os ganhos estão apartados da produção eficiente e da troca voluntária, e são determinados por fatores diversos daqueles.  Na medida em que esta distribuição ocorre, a repartição dos lucros é distorcida e desvinculada da prestação de serviço eficiente aos consumidores.

Nesse novo arranjo, os níveis de produção e bem estar geral são comprometidos de duas maneiras: primeiro, pelo desvio de energia e recursos da atividade produtiva para a atividade política (rent-seeking) e, segundo, pelo fato de que o governo inevitavelmente irá cobrar pesados encargos da sociedade, principalmente das empresas e indivíduos produtivos, para beneficiar grupos privilegiados, não raro ineficientes.  Em resumo, os apadrinhados políticos conseguem, legalmente, reivindicar somas cada vez maiores de recursos dos pagadores de impostos (normalmente a fração eficiente da economia).

Aqueles que obtêm sucesso no arranjo de livre mercado são os mais hábeis e eficientes na produção de mercadorias e serviços, portanto, em servir aos seus semelhantes.  Já aqueles que são bem sucedidos através da luta política são os mais hábeis em conseguir favores daqueles que exercem o poder da coerção legal.  Geralmente, o processo de divisão e especialização do trabalho fará com que pessoas diferentes sejam adeptas dessas duas atividades bastante distintas, e, por conseguinte, pela via da concorrência desleal, o esmagamento de um desses grupos será levado a efeito, para que o outro grupo possa beneficiar-se.

No capitalismo de Estado, notadamente em economias grandes e diversificadas como a brasileira, não é fácil elencar todas as distorções e as cadeias lógicas de causa e efeito promovidas pela economia de compadrio. No entanto, não é preciso ser nenhum gênio para inferir como as políticas abundantes de isenções fiscais para determinadas indústrias aumentam a carga tributária sobre a sociedade inteira.  Como as políticas de crédito farto e subsidiado de BNDES, CAIXA e BB para empresas apadrinhadas aumentam tanto o ônus fiscal quanto o custo do dinheiro para as demais.  Como o conluio e a corrupção, que envolveram praticamente todos os grandes contratos governamentais nos últimos anos, fizeram com que empresas ineficientes subjugassem as eficientes na corrida por maiores receitas e lucros.  Como o aumento absurdo dos gastos públicos fez com que a inflação alcançasse índices que não víamos há décadas.

Não raro, essas distorções são invisíveis aos olhar distraído e até mesmo aos índices agregados, pois os verdadeiros empreendedores – como apontou Adam Smith – são capazes de superar muitas das obstruções impertinentes que loucura estatal é capaz de colocar em seu caminho, e continuar promovendo a prosperidade geral.   Porém, há limites para esta habilidade, especialmente quando a economia de compadrio resulta em distorções insuperáveis, bloqueando todos os incentivos da atividade empresarial e, consequentemente, os ganhos naturais do processo de especialização e divisão do trabalho.  Parece que, infelizmente, alcançamos este patamar.

O mais desanimador, entretanto, é que sair dessa verdadeira armadilha não é tarefa fácil e demanda um tempo razoavelmente longo, principalmente no que concerne à desmontagem do vasto sistema de privilégios (não apenas empresariais e corporativos, mas também individuais) erguido por sucessivos governos, desde a Constituição de 1988.
João Luiz Mauad

O pior possível

Um país quebra, mas não fecha. Se em crise, alguma saída há de encontrar, ainda que a pior possível. A política existe para evitar esse pior possível – golpes, guerras civis -, ainda que seja ela, a política, a causa da crise. É sempre causa e solução.

E é para isso que existe, já que conflitos são inerentes à condição humana e não deixarão de existir. O aspecto mais grave da crise brasileira é a resistência do governo a permitir uma saída política. Investe no conflito, tentando minar o jogo político, intervindo na economia interna do Judiciário, do Congresso e dos partidos – vide sua intervenção na escolha do líder do PMDB.

Investe, pois, no pior possível. Na medida em que as portas se fecham a uma alternativa política, civilizada – e isso pressupõe o governo reconhecer sua própria falência –, outras, perigosas e de consequências imprevisíveis (ou até previsíveis), se abrem.

O projeto político do PT, independentemente dos crimes que lhe são imputados pela Lava Jato, fracassou. O país acaba de receber a terceira desclassificação econômica por uma agência internacional de avaliação de riscos, acrescida de um viés de baixa – isto é, sem perspectivas de melhora.

Em termos concretos, significa mais evasão de capitais – e menos dinheiro, menos investimentos, menos empregos, mais crise social, mais necessidade de buscar saídas políticas.

É hora de quem está no poder admitir seu fracasso. E essa é a saída mais indolor para o país. Não há conspiração: não foi a oposição que fez as opções econômicas que levaram a esse desfecho. E não foi a oposição que levou o partido do governo, o PT, a sabotar o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e agora a se opor ao projeto da reforma da Previdência. E, no começo de tudo, a saquear a Petrobras e demais estatais.

A confusão está dentro, e não fora do governo. E reflete a falência de seu projeto de poder, que, além de não dispor de saídas para a economia, vê-se às voltas com os tribunais. Também aí vale-se do jogo truculento, ao arrepio das instituições e da lei.

A suspensão do depoimento de Lula a um procurador, em São Paulo, além da ilegalidade intrínseca ao ato, foi ornada com uma exibição de truculência típica de milícias nazifascistas. Lula, ano passado, já em meio a acusações graves de corrupção, avisou que iria “pro pau”. E mencionou dispor de um exército – o “exército do Stédile” – para enfrentar os adversários.

Ocorre que seu grande adversário, desde então, é a lei. As acusações que sobre ele pesam, com indícios consistentes (alguns veementes), em grande parte fornecidos por pessoas que com ele privavam desde quando estava na presidência da república, precisam ser respondidas.

Se é inocente, não há por que reagir como tem feito. Dispõe de um vasto leque de renomados advogados e, até que se prove o contrário, beneficia-se da presunção de inocência. E beneficia-se além da conta, já que até agora só depôs como testemunha e ainda não é oficialmente investigado, como, por exemplo, o é Eduardo Cunha, cujas denúncias são bem menos graves que as que pesam contra Lula e Dilma. Mas, se, apesar de tudo isso, parte para a ignorância das milícias, reforça apenas a presunção de culpa.

O que se viu em São Paulo, às portas do fórum de Barra Funda, na quarta-feira, foi um espetáculo de ilegalidades. Sindicalistas da CUT, militantes do PT, financiados por dinheiro público (o imposto sindical), vieram de várias partes do país, em ônibus fretados, agredir quem protestava contra a conduta de Lula – pouca gente, já que não houve convocação e era dia de trabalho.

As milícias de Mussolini e Hitler agiam assim – e deu no que deu. O modo como o governo tem agido, no tapetão em Brasília, não é diferente. E estimula a truculência miliciana, que é o avesso do jogo político civilizado. O que explica governadores, prefeitos e parlamentares – funcionários públicos, pagos pelo contribuinte – deixarem suas funções para se reunirem no Instituto Lula em busca de um meio de driblar o Código Penal e evitar que seu guru – ex-presidente e, portanto, cidadão comum – se explique perante o Judiciário? Outra ilegalidade. Milicianos de gravata.

Para onde esse enfrentamento conduzirá? Para o agravamento da crise - econômica, política, moral, psicossocial -, que, sem vislumbrar um conduto pacífico, poderá resultar no “pior possível”, já que alguma saída sempre haverá.

Um país quebra, mas não fecha. O Brasil quebrou. Resta saber que saída encontrará, já que não é possível fechá-lo.

Se fechar a torneira, não precisa de CPMF

Vista como uma solução equivocada há anos, a reimplantação da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras foi trazida de volta à pauta do Congresso pelo governo. Com ampla repercussão negativa, não apenas no setor produtivo, mas também em toda a população brasileira, o retorno da CPMF será mais um passo para prosseguirmos rumo ao abismo econômico em que se transformou o nosso país.

O imposto foi utilizado há oito anos para cobrir gastos com a saúde pública. Agora, apesar de ser anunciada como solução de caixa do Estado pela Presidência da República, com a finalidade de ajuste fiscal, a CPMF não é nem de longe a melhor opção para equilibrar as contas públicas. O retorno será apenas para corrigir equívocos da administração, pois a população e os meios produtivos não serão beneficiados em nada.

Ao analisarmos os atuais escândalos envolvendo os mais divergentes grupos políticos, fica claro onde está o real problema orçamentário. Salta aos olhos dos brasileiros a urgência da reforma para diminuir o tamanho da máquina pública e o excessivo número de ministérios, combatendo a corrupção e reduzindo-se gastos nas estruturas de governo. Apenas o corte nos supersalários pagos a servidores, que chegam a ser maiores que o teto de R$ 33,7 mil, poderia economizar quase R$ 10 bilhões por ano, quase o valor citado para cobrir a CPMF.

Está nas mãos dos parlamentares – que estão onde estão graças aos votos de seus eleitores – a não aprovação da contribuição. As primeiras vitórias já foram a queda na previsão total do valor de arrecadação, pois a estimativa inicial era de R$ 32 bilhões e, atualmente, é de R$ 10,3 bilhões, além dos prazos impostos para a tramitação do projeto. Entre as bancadas de deputados federais, também é grande a probabilidade de rejeição. Agora, nos resta pressionar para que os representantes paranaenses votem contra a inserção do imposto, fazendo-se necessário um trabalho corpo a corpo de todos os cidadãos. Mas, se ocorrer a aprovação da CPMF, é preciso que a população saiba claramente quem votou contra e a favor da sua recriação.

É importante repensar a gestão pública em todos os níveis. Os modelos atuais estão esgotados, as cidades estão se somando em problemas e não em soluções, não há continuidade de projetos e apenas são ajustadas realidades ao grupo político que vence as eleições. As regiões metropolitanas devem ser pensadas de forma integrada, com soluções técnicas que ajudem o cidadão a ser feliz e morar perto do trabalho e da escola de seus filhos, com serviços de saúde e de segurança adequados. As necessidades dos municípios são muitas e os orçamentos estão minguando. Torna-se fundamental a busca da competência via gestão moderna de recursos em vez da criação ou elevação de imposto.

Apesar de todos os esforços do governo em forçar essa aprovação, está claro que ninguém quer o retorno do tributo. E o motivo é simples: se fechar a torneira da corrupção espalhada em todas as esferas de governo, da ineficiência na administração pública e dos milhares de cargos comissionados existentes no Brasil, não precisa de CPMF.

Guido Bresolin Junior