domingo, 10 de maio de 2015

Lula na TV, samba de Gonzaguinha, e marqueteiro baiano

Resultado de imagem para trabalhadores segundo o pt charge
“Ô muié/Traga a panela/Pr'eu bater no fundo dela
Com o cabo da cuié/Pois senão não tem feijão
Ora vamo fazer um arrasta-pé /(Não é?)
Eu já vivi muito tempo/ E vou viver muito mais
Já vi coisa nessa vida/De fazer cair pra trás
O mandado é quem faz tudo/O mandador é quem desfaz
O mandado não tem nada/ O mandador tem é demais (qual é)”

(Versos do samba “Pá-nela”, composição de Gonzaguinha, sucesso na interpretação de Roberto Ribeiro)
Foi tiro e queda, do jeito que se diz lá no meu sertão, à beira do Rio São Francisco: Lembrei logo da letra do samba do saudoso e visionário filho de Luiz Gonzaga, quando o pernambucano líder maior e fundador do Partido dos Trabalhadores, Luis Inácio Lula da Silva - ex-presidente da República e campeão de antigas pesquisas de popularidade - pronunciou as primeiras palavras no programa político de seu partido no rádio e na TV, e o protesto começou.

As panelas e as buzinas começaram a zoar como jamais se havia escutado e visto antes em Salvador - propagandeado "paraíso petista" implantado há anos à beira da Baia de Todos os Santos. Impressionante. Mesmo tendo vivido e presenciado tantas voltas e reviravoltas da vida e da política do País, era difícil acreditar no que estava acontecendo na terceira maior capital do Brasil, na noite de terça-feira, 5 , para não esquecer. "O lugar onde devo ter nascido em outra encarnação", segundo o próprio Lula. Tirada espiritualista de palanque em comício eleitoral no Farol da Barra, tempo não muito distante, quando Antonio Carlos Magalhães era ainda quem mandava na Bahia.

Nos 10 minutos do panelaço desta semana, a capital que sediará, com pompas e circunstâncias já anunciadas, no mês de junho, o congresso nacional do partido no poder com Dilma Rousseff (a presidente que se esconde até das comemorações dos 70 anos da vitória das forças aliadas contra o nazismo na II Guerra Mundial), virou de pernas para o ar. O "santuário" político e eleitoral de Lula, herdado por Dilma nas duas últimas disputas presidências, parecia outra vez tomada pelo espírito indomável que deu a Salvador, a fama histórica de "cidadela de oposição".

Em segundos, a silenciosa rua em que moro no bairro de classe média do Itaigara (e imediações), onde é possível ouvir um inseto voando - mesmo nos dias de maior zoada do furdunço do carnaval baiano – foi tomada por um barulho ensurdecedor. Taque, Taque, Taque, nas janelas e sacadas dos prédios. Fon, Fon, Fon, nas ruas e avenidas adjacentes. E na cidade quase inteira, uma incrível sintonia de sinais luminosos tremelicando nas casas e nos edifícios, apesar da contenção dos gastos com energia elétrica, para tentar driblar a escorcha das contas de luz. Até aqui, uma das marcas mais gritantes do conto eleitoral no segundo governo da mandatária petista.

Um espetáculo de indignação política e social de uma cidade estimulante de ver. Mas difícil de acreditar e entender (mesmo para calejados jornalistas e analistas políticos) "na capital mais lulista e dilmista do Brasil", no dizer de boca cheia dos petistas locais.

Ainda mais, quando o intenso e incessante bater de panelas e buzinaço nas ruas, durante todo o tempo do programa na TV, vinham acompanhados de gritos e palavras de ordem impensáveis até bem pouco tempo. Pelo menos antes do processo do Mensalão e da Operação Lava Jato, que começaram a penetrar e expor os intestinos corruptos e corruptores do poder atual no país: "Fora PT", "Fora Dilma", "Fora Lula". "Pega Ladrão", "Mentiroso".

Fiquemos por aqui, porque outras palavras de ordem gritadas e gravadas nas principais zonas da capital baiana, além Itaigara (Pituba, Stiep, Rio Vermelho, Barra, Brotas, Centro, Cidade Baixa...) são impróprias para menores. Mas os vídeos foram mostrados depois em noticiários de TV, sites dos jornais, blogs e, principalmente, postados fartamente nas redes sociais.

Mas foi um panelaço do tamanho do Brasil, e o mundo inteiro ficaria sabendo disso quando o fato virou notícia, logo em seguida, no Jornal Nacional, e pegou também a estrada internacional. É verdade, tudo bem!.

Acontece que em Salvador, um protesto desta envergadura contra Lula, o Governo Dilma e o PT, é algo praticamente inédito. E, seguramente, o alto comando estadual petista, a começar pelo governador Rui Costa, vai pensar nisso, antes da magna reunião nacional do PT, marcada para acontecer em breve na cidade.

Por enquanto, segue a caça aos bodes para jogar a culpa pelo fiasco monumental do programa do Partido dos Trabalhadores. Sabe-se, desde a primeira hora, que a ausência de Dilma no programa do PT, foi sugerida por Lula, que virou "âncora" do fracasso, ao lado do presidente nacional do partido, Rui Falcão. Este recebeu gritos de "mentiroso" no panelaço soteropolitano, quando anunciou na TV que os petistas, comprovadamente com culpa no cartório do Lava Jato, serão expulsos do partido.

"Sabe de nada, inocente!", diria o compadre Washington na Bahia.

Diz-se, também, agora aos quatro ventos: por motivos "de contenção de despesas, diante da crise geral", o tradicional responsável pela propaganda nacional do PT (João Santana) foi substituído por Maurício Carvalho: um marqueteiro de Salvador, notório propagandista com pouco senso de realidade e '"ego do tamanho de um bonde'', como dizem os soteropolitanos. O tipo ideal para ser o bode da vez dos que mandam e realmente decidem no PT. A conferir.

O país cresce feito rabo de burro


Da reforma política não se fala mais. Desmanchou-se no ar. Não há consenso para nada de importante, no Congresso. Sequer o distritão, que levaria para a Câmara os mais votados em cada estado, quanto mais a proibição de doações das empresas nas campanhas eleitorais. Muito menos a redução do número de partidos de aluguel. Até a extinção dos suplentes de senador não vai passar. Fim da reeleição e mandato de cinco anos para presidentes, governadores e prefeitos? Nem pensar, porque a ambição da maioria, mesmo ilusória, funciona a todo vapor.

Marcada para o final do mês uma semana de discussões e votações intensivas na Câmara, sequer há certeza de que venha a realizar-se. A conclusão surge clara: o país é esse mesmo, milagres inexistem. Deputados e senadores elegem-se há tempos dentro das regras atuais, mesmo canhestras e distorcidas. Por que contribuiriam para mudá-las e arriscar-se a não voltar, na próxima Legislatura?

Esvaiu-se o discurso fácil de que nossos problemas desapareceriam com a reforma política, ainda mais com a fantasia de uma Constituinte Exclusiva, bobagem endossada por quem jamais recebeu uma aula de Direito Constitucional. O poder constituinte que dá origem a uma Constituição só pode ser exercido quando há a ruptura das instituições, a falência da ordem anterior. E o poder constituinte derivado, inerente ao Congresso, não pode ser delegado a nenhum corpo estranho. Qualquer mudança na lei fundamental, e algumas tem sido praticadas desde 1988, só por iniciativa de deputados e senadores. Os mesmos que não votarão a reforma política, ao menos no que ela teria de essencial para aprimorar as instituições.

Outro empecilho ao sonho da reforma política situa-se na resistência das elites à aplicação prática dos dispositivos constitucionais atuais. Onde anda a reforma agrária? A participação dos empregados no lucro das empresas? A cogestão? A determinação de que o salário mínimo deve bastar para o trabalhador e sua família enfrentarem despesas com educação, saúde, alimentação, moradia, vestuário, transportes e até lazer? O estado de bem-estar social limita-se à esmola do Bolsa Família?

Há mais de doze anos com o Partido dos Trabalhadores no poder, quantos princípios da Constituição atual deixam de ser cumpridos? Até os direitos trabalhistas, em vez de aumentados, tem sido reduzidos. Ainda agora acabam de ser atingidos o seguro-desemprego e o abono salarial, enquanto multiplica-se o lucro dos bancos.

Em suma, o país cresce feito rabo de burro, sem a menor perspectiva de promover a reforma política. Melhor seria, ao menos, aplicar os dispositivos que já existem.

Nada mais canhestro do que a exigência, na Lei da Bengala, de passarem por nova sabatina no Senado os ministros do Supremo Tribunal Federal beneficiados com o aumento de 70 para 75 anos de idade o prazo para suas aposentadorias. Já não foram sabatinados quando de suas indicações? E se por hipótese rejeitados pelos senadores, estariam demitidos?

Dia das Mães (versão do povo)

DIA DAS MAES congresso penitenciaria maes tristes chorando

Mamma Mia!

A barulhenta reação durante programa de rádio e TV do partido acendeu o alerta vermelho. Foi contra o PT. Contra o até então intocável Lula
charge regi 

Em março de 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou a alcunha de “mãe do PAC” para sua ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. No palanque montado no Complexo do Alemão, no Rio, Lula anunciou R$ 1 bilhão em obras para as favelas cariocas, a serem tocadas pela gerente implacável - que dois anos e oito meses mais tarde o sucederia no mais alto posto do país. Começava ali a construção da ficção Dilma, a afilhada dos sonhos do ex que passou a assombrar o PT e o próprio Lula.

No mesmo palanque, Dilma se aprochegou do chefe e aceitou publicamente o papel.

O temperamento irascível auxiliava na criação da imagem de durona, exigente, intransigente. Faltava-lhe quase tudo que um presidente da República precisa ter. Sobrava-lhe arrogância, característica que Lula, dono de igual ou maior soberba, subestimou.

Naquele ano, Lula acabara de bater o primeiro de seus muitos recordes de popularidade. Alcançara, segundo o Datafolha, 55% de aprovação que, 10 meses depois, chegariam a inacreditáveis 70%%, e em nada menos que 78% dois meses antes das eleições. Seu governo chegou a obter 82% na soma de ótimo e bom.

O céu – e a Constituição que lhe proibia disputar um terceiro mandato consecutivo – era o limite. A solução segura era a fiel mãe do PAC, que conduziria o governo sem criar sombras.

Deu tudo errado.

A pupila começou bem. No final de março de 2011 chegou a desbancar o imbatível Lula, alcançando 56% de aprovação, o maior percentual de um presidente no primeiro trimestre de mandato. Substituiu com sucesso a mãe do empacado PAC pela faxineira que demitia corruptos do governo, ampliando ainda mais sua popularidade.

Os números lhe subiram à cabeça, fazendo-a crer que era o que não é.

Multiplicaram-se os desmandos, as políticas do atraso, as besteiras. Interveio nos bancos e empresas estatais, desequilibrou o setor elétrico, com consequências drásticas para o consumidor que hoje tem de pagar a conta. E está envolvida diretamente, ainda que por omissão, no escândalo da Petrobras, o maior da história, com desvios confessos em balanço de nada menos de R$ 6 bilhões, e perdas superiores a R$ 40 bilhões por má gestão.

Dilma foi longe demais para quem não daria um passo com as próprias pernas. Brigou com quem não podia e afagou quem não devia. Irritou aliados e desagradou o seu partido.

Com aprovação de apenas 12%, o pior índice que um presidente já teve, Dilma se tornou símbolo de tudo que o país não quer.

Mas, em tempos de denúncias que não deixam o PT respirar, ter Dilma como mãe de todos os males não era de todo ruim. Até o último dia 5.

A barulhenta reação durante programa de rádio e TV do partido acendeu o alerta vermelho. Foi contra o PT. Contra o até então intocável Lula.

E não adianta apelar para as mães. Elas também batem panelas.

Confusão total: PT se descola de Dilma para tentar sobreviver

A situação é cada vez mais sinistra e assustadora no Triângulo das Bermudas brasileiro, entre o Planalto, o PT e o Instituto Lula. Em meio ao tiroteio, a direção nacional do partido marcou mais uma reunião no próximo dia 18, em Brasília, para avançar na estratégia de resposta à crise que assola o governo, atinge o PT e também a própria imagem do ex-presidentee Lula, antes intocada.

A jornalista Clarissa Oliveira, editora de Política do portal iG, registra que dirigentes petistas ainda saem em defesa da presidente Dilma Rousseff e das medidas do ajuste fiscal, mas nos bastidores, porém, a estratégia é fazer com que o PT se desvincule cada vez mais da presidente Dilma Rousseff e reforce seu vínculo com Lula.

Traduzindo: os próprios petistas já consideram que o governo e a presidente Dilma Rousseff não têm possibilidade de recuperação. Acham que daqui para a frente, a tendência é a situação piorar, porque Dilma Rousseff não mostra carisma nem competência para liderar a recuperação do país – uma constatação óbvia, pois ela não tem maioria no Congresso nem apoio da população, não pode sair às ruas nem aparecer na TV, é um fracasso redundante, e até foi obrigada a terceirizar a condução da economia e a articulação política.

Para evitar que o PT seja tragado nesse turbilhão, a saída que os dirigentes julgam encontrar é incentivar Lula a embarcar num amplo giro de viagens pelo país, missão que ele próprio sugeriu e já se comprometeu a fazer. Segundo a jornalista Clarissa Oliveira, este plano já começou a ser debatido internamente e deve passar pelo crivo da Executiva Nacional na reunião do dia 18.

O mais curioso é que o Planalto faz movimento idêntico. Na tentativa de sobreviver e evitar o impeachment, Dilma e sua entourage tentam desesperadamente se descolar do PT e já chegaram ao ponto absurdo de atribuir ao partido a causa do superpanelaço de terça-feira.

Detalhe importante: a equipe petista mais próxima a Dilma é toda formada por políticos sem mandato, como Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini, Miguel Rossetto, Edinho Silva e Aldo Rebelo. Se Dilma cair, eles ficam fora da política até 2018. Daí o desespero.

É claro que essas manobras não darão certo. Nem o PT conseguirá se descolar de Dilma, nem ela se livrará do partido, nem Lula vai sair desta encrenca simplesmente repetindo que não sabia de nada e pregando o ódio social e racial, culpando as “zelites” que odeiam o povo e não querem que ele tenha carro nem viaje de avião.

Além do mais, é preciso saber como Lula será recebido nessa excursão pelo país. A previsão do tempo político registra que há novos panelaços em formação, ameaçando o Triângulo das Bermudas.

A pedra de Sísifo e os trabalhadores prejudicados

O mito grego da pedra do rei grego Sísifo, que Homero narra na Odisseia, me veio à memória neste momento de inquietude de milhões de trabalhadores brasileiros aos quais a crise econômica pode privar, mais do que a outros mais favorecidos, de seus direitos trabalhistas.

O rei Sísifo foi condenado pelos deuses a subir uma montanha empurrando uma pesada pedra. Quando chegava ao topo, a pedra escorregava de suas mãos e rolava de novo até o chão. E Sísifo devia carregá-la de volta montanha acima, repetidas vezes, até o infinito.


Uma das interpretações mais conhecidas do mito grego é a do escritor e filósofo francês Albert Camus, que afirma que “não existe castigo mais terrível que o do trabalho inútil e sem esperança”.

Os trabalhadores que dependem de um salário para viver e sustentar sua família, têm de fazer muitas contas para não cair nas garras do cheque especial ou dos juros estratosféricos do cartão de crédito, têm de fazer cada vez mais malabarismos para terminar o mês sem dívidas.

A classe trabalhadora brasileira suporta uma das maiores cargas tributárias do mundo e recebe muito menos do Estado em benefícios sociais que seus colegas dos países mais desenvolvidos.

Esses trabalhadores que sempre encontravam trabalho e que hoje começam a temer o fantasma do desemprego são os menos escolarizados e profissionalizados, os primeiros a escorregar para o desemprego forçoso.

É essa sensação de inutilidade de que escrevia Camus que devem sentir milhões de trabalhadores brasileiros cada vez que veem cortados seus direitos, diminuir seu salário e aumentar os preços. Eles nos recordam o castigo que os deuses impuseram a Sísifo.

No Brasil, um país rico e de pessoas criativas, os trabalhadores sentem a angústia do personagem do mito grego de ter de fazer, todo mês, o esforço de subir a montanha com a pedra de seu trabalho até que, por fim, ela escorregue e se vejam outra vez de mãos vazias ou, o que é pior, sujas de dívidas.

Como recordou com ironia o professor de Políticas Públicas da Universidade de Harvard Felipe Campante em um simpósio da Fecomercio em São Paulo, não é verdade que os governos brasileiros são incompetentes. Pelo contrário, segundo ele, existe um campo em que o Brasil se mostra mais desenvolvido que a maioria dos governos do mundo: na arte de impor aos trabalhadores impostos diretos ou indiretos.

O Brasil figura, de fato, entre os países com maior carga tributária do planeta. Com 36,4%, a maior em 30 anos, os brasileiros são hoje os que pagam mais impostos entre os países da América Latina, segundo a OCDE, e estão entre os 14 países mais taxados do mundo.

É cruel que países como os Estados Unidos tenham uma carga tributária de 24,3% ; o Japão, de 28%; a Suíça, de 28%; o Canadá, de 30% e até o México, de 19,7% e o Chile, de 20,8%, e o Brasil ganhe de todos eles com seus 36,4%, que o governo ainda gostaria de aumentar.

Com a diferença de que nesses outros países o Estado oferece aos trabalhadores uma série de serviços públicos e sociais de primeira qualidade do berço até a morte. Pagam, mas recebem. Os brasileiros, pagam e recebem serviços que só os mais pobres usam. Disso resulta que uma família de classe média é mais sacrificada no Brasil que em outros países com impostos maiores.

Segundo o Índice de Arrecadação Tributária (IVAT), a carga fiscal brasileira cresceu 164,40% entre 2001 e 2010 e, desde então, não parou de aumentar. No primeiro governo Dilma, aumentou quase 2%.

Os especialistas calculam que um trabalhador brasileiro precisa trabalhar cinco meses para pagar impostos e outros cinco para pagar serviços públicos que deveriam estar a cargo do Estado, como transportes de qualidade, ensino ou saúde. O que sobra para viver?

E enquanto o Brasil é um dos países mais sobrecarregados de impostos, o PIB per capita contrasta com o de outros países.

Em uma lista do PIB de 80 países, o Brasil figura, segundo dados do FMI, entre os três últimos, com menos riqueza pessoal.

Enquanto o PIB brasileiro seria hoje, segundo a cotação do dólar, de pouco mais de 8.000 dólares, o dos Estados Unidos, por exemplo, é de 51.248, o do Canadá, 43.594, o da Alemanha, 39.993, o da França, 35.942 e o do Reino Unido, 51.248.

Até na América Latina, o PIB per capita brasileiro é menor que o do Chile (19.475) ou que o do México (15,932) e até menor que o da Venezuela (13.634)

Os números podem parecer frios, mas a realidade dos trabalhadores que sofrem uma das maiores cargas tributárias do mundo, que gozam de um PIB per capita menor e sofrem índices de violência que estão entre os maiores do planeta, constitui uma triste realidade.

Não se parecem esses trabalhadores brasileiros com o rei Sísifo, condenado pelos deuses ao trabalho duro e inútil de subir a montanha com uma pedra para, ao final de tanto esforço, ficar de mãos vazias?

Às vezes cruzo na rua com algum desses trabalhadores socialmente mais frágeis, que limpam o que ninguém quer limpar, erguem edifícios pendurados no vazio e na insegurança ou vigiam as noites tristes dos doentes amontoados nos hospitais públicos.

Minha tentação é pensar que estão realizando o castigo dos deuses imposto a Sísifo, mas prefiro ficar com a interpretação do mito grego que fazia Camus, quando escrevia que devemos, apesar de tudo, fazer um esforço para conseguir “ver Sísifo feliz”, às voltas com sua pedra montanha acima.

Esses trabalhadores cujos direitos o poder tem a tentação de morer quando aumentam as crises, são, como dizia o escritor francês, “donos de seu destino”, orgulhosos do que fazem por vocação ou necessidade.

Sem eles, o mundo, a começar pelo dos privilegiados cuja pedra outros levam montanha acima, seria um deserto ou um inferno.

Eles não merecem ser as cinderelas da crise, os sacrificados, mas sim os mais bem cuidados e protegidos.

Dias das Mães (visão governamental)

A traição ao Brasil

A revista Bloomberg Markets fez na última semana uma das mais extensas e detalhadas reportagens publicadas na imprensa internacional sobre o escândalo do Petrolão. Com muitos gráficos, estatísticas, dados oficiais e fontes brasileiras, a revista conta como começou a operação Lava Jato, como o Petrolão se liga a outros escândalos, como o PT lida com o Congresso e como a população sente os efeitos da crise gerada pela corrupção, respondendo com rejeição a Lula, Dilma e o PT. 

Eis alguns parágrafos da reportagem:

Não é apenas o drama do escândalo que parece uma bola de neve que prende a atenção dos brasileiros. Há uma crescente insatisfação – e raiva – pelo Brasil, um país que parecia tão próximo de se juntar ao grupo das nações desenvolvidas, não consiga chegar lá. Lula inspirou o país com promessas de um “novo Brasil” que iria deixar para trás cinco séculos de pobreza e corrupção. Os brasileiros hoje entendem que a mensagem de Lula era uma fraude, que havia por trás um esquema que enriquecia alguns poucos e atrasou a capacidade competitiva do país.

O escândalo corroeu a democracia brasileira, enfraquecendo o governo de Dilma de uma forma que ele não tem força para passar qualquer lei importante no Congresso. Os índices de aprovação de Dilma caíram para 9% em abril, o pior já registrado para um presidente brasileiro. No dia 15 de março e depois novamente em 12 de abril, multidões foram para as ruas das principais cidades brasileiras pedindo um fim à corrupção e o impeachment da presidente. O destino comprometido ressurgiu, com gosto amargo, o velho e popular refrão “O Brasil é o país do futuro e sempre será”.

Bem-vindo ao Brasil

Lula-Dilma-e-o-Brasil
Aqui e ali começam a surgir provas definitivas do embuste que é esse governo. Da confissão de Lula publicada no livro do José Mujica às gravações onde o ministro-manteiga tenta encobrir o rombo pavoroso na petroleira vigarista, passando inclusive pelos gritinhos da tal Jandira, uma coisinha horrorosa que se diz assediada no Congresso, o que temos aqui é uma ode ao cacarejo, não é mesmo? O embusteiro-chefe afirma que roubar é a única forma de governar o Brasil. O desfile de servidores bandidos que temos nas salas refrigeradas do nosso poder público me obriga a concordar com ele.

É a fraude em andamento, meus caros leitores. Gente que já não se acanha em ser o que é. Sou até forçado a confessar que sinto algum alívio ao ver que essas provas existam, pois a máxima do “não há crimes sem provas” vem sendo ameaçada pela vigarice endêmica que campeia pelas hordas contratadas por este governo para nos ludibriar, sempre em nome “da causa” que os alimenta. Do STF que não vê uma quadrilha onde já há um exército às oposições que lançam emendas aos desmandos do governo e depois votam contra essas mesmas emendas.

O que temos visto é o que um leitor definiu, com muita propriedade, em algum canto deste condomínio: nossos representantes finalmente estão saindo do armário e revelando sua natureza calhorda, corporativa, ideológica ─ e seus mantras picaretas que perdem a essência diante das panelas vazias e do grito dos excluídos. Neste sambinha de uma nota só – os PTrodólares – fica escancarada a posição daqueles que se acovardam diante da farsa, achando que serão herdeiros de toda a criminalidade que hoje floresce neste país-mendigo

Ainda que o petrolão continue sendo o escândalo mais vistoso desta república de bananas, o cortejo interminável de safadezas a que fomos submetidos ultimamente merece uma lista diária de lembretes para sabermos exatamente onde estamos pisando; num dejeto chamado Brasil. Nele, mensalões e petrolões convivem com “extradições”, “contradições”, pátrias educadoras sem dinheiro para sustentar estudantes na escola, urnas superfaturadas, escondidas sob o traseirão dos oposicionistas de mentirinha que cultivamos por aqui.

E há também ciclovias de tinta vagabunda, controlares que ninguém mais sente falta nos pulmões, extintores que não extinguem as chamas mas dão um trabalho danado para encontrar e custam uma pequena fortuna quando são encontrados, asfalto regurgitado, juízes que confessam crimes prescritos, agitadores profissionais com cargos no governo, cuecas e cuecas de grana sendo transportadas em voos domésticos, amantes pagas com dinheiro público e uma gente tacanha que não se cansa de tentar defender o indefensável das formas mais patéticas.

Ao dar a descarga nessa latrina cívica, nem quero imaginar o que farão estes lambedores de vasos sanitários para seguirem em frente no papel de pingentes de tetas governamentais, pendurados em quaisquer governos que lhes apareçam pela proa. É uma gentinha que merece a válvula hidra, não é mesmo? Mas tem gente que aplaude o país relativo. O dissimulado. O covarde. O país que dá nojo. Uma gente que merece cada palmo desse chão, fraudando a urna e cantando o Hino Nacional ao mesmo tempo. Um país de batedores de carteira. É vergonhoso ser brasileiro ao lado dessa gente.

Vlady Oliver

Segundos mais caros do país

O balanço da Petrobras informa: entre 2004 e 2012, a corrupção na estatal saqueada engoliu R$ 110 a cada cinco segundos

Brasil precisa de 'BNDES dos pobres'

 Quando os pobres forem autorizados a libertarem a sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente                                               Muhammad Yunus

Para o economista bengali Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, para avançar no combate à pobreza, o Brasil precisa de um "BNDES para os pobres" e de políticas que evitem que os beneficiários do Bolsa Família se tornem dependentes do programa.

A ideia, segundo o economista, fundador do banco Grameen de microcrédito, é dar apoio para que integrantes das camadas mais pobres da população desenvolvam sua capacidade empreendedora e "criem seu próprio emprego".
"É preciso separar os serviços bancários e financeiros para os pobres daqueles voltados para os ricos, porque se você não faz isso, no final a instituição em questão acaba focando mesmo nos ricos", disse Yunus, referindo-se ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, instituição de fomento a empresas e outros negócios), em entrevista à BBC Brasil.

"Se o BNDES quer fazer isso (financiar as grandes empresas), tudo bem. Mas deve haver um BNDES para os pobres - apenas para os pobres. Assim a coisa não se confunde. Se o banco faz um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, não funciona. É importante que as políticas e as intenções sejam claras para o financiamento dos mais carentes."

Yunus veio ao Brasil para participar de uma série de palestras e de encontros da Fundação da ONU, ONG ligada às Nações Unidas da qual é membro-conselheiro. No Insper, em São Paulo, participou de uma mesa de debate sobre a promoção da igualdade de gênero (96% dos clientes do Grameen são mulheres).

Falando à BBC Brasil sobre o Bolsa Família, Yunus opinou que é preciso garantir que as pessoas que recebem recursos do programa possam empreender e "caminhar com suas próprias pernas".

"Ajudar as pessoas que passam necessidade deve ser uma prioridade para a sociedade. Mas depois que você fez isso, há uma segunda tarefa que é garantir que a pessoa que recebe esses recursos possa se manter sozinha", afirmou o economista.

"Pelo que entendi, o Brasil conseguiu dar conta dessa primeira parte do trabalho. Mas agora é preciso começar a enfrentar essa segunda parte: Como fazer essas pessoas saírem do Bolsa Família e se sustentarem sozinhas, contribuindo para a sociedade?"

sábado, 9 de maio de 2015

Já faz tempo que escolhi

A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.
Thiago de Mello

Mais e mais paciência

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O segundo panelaço do ano é uma pancada na cabeça do PT. Certo. Mas de qual PT? Pois, agora, é assim: temos o PT de Lula; o PT de Dilma, que pode ser confundido com o governo; o PT dos sonhos, defendido por algumas figuras icônicas da intelectualidade brasileira, e o PT de fato, que reúne todos em uma sigla desnorteada e gera “desertores” como Marta Suplicy e “desolados” como Aloizio Mercadante.

A verdade é que o panelaço acertou todos os petistas, incluindo os de bom coração e os honestos, que se sangram ao ter que sair em defesa do indefensável.

Mas quem se beneficia da sangria deste PT de outro mundo? O PSDB? Mas qual PSDB? Pois, agora, também é assim: temos o PSDB do Aécio, que imagina um impeachment da presidente; o PSDB do Alckmin, que se vira para evitar desgaste e torce para que o aliado mineiro tropece, e o PSDB de FHC, que possibilita coisas estranhas, como se associar ao PT para defender as mesmas coisas. Como o PT, tem ainda o PSDB de fato, que reúne todos os outros e que só sabe que não sabe mesmo o que vai fazer.

Pode-se dizer também que a crise de governabilidade de Dilma e um Lula cada vez mais enfraquecido, além deste PSDB estonteado, beneficiem o PMDB. Mas qual PMDB? Pois, desde sempre, foi assim: existe o PMDB do “bem” e do “mal”, com agravantes, pois, agora, existe o PMDB de Cunha, o de Calheiros e o de Temer. Ah, claro! Existe o PMDB de fato, o que reúne todos os outros e que vai seguindo com seu eterno e “indispensável” fisiologismo.

Com as três principais forças políticas do Brasil tomadas por surtos esquizofrênicos, o que dizer então da economia em frangalhos, do desemprego em alta, das fábricas quase parando e do custo de vida aumentando?

Apesar de parecer, o país não está do lado avesso. Pelo contrário, ele está sendo colocado do lado certo, com empreiteiros sendo presos, escândalos descobertos e uma profusão de democracia, apesar de algumas recaídas (vide agressões aos professores no Paraná), capazes de estabelecer uma nova (des) ordem social. É um novo tempo.

A carência é do advento de uma liderança, como ocorria em outros tempos, capaz de se estabelecer sobre PT, PSDB e PMDB ou aglutinar o melhor de cada uma dessas legendas.

Certamente, ela existe e não é messiânica. Também não está entre os atuais lobos e falsos cordeiros. É preciso que novos lobinhos e cordeirinhos se apresentem para que a população se acalme e o país do futuro que nunca chega tenha ao menos um pouco de tranquilidade para mudar algumas coisinhas e continuar o mesmo, rumando para dias melhores com pernas curtas, passos de tartaruga e muita, mas muita paciência de sua gente.

A duração da travessia

O governo e o PT continuam alimentando a falsa esperança de que a superação da crise atual poderá ser tão rápida como em 2003

Lula-Dilma-e-o-Brasil

Quanto tempo mais será necessário para que o país supere a grave crise em que está mergulhado e volte a ter perspectivas promissoras? É o que, hoje, se perguntam todos: o governo, os partidos que lhe dão apoio, a oposição, o empresariado, os investidores e, claro, cada cidadão que tenta vislumbrar o que o futuro lhe reserva.

Não é indagação para a qual se possa dar resposta clara e inequívoca. Tal é a complexidade com que interagem as múltiplas dimensões da crise, que respostas mais cuidadosas — e, ainda assim, decepcionantemente evasivas — vêm exigindo intrincada conjugação de considerações de ordem econômica, política e jurídica.

No entanto, os que indagam sobre a duração da crise insistem numa resposta simples e direta. Têm decisões a tomar. Pouco ou nada lhes ajuda uma profusão de cenários alternativos, calcados em análises multidisciplinares complexas. Preferem agarrar-se a uma história simplista da qual possam extrair uma resposta inequívoca que lhes pareça plausível.

É o que explica a coexistência no país de vasto leque de narrativas distintas acerca da duração da crise, que não só espelham simplificações diferentes dos seus possíveis desdobramentos, como conveniências e restrições específicas de quem desenvolve cada narrativa. No próprio governo, há narrativas divergentes.

O Planalto ainda não tem ideia clara de quanto tempo mais durarão suas dificuldades. Mas continua tentado a crer que, na economia, pelo menos, a luz no fundo do túnel vai aparecer bem mais cedo do que se espera.

Embora haja, na nova equipe econômica, quem tenha visão mais realista de quão lentos deverão ser os resultados da reorientação da política econômica, tal realismo ainda não pôde ser externado com a devida franqueza ao Planalto. Afinal, a própria reorientação parece só ter sido possível porque a cúpula do governo se permitiu nutrir uma visão fantasiosa sobre a rapidez com que os resultados poderiam vir a ser colhidos.

Mais variadas ainda são as narrativas sobre a duração da crise que prosperam na base aliada do governo. Há grande apreensão no PT com a aposta no ajuste que vem sendo comandado pelo ministro Joaquim Levy. No amplo espectro de posições sobre a questão no âmbito do partido, há quem creia que a aposta não faz sentido. Mas, também, quem veja mérito no esforço de ajuste e esteja pronto a defendê-lo, desde que a colheita de resultados possa ser rápida.

Não obstante as circunstâncias completamente distintas, tanto o governo como o PT continuam alimentando a falsa esperança de que a superação da crise atual poderá ser tão rápida como em 2003. Tudo indica que não será. Em 2003, o ambiente externo era muito mais favorável.

O país estava estava sendo beneficiado pelo boom de preços de commodities. E o problema interno primordial resumia-se à restauração da confiança no governo. Agora, tendo em vista as proporções da devastação fiscal, dos equívocos de política econômica, da demolição institucional e da corrupção, o esforço de reconstrução terá de ser muito maior.

Manter o PT alinhado ao programa de ajuste do governo não tem sido fácil. Se a equipe econômica não tem podido ser tão franca como gostaria com o Planalto, menos franca ainda vem tendo de ser com o PT.

O quadro é delicado. E todo cuidado é pouco. Se o partido for exposto a uma narrativa realista da provável duração da crise, é bem possível que seu já tépido apoio à política econômica de Levy desapareça por completo.

O problema é que esse jogo não pode ser jogado por muito tempo mais. Nos próximos meses, tanto o Planalto como o PT estarão fadados a se desiludir com a fantasia de que os resultados do ajuste macroeconômico poderão ser colhidos em breve. Aos poucos, vão constatar, afinal, que a superação da crise deverá ser bem mais longa e mais penosa do que imaginavam.

Quando essa dura realidade se impuser, com o PT já mobilizado para a campanha das eleições municipais de 2016, terá o Planalto convicção e respaldo político para persistir no esforço de ajuste que ainda se fará necessário?
Rogério Furquim Werneck

Política de interesse há tempos

Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espetáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.
Eça de Queirós (1845 - 1900), in 'Distrito de Évora (1867)

Eles sabiam de tudo (mesmo)

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O ex-presidente bonzinho do Uruguai, José Mujica, contou que o ex-presidente bonzinho do Brasil, Lula da Silva, se sentiu culpado pelo mensalão. Está registrado e agora publicado em livro: segundo o companheiro Mujica, Lula lhe confidenciou que o mensalão era “a única forma de governar o Brasil”. Que ninguém tome isso ao pé da letra. Não é que o mensalão seja a única forma possível de governar. Tem também o petrolão e seus derivados. Ou seja: a única forma de governar o Brasil é roubar os brasileiros, enriquecer o partido e comprar a vida eterna no poder.

Esse golpe está sendo dado há 12 anos, e há dez o Brasil brinca de se perguntar se Lula sabia. Eis a resposta entregue de bandeja pelo amigo de fé, irmão camarada Mujica: Lula sabia que a única forma de ficar no poder com um grupo político feito de pessoas medíocres, despreparadas, hipócritas e desesperadas por cargos e verbas era se fingir de coitado, chorar e parasitar o Estado brasileiro com todas as suas forças.

O império do oprimido ofereceu ao país incontáveis chances de perceber a sua única forma de governar. Escândalos obscenos foram montados dentro do Palácio do Planalto, envolvendo os principais personagens do Estado-Maior petista. Hoje o Brasil é governado por uma marionete desse sistema único de governo (SUG), uma presidente solidária ao seu tesoureiro preso, acusado de injetar em sua campanha eleitoral dinheiro roubado da Petrobras. Uma presidente que exalta como heróis os mensaleiros julgados e condenados. E que presidiu o conselho de administração da maior estatal brasileira enquanto ela era depenada por prepostos do seu partido.

Foi necessária a confissão de um companheiro uruguaio para desvelar o óbvio: eles sabiam de tudo. Tudo mesmo.

Essa forma única de governar o Brasil só tem uns probleminhas: a economia acaba de registrar sua maior retração em 20 anos, na contramão dos emergentes e do mundo; a inflação avacalhou a meta e taca fogo na antessala da recessão; o desemprego voltou às manchetes, apesar das tentativas criminosas de esconder seus índices durante a eleição; a perda do grau de investimento do país está por uma unha de Levy, após anos de contabilidade criativa, pedaladas fiscais e outras orgias progressistas para esconder a gastança —a única forma de governar.

Com inabalável firmeza de propósitos, o PT chegou lá: tornou-se o cupim do Estado brasileiro. Hoje é difícil encontrar um cômodo da administração pública que não esteja tomado pelo exército voraz, que substitui gestão por ingestão. O Brasil quer esperar mais quatro anos para ver o que sobra da mobília.

Mujica disse que Lula não é corrupto como Collor. Tem razão. O Esquema PC era um careca de bigode que batia na porta de empresários em nome do chefe para tomar-lhes umas gorjetas. O mensalão e o petrolão foram dutos construídos entre as maiores estatais do país e o partido governante. Realmente, não tem comparação.

Os cupins vão devorando o que podem — inclusive informação comprometedora. As gravações da negociata de Pasadena, presidida por Dilma Rousseff, sumiram. Normal. Dilma, ela mesma, também sumiu. Veio o Dia do Trabalho, e a grande líder do Partido dos Trabalhadores não apareceu na TV — logo ela, que convocava cadeia obrigatória de rádio e TV até em Dia das Mães. Pouco depois, veio o programa eleitoral do PT e, novamente, a filiada mais poderosa do partido não foi vista na tela.

Quem apareceu foi Lula, o amigo culpado de Mujica, vociferando contra os inimigos dos trabalhadores, as elites, enfim, toda essa gente que não compreende a única forma de governar o Brasil. E os brasileiros bateram panela em todo o território nacional — o que algum teórico progressista ainda há de explicar como uma saudação efusiva ao filho do Brasil adotado pela Odebrecht.

O ministro da Secretaria de Comunicação disse que é um erro vincular Lula e Dilma ao PT. Já o PT tenta parecer desvinculado do governo Dilma. Pelo menos isso: eles sabiam de tudo, mas não têm nada a ver uns com os outros.

Em meio aos panelaços, foi possível ouvir o balanço da Petrobras contabilizando 6,2 bilhões de reais de corrupção. Ou seja: as informações da Operação Lava-Jato, que apontam o PT e a própria presidente da República como beneficiários do petrolão, foram oficializadas no balanço auditado da maior empresa brasileira. Pena Lula não ter conversado sobre isso com Mujica. Os brasileiros vão ter que perceber sozinhos: esta só continuará sendo a única forma de governar o Brasil se o Brasil não cumprir o seu dever de enxotar um governo irremediavelmente delinquente.

Lula, o Chefe

Povo-Dilma-Lula-PT
O Brasil é o país dos segredos de domínio público, os tais segredos de polichinelo. O da vez foi “revelado” pelo ex-presidente do Uruguai, José Mujica, a quem Lula confessou, em 2010, não apenas saber do Mensalão, mas de tê-lo promovido e sustentado, por entender que “não há outro modo de governar o Brasil”.

O depoimento está no recém-lançado livro “Uma Ovelha Negra no Poder”, em que Mujica conta a dois jornalistas amigos, Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, sua passagem pela presidência do Uruguai. Não o faz com o objetivo de denegrir Lula.

Muito pelo contrário, é seu amigo e o admira – e faz questão de distingui-lo de Collor, que, segundo ele, seria um corrupto de verdade, sem explicar exatamente o que os distingue. Talvez o fato de que Collor não teve sucesso.

E aí está um dos aspectos mais interessantes dessa história. Mujica supunha estar falando do óbvio (e estava): o papel de Lula no Mensalão. Um papel que ninguém ignora, a não ser, claro, a Justiça brasileira e a oposição de então, que evitou pedir o seu impeachment. Se suspeitasse dos problemas que causaria ao amigo, provavelmente não falaria. Mas falou - e, nestes tempos de Petrolão, recolocou em cena o perfil moral do Chefe do PT.

Em 2010, o Mensalão já tramitava há cinco anos no STF. E Lula, em relação a ele, já havia se manifestado das maneiras mais contraditórias. De início, disse que não sabia de nada; depois, que foi traído. Chegou a dizer que o PT devia desculpas ao país.

Mas, à medida em que o tempo passava, convicto de que nada iria ocorrer, assumiu tom desafiante. Disse que o Mensalão jamais havia ocorrido, que era uma invenção da oposição (a mesma que o havia livrado do impeachment) e que estava convencido de que não passara de uma tentativa de golpe de estado.

Mais: prometeu que, tão logo deixasse a presidência, iria se dedicar a investigar por conta própria o caso. Bravata ridícula, na medida em que tal tarefa não cabe a um ex-presidente, que é um cidadão comum, desprovido dos meios de investigação, que pertencem ao Estado. Se queria investigar, o lugar de fazê-lo era na presidência – e não em São Bernardo ou no sítio de Atibaia.

A alegação de que não sabia foi, de imediato, desmentida por dois personagens: o então deputado Roberto Jefferson, delator do esquema (em quem Lula dizia confiar ao ponto de não recear em lhe dar um cheque em branco), e o governador de Goiás, Marcone Perillo – a quem chamava de “companheiro” e a quem agradeceu publicamente a ideia de juntar as bolsas sociais do governo FHC numa só, a Bolsa Família. Tornou-se seu inimigo figadal.

O importante nessa “revelação” de Mujica não é o fato em si, que ninguém jamais ignorou – a não ser o então procurador-geral da República Antonio Fernandes de Souza, que excluiu Lula da denúncia - mas a justificativa do ex-presidente: não há outro meio de governar o Brasil. Só pela corrupção.

Esse modo estrábico (e imoral) de enxergar o país explica as inúmeras denúncias que envolvem os governos do PT, não apenas no âmbito federal, mas também nos âmbitos estaduais e municipais. Explica os assassinatos dos prefeitos Toninho do PT (Campinas) e Celso Daniel (Santo André), até hoje sem solução.

Explica o Petrolão e os saques, entre outros, aos fundos de pensão, BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Dnit, Eletrobras e onde mais haja cofres abarrotados. Só roubando – eis o mote a aplacar eventuais crises de consciência. Lula também disse a Mujica, em relação ao Mensalão, que se sentia “um pouco” culpado. Só um pouco. Quando o caso se aproximava do julgamento do STF, abordou o ministro Gilmar Mendes em busca de adiamento.

Tentou chantageá-lo, sem êxito, por meio da CPI do Cachoeira, o bicheiro que financiava políticos (sobretudo do PT), em que seus aliados buscaram transformar o papel investigativo de uma revista, a Veja, em cumplicidade com o bicheiro.

Também não funcionou. Lula escapou do Mensalão – um crime que, não obstante envolver menos dinheiro que o Petrolão, tem simbolismo mais grave, por se tratar da compra de um poder da República (o Legislativo) por outro (o Executivo). Os ministros Celso de Melo e Ayres Brito, do STF, o classificaram de tentativa de golpe, de crime contra o estado e a democracia. Nesses termos, tudo saiu muito barato: os agentes políticos estão todos soltos.

E aí surge o Petrolão. Lula repete a pantomima: não sabia de nada, não fez nada – não houve nada. Tudo não passa de tentativa para denegrir o PT e derrubar Dilma (cujo impeachment, clamado nas ruas, é mais uma vez blindado pela oposição).

O serviço (involuntário) que o companheiro Mujica prestou foi o de ter revelado (ou confirmado) ao país que o roubo, no PT, não deriva apenas de uma fraqueza humana pelo enriquecimento fácil, mas da convicção ideológica de que é uma ferramenta de governo. Sem ele – eis a lógica - não se governa. Isso explica tudo o que aí está - e deixa claro que, com esses pilotos, não há chance de a embarcação Brasil chegar a porto seguro.

Procura-se


Não são mais apenas notas de 100 dólares com as caras de Lula, Dilma e João Vaccari, jogadas no plenário da Câmara, as boas imagens que o PT recolheu esta semana. Em São Paulo e outras cidades do interior já aparecem colados em postes e paredes cartazes com o título “Procurado” ou “Procurada”, estampadas as fotos de Lula, Dilma e os deputados petistas Vicentinho e Sibá Machado, entre outros, segundo noticia o site do Estadão. O sucesso é total e a iniciativa vai se espalhar pelo país.

Os cartazes são feitos aos moldes dos usados nos Estados Unidos, na época da ocupação do velho Oeste. Com programação visual que lembra papel antigo, Dilma e Lula são retratados como culpados pelo “roubo” de direitos trabalhistas e outras rapinagens que vieram à tona na Operação Lava Jato.

Nada muda no Brasil. E as distorções se eternizam

É engraçado como os comentaristas aqui na Tribuna da Internet, cada um a seu jeito e visão, conseguem enxergar estas obviedades e distorções que ocorrem pela suprema mão do Supremo Tribunal Federal, desde os tempos pré-parados de ontem do Gilmar Mendes e Daniel Dantas e que persistem até hoje, conubiando (se é que o termo existe…) o malfeitor e a Justiça, esta que deveria tão somente punir aquele, mas, muito pelo contrário, não só não o faz, postergando a condenação, como, muito pior, mantém intactos os malfeitos.
Por acaso, as construtoras tiveram suspensas suas obras, orientações, permissões, concessões, dações etc.? Seus contratos foram revistos para serem eliminados os elementares e óbvios sobrepreços propínicos e sem concorrência? Não existe ninguém no próprio Ministério Público que reaja contra estas distorções, como seria natural do seu previsto trabalho?

O próprio juiz federal Sérgio Moro ou alguém de seu grupo ou da força-tarefa, que certamente há, por que não reagem contra esta indevida perpetuação dos malfeitos, como os apelidou de forma carinhosa a presidente? Como enfrentar este verdadeiro e fajuto sistema de acomodação existente?

É verdade que agora, no meio do furacão, já se cogita de impedir que o presidente de plantão nomeie os ministros do Supremo com elementos de sua trupe, que, por óbvio, vão defendê-lo, com unhas e dentes, das culpas por seus deslizes e seus “não sabia de nada”, como ocorre hoje. Já se cogita, mas ainda não se impediu. É bom que se mude isto, e antes tarde do que nunca, claro.

Por fim, há uma realidade constrangedora e assustadora: o furacão já está aí, sobre nossas cabeças… A marolinha, constata-se, era mesmo visão de quem não sabia de nada. 

Os desperdícios do Condomínio Brasil


A imagem, que recebi por e-mail, fala muito ao Brasil sobre o modo como nós brasileiros lidamos com as questões do Estado, do governo e da política.

O que aí está exposto deveria conscientizar-nos da necessidade e das imensas possibilidades que se abririam a um projeto determinado, valente e moralmente indispensável, de redução do tamanho do Estado. Para onde olharmos, o que se agigantou no gigante adormecido, foi o zelador. É como se, na administração de um condomínio, se fossem criando mais e mais funções e cargos com o repasse mensal da conta para os proprietários ou inquilinos. E que isso prosseguisse assim, num crescendo sem limites, através dos anos. De repente, os moradores sustentam uma corte a que todos se submetem, sem saber bem por quê.

O Brasil poderia custar muito menos para todos nós! Os desperdícios estão por toda parte e são maiores onde menos se necessita do Estado. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Quem foi o cafetão?


Haja panelas!

Deputados contrários à Medida Provisória fizeram “panelaço” no plenário da Câmara durante a votação da matéria (Foto:  Luis Macedo / Câmara dos Deputados)
"O PT certamente dirá que só houve panelaço porque as pessoas, agora, podem ter panelas"
 Ricardo Noblat
Será que o Lula já percebeu que neste país ele já não manda? Que dona Dilma notou que a vaca, de tanto tossir, engasgou? Ou será que eles ainda se acham detentores do poder?

Quando pararem de culpar os suspeitos de sempre (que, segundo o PT, são os jornalistas) quem sabe conseguirão ver, através da poeira levantada por suas manobras desajeitadas, que o labirinto em que estamos metidos pode não ter saída?

Que me desculpem os economistas, mas tenho sempre um pé atrás com planos econômicos. Fiquei traumatizada com o maldito Plano Collor e tenho a maior dificuldade em acreditar que alguém, por mais brilhante que seja, possa sentir-se suficientemente seguro para mexer com a vida de todos nós.

Estamos numa fase negra. Basta uma voltinha em cidade grande como o Rio para ver que o desemprego aumenta, que a fome cresce e que os sem-teto invadem as calçadas ao cair da noite.

E, no entanto, foi agora que resolveram mexer com o seguro-desemprego e com o abono salarial, parte do ajuste fiscal. Se há necessidade de ajuste tão severo é porque houve uma esbórnia tremenda no governo Dilma I. Difícil para um leigo compreender: estava certo o ex-ministro Guido Mantega ou está certo o ministro Joaquim Levy? O mal é que, como sempre, o país só tomará conhecimento do acerto ou desacerto dos novos ajustes quando tudo isso já for passado.

Ate lá, percorreremos às cegas o labirinto.

E entregues a quem? Ao PMDB! Você votou no PMDB para que ele envergasse a faixa presidencial? Não? Nem eu. Mas é sob essa batuta que o país marchará até 2018, pelo menos.

Não precisa ser vidente para enxergar o ego de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) quando disse ontem, em plenário:

“Houve uma vitória política de conseguir aprovar uma medida importante e que era simbólica. Eu não diria que o governo está com a base sólida para qualquer votação. Eu diria que se construiu uma maioria que passa a passar (sic) a mensagem de equilíbrio das contas públicas, uma maioria que ficou sensibilizada com o risco que o país teria se perdesse uma votação dessas”. O Globo, 7/5/2015

E do Senado, não veio nada? Veio, sim. O intrépido Renan Calheiros (PMDB/AL) declarou, a respeito do adiamento da aposentadoria dos juízes do Supremo Tribunal Federal de 70 para 75 anos, que pretende regulamentar o tema. “Sua intenção é submeter os ministros a nova sabatina, já que terão mandato adicional”. Ilimar Franco, O Globo, 7/5/2015.

Não é sensacional?

Quanto á tão badalada reforma política, parece que morreu de inanição. Precisamos consultar o senador Sibá Machado para saber se ele suspeita que a CIA foi contra. Como vocês bem sabem, Sibá Machado tem um intelecto exuberante e sua cultura política é notável.

Do PSDB não falo. Esse desfaleceu. Sem panelaço que abafasse o ruído de seu desmoronamento...

O mal dos povos

O mal dos povos, o mal de nós todos, é só aparecermos à luz do dia no carnaval, seja o propriamente dito, seja a revolução. Talvez a solução se encontrasse numa boa e irremovível palavra-de-ordem: povo que desceu à rua, da rua não sai mais. Porque a luta foi sempre entre duas paciências: a do povo e a do poder. A paciência do povo é infinita, e negativa por não ser mais do que isso, ao passo que a paciência do poder, sendo igualmente infinita, apresenta a «positividade» de saber esperar e preparar os regressos quando o poder, acidentalmente, foi derrotado. 
José Saramago 
 

O Chile de Bachelet, uma lição para Dilma Rousseff?

Até quando a presidenta do Brasil vai resistir a tomar uma decisão, pelo menos simbólica, mostrando que aceita com humildade que o país está em crise e irritado?

Chile e Brasil se pareciam muito dentro do continente latino-americano. Ambos os países manifestavam orgulho em se sentir moralmente superiores aos outros e de ter criado um milagre econômico, como destacou neste jornal John Carlin.

Os dois países estão governados por duas mulheres de valor, ambas de esquerda. O pai de Michelle Bachelet foi assassinado pela ditadurado general Pinochet e Dilma Rousseff foi torturada durante outra ditadura militar. Hoje, ambos os países e Governos e suas duas mandatárias vivem momentos de baixa, fustigados por uma grave crise política, econômica e ética. Já não podem se apresentar no continente como líderes da mudança. A popularidade das duas presidentas despencou do céu ao inferno. A de Rousseff, muito mais do que a de Bachelet.

Acusadas de não reagir diante da queda da confiança de seus respectivos eleitores, ambas tentando minimizar uma crise que as pesquisas revelavam com evidência, Bachelet acabou tomando uma decisão drástica como resposta aos protestos populares: substituir todo o Governo e anunciar que o Chile terá um novo ministério em um prazo de 74 horas.

E Dilma? Os últimos eventos mostram um Congresso no qual sua maioria se desgasta a cada hora, ao mesmo tempo em que a presidenta se vê obrigada a isolar-se e a proteger-se da rua por medo de ser criticada. Tudo isso somado a um partido que põe obstáculos às suas medidas de ajuste e a uma opinião pública que continua gritando “Fora Dilma” e “Fora PT”, um partido que é recebido com panelaços em vários Estados durante seu programa transmitido em cadeia nacional na TV, apesar de ter sido protagonizado pelo carismático ex-presidente Lula, diante da ausência da presidenta.

Se as crises nunca são iguais, não resta dúvida que as vividas pelo Chile e pelo Brasil, protagonizadas por dois Governos de esquerda e progressistas, parecem reflexos uma da outra. Assim como Bachelet tentou fazer em vão —acusada de ser lenta em suas reações frente à crise—, Dilma continua na ilusão de negar a crise, classificando-a de “passageira”, sem entender o sentimento das ruas, cada vez mais crítico contra ela e seu partido.

A mandatária chilena rendeu-se e passou uma rasteira em seu Governo para começar de novo. Talvez isso não seja suficiente, mas é um gesto com o qual tenta dizer à opinião pública que entendeu o motivo pelo qual perdeu a confiança dos eleitores. Até quando Dilma vai resistir a tomar uma decisão, pelo menos simbólica, mostrando que aceita com humildade que o país está em crise e irritado, à espera de algo que resgate sua confiança?

Em entrevista recente ao jornalista Roberto D'Ávila na Globo News, o senador do PSDB José Serra afirmou que o problema do Brasil não é apenas a corrupção ou a economia, mas sobretudo a fragilidade do Governo Dilma. “É um Governo fraco”, afirmou. Tão fraco que, como demonstra diariamente, açoitado e humilhado pelo Congresso Nacional, perdeu sua iniciativa diante da crise.

Dilma, em um gesto de Pilatos, lavou as mãos frente à crise terceirizando suas duas maiores responsabilidades: a econômica, nas mãos de Joaquim Levy, mais próximo da visão liberal da oposição do que da sua; e a política, ao aliado PMDB, na figura de seu vice-presidente Michel Temer, do partido que hoje já é de clara oposição no Parlamento.

Será suficiente para Dilma lavar as mãos para recuperar a confiança perdida dos 54 milhões de brasileiros que a reelegeram nas urnas? Ou necessitaria fazer, como no caso chileno, um gesto de ruptura? Um reconhecimento de que a gestão econômica de seu primeiro mandato foi equivocada e que provocou uma crise que a obriga a fazer ajustes que afetarão os trabalhadores e os mais pobres. Reconhecerá que a crise da Petrobras, uma empresa que esteve tantos anos sob seus cuidados, não foi apenas ética, mas também de má gestão e de falcatruas de políticos e de executivos sem escrúpulos, seus aliados, que transformaram a companhia no quintal de sua própria casa?

Quando os brasileiros gritam nas ruas “Fora Dilma”, talvez estejam esperando, pelo menos, um gesto inequívoco dizendo que a presidenta entendeu a crise e está disposta a enfrentá-la. Não enterrando a cabeça, nem terceirizando, mas oferecendo uma medida radical como a de Bachelet.

Dilma Panelaco empregada no fogao fazendo almoco para fazer menos barulho na panela

O PT e o dinheiro dos outros

Os gestores dos fundos são indicados pelo governo, acionista majoritário das estatais, e a maioria deles é entregue ao PT
Dinheiro dos outros (Foto: Arquivo Google)
Definitivamente, estamos num país estranho. Somos governados por um partido de trabalhadores, e o Congresso acaba de aprovar o primeiro item de um ajuste fiscal que restringe alguns direitos dos trabalhadores.

Mais estranho ainda: os aliados sindicais do partido que está no poder ocuparam as galerias do Congresso e fizeram chover sobre as cabeças dos deputados notas falsas com a efígie do fundador e guru do partido, o ex-sindicalista Lula, e da atual presidente, Dilma Roussef. As notas falsas eram chamadas de PTrodólares.

Mas as coisas estranhas não pararam por aí: a primeira medida do ajuste fiscal só foi aprovada porque 16 dos deputados da dita oposição- 8 do DEM, 7 do PSB e 1 do Solidariedade- votaram a favor dela. Mais estranho ainda: da base aliada, 9 deputados do PT fugiram do plenário e 1 votou contra; do PMDB, 13 votaram contra; no PDT, que tem o ministério do Trabalho, os 19 deputados votaram contra; no PP, 18 votaram contra; e no PTB, 12 votaram contra.

Ou seja: o governo só conseguiu aprovar a medida que restringe o acesso ao seguro desemprego e ao abono salarial graças a 16 votos da oposição. Ganhou por 252 a 227. Se dependesse apenas de sua base e se os votos oposicionistas tivessem ficado na oposição, teria perdido por 243 a 236.E o PDMB ainda se vangloriou de ter obrigado o PT “a descer do muro” para conseguir aprovar a medida.

Isso quer dizer que os liberais e os socialistas se juntaram aos peemedebistas e aos petistas para votar contra direitos dos trabalhadores ? Um total consenso, que é bem o retrato da vã filosofia da política partidária no Brasil. Se não fosse assim, disse

Rodrigo Maia, uma das lideranças do DEM que votaram a favor do governo, “o país quebraria no dia seguinte”. Enfim, um patriota ou um traidor?

Haverá, assim, uma espécie de divórcio conceitual entre os trabalhadores reais e o partido que pretende representá-los?

O caso dos fundos de pensão das estatais é um exemplo escandaloso desse divórcio. A maioria deles, vítimas de gestões temerárias, apresentam pesados déficits que ameaçam a aposentadoria complementar para a qual os trabalhadores contribuem mensalmente.

Os gestores dos fundos são indicados pelo governo, acionista majoritário das estatais, e a maioria deles é entregue ao PT. Os fundos estão sujeitos à fiscalização da Superintendência Nacional da Previdência Complementar, que normalmente toma conhecimento dos erros de gestão quando estes já se tornaram escandalosamente irreparáveis.

Foi o que aconteceu com o fundo dos funcionários dos Correios, o Postalis, que acusou um rombo de 5,6 bilhões de reais. Para cobrir esse buraco, os trabalhadores terão que sofrer descontos adicionais no salário durante um prazo de 15 a 20 anos.

Não é tarefa fácil para um fundo de investimentos, com tantas opções no mercado, conseguir perder dinheiro. Só mesmo com uma gestão desastrosamente incompetente, mal intencionada, ou amarrada a motivações políticas inconfessáveis. Algum gestor de fundos, no uso pleno de faculdades mentais, investiria em títulos de bancos liquidados, como Cruzeiro do Sul ou BVA, ou em compra de títulos lastreados na dívida da Argentina (notória caloteira) ou da Venezuela?

A oposição está tentando instalar um CPI dos Fundos de Pensão no Congresso. Se conseguir, mais uma vez o PT será chamado a sentar no banco dos réus para explicar como e por que maltrata o dinheiro alheio- e no caso, especificamente, o dinheiro dos trabalhadores.

O führer de Garanhuns

O que efetivamente mobilizou o nazismo contra os judeus não foram as destrambelhadas especulações biológicas que apenas favoreceram o trabalho sujo dos que executaram as políticas de extermínio. A causa principal foi o mito da "conspiração judaica", difundindo a ideia do poder econômico do povo judeu e a ele atribuindo a culpa pelos males nacionais. Ao longo da história, mobilizações nacionalistas sempre procuraram identificar um inimigo interno ou externo, direcionando-lhe as animosidades. No nazismo, a exemplo do comunismo, foi acionado este fermento revolucionário que excita os piores sentimentos: a falácia de que o outro, como indivíduo, raça ou classe seja, objetivamente, causador da pobreza do pobre.

Observe, então, o que vem sendo proclamado sobre a "elite branca de olhos azuis" pelas personagens mais aguerridas do petismo (do topo lulista à base militante). Lula e os seus não cansam de repetir que essa elite não gosta de pobre, é contra sua prosperidade e se enoja com a presença de gente humilde nos aeroportos e nas universidades. Por quê? Ninguém esclarece. O importante é repeti-lo à exaustão. E o PT é perito em papaguear bobagens tantas vezes quantas sejam necessárias para assemelhar à verdade algo que não tem o menor fundamento. Além de tornar a nação respeitável ao proporcionar a dignidade de todos os cidadãos, o progresso material das classes mais humildes é desejável por todos os segmentos sociais, inclusive por aqueles contra os quais o PT pretende instigar a malquerença dos pobres. Entre os muitos benefícios humanísticos e ganhos de ordem ética, a ascensão social dos mais carentes significa, para todos, maior segurança e maior dinamismo na vida econômica e social. É bom para todo mundo. É assim que a civilização avança. No fundo, até o Lula sabe disso.

No entanto, o führer de Garanhuns e seus propagandistas goebbelianos precisam do ódio como fator de luta (segundo ensinou Che Guevara). E nada melhor do que aprender com Hitler o modo de suscitar ódio contra quem tem mais. Basta proclamar aos pobres que essas pessoas, brancas de olhos azuis, são a causa de sua pobreza, que estes iníquos não toleram conviver com eles e que, por soturnos motivos, querem preservá-los na miséria. Difundir tais teses após as experiências do nazismo deveria ser capitulado como crime. Numa hipótese mais branda, ser tratado como sociopatia.

Tão perigoso quando o que estou descrevendo é não se importar com isso e considerar que se trata apenas de uma estratégia, sem efetivas consequências sociais e políticas. Era exatamente o que pensava a maioria dos alemães até bem perto do final da guerra.

Percival Puggina

Precisamos falar sobre a pobreza

ONG cria campanha para questionar a publicação de notícias 'fúteis' pela imprensa
Veja todas as fotos da campanha
Precisamos falar mais sobre a pobreza. Com esse objetivo, a ONG Teto, que constrói casas populares para pessoas que moram em situação precária, lançou uma campanha que joga luz à banalização do que é notícia, e alertando para a miséria no Brasil.

Lançada há duas semanas, a campanha traz imagens dos moradores da comunidade Malvinas, em Guarulhos. Nas fotos, eles seguram cartazes com mensagens como "Cantora é flagrada tomando água" e "Famosa é vista falando ao celular". As frases, segundo Julio Lima, diretor Social da Teto, foram todas retiradas de notícias reais da internet. "Essa campanha não é uma critica direta às pessoas queconsomem essas notícias, mas é um convite para que elas deem atenção à pobreza também", diz.

A ideia surgiu através do trabalho realizado todos os finais de semana nas comunidades, segundo Lima. "A realidade das favelas mais precárias não vira pauta, por isso quisemos fazer essa jogada". Além de fazer esse alerta, as peças foram criadas para buscar voluntários para a campanha COLETA 2015. Nos dias 22, 23 e 24 de maio, mais de 5.000 jovens voluntários estarão nas ruas das cidades de São Paulo, Campinas (SP), ABC (SP), Rio de Janeiro, Curitiba (PR) e Salvador (BA) para arrecadar recursos para dar continuidade aos trabalhos desenvolvidos nas comunidades.

Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de notícia que virou alvo da campanha é uma que envolveu o cantor Caetano Veloso. Há quatro anos, o portal Terra publicou a seguinte notícia: "Caetano [Veloso] estaciona carro no Leblon nesta quinta-feira". A nota vinha acompanhada de três fotos do cantor, uma "se preparando para atravessar a rua", a outra "olhando para o fotógrafo" e a outra "esperando no estacionamento". A banalidade da informação viralizou a "notícia" que, a cada ano, é lembrada por internautas com a hashtag #CaetanoEstacionaNoLeblon. O Terra agradeceu seus leitores por "tornar a data da publicação da matéria tão marcante", como escreveram em um texto fazendo piada com a própria publicação. Segundo o portal, foi uma das mais vistas nas redes sociais. "Nem parece que faz quatro anos! Todo mundo se lembra onde estava quando Caetano estacionou o carro no Leblon", comentou um leitor.

A verdade inconveniente é que não é raro que algum editor de revista ou jornal diga que 'não colocamos pretos e pobres na capa [das publicações]'. Em um país onde mais de 10 milhões de pessoas ainda vivem abaixo da linha da pobreza, uma visita à banca de jornais ilustra bem a ausência de notícias sobre essa realidade.

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