sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Como conviver com a lambança
Argumentos
jurídicos podem ser despejados em cascata para justificar a liberdade do
ex-diretor da Petrobras, Renato Duque, concedida em habeas-corpus pelo ministro
Teori Savaski, do Supremo Tribunal Federal. Mas parece no mínimo vingança da
natureza que no mesmo dia, quarta-feira, tenha sido conhecida a delação
premiada do empresário Augusto Ribeiro de Mendonça, da Toyo Setal, braço
brasileiro de uma multinacional japonesa. Porque o agora candidato à diminuição
da pena a que será condenado revelou haver a empresa repassado 152 milhões de
reais a título de suborno, por orientação de Renato Duque, para o clube das
empreiteiras conseguir contratos com a Petrobras. Aliás, 4 milhões foram doados
a campanhas eleitorais do PT.
Os outros 148
milhões foram distribuídos entre dirigentes da Petrobras e políticos de
variados partidos, registrando-se que um subordinado de Renato Duque na estatal
petrolífera, o ex-gerente Pedro Barusco, por enquanto preso, comprometeu-se a
devolver 248 milhões depositados em bancos na Suiça. Ele também pretende uma
condenação menor, aguardando-se com curiosidade sua delação premiada,
certamente mais explosiva ainda.
Dá para
entender que um ladravaz confesso se encontre fora das grades apenas porque o
ministro Teori considerou que dinheiro depositado no exterior não justifica
prisão preventiva? Mesmo tendo sua origem sido confessada?
Não se passa
um dia sem que mais detalhes do escândalo da Petrobras ganhem as manchetes.
Pelo jeito, não só da Petrobrás, mas conforme depoimento de outro bandido, por
sinal cumprindo pena em casa, estão envolvidas várias empresas públicas
encarregadas dos setores hidroelétricos, rodoviários, ferroviários e ligados a
portos e aeroportos. Toda essa roubalheira aconteceu nos últimos anos,
parecendo difícil ter sido ignorada pelo primeiro escalão do governo.
Só falta,
agora, conhecer a lista de dezenas de políticos implicados nesse assalto aos
cofres públicos na forma de contratos superfaturados, escolhas fajutas de
empreiteiras, propinas entregues a partidos e centenas de milhões desviados
para o exterior.
Pode um
governo conviver com tamanha lambança? Agora que se aguarda a composição do
novo ministério, que tal se candidatarem o Tigrão, o Melancia e o Eucalipto?
O papel do Estado
A boa: não haverá nenhum tipo de racionamento de energia
elétrica nesta Administração.
A ruim: a população precisa economizar papel higiênico.
Com o lobby ecológico, não se pode mais sair desmatando por
aí como antigamente, usando motosserras em qualquer jacarandá. Um número enorme
de entidades internacionais vêm nos boicotando. E nossa dependência a elas é
considerável.
Como papel é feito de celulose e celulose vem de árvores,
não temos mais condição de esbanjar folhas de nenhuma espécie. Pedimos assim a
todos os brasileiros: diminuam em 50% a utilização de papel higiênico.
Temos consciência da enorme importância da assepsia nas
áreas íntimas corpóreas. Uma nação nunca será altiva em meio ao caos e à
catinga. Mas existem formas criativas de se manter asseado, sem consumir meio
rolo a cada ida ao toalete.
Nunca dobre muitas vezes o papel antes de efetivar a
operação em si. Dobrando-o apenas uma vez, já é possível evitar que ele se
fragmente, causando danos a você e ao meio-ambiente.
Enrolar um pedaço pequeno de papel no dedo indicador e fazer
todo o procedimento apenas, e tão-somente, com essa pequena faixa é a
recomendação mais sensata, segundo respeitados institutos de pesquisas
tecnológicas. Corre-se o risco de algum acidente, mas nada que uma ducha rápida
(lembre-se de que a água continua sendo racionada) não resolva.
O uso de algodão pode ser uma alternativa à necessidade
premente de não gastar papel. Desde que não se use álcool ou benzina no momento
da limpeza.
Cortar os pedacinhos em cima do picote é igualmente
recomendável, posto que um milímetro economizado multiplicado por milhões de
habitantes evitaria o Privadão – retirada de todo papel higiênico do mercado
pelo Governo Federal por tempo indeterminado.
O consumidor de mais de um rolo semanal receberá uma
notificação informando-o de quanto será sua economia-mês. Quem consumir mais de
três rolos semanais será inicialmente notificado e, repetindo a infração,
pesadamente multado (valores e cálculos no sítio do Ministério da Fazenda). Se
continuar infringindo, o banheiro da casa será lacrado pelo Ministério da
Saúde.
Usuários de fraldas e consumidores de menos de um rolo
semestral estão fora do novo racionamento.
Os pedidos de revisão de meta devem ser enviados por e-mail
para o Ministério da Justiça acompanhados de provas materiais da necessidade de
mais rolos (relatos juramentados de situações constrangedoras em público, perda
de emprego, estados diarréicos crônicos).
São medidas duras e que não vão cheirar nada bem na
Comunidade Internacional.
Mas sem elas, o país vai descarga abaixo.
Belo Monte: anatomia de um etnocídio
A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas
Quando alguém passa num concurso do Ministério Público Federal,
costuma estrear no que se considera os piores postos, aqueles para onde os
procuradores em geral não levam a família e saem na primeira oportunidade. Um
destes que são descritos como um “inferno na Terra” nos corredores da
instituição é Altamira, no Pará, uma coleção de conflitos amazônicos à beira do
monumental rio Xingu. Em 2012, Thais Santi – nascida em São Bernardo do Campo e
criada em Curitiba, com breve passagem por Brasília nos primeiros anos de vida
– foi despachada para Altamira. Ao ver o nome da cidade, ela sorriu. Estava tão
encantada com a possibilidade de atuar na região que, no meio do curso de
formação, pegou um avião e foi garantir apartamento, já que as obras da
hidrelétrica de Belo Monte tinham inflacionado o mercado e sumido com as poucas
opções existentes. Thais iniciava ali a sua inscrição na tradição dos grandes
procuradores da República que atuaram na Amazônia e fizeram História.
Ela (Hannah Arendt) lia o mundo do genocídio judeu. E eu acho que é possível ler Belo Monte da mesma maneira
Ela já teve a oportunidade de deixar Altamira três vezes, a primeira antes mesmo de chegar lá. Recusou todas. Junto com outros procuradores do MPF, Thais Santi está escrevendo a narrativa de Belo Monte. Ou melhor: a narrativa de como a mais controversa obra do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento dos governos Lula-Dilma, um empreendimento com custo em torno de R$ 30 bilhões, poderá ser julgada pela História como uma operação em que a Lei foi suspensa. E também como o símbolo da mistura explosiva entre o público e o privado, dada pela confusão sobre o que é o Estado e o que é a Norte Energia S.A., a empresa que ganhou o polêmico leilão da hidrelétrica. Fascinante do ponto de vista teórico, uma catástrofe na concretude da vida humana e de um dos patrimônios estratégicos para o futuro do planeta, a floresta amazônica.
.
A jovem procuradora, hoje com 36 anos, conta que levou quase um
ano para ver e compreender o que viu – e outro ano para saber o que fazer
diante da enormidade do que viu e compreendeu. Ela se prepara agora para entrar
com uma ação denunciando que Belo Monte, antes mesmo de sua conclusão, já
causou o pior: um etnocídio indígena.
Leia a entrevista
O mundo do tudo é possível é um mundo aterrorizante, em que o Direito não põe limite. O mundo do tudo possível é Belo Monte.
Medida de Mujica
O presidente do 'Clube'
O empresário Ricardo Pessoa, presidente da empreiteira UPC e
do “Clube” do cartel das 13 empresas, que o professor Helio Duque chama de
“Clube da Roubança”, ainda hoje preso na Policia Federal, confessou :
– “Só tenho um amigo no governo, o Lula”
É por isso que de repente Lula sumiu. Ele está sentindo a
batata assando perto dele. As “delações premiadas” continuam, cada dia mais
numerosas e mais reveladoras. O Ministério Publico já começou a encaminhar ao
Supremo Tribunal Federal, que é o relator da ação, as confissões, denúncias e
provas de crimes de políticos ou onde os políticos são citadas ou denunciados.
Um paiol de escândalos. Lula e Dilma já ardem.
O doleiro confessou que Lula e Dilma sabiam de tudo. E é
evidente que sabiam. Com tantos milhões de dólares escorrendo por cima e por
baixo das mesas e gavetas deles, seria impensável não saberem de nada.
Quando deixou o Governo, Lula saiu pelo mundo, em jatinhos
dos empreiteiros, financiado pelos empreiteiros, fingindo que estava fazendo
“conferências lá fora” (logo ele que mal e tropegamente fala o
português), mas na verdade fazendo lobby para os empreiteiros, patrões do
“Clube”.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Superávit inconstitucional, ilegítimo e imoral
Como se comportarão as ruas diante deste anunciado corte
distributivista e do momento eleitoral que os municípios viverão em dois anos?
Qualquer que seja o tamanho do pedágio que Dilma e o governo
do PMDB (com o PT o secundando) paguem aos rentistas para governar, urge
lembrar o óbvio. Em um Brasil cheio de dívidas sociais históricas, é ilegítimo
e imoral tirar dinheiro da saúde, educação, saneamento e outras áreas
prioritárias para pagar uma dívida pública que não se sabe até onde atende
mínimos preceitos republicanos – como preconiza o instrumento do superávit
primário, vaca sagrada do credo neoliberal.
É, também, inconstitucional poupar naquilo que de
redistributivo tem o Estado para atender à banca e seus associados no Congresso
e nos conglomerados da comunicação, que sempre viveram de drenar volumes
massivos e crescentes de recursos públicos.
Pra frente, Brasil!
Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, Essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude. E vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço, em suas almas. E, no entanto, que é que fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los
Thomas Morus
Melhorar nem daqui a um ano
O tamanho do ajuste fiscal requerido para pôr a casa em ordem é sem precedentes. É inviável atingir tal melhora em apenas um ano. Trata-se de um programa de ajuste para ser realizado em três anos, contra o pano de fundo de uma administração que não só se mostrou incapaz de atingir suas metas mas também deliberadamente produziu a maior deterioração fiscal de que se tem notícia no país nos últimos 20 anos
Alexandre Schwartsman, Ex-diretor do Banco Central no governo Lula
Lula tenta esconder cartão corporativo de Rose
Em plena efervescência da nomeação do novo ministério, o
ex-presidente Lula anda muito sumido e a gente fica até pensando se desta vez
ele vai mesmo permitir que, pelo menos, a presidente Dilma faça a escolha dos
seis ministros da chamada “cota” dela.
Lula submergiu, mas sabe-se que ele não abriu mão de nomear
os ministros da Fazenda, da Educação e das Cidades. Quer dizer, Joaquim Levy é
indicação dele. Falta preencher as outras duas pastas, e todos sabem que Dilma
Rousseff não ousa contraditar seu antecessor, criador e preceptor.
Nos bastidores, no momento Lula tenta cuidar de um problema
muito mais grave do que nomear ministros. Trata-se de evitar mais desgaste em
sua imagem de homem público, que desde o episódio do mensalão vem sendo
deteriorada progressivamente, e agora a situação se complicou muito com a
corrupção na Petrobras e o desenrolar do caso Rosemary Noronha.
No momento, a preocupação maior de Lula e evitar a
divulgação dos abusivos gastos feitos no cartão corporativo da Presidência por
sua companheira de viagens internacionais, digamos assim. Como se sabe, o
Superior Tribunal de Justiça (STJ) já determinou que o Planalto divulgue ao
jornal O Globo os gastos de Rosemary no cartão.
Com a morte de Marcio Thomaz Bastos, Lula ficou desprotegido
em matéria de assessoria jurídica. Não há maiores informações, mas tudo indica
que, no desespero, o governo impetrou um recurso extraordinário ao Supremo.
Acontece, porém, que o próprio STJ pode indeferir a manobra protelatória, por
não se tratar de questão constitucional, e dar a questão por encerrada.
Portanto, em breve saberemos se houve recurso e se subiu ou não.
O que se sabe é o seguinte: se forem divulgados os gastos de
Rosemary com o cartão corporativo da Presidência da República, a imagem de Lula
estará seriamente comprometida junto à opinião pública, porque ele será
ridicularizado no Brasil e no exterior.
E o mais interessante é que a presidente Dilma Rousseff está
doida para liberar logo essas informações. Se depender do apoio dela, Lula
estará liquidado. A verdade é que Dilma não quer mais aceitar as ordens do
ex-presidente, mas ainda não tem como se livrar dele. Por isso, vai quebrar o
sigilo do cartão corporativo de Rose com um sorriso enviesado nos lábios.
Há alguns meses, quando o movimento “Volta, Lula” estava
ganhando força no PT, foi Dilma quem mandou “vazar” uma série de informações
sobre Rosemary ao repórter Vinicius Sassine, de O Globo. Dilma e Lula se odeiam
e fingem que se amam. Mas em sociedade tudo se sabe, como dizia Ibrahim Sued.
O dragão da roubalheira
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| Hospital em Maricá vai reproduzir na fachada silhueta de Che em ministério cubano |
Os escândalos
não bastam ao PT. Agora já antecipam os próximos crimes com naturalidade. Fazem
do novo lance de criminalidade explícita um evento maravilhoso.
No feudo
petista de Maricá, o prefeitinho continua a copiar modelos federais para instituir
a cidade modelo da estrela vermelha, mas que não passa de uma vilazinha
recheada do neo-coronelismo.
Com a
infestação do comissariado, como guarda-costas, e sem novidades para anunciar
em sua agenda positiva, aposta num crime amnunciado. Antecipa a corrupção e o
superfaturamento num só pacote. Estrondosa salva de patas.
Tudo bem
embrulhado sob o nome e a imagem de Che Guevara, ícone de camiseta para muitos
dos que se arvoram revolucionários no município. Sabem do médico argentino de
ouvir falar, ainda mais que na maioria são analfabetos funcionais. O resto da
muletada, nem isso.
É que
prometido desde a campanha da reeleição, há dois anos, o novo hospital,
apelidado de Che Guevara, que nem saiu do papel e só teve o terreno limpo do
matagal, vai ter novo orçamento. Devido aos ajustes no projeto – sem falar nos
aditivos que inevitavelmente virão como já são de praxe no petismo - o
valor de construção, segundo o governo, pulou de R$ 16 milhões para R$ 60
milhões, um aumento de 275%.
O alto preço, segundo justificava municipal, se deve à
necessidade de “se antecipar às recomendações que seriam encaminhadas pela
Vigilância Sanitária estadual”. Leia-se assim que o projeto inicial foi
propositadamente incompleto para justificar não só uma “reformulação”, mas um
aumento exagerado a fim de atender ao superfaturamento de obras como já se
tornou comum nos inúmeros roubos protagonizados por esse governo
municipal.
Essa não será a primeira roubalheira orquestrada pela
quadrilha petista no município. Da mesma forma, inauguraram simbolicamente um
centro cultural que deveria ser entregue em setembro de 2012 dentro da campanha
de reeleição. Este ano, depois de mais um ano de paralisação, as obras
recomeçaram ao custo de quase R$ 900 mil como complementação, quando o custo do
centro era de R$ 1 milhão.
A obra do hospital será mais uma falcatrua governamental no
rosário de apropriação indébita dos cofres públicos não só como roubo pra
valer, mas como ajuda de custo às candidaturas da mulher do prefeito e de seu
líder de governo respectivamente à Alerj e à Câmara federal. Serão dois postes
para gerar as famigeradas verbas parlamentares que nunca chegam para a melhoria
de vida do município, porque escoam pelo caminho.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Chantagem explícita
Al Capone vendia proteção aos comerciantes de Chicago. Se não pagassem, mandava seus capangas incendiar e até jogar bombas nos estabelecimentos.
Exceção das explosões, qual a diferença entre a ação do rei dos bandidos americanos e a ameaça feita pela presidente Dilma aos líderes dos partidos da base oficial, na noite de segunda-feira? Ela comunicou que só liberaria 444,7 milhões para as emendas individuais ao orçamento, de deputados e senadores, caso eles aprovassem o projeto alterando as metas fiscais para o ano em curso. Condicionou a entrega de recursos para obras nos municípios à votação do projeto alterando a Lei de Diretrizes Orçamentárias, permitindo ao governo descumprir a meta fiscal deste ano e transformar deficit em superavit.
O nome dessa operação é chantagem. Importa menos se parte das emendas individuais cheira mal, tendo em vista ligações espúrias entre seus autores e empreiteiros de obras superfaturadas. De qualquer forma, serão escolas, postos de saúde, pontes, estradas vicinais e uma infinidade de outras iniciativas destinadas a beneficiar municípios e regiões do interior.
A gente pergunta como tamanha barganha pode acontecer senão à luz do dia, pelo menos já de noite, sob os holofotes da sala de reuniões da presidente Dilma com seus líderes. Pior é que os fotógrafos registraram todo mundo rindo, como numa festa de Natal antecipada. Houve um adendo, quando a anfitriã acrescentou que seria aprovar o projeto de mudança na LDO ou o governo cortar verbas para obras em estados e municípios.
Como tamanha indecência pode acontecer? Primeiro por não ser novidade, muito menos prerrogativa da administração do PT. Ainda que sem a desfaçatez de um ato público, faz tempo que essas coisas se repetem, calcadas na Oração de São Francisco: é dando que se recebe. Do Brasil Colônia à Monarquia e à República, das ditaduras à democracia, a regra tem sido a mesma.
DE HERODES AOS TEMPOS ATUAIS
Herodes cuidou das criancinhas, chacinando milhares. Agora chegou a vez dos velhinhos. O governo anuncia que por conta do aumento da idade média dos brasileiros, será reduzido em 0.65% o cálculo das aposentadorias. Quer dizer, os velhinhos receberão menos porque viverão mais.
Artigo de Carlos Chagas transcrito de Tribuna da Internet
Confirmado o que se desconfiava
Passei seis meses na carceragem de Curitiba, até que, por ter uma alma mais pura, resolvi fazer a delação de tudo o que acontecia na Petrobras. E não só lá: isso acontece no Brasil inteiro, nas rodovias, nas ferrovias, nos portos, nos aeroportos e nas hidrelétricas.
Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras
Dilma manda às favas todos os escrúpulos
Quer saber o que é diálogo no entendimento da presidente
Dilma Rousseff?
Em resumo, é o seguinte: eu mando e você obedece. Se
obedecer será gratificado. Do contrário, prepare-se para sofrer represália.
Fui claro?
Ninguém foi mais claro do que a própria Dilma.
Na semana passada, os partidos aliados do governo fizeram
corpo mole e faltou quórum para que o Congresso votasse o decreto assinado por
Dilma que muda a meta fiscal de 2014.
Com esse objetivo, está marcada para esta noite uma nova
sessão do Congresso.
O que fez Dilma para “convencer” senadores e deputados a
aprovarem o decreto?
Editou outro decreto que condiciona uma nova liberação de R$
444,7 milhões para pagamento das emendas individuas dos parlamentares ao
Orçamento da União à aprovação do decreto que muda a meta fiscal deste ano.
É dando que se recebe, segundo São Francisco de Assis.
Os R$ 444,7 milhões garantem uma fatia de R$ 748 mil para
cada um dos 513 deputados e 81 senadores – dinheiro a ser empregado em obras
nos redutos eleitorais deles.
Se a meta fiscal não for mudada, adeus o dinheiro das
emendas. É o que está dito no novo decreto assinado por Dilma.
Para que os parlamentares não sejam amanhã acusados de
trocar o voto por dinheiro, Dilma se reuniu ontem à noite com 23 líderes de
partidos (isso mesmo, 23 líderes de partidos) e pediu o empenho deles pela
aprovação da nova meta fiscal.
Era a desculpa que queriam os líderes para justificar o voto
dos seus liderados. Como recusar um pedido da presidente? E logo agora quando a
caneta dela está cheia de tinta para assinar promoções e distribuir cargos?
Verdadeiramente espantosa a sem cerimônia com que Dilma 2, a
pragmática, está se impondo à Dilma 1 - a ex-faxineira ética.
Sem cerimônia e sem vergonha.
Entre vaias e segredos
Metade da diretoria da Petrobras sob comando de José
Gabrielli é alvo de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro no
Brasil, nos EUA, na Holanda e na Suíça
Ele se surpreendeu ao voltar de uma viagem a Portugal, dias
atrás. Primeiro, com ocasionais zombarias dentro do avião, audíveis o
suficiente para incomodá-lo durante toda a travessia do Atlântico. Na chegada,
sob um coro de vaias a bordo, o baiano José Sérgio Gabrielli de Azevedo, 65
anos, achou melhor desembarcar e procurar outro voo rumo a Salvador.
Um dos personagens mais influentes da era Lula, Gabrielli
trocou o circuito acadêmico dos economistas em 2003 pela cadeira de diretor
financeiro da Petrobras. Embarcado na presidência em 2005, ali ficou por sete
anos. Tornou-se o mais longevo entre os 34 que comandaram a estatal nas últimas
seis décadas.
Saiu há dois anos e nove meses, com a fantasia da
candidatura ao governo da Bahia pelo PT. O sonho se perdeu na poeira da
confusão crescente nas últimas 132 semanas sobre a sua gestão na Petrobras: num
breve passeio pela sede da empresa, na Avenida Chile, no Centro do Rio,
percebe-se como a maior estatal brasileira virou um conglomerado de advocacia e
contabilidade, que também produz petróleo e derivados.
Metade da diretoria comandada por Gabrielli, até fevereiro
de 2012, é alvo de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil,
nos EUA, na Holanda e na Suíça. Dos seis ex-diretores, dois estão presos.
Balanços estão em revisão, e auditores ainda relutam em subscrever a
contabilidade de novos ativos, entre eles os da refinaria Abreu e Lima (US$ 20
bilhões), do Comperj (US$ 15 bilhões), de plataformas e sondas (US$ 17 bilhões).
Os gastos nessas três áreas equivalem à soma do Produto Interno Bruto do
Uruguai, do Paraguai e da Bolívia.
Leia mais o artigo de José Casado
Agora é lei
A falta de escrúpulos do governo Dilma protagonizou esta
semana um ato comparável ao fechamento do Congresso pelos militares. Se um utilizou um ato de força, os petistas
apelaram para a "lei" e oficializaram a compra dos parlamentares
através das verbas partidárias, concretizando em lei a prática condenada do
mensalão. Todo o Congresso assim se torna um Poder títere, movimentado a
dinheiro das emendas parlamentares e não mais ao respeito ao voto do eleitor.
Para o governo, a compra vai sair mais barata e muito mais
segura do que a artimanha dos mensaleiros de Lula. Cada político, em Brasília,
vai sair pela bagatela de R$ 748mil.
Vote comigo ou não terá dinheiro, chantageia a presidente em
decreto, com a supremacia dos ditadores. O gesto é um ato arbitrário que
condiciona os políticos eleitos aos desmandos governamentais em troca de
dinheiro.
Fica claro o aparelhamento descarado e hipócrita do
Legislativo, que poderá ter reflexos ainda maiores quando esse poderio da
caneta e do dinheiro condicionar as Câmaras estaduais e municipais.
Pode haver quem veja algo comum, mas é incomum um Poder ser
comprado pelo outro em uma democracia. A compra e venda só determina que a
democracia propalada pelo PT não é nada mais do que uma ditadura partidária com
sérios e perigosos efeitos para o país, sua governabilidade e seu
desenvolvimento, ainda mais quando desce ladeira abaixo nas contas.
Se oficializa e se estabelece o preço de um deputado ou de um
senador, para legalizar um crime administrativo, Dilma esclarece com o decreto que a
eleição no Brasil é apenas uma questão de dinheiro e poder. O voto, que se dane, tanto do
eleitor quanto do político foi jogado na lata do lixo. É mera formalidade na democracia do PT.
O fim num imenso bocejo
Arrisca-se
a morrer de um ataque de bocejos quem permanecer, no PT, confiando nas
promessas da presidente Dilma. Como aconteceu na reunião do Diretório Nacional
do partido, em Fortaleza, no final da semana que passou, a primeira-companheira
inundou a plateia com chavões de mudanças sociais cada vez mais ousadas.
Parecia sobrinha do Lenin, tanto ao referir-se aos últimos quatro anos quanto
aos próximos. Em vez de arrancar aplausos generalizados, porém, inaugurou um
festival de imensos bocejos.
Porque
os petistas conformaram-se com as notícias de que Joaquim Levy seria ministro
da Fazenda, Katia Abreu, da Agricultura, Armando Monteiro, do Desenvolvimento,
e Henrique Alves, da Previdência, além da certeza de que PR, PP, PSD, PDT e PTB
não ficariam fora do ministério.
Todo
esse conjunto, além de outras nomeações previstas, indica de forma inexorável o
recuo definitivo do governo até as trincheiras da extrema direita. Tudo ao
contrário da pregação de campanha da então candidata e, até mesmo, de suas
atuais definições retóricas. Numa palavra, embromação. Na verdade, o segundo
mandato prenuncia submissão aos postulados neoliberais e aos seus agentes. Mais
uma vitória dos mesmos de sempre, anunciando aumento de impostos sobre a classe
média, jamais dos potentados. Além de predomínio do agronegócio diante das
pequenas propriedades, dos benefícios aos usineiros e do predomínio cada vez
maior da previdência privada sobre a previdência pública. A conclusão é de que
o PT, coitado, acabou no Irajá. Termina num imenso bocejo…
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Por que esse medo de escolher os mais bem preparados?
Novo Governo do Brasil será um teste para saber se estamos diante de algo novo ou se tudo acabará na clássica contemporização
Uma vez perguntei ao dono de uma grande empresa a que se
devia o sucesso da mesma, e me respondeu sem pensar: “Porque sempre escolhi os
melhores para dirigi-la”. Voltei a lhe perguntar se não temia ficar rodeado de
personalidades até mais valiosas do que ele, já que poderiam lhe fazer sombra.
Sorriu e me disse enigmaticamente: “Quem teme a luz ao seu redor é porque só
sabe trabalhar nas trevas”.
No sábado passado um dos participantes do programa de
televisão Globo News Painel, dirigido pelo genial jornalista William Waack, me
trouxe à memória aquela conversa. O participante destacou a dificuldade que os
governantes brasileiros demonstram para escolher (por exemplo para o cargo de
ministro) os mais bem preparados, personalidades indiscutíveis, para quem não
deveria ser difícil – exatamente por seu grau de excelência – oferecer toda a
liberdade em suas decisões sem medo de que lhe façam sombra.
Pelo contrário, é quase impossível ver à frente de um
ministério alguém de absoluta competência e rigor ético. O preço maldito que os
governantes têm de pagar aos partidos políticos para ganhar seu apoio faz com
que não cheguem a um ministério pessoas preparadas e de reconhecido
conhecimento na matéria da qual serão responsáveis, mas figuras cinzentas para
quem é mais fácil manejar e trabalhar para atuar em favor próprio do que para a
nação.
Por que para ministérios vitais como o da Educação, das
Cidades, da Saúde ou da Energia é necessário escolher um político de certo
partido apesar de existirem personalidades muito mais brilhantes e capazes
ainda que sem militância política concreta? Os ministros devem servir ao
Governo da nação e não a estreitos cálculos políticos.
Mentira, hábito e método
De comportamento inaceitável, a mentira virou hábito. E foi depois promovida a método. Esqueceu-se que mentira não constrói. Apenas entrega ilusão travestida de realidade.
A verdade parece cada vez mais incômoda, inconveniente, desagradável, indesejável, enfim. Destinada a ser sempre protegida por um muro de mentiras.
A verdade não mais é ditada pelos fatos. A verdade passou a ser simples consequência da narrativa. De quem narra. De quando narra. Do por que narra.
Deu no que deu.
Faz 100 dias que Lula afronta o Brasil
Faz 100 dias que os brasileiros decentes foram afrontados
pela descoberta do escândalo em que Lula
se meteu ao lado de Rosemary Noronha. Faz 100 dias que o país que presta é
afrontado pela mudez malandra do caçador de votos que promoveu uma gatuna de
quinta categoria a chefe do escritório da Presidência da República em São
Paulo. Faz 100 dias que o ex-presidente foge de perguntas sobre o caso de
polícia que protagonizou em companhia da Primeiríssima Amiga e dos bebês
quadrilheiros de Rosemary.
Surpreendido pela divulgação das maracutaias comprovadas por
policiais federais engajados na Operação Porto Seguro, Lula fez o que sempre
faz quando precisa costurar algum álibi menos cretino: perdeu a voz e sumiu.
Passou a primeira semana enfurnado no Instituto Lula. Passou as duas seguintes
longe do Brasil, driblando repórteres com escapadas pela porta dos fundos ou
pela cozinha do restaurante.
Recuperou a voz no começo do ano, mas ainda garimpa no porão
das desculpas esfarrapadas alguma que o anime a enfrentar jornalistas armados
apenas de perguntas sem resposta. Para impedir que a aproximação do perigo, tem
recorrido a cordões de isolamento, cercadinhos, muralhas humanas e outras
mesquinharias improvisadas para livrá-lo de gente interessada no enredo da
pornochanchada financiada por cofres públicos que apresentou ao Brasil, entre
outros espantos, os talentos ocultos de Rosemary Noronha.
O silêncio que vai completando 2.500 horas, insista-se, só
vale para o caso Rose. Entre 23 de novembro de 2012 e 3 de março de 2013,
excluídos os poucos dias em que teve de desativar o serviço de som, o palanque
ambulante continuou desempenhando simultaneamente os papeis de co-presidente da
República, presidente honorário da base alugada, chefe supremo da seita,
protetor dos pecadores companheiros, arquiteto do Brasil Maravilha e
consultor-geral do mundo.
Abençoou catadores de lixo e metalúrgicos, leu mais de 300
livros, fingiu entender o que Sofia Loren disse em italiano, avisou que os EUA
nunca mais elegerão um negro se Barack Obama fizer besteira, louvou bandidos de
estimação, insultou a oposição, deliberou sobre a tragédia ocorrida no jogo do
Corithians em Oruro, explicou aos governantes europeus como se transforma
tsunami em marolinha, recomendou a FHC que pare de dizer o que pensa e descobriu
que Abraham Lincoln reencarnou no Brasil com o nome de Luiz Inácio Lula da
Silva. Fora o resto.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
A obsessão do PT
Ao fim e ao cabo, até para controlar a mídia, o maior entre
todos os desejos, o PT mantém a marca da esquizofrenia.
É uma obsessão, uma doença crônica. Não há encontro do PT ou
de maioria petista que a tal da regulação da mídia não seja um dos eixos
estruturantes das discussões, para não fugir à linguagem que faz sucesso entre
esta turma.
No primeiro encontro do Diretório Nacional do PT depois das
eleições, encerrado ontem, o tema esteve lá o tempo todo, desde a abertura. “A
presidenta já fez menção sobre a regulação da mídia e deve lançar uma consulta
pública sobre essa questão em 2015”, garantiu Rui Falcão, que dirige a sigla.
Apareceu ainda espalhada em documentos diversos. Neles, a
diaba da mídia é acusada de todos os males – especialmente de divulgar as
denúncias de corrupção que quebraram de vez o encanto do partido que se dizia
guardião da moralidade.
Sob os domínios do ex Lula, o PT tentou aprovar a criação de
um órgão regulador, o Conselho Nacional de Comunicação, e de mecanismos de
controle da mídia. Foi rechaçado. No Congresso Nacional e fora dele.
Em 2009 a tese do cabresto emergiu com força a partir do
“clamor” de centenas de representantes da autoproclamada mídia independente
reunida na Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), integralmente
patrocinada pelo governo – da organização ao resultado. No ano seguinte, pás de
cal foram despejadas sobre a questão.
Ainda que refutada por Dilma Rousseff no primeiro mandado, a
regulação nunca deixou de ser crucial ao projeto de hegemonia do PT. E o
partido já avisou a presidente que não pretende abrir mão dela. Topa até
engolir alguns ministros-sapo, mas exigirá que o projeto regulatório
avance. Afinal, 2018 está logo ali.
Para amenizar o tom, o PT usa diabruras do dialeto. Controle
virou “regulação econômica” na boca de Dilma e é “democratização dos meios” na
galera que não consegue esconder o desejo expresso de dominar a mídia.
Leia mais o artigo de Mary ZaidanCriminologia
A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três
milhões de camponeses.
A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez
mil trabalhadores.
A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.
Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as
guerras, atos normais de canibalismo.
Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para
os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que
os pobres merecem.
Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:
“Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não
seja pobre?”
Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do
patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filet mignon, embora esses pratos apareçam no
menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo
hambúrguer e batata frita, como de costume.
Eduardo Galeano
Francis e o Petrolinho
Naquele outubro de 1996, no café da manhã antes da gravação,
Francis estava de mau humor. Era normal. Acabava de sair da cama.
Meia hora depois ele estava de bom humor. Era normal. Nossa
conversa na copa antes de gravar era fiada. Francis não falou em Petrobras. No
meio do programa, ele jorrou denúncia e transcrevo a gravação:
Francis: "Os diretores da Petrobras todos põe o
dinheiro lá...(Suíça) tem conta de 60 milhões de dólares..."
Lucas: "Olha que isso vai dar processo..."
Francis: "É...um amigo meu advogado almoçou com um
banqueiro suíço e eles falaram que bom mesmo é brasileiro (…) que coloca 50
milhões de dólares e deixa lá".
Lucas: "Os diretores da Petrobras tem 50 milhões de
dólares?"
Francis: "Ahh é claro... imaginem... roubam...
superfaturamento...é a maior quadrilha que já existiu no Brasil".
Foi além, mas não deu nomes dos diretores. Nem citou fontes.
No próprio programa, o número variou de US$ 50 milhões para 60 milhões.
Preocupado, perguntei se queria que cortasse a denúncia, embora o programa,
depois de gravado, só sofra cortes por tempo. Francis disse que não.
Na imprensa, numa escala de 1 a 10 em repercussão, a
denúncia do Francis mal registrou uns 2 pontinhos. Saíram notas em colunas.
Ninguém cobrou da Petrobras. Não sei por que o Francis nunca levou a denúncia
para os poderosos Globo, Estadão e Jornal da Globo, onde trabalhava, além do
Manhattan Connection, e tinham calibre muito mais grosso do que o GNT.
Seria o poder da Petrobras de silenciar a mídia com sua
publicidade? Ou sua reputação na época estava acima de qualquer suspeita? A
limitada audiência do canal?
Em novembro, Francis anunciou no programa, também sem aviso
prévio, que estava sendo processado pelos diretores da Petrobras, que "queriam
US$ 100 milhões de indenização". Na primeira página da carta de intimação
dos advogados dos diretores aparecem sete nomes, mas não há este número.
Ainda não descobri de onde saiu. Estes valores quase nunca
constam da primeira comunicação entre o processador e o processado.
E pagou sete mil...
Francis entrou num inferno legal. Por sugestão do amigo
Ronald Levinsohn, contratou uma advogada e pagou US$ 7 mil. Quando comentei que
não era muito, o Francis ficou furioso. Disse que eu não sabia das finanças
dele. Até que sabia, porque ele me contava, mas uma só defesa num processo
grande poderia destruir a poupança dele. Se perdesse, ficaria arruinado por
muito menos do que US$ 100 milhões.
Repercussão na imprensa sobre o processo? Mínima. Saíram
notas sobre os assombrosos US$ 100 milhões.
Crônica (atual) de velhos tempos
“A nobreza e a lacaiada não são as únicas salsas dos assaltos e roubos que vos deixam desolado”
Os homens fizeram os reis para os homens e não para os reis;
colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo das
violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do príncipe é velar pela
felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve
dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
Sustentar a miséria pública é a melhor salva-guarda da
monarquia, é sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se veem mais querelas
e rixas do que entre os mendigos?
Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele
cuja existência atual é miserável? Qual Estado? Não será aquele que com isso só
pode ganhar por nada ter a perder?
Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e
cujo governo não pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo
confisco e pela miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder
supremo. Empregando estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de
rei, mas de rei não teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real
não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes”
Thomas Morus (1478-1535)
domingo, 30 de novembro de 2014
Segundo mandato
Sem qualquer formalidade, com uma ostensiva aparência de rotina, o Palácio do Planalto apresentou a troika responsável pelo comando da nossa economia
Quase envergonhado, afinal inaugurou-se o propalado processo
de mudança. Faltou-lhe um ingrediente indispensável, tão indispensável que sua
ausência pareceu a alguns como comprometedora. Sem qualquer formalidade, rito
ou liturgia, com uma ostensiva aparência de rotina o Palácio do Planalto
apresentou a troika responsável não apenas pelo comando da nossa economia mas
pela alteração do seu modelo.
Dilma Rousseff não presidiu a primeira solenidade do seu
segundo mandato simplesmente porque o primeiro ainda está em curso. Para evitar
constrangimentos encurtou um final melancólico e dispensou as fanfarras que
abriria sua segunda presidência com a ostensiva sem-cerimônia conduzida pelo
competente jornalista Thomas Traumann, ministro-chefe da Secretaria de
Comunicação da Presidência da República, que apresentou os nomes de Joaquim
Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini respectivamente Ministro da Fazenda,
do Planejamento e Presidente do Banco Central. Em seguida, entregou-os ao
escrutínio da imprensa.
Na aparência descuidado, o formato foi cuidadosamente
preparado para disfarçar a drástica guinada e o seu subproduto mais
inconfortável – o reconhecimento de que uma das mais substantivas promessas
eleitorais está esquecida. Haverá controle de gastos, apertos, enxugamentos,
haverá intervenções ortodoxas no laissez-faire vigente, haverá responsabilidade
fiscal e controle da inflação.
O ministro Gilberto de Carvalho que em breve deixará a
Secretaria Geral da Presidência, com a sua proverbial espontaneidade ofereceu
uma versão extremamente criativa para justificar a escolha do novo ministro da
Fazenda: Levy aderiu à política do PT. Não explicou qual o PT a que se referia.
Na verdade, deu-se exatamente o contrário: o governo afinal reconheceu que a
errática política econômica era equivocada. Não por culpa do ministro Guido
Mantega (o mais longevo da pasta), mas por culpa dos que o obrigaram a esquecer
o que sabe e adotar um receituário de curtíssimo prazo, contraditório,
destinado a agradar marqueteiros e produzir resultados eleitorais.
Piratas e corsários
Não há dúvida de que a Petrobras já foi alvo de larápios em
governos anteriores, mas nenhum deles, além do próprio bolso, intentava
apossar-se da República.
Em tese, roubar um fusca ou um BMW enquadra o infrator no
mesmo dispositivo do Código Penal. Roubo é roubo, não importa a quantia. Do
ponto de vista moral, não há dúvida. Mas, como indica a lei processual, há
agravantes e atenuantes em qualquer espécie de delito: o que o move, a
premeditação, os meios etc.
No caso específico das denúncias em curso na Petrobrás e
adjacências – Eletrobrás e PAC, por exemplo -, o que se conhece e o que se
vislumbra até aqui remetem ao quesito agravante. Não se trata de mero roubo,
que se pratica para enriquecimento próprio.
Os sinais de que se estabeleceu uma operação sistêmica, com
o objetivo de financiar partidos políticos – e, nesses termos, um projeto de
poder –, vai muito além do que seria mais um caso de corrupção. Agride o
próprio sistema democrático e a República.
E um crime contra a República, convenhamos, é bem mais grave
que roubar um fusca ou mesmo um BMW – ou ambos. Nesse caso, o remédio é
simples: prende-se o ladrão, recupera-se o produto do roubo e ponto final. Tudo
começa e acaba numa delegacia de polícia. No caso, porém, do que ocorre na
Petrobras, não basta recuperar o que foi roubado e enquadrar os operadores.
É preciso desmontar a engrenagem da qual eles eram apenas
peças e responsabilizar os que a moviam e beneficiavam-se de seus propósitos
políticos. Aí, o caso extrapola o âmbito das delegacias de polícia e
necessariamente ascende ao das instituições.
Não importa se a presidente da República e seu antecessor
embolsaram ou não algum centavo. Ainda que não – e lhes cabe o benefício da
dúvida -, são os contemplados políticos do produto do crime. Que sabiam do que
lá se passava só não crê quem não quer.
De surpresa em surpresa
Você se surpreendeu ao saber que houve corrupção numa estatal? E que envolveu funcionários pagos com seu dinheiro?
Nenhum se arrependeu. Nenhum sentiu vergonha. Desmentiram
Freud, para quem a vergonha, ao causar uma reação involuntária no corpo — o
rubor — mostra ser tão forte quanto o desejo sexual ou o asco, que não
conseguem controlar as reações físicas que despertam. Mas nossos “heróis” não
têm vergonha, não se arrependem, não reconhecem que fizeram nada errado. São
juízes de si mesmos e se absolvem.
Isso é surpreendente. Mas os escândalos em série não
chegaram a surpreender ninguém. Você se surpreendeu ao saber que houve
corrupção numa estatal? Ou ao saber que ela envolveu empreiteiros e
funcionários pagos com seu dinheiro? A ingenuidade brasileira não chega a
tanto. Aceitava essa existência como parte do aparelhamento. Algo inevitável,
que se varre para baixo do tapete ou se faz de conta que não há. Quando agora
se fala em corrupção espantosa, o espanto não é porque ela existiu. É com o
montante dos valores, o caráter sistemático, a alta hierarquia dos envolvidos,
a sua ligação direta com quadros partidários. E com a investigação equilibrada
que não entornou antes da hora, não fez estardalhaço prematuro antes das
eleições de modo a tumultuar o pleito, administrou bem as delações premiadas,
se escorou em informações confiáveis sobre o dinheiro, checou dados com o
exterior, talvez recupere parte do prejuízo. E parece caminhar por partes, um
passo de cada vez, só indo para a etapa seguinte quando já amarrou a anterior
com alguns nós bem apertados.
E os que mandam em tudo? Não têm mesmo culpa nenhuma? Nenhuma responsabilidade? Não sabiam de nada? Reconhecem que perderam a autoridade e foram enganados por subalternos que lhes davam relatórios fajutos enquanto praticavam malfeitos? Serão culpados apenas de incompetência e boa-fé? Ou sinceramente acreditavam que em nome de interesses mais altos para o país deviam fechar os olhos? Que interesses? Seu projeto de poder? A infalibilidade da causa e do projeto que defendem? Querem que o povo aceite que há um teto de corrupção inerente ao sistema e propõem uma espécie de franquia para isso? De quanto acham que seria palatável? Ou será que se envergonham?
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