domingo, 24 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Obras sobre ditadores ganham destaque em momento de instabilidade na América Latina

Houve uma época em que se consolidou na América Latina uma tradição literária peculiar: a dos chamados "romances de ditador". Não foram poucos os escritores que se deixaram fascinar (e assombrar, às vezes, ao mesmo tempo) pelo vínculo cultural e político que se estabelecia entre povos inteiros e líderes carismáticos, temidos e venerados.

Entre as obras mais destacadas desse ciclo está "O Senhor Presidente" (1946, ed. Mundareu), do Nobel guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Nela, a brutalidade de um regime repressivo é narrada a partir da história de uma pessoa em situação de rua que, sem querer, causa a morte de um coronel.


O nome do país e do ditador não são ditas de modo explícito, mas tudo leva a crer que se trata do regime de Manuel Estrada Cabrera, que governou a Guatemala com mão de ferro de 1898 a 1920, com uma série de eleições fraudulentas.

Outras obras fundamentais dessa tradição são: "Eu o Supremo" (1974, ed. Pinard), do paraguaio Augusto Roa Bastos, e "A Festa do Bode" (2000, ed.Mandarin), do peruano Mario Vargas Llosa, outro Nobel.

No primeiro, Roa Bastos mergulha na figura de José Gaspar Rodríguez de Francia, que governou o Paraguai de 1814 a 1840 de modo isolacionista para se defender de vizinhos poderosos. Transformou-se em alegoria do poder absoluto na região.

Já Vargas Llosa decidiu reconstruir a era de Rafael Trujillo, ditador da República Dominicana de 1930 a 1938 e de 1942 a 1952, tendo ainda governado de modo indireto nos períodos de 1938 a 1942 e de 1952 a 1961, usando líderes que ele mesmo colocava no poder e manipulava.

Seu regime é responsabilizado por dezenas de milhares de mortes. Inimigos políticos eram atirados no mar.

Cinco décadas atrás, a esse cânone se juntaria sua obra mais importante: "O Outono do Patriarca (1975, Record), do mais célebre entre os Nobel da região, Gabriel García Márquez.

A obra é a mais ousada dessas novelas. Ao contrário das que se apoiavam em figuras históricas reais, Gabo, como Gabriel García Márquez também é conhecido, construiu um ditador arquetípico, sem nome e feito de pedaços de muitos outros. Um general eterno, que morre e ressuscita, que governa um país fictício, imóvel num tempo circular. É a ficção levada ao limite para mostrar que o autoritarismo não é só um regime, mas uma atmosfera que envenena a linguagem, a memória e o futuro.

Esses livros mostram como a literatura foi capaz de decifrar as patologias políticas do continente. Asturias revelou a sombra paranoica de Estrada Cabrera; Roa Bastos mostrou como Francia esteve presente no defensivismo paraguaio desde então; Vargas Llosa desnudou o trauma de Trujillo; García Márquez inventou o ditador eterno.

Todos, à sua maneira, demonstraram que o autoritarismo latino-americano é mais do que uma sucessão de governos: é uma engrenagem cultural que se reinventa em diferentes épocas.

Em tempos em que líderes personalistas continuam a ameaçar a democracia —Bukele, Ortega, Bolsonaro, Evo Morales, Rafael Correa e Daniel Noboa, entre outros—, o cinquentenário de "O Outono do Patriarca" ganha relevância.

Ele nos lembra que líderes que podem encantar e seduzir são muitos e estão sempre prestes a aparecer. Só não podemos dizer que não fomos avisados.

A distopia realizada na América

O medo comporta gradações, que variam do temor ao pânico. Devem oscilar entre um e outro os sentimentos de milhões com a notícia de que Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, compartilha em vídeo a opinião de pastores contrária ao direito feminino de voto. É a primeira vez em séculos que o poder americano desfaz publicamente um voto de modernidade democrática.

A esse barbarismo segue-se outro: figura central do grupo, o pastor nacionalista cristão Doug Wilson associa hierarquia patriarcal à racial, garantindo que havia afeição mútua entre escravistas e escravos. Infere-se que também mulheres estariam afeitas à escravidão patriarcal. Tudo isso faz parte da ofensiva antifeminina de Trump, que agora tenta demitir a primeira mulher negra a dirigir o Federal Reserve, o banco central americano. O autocrata é conhecido pelo comportamento repulsivo para com mulheres. A intimidade de 15 anos com o pedófilo Jeffrey Epstein sugere que parceira segura é um misto de escrava sexual e boneca inflável.


Mas o medo não comparece só em preocupações democráticas como também, sob forma de terror, em causas primais da aversão ao feminino. Ganha proporções o tópico da "vagina dentata", fonte mítica de fantasias de castração masculina. Disso é exemplar a comédia de terror feminista "Teeth" (2007), de Mitchell Lichtenstein. Com reflexo na modernidade big tech: Mark Zuckerberg, boneco ventríloquo de Trump, atemoriza-se em público com a "falta de energia masculina nos EUA". A raiz do pânico é a indistinção entre delírio e realidade, moldada pelo cinema de catástrofe. A tela tanto precede a vida que a ficção se materializa aos olhos de todos.

Isso inspira uma distopia como a de Margaret Atwood em "O Conto da Aia" (1985), sucesso no streaming: no futuro, as mulheres se tornam escravas sexuais de uma elite poderosa. Uma distopia feita de imaginação, realidade da opressão feminina nas ditaduras islâmicas e ideologia patriarcal de comunidades espelhadas no nacionalismo cristão. Nos EUA, país de cidadania conformista com o sistema e religião como modo de vida, as seitas dão continuidade às utopias nostálgicas que radicalizam exigências morais de suposta proveniência bíblica. Cultua-se não o país real, mas o que se supõe ter sido no passado.

Daí um primitivismo aberto a mitos regressivos, refratários à autarcia feminina. Concretizado, o terror mítico é fissura na dita modernidade da América. Não simples detalhe de superfície numa poderosa infraestrutura econômica-militar, mas indício embrionário do colapso moral que sinaliza o fim do ciclo hegemônico de um império. "Tem um momento em que toda família começa a apodrecer", dizia Nelson Rodrigues ("Flor de Obsessão"). Pode acontecer com nações. São claros os sinais na América trumpista.

Ao trabalho! Uma enxada para cada nacionalista

“As pessoas conseguem ser muito más”, diz a minha sobrinha, 9 anos acabados de fazer, enquanto falamos sobre as notícias acerca de um grupo de pessoas que deram à costa no Algarve e lhe explico que elas terão de abandonar o País. Quando se tem 9 anos, o difícil é entender por que motivo não se acolhem aqueles que arriscaram a vida, dias a fio numa casca de noz, a tentar fugir da miséria. “As pessoas são burras”, acrescenta a minha filha, de 7 anos, indignada, enquanto explica à prima que quem vem para cá só está à procura de um trabalho e de viver num país em paz. “Se houvesse uma guerra, eu também fugia”, diz ela, olhando para o mar, talvez à procura de vestígios de outras embarcações que pudesse salvar. Faz uma pausa. E começa a explicar à prima que as bolas de Berlim que acabaram de me pedir na praia foram trazidas para Portugal por judeus que fugiam à guerra “e a um mau mesmo muito mau”.

Suponho que a empatia seja uma coisa que se gasta. Parecemos bastante dotados dela quando ainda não chegámos à puberdade e entendemos facilmente a ideia de ajudar quem precisa. Depois, começamos a ficar enterrados dentro do próprio umbigo, assustados com um conceito que as crianças não dominam: a escassez. Quanto mais nos convencemos de que o que existe é limitado, mais ameaçadora nos parece a ideia de partilhar o que temos. A questão é que existe, muitas vezes, uma manipulação da ideia de escassez: apresentam-nos como escassos bens que poderíamos facilmente partilhar, ao mesmo tempo que se ocultam as possibilidades multiplicadoras que têm certas ações. Uma fila de gente com turbante à porta de um Centro de Saúde no litoral alentejano parece uma ameaça à possibilidade de ter uma consulta, num local onde há cada vez menos médicos. Uma fila dessa mesma gente no campo, apanhando fruta sob um sol escaldante, pelo contrário, não parece suscitar qualquer ideia sobre os benefícios desse trabalho. Porquê? Porque, muito provavelmente, os benefícios desse trabalho sofrido e mal pago vão quase exclusivamente para os bolsos de quem explora aqueles campos agrícolas e não é obrigado a dar nada (ou quase nada) em troca à população que ali vive.

Quando um produtor de vinho desespera porque não consegue contratar pessoal para a vindima, apesar de oferecer boas condições, oiço-o a explicar-me que os jovens lá da terra se recusam a trabalhar e nem lhe atendem o telefone. São portugueses e não vivem de outro subsídio que não seja a mesada paga pelos pais, que lhes garantem telefones topo de gama e um verão sem responsabilidades, entre os ecrãs e as praias fluviais da zona. Os mesmos pais que se incomodam com a presença cada vez mais visível de africanos e indostânicos nas ruas da terra, onde nunca antes se tinha visto gente tão escura, vindos precisamente para aceitar os trabalhos que os seus filhos recusam.

Eduardo Lourenço dizia que “não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza”, o trabalho, dizia, era “para o preto”. Por muito que os portugueses se tenham matado sempre a trabalhar, as elites nacionais fugiam como o Diabo da cruz da ética protestante do trabalho. Hoje, essa fuga ao trabalho é incutida nos filhos pelas classes a quem o 25 de Abril deu instrumentos de mobilidade social. Aqueles que sabem o que era amargar no campo, nem que seja pela memória da avó de lenço na cabeça e pés descalços, querem poupar os filhos a isso. É perfeitamente compreensível. Só não se entende quem, afinal, virá fazer o trabalho, se não o queremos feito por nós nem pelos nossos filhos e também não queremos que cá venham os de fora fazê-lo.

“Viva, Espanha! Mas viva, Espanha, aqui. Não é viva, Espanha, nos vossos escritórios com ar condicionado”, diz um imigrante negro, no meio de um campo, num vídeo que circula nas redes sociais, no qual faz um discurso em castelhano sobre como todos os dias, debaixo de um sol impiedoso, faz a sua parte por Espanha, o país onde o partido de extrema-direita, Vox, diz querer expulsar oito milhões de imigrantes.

“Vocês não vão expulsar ninguém, ninguém. E muito menos oito milhões de pessoas. Primeiro, porque se expulsam tanta gente, no final vai ter de trabalhar até o Abascal. E, segundo, porque não representam os imigrantes. Representam os empresários que os exploram. E se os empresários exploradores perceberem o que querem fazer, até vos comem”, reagiu Gabriel Rufián, da Esquerda Republicana da Catalunha, numa intervenção nas Cortes Espanholas, que se tornou viral e arrancou gargalhadas no plenário quando sugeriu que até Santiago Abascal, o líder do Vox, poderia ter de trabalhar no duro, caso se fossem embora todos aqueles que hoje sustentam a economia espanhola, aceitando os trabalhos mais difíceis, os mais mal pagos e aqueles que são tão essenciais numa sociedade dependente de serviços e numa estrutura social que não sobrevive sem uma rede de cuidados pagos a idosos e crianças.

A ideia de que os que temem a grande substituição étnica deviam estar de enxada na mão nos campos é interessante. E não é só porque a sua falta de vontade de trabalhar nalguns setores faz com que seja essencial receber trabalhadores de outras paragens (e é bom lembrar como a nacionalista Giorgia Meloni se viu obrigada a abrir um programa para trazer 500 mil imigrantes não europeus para Itália) e também não é por um desejo qualquer de os ver castigados. É mesmo porque é urgente resgatar a empatia.

Há razões para achar que essa não será forçosamente uma batalha perdida. Em 2024, o jornalista François Ruffin, sob a lente do realizador Gilles Perret, anunciou um projeto de “reintegração social dos ricos”. O projeto deu origem a um documentário chamado Au Boulot! (em português seria “Ao trabalho!”), que nasceu de um desafio feito a uma jovem loura privilegiada, comentadora televisiva, conhecida por andar pelos estúdios da televisão francesa a debitar ataques aos “vagabundos, aos subsídio-dependentes, aos preguiçosos” e por se indignar por o dinheiro dos seus impostos ser usado para sustentar “a mediocridade dos que não querem fazer nada”. Seria Sarah Saldmann capaz de viver a vida dos que ganham o salário mínimo em França?

Ainda não consegui ver o filme, mas os excertos que encontrei na internet são poderosos. Sarah Saldmann, que começa por aparecer em restaurantes chiques e lojas de luxo, calça luvas e atira-se ao trabalho. Numa quinta a cuidar de animais, nas limpezas esfregando sanitas, num lar cuidando dos idosos, nas obras, num restaurante. “Vais conseguir continuar a falar na televisão sobre subsidiodependentes sem te lembrares da cara da Nathalie?”, pergunta-lhe Ruffin, num dos vários momentos em que a comentadora se confronta com as histórias de vida daqueles a quem foi impossível continuar a estudar ou, tendo estudado, não conseguiram empregos que não os que lhes rendem o salário mínimo francês. Aos poucos, Sarah vai perdendo a ideia de que “temos a vida que escolhemos ter”.

Há uma transformação redentora quase tão absoluta como aquela que víamos nos filmes pirosos de Hollywood aos fins de semana no Chiado Terrace da SIC. A comentadora privilegiada e cheia de ideias feitas sobre as classes trabalhadoras ganha empatia. Consegue finalmente perceber que nem todos temos as mesmas hipóteses na vida, que nem todos partimos do mesmo lugar e que o esforço e o mérito não são a garantia de um sucesso que possa medir-se em euros.

Não podendo andar a distribuir enxadas ou luvas de trabalho entre os apoiantes dos partidos que querem criminalizar a imigração, talvez seja importante voltar à ideia do trabalho como fonte de dignidade. Não o dinheiro. Não o sucesso. O trabalho. Aquilo que se consegue fazer usando as mãos e a cabeça. Aquilo que produz alguma coisa.

'Meu filho não sabe qual o gosto de uma fruta'

Moradores da Faixa de Gaza descreveram à BBC os efeitos da fome em seus corpos, depois que um relatório apoiado pela ONU confirmou, pela primeira vez, a ocorrência de fome generalizada em partes do território.

Reem Tawfiq Khader, 41 anos, mãe de cinco crianças na Faixa de Gaza, disse: "A declaração de fome veio muito tarde, mas ainda assim é importante. Nós não comemos nenhum tipo de proteína há cinco meses. Meu filho mais novo tem quatro anos e ele não sabe qual o gosto de frutas ou verduras".

A ONU afirma que Israel restringiu a quantidade de ajuda humanitária que entra em Gaza, o que Israel nega.


Israel também nega que haja fome no território, em contradição com o que dizem mais de 100 organizações humanitárias, testemunhas locais e diversos órgãos da ONU.

Na sexta-feira, o Integrated Food Security Phase Classification (IPC), sistema apoiado pela ONU que monitora a insegurança alimentar, afirmou que há uma fome "totalmente provocada pelo homem" na Cidade de Gaza e nas áreas ao redor.

O órgão alertou que mais de meio milhão de pessoas em toda a Faixa de Gaza enfrentam condições "catastróficas", caracterizadas por "fome, miséria e morte".

Rajaa Talbeh, 47 anos, mãe de seis, disse que ela já perdeu 25 quilos. Ela fugiu de casa, no distrito de Zeitoun, na Cidade de Gaza, há um mês e hoje vive em uma tenda improvisada perto da praia.

Ela sofre de intolerância ao glúten e disse que já não consegue encontrar alimentos que ela pode comer.

"Antes da guerra, uma instituição de caridade me ajudava a conseguir produtos sem glúten, algo que eu jamais poderia pagar sozinha", disse.

"Desde que a guerra começou, eu não consigo encontrar o que eu preciso no supermercado e, mesmo quando eu consigo, não tenho condições de comprar. Já não basta enfrentar os bombardeios diários, o deslocamento e viver em uma tenda que não nos protege nem do calor do verão e nem do frio do inverno — e agora, ainda por cima, a fome?"

'Minha filha não consegue andar... ela está desnutrida'

Rida Hijeh, 29 anos, contou que o peso de sua filha de cinco anos, caiu de 19 quilos para 10,5 quilos.

Segundo ela, Lamia era uma criança saudável antes da guerra e não tinha nenhum problema de saúde.

"Tudo isso está acontecendo por causa da fome", afirmou.

"Simplesmente não há nada para as crianças comerem. Não há verduras, não há frutas."

Hoje, Lamia sofre inchaço nas pernas, queda de cabelo e problemas neurológicos.

"Ela não consegue andar. Procurei vários médicos, hospitais, clínicas. Todos me disseram que minha filha está desnutrida. Mas ninguém me deu nada, nenhum tratamento e nenhum tipo de ajuda."

Mandy Blackman, uma enfermeira britânica que trabalha para a ONG UK-Med em Gaza, disse que 70% das mães atendidas nas clínicas de saúde materna, pré-natal e pós-natal sofrem de desnutrição clínica.

"Como resultado disso, os bebês nascem menores e mais vulneráveis", afirmou.

Mais de 62 mil pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel iniciou sua campanha militar, em resposta ao ataque liderado pelo Hamas no sul de Israel em 7 de outubro de 2023, quando 1.200 pessoas foram mortas e outras 251 levadas como reféns.

Desde o início da guerra, pelo menos 271 pessoas, incluindo 112 crianças, morreram de "fome e desnutrição", de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.

Outra mulher, Aseel, que mora na Cidade de Gaza, contou: "Cinco meses atrás, eu pesava 56 quilos. Hoje, peso apenas 46 quilos."

Ela disse que não come nenhum pedaço de fruta ou carne há meses e que gastou quase todas as suas economias com ingredientes básicos para sobreviver.

A cunhada de Aseel, que mora com ela, tem um bebê de um mês de idade.

"Ela está desesperada em busca de fórmula infantil a um preço razoável", afirmou.

Segundo ela, quando eles conseguem encontrar, a lata custa cerca de 180 shekels — cerca de R$ 260 na conversão atual.

"Eu não tenho nenhum estoque de comida, nem o suficiente para durar uma ou duas semanas", acrescentou.

"Como milhares de pessoas, vivemos um dia após o outro."

Como a seca pode afetar a economia global?

O planeta Terra é composto por 70% de água , mas apenas 0,5% dela é água doce utilizável. Grande parte dessa água é escassa devido à crescente demanda, ao aumento das temperaturas e à seca.

Cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo atualmente não têm acesso regular à água potável, enquanto metade da população mundial sofre escassez de água durante parte do ano.

O valor econômico do funcionamento dos ecossistemas de água doce foi estimado em 60% do produto interno bruto (PIB) mundial, de acordo com a organização conservacionista World Wildlife Fund ( WWF ).

O alto estresse hídrico em países áridos e afetados pela seca na África e no Oriente Médio levará a um declínio de 25% em suas economias nos próximos 20 a 30 anos, disse Quentin Grafton, titular da Cátedra UNESCO em Economia da Água e professor de economia na Universidade Nacional Australiana.

"Estamos em um momento crítico. Teremos que nos adaptar muito mais rapidamente", disse ele em entrevista à DW. E como a escassez de água afeta o abastecimento de alimentos, a atividade econômica e o emprego nessas regiões, problemas sociais e políticos podem surgir, explicou.

Além disso, o deslocamento e a migração em massa criam instabilidade em lugares como o sul da Europa. E, embora os ecossistemas de água doce possam reduzir a duração e a gravidade das secas, eles foram esgotados pelo desenvolvimento e pela irrigação excessiva. O mundo perdeu um terço de suas áreas úmidas desde 1970, observa o WWF.

A crise hídrica também desacelerará o crescimento de economias em desenvolvimento poderosas. Grafton afirma que a Índia não tem água suficiente para sustentar, por exemplo, usinas termelétricas a carvão. A população rural pobre da Índia é a que mais sofre com a escassez de água. As soluções incluem programas de barragens de terra que retêm melhor as chuvas das monções antes da estação seca.

Represa em Bamford, Reino Unido

Calor recorde e seca estão causando a redução do fluxo dos rios e a secagem de lagos e reservatórios. Tudo isso dizimou a produção agrícola, a base das economias da Ásia e da África.

Durante a severa seca de 2020-2023 no Chifre da África, que foi agravada centenas de vezes pelas mudanças climáticas, cerca de 13 milhões de animais morreram e plantações foram perdidas, enquanto pelo menos 20 milhões de pessoas sofreram grave escassez de alimentos e a perda de seus meios de subsistência.


A escassez de água também está aumentando na Europa, à medida que a região se aquece mais rápido do que qualquer outro continente do planeta, exceto a Antártida.

A Alemanha vivenciou um final de inverno e um início de primavera mais secos no início deste ano. A seca se espalhou por grandes áreas do continente e pelos países mediterrâneos.

Eles enfrentam calor extremo contínuo, incêndios florestais e escassez de água.

Além disso, os setores industriais estão competindo por recursos hídricos limitados, disse Sergiz Moroz, especialista em gestão de recursos hídricos da Agência Europeia do Meio Ambiente. "O setor de tecnologia da informação (TI) de repente vem a Bruxelas e diz que precisamos de muita água de alta qualidade para todo o crescimento que veremos", explicou. "Os agricultores vêm e dizem: 'Olha, não podemos cultivar alimentos sem água.'"

A UE está abordando o consumo significativo de água em data centers de TI, cujos sistemas de refrigeração consomem enormes quantidades de água para evitar superaquecimento. A Estratégia de Resiliência Hídrica da UE, que entrará em vigor em 2026, planeja impor limites de uso às empresas de tecnologia.

E nos Estados Unidos, o acesso à água está diminuindo "à medida que a água se torna mais escassa. Espera-se que o número de pessoas sem acesso à água aumente devido às pressões relacionadas a eventos climáticos", disse à DW George McGraw, fundador e diretor executivo da organização sem fins lucrativos DigDeep, com sede na Califórnia.

"A maneira mais fácil de proteger a economia americana dessas crises é tornar a água universal", disse ele.

A cruzada antigênero de Bolsonaro desfigurou o Estado brasileiro

Acabava de irromper a pandemia de COVID-19 que, no Brasil, deixaria no seu rastro mais de 700 mil mortes. Nesse cenário, alguns especialistas buscavam fôlego para entender e responder ao avanço da política de ultradireita já então materializada como um novo modo de governar o Brasil. Desde 2019, as autoridades governamentais faziam diatribes sobre a urgência de abolir o gênero das políticas sociais e da pauta política.

Assim, quando muitas vozes ainda diziam que o ódio antigênero registrado em 2018 era mera retórica de campanha, foi necessário levar a sério a afirmação do ex-presidente Jair Bolsonaro no discurso de posse e em sua primeira intervenção na Assembleia Geral das Organizações das Nações Unidas, de que o combate ao gênero seria uma prioridade do seu governo.

Foi quando reunimos especialistas em gênero e sexualidade do Observatório de Sexualidade e Política (SPW) e do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da Universidade Federal de Minas Gerais (NUH/UFMG) para compreender como um governo arruinava, paulatinamente, concepções de políticas públicas de democracia sexual conquistadas em três décadas. O resultado desse estudo acaba de ser publicado sob o nome de Ruinologia: Uma Cartografia da Política Antigênero no Governo Bolsonaro (2019-2022).

Nossa surpresa foi que não se tratou de um simples desmonte de políticas públicas democráticas. Há uma ruína. O governo Bolsonaro operou uma “destruição produtiva”, desfigurando terminologias e ressignificando o próprio arcabouço conceitual e epistemológico dos direitos humanos. Tanto que dificilmente este e os próximos governos, mesmo que venham combater a ultradireita, dificilmente desmontarão o retrógrado legado. Temos de primeiro, reconhecer a eficiência desse desmonte.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), sob a gestão de Damares Alves, hoje senadora, tornou-se o epicentro dessa estratégia. De 2019 a 2022, a ofensiva antigênero, antes restrita a mobilizações sociais, incrustou-se no aparato estatal, transmutando-se em uma “nova política de gênero” ultraconservadora e neoliberal.

Um dos paradoxos mais evidentes dessa gestão foi a retórica de “proteção” da população LGBT+, em contraste com o combate ferrenho à “ideologia de gênero”. Damares Alves e outros representantes do governo propagaram a ideia de que o Estado deveria “proteger e não promover”. Essa lógica, aparentemente conciliatória, permitiu a gradual descaracterização e desestruturação das políticas LGBT+, antes consolidadas.

A própria Diretoria de Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, embora mantida, foi esvaziada e, por fim, renomeada como Departamento de Proteção de Direitos de Minorias Sociais e População em Situação de Risco. A inclusão da categoria “ideologia de gênero” nos canais de denúncia do ‘Disque 100’ como uma “violação de direitos” é um exemplo claro dessa infiltração ideológica no cerne da gramática estatal, transformando um instrumento de proteção em ferramenta de perseguição arbitrária de servidores públicos.

As “políticas familiares” foram outro pilar da ruína democrática. A criação da Secretaria Nacional da Família (SNF) com a premissa de que a “família”, no singular, é a instituição basilar a ser protegida, visava impor um modelo ideal de núcleo familiar. Programas como o “Reconecte” e “Famílias Fortes”, com orçamentos modestos, mas com grande apelo simbólico, buscavam tutelar a vida privada, disciplinando o uso de tecnologias digitais e orientando a “parentalidade positiva”. O objetivo era claro: sedimentar uma mobilização política conservadora nos níveis locais cujo eixo era o acionamento sistemático da família ou do fortalecimento familiar, entendido de maneira estreita como o vínculo entre genitores e sua prole.

A agenda familista do governo Bolsonaro esteve intrinsecamente ligada a um neoconservadorismo que se expressou, por exemplo, na defesa da abstinência sexual para jovens e na tentativa de impedir o aborto legal de uma criança vítima de violência sexual no Espírito Santo. Essas ações, muitas vezes brutais, eram embaladas por uma “diplomacia paralela” do MMFDH e do Ministério de Relações Exteriores, alinhando o Brasil a movimentos antigênero e antiaborto internacionais.

O legado é persistente. Embora o governo Bolsonaro tenha terminado em 2022, os rastros dessa “ideologia antigênero” permanecem insidiosamente incrustrados na gramática estatal. A inexplicável demora na publicação de portarias ministeriais para implementar políticas de assistência a pessoas trans, somada à persistência de lacunas e distorções nas definições de violações de direitos humanos em razão de gênero e sexualidade no atual Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, são evidências de que esses legados ainda não foram devidamente debelados.

É fundamental que a sociedade civil, a academia e a imprensa permaneçam vigilantes. A tese de que “pautas dos costumes” dão força à ultradireita, muitas vezes utilizada para justificar a relutância em abordar “esses assuntos”, obscurece o óbvio: questões de gênero, sexualidade e aborto são nodais no projeto de mundo da ultradireita: um mundo desigual e regido pela liberdade autoritária. Driblar esses debates não os fará desaparecer. Ao contrário, estarão cada vez mais presentes no cotidiano político.
Marco Aurélio Máximo Prado

O mundo dos oligarcas

O governo do presidente Lula, neste momento, faz esforço hercúleo para superar as enormes dificuldades que surgiram à sua frente. A atuação errática e sinuosa de Donald Trump indica que o presidente dos Estados Unidos não hesita em abrir novas frentes de combate para estar sempre nas manchetes. Quando as negociações com Vladimir Putin não caminham tão bem quanto gostaria, ele envia navios de guerra para o Caribe e fala, de maneira genérica, em intervir para liquidar com a ação dos grupos narcotraficantes na região.


É outra possibilidade de conflito bélico, desta vez na América Central, o que oferece a oportunidade de troca de posições. Os russos estão estabelecidos na Venezuela. Podem negociar essa posição com alguma vantagem na Ucrânia. Nesse caso, Nicolás Maduro seria apenas uma moeda de troca. Baixo valor. Mas o presidente Lula manteve até agora a altivez na sua relação com Washington. Talvez esteja falando mais do que deveria, mas, efetivamente, não cedeu aos caprichos do presidente alaranjado. Após a saraivada de tarifas, quem está perdendo cada vez mais é a turma dos Bolsonaro.

As pesquisas de opinião indicam que a população já percebeu que os filhos do ex-presidente trabalham a favor de seus interesses. O slogan Deus, pátria e família ficou reduzido ao último item. A família deles. Deus e pátria são subsidiários nessa equação política. Eles se tratam aos palavrões. Até o missionário adota palavreado chulo. As mesmas pesquisas indicam que o governo está conseguindo recuperar a popularidade, embora a maioria ainda seja crítica à ação do Palácio do Planalto. Mas a distância entre posição favorável e desfavorável reduziu-se a pouco mais de dois pontos. Recuperação impressionante.

No terreno das pesquisas, sim. Na política, não. O governo sofreu pesada derrota na instalação da CPMI do INSS. Opositores foram eleitos para a presidência e a relatoria da comissão, os dois postos mais importantes. O Palácio do Planalto apostava em nomes alinhados ao Executivo para travar as investigações e evitar desgastes. O senador Carlos Viana (Podemos-MG), de oposição, foi eleito com 17 votos, contra 13 dados a Omar Aziz (PSD-AM), que era considerado favorito e contava com o apoio de Lula e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O presidente indicou um relator de oposição, que será o deputado Alfredo Gaspar (União-AL). O nome apoiado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), era o do deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO). Derrota significativa para o dispositivo político do Palácio do Planalto.

Esse resultado indica que o segundo semestre será flamejante, inclusive, pela possibilidade de o irmão do presidente Lula, dirigente partidário, ser convocado para prestar esclarecimento ao plenário raivoso da CPMI. Momentos de glória de alguns parlamentares, um pesadelo previsível para o governo. A crise política vai aproveitar a elevação da temperatura porque os norte-americanos não dão sinais de que vão reduzir a pressão. No início de setembro, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus principais correligionários serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Alexandre de Moraes estará lá para verbalizar suas razões e determinar a prisão ou a libertação dos acusados. O governo de Washington, que mantém Brasília sob severa vigilância, fará o possível para tumultuar o ambiente.

O governo de Washington possui a capacidade de intervir quando quiser e como quiser em qualquer país do planeta. Até agora, recuou apenas diante da monumentalidade do poder dos chineses, capazes de produzir grandes estragos tanto na esfera da guerra propriamente dita quanto nas relações comerciais. A paixão de Trump pela Rússia é caso antigo. O país tem Produto Interno Bruto (PIB) inferior ao do Brasil, mas possui bombas atômicas e mísseis equipados com ogivas nucleares capazes de destruir boa parte do mundo. Esse detalhe explica a cerimônia com que autoridades de Moscou são tratados em Washington. Na realidade, não há planos objetivos para acabar com a guerra na Ucrânia.

O que intimida os oligarcas é a capacidade nuclear. A Coreia do Norte é bom exemplo. Seu governo envia armas, munições e soldados para a guerra na Ucrânia, porém não foi atingida pelas tarifas de Trump. O país tem a bomba. Nesse caminho, não será impossível que, em pouco tempo, Japão, Austrália, Alemanha, Canadá também detonem seus artefatos atômicos. O ponto fora da curva é a Índia, que tem bomba e foi punida pelo tarifaço. Mas, é a economia que mais cresce no mundo. Precisa ser contida. O Brasil sabe fazer a bomba. Os desafios do novo mundo dos oligarcas vão além da imaginação. No momento, é possível apenas enxergar uma eleição tumultuada em 2026.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Delírio da politicagem


Acabar com a pobreza em todas as suas formas e circunstâncias é apenas um delírio político, que erradica a miséria das ilusões nos números vermelhos de uma economia que é mais vulnerável do que os próprios pobres neste mundo.

O Vale do Silício vai à guerra

Não é à toa que o governo americano está tão descontente com a Justiça brasileira, especialmente por causa dos limites dados ao ‘liberou geral’ das redes sociais. O STF atirou no discurso de ódio e em crimes como pedofilia, mas acertou nas big techs que controlam essa ‘terra de ninguém’ em que se tornou o universo digital.

E não se trata de uma preocupação do Tio Sam com a liberdade de expressão do cidadão de bem ou com a democracia. O fato é que as grandes empresas de tecnologia entraram de cabeça no sistema de Defesa ianque. O mesmo acontece em Israel, China e Rússia. As big techs tornaram-se uma espécie de batalhões da guerra do futuro, a serviço das forças armadas e dos serviços de inteligência mais poderosos do mundo. Mais uma vez, a guerra rende bilhões de dólares.

E não é apenas modo de dizer. Deu no New York Times (01/05/25) que os militares israelenses criaram um verdadeiro batalhão tecnológico, a Unidade 8200 – mais conhecida como ‘O Estúdio’ – por onde circulam reservistas egressos da Microsoft, Google e Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp). Foi assim, por exemplo, que Israel localizou e matou o líder do Hamas Ibrahim Bari, em 2023. O problema é que a mira da IA ainda carece de calibragem e o bombardeio levou junto a vida de 125 civis palestinos, incluindo mulheres e crianças. A culpa é do botão ou do dedo?

Nos EUA a coisa está ainda mais impressionante. O Pentágono criou uma força militar chamada Destacamento 201, composta por executivos e especialistas em TI das principais big techs americanas que receberam a patente militar de tenente-coronel. Mas o movimento não é de agora. Há dez anos atrás foi criada no Vale do Silício a Unidade de Inovação de Defesa, inaugurada com direito a discurso do Secretário de Defesa de então.

Segundo outra reportagem do NYT republicada pelo Estadão nos últimos dias, as principais big techs estão fechando contratos milionários com o Departamento de Defesa dos EUA. Meta, OpenAI, Google e também empresas menos conhecidas do setor como Palantir, ou startups como a Anduril e aceleradoras como a Y Combinator.

Nesse cenário de simbiose entre Vale do Silício e Pentágono os recrutamentos acontecem também no sentido contrário. O general Paul M. Nakasone, ex-chefe da Agência de Segurança Nacional, por exemplo, torou-se membro do conselho da OpenAI, criadora do ChatGPT. Da mesma forma, grandes investidores então indo atrás dos militares e das big techs para apostarem sua grana nos novos negócios tecnológicos de Defesa.

É o caso da Andreessen Horowitz que reservou US$500 milhões para investimentos em Defesa. Por sua vez, segundo o New York Times, a Anduril, que projeta armas com suporte de IA, assinou um contrato de US$ 642 milhões com os Fuzileiros Navais americanos e US$ 250 milhões para defesa aérea com o Departamento de Defesa. Ao todo, a já Anduril alavancou uns US$ 2,5 bilhões em novos financiamentos.

O envolvimento das big techs com a Defesa visa a responder aos avanços tecnológicos chineses e russos. Segundo o Vice-Presidente dos EUA, “Não devemos ter medo de novas tecnologias. Na verdade, devemos procurar dominá-las e certamente é isso que este governo quer alcançar”. Nesse pacote, está a fabricação de armas movidas a IA, mas também a produção e o tratamento de dados e informações que alimentam os novos sistemas de inteligência e os modelos preditivos para fins militares, políticos e econômicos.

O baixo nível, acima de tudo e todos

Não que esperássemos um comportamento elegante de Bolsonaro, de seu filho Eduardo e de Silas Malafaia. Mas as conversas e trocas de mensagens entre o ex-presidente, o deputado federal “no exílio” nos EUA e o líder da Assembleia de Deus chocaram as famílias brasileiras, até as fiéis bolsonaristas. É muito baixo nível, muito “cacete”, muito xingamento.

Aprendi com o deputado o significado de uma sigla: VTNC. Quando olhei a primeira vez a mensagem escrita, fiquei pensando qual código secreto era esse que Eduardo tinha usado para se dirigir ao pai. Ao perceber do que se tratava, meu queixo caiu. Que tipo de educação esse rapaz recebeu em casa? OMG (oh my God), Eduardo e Malafaia conseguem fazer Bolsonaro parecer equilibrado no WhatsApp.


“Eu ia deixar de lado a história do Tarcísio, mas estou pensando seriamente em dar mais uma porrada nele, para ver se você aprende. VTNC, SEU INGRATO DO CARALHO”, escreveu Eduardo ao pai, no dia 15 de julho. O ainda deputado ficou muito chateado por ter sido chamado de “imaturo” ao comprar briga com o governador de SP. Alguém imagina falar assim com o pai?

“Se o imaturo do seu filho de 40 anos não puder encontrar com os caras aqui, porque você me joga para baixo, quem vai se fuder é você e vai decretar o resto da minha vida nesta porra aqui”. Acho que o 01 (assim Eduardo se refere ao presidente Donald Trump) não vai gostar nadinha de saber que seu protegido chamou os EUA de “essa porra aqui”. Trump é outro boquirroto, mas ser chamado de 01 é coisa de miliciano, não?

Ao final, Eduardo ordena ao pai: “Tenha responsabilidade!” E olha que o pai tem passado a ele a mesada obtida de patriotários em vaquinhas online. Eduardo não pode mexer, por ordem de Alexandre de Moraes, no salário da Câmara que voltou a receber neste mês: R$ 17 mil brutos, com um gabinete e 8 funcionários ao custo de R$ 123 mil. É surreal essa história. Por que ainda não foi cassado o traidor da pátria?

Não poderia faltar um furibundo emissário divino nessa história. Temos um pastor, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que faz corar todos os crentes e parece possuído ao falar com Bolsonaro, chamando Eduardo de “babaca, idiota e um estúpido de marca maior”. Grosseiro o pastor. Um “cacete” a cada parágrafo. Isso lá é linguagem de líder religioso.

“A faca e o queijo estão na tua mão, cacete, e nós não podemos perder isso, pô”, disse Malafaia ao ex-presidente. “E vem o teu filho babaca falar merda (...). Dei um esporro, cara, mandei um áudio para ele de arrombar. E disse para ele: ‘a próxima que você fizer, eu gravo um vídeo e te arrebento’. Falei para o Eduardo. ‘Vai pro meio de um cacete, pô’. ” Malafaia disse ainda a Bolsonaro: “Deus tá contigo, cumpade! Eles tão é ferrado! Vão ter que sentar no colinho”. Que Deus é esse?

Eduardo contemporizou com o pastor, para não jogar mais lenha na fogueira das vaidades. Mas desafiou a Polícia Federal, que o indiciou por coação na ação penal do golpe: “Absolutamente delirante”!

Faz falta, para o deputado e o pastor, um remedinho qualquer para suavizar os modos. Porque os delírios são deles, com olhos esbugalhados, sem controle, sem compromisso nem mesmo com a direita ou com as pesquisas eleitorais. O lema “Deus, pátria e família” foi desmoralizado.

Não sabemos qual será o próximo episódio, proibido para menores. Sei que o país inteiro, menos eu, está assistindo ao remake da novela “Vale tudo”. Mas quer mais “vale tudo” do que isso aí? Só tem vilão.

“No tocante” a esse último capítulo político, envolvendo Bolsonaro, Eduardo e Malafaia, quem seria a implacável Odete Roitman, a ambiciosa Maria de Fátima e o manipulador César?

Fome: um crime de guerra que permanece impune

Os apelos para julgar a fome como crime de guerra em diversos dos atuais conflitos estão se tornando mais frequentes e ganhando força. "A fome é uma arma que está sendo usada em todo o mundo no momento. Mas isso tem que acabar, vai contra o direito internacional", afirmou Shayna Lewis, conselheira sênior para o Sudão do grupo americano Prevenção e Fim das Atrocidades em Massa (Paema).

Lewis falava sobre a situação na cidade sudanesa de El Fasher, com 30 mil habitantes e que está sitiada há um ano, situação que gerou a escassez de comida. "É um crime internacional e precisa ser julgado como tal", destacou.

Grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW), fizeram comentários semelhantes sobre o bloqueio israelense à entrada de ajuda e alimentos na Faixa de Gaza.

"Israel está matando Gaza de fome. É genocídio. É crime contra a humanidade. É um crime de guerra", afirmou Michael Fakhri, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, ao jornal britânico The Guardian na semana passada.



De acordo com especialistas, os crescentes apelos para julgar a fome de civis como crime de guerra ocorre devido ao aumento da fome causada por conflitos. Durante a primeira década deste século, houve poucas situações desse tipo, segundo um relatório da Fundação Mundial da Paz (WPF, na sigla em inglês), mas isso mudou recentemente.

"Esse é um fenômeno antigo, que é utilizado há séculos em conflitos", afirma Rebecca Bakos Blumenthal, consultora jurídica do projeto Responsabilização pela Fome, da fundação jurídica holandesa Compliance de Direitos Humanos (GRC). Segundo a especialista, essa tática ressurgiu depois de 2015.

Na última década, a fome foi registrada em conflitos na Nigéria, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iêmen. Especialistas em segurança alimentar avaliam que os ataques russos à agricultura ucraniana também podem serem vistos como tentativas criminosas de transformar alimentos em armas. Eles argumentam ainda que houve um aumento deste tipo de crime de guerra.

"Mesmo com a melhoria da segurança alimentar global, incidentes de fome estão aumentando", ressalta Alex de Waal, professor na Universidade Tufts, nos EUA, e diretor de pesquisa sobre fome em massa na WPF. "Isso mostra que a segurança alimentar global é mais volátil e desigual. Isso é consistente com o uso da fome como arma".

A retenção deliberada de comida e itens essenciais para a sobrevivência de civis é considerada um crime de guerra por muitos países e também em várias iterações do direito internacional, como a Convenção de Genebra, que estabeleceu normas para o direito humanitário internacional, e Estatuto de Roma, aplicado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).

Apesar dessa classificação, até agora, ninguém que usou essa tática em um conflito foi levado a julgamento. O crime de guerra de fome nunca foi julgado em uma corte internacional isoladamente, somente como uma da parte de acusação em cerca de 20 outros casos de crime de guerra.

O fato de civis passarem fome em um conflito, não significa automaticamente que um crime foi cometido. "Uma das questões jurídicas é a intenção. O crime de guerra de fome necessita que o perpetrador aja como a intenção disso", afirma de Waal.

A fome ocorre a longo prazo, pontua de Waal, e alguns juristas argumentam que é necessário provar que o perpetrador teve desde o início, por exemplo, de um bloqueio ou cerco a intenção de matar de fome civis. A maioria dos especialistas, porém, defende uma "intenção indireta", explica. Ou seja, é claro que essa situação ocorrerá "no curso normal dos eventos", e o agressor sabe disso, tendo oportunidades de prevenir que civis passem fome, mas não o fez.

Outra questão para casos envolvendo a fome é a falta de precedentes, além da definição de quais tribunais nacionais e internacionais teriam jurisdição sobre os supostos crimes de guerra.

Até há alguns anos, a fome era vista como uma questão de desenvolvimento ou humanitária, afirmou Blumenthal, da GRC. Mas agora está sendo dada mais atenção aos aspectos criminais. "Trabalho nessa questão há alguns anos e essas coisas andam lentamente", conta Blumenthal, que se dedica ao tema desde 2020. "Acredito, porém, que a situação está mudando e que algumas medidas relevantes foram tomadas nos últimos dez anos".

Em 2018, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução que condenou a fome de civis como método de guerra. Em 2019, alterações foram feitas no Estatuto de Roma, tornando a fome um crime de guerra também em conflitos armados locais, em vez de apenas internacionais.

Houve inquéritos da ONU sobre conflitos no Sudão do Sul e na região do Tigré, na Etiópia, focando especificamente na questão da fome como crime de guerra, acrescenta Blumenthal.

"Estamos vendo mais organizações internacionais e locais, juntamente com mecanismos de responsabilização, denunciando isso e certos exemplos marcantes, como no caso de Gaza hoje, ampliaram a conscientização sobre esse crime", ressalta a especialista.

Blumenthal destaca que os mandados de prisão emitidos pelo TPI contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ex-ministro israelense de Defesa Yoav Gallant em novembro de 2024 são um "marco histórico" por mencionar especificamente a fome como um crime de guerra. Foi a primeira vez que mandados destacam a fome como um crime isolado. Ela acrescenta que a corte possui ainda uma investigação aberta sobre o Sudão.

"A questão, sem dúvida, ganhou atenção nos últimos dez anos. Todas as estruturas legais estão em vigor. O que falta é vontade política para agir", avalia de Waal.

De Waal pontua que ainda há desafios jurisdicionais, mas ele está confiante de que em muitos casos é possível haver condenações. "Basta levar o acusado ao tribunal".

Blumenthal concorda. "Há equívocos sobre isso e muitos pensam que a fome é uma parte inevitável da guerra. Mas, durante nossas investigações aprofundadas, é surpreendente a rapidez com que fica claro que, na verdade, esses padrões são muito acentuados e em muitas situações é possível discernir uma estratégia deliberada".

Com cautela, Blumenthal está otimista de que aqueles que usaram a fome de civis deliberadamente como arma de guerra enfrentarão em breve a justiça. "Essa é certamente a esperança. É para isso que estamos trabalhando".
Cathrin Schaer1

Piedade por essa gente? Nem um pouco. Sinto nojo e raiva

Como foi possível que tão poucos, e da pior qualidade, tenham enganado tanta gente por muito tempo?

Como é possível que a essa altura, depois de tudo o que se sabe, uma parte dessa gente continue a acreditar neles?

Para escapar de ser condenado, Bolsonaro chamou de “malucos” os acampados à porta de quarteis que pediam um golpe.

Não diz que os inspirou a proceder assim. Não diz que forçou os chefes militares a garantir-lhes abrigo e a tratá-los bem.

Enganou seus devotos com a falsa promessa de que moveria suas tropas nas ruas e no Congresso para aprovar a anistia.

Em primeiro lugar sempre esteve a anistia para ele. Dos Estados Unidos, no dia 7 de julho último, foi advertido pelo filho Eduardo, o embaixador sem escrúpulos do tarifaço:

“Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia ou enviar o pessoal que esteve no protesto que evoluiu para uma baderna para casa num [regime] semiaberto.”


Onde você leu “ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia”, leia: “ajudar Bolsonaro a salvar-se da Justiça”.

Não lhe faltaria apoio de Trump. A não ser que Trump se convencesse de que estaria bem servido com Tarcísio de Freitas como candidato a presidente no próximo ano.

Aconselhado pelo filho, Bolsonaro consultou a respeito um advogado que representa a Trump Media & Technology Group em processo contra Alexandre de Moraes junto à Justiça americana.

Aconselhado pelo pastor Silas Malafaia, no dia 13 de julho postou nas redes sociais um recado para os ministros do Supremo Tribunal Federal; na verdade, uma tentativa de chantagem:

“Não me alegra ver sanções pessoais, ou familiares, a quem quer que seja. Não me alegra ver nossos produtores do campo ou da cidade, bem como o povo, sofrer com essas tarifas de 50%. A solução passa por justiça aos presos pelo 08 de janeiro, passa pela anistia”.

Em carta a Lula, Trump vinculou o tarifaço à suspensão imediata do julgamento de Bolsonaro. No recado aos ministros do Supremo, Bolsonaro vinculou o tarifaço à anistia. As peças se encaixam.

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” cedeu vez a “Bolsonaro acima de qualquer coisa”. A lei pouco importa. Se preciso, pediria asilo a um país amigo. Por que não a Argentina?

No celular de Bolsonaro, a Polícia Federal encontrou a minuta de um pedido de asilo dirigido ao governo argentino. Não estava assinado. Mas, e daí? A minuta do golpe também não estava.

Bolsonaro subiu ao patíbulo. Deixou nos bancos e em paraísos fiscais a fortuna que acumulou ao longo da vida pública. Se não for bloqueada, será repartida entre os filhos.

Os governadores de direita deram-lhe as costas. O Centrão também. A hora da execução se aproxima.

Não há mais nada que ele possa fazer a não ser chorar antes que a farsa encenada termine e o pano desça. Sem aplausos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Grito de 'bolsalidade', mal-estar na incivilização

A "bolsalidade" se espraiou pela vida pública e privada. Ajudou a embrutecer pessoas doces e a emburrecer pessoas escolarizadas. Luta por empobrecer um país, por se apropriar da sua riqueza material e suprimir sua riqueza imaterial, aquela que faz pensar e sentir antes de falar e agir. Tenta perpetuar a soberania de hierarquias e subjugar uma sociedade diversa.

A "bolsalidade" empobrece um país enquanto enriquece suas forças coloniais, extrativistas e grileiras. Enquanto enfraquece o Estado, a legalidade, as políticas públicas e abre avenidas para o crime organizado e a corrupção. Enquanto esgarça argumentos e esvazia valores constitucionais.

A "bolsalidade" não é surto que afeta somente os soldados do extremismo. A sua incivilidade contamina toda a esfera pública. A indigência discursiva passa a hidratar a linguagem de jornalistas declaratórios, colunistas e leitores; de políticos e magistocratas, advogados e cidadãos.

O grito de "bolsalidade" pode configurar crime. O leitor Luciano Napoleão de Souza reagiu a esta coluna semanas atrás: "Kanalha! Mil vezes, Kanalha! Militante da velha imprensa merece MORRER!!!!!!" O comentário ficou no ar por algumas horas. Em uma linha, pode ter cometido crimes de ameaça e incitação. O que mais excita Napoleão lendo jornal numa quinta de manhã? O que Napoleão pensa sobre Napoleão?

Mas a "bolsolidade" napoleônica não só comete crime. Ela também deprime. Marcos Benassi, o mais inspirado, lírico e carismático leitor da Folha, desabafou:

"Pô, caríssimo, eu tô farto disso... Farto do Bozo, da Bozonéscia, de Bozolinagem; farto da Bozolescência dos valores, da Bozolalia de seus seguidores, da Bozocracia que espreita. Como diriam os Titãs, ‘cansado de coisa vulgar, cansado de coisa rara’: cansadíssimo de quão rara é a aparição do bom-senso, da coragem, da altivez, do reconhecimento pela resistência. Tô farto de covardia, tergiversação, análises expelidas pelo ââânnus, oriundas do ‘segundo cérebro’. Tô farto da farta de vergonha."

"Bolsais" juram viver sob ditadura comunista, agravada por ditadura do Judiciário. Não porque dissidentes são torturados, assassinados e desaparecidos, mas porque réu perigoso, depois de obstruir a Justiça, sofre restrições de circulação e discurso nas redes sociais.

Somente no reino da "bolsalidade" decisões judiciais controversas ganham o nome de ditadura. A 
"bolsalidade" chama direitos humanos de "esterco da vagabundagem", mas apela ao devido processo legal. Não como um argumento esforçado e articulado pela doutrina jurídica, só como um grito primal.

A 
"bolsalidade" também chama de liberdade a política liberticida, de patriotas as conspirações anti-nacionais, de vontade do povo o que não tem conexão com anseio popular, de democrático o que é irremediavelmente autoritário, e vice-versa. Chama de justiça os penduricalhos ilegais que magistocratas, já beneficiários dos melhores salários de Estado, acumulam.

O grito de 
"bolsalidade" não comunica divergência sincera sobre o significado de cada um desses termos e conceitos. Divergência sincera abunda na história do pensamento político e jurídico, que a "bolsalidade" ignora. Há só manipulação, apelo ao medo e ao ódio, à discriminação e à violência. E ao próprio bolso.

A 
"bolsalidade" provoca esse mal-estar coletivo. E dessa prostração se aproveita.
Conrado Hübner Mendes

Deus, pátria e família para palerma ver

Os últimos acontecimentos deixam claro. Os Bolsonaros, pai e filhos, puseram as cartas na mesa e passaram a jogar aberto. Nem o slogan publicitário fascista "Deus, pátria e família", de que tanto se valeram, escapou. Já deve estar sendo aposentado tanto pelos pascácios, pessoas simplórias e bem intencionadas que acreditavam nele, quanto pelos espertos, que o usavam para tapear os ditos pascácios. Vejamos por quê.

Bolsonaros x Deus. Embora O invoquem o tempo todo, as verdadeiras relações entre Deus e os Bolsonaros são zero. Deus não admitiria entre os Seus um sujeito com a vulgaridade e falta de escrúpulos de Bolsonaro pai, defensor da tortura, dado a "pintar um clima" com vulneráveis e nitidamente hipócrita em suas atitudes diante da religião. Flávio Bolsonaro, por sua vez, comprador de mansões de R$ 6 milhões com dinheiro vivo oriundo de "rachadinhas", não passará pelo buraco da agulha.


Bolsonaros x pátria. Está mais do que claro agora que o mote "Brasil acima de tudo" era para palerma ver. A campanha de Eduardo Bolsonaro junto ao governo Trump para quebrar a economia brasileira em troca da liberdade de seu pai representa um golpe de estado por uma potência estrangeira. É um crime de traição nunca visto no país. Se as instituições se vergarem aos EUA e inocentarem Bolsonaro, o Brasil pode pedir sua incorporação como a 51ª estrela da bandeira americana.

Bolsonaros x família. Além do fato, hoje indiscutível, de que botam os interesses de sua família sobre os interesses do Brasil, os Bolsonaros têm posição marcada no embate entre a proteção às crianças brasileiras e o abuso e o estupro tecnológico dessas mesmas crianças, promovidos pelas Big Techs e pelos tarados que as frequentam. Os Bolsonaros são contra as crianças e a favor das Big Techs e dos tarados. Posição difícil de entender, sabendo-se que Flavio, Eduardo e Carlos Bolsonaro têm cinco filhos menores, dos quais quatro meninas.

Haverá leis suficientes no Brasil para um dia classificar esses homens?

Tordesilhas no Alasca?

É o que temos porque ninguém escapa da condição humana cuja história – como revela a grande anistilândia brasileira, os bíblicos tarifaços americanos e o projeto putinesco de reunir a União Soviética – repetimos vivendo seus episódios como novidades – ou “avanços”.

Na história humana, o denominador comum não é a serenidade, mas o angustiante desconcerto diante da divergência nas concepções de vida e morte, da rotina e do inesperado, do dado e do fabricado – essas dimensões que permeiam todos os sistemas culturais conhecidos.

O denominador comum para lidar com as diferenças sempre foi o confronto, jamais a compreensão que, nos sistemas religiosos, surge com perdão e amor.


Poderio militar faz parte do berço do Ocidente. Escravidão, desobediência, preconceito, agressividade e, simultaneamente, perdão, compaixão, altruísmo e esperança são características fundacionais na nossa história. Um caminho marcado pela expulsão do Eden, esse marco de nossa consciência do bem e do mal; e da carga que veio com a liberdade.

Essa visão distanciada talvez ajude a entender esses arrebatamentos das duas maiores potências mundiais. Sobretudo se pensarmos que o ponto de partida para toda essa tecnologia é ocidental e, no fundo, demonstra a capacidade de ser transplantada e dominada no Oriente, apesar do racismo e dos preconceitos culturais. A base do conflito entre EUA e China é, justamente, a recorrente surpresa de ver os bonecos falando mais e melhor do que o ventríloquo.

O progresso pelo infinito progressismo, que weberianamente desencanta o mundo, consolida o poderio militar que tem sido a escolha preferencial dos EUA e da Rússia.

Dissidências entre estados nacionais, interligados por um mercado autorregulado e por um hipercapitalismo comandado pelo brutal poder de uma plutocracia, conduzem a esse filme no qual dois autocratas decidem decidir não decidindo. Em pleno frio do Alasca os dois potentados congelam esperanças. Um alto e o outro baixo, eles reinstituem os dualismos com os quais vivemos desde a origem do mundo. O alto é narcisista, o baixinho, onipotente – ambos são agentes do caos.

Vejam a recorrência. O encontro Trump& Putin no Alasca espelha o tratado celebrado em Tordesilhas, Espanha, em 7 de junho de 1494, quando o mundo foi dividido entre Portugal e Espanha com o aval indiscutível do papa.

Hoje, desencantados e sem mediadores, assistimos ao que parece ser o aval dado a Putin para continuar seu projeto e a Trump para permanecer na sua incoerente opressão tarifária e permeada de ataques à soberania nacional.

Vejam a ironia: o Alasca é uma variante de Tordesilhas, um tratado que viabilizou o Brasil.

Quando a Casa Branca flerta com o golpismo no Brasil

Sob Donald Trump, o governo dos Estados Unidos retomou a pior tradição da política externa norte-americana para a América Latina. Se sob Barack Obama e Joe Biden predominava o desinteresse, Trump volta a tentar impor a vontade de Washington à região. Insere-se, assim, na linha da política imperialista que, ao longo do século 20, resultou em ditaduras, guerra civis, miséria, deslocamentos forçados e sociedades desestruturadas.

Trump impôs ao Brasil tarifas de 50% para pressionar pela suspensão do processo contra o seu aliado Jair Bolsonaro. A ameaça já nasceu absurda: acreditar que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria qualquer instrumento jurídico para interromper o julgamento — o que exigiria violar a Constituição — é pura fantasia.

Torna-se ainda mais escandalosa diante das provas esmagadoras contra Bolsonaro, acusado de planejar um golpe de Estado. Vários militares — entre eles seu próprio ajudante de ordens e os comandantes do Exército e da Aeronáutica — confirmaram os preparativos golpistas. Falar em "caça às bruxas" significa, portanto, apoiar as intenções autoritárias da extrema direita brasileira e desprezar a democracia do país.

Torna-se absolutamente ridículo, porém, quando o governo Trump, por meio de Christopher Landau, o vice-secretário do Departamento de Estado dos EUA, afirma que a separação democrática dos poderes "é a maior garantia de liberdade já concebida pelo espírito humano". Foi assim que Landau publicou na rede X. Ele escreveu: "Nenhum poder — e nenhuma pessoa — pode acumular poder demais, se for controlado pelos outros. Mas uma separação formal de poderes nada significaria se um deles tiver a possibilidade de intimidar os demais."
Receber lições de democracia de Trump é um insulto

É preciso lembrar que Landau é um representante do governo de Donald Trump, o próprio símbolo da intimidação ao Legislativo e ao Judiciário. Trump já convocou seus apoiadores a invadirem o Capitólio; ameaça congressistas de seu próprio partido; pressiona e ataca publicamente juízes cujas decisões o contrariam; afasta procuradores e altos funcionários da Justiça quando investigações se aproximam de seu círculo; demitiu o diretor do FBI e outros chefes de agências federais; aciona a Guarda Nacional contra cidadãos. Nas ruas americanas, sob Trump, pessoas são sequestradas por homens mascarados em veículos sem placas e desaparecem por dias.

Agora, o presidente exige redesenhar distritos eleitorais para garantir vitórias futuras de seus aliados. Além disso, normalizou a mentira como método político — um vício que já contamina o Brasil, onde a falsidade passou a ser tratada como "liberdade de expressão". Mas liberdade exige responsabilidade e acordo social: se todos os motoristas ignorassem as leis de trânsito sob o argumento de que limitam sua liberdade, o tráfego seria impossível. Para Trump e seus seguidores, contudo, liberdade significa apenas o direito do mais forte.

Receber lições de democracia de tal governo é um insulto. É verdade que o Brasil é uma democracia com falhas graves, enraizadas na desigualdade extrema e na corrupção endêmica. Mas também os Estados Unidos são classificados pela Economist Intelligence Unit como uma "democracia com falhas" (flawed democracy), com déficits em liberdade de imprensa, degradação da cultura democrática e um processo legislativo cada vez mais capturado por ricos e grupos de interesse.


Não é o Brasil que precisa aprender com os EUA sobre democracia. Ao contrário: enquanto as eleições americanas são frequentemente marcadas por caos e contestação, o processo eleitoral brasileiro é seguro, rápido e confiável. Mais importante: no Brasil, a maioria escolhe o chefe de Estado.

Nos EUA, um sistema eleitoral arcaico permite que uma minoria conservadora e provinciana eleja o presidente contra a vontade da maioria. Foi assim em 2016, quando Donald Trump chegou à Casa Branca apesar de Hillary Clinton ter obtido quase três milhões de votos a mais. A distorção é ainda maior no Senado: os dois senadores do conservador estado de Wyoming (600 mil habitantes) têm o mesmo peso que os dois da progressista Califórnia (40 milhões!). E são justamente o presidente desse país e seus representantes que pretendem dar lições de democracia aos brasileiros?

A tentativa de atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes segue o manual já aplicado por Trump nos EUA: descredibilizar e ameaçar juízes, questionar cada decisão sob a acusação de motivação política e, assim, corroer a separação de poderes. É isso que destrói o equilíbrio institucional.
Trump aplica antiga receita

As semelhanças são evidentes: a desestabilização já foi, ao longo do século 20, a receita utilizada por Washington na América Latina para derrubar governos que tentavam limitar a exploração da região por empresas norte-americanas. A riqueza da América Latina deveria beneficiar o seu próprio povo. Sob o pretexto de defender "a liberdade e a democracia”, tais governos eram rotulados por Washington de "socialistas" ou "comunistas" e alvos de intervenções. Hoje, o governo Trump evoca o mesmo discurso de "liberdade e democracia", enquanto, na prática, fortalece justamente seus inimigos.

Por isso, os brasileiros deveriam valorizar o papel de Moraes, que atua como muralha contra as tendências autoritárias do bolsonarismo. Suas ações cumprem o mandato constitucional do STF de proteger a democracia — ainda que algumas possam soar duras e excessivas —, mas o fato de o governo Trump dar ouvidos a Eduardo Bolsonaro, herdeiro de um clã sustentado há décadas por dinheiro público e cujo "negócio" é o extremismo e a divisão social, diz muito. Não se trata de defesa da democracia ou da liberdade, mas de promover, a partir de Washington, a agenda da extrema direita brasileira.

Alguns historiadores veem Donald Trump como o símbolo do último espasmo do império americano em declínio. Quando impérios se desfazem, costumam reagir com violência, agir de forma irracional e tentar, a qualquer custo, retornar a uma fase que consideram gloriosa — sem jamais conseguir. "Quando o velho morre e o novo não pode nascer", escreveu Antonio Gramsci, "nesse interregno surgem os monstros." O movimento trumpista MAGA é um desses monstros, e o Brasil, bem como o resto do mundo, faria bem em manter distância de suas garras.

A burrice como trincheira do autoritarismo brasileiro

No mundo moderno em que vivemos tempos de retrocessos, a ignorância, o idiota e o burro, deixou de ser um problema, uma ofensa e se tornou uma virtude. Aquilo que antes causava vergonha e constrangimento, hoje se tornou motivo de orgulho. A burrice performada, revestida de “liberdade de opinião”, conquistou espaço nas redes, na política e na sociedade. O indivíduo que nega a democracia, os direitos fundamentais, a constituição e que repete frases autoritárias ou que não tem o menor nexo com a realidade, se tornou símbolo de “coragem” e “autenticidade”. Mas não nos deixemos enganar acreditando se tratar de uma ignorância espontânea, pois se trata de um projeto de poder político e econômico.

Essa burrice, que opera como estética e método, é funcional ao avanço do autoritarismo. O sujeito que não pensa, que recusa a complexidade, que transforma o ódio e o preconceito em justificativa para agressões, é o cidadão ideal para a lógica reacionária. Como demostra Rubens Casara em seu livro, A construção do idiota: O processo de idiossubjetivação, o colapso da racionalidade crítica, não é um efeito colateral – é uma estratégia montada pelos detentores do poder politco econômico. A mínima racionalidade democrática, que exige abertura para o outro e reconhecimento da dúvida, é substituída por um processo de subjetivação do indivíduo, juntamente com uma racionalidade autoritária.

O indivíduo ideal deste projeto, é o que podemos definir como o “ bom burro reacionário”. Ele não apenas se recusa a ler, a pensar, a estudar, a escutar – ele transforma toda sua ignorância e repulsa ao pensamento crítico, em bandeira, no mais estilo de um discurso político. Os intelectuais se tornam “lacradores”, a filosofia se torna inútil, e celebra “nunca ter lido um Paulo Freire, Karl Marx, entre outros pensadores”. Ademais, o bom burro reacionário, afirma estar vivendo em uma ditadura, enquanto clamam pelo retorno da Ditadura e endeusam os torturadores da ditadura brasileira como Carlos Alberto Brilhante Ustra. 

É nesse cenário que a burrice precisa urgentemente voltar a ser uma ofensa, uma forma de constrangimento. E não se trata aqui de forma alguma de elitismo ou desprezo pelos que tenham visão diferente de política, economia ou demais assuntos. Mas trata-se de apontar, sem meias palavras, que a ignorância deliberada – aquela que se escolhe de maneira deliberada de não pensar, que milita contra a democracia, contra a ciência, que deturpa a história e repulsa a dúvida – é um dos principais combustíveis do autoritarismo e do fascismo moderno.

Frente a este cenário, o combate à burrice e a estupidez humana, não é uma questão moral ou estética, mas uma defesa da própria sociedade e dos valores democráticos. O idealismo e o projeto reacionário não teme a esquerda ou a justiça, mas sim, a potência que o ato de prensar pode despertar nas pessoas. Até porque uma sociedade pensante é uma sociedade viva de dúvidas.

A burrice não é neutra. Quem a instrumenta e a sustenta também não. Ao contrário: ela está na base do desprezo pela igualdade, do fanatismo religioso, do autoritarismo penal e da erosão democrática. Apontar e denunciar seu papel estruturante nas sociedades contemporâneas é condição para que se possa criar um futuro. Um futuro, o qual, o bom burro recionário se sinta contrangido, inútil, simplesmente porque não lhe resta mais seguidores.
Diogo Almeida Camargo