quinta-feira, 20 de março de 2025
‘Mamãe, estou cansada, quero morrer’
— Estou triste porque não há um único fio de cabelo para pentear com minha escova — disse Sama à CNN. — Eu seguro o espelho porque quero pentear meu cabelo. Eu realmente quero pentear meu cabelo de novo.
No ano passado, médicos diagnosticaram que a queda de cabelo de Sama foi resultado de um “choque nervoso”, especialmente após a casa de seu vizinho em Rafah ter sido atingida por um ataque aéreo israelense em agosto. Eles também afirmaram que a desestruturação de sua rotina desde o início da guerra provavelmente contribuiu. O sofrimento mental da menina se intensificou quando outras crianças começaram a zombar dela por causa da perda de cabelo, o que fez com que ela se isolasse dentro de casa. Quando sai, usa um lenço rosa na cabeça.
— Mamãe, estou cansada, quero morrer. Por que o meu cabelo não cresce? — implorou ela à sua mãe, Om-Mohammed, antes de perguntar se permaneceria careca para sempre. — Quero morrer e ter meu cabelo de volta no paraíso, se Deus quiser.
Sama não é a única. Um relatório divulgado no final de 2024 pela War Child Alliance e pelo Centro de Treinamento Comunitário para Gestão de Crises, com sede em Gaza, destacou o impacto psicológico das ofensivas de Israel sobre as crianças palestinas no último ano. Baseado em uma pesquisa com mais de 500 cuidadores de crianças vulneráveis, 96% das crianças nessas condições sentiam que a morte era iminente, e quase metade (49%) expressou o “desejo de morrer” após ataques israelenses.
Em relatório publicado em junho, o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, estimou que quase todas as 1,2 milhão de crianças de Gaza precisam de apoio psicológico, especialmente aquelas expostas repetidamente a eventos traumáticos. Uma semana após o anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em janeiro, o subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários, Tom Fletcher, disse ao Conselho de Segurança da organização que “uma geração foi traumatizada”.
— Crianças foram mortas, passaram fome e morreram de frio — disse ele. — Algumas morreram antes mesmo de dar seu primeiro suspiro, perecendo junto com suas mães durante o parto.
Em uma guerra que matou mais de 48 mil pessoas e provocou um dos maiores êxodos internos na História recente, as crianças e adolescentes de Gaza são a face mais cruel do conflito. De acordo com o Ministério da Saúde do enclave, pelo menos 17,4 mil deles morreram, e outros 17 mil, segundo o Unicef, foram separados de seus responsáveis e parentes próximos, sujeitos a abusos, mais violência e exploração. A tarefa de levar esses menores até um lar conhecido não é nada simples.
— Famílias são torturadas pela incerteza do paradeiro de seus entes queridos. Nenhum pai deveria ter que cavar em escombros ou valas comuns para tentar encontrar o corpo de seu filho — afirmou Jeremy Stoner, diretor regional da ONG Save The Children para o Oriente Médio. — Nenhuma criança deveria ficar sozinha, desprotegida em uma zona de guerra. Nenhuma criança deveria ser detida ou mantida refém.
Muitos dos menores que vagam pelo enclave em ruínas são os únicos sobreviventes de ataques aéreos contra casas, acampamentos e prédios. Diante da quantidade de casos do tipo, uma sigla específica foi criada em Gaza: WCNSF (“Criança ferida, sem família sobrevivente”).
Desde que perderam os pais em um ataque israelense, Anas Abu Eish, de 7 anos, e sua irmã Doa, de 8, vivem com a avó Om-Alabed em um campo de deslocamento em al-Mawasi, Khan Younis. À CNN, o menino disse que estava “brincando de jogar bola” quando encontrou “papai e mamãe jogados na rua”: “Um drone veio e explodiu sobre eles”, relembrou. No mesmo campo, Manal Jouda, de 6 anos, descreveu a noite em que sua casa foi destruída, matando seus pais e deixando-a soterrada.
— Havia areia na minha boca, eu gritava, eles cavaram com uma pá, nosso vizinho dizia ‘essa é a Manal, essa é a Manal’. Eu estava acordada, meus olhos estavam abertos sob os escombros, minha boca estava aberta e a areia entrava nela — contou.
Oferecer serviços de saúde mental para palestinos na Faixa de Gaza também é um desafio — que, inclusive, existe desde antes da guerra. No entanto, segundo Yasser Abu Jamei, diretor do Programa Comunitário de Saúde Mental de Gaza, durante os 15 meses de ataques israelenses, sua própria equipe sofreu traumas, o que dificultou o tratamento dos outros. À CNN, ele disse que a maior parte da sua equipe trabalha em locais de deslocamento, e que menos de dez pessoas ainda estão em suas casas.
Uma técnica usada pelo GCMHP é a terapia por meio do desenho, permitindo que as crianças expressem seus sentimentos sem precisar comunicá-los verbalmente. Em entrevista à rede americana, Abu Jamei lembrou de um caso em que uma criança desenhou e depois conseguiu compartilhar a sua dor com um psicólogo do programa.
— [A criança disse:] ‘meus amigos estão no céu, mas um deles foi encontrado sem a cabeça’ — contou. — ‘Como ele poderia ir para o céu sem a cabeça?’, [acrescentou a criança, que] continuou a chorar.
Com o fim do frágil cessar-fogo entre Israel e o Hamas e a retomada da ofensiva militar israelense contra o enclave palestino, o Ministério da Saúde de Gaza anunciou nesta terça-feira que 970 pessoas morreram nas últimas 48 horas na Faixa de Gaza. A nova onda de ataques, que o governo israelense afirma ter sido coordenada previamente com os EUA, provocou manifestações no país e em Gaza, embora o grupo palestino tenha se dito aberto a continuar com as negociações para o fim da guerra.
O premier israelense, Benjamin Netanyahu, advertiu na terça que os bombardeios eram “apenas o começo”, defendendo a pressão militar como essencial para garantir a liberação dos cerca de 58 reféns ainda nas mãos do Hamas. A medida agradou sobretudo a direita radical do país, com o anúncio do retorno do partido de Itamar Ben-Gvir, extremista que havia abandonado o governo em razão do cessar-fogo, à coalizão de Netanyahu. Grande parte da população civil, porém, ficou contra.
— É uma guerra contra as crianças de Gaza, porque elas são a maioria, elas são as mais vulneráveis, elas são as que estão mais expostas às consequências dessa guerra — disse em abril o porta-voz da Unicef Ricardo Pires ao GLOBO. — Realmente a vida delas está em risco a cada dia. As crianças vão sofrer o impacto disso por gerações.
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Cem anos dessa praga
Faz um século – e não passou. A coisa nunca mais arredou pé. Em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomeado chanceler pelo presidente Paul von Hindenburg. Ato contínuo, transformou seu país numa ditadura totalitária. Logo que chegou ao poder, foi saudado por passeatas noturnas em que jovens fardados carregavam tochas em formação militar. Eram as Fackelzug. No documentário O Fascismo de Todos os Dias, de 1965, dirigido pelo russo Mikhail Romm, podemos ver esses rios ígneos apavorantes.
O espetáculo piromaníaco não se acomodou nas tochas notívagas. Logo evoluiu para rituais macabros, dentro das universidades, em que livros amontoados no pátio ardiam em fogueiras sacrificiais. Os nazistas cremaram páginas de Tolstói, Maiakovski, Thomas Mann, Anatole France, Jack London e outros gênios. Mais adiante, não satisfeitos com incinerar papel, passaram a queimar pessoas. Holocausto.
Na abertura do trecho em que as chamas devoram a literatura, o cineasta soviético projeta na tela uma frase atribuída ao próprio Hitler: “Qualquer cabo pode ser um professor, mas não é qualquer professor que pode ser um cabo”. O totalitarismo alemão acreditava que havia mais virtudes num quepe de milico do que numa beca de docente. O pior é que, na atualidade, alguns ainda acreditam nisso. Há relatos de que, num país remoto, que não fala alemão, as autoridades tomaram para si a tarefa de implantar as assim chamadas “escolas cívico-militares”. Na visão desses governantes, o coturno se sai melhor do que o quadro negro na missão de educar as crianças. O eleitorado aplaude.
O nazismo original sumiu de Berlim em 1945, derrotado pelas tropas aliadas. Em 30 de abril daquele ano, Hitler se matou. Sua mulher, Eva Braun, foi junto. O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, também cometeu suicídio ao lado da esposa, depois de assassinar os seis filhos com cianeto. O velho Estado maior veio abaixo, mas as teses hediondas do Mein Kampf seguem atormentando o mundo.
A palavra “propaganda” aparece 173 vezes nos 27 capítulos (quem primeiro me chamou a atenção para isso foi o professor Edgard Rebouças, da Universidade Federal do Espírito Santo). Os chefes do Terceiro Reich arrancaram a investigação da verdade do campo da Filosofia, do método científico, da reportagem jornalística e dos estudos conduzidos por historiadores. Tudo isso deixou de ser fonte confiável. A Justiça e seus peritos também perderam o posto de verificadores da realidade. O nazismo monopolizou essa função, como num monoteísmo profano – aliás, em seus diários, Goebbels anotou seu sonho de fazer do partido a grande religião do povo. Quase conseguiu. Interditando a Filosofia, encabrestando a ciência, dizimando a imprensa, subjugando a Justiça e esvaziando a espiritualidade de cada um, o império da suástica fez da propaganda o único critério da verdade.
Em que se deve acreditar? Ora, naquilo que a propaganda repete mil vezes. O Mein Kampf determina que ela deve “estabelecer o seu nível espiritual ( cultural) de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a quem ela pretende se dirigir”. Como se vê, a história de “nivelar por baixo” começou aí.
Hitler usou com malignidade inédita os meios de comunicação da indústria cultural. Manipulou até a morte as multidões sedentas de dominação. Hoje, podemos ver as mesmas técnicas no modo como a extrema direita instrumentaliza as plataformas sociais. As mídias digitais são o prolongamento da escola nazista: rompem com o registro dos fatos e promovem a substituição da política pelo fanatismo. O negacionismo contra as vacinas, contra o aquecimento global, contra as evidências históricas e contra a esfericidade do nosso planeta não é uma exceção, mas a regra.
Segundo o Führer, “a grande massa do povo ( é) sempre propensa a extremos”. Antes de muitos pesquisadores, ele notou que o público esclarecido pode até apreciar o equilíbrio do centro, mas a turba enfurecida prefere abertamente a falta de modos. Seus seguidores, declarados ou não, continuam a operar exatamente assim. Vide a aliança de Donald Trump e Elon Musk. Vide o triângulo rosa, com o qual os nazistas estigmatizavam os homossexuais, que o presidente dos Estados Unidos usou agora numa postagem. Vide como ele ataca as universidades e deporta inocentes.
Não, o Mein Kampf não é página virada. O Terceiro Reich foi projetado por Adolf Hitler para durar mil anos. Como doutrina, já durou cem. E vem mais por aí.
Qual é o estado real do clima global?
Nos últimos 12 meses, a temperatura média global do ar foi 1,55 graus Celsius maior do que entre 1850 e 1900, período antes de os humanos começarem a queimar combustíveis fósseis como carvão e petróleo em escala industrial. Assim, 2024 quebrou o recorde anterior de temperatura, estabelecido em 2023.
Altas concentrações de dióxido de carbono
Sob o Acordo Climático de Paris, os governos se comprometeram a limitar o aquecimento global a bem menos de 2 graus acima dos níveis pré-industriais e a continuar seus esforços para manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5 °C.
Como as temperaturas médias são medidas ao longo de décadas e não de um único ano, os resultados do Relatório Anual sobre o Estado do Clima da OMM não implicam que a meta de Paris tenha sido excedida. Mas está chegando mais perto.
Pesquisadores descobriram que as concentrações de dióxido de carbono (CO2), um gás que aquece o planeta e é emitido pelos combustíveis fósseis que queimamos para alimentar a indústria, aquecer nossas casas e fazer nossos carros funcionarem, estão mais altas do que em qualquer outro momento nos últimos 2 milhões de anos.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, chamou o novo estudo de "um alerta para o fato de que estamos aumentando os riscos para nossas vidas, nossas economias e o planeta".
Condições climáticas extremas, ele acrescentou, continuam a ter "consequências devastadoras em todo o mundo" e, atualmente, apenas metade dos países está equipada com sistemas de alerta precoce adequados para ajudar a proteger vidas e propriedades. "Isso precisa mudar", insistiu Saulo.
Em outro estudo publicado no final do ano passado, a iniciativa acadêmica World Weather Attribution (WWA), sediada no Reino Unido, descobriu que as mudanças climáticas "contribuíram para a morte de pelo menos 3.700 pessoas e o deslocamento de milhões" apenas nos 26 eventos climáticos analisados em 2024.
Como os combustíveis fósseis aparecem em nossos oceanos
O relatório da OMM, que se baseia em contribuições científicas de vários órgãos especializados, também cita a transição de um La Niña de resfriamento para um El Niño de aquecimento como um fator que contribuiu para o padrão climático recorde de 2024.
Com 90% do excesso de calor atmosférico absorvido pelos nossos oceanos, 2024 registrou os maiores níveis de aquecimento oceânico durante uma janela de observação de 65 anos.
E esse aquecimento afeta os ecossistemas marinhos, causando um declínio na biodiversidade e uma redução na capacidade do oceano de absorver carbono. Da mesma forma, oceanos mais quentes estão ligados a tempestades tropicais e níveis mais altos de acidificação, o que, por sua vez, prejudica os habitats marinhos e, consequentemente, a indústria pesqueira.
Como a água mais quente se expande e requer mais espaço, ela também contribui para o aumento do nível do mar, o que, de acordo com o relatório, "tem efeitos prejudiciais em cascata sobre os ecossistemas e a infraestrutura costeira". O aumento do nível do mar também pode causar danos por inundações e contaminação das águas subterrâneas com sal do oceano.
"Nosso planeta está enviando mais sinais de socorro", disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em um comunicado. "Mas este relatório mostra que ainda é possível limitar o aumento da temperatura global a longo prazo a 1,5 graus Celsius." Cabe aos líderes "dar um passo à frente para tornar isso uma realidade" (...) "aproveitando os benefícios da energia renovável barata e limpa para seus povos e economias", disse Guterres.
Espera-se que a energia renovável gere um recorde de 30% da eletricidade global em 2023, impulsionada pelo crescimento da energia solar e eólica.
Até mesmo os Estados Unidos, que sob o comando do presidente Donald Trump estão revogando regulamentações de proteção climática em favor do aumento da extração de combustíveis fósseis, estão experimentando um crescimento contínuo no setor solar.
No ano passado, as instalações solares e a infraestrutura de armazenamento de baterias aumentaram, o que significa que o sol agora pode cobrir mais de 7% das necessidades de eletricidade do país.
O custo da energia limpa caiu drasticamente
Em uma análise publicada no outono passado, Francesco La Camera, diretor geral da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), afirmou que o custo da energia limpa caiu tanto na última década que "os preços da energia renovável não são mais uma desculpa; pelo contrário".
No entanto, apesar desse esforço contínuo para mudar para energias renováveis, os cientistas enfatizam a necessidade de uma absorção e remoção muito maior e mais rápida de CO2 da atmosfera se houver alguma esperança de manter o aquecimento global abaixo do limite de 1,5 °C.
Uma dupla tragédia em Gaza
Trágico porque durante a madrugada as forças armadas israelitas quebraram o cessar-fogo que vigorava há dois meses em Gaza e bombardearam o território, matando num ápice de violência extrema 500 civis e fazendo cerca de mil feridos. E matando as esperanças recentes de que pudesse haver um caminho, mesmo que estreito, para que o frágil cessar-fogo desse lugar a negociações sérias sobre o futuro do território palestino.
Trágico porque esse ataque significa uma mudança duradoura na estratégia de Benjamin Netanyahu, incentivado tanto pela extrema-direita israelita quanto pelo seu aliado em Washington, Donald Trump, com quem já trabalha para a recolocação do povo palestino.
Israel usou toda a sua força e atacou de surpresa, durante a noite, num raide mortífero que ultrapassou em muito o pior dia da guerra, a 9 de junho, que fizera 270 mortos. “Durante a noite, os nossos piores medos materializaram-se. Os ataques aéreos recomeçaram por toda a Faixa de Gaza. Relatos não confirmados de centenas de pessoas mortas. Mais uma vez, o povo de Gaza está a viver no medo absoluto”, resumiu nesta terça-feira o subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, falando no Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque.
O cessar-fogo em Gaza acabou por durar apenas dois meses. Há vários dias que Israel tinha suspendido a entrada de ajuda humanitária e as pressões dentro do governo de Benjamin Netanyahu aumentavam de dia para dia para que cedesse à linha dura. A acrescentar a isso, conta com a bênção declarada de Trump, que sonha mesmo com uma “Riviera do Médio Oriente”.
O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, o mesmo que já avisou que os novos ataques não foram um “ataque de um dia” e que a operação militar em Gaza continuará nos próximos dias, revelou que a administração Trump foi informada previamente da operação militar, o que foi confirmado pela Casa Branca. “Como o Presidente Trump deixou claro, o Hamas, os houthis, o Irã, todos aqueles que procurarem aterrorizar não só Israel mas também os Estados Unidos vão ter um preço a pagar”, avisava a porta-voz, Karoline Leavitt.
Um dos próximos passos desta aliança entre Netanyahu e Trump pode mesmo vir a ser a relocalização dos palestinos da Faixa de Gaza. Ainda há dois dias, a imprensa norte-americana noticiava que os dois países concordavam que o melhor destino para os cerca de 2 milhões de palestinos seria a Síria, estando em estudo ainda as hipóteses da Somália e do Sudão. Por mais abominável que pareça, isto pode, de fato, vir a tornar-se uma realidade.
quarta-feira, 19 de março de 2025
Com certo patrimônio pessoal, as pessoas surtam!
Parece que sim: além de certa quantia, perde-se a noção da realidade. Ou, alternativamente – o que dá no mesmo! -, adquire-se uma noção deturpada do mundo real, uma visão na qual um euro ou dólar adicional, embora imperceptível, é mais desejável que muitas vidas. Estas se tornam sem importância, descartáveis. Não há saciedade nesse patamar, sempre se quer mais!
Assim é. Sabe-se que o consumo de alimentos fake é prejudicial à saúde, mas celebra-se a instalação de novos McDonalds, ou similares, porque “trarão emprego e renda”, e mais lucros para os acionistas. Sabe-se que queimar carvão, petróleo ou gás natural mata pessoas, mas não se renuncia a fazê-lo, pois a queima dessa droga trará mais lucros. Drogas sim, pois, como as outras, inicialmente trazem alegrias, mas, em seguida, tornam-se vício fatídico. Sempre se quer mais, apesar de se ter noção das consequências!
Um dos pontos interessantes da frase título é o reconhecimento pessoal do estado de loucura gerado pela fortuna desmedida. Quando se tem tanto, numa condição em que presentear um “amigo” com milhares de euros não passa de um “pequeno” mimo, em meio a um planeta em que mais de 80% dos semelhantes não vivem, apenas aguentam, com menos de US$10,00/dia, qual a empatia possível com o restante da humanidade?
A questão se agrava quando se vê que o país mais poderoso do mundo é governado por pessoas que se encontram entre os 0,0001% mais ricos do planeta. Para eles, que diferença faz o preço do leite, do ovo ou da carne? E que lhes interessa se o transporte público é ruim? Pior, não é apenas aquele país que é governado por seres apartados da realidade vivida pela maioria.
Aqui mesmo, em nosso Patropi, o patrimônio médio dos deputados federais ultrapassa três milhões de reais. Este fato, junto à constatação que a maioria deles está envolvida em processos criminais, demonstra que deixaram de ser representativos da população; ao contrário, são uma casta, cheia de privilégios e temerosa de reformas que aproximem representados de representantes.
A loucura prossegue, e os exemplos abundam. Há poucos meses, um indiano gastou centenas de milhões de dólares para celebrar o casamento da filha. Mais grave: vemos agora os países com as populações mais ricas dedicarem-se a ampliar seus arsenais, em detrimento de gastos que promovam qualidade de vida. Pode-se concluir, indago, que a partir de certa quantia não apenas pessoas, mas também países, enlouquecem? Parece que sim, pois países são governados por pessoas… a maioria das quais riquíssima!
Antes que os arsenais ampliados sejam usados, que seja restaurada a sanidade!
A extrema direita e a arte de distrair
Provavelmente, a coincidência dos anúncios do projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que reuniu Lula, ministros e os comandantes das Casas do Congresso, e de que Eduardo Bolsonaro se licenciará indefinidamente do mandato de deputado federal para ficar nos Estados Unidos e, de lá, ficar atirando no Judiciário brasileiro não foi estrategicamente pensada.
Mas foi didática para ver quanto somos facilmente tragados para uma agenda que só interessa à família, cada vez mais pressionada pela iminência de que os atos golpistas praticados com comando e anuência do ex-presidente sejam julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
É como as diabruras diárias de Donald Trump. Muitas dificilmente sairão do gogó ou do papel, sofrerão recuos obrigatoriamente e não passam de provocação, mas geram reação de governos, corporações, mercado financeiro, imprensa americana e do resto do mundo e por aí afora, num efeito dominó perverso que desvia o foco daquilo que, no projeto de desmonte que ele empreende, realmente tem impacto institucional, legal e econômico.
Há muitas conjecturas a respeito da intenção da família com a deserção de Eduardo, da preparação de terreno para uma fuga do pai a um temor mais comezinho de ficar sem o passaporte, possibilidade que se dissipou já na própria terça-feira, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou pedido do PT nesse sentido. O certo é o propósito do bolsonarismo de vitimizar Jair e companhia. Como as investidas têm surtido efeito decrescente, por vezes pífio, vide a manifestação esvaziada do último domingo, resolveram apelar para um showzinho com locação internacional.
O mais provável é que Eduardo produza uma série de vídeos em que, à distância, se sinta mais corajoso para adjetivar Alexandre de Moraes, algo que aqui, no comando da Comissão de Relações Exteriores, o deixaria sempre receoso de ser incluído nas investigações de que escapou de raspão, até agora. Promoverá encontros com lideranças mais estridentes da direita americana, usará bonés com dizeres para animar a torcida e tentará agitar alguma moção contra ministros do STF.
Mas é preciso tirar a espuma da distração estridente e perguntar: e daí? Para efeito de um eventual pedido de asilo de Jair ou de uma fuga cinematográfica, o alarde prévio do filho só atrapalha e deixa quem precisa ficar de olho mais alerta. Se a ideia é constranger ou afetar diretamente Moraes ou os demais ministros da mais alta Corte do Brasil, o deputado e seus aliados demonstram não conhecer nada de princípios elementares de Direito Internacional, como a autodeterminação das nações soberanas. Trocando em miúdos: a Constituição americana não tem validade em solo brasileiro, nem o Congresso ou a Suprema Corte dos Estados Unidos têm jurisdição sobre Brasília.
O julgamento de Bolsonaro e dos outros 33 denunciados por tentativa de golpe de Estado seguirá o cronograma bastante acelerado que já vem sendo ditado — não por acaso, ontem mesmo foi marcada a análise da denúncia de outro lote, numa demonstração de que o show pirotécnico da família terá efeito prático zero sobre o destino judicial do patriarca e dos demais. Muito barulho por nada.
E o mundo se cala...
No momento em que escrevo, passam de 450 os mortos nos bombardeios israelenses no território palestino. As forças do premiê Benjamin Netanyahu, cuja sobrevida política depende da guerra, se mobilizam para expandir a campanha militar. Prenúncio de mais violações do direito internacional e massacres. E o mundo se cala.
É justo impor uma punição coletiva a uma população civil e desarmada por conta da existência de grupos terroristas? Parece-me inconcebível que a comunidade internacional não force Israel a deter a matança. No fim das contas, é óbvio que a aposta de Netanyahu pelas armas coloca os reféns do Hamas em risco real de morte. A facção extremista avisou que o destino dos sequestrados é incerto — uma clara ameaça a Netanyahu. Os bombardeios massivos a Gaza apenas condenam 2 milhões de palestinos — a imensa maioria formada por gente inocente e trabalhadora — ao horror. Mas, também, sentenciam os próprios israelenses a mais insegurança e medo.
O silêncio do mundo é ensurdecedor. Netanyahu decidiu prosseguir com a matança de palestinos porque conta com a anuência de Donald Trump. Afinal de contas, valem muito mais os interesses comerciais e políticos do que vidas humanas. É indiscutível que o massacre de 7 de outubro de 2023 tenha sido dantesco, horrível e digno de condenação absoluta. É indiscutível que um país atacado tenha direito de se defender. Mas é inaceitável que essa defesa seja feita às custas das vidas de milhares de palestinos. Isso deixa de ser autoproteção. Passa a ser vingança.
Somente a criação de um Estado palestino independente e soberano pode pôr fim à matança desenfreada no Oriente Médio e estabilizar a conturbada região, que enfrenta o perigo de um mergulho na guerra. Os rebeldes huthis, do Iêmen, armados pelo Irã, retomaram ataques a embarcações no Mar Mediterrâneo. Os EUA têm feito reiteradas ameaças ao regime iraniano. O cessar-fogo no Líbano segue frágil, e o Hezbollah permanece ativo.
Israelenses e palestinos precisam colocar a prioridade pela paz à frente do ressentimento, do ódio e do desejo de vingança. Concessões difíceis devem ser tomadas por ambos lados. Elas incluem o status quo de Jerusalém como capital e o retorno dos refugiados. Pela segurança das futuras gerações.
Populistas de direita: iguais, mas diferentes
Nem precisaria ressaltar o quanto esse tema é complexo. Digamos apenas que a concepção mais comum de populismo é negativa, associada à demagogia, ao personalismo e ao desprezo pelas instituições. Eis a razão pela qual ninguém se assume como populista nem aceita essa designação.
Acho, contudo, que é possível encontrar uma definição mais neutra e analítica de populismo, assim como diferenciar as formas que ele assume hoje. O populismo envolve retórica, atitude e crenças. Sua premissa fundamental é que a sociedade se divide entre um povo autêntico e uma elite corrupta. O indivíduo, partido ou governo populista parte dessa premissa para se dirigir à massa popular, representando-a como a parte mais nobre e fundamental da nação e se apresentando como a única forma política que se vincula orgânica e moralmente ao povo, tendo como missão enfrentar as elites em seu nome.
A variação entre os populismos está na resposta à pergunta sobre quem é "o povo" para cada corrente. Há duas respostas clássicas. No populismo de esquerda, o povo é a classe explorada no capitalismo. A definição de Gramsci segue essa linha: o povo é formado pelos subalternos em uma sociedade de classes. A liderança populista se apresenta como defensora dos trabalhadores, dos marginalizados, dos subalternizados, e sua ação política se traduz em políticas de redistribuição de renda e em luta contra a desigualdade.
A segunda forma clássica é o populismo nacionalista e conservador, de direita. Aqui, o povo é definido por identidade cultural e nacional. O critério não é econômico, mas cultural e territorial: a nação como comunidade de valores e história. A liderança populista se apresenta como defensora dos valores nacionais contra elites progressistas e contra estrangeiros. O inimigo do povo, aqui, não é necessariamente a elite econômica, mas a elite política e cultural, traidora da nação.
Mas há um terceiro tipo, exemplificado por Trump e Milei, que escapa tanto ao modelo de esquerda quanto ao nacionalista. O que une Milei e Trump, entre outros, é que eles rejeitam a ideia de povo da esquerda, flertam com o conceito conservador, mas adotam uma terceira abordagem. O povo, aqui, é formado por aqueles que competem no jogo do livre mercado, os que se esforçam, inovam, criam riqueza e não dependem do Estado, e que, por isso mesmo, são tosquiados, explorados, sufocados por políticas públicas de esquerda, obrigados a pagar a conta pela inépcia estatal e, ainda por cima, tratados como os vilões da história pelos progressistas. Esse populismo é individualista e meritocrático e rejeita tanto a "casta" política quanto os "vagabundos" que vivem de assistencialismo.
A ironia desse populismo ultraliberal é que, embora se oponha ao populismo no discurso econômico, não hesita em adotar as táticas populistas clássicas: discurso antielite, mobilização emocional, rejeição do establishment, figura do líder outsider, personalismo e demagogia.
Os populismos de direita vencedores hoje, portanto, variam conforme seus elementos centrais. Le Pen, por exemplo, representa o populismo nacionalista, enquanto a AfD combina elementos dos populismos nacionalista e ultraliberal. Milei e Trump compartilham a retórica populista ultraliberal, voltada contra a casta e a elite cultural progressista, mas o segundo mantém um teor mais alto de populismo nacionalista, apelando à América profunda. Bolsonaro partiu de um populismo conservador básico, ao qual acrescentou, como um apêndice retórico, o populismo ultraliberal, porém sem nunca abandonar a retórica do populismo protetor dos pobres e miseráveis.
Em comum, todos os populistas têm uma elite para condenar, um povo para defender e representar, um sistema para combater e desmontar. Todos se apresentam como a voz autêntica do povo e a expressão mais genuína de sua vontade e de suas esperanças. O peso e a importância de cada elemento nesse caldeirão retórico e nas ações de cada líder, partido ou movimento é que conferem o sabor próprio do populismo predominante em cada lugar. São iguais, mas, ao mesmo tempo, diferentes. E vice-versa.
Trump tenta usar sul-africanos brancos como 'alerta' para seguidores nos EUA
Se ouvirmos a opinião do presidente dos EUA, Donald Trump, e de seus aliados, ele dirá que a África do Sul é um lugar terrível para as pessoas brancas. Segundo o republicano, elas enfrentam discriminação, são preteridas em vagas de emprego e vivem sob a constante ameaça de violência ou de terem suas terras roubadas por um governo corrupto, liderado por negros, que deixou o país em frangalhos.
Os números contam uma história diferente. Apesar de serem apenas 7% da população, os brancos controlam quase metade das terras da África do Sul. As estatísticas policiais não os mostram como mais vulneráveis a crimes violentos do que outras fatias da população. E os sul-africanos brancos estão em situação bem melhor dos que os negros em praticamente todos os indicadores econômicos.
Mesmo assim, Trump e seus aliados apresentam uma narrativa própria sobre a África do Sul para avançar com um argumento próprio dentro de casa: se os EUA não barrarem as iniciativas de promoção de diversidade, o país se tornará uma nação disfuncional onde a discriminação contra os brancos será rotina.
— A ideia é instigar o medo nas pessoas brancas nos EUA e em outros lugares: “nós brancos estamos sob ameaça” — afirmou Max du Perez, um escritor e historiador sul-africano, branco, ao comentar a descrição que Trump faz ao seu país.
Mas, como ele aponta, os brancos prosperaram desde o fim do regime do apartheid, em 1994.
Os paralelos entre as tentativas da África do Sul para desfazer as injustiças dos anos do apartheid e a longa jornada dos EUA para lidar com o legado da escravidão e com as chamadas “Leis Jim Crow”, que reforçaram a segregação no país, com frequência surgem entre os apoiadores de Donald Trump.
Ernst Roets, um ativista branco na África do Sul, disse que quando conversou com ativistas conservadores dos EUA, por vezes ouviu deles que “era necessário olhar para a África do Sul, porque é o que vai acontecer por aqui se não formos cautelosos”.
Desde a queda do apartheid, há três décadas, o governo democrático da África do Sul chegou ao poder com a promessa de reparar as desigualdades do sistema que deixou a maioria da população negra às margens. Mesmo assim, o presidente Nelson Mandela em boa parte permitiu que os brancos mantivessem suas riquezas, como forma de garantir uma transição pacífica.
Seu partido, o Congresso Nacional Africano, aprovou leis para reduzir o abismo da desigualdade entre brancos e negros. Recentemente, o país adotou uma medida que permite ao governo confiscar terras privadas que sejam de interesse público, por vezes sem compensação.
A lei ainda não foi usada, embora alguns sul-africanos brancos — e Trump — digam que ela atinge, de forma injusta, os donos de terras e fazendeiros, em sua maioria brancos, apesar de décadas de políticas anti-apartheid.
Trump construiu sua identidade política em parte como um protetor da América branca. Brigou para salvar símbolos dos confederados no sul do país, chamou treinamentos sobre discriminação racial de “propaganda antiamericana”, e defendeu publicamente supremacistas brancos.
Cortar a ajuda à maior parte da África, ao mesmo tempo em que defende os africâneres —a minoria étnica branca sul-africana que liderou o regime do apartheid — parece ser a mais recente prova do comprometimento de Trump com os interesses brancos.
No mês passado, o presidente assinou uma ordem executiva garantindo status de refugiados aos africâneres e suspendendo toda a ajuda à África do Sul, em parte como resposta à reforma das terras. Ele disse em sua rede social, no começo do mês, que os EUA facilitariam a obtenção de cidadania para os fazendeiros sul-africanos, muitos dos quais são africâneres. Na sexta-feira, o secretário de Estado, Marco Rubio, chamou o embaixador da África do Sul em Washington, Ebrahim Rasool, de “político incitador racial que odeia os EUA” e o expulsou.
— Trump está dizendo aos brancos de todos os lugares que ele usará seu poder para proteger e impulsionar seus interesses, e que os fatos não importam — disse Khalil Gibran Muhammad, professor de Estudos Afro-Americanos na Universidade Princeton.
Alguns africâneres elogiaram a postura de Trump. Ativistas foram a Washington em fevereiro para pedir apoio ao seu governo. Um integrante da Casa Branca descreveu uma das delegações como “líderes dos direitos civis”.
Muitos dos aliados do presidente destacaram o que veem como dificuldades dos brancos sul-africanos. Elon Musk, que nasceu na África do Sul mas não é africâner, acusou o governo do país de promover leis racistas, e falsamente alegou que fazendeiros brancos estavam sendo mortos todos os dias.
Depois que Roets participou do programa de Tucker Carlson na Fox News, em 2018, o apresentador publicou em suas redes sociais que “fazendeiros brancos estavam sendo brutalmente assassinados na África do Sul por causa de suas terras”.
Carlson produziu uma matéria descrevendo tomadas de terras e homicídios. Trump, que estava em seu primeiro mandato, marcou o jornalista em uma publicação em uma rede social na qual dizia ter ordenado uma investigação sobre a tomada de terras e “o assasinato em grande número de fazendeiros, mesmo sem o governo ter tomado uma propriedade sequer até hoje.
No universo de Trump, esses temas estão sendo recirculados como sinais de alerta para os Estados Unidos.
Muitos eleitores sul-africanos, não importa sua raça, concordam que o Congresso Nacional Africano criou um país com muita corrupção, sem infraestrutura, com altos níveis de violência e desigualdade, onde os negros são os mais pobres. Na última eleição, o partido perdeu a maioria no Parlamento pela primeira vez desde o fim do apartheid.
Analistas apontam que a sigla fez grandes esforços para adotar políticas pró-mercado que permitiram aos sul-africanos brancos manter seu poder econômico. Na verdade, muitos cidadãos criticam Mandela por não ter ordenado uma redistribuição mais agressiva de terras controladas pelos brancos para a população negra, cujas famílias foram expulsas dessas mesmas terras durante o apartheid e o período colonial.
Apoiadores da lei das terras esperam que ela acelere o objetivo de devolver as propriedades aos sul-africanos negros. Mas para Trump, os africâneres é que são as vítimas “de uma injusta discriminação racial”, como detalhou em sua ordem executiva assinada no mês passado.
Descendentes de colonizadores holandeses que chegaram ao sul da África em 1652, os africâneres atraíram as atenções do mundo no começo do século passado, como uma pequena tribo que enfrentou o poderoso império britânico em batalhas territoriais (apesar de perderem a guerra”. Os britânicos os viam como grosseiros, e essas lutas criaram divisões profundas entre as duas maiores populações brancas do país, que persistem até hoje.
Embora o presidente americano geralmente seja contra a entrada de refugiados e pessoas em busca de asilo nos EUA, ele abriu uma avenida especial para alguns africanos brancos chegarem ao país.
Isso não necessariamente correspondeu aos desejos de seu público-alvo. Muitos africâneres dizem que, embora apreciem o apoio de Trump, assim como suas alegações de perseguição, eles preferem permanecer em seu país, que eles consideram ser seu lugar de direito.
John Eligon
terça-feira, 18 de março de 2025
A liderança não é um jogo
Vivemos tempos que, pela complexidade dos desafios, convidam ao aparecimento de grandes líderes – desde que saibam responder à chamada e assumir as suas responsabilidades. Por isso, estes também são tempos esclarecedores sobre as verdadeiras capacidades de quem governa – tempos que podem ser uma rampa de lançamento para mais altos voos ou o prenúncio de um desastre inevitável, a curto ou médio prazo.
Com o mundo numa encruzilhada, todos os governos estão hoje sob uma enorme pressão. Especialmente os dos países europeus, ameaçados por várias ondas de tensão: crescimento do populismo, aumento da desconfiança das populações em relação às próprias virtudes da democracia, alterações profundas na sua demografia, fortes pressões sobre a solidez do Estado social e, em simultâneo, obrigados a mudar o paradigma em relação ao seu papel no mundo, a política de defesa e até as suas alianças militares e comerciais.
Esta realidade é transversal a quase todos os governos europeus, onde são muito poucos os líderes a gozarem de maiorias estáveis e sólidas nos seus parlamentos. E, como as eleições recentes demonstraram, os eleitores têm penalizado quase sempre quem ocupa o poder, o que faz aumentar o sentimento de fragilidade de quem governa, com as consequências nefastas que se conhecem: muitas decisões de curto prazo e poucas de âmbito estratégico e duradouro.
Com tudo o que está a ocorrer no mundo, este é o tempo que exige mudança de atitude na governação. E, acima de tudo, uma inabalável convicção nas decisões estratégicas que precisam de ser tomadas. Com a Europa no centro desta encruzilhada, os governantes têm uma responsabilidade acrescida que vai muito para lá do peso e da dimensão de cada país. No momento em que se avaliam novas estruturas de defesa e, quem sabe, uma alteração de prioridades nos mecanismos de coesão europeia, todos os governantes têm o dever de apresentar as suas ideias, de se sentar à mesa das grandes decisões e de participar ativamente na busca de soluções – que terão, todas elas, um enorme impacto na população.
Perante o desafio quase existencial que a Europa enfrenta, este não é o tempo de os governos se esconderem ou se deixarem ficar à sombra dos líderes dos grandes países, à espera do que é definido em Berlim ou Paris. A postura pequenina de “bom aluno”, que chegou a fazer escola em alguns anos da ainda Comunidade Económica Europeia, já não é admissível para um país de dimensão média, como o nosso. Portugal, como já fez várias vezes no passado, pode e deve ter uma voz ativa nos grandes debates europeus. E, como também já aconteceu, ser capaz de influenciar tomadas de decisão e ter vozes com um peso decisivo para a alteração de políticas europeias.
Causa, por isso, muita estranheza a ausência sucessiva do primeiro-ministro nas cimeiras e nos encontros que têm ocorrido na atual situação de emergência para o futuro da Europa, provocada pela mudança da política de Washington em relação à guerra na Ucrânia – bem como ao anúncio de uma nova guerra comercial com os seus “antigos aliados” europeus. Todos temos visto aquilo que tem acontecido: Luís Montenegro poderia, como outros fizeram, ter “forçado” a sua presença nos encontros que pretendiam ser restritos. E noutro, que seria mais alargado, acabou por falhar a participação devido a alegados “problemas técnicos”. Nos palcos decisivos da encruzilhada da História, propícios para a afirmação de líderes, Montenegro tem estado “desaparecido em parte incerta”, porventura a tentar apagar o fogo do escândalo que o envolve. O pior, no entanto, é que não tem sido capaz de apresentar explicações convincentes sobre as acusações que lhe apontam e, em simultâneo, tem estado também profundamente calado em relação aos grandes desafios que se colocam a Portugal e à Europa, no atual contexto internacional. E se, no primeiro caso, a perda pode ser só dele, já no segundo, o que está em causa é o prestígio e a afirmação do País.
A Suprema Corte e Donald Trump
Na semana, Trump usou uma lei de 200 anos (“The Alien Enemies Act”), invocada apenas três vezes e somente em períodos de guerra declarada – o que não é o caso –, para expulsar dos EUA venezuelanos. Deportá-los. Por avião.
O juiz James Boasberg, da primeira instância da Justiça Federal de Washington D. C., mandou tudo suspender. E, se tivesse avião no ar, imediatamente desse meia-volta. Trump não obedeceu.
O jovem Mahmoud Khalil, regular estudante na Columbia University, participou no campus de atos pró-Palestina. Trump taxou como “un-American activity” – o que quer que isso queira dizer. Foi preso, exilado em Louisiana. Trump já se movimenta para deportá-lo. A despeito de seu green card. Considerado imigrante ilegal. O que não é.
A Universidade de Columbia, como “punição” e sob a acusação de estar “escondendo estudantes” que a Administração Trump persegue, deixará de receber 400 milhões de dólares. Entre contratos, financiamento e concessão de bolsas de pesquisa, que recebe do governo americano.
Lá, a liberdade de expressão permite falar o que queira. Com poucos limites ao conteúdo. Em geral, apenas atos concretos podem ser ilegais. Foi o caso de Khalil.
Esclarece o prof. Paulo Daflon Barrozo, da Boston College Law School: falar pode, atuar não. E acrescenta: “O que importa, para entender a estratégia de Trump, não é analisar um ou outro ato isoladamente. Mas juntá-los. Fazem parte de estratégia mais ampla. De intimidação da sociedade civil. Da desmoralização e esvaziamento das instituiçõs de Estado. De neutralização de oposição ao seu crescente poder”.
Essas e muitas outras executive orders de Trump podem acabar na Suprema Corte. Impossivel prever com exatidão o que acontecerá. Algumas possibilidades podem ser delineadas.
Quando uma ação chegar, quem estará em julgamento diante da opinião pública não será Trump. Mas a própria Suprema Corte. O sistema politico de freios e contrapesos do poder irá funcionar? Seus justices devem ponderar. Até que ponto a Corte será ou parecerá submissa ao Executivo? Arriscará violar um dos valores da democracia: a imparcialidade. Colocar, por si própria, sua legitimidade em questão.
O fato dos justices conservadores serem maioria não dita automaticamente a decisão. Por exemplo, o Chief Justice John Roberts e Justice Amy Coney Barrett, ex-professora da Universidade de Notre Dame, não são votos automáticos. Aqui e ali, provavelmente, vão temperar decisões. Vide caso recente.
A Suprema Corte manteve, neste momento, por 5 a 4, decisão de primeira instância que rejeitava pedido de Trump para congelar US$ 2 bilhões em ajuda externa. John Roberts e Amy Coney Barrett, apesar de serem da ala mais conservadora, alinharam-se aos mais “liberais”. Definiram o resultado. Que, no fundo, foi não entrar no mérito da questão. Adiar.
Em inúmeros casos, a Supreme Court não aceitou uma mudança drástica de orientação da ordem jurídica. Afirmando que os cidadãos não tinham ainda uma clara posição sobre o problema. In dubio, pro cautela.
O melhor é deixar baixar a poeira.
Diferenças entre EUA e Brasil são importantes. Nos EUA, não há ação direta de inconstitucionalidade. Salvo algumas poucas hipóteses, como certos casos de Habeas Corpus. Não se pode ir diretamente ao Supremo.
Há que se percorrer um canal processual que começa na primeira instância estadual ou federal. Vai às Circuit Courts, segunda instância. Só depois chega à Suprema Corte. Leva tempo.
O mais provável é que tenhamos múltiplas decisões pipocando na primeira instância e nas Circuit Courts. Mais ainda.
Ao contrário daqui, a Suprema Corte não é obrigada a julgar tudo que lhe chega. Seu juízo de admissibilidade é volátil, sem necessidade de dar maiores explicações.
Prudente, pois, é a corte esperar as reações nacionais às múltiplas decisões de Trump. Tomar a temperatura do pais.
As pesquisas de opinião, apesar da expressiva vitória em votos de Trump sobre Kamala, mostram diferenças ainda mínimas. Dois pontos para cá, dois pontos para lá.
Sem falar na pedra maior do caminho: as midterm elections. Isto é, as eleições legislativas para o próximo ano.
João Cabral de Melo Neto, nosso poeta-mor, dizia que esperar é um suplício. E exemplificava. Frei Caneca, sentado no banco do cadafalso, no Recife, aguardando os carrascos da morte, após ser condenado por D. Pedro I. Viveu o suplício de esperar o suplício.
Para muitos na mira do Trump, o esperar pela Suprema Corte pode ser um suplício. Será? É o modelo norte americano de democracia que irá para julgamento na Suprema Corte.
A extrema direita e a crise na imprensa no Brasil e no mundo
O descontentamento que levou aos protestos de 2013 não decorria apenas de fatores materiais, como renda e emprego, cujos índices vinham melhorando progressivamente. O mal-estar estava relacionado a uma crise social mais profunda, relacionada ao desgaste da política, a um ceticismo em relação à capacidade do Estado democrático em melhorar a vida das pessoas, algo que não estava claro no período, mas que se revelou no decorrer dos anos, não apenas no Brasil, como em outros países do mundo.
Mas é curioso olhar para trás, depois de tudo o que já sabemos. Havia a expectativa de que as redes levariam a um aprofundamento da democracia, como se a política caminhasse apenas para frente. As demandas da população poderiam ser ouvidas e conhecidas sem os filtros dos meios de comunicação tradicionais, o que ampliaria a representatividade e a civilidade. A internet parecia uma ferramenta para “criar um mundo melhor” e os nerds das grandes corporações eram candidatos a heróis da liberdade.
Os indícios desse progresso aparente vieram inicialmente das revoltas populares em países autoritários. Tinham começado na Tunísia, espalhando-se por outros países do Oriente Médio e da África, na chamada Primavera Árabe. Ainda em 2011, manifestantes do Ocuppy Wall Street acamparam por quase dois meses nas calçadas do maior centro financeiro do mundo, em Nova York, para protestar contra a desigualdade. A mesma febre popular parecia atingir as ruas do Brasil dois anos depois, em manifestações que começaram para protestar contra os aumentos das tarifas de transporte público. Depois, virou uma indignação dispersa, com pautas para todos os gostos.
Eu vivi esse momento de otimismo com a internet, ao mesmo tempo que enxergava os limites do meu trabalho como jornalista. Eu estava no Estadão e cobria os protestos. Perto das redes sociais, os jornais pareciam obsoletos. O streaming permitia aos manifestantes transmitirem ao vivo das barricadas. O feed do Facebook era mais vivo e oferecia um cardápio de informações mais variado e próximo dos fatos do que os jornais e a tevê. O Mídia Ninja, por exemplo, surgiu e se popularizou nesse período. O coletivo se propunha a fazer uma curadoria de vídeos a partir de uma ampla rede horizontal de produtores de conteúdo, espalhados pelo Brasil, donos de smartfones e dispostos a mostrar suas realidades. Esse grupo e outros se diziam mídia-ativistas, propondo-se a abandonar a pretensa objetividade do jornalismo tradicional para assumir uma agenda positiva, emplacar pautas progressistas e disputar ativamente a opinião pública.
O ambiente era favorável às esquerdas, que vinham intensificando sua experiência nas ruas, debatidas e articuladas nos fóruns sociais antiglobalização, que conseguiram paralisar grandes conferências da economia mundial, como em Davos. Essa geração estava atenta ao papel das redes sociais na luta política. Movimentos autonomistas apontavam para a mudança do paradigma dos protestos, que deviam ser horizontais, sem os carros de som e as hierarquias de antigamente, usando táticas como a black bloc (por meio da violência simbólica), a pink bloc (manifestações lúdicas), white bloc (táticas pacifistas), entre outras. Diante desse know-how nas ruas e nas redes, o que ninguém esperava é que seria justamente a extrema direita que conseguiria direcionar essa revolta de forma mais contundente para se tornar a principal beneficiada da insatisfação popular do período. Ela entraria no jogo do mídia-ativismo, dominaria as redes sociais para ganhar a disputa ao pautar o debate e fazer a cabeça da opinião pública.
No Brasil, a partir de 2015, diversos veículos e influenciadores com viés conservador e reacionário, parte deles formada por Olavo de Carvalho, que já vinha dialogando com a far-right dos Estados Unidos, ajudaram a levar milhares de pessoas às ruas para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que ocorreu em 2016. Havia a Lava-Jato, denunciando diariamente casos de corrupção, o que ajudava as redes sociais a direcionarem o mal-estar disperso de 2013 contra políticos e partidos que lideraram a Nova República. Questões morais e religiosas entravam em cena, inflamando as discussões. Começava a ganhar força um projeto político alternativo, antissistema e reacionário, sob a liderança de Jair Bolsonaro. Era inacreditável, parecia um retrocesso inesperado. Depois de mais de 30 anos de democracia, os eleitores escolhiam um defensor da tortura, da violência policial e da Ditadura Militar para a presidência do Brasil em 2018.
Fenômenos semelhantes ocorreram em outras partes do mundo. O vácuo de poder nos países da Primavera Árabe resultou em movimentos contrarrevolucionários ainda mais duros, formados por juntas militares e grupos fundamentalistas. Os Estados Unidos elegeram Donald Trump e um movimento de extrema direita internacional passou a atingir e ameaçar diversas democracias que pareciam consolidadas.
Como e por que as crenças mudaram dessa maneira? Como a extrema direita conseguiu crescer e se fortalecer? Por que os valores democráticos passaram a perder prestígio na mesma proporção que políticos autoritários ganharam popularidade? Qual o papel das redes sociais nesse processo? Como a fragilização e a crise financeira do jornalismo tradicional contribuíram para esse estado de coisas? Entender grandes mudanças de crenças e de comportamentos é um tema que me persegue nos últimos vinte anos, período em que venho pesquisando esse assunto, mesmo que em outras frentes.
Acompanhei mais de perto duas grandes mudanças de crenças que redefiniram comportamentos em São Paulo e no Brasil e que ajudam a refletir sobre as atuais mudanças nas crenças políticas do brasileiro. A primeiro delas diz respeito à redução dos homicídios em São Paulo e à multiplicação das organizações criminais de base prisional por todos os estados do País. É um fenômeno social relevante, que envolveu o surgimento de mais de 80 facções de diferentes tamanhos, que transformaram o mercado de drogas nacional e o conectaram com o resto do mundo. O segundo fenômeno foi o processo de conversão religiosa dos brasileiros. Desde os anos 1990, o País deixou de ter ampla maioria católica para dar lugar ao protestantismo, principalmente de correntes pentecostais que, em poucos anos, caso o ritmo se mantenha, tende a ser a religião da maioria dos brasileiros.
Essas transformações envolveram o despertar de novas crenças, que modificaram comportamentos, redefiniram regras cotidianas e passaram a orientar outros sentidos de vida e identidades para amplas fatias da população. Atuaram para reestabelecer a ordem em mundos que pareciam caóticos e imprevisíveis. Esses processos ocorreram em meio à abrupta urbanização das cidades brasileiras, que a partir dos anos 1950 passaram a receber em grande escala grandes volumes de pessoas vindas das áreas rurais. A urbanização rápida foi marcada, inicialmente, pelo improviso, pela falta de planejamento e pela sensação permanente de desordem nas cidades. De repente, dois universos diferentes compartilhavam o mesmo ambiente, cada qual com sua herança cultural. Uma delas oriunda da zona rural brasileira, que passou a ser associada ao atraso e a ser considerada um risco para a vida nas cidades; e a outra já mais adaptada aos centros urbanos e à modernidade, que se sentia ameaçada.
Nesse ambiente tensionado, os migrantes vão erguer suas casas nos morros, periferias e favelas, para tentar fazer parte da modernidade industrial e do mercado de consumo como mão de obra barata. Os bairros que emergiam clandestinamente eram vistos com desconfiança pela população e pelas autoridades. Em meio a essa situação potencialmente explosiva, havia a necessidade de se criar outros tipos de ordem, que organizassem e dessem sentido para as vidas nas cidades em formação. As soluções foram criadas em diversas frentes. Na esfera política, nos anos 1970 e 1980, o discurso mais popular era liderado pela Igreja Católica progressista e pelos partidos de esquerda e centro-esquerda. A ditadura militar agonizava e a chegada da democracia possibilitava a perspectiva de participação popular. Para melhorar a vida nas cidades, conforme as lideranças progressistas, os pobres deveriam agir de forma coletiva para escolher políticos que representassem seus interesses concretos e cobrá-los no poder. No mercado de trabalho, eles deveriam se organizar nos sindicatos para pressionar os patrões. O futuro dependia da participação popular e de um Estado racional, voltado para a redução das desigualdades, o que implicava na cobrança por investimento nos bairros pobres emergentes, em asfalto, escolas, postos de saúde, cultura e infraestrutura em geral. Essa ideologia vai servir de base para o progressismo da Nova República.
Outros sentidos, contudo, eram forjados para lidar com a realidade urbana, marcada pelo medo da desordem e pela necessidade de ganhar dinheiro para sobreviver. Os moradores dos bairros centrais e as autoridades, temendo o que viam como ameaças, preferiam uma segregação velada, que se refletia na arquitetura urbana. É a época em que São Paulo e outras cidades começam se isolar atrás dos muros altos dos condomínios e nos ambientes privados de shoppings centers e automóveis. Já o Estado era cobrado para exercer uma ação violenta com objetivo de “proteger” a sociedade numa “guerra contra o crime”, via grupos de extermínio, esquadrões da morte, pela violência policial, entre outras práticas herdadas da ditadura militar e reinventadas na democracia, que atingiam principalmente os moradores dos bairros pobres. Essa guerra, contudo, estimulava a reação e a resistência forjadas entre grupos masculinos e periféricos, que apostavam no caminho do crime não apenas por questões materiais, mas como forma de não abaixar a cabeça e não se sujeitar passivamente ao destino que lhes era reservado e imposto pelas autoridades violentas.
Dessa maneira, no decorrer dos anos, movimentos aparentemente contraditórios passaram a transformar São Paulo. Melhorias estruturais via políticas públicas diminuíram o abismo econômico e social que separavam ricos e pobres – apesar de ainda profundos. Chegaram equipamentos públicos, transporte, luz, água, asfalto. Ao mesmo tempo, a violência, tanto da polícia como entre a população periférica, marcada pelas elevadas taxas de homicídios, seguia promovendo uma sensação permanente de caos. As facções e os religiosos pentecostais surgiram nesse cenário em construção, ainda confuso, como uma resposta dos pobres para os pobres, na busca de reorganizar a vida nos guetos, nas prisões, e produzir novas identidades que pudessem ser inseridas e aceitas na sociedade, numa tentativa de acomodação e aproximação das diferenças.
Entre os religiosos, a principal transformação trazida por uma fé reavivada foi a elevação da autoestima e do amor-próprio como antídoto ao estigma que pousava sobre os ombros dos moradores periféricos. O processo de conversão religiosa é chamado de metanoia, que significa transformação da consciência a partir de uma nova crença que permite o renascimento em uma identidade respeitável, aliada do Todo Poderoso e empoderada, que permite saltar obstáculos que pareciam intransponíveis. O PCC também conseguiu mudar a consciência dos criminosos com um novo discurso, que os levava a renunciar aos seus desejos mais egoístas para se sujeitarem às regras do crime e assim sobreviverem no lucrativo e promissor mercado ilegal. O processo massivo de transformação de consciências, portanto, dependia da construção de novos sentidos e discursos, que ofereciam caminhos mais seguros e previsíveis – mesmo quando na ilegalidade – para aumentar as chances de sobrevivência dentro da ordem geral vigente.
Tanto as ordens criadas pelo crime como pela religião apostaram no potencial do mercado para serem aceitas e tomadas como caminhos possíveis para um número crescente de pessoas. O mercado, desde priscas eras, quando começou a funcionar, tem essa qualidade insuperável de transformar potenciais inimigos em parceiros comerciais. Livros como Os anjos bons de nossa natureza, do psicólogo Steven Pinker, discutem como o surgimento do mercado foi essencial para a redução da violência na história do mundo ao inventar um mecanismo de ganha-ganha, baseado em trocas, que diminuiu a necessidade de guerras e de dominação. O mercado, assim como a linguagem, é um produto social que emergiu de baixo para cima, a partir da interação social, ampliando a possibilidade de sobrevivência ao criar interesses comuns entre diferentes.
O PCC, em vez de atuar como um cartel, inovou ao funcionar como uma agência reguladora do mercado do crime, que favorecia o negócio de todos que participavam. A ideia de “consciência criminal”, o tal do “proceder”, contribuiu para o estabelecimento de regras que mediaram a concorrência e reduziram os conflitos entre os participantes desta atividade. De acordo com essa pregação, quem atuasse na ilegalidade não deveria enxergar seus concorrentes como inimigos, mas como parceiros em potencial, já que o inimigo, afinal de contas, era o “sistema”, que não permitia que eles ganhassem dinheiro ilegalmente. O mundo ilegal era uma realidade inevitável, que não parava de crescer. Portanto, eles deveriam melhorá-la e torná-la previsível. O resultado, a partir da construção dessa nova ordem, foi benéfico para os seus participantes; em pouco mais de duas décadas, esse novo arranjo ajudou a reorganizar o mercado criminal e a costurar uma ampla rede de vendedores de drogas, que passaram a se associar com criminosos de outros ramos, multiplicando o faturamento e ampliando seus negócios para o mundo todo. Com mais dinheiro, eles passaram a ter capital para “comprar o sistema” e reduzir os riscos da vida na ilegalidade – apesar de ainda elevados.
Já os evangélicos, com sua autoestima renovada e um propósito claro para suas vidas, partiram da teologia da prosperidade para direcionar seus esforços para o sucesso material, que era sinônimo de benção divina. Os convertidos conseguiram, assim, formar redes de apoio que ampliaram suas condições para ganhar dinheiro e consumir como forma de serem respeitados numa sociedade pautada pelos valores do mercado. Em ambos os grupos, a nova ordem, que cada um representava, dependia do empreendedorismo e do mercado para existir e dar bons resultados.
A extrema direita no Brasil e no mundo ganhou espaço e passou a oferecer sentido para vidas confusas também apostando no mercado como a engrenagem central de garantia da sobrevivência. O sonho de ser livre viria com a riqueza, capaz de financiar a compra de todos os desejos possíveis e de proporcionar uma identidade de respeito. Como o sucesso no mercado dependia da disposição pessoal, o desafio de cada um seria acreditar na própria capacidade de vencer e não desistir. A fé e a capacidade de acreditar, portanto, ganharam relevância para alcançar algum êxito. O importante era construir um mindset autoconfiante, capaz de prosperar e superar as adversidades. Perdiam apelo as utopias anteriores, que pregavam a luta coletiva, voltadas para pressionar o Estado e ampliar os direitos sociais, reduzindo a dependência do mercado. A ideia de que a mudança viria de cima para baixo foi subvertida pela realidade material e social, caracterizada por uma economia que se desindustrializava, em meio a governos impotentes diante de seus limites fiscais, acusados de corrupção e de apadrinhamento. O apelo do mercado e da salvação individual, portanto, acabou se tornando mais plausível e obtendo popularidade crescente no mercado das crenças.
Os governos, de acordo com essa visão, deveriam reduzir sua interferência na economia, desregulamentar ao máximo as burocracias, reduzir as taxações que afetassem os empreendedores e, se possível, oferecer subsídios e vantagens que favorecessem seus negócios. A disputa política passaria a ser vinculada à melhoria dos lucros dos grupos vinculados aos que assumiam o poder – investidores financeiros, empreendedores imobiliários, grileiros, pastores, ruralistas, vendedores de armas e de segurança privada, entre outros. As associações e parcerias entre indivíduos e grupos passariam a funcionar como networks voltados para a geração de lucros. Até mesmo as mais de 80 facções brasileiras conseguiram ampliar sua influência no novo sistema apostando na chave do empreendedorismo. As igrejas também acabaram exercendo papel relevante na costura de redes, aproximando parceiros com interesses comerciais ou financeiros comuns. A mudança estava emergindo de baixo para cima, a partir dos indivíduos e de seus arranjos comerciais e financeiros no mercado.
A porta estaria sempre aberta até mesmo para os pobres, que poderiam ascender em um ambiente favorável ao empreendedorismo e ao lucro. A multiplicação dos jogos e das bets faz parte desse espírito porque, além de lavar o dinheiro ilegal, oferecem um atalho para o enriquecimento, mantendo acesa a esperança em mudar de vida a partir de um golpe de sorte. Esse modelo que hipervaloriza a prosperidade, contudo, produz suas próprias contradições e fragilidades, ao incentivar uma competição autodestrutiva no mercado, marcada pela informalidade, pela ilegalidade e pela infinidade de golpes financeiros de diferentes proporções e tipos.
Ter em mente esse amplo contexto de mudanças ajuda a entender como a imprensa acabou perdendo sua relevância como fiadora da democracia. Não se deve apenas à crise de financiamento ou à multiplicidade da oferta de informações. Ambos são fatores importantes. Mas o que mais surpreendeu foi como as redes sociais e o mundo virtual, em vez de aprofundarem a democracia, como se imaginava em 2013, acabaram se revelando um ambiente propício para a proliferação das seitas e de suas crenças desconectadas dos fatos objetivos, mas fortemente vinculadas às emoções e aos desejos daqueles que dialogavam entre si. As seitas, em sua concepção clássica na sociologia, servem como modelo para organizar uma minoria cognitiva contra um meio hostil. O conceito se contrapõe ao das religiões, que são mais abrangentes, inclusivas, universalistas e se adaptam às normas e aos valores da sociedade em geral. No caso em questão, chamamos de seitas não apenas os grupos religiosos, mas também os seculares, que se caracterizam pela capacidade de promover crenças cegas, mesmo não relacionadas ao sagrado, como, por exemplo, no caso dos terraplanistas e dos seguidores do QAnon. Por terem um caráter mais sectário, as seitas demandam um tipo de engenharia social motivacional, que precisa manter as pessoas motivadas para continuarem isoladas em suas crenças, o que pode ser um desafio, já que o mundo exterior é atraente e persuasivo.
O sucesso político desses grupos de extrema direita se deu graças a esse ambiente favorável à promoção do espírito de seitas. Os algoritmos das redes, programados para manter o máximo de pessoas mais tempo on-line, rapidamente se ajustaram para criar as chamadas câmeras de ecos, que agregam perfis com valores semelhantes para falarem entre si e reforçarem suas crenças. Nesse ambiente virtual, os ressentidos com o mundo democrático e com os universalistas passaram a se articular em grupos que construíram discursos que deram sentido e propósitos particulares para suas vidas sem rumo, produzindo sonhos plausíveis, mesmo que restritos aos seus integrantes, em um contexto em que o mercado ganhava centralidade como instituição capaz de garantir a sobrevivência e a reprodução da vida. Aconteceu algo semelhante com as mudanças de crenças no crime e na religiosidade dos brasileiros, que ocorreram à margem da comunicação institucional. No primeiro, dependeu de salves, estatutos e trocas de mensagens a partir das prisões. No segundo, a partir das próprias igrejas e dos canais de rádio e tevê que passaram a comprar para compartilhar suas visões de mundo.
O apelo sedutor da pregação reacionária nas câmeras de eco decorreu da capacidade de associar essa luta política a valores morais ligados à ordem tradicional, legitimada pela religião. Sobraram ataques contra o universalismo e o debate racional em torno de grandes projetos coletivos. Os fatos objetivos perderam a centralidade na definição das decisões políticas e a qualidade da discussão se deteriorou. Por maior que fosse o esforço dos grupos de fact-check em desmentir informações falsas, teorias conspiratórias se multiplicavam e arregimentavam milhares de adeptos e seguidores.
A esfera pública se fragmentou porque as redes sociais passaram a dar mais vazão aos discursos emocionais, que geravam mais engajamento e lucro e que davam sentido e ordem para a vida dos crentes.
A plausabilidade desses discursos, mesmo quando repletos de fantasias, estava ancorada na realidade do mercado. Apesar de mágico, não impedia ninguém de ganhar dinheiro. Pelo contrário – podia até ajudar. Para certos grupos pentecostais, a prosperidade e o empreendedorismo se tornaram valores associados à luta contra o mal. Os mocinhos ostentam seus ganhos e são ricos, não importam se atuam como grileiros, derrubadores de florestas, vendedores de armas, garimpeiros etc. Trump e Bolsonaro poderiam se vender como políticos ungidos e defenderem temas ligados ao fundamentalismo religioso para tentar legitimar suas autoridades e justificar seu poder. Até mesmo traficantes devotos (os “traficrentes”) apelaram para o sagrado, como os integrantes do Terceiro Comando Puro, na tentativa de exercerem o controle sobre as favelas que formaram o Complexo de Israel, no Rio. A fé e o fuzil poderiam se associar quando seus grupos acreditassem que lutavam a guerra do bem contra o mal. O fanatismo dos fundamentalistas islâmicos, eis que de repente, passava a inspirar o Ocidente cristão.
De qualquer maneira, se o presente parece distópico, esses projetos políticos ainda estão em disputa e o futuro é sujeito a milhares de variáveis aleatórias que o tornam imprevisível. A população pode mudar de humores, dando prosseguimento ao movimento histórico-dialético, que nunca para e sempre surpreende. A fragmentação da esfera pública e o favorecimento do espírito de seitas, proporcionado pelas redes sociais, dificultam e diminuem o peso dos fatos objetivos na discussão sobre as mudanças no mundo. Isso não significa que haja uma vitória que seja definitiva. A luta continua. Apesar de ainda impotente, segue firme o debate sobre a regulamentação das redes sociais e sobre como reduzir os danos sociais que os algoritmos e os espaços virtuais estão causando. A presença de Trump no poder da nação mais poderosa do mundo e o desastre potencial de suas ações podem acelerar as reações. Resta saber se haverá tempo suficiente para evitar ou sobreviver a grandes tragédias. A capacidade de enxergar os fatos objetivos e de entender a lógica dos movimentos da sociedade, contudo, continuará necessária para respaldar qualquer reação. Somente a partir desse autoconhecimento, será possível produzir discursos, propor novas ordens e sonhos para liderar o apoio a formas menos autodestrutivas de estar no mundo. Sem autoconhecimento e capacidade de agir politicamente, não há como mudar o sentido do caminho que parece nos levar rapidamente para o abismo. O jornalismo e as ciências humanas, portanto, apesar de fragilizados, são ainda o pouco que nos sobrou para continuar lutando.
Encruzilhada
Congresso crê que corrupção é um direito adquirido
O imbróglio poderia ser negociado entre o Executivo e o Congresso, mas como a responsabilidade no segundo inexiste, mais uma vez o STF foi chamado para resolver a questão. Primeiro, em 2022, a ministra Rosa Weber pôs fim ao orçamento secreto. Um ataque à independência do Legislativo? Apenas uma decisão seguindo o princípio constitucional da transparência. Não funcionou e a decisão foi driblada.
Flávio Dino seguiu o mesmo caminho, mas como foi ministro da Justiça do atual governo e indicado por Lula ao Supremo, é visto como um comandante de uma ofensiva do Executivo pelo controle do Orçamento. Após travar a liberação de emendas, fechou um acordo entre os poderes, com a super exigência de rastrear e identificar os autores das emendas. Parece pouco e óbvio, mas Lira saiu de reunião, em dezembro passado, dando claros sinais de descontentamento
Veja só: o Congresso acredita que Dino fez chantagem ao suspender as emendas até fechar o acordo. Entretanto, quando o Congresso exige a liberação de verbas para aprovar projetos caros ao Executivo, isso chama-se negociação.
Pois bem. Na última quinta-feira o Congresso Nacional aprovou o projeto que deveria atender aos pontos desse acordo. O apoio foi amplo. Na Câmara dos Deputados, 361 votos a favor, e 33, contra a medida. No Senado, 64 senadores foram favoráveis, e três contrários. O texto foi pautado pelo presidente do Legislativo, Davi Alcolumbre (União-AP), e deixa a possibilidade de indicações de líderes e alterações de pedidos de repasse sem critérios claros.
Alcolumbre por sinal, como revelou a Folha na última semana, destinou cerca de R$ 15 milhões em emendas parlamentares ao programa Mais Visão, projeto gerido pelo governo do Amapá. Detalhe ínfimo: o projeto foi idealizado pelo próprio Alcolumbre em 2019 e é realizado por uma ONG que tem ligação com um de seus principais assessores. Detalhe ínfimo.
O texto aprovado permite aos parlamentares indicar individualmente suas emendas às comissões. Porém, os líderes também continuam indicando as emendas, sem a necessidade de mencionar o nome do parlamentar que solicitou a emenda. Brecha número um.
O documento prevê um campo para sinalizar quem pediu a emenda, mas não há regra se, neste espaço, deverá estar inscrito o nome do parlamentar ou do líder partidário que encaminhou os pedidos às comissões. Brecha número dois.
O texto determina que as emendas de bancada devem informar o local onde serão destinadas. As bancadas estaduais de deputados e senadores votam e aprovam quais indicações serão feitas pelo grupo ao Orçamento. Entretanto, é possível ocultar a autoria do parlamentar nessa categoria também. A terceira brecha.
Sobre o projeto Flávio Dino afirmou que “para que nós possamos, como houve no orçamento secreto, (alcançar) um acúmulo de progressos, mesmo que no caso do orçamento secreto estejamos longe do ideal. Ainda muito longe do ideal, mas passos concretos foram dados”. E acrescentou que o conflito está longe do fim: “quando vai acabar? Vai acabar quando o processo orçamentário estiver adequado plenamente à constituição”, afirmou o ministro.
Enquanto parlamentares vão driblando o Supremo, os órgãos de fiscalização prometem revelar sucessivos escândalos. O MPF recomendou ações judiciais em 361 municípios por falta de prestação de contas sobre emendas Pix. Os municípios receberam R$ 279 milhões no ano passado sem esclarecer o uso das verbas. A PF tem mais de 40 inquéritos abertos espalhados em Brasília e nos estados para apurar a destinação da verba pública a municípios, segundo fontes à CNN.
E na última terça-feira, a primeira turma do STF tornou réus os deputados Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e o suplente Bosco Costa (PL-SE), por organização criminosa e corrupção passiva, a partir do envio de emendas parlamentares. De acordo com a PGR, entre janeiro e agosto de 2020, os acusados desviaram R$ 1,6 milhão para liberação de R$ 6,6 milhões em emendas para o município de São José de Ribamar (MA).
Líderes dos partidos ameaçam instaurar investigações para fustigar os ministros do STF e dar voz aos pedidos do bolsonarismo em guerra constante com o Supremo, e ainda constranger o governo em votações, pressionando Lula. É impossível vislumbrar os desdobramentos dessas operações, mas podemos apostar que os caciques devem se safar, e os peixes pequenos devem ser visitados pela PF.
Serviço Nacional de Apoio ao Idoso – dignidade até ao fim da vida
Uma das maiores preocupações de milhares de famílias é como garantir que os nossos pais ou avós envelheçam com dignidade. Essa dignidade não pode depender do estado de saúde, da conta bancária ou da região onde vivem. Estamos a tratar de direitos humanos, não de sorte.
Portugal é um país envelhecido. Segundo dados da Pordata (2023), mais de 2,5 milhões de portugueses têm mais de 65 anos, representando cerca de 24% da população. A esperança média de vida aumentou (80,7 anos, segundo o INE), fruto dos avanços da medicina e das condições de vida. Por outro, a qualidade desses anos adicionais é frequentemente comprometida por pobreza, isolamento e falta de acesso a cuidados adequados.
Para isso contribui o facto de a pensão média ser de 563€ (2023), 30% viverem sozinhos (INE, 2022), muitos em zonas desertificadas, sem redes de apoio ou transporte público. Portugal está ainda entre os países europeus com maior percentagem de idosos vítimas de abuso físico, psicológico ou financeiro (OMS, 2018).
Este cenário demográfico, agravado por uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa, exige respostas urgentes e estruturais. Criar uma rede pública robusta de apoio à velhice não é apenas uma necessidade — é um imperativo de justiça social e um compromisso com a dignidade humana.
Milhares de famílias procuram vagas em lares mas esbarram em listas de espera intermináveis ou em custos proibitivos. Outras acolhem em casa, num gesto nobre de amor, mas que frequentemente se transforma em sobrecarga física, emocional e financeira – 80% dos cuidadores são mulheres, muitas obrigadas a abandonar empregos e a ficarem com problemas de saúde mental (CITE, 2022).
Urge, portanto, criar uma rede pública integrada de apoio ao idoso, gerida em parceria pela Segurança Social, autarquias e unidades de Saúde Local. Um Serviço Nacional de Apoio ao Idoso (SNAI), articulado com o SNS, assegurará uma rede de apoio domiciliário e lares de idosos a preços justos, aliviando as famílias e dignificando os seus familiares.
E como se paga esta estrutura tão importante? Aqui entra a necessidade de reformar o financiamento da Segurança Social quando muitos setores altamente lucrativos, mas com poucos trabalhadores, deixam de contribuir para o sistema de Segurança Social tanto quanto poderiam e deveriam.
Estaremos a inventar a roda? Claro que não. A Suécia oferece serviços domiciliários gratuitos ou subsidiados (limpeza, refeições, cuidados de saúde) a todos os idosos, reduzindo a dependência de lares.
Os benefícios transcendem a esfera individual. Estudos mostram que investir na prevenção e no bem-estar dos idosos reduz custos hospitalares a médio prazo — menos internamentos por quedas ou doenças não monitorizadas. Além disso, fomentará empregos estáveis em áreas como geriatria, enfermagem e assistência social, setores hoje marcados pela precariedade.
Não se trata apenas de economia. É uma questão de ética. Portugal, um país que se orgulha do seu estado social, não pode compactuar com a dualidade atual: entre quem paga lares luxuosos e quem agoniza sem acesso a um cuidador. Envelhecer não é um privilégio de alguns, mas um destino comum.
A criação do Serviço Nacional de Apoio ao Idoso não é um gasto, mas um investimento civilizacional. Exige coragem para priorizar os mais vulneráveis e visão para construir um país que cuida de quem o edificou.
Envelhecer com dignidade não é um privilégio, mas um direito humano. Num país que envelhece tão rapidamente como Portugal, negligenciar esta realidade é uma irresponsabilidade política e social.
Tiago Veloso















