terça-feira, 18 de março de 2025

A extrema direita e a crise na imprensa no Brasil e no mundo

Lula encerrou o seu segundo mandato, em 2010, com 83% de aprovação. Dois anos depois, sua sucessora, Dilma Rousseff, tinha 62% de “ótimo e bom”. Poucos presidentes foram tão populares. Desde 1994, por mais de 20 anos, os brasileiros vinham elegendo políticos progressistas, compromissados com a democracia. Esse apoio, contudo, estava com os dias contados. Os protestos de rua de junho de 2013 explodiram e marcaram o começo da reversão do humor nacional, que descambaria ribanceira abaixo. Mais do que causa, no entanto, as manifestações eram também consequência das mudanças estruturais que estavam em curso no País, em um movimento histórico-dialético, com o perdão do palavrão, que ajuda a explicar esse percurso e seus percalços.

O descontentamento que levou aos protestos de 2013 não decorria apenas de fatores materiais, como renda e emprego, cujos índices vinham melhorando progressivamente. O mal-estar estava relacionado a uma crise social mais profunda, relacionada ao desgaste da política, a um ceticismo em relação à capacidade do Estado democrático em melhorar a vida das pessoas, algo que não estava claro no período, mas que se revelou no decorrer dos anos, não apenas no Brasil, como em outros países do mundo.

Mas é curioso olhar para trás, depois de tudo o que já sabemos. Havia a expectativa de que as redes levariam a um aprofundamento da democracia, como se a política caminhasse apenas para frente. As demandas da população poderiam ser ouvidas e conhecidas sem os filtros dos meios de comunicação tradicionais, o que ampliaria a representatividade e a civilidade. A internet parecia uma ferramenta para “criar um mundo melhor” e os nerds das grandes corporações eram candidatos a heróis da liberdade.

Os indícios desse progresso aparente vieram inicialmente das revoltas populares em países autoritários. Tinham começado na Tunísia, espalhando-se por outros países do Oriente Médio e da África, na chamada Primavera Árabe. Ainda em 2011, manifestantes do Ocuppy Wall Street acamparam por quase dois meses nas calçadas do maior centro financeiro do mundo, em Nova York, para protestar contra a desigualdade. A mesma febre popular parecia atingir as ruas do Brasil dois anos depois, em manifestações que começaram para protestar contra os aumentos das tarifas de transporte público. Depois, virou uma indignação dispersa, com pautas para todos os gostos.

Eu vivi esse momento de otimismo com a internet, ao mesmo tempo que enxergava os limites do meu trabalho como jornalista. Eu estava no Estadão e cobria os protestos. Perto das redes sociais, os jornais pareciam obsoletos. O streaming permitia aos manifestantes transmitirem ao vivo das barricadas. O feed do Facebook era mais vivo e oferecia um cardápio de informações mais variado e próximo dos fatos do que os jornais e a tevê. O Mídia Ninja, por exemplo, surgiu e se popularizou nesse período. O coletivo se propunha a fazer uma curadoria de vídeos a partir de uma ampla rede horizontal de produtores de conteúdo, espalhados pelo Brasil, donos de smartfones e dispostos a mostrar suas realidades. Esse grupo e outros se diziam mídia-ativistas, propondo-se a abandonar a pretensa objetividade do jornalismo tradicional para assumir uma agenda positiva, emplacar pautas progressistas e disputar ativamente a opinião pública.

O ambiente era favorável às esquerdas, que vinham intensificando sua experiência nas ruas, debatidas e articuladas nos fóruns sociais antiglobalização, que conseguiram paralisar grandes conferências da economia mundial, como em Davos. Essa geração estava atenta ao papel das redes sociais na luta política. Movimentos autonomistas apontavam para a mudança do paradigma dos protestos, que deviam ser horizontais, sem os carros de som e as hierarquias de antigamente, usando táticas como a black bloc (por meio da violência simbólica), a pink bloc (manifestações lúdicas), white bloc (táticas pacifistas), entre outras. Diante desse know-how nas ruas e nas redes, o que ninguém esperava é que seria justamente a extrema direita que conseguiria direcionar essa revolta de forma mais contundente para se tornar a principal beneficiada da insatisfação popular do período. Ela entraria no jogo do mídia-ativismo, dominaria as redes sociais para ganhar a disputa ao pautar o debate e fazer a cabeça da opinião pública.

No Brasil, a partir de 2015, diversos veículos e influenciadores com viés conservador e reacionário, parte deles formada por Olavo de Carvalho, que já vinha dialogando com a far-right dos Estados Unidos, ajudaram a levar milhares de pessoas às ruas para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que ocorreu em 2016. Havia a Lava-Jato, denunciando diariamente casos de corrupção, o que ajudava as redes sociais a direcionarem o mal-estar disperso de 2013 contra políticos e partidos que lideraram a Nova República. Questões morais e religiosas entravam em cena, inflamando as discussões. Começava a ganhar força um projeto político alternativo, antissistema e reacionário, sob a liderança de Jair Bolsonaro. Era inacreditável, parecia um retrocesso inesperado. Depois de mais de 30 anos de democracia, os eleitores escolhiam um defensor da tortura, da violência policial e da Ditadura Militar para a presidência do Brasil em 2018.

Fenômenos semelhantes ocorreram em outras partes do mundo. O vácuo de poder nos países da Primavera Árabe resultou em movimentos contrarrevolucionários ainda mais duros, formados por juntas militares e grupos fundamentalistas. Os Estados Unidos elegeram Donald Trump e um movimento de extrema direita internacional passou a atingir e ameaçar diversas democracias que pareciam consolidadas.

Como e por que as crenças mudaram dessa maneira? Como a extrema direita conseguiu crescer e se fortalecer? Por que os valores democráticos passaram a perder prestígio na mesma proporção que políticos autoritários ganharam popularidade? Qual o papel das redes sociais nesse processo? Como a fragilização e a crise financeira do jornalismo tradicional contribuíram para esse estado de coisas? Entender grandes mudanças de crenças e de comportamentos é um tema que me persegue nos últimos vinte anos, período em que venho pesquisando esse assunto, mesmo que em outras frentes.

Acompanhei mais de perto duas grandes mudanças de crenças que redefiniram comportamentos em São Paulo e no Brasil e que ajudam a refletir sobre as atuais mudanças nas crenças políticas do brasileiro. A primeiro delas diz respeito à redução dos homicídios em São Paulo e à multiplicação das organizações criminais de base prisional por todos os estados do País. É um fenômeno social relevante, que envolveu o surgimento de mais de 80 facções de diferentes tamanhos, que transformaram o mercado de drogas nacional e o conectaram com o resto do mundo. O segundo fenômeno foi o processo de conversão religiosa dos brasileiros. Desde os anos 1990, o País deixou de ter ampla maioria católica para dar lugar ao protestantismo, principalmente de correntes pentecostais que, em poucos anos, caso o ritmo se mantenha, tende a ser a religião da maioria dos brasileiros.

Essas transformações envolveram o despertar de novas crenças, que modificaram comportamentos, redefiniram regras cotidianas e passaram a orientar outros sentidos de vida e identidades para amplas fatias da população. Atuaram para reestabelecer a ordem em mundos que pareciam caóticos e imprevisíveis. Esses processos ocorreram em meio à abrupta urbanização das cidades brasileiras, que a partir dos anos 1950 passaram a receber em grande escala grandes volumes de pessoas vindas das áreas rurais. A urbanização rápida foi marcada, inicialmente, pelo improviso, pela falta de planejamento e pela sensação permanente de desordem nas cidades. De repente, dois universos diferentes compartilhavam o mesmo ambiente, cada qual com sua herança cultural. Uma delas oriunda da zona rural brasileira, que passou a ser associada ao atraso e a ser considerada um risco para a vida nas cidades; e a outra já mais adaptada aos centros urbanos e à modernidade, que se sentia ameaçada.

Nesse ambiente tensionado, os migrantes vão erguer suas casas nos morros, periferias e favelas, para tentar fazer parte da modernidade industrial e do mercado de consumo como mão de obra barata. Os bairros que emergiam clandestinamente eram vistos com desconfiança pela população e pelas autoridades. Em meio a essa situação potencialmente explosiva, havia a necessidade de se criar outros tipos de ordem, que organizassem e dessem sentido para as vidas nas cidades em formação. As soluções foram criadas em diversas frentes. Na esfera política, nos anos 1970 e 1980, o discurso mais popular era liderado pela Igreja Católica progressista e pelos partidos de esquerda e centro-esquerda. A ditadura militar agonizava e a chegada da democracia possibilitava a perspectiva de participação popular. Para melhorar a vida nas cidades, conforme as lideranças progressistas, os pobres deveriam agir de forma coletiva para escolher políticos que representassem seus interesses concretos e cobrá-los no poder. No mercado de trabalho, eles deveriam se organizar nos sindicatos para pressionar os patrões. O futuro dependia da participação popular e de um Estado racional, voltado para a redução das desigualdades, o que implicava na cobrança por investimento nos bairros pobres emergentes, em asfalto, escolas, postos de saúde, cultura e infraestrutura em geral. Essa ideologia vai servir de base para o progressismo da Nova República.

Outros sentidos, contudo, eram forjados para lidar com a realidade urbana, marcada pelo medo da desordem e pela necessidade de ganhar dinheiro para sobreviver. Os moradores dos bairros centrais e as autoridades, temendo o que viam como ameaças, preferiam uma segregação velada, que se refletia na arquitetura urbana. É a época em que São Paulo e outras cidades começam se isolar atrás dos muros altos dos condomínios e nos ambientes privados de shoppings centers e automóveis. Já o Estado era cobrado para exercer uma ação violenta com objetivo de “proteger” a sociedade numa “guerra contra o crime”, via grupos de extermínio, esquadrões da morte, pela violência policial, entre outras práticas herdadas da ditadura militar e reinventadas na democracia, que atingiam principalmente os moradores dos bairros pobres. Essa guerra, contudo, estimulava a reação e a resistência forjadas entre grupos masculinos e periféricos, que apostavam no caminho do crime não apenas por questões materiais, mas como forma de não abaixar a cabeça e não se sujeitar passivamente ao destino que lhes era reservado e imposto pelas autoridades violentas.

Dessa maneira, no decorrer dos anos, movimentos aparentemente contraditórios passaram a transformar São Paulo. Melhorias estruturais via políticas públicas diminuíram o abismo econômico e social que separavam ricos e pobres – apesar de ainda profundos. Chegaram equipamentos públicos, transporte, luz, água, asfalto. Ao mesmo tempo, a violência, tanto da polícia como entre a população periférica, marcada pelas elevadas taxas de homicídios, seguia promovendo uma sensação permanente de caos. As facções e os religiosos pentecostais surgiram nesse cenário em construção, ainda confuso, como uma resposta dos pobres para os pobres, na busca de reorganizar a vida nos guetos, nas prisões, e produzir novas identidades que pudessem ser inseridas e aceitas na sociedade, numa tentativa de acomodação e aproximação das diferenças.

Entre os religiosos, a principal transformação trazida por uma fé reavivada foi a elevação da autoestima e do amor-próprio como antídoto ao estigma que pousava sobre os ombros dos moradores periféricos. O processo de conversão religiosa é chamado de metanoia, que significa transformação da consciência a partir de uma nova crença que permite o renascimento em uma identidade respeitável, aliada do Todo Poderoso e empoderada, que permite saltar obstáculos que pareciam intransponíveis. O PCC também conseguiu mudar a consciência dos criminosos com um novo discurso, que os levava a renunciar aos seus desejos mais egoístas para se sujeitarem às regras do crime e assim sobreviverem no lucrativo e promissor mercado ilegal. O processo massivo de transformação de consciências, portanto, dependia da construção de novos sentidos e discursos, que ofereciam caminhos mais seguros e previsíveis – mesmo quando na ilegalidade – para aumentar as chances de sobrevivência dentro da ordem geral vigente.

Tanto as ordens criadas pelo crime como pela religião apostaram no potencial do mercado para serem aceitas e tomadas como caminhos possíveis para um número crescente de pessoas. O mercado, desde priscas eras, quando começou a funcionar, tem essa qualidade insuperável de transformar potenciais inimigos em parceiros comerciais. Livros como Os anjos bons de nossa natureza, do psicólogo Steven Pinker, discutem como o surgimento do mercado foi essencial para a redução da violência na história do mundo ao inventar um mecanismo de ganha-ganha, baseado em trocas, que diminuiu a necessidade de guerras e de dominação. O mercado, assim como a linguagem, é um produto social que emergiu de baixo para cima, a partir da interação social, ampliando a possibilidade de sobrevivência ao criar interesses comuns entre diferentes.

O PCC, em vez de atuar como um cartel, inovou ao funcionar como uma agência reguladora do mercado do crime, que favorecia o negócio de todos que participavam. A ideia de “consciência criminal”, o tal do “proceder”, contribuiu para o estabelecimento de regras que mediaram a concorrência e reduziram os conflitos entre os participantes desta atividade. De acordo com essa pregação, quem atuasse na ilegalidade não deveria enxergar seus concorrentes como inimigos, mas como parceiros em potencial, já que o inimigo, afinal de contas, era o “sistema”, que não permitia que eles ganhassem dinheiro ilegalmente. O mundo ilegal era uma realidade inevitável, que não parava de crescer. Portanto, eles deveriam melhorá-la e torná-la previsível. O resultado, a partir da construção dessa nova ordem, foi benéfico para os seus participantes; em pouco mais de duas décadas, esse novo arranjo ajudou a reorganizar o mercado criminal e a costurar uma ampla rede de vendedores de drogas, que passaram a se associar com criminosos de outros ramos, multiplicando o faturamento e ampliando seus negócios para o mundo todo. Com mais dinheiro, eles passaram a ter capital para “comprar o sistema” e reduzir os riscos da vida na ilegalidade – apesar de ainda elevados.

Já os evangélicos, com sua autoestima renovada e um propósito claro para suas vidas, partiram da teologia da prosperidade para direcionar seus esforços para o sucesso material, que era sinônimo de benção divina. Os convertidos conseguiram, assim, formar redes de apoio que ampliaram suas condições para ganhar dinheiro e consumir como forma de serem respeitados numa sociedade pautada pelos valores do mercado. Em ambos os grupos, a nova ordem, que cada um representava, dependia do empreendedorismo e do mercado para existir e dar bons resultados.

A extrema direita no Brasil e no mundo ganhou espaço e passou a oferecer sentido para vidas confusas também apostando no mercado como a engrenagem central de garantia da sobrevivência. O sonho de ser livre viria com a riqueza, capaz de financiar a compra de todos os desejos possíveis e de proporcionar uma identidade de respeito. Como o sucesso no mercado dependia da disposição pessoal, o desafio de cada um seria acreditar na própria capacidade de vencer e não desistir. A fé e a capacidade de acreditar, portanto, ganharam relevância para alcançar algum êxito. O importante era construir um mindset autoconfiante, capaz de prosperar e superar as adversidades. Perdiam apelo as utopias anteriores, que pregavam a luta coletiva, voltadas para pressionar o Estado e ampliar os direitos sociais, reduzindo a dependência do mercado. A ideia de que a mudança viria de cima para baixo foi subvertida pela realidade material e social, caracterizada por uma economia que se desindustrializava, em meio a governos impotentes diante de seus limites fiscais, acusados de corrupção e de apadrinhamento. O apelo do mercado e da salvação individual, portanto, acabou se tornando mais plausível e obtendo popularidade crescente no mercado das crenças.

Os governos, de acordo com essa visão, deveriam reduzir sua interferência na economia, desregulamentar ao máximo as burocracias, reduzir as taxações que afetassem os empreendedores e, se possível, oferecer subsídios e vantagens que favorecessem seus negócios. A disputa política passaria a ser vinculada à melhoria dos lucros dos grupos vinculados aos que assumiam o poder – investidores financeiros, empreendedores imobiliários, grileiros, pastores, ruralistas, vendedores de armas e de segurança privada, entre outros. As associações e parcerias entre indivíduos e grupos passariam a funcionar como networks voltados para a geração de lucros. Até mesmo as mais de 80 facções brasileiras conseguiram ampliar sua influência no novo sistema apostando na chave do empreendedorismo. As igrejas também acabaram exercendo papel relevante na costura de redes, aproximando parceiros com interesses comerciais ou financeiros comuns. A mudança estava emergindo de baixo para cima, a partir dos indivíduos e de seus arranjos comerciais e financeiros no mercado.

A porta estaria sempre aberta até mesmo para os pobres, que poderiam ascender em um ambiente favorável ao empreendedorismo e ao lucro. A multiplicação dos jogos e das bets faz parte desse espírito porque, além de lavar o dinheiro ilegal, oferecem um atalho para o enriquecimento, mantendo acesa a esperança em mudar de vida a partir de um golpe de sorte. Esse modelo que hipervaloriza a prosperidade, contudo, produz suas próprias contradições e fragilidades, ao incentivar uma competição autodestrutiva no mercado, marcada pela informalidade, pela ilegalidade e pela infinidade de golpes financeiros de diferentes proporções e tipos.

Ter em mente esse amplo contexto de mudanças ajuda a entender como a imprensa acabou perdendo sua relevância como fiadora da democracia. Não se deve apenas à crise de financiamento ou à multiplicidade da oferta de informações. Ambos são fatores importantes. Mas o que mais surpreendeu foi como as redes sociais e o mundo virtual, em vez de aprofundarem a democracia, como se imaginava em 2013, acabaram se revelando um ambiente propício para a proliferação das seitas e de suas crenças desconectadas dos fatos objetivos, mas fortemente vinculadas às emoções e aos desejos daqueles que dialogavam entre si. As seitas, em sua concepção clássica na sociologia, servem como modelo para organizar uma minoria cognitiva contra um meio hostil. O conceito se contrapõe ao das religiões, que são mais abrangentes, inclusivas, universalistas e se adaptam às normas e aos valores da sociedade em geral. No caso em questão, chamamos de seitas não apenas os grupos religiosos, mas também os seculares, que se caracterizam pela capacidade de promover crenças cegas, mesmo não relacionadas ao sagrado, como, por exemplo, no caso dos terraplanistas e dos seguidores do QAnon. Por terem um caráter mais sectário, as seitas demandam um tipo de engenharia social motivacional, que precisa manter as pessoas motivadas para continuarem isoladas em suas crenças, o que pode ser um desafio, já que o mundo exterior é atraente e persuasivo.

O sucesso político desses grupos de extrema direita se deu graças a esse ambiente favorável à promoção do espírito de seitas. Os algoritmos das redes, programados para manter o máximo de pessoas mais tempo on-line, rapidamente se ajustaram para criar as chamadas câmeras de ecos, que agregam perfis com valores semelhantes para falarem entre si e reforçarem suas crenças. Nesse ambiente virtual, os ressentidos com o mundo democrático e com os universalistas passaram a se articular em grupos que construíram discursos que deram sentido e propósitos particulares para suas vidas sem rumo, produzindo sonhos plausíveis, mesmo que restritos aos seus integrantes, em um contexto em que o mercado ganhava centralidade como instituição capaz de garantir a sobrevivência e a reprodução da vida. Aconteceu algo semelhante com as mudanças de crenças no crime e na religiosidade dos brasileiros, que ocorreram à margem da comunicação institucional. No primeiro, dependeu de salves, estatutos e trocas de mensagens a partir das prisões. No segundo, a partir das próprias igrejas e dos canais de rádio e tevê que passaram a comprar para compartilhar suas visões de mundo.

O apelo sedutor da pregação reacionária nas câmeras de eco decorreu da capacidade de associar essa luta política a valores morais ligados à ordem tradicional, legitimada pela religião. Sobraram ataques contra o universalismo e o debate racional em torno de grandes projetos coletivos. Os fatos objetivos perderam a centralidade na definição das decisões políticas e a qualidade da discussão se deteriorou. Por maior que fosse o esforço dos grupos de fact-check em desmentir informações falsas, teorias conspiratórias se multiplicavam e arregimentavam milhares de adeptos e seguidores.

A esfera pública se fragmentou porque as redes sociais passaram a dar mais vazão aos discursos emocionais, que geravam mais engajamento e lucro e que davam sentido e ordem para a vida dos crentes.

A plausabilidade desses discursos, mesmo quando repletos de fantasias, estava ancorada na realidade do mercado. Apesar de mágico, não impedia ninguém de ganhar dinheiro. Pelo contrário – podia até ajudar. Para certos grupos pentecostais, a prosperidade e o empreendedorismo se tornaram valores associados à luta contra o mal. Os mocinhos ostentam seus ganhos e são ricos, não importam se atuam como grileiros, derrubadores de florestas, vendedores de armas, garimpeiros etc. Trump e Bolsonaro poderiam se vender como políticos ungidos e defenderem temas ligados ao fundamentalismo religioso para tentar legitimar suas autoridades e justificar seu poder. Até mesmo traficantes devotos (os “traficrentes”) apelaram para o sagrado, como os integrantes do Terceiro Comando Puro, na tentativa de exercerem o controle sobre as favelas que formaram o Complexo de Israel, no Rio. A fé e o fuzil poderiam se associar quando seus grupos acreditassem que lutavam a guerra do bem contra o mal. O fanatismo dos fundamentalistas islâmicos, eis que de repente, passava a inspirar o Ocidente cristão.

De qualquer maneira, se o presente parece distópico, esses projetos políticos ainda estão em disputa e o futuro é sujeito a milhares de variáveis aleatórias que o tornam imprevisível. A população pode mudar de humores, dando prosseguimento ao movimento histórico-dialético, que nunca para e sempre surpreende. A fragmentação da esfera pública e o favorecimento do espírito de seitas, proporcionado pelas redes sociais, dificultam e diminuem o peso dos fatos objetivos na discussão sobre as mudanças no mundo. Isso não significa que haja uma vitória que seja definitiva. A luta continua. Apesar de ainda impotente, segue firme o debate sobre a regulamentação das redes sociais e sobre como reduzir os danos sociais que os algoritmos e os espaços virtuais estão causando. A presença de Trump no poder da nação mais poderosa do mundo e o desastre potencial de suas ações podem acelerar as reações. Resta saber se haverá tempo suficiente para evitar ou sobreviver a grandes tragédias. A capacidade de enxergar os fatos objetivos e de entender a lógica dos movimentos da sociedade, contudo, continuará necessária para respaldar qualquer reação. Somente a partir desse autoconhecimento, será possível produzir discursos, propor novas ordens e sonhos para liderar o apoio a formas menos autodestrutivas de estar no mundo. Sem autoconhecimento e capacidade de agir politicamente, não há como mudar o sentido do caminho que parece nos levar rapidamente para o abismo. O jornalismo e as ciências humanas, portanto, apesar de fragilizados, são ainda o pouco que nos sobrou para continuar lutando.

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