terça-feira, 18 de março de 2025

A liderança não é um jogo

Os grandes líderes revelam-se ou afirmam-se nos momentos críticos, quando, através de uma ação decidida ou de um rasgo de oratória, conseguem marcar a diferença e deixar a sua marca na marcha dos acontecimentos. São aqueles que têm a capacidade de antecipar as oportunidades e, especialmente, de saber aproveitá-las a seu favor. E são ainda melhores se, nesse processo, demonstrarem que o fazem, não por interesse meramente pessoal, mas de acordo com o que avaliaram ser o desejo e as preocupações daqueles que lideram.

Vivemos tempos que, pela complexidade dos desafios, convidam ao aparecimento de grandes líderes – desde que saibam responder à chamada e assumir as suas responsabilidades. Por isso, estes também são tempos esclarecedores sobre as verdadeiras capacidades de quem governa – tempos que podem ser uma rampa de lançamento para mais altos voos ou o prenúncio de um desastre inevitável, a curto ou médio prazo.

Com o mundo numa encruzilhada, todos os governos estão hoje sob uma enorme pressão. Especialmente os dos países europeus, ameaçados por várias ondas de tensão: crescimento do populismo, aumento da desconfiança das populações em relação às próprias virtudes da democracia, alterações profundas na sua demografia, fortes pressões sobre a solidez do Estado social e, em simultâneo, obrigados a mudar o paradigma em relação ao seu papel no mundo, a política de defesa e até as suas alianças militares e comerciais.


Esta realidade é transversal a quase todos os governos europeus, onde são muito poucos os líderes a gozarem de maiorias estáveis e sólidas nos seus parlamentos. E, como as eleições recentes demonstraram, os eleitores têm penalizado quase sempre quem ocupa o poder, o que faz aumentar o sentimento de fragilidade de quem governa, com as consequências nefastas que se conhecem: muitas decisões de curto prazo e poucas de âmbito estratégico e duradouro.

Com tudo o que está a ocorrer no mundo, este é o tempo que exige mudança de atitude na governação. E, acima de tudo, uma inabalável convicção nas decisões estratégicas que precisam de ser tomadas. Com a Europa no centro desta encruzilhada, os governantes têm uma responsabilidade acrescida que vai muito para lá do peso e da dimensão de cada país. No momento em que se avaliam novas estruturas de defesa e, quem sabe, uma alteração de prioridades nos mecanismos de coesão europeia, todos os governantes têm o dever de apresentar as suas ideias, de se sentar à mesa das grandes decisões e de participar ativamente na busca de soluções – que terão, todas elas, um enorme impacto na população.

Perante o desafio quase existencial que a Europa enfrenta, este não é o tempo de os governos se esconderem ou se deixarem ficar à sombra dos líderes dos grandes países, à espera do que é definido em Berlim ou Paris. A postura pequenina de “bom aluno”, que chegou a fazer escola em alguns anos da ainda Comunidade Económica Europeia, já não é admissível para um país de dimensão média, como o nosso. Portugal, como já fez várias vezes no passado, pode e deve ter uma voz ativa nos grandes debates europeus. E, como também já aconteceu, ser capaz de influenciar tomadas de decisão e ter vozes com um peso decisivo para a alteração de políticas europeias.

Causa, por isso, muita estranheza a ausência sucessiva do primeiro-ministro nas cimeiras e nos encontros que têm ocorrido na atual situação de emergência para o futuro da Europa, provocada pela mudança da política de Washington em relação à guerra na Ucrânia – bem como ao anúncio de uma nova guerra comercial com os seus “antigos aliados” europeus. Todos temos visto aquilo que tem acontecido: Luís Montenegro poderia, como outros fizeram, ter “forçado” a sua presença nos encontros que pretendiam ser restritos. E noutro, que seria mais alargado, acabou por falhar a participação devido a alegados “problemas técnicos”. Nos palcos decisivos da encruzilhada da História, propícios para a afirmação de líderes, Montenegro tem estado “desaparecido em parte incerta”, porventura a tentar apagar o fogo do escândalo que o envolve. O pior, no entanto, é que não tem sido capaz de apresentar explicações convincentes sobre as acusações que lhe apontam e, em simultâneo, tem estado também profundamente calado em relação aos grandes desafios que se colocam a Portugal e à Europa, no atual contexto internacional. E se, no primeiro caso, a perda pode ser só dele, já no segundo, o que está em causa é o prestígio e a afirmação do País.

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