sábado, 8 de março de 2025
'Direita criou discurso capaz de achar um culpado para tudo'
No recém-lançado livro "Desiguais e Divididos: Uma interpretação do Brasil polarizado", o sociólogo Sérgio Costa, professor da Universidade Livre de Berlim, explica as fraturas sociais do país neste século 21 a partir da compreensão do aumento da classe média — sobretudo depois dos dois primeiros mandatos presidenciais do petista Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010 — e da necessidade de entender esse grupo como internamente desigual.
Costa apresenta então um conceito que permeia o livro: a situação interseccional, uma perspectiva multidimensional da desigualdade social, que não classifica os cidadãos apenas pela sua classe, mas os considera no contexto de outros marcadores, como raça e gênero. "Não é possível compreender o papel da classe média hoje no Brasil se centrarmos só na análise de classe. É preciso combinar com análise de raça, de gênero, regional", diz o sociólogo, em entrevista à DW.
Para o especialista, a direita soube dominar melhor as ferramentas de comunicação contemporâneas, sobretudo as linguagens das redes sociais, para adentrar nos círculos outrora imunes aos discursos políticos, como as esferas familiares e das reuniões de condomínio. Ao mesmo tempo, a realidade tem sido habilmente interpretada por grupos de modo e atribuir uma causa única a todos os problemas.
"Os problemas de segurança, que eram e são reais, os problemas de atendimento hospitalar, a qualidade em declínio da educação, tudo isso foi atribuído a governos de esquerda. E muito efetivamente esse tipo de discurso encontrou muitos adeptos na sociedade", explica Costa.
O que é classe média, afinal?
O conceito de classe média, para a sociologia, é muito difícil de operar. A classe média pode ser a autoidentificação, uma posição na estrutura social ou simplesmente uma ideologia de progresso, a chamada classe média emergente, um fator de propulsão do consumo, do capitalismo. É um termo polissêmico, difícil de definir.
Eu diria que a classe média pode ser definida combinando essas diferentes classificações. Seguramente, uma posição na estrutura social: quem está entre os grupos intermediários de renda. Mas também com as pessoas se veem, e classe média, do ponto de vista da autoidentificação, é uma categoria muito prestigiada: com exceção dos muitos ricos e dos muitos pobres, a população em geral se autodefine como classe média. Isso torna a classe média um grupo muito heterogêneo, que pode ser tanto propulsor de mudanças democráticas como a que hoje alimenta a direita e a extrema direita em muitas partes do mundo.
Hoje classe média é algo "de direita"?
Não necessariamente um sujeito político de direita. É um sujeito político muito volátil tanto por sua heterogeneidade como por sua posição na estrutura social. Ou seja: é quem pode perder ou ganhar com mudanças econômicas e políticas muito rapidamente, portanto ela pode reagir mais à direita e mais à esquerda dependendo do rumo das transformações sofridas.
No Brasil do começo dos anos 2000, a classe média teve um papel fundamental em criar o consenso [da necessidade] de um país com menos pobreza, um pouco mais justo, que promovesse alguma forma de distribuição de renda, de combate ao racismo, de igualdade de gênero. Houve mudanças significativas na sociedade e há setores de classe média que se rebelaram contra esses progressos.
E por que houve essa rebelião?
A questão que se coloca é: esses setores se rebelaram porque são classe média ou porque são classe média branca, classe média masculina. É importante introduzir aqui a dimensão interseccional da desigualdade, algo fundamental para entender a desigualdade da classe média. Não é possível compreender o papel da classe média hoje no Brasil se centrarmos só na análise de classe. É preciso combinar com análise de raça, de gênero, regional… Só assim conseguimos explicar como setores da chamada classe média emergente efetivamente tiveram melhora de vida nos primeiros anos deste século e como, depois, essa mesma classe média se rebela contra governos que proporcionaram essa melhoria de vida.
É a classe média emergente ou são os homens brancos dessa classe média emergente, os heterossexuais dessa classe média emergente, etc. etc. etc.? Introduzir a dimensão interseccional é fundamental.
No livro você comenta que a polarização na sociedade brasileira tomou conta de festas de família e reuniões de condomínio, ambientes outrora neutros ao debate político. De onde veio essa energia? Por que ela soa mais dominada pela direita do que pela esquerda?
É uma questão intrigante: por que a direita logrou penetrar no que a gente chama de espaços comunicativos primários, as redes de família e de vizinhança, contaminando e efetivamente politizando essas esferas? Eu diria que isso não é completamente novo. Mas o que estamos vendo hoje é a direita e a extrema direita com menos esforço, dada sua enorme capilaridade e penetração nas redes virtuais, conseguindo de alguma maneira penetrar os espaços com seus conteúdos e suas interpretações do que está acontecendo.
A esquerda não tem conseguido disputar a hegemonia cultural e política nos mesmos termos, pois perdeu muito sua capacidade de comunicação com a base. Por outro lado, nesse nível de redes de vizinhança, as igrejas pentecostais e neopentecostais, não todas elas, têm papel político fundamental na medida em que esses setores não têm escrúpulos em fazer política dentro das igrejas e, portanto, conseguem um acesso muito direto à população, inclusive a que sofre com mais força, com mais violência, as angústias como carestia, segurança. É um conjunto de fatores que dá vantagens à direita e à extrema direita nessas lutas pelas mentes e corações, nessas lutas por hegemonia.
Mas, como você bem mostra no seu trabalho, essa mesma população perde direitos e benefícios com plataformas de governos de direita…
É verdade que os governos [de Michel] Temer e [de Jair] Bolsonaro penalizaram duramente parte de quem depois foi eleitor de Bolsonaro, não só em 2018 [quando ele foi eleito] como em 2022 [quando ele perdeu para o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva], ou seja, os mais pobres, a população negra, as mulheres…
Ainda assim, parte dessa população votou na direita, na extrema direita. Como explicar isso? Trata-se da formiga votando no inseticida? É uma boa imagem, mas o quadro é mais complexo. No fundo, a política não é uma ciência exata. Tanto importam as experiências concretas da vida como a maneira como essas experiências de vida são traduzidas e significadas pela população.
O que a direita e a extrema direita conseguiram produzir foi efetivamente um discurso político plástico, muito maleável, que traduziu muitas das angústias da população, atribuindo uma causa: a causa de todos os males são "os governos de esquerda, corruptos, sem moral". Portanto, os problemas de segurança, que eram e são reais, os problemas de atendimento hospitalar, a qualidade em declínio da educação, tudo isso foi atribuído a governos de esquerda. E muito efetivamente esse tipo de discurso encontrou muitos adeptos na sociedade.
A direita conseguiu produzir um discurso plástico capaz de encontrar um culpado para todas as angústias que a população estava sofrendo e isso levou à canalização de votos [em 2018] para um candidato que tinha claramente um programa de governo que ia contra os interesses de grande parte da população que votou nele. A interpretação das angústias reais teve seu poder de mobilização naquele momento, e segue tendo de alguma forma. Isso levou efetivamente a eleição de governos, inclusive deputados e senadores, que claramente tinham propostas que não correspondiam aos interesses dessa população que votou neles. A percepção, a maneira como são traduzidas as angústias são tão importantes quanto às experiências reais.
Pobres ficaram ainda mais pobres, e isto você mostra em seu livro. Bolsonaro não foi reeleito, mas as eleições de 2022 mostram um bolsonarismo ainda muito forte: Lula ganhou por margem apertada e a direita levou mais cadeiras no Senado, nos poderes legislativos e nos governos estaduais. Como explicar isso, mesmo com as consequências sofridas no bolso dos eleitores?
A política não é baseada apenas em fatores econômicos. Se tomarmos os indicadores econômicos, mesmo em termos de emprego, diríamos que o governo atual está indo bem, ainda que sua popularidade esteja muito em baixa. Portanto, há formas de interpretação da realidade que efetivamente pesam tanto quanto à própria realidade. É isso que vivemos antes da eleição de Bolsonaro. É isso que vivemos hoje.
Há repertórios de interpretação das insatisfações populares que são muito difundidos, sobretudo nas redes sociais, e muito incorporados na maneira de pensar pelo conjunto da população. Há uma espécie de descolamento da realidade propiciado pela difusão de interpretações convincentes para angústias verdadeiras. São interpretações convincentes, mas não objetivas. E a política não se faz apenas com dados objetivos. É sempre um exercício de escolhas e interpretações.
Costa apresenta então um conceito que permeia o livro: a situação interseccional, uma perspectiva multidimensional da desigualdade social, que não classifica os cidadãos apenas pela sua classe, mas os considera no contexto de outros marcadores, como raça e gênero. "Não é possível compreender o papel da classe média hoje no Brasil se centrarmos só na análise de classe. É preciso combinar com análise de raça, de gênero, regional", diz o sociólogo, em entrevista à DW.
Para o especialista, a direita soube dominar melhor as ferramentas de comunicação contemporâneas, sobretudo as linguagens das redes sociais, para adentrar nos círculos outrora imunes aos discursos políticos, como as esferas familiares e das reuniões de condomínio. Ao mesmo tempo, a realidade tem sido habilmente interpretada por grupos de modo e atribuir uma causa única a todos os problemas.
"Os problemas de segurança, que eram e são reais, os problemas de atendimento hospitalar, a qualidade em declínio da educação, tudo isso foi atribuído a governos de esquerda. E muito efetivamente esse tipo de discurso encontrou muitos adeptos na sociedade", explica Costa.
O que é classe média, afinal?
O conceito de classe média, para a sociologia, é muito difícil de operar. A classe média pode ser a autoidentificação, uma posição na estrutura social ou simplesmente uma ideologia de progresso, a chamada classe média emergente, um fator de propulsão do consumo, do capitalismo. É um termo polissêmico, difícil de definir.
Eu diria que a classe média pode ser definida combinando essas diferentes classificações. Seguramente, uma posição na estrutura social: quem está entre os grupos intermediários de renda. Mas também com as pessoas se veem, e classe média, do ponto de vista da autoidentificação, é uma categoria muito prestigiada: com exceção dos muitos ricos e dos muitos pobres, a população em geral se autodefine como classe média. Isso torna a classe média um grupo muito heterogêneo, que pode ser tanto propulsor de mudanças democráticas como a que hoje alimenta a direita e a extrema direita em muitas partes do mundo.
Hoje classe média é algo "de direita"?
Não necessariamente um sujeito político de direita. É um sujeito político muito volátil tanto por sua heterogeneidade como por sua posição na estrutura social. Ou seja: é quem pode perder ou ganhar com mudanças econômicas e políticas muito rapidamente, portanto ela pode reagir mais à direita e mais à esquerda dependendo do rumo das transformações sofridas.
No Brasil do começo dos anos 2000, a classe média teve um papel fundamental em criar o consenso [da necessidade] de um país com menos pobreza, um pouco mais justo, que promovesse alguma forma de distribuição de renda, de combate ao racismo, de igualdade de gênero. Houve mudanças significativas na sociedade e há setores de classe média que se rebelaram contra esses progressos.
E por que houve essa rebelião?
A questão que se coloca é: esses setores se rebelaram porque são classe média ou porque são classe média branca, classe média masculina. É importante introduzir aqui a dimensão interseccional da desigualdade, algo fundamental para entender a desigualdade da classe média. Não é possível compreender o papel da classe média hoje no Brasil se centrarmos só na análise de classe. É preciso combinar com análise de raça, de gênero, regional… Só assim conseguimos explicar como setores da chamada classe média emergente efetivamente tiveram melhora de vida nos primeiros anos deste século e como, depois, essa mesma classe média se rebela contra governos que proporcionaram essa melhoria de vida.
É a classe média emergente ou são os homens brancos dessa classe média emergente, os heterossexuais dessa classe média emergente, etc. etc. etc.? Introduzir a dimensão interseccional é fundamental.
No livro você comenta que a polarização na sociedade brasileira tomou conta de festas de família e reuniões de condomínio, ambientes outrora neutros ao debate político. De onde veio essa energia? Por que ela soa mais dominada pela direita do que pela esquerda?
É uma questão intrigante: por que a direita logrou penetrar no que a gente chama de espaços comunicativos primários, as redes de família e de vizinhança, contaminando e efetivamente politizando essas esferas? Eu diria que isso não é completamente novo. Mas o que estamos vendo hoje é a direita e a extrema direita com menos esforço, dada sua enorme capilaridade e penetração nas redes virtuais, conseguindo de alguma maneira penetrar os espaços com seus conteúdos e suas interpretações do que está acontecendo.
A esquerda não tem conseguido disputar a hegemonia cultural e política nos mesmos termos, pois perdeu muito sua capacidade de comunicação com a base. Por outro lado, nesse nível de redes de vizinhança, as igrejas pentecostais e neopentecostais, não todas elas, têm papel político fundamental na medida em que esses setores não têm escrúpulos em fazer política dentro das igrejas e, portanto, conseguem um acesso muito direto à população, inclusive a que sofre com mais força, com mais violência, as angústias como carestia, segurança. É um conjunto de fatores que dá vantagens à direita e à extrema direita nessas lutas pelas mentes e corações, nessas lutas por hegemonia.
Mas, como você bem mostra no seu trabalho, essa mesma população perde direitos e benefícios com plataformas de governos de direita…
É verdade que os governos [de Michel] Temer e [de Jair] Bolsonaro penalizaram duramente parte de quem depois foi eleitor de Bolsonaro, não só em 2018 [quando ele foi eleito] como em 2022 [quando ele perdeu para o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva], ou seja, os mais pobres, a população negra, as mulheres…
Ainda assim, parte dessa população votou na direita, na extrema direita. Como explicar isso? Trata-se da formiga votando no inseticida? É uma boa imagem, mas o quadro é mais complexo. No fundo, a política não é uma ciência exata. Tanto importam as experiências concretas da vida como a maneira como essas experiências de vida são traduzidas e significadas pela população.
O que a direita e a extrema direita conseguiram produzir foi efetivamente um discurso político plástico, muito maleável, que traduziu muitas das angústias da população, atribuindo uma causa: a causa de todos os males são "os governos de esquerda, corruptos, sem moral". Portanto, os problemas de segurança, que eram e são reais, os problemas de atendimento hospitalar, a qualidade em declínio da educação, tudo isso foi atribuído a governos de esquerda. E muito efetivamente esse tipo de discurso encontrou muitos adeptos na sociedade.
A direita conseguiu produzir um discurso plástico capaz de encontrar um culpado para todas as angústias que a população estava sofrendo e isso levou à canalização de votos [em 2018] para um candidato que tinha claramente um programa de governo que ia contra os interesses de grande parte da população que votou nele. A interpretação das angústias reais teve seu poder de mobilização naquele momento, e segue tendo de alguma forma. Isso levou efetivamente a eleição de governos, inclusive deputados e senadores, que claramente tinham propostas que não correspondiam aos interesses dessa população que votou neles. A percepção, a maneira como são traduzidas as angústias são tão importantes quanto às experiências reais.
Pobres ficaram ainda mais pobres, e isto você mostra em seu livro. Bolsonaro não foi reeleito, mas as eleições de 2022 mostram um bolsonarismo ainda muito forte: Lula ganhou por margem apertada e a direita levou mais cadeiras no Senado, nos poderes legislativos e nos governos estaduais. Como explicar isso, mesmo com as consequências sofridas no bolso dos eleitores?
A política não é baseada apenas em fatores econômicos. Se tomarmos os indicadores econômicos, mesmo em termos de emprego, diríamos que o governo atual está indo bem, ainda que sua popularidade esteja muito em baixa. Portanto, há formas de interpretação da realidade que efetivamente pesam tanto quanto à própria realidade. É isso que vivemos antes da eleição de Bolsonaro. É isso que vivemos hoje.
Há repertórios de interpretação das insatisfações populares que são muito difundidos, sobretudo nas redes sociais, e muito incorporados na maneira de pensar pelo conjunto da população. Há uma espécie de descolamento da realidade propiciado pela difusão de interpretações convincentes para angústias verdadeiras. São interpretações convincentes, mas não objetivas. E a política não se faz apenas com dados objetivos. É sempre um exercício de escolhas e interpretações.
Terror 'invisível'
Os governos ocidentais reservam a classificação de terrorista para os atos de violência indiscriminada realizados por ativistas que não agem enquadrados por uma organização estatal e se negam a reconhecer a existência do terrorismo de Estado. Aproveitam-se do fato de que o terrorismo puro não pretende se esconder – ao contrário, se esforça ao máximo para que a sociedade saiba de sua existência –, enquanto o terrorismo de Estado faz todo o possível para se tornar “invisível”, porque é tanto mais eficaz quanto mais despercebido passa.
José Saramago
O valor do lugar
Esquecemo-nos do lugar onde nascemos ou vivemos, deixámos de pensar, porque tudo nos chega a casa com facilidade e, supostamente, a baixíssimo custo, que é o maior problema. Damos como adquirido e certo que há a fruta que hoje nos apetece, a um preço insignificante, num supermercado sempre próximo, saboreamos uvas durante todo o ano.
Deixámos de ter respostas, porque não nos questionamos, aceitamos que pensem e decidam por nós. O clique fácil, acessível, intuitivo, como que a fazer parte do nosso corpo, anestesiou-nos e adormeceu-nos. Parece um enorme paradoxo, mas deixámos de ser livres. À partida, está tudo decidido.
Alguns, poucos, temos acesso a tudo aquilo de que necessitamos à distância de uma tecla e nada nos importa quanto custou, quem regou e colheu aquelas maçãs ou fez os sapatos, muito menos onde. Tudo é acessível e fácil, barato, quase gratuito, entra-nos pela casa. E o maior paradoxo é estarmos mais longe do essencial, na verdade, mais longe de nós próprios, da nossa família e dos nossos amigos, do lugar onde vivemos.
O lugar onde vivemos deixou de ter importância, a sua alma e a sua identidade há muito que se foram e nem damos por isso, e quando esbarramos nalguma fotografia ou história fóssil, isso já não nos toca e pouco nos diz. Aceitamos tranquilamente porque está tudo pensado para uma vida confortável, sem carências nem perguntas, para os que nascemos nesta geografia, uma enorme minoria na Terra. Se está calor, ligamos o ar condicionado, se faz frio, tocamos num botão que faz uma chama parecida com a do madeiro de outrora. Acreditamos que é possível, e aceitável, voar de Lisboa para Londres por 30 euros. Desde há umas décadas que assim tem sido, a “milagrosa solução” está na mão do clique. O resto, a tecnologia, aparentemente, resolve.
Crescer. Crescem a oferta, a procura e tudo à volta; como se pode crescer sempre? E, então, para onde vamos, onde nos leva o incontornável crescimento a que estamos obrigados? Enquanto tivermos limões, mesmo que seja da África do Sul e não do Algarve, isso não nos importa? Assistimos ou decidimos? Será que podemos assistir passivamente? Será que a Terra nos deixa assistir como se nada tivéssemos a ver com o tema?
A proposta aponta para um lugar, para um sítio onde é possível ter outro modo de vida. Outro modo de vida totalmente diferente, sobretudo verdadeiro, quando comparado com o mundo do clique, do low cost, sem rosto e muito menos alma. Um modo de vida onde os pilares essenciais a uma existência digna e feliz são possíveis. Um lugar com o qual nos identificamos totalmente, que sentimos fazer parte de nós, a nossa terra, que sentimos, respiramos, tocamos e cheiramos. Se for o “nosso lugar”, a terra onde nascemos e crescemos, tanto melhor. O solo, a água e a paisagem onde nascemos. O terroir do nosso corpo, da nossa alma, onde podemos ser mais felizes porque é aqui, na terra que nos sentiu nascer, que melhor nos sentimos. Aqui, neste lugar, há alimento, abrigo e segurança, os três pilares essenciais para o viver feliz. Aqui temos nome e os outros, os vizinhos, conhecem-nos. Não necessitamos de password, integramos esta realidade, esta verdade e é aqui onde melhor podemos estar.
Por muita desmaterialização, sempre ilusória, que nos apregoem, os recursos essenciais – solo, água e ar – continuam a ser locais. Só vivendo o local podemos saber os seus limites, os seus recursos, o seu clima, os seus patrimónios. E só com estes, com todos os seus patrimónios, poderemos aspirar a um modo de vida possível e feliz onde todos caibam e possam dispor dos recursos necessários a uma vida feliz e digna, onde vamos recordar muita coisa essencial que parecemos ter esquecido; as estações do ano sintetizam quase tudo o que é essencial para a vida e a sustentabilidade local. Lugar, aquele território onde a alma suspira de alegria e os olhos riem.
Deixámos de ter respostas, porque não nos questionamos, aceitamos que pensem e decidam por nós. O clique fácil, acessível, intuitivo, como que a fazer parte do nosso corpo, anestesiou-nos e adormeceu-nos. Parece um enorme paradoxo, mas deixámos de ser livres. À partida, está tudo decidido.
Alguns, poucos, temos acesso a tudo aquilo de que necessitamos à distância de uma tecla e nada nos importa quanto custou, quem regou e colheu aquelas maçãs ou fez os sapatos, muito menos onde. Tudo é acessível e fácil, barato, quase gratuito, entra-nos pela casa. E o maior paradoxo é estarmos mais longe do essencial, na verdade, mais longe de nós próprios, da nossa família e dos nossos amigos, do lugar onde vivemos.
O lugar onde vivemos deixou de ter importância, a sua alma e a sua identidade há muito que se foram e nem damos por isso, e quando esbarramos nalguma fotografia ou história fóssil, isso já não nos toca e pouco nos diz. Aceitamos tranquilamente porque está tudo pensado para uma vida confortável, sem carências nem perguntas, para os que nascemos nesta geografia, uma enorme minoria na Terra. Se está calor, ligamos o ar condicionado, se faz frio, tocamos num botão que faz uma chama parecida com a do madeiro de outrora. Acreditamos que é possível, e aceitável, voar de Lisboa para Londres por 30 euros. Desde há umas décadas que assim tem sido, a “milagrosa solução” está na mão do clique. O resto, a tecnologia, aparentemente, resolve.
Crescer. Crescem a oferta, a procura e tudo à volta; como se pode crescer sempre? E, então, para onde vamos, onde nos leva o incontornável crescimento a que estamos obrigados? Enquanto tivermos limões, mesmo que seja da África do Sul e não do Algarve, isso não nos importa? Assistimos ou decidimos? Será que podemos assistir passivamente? Será que a Terra nos deixa assistir como se nada tivéssemos a ver com o tema?
A proposta aponta para um lugar, para um sítio onde é possível ter outro modo de vida. Outro modo de vida totalmente diferente, sobretudo verdadeiro, quando comparado com o mundo do clique, do low cost, sem rosto e muito menos alma. Um modo de vida onde os pilares essenciais a uma existência digna e feliz são possíveis. Um lugar com o qual nos identificamos totalmente, que sentimos fazer parte de nós, a nossa terra, que sentimos, respiramos, tocamos e cheiramos. Se for o “nosso lugar”, a terra onde nascemos e crescemos, tanto melhor. O solo, a água e a paisagem onde nascemos. O terroir do nosso corpo, da nossa alma, onde podemos ser mais felizes porque é aqui, na terra que nos sentiu nascer, que melhor nos sentimos. Aqui, neste lugar, há alimento, abrigo e segurança, os três pilares essenciais para o viver feliz. Aqui temos nome e os outros, os vizinhos, conhecem-nos. Não necessitamos de password, integramos esta realidade, esta verdade e é aqui onde melhor podemos estar.
Por muita desmaterialização, sempre ilusória, que nos apregoem, os recursos essenciais – solo, água e ar – continuam a ser locais. Só vivendo o local podemos saber os seus limites, os seus recursos, o seu clima, os seus patrimónios. E só com estes, com todos os seus patrimónios, poderemos aspirar a um modo de vida possível e feliz onde todos caibam e possam dispor dos recursos necessários a uma vida feliz e digna, onde vamos recordar muita coisa essencial que parecemos ter esquecido; as estações do ano sintetizam quase tudo o que é essencial para a vida e a sustentabilidade local. Lugar, aquele território onde a alma suspira de alegria e os olhos riem.
A importância de ainda estar aqui
O Oscar de melhor filme internacional para “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, não é apenas o reconhecimento do excepcional talento e da competência do diretor e dos atores do filme e de todos que a ele, em diferentes campos, se dedicaram. A premiação se situa num conjunto de reconhecimentos pela concessão de vários outros prêmios de cinema, que ressaltam a enorme relevância da obra e o excepcional talento de Fernanda Torres no papel principal.
“Ainda Estou Aqui” tem dimensões ocultas que tocam em outras cordas da sensibilidade cultural das populações esclarecidas no mundo. A reação altamente positiva ao filme tem outras motivações além do apreço pela obra-prima da cinematografia brasileira. Inspirado num livro biográfico do filho da heroína do filme, Eunice Paiva, é desdobramento de uma narrativa testemunhal que pedia o complemento de uma modalidade de expressão que alargasse o alcance do texto original. São obras de criatividades diferentes que se completam, o livro de Marcelo Rubens Paiva e o filme de Walter Salles.
O filme chega não apenas aos olhos dos espectadores, mas chega também à alma das multidões que no mundo inteiro estão sendo questionadas no seu direito a uma consciência verdadeira da situação politicamente anômala em que a sociedade contemporânea vem se perdendo.
Durante entrevista a um portal de direita, Bolsonaro criticou o filme. Criticou Rubens Paiva, preso pela ditadura, torturado e morto, o corpo sumido, obra de criminoso covarde que se oculta no cadáver de sua vítima, mesmo que sejam funcionários do Estado. Alude a Lamarca para justificar o crime contra Paiva. Mente.
Bolsonaro fabula, coloca num mundo imaginário todos os que são, por ele e sua ignorância política, vitimados e estigmatizados. Seu saber tosco é constituído de preconceitos contra os diferentes que perfilham valores democráticos. E confessa: “Eu não tenho tempo de ver filme, até ler livro é quase impossível pra mim”.
Sobre a disputa pelo Oscar, subestimou o filme: “O brasileiro ganha em qualquer lugar”. Ou seja, tem tanto mérito como qualquer um.
Esta edição do Oscar se situa num momento de reações crescentes contra a cultura e a erudição que vêm de um mundo que está ficando burro com a ascensão política, direitista e autoritária, na Itália, na Alemanha, nos EUA e na conspiração golpista no Brasil.
Nas premiações houve a valorização do filme independente e, consequentemente, da ampla liberdade de criação. “No Other Land”, documentário palestino-israelense, foi premiado e o discurso dos diretores muito aplaudido pelo público. Uma fala direta à mediocridade de Trump e de Netanyahu, a propósito da questão de Gaza.
Adrien Brody ganhou o prêmio de melhor ator em “O Brutalista”. Ele também ressaltou a importância do cinema independente. Zoe Saldaña, de descendência dominicana, foi dura ao mencionar sua origem em crítica a Trump e sua política de hostilidade aos imigrantes e latinos.
É nessa perspectiva que o filme brasileiro tem um redimensionamento situacional e político, que repercute como explícita crítica à situação no Brasil. Enquanto um dos Bolsonaros bajula Trump e conspira contra o Brasil, ao tratar o presidente americano como juiz da situação brasileira e do mundo e cúmplice da conspiração bolsonarista, o que Trump não nega.
Enquanto isso, o filme brasileiro de alta qualidade cinematográfica, baseado em fatos reais, relativos à ditadura a que Bolsonaro serviu, personifica e espera restaurar, é aplaudido em vários países do mundo pela qualidade fílmica, literária e histórica. Se o beija-pé dos Bolsonaros em Trump indica uma conspiração contra a pátria, o acolhimento internacional de “Ainda Estou Aqui”, por parte de gente culta, indica uma ação de difusão de consciência crítica contra a consciência bufa e a governação rastaquera.
Como se viu no Carnaval, o Brasil dividido pelo bolsonarismo e pelas ideias reacionárias do astrólogo Olavo de Carvalho, de repente, encontrou um motivo racional para o reencontro contra as fake news e contra a manipulação mentirosa da consciência social.
“Ainda Estou Aqui” ilumina a escuridão ideológica em que foi mergulhado o brasileiro alienado pelo direitismo antipatriótico. O filme é a mediação que expõe as irracionalidades da manipulação e o enlouquecimento de multidões, como na intentona de 8 de janeiro de 2023, nas ações terroristas inspiradas por Bolsonaro e seus seguidores: a do caminhão-bomba preparado para explodir no aeroporto, a do homem bomba que se explodiu no pátio de acesso ao STF, e a do homem que, nos últimos dias, tentou ingressar no STF para um atentado. Sem contar a agressão a Marcelo Rubens Paiva num desfile carnavalesco em São Paulo.
“Ainda Estou Aqui” tem dimensões ocultas que tocam em outras cordas da sensibilidade cultural das populações esclarecidas no mundo. A reação altamente positiva ao filme tem outras motivações além do apreço pela obra-prima da cinematografia brasileira. Inspirado num livro biográfico do filho da heroína do filme, Eunice Paiva, é desdobramento de uma narrativa testemunhal que pedia o complemento de uma modalidade de expressão que alargasse o alcance do texto original. São obras de criatividades diferentes que se completam, o livro de Marcelo Rubens Paiva e o filme de Walter Salles.
O filme chega não apenas aos olhos dos espectadores, mas chega também à alma das multidões que no mundo inteiro estão sendo questionadas no seu direito a uma consciência verdadeira da situação politicamente anômala em que a sociedade contemporânea vem se perdendo.
Durante entrevista a um portal de direita, Bolsonaro criticou o filme. Criticou Rubens Paiva, preso pela ditadura, torturado e morto, o corpo sumido, obra de criminoso covarde que se oculta no cadáver de sua vítima, mesmo que sejam funcionários do Estado. Alude a Lamarca para justificar o crime contra Paiva. Mente.
Bolsonaro fabula, coloca num mundo imaginário todos os que são, por ele e sua ignorância política, vitimados e estigmatizados. Seu saber tosco é constituído de preconceitos contra os diferentes que perfilham valores democráticos. E confessa: “Eu não tenho tempo de ver filme, até ler livro é quase impossível pra mim”.
Sobre a disputa pelo Oscar, subestimou o filme: “O brasileiro ganha em qualquer lugar”. Ou seja, tem tanto mérito como qualquer um.
Esta edição do Oscar se situa num momento de reações crescentes contra a cultura e a erudição que vêm de um mundo que está ficando burro com a ascensão política, direitista e autoritária, na Itália, na Alemanha, nos EUA e na conspiração golpista no Brasil.
Nas premiações houve a valorização do filme independente e, consequentemente, da ampla liberdade de criação. “No Other Land”, documentário palestino-israelense, foi premiado e o discurso dos diretores muito aplaudido pelo público. Uma fala direta à mediocridade de Trump e de Netanyahu, a propósito da questão de Gaza.
Adrien Brody ganhou o prêmio de melhor ator em “O Brutalista”. Ele também ressaltou a importância do cinema independente. Zoe Saldaña, de descendência dominicana, foi dura ao mencionar sua origem em crítica a Trump e sua política de hostilidade aos imigrantes e latinos.
É nessa perspectiva que o filme brasileiro tem um redimensionamento situacional e político, que repercute como explícita crítica à situação no Brasil. Enquanto um dos Bolsonaros bajula Trump e conspira contra o Brasil, ao tratar o presidente americano como juiz da situação brasileira e do mundo e cúmplice da conspiração bolsonarista, o que Trump não nega.
Enquanto isso, o filme brasileiro de alta qualidade cinematográfica, baseado em fatos reais, relativos à ditadura a que Bolsonaro serviu, personifica e espera restaurar, é aplaudido em vários países do mundo pela qualidade fílmica, literária e histórica. Se o beija-pé dos Bolsonaros em Trump indica uma conspiração contra a pátria, o acolhimento internacional de “Ainda Estou Aqui”, por parte de gente culta, indica uma ação de difusão de consciência crítica contra a consciência bufa e a governação rastaquera.
Como se viu no Carnaval, o Brasil dividido pelo bolsonarismo e pelas ideias reacionárias do astrólogo Olavo de Carvalho, de repente, encontrou um motivo racional para o reencontro contra as fake news e contra a manipulação mentirosa da consciência social.
“Ainda Estou Aqui” ilumina a escuridão ideológica em que foi mergulhado o brasileiro alienado pelo direitismo antipatriótico. O filme é a mediação que expõe as irracionalidades da manipulação e o enlouquecimento de multidões, como na intentona de 8 de janeiro de 2023, nas ações terroristas inspiradas por Bolsonaro e seus seguidores: a do caminhão-bomba preparado para explodir no aeroporto, a do homem bomba que se explodiu no pátio de acesso ao STF, e a do homem que, nos últimos dias, tentou ingressar no STF para um atentado. Sem contar a agressão a Marcelo Rubens Paiva num desfile carnavalesco em São Paulo.
Trump, Gaza e a política do espetáculo
Max Weber, em sua teoria sobre os tipos de dominação, descreveu a autoridade carismática como aquela sustentada na devoção quase religiosa a um líder. Essa forma de poder se fortalece em tempos de crise, quando um político se apresenta como um Messias, a única figura capaz de restaurar a ordem e guiar seu povo rumo à redenção. Donald Trump encarna esse modelo com perfeição: ele não se vende como um político tradicional, e sim como um salvador, alguém que os Estados Unidos — e, agora, o mundo — não podem dispensar.
Como qualquer líder carismático que se alimenta do caos, Trump prospera na tragédia. A guerra no Oriente Médio, com suas cenas de horror e destruição, tornou-se para ele mais do que um tema geopolítico; virou um trampolim para reafirmar sua imagem. Seu papel na pressão para que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aceitasse um acordo de cessar-fogo em troca de reféns foi relevante. Mas seu verdadeiro objetivo não é a paz — é a autopromoção, como fez ao expulsar recentemente o presidente da Ucrânia, Volodimyr Zelensky, da Casa Branca.
Enquanto o mundo ainda sente o impacto brutal dos ataques de 7 de outubro e das atrocidades cometidas pelo Hamas, incluindo o assassinato da família Bibas, celebrado por terroristas, Trump não está interessado em justiça, reparação ou soluções reais. Da mesma forma, ignora deliberadamente as violações de direitos humanos cometidas pelo governo de Netanyahu.
Desde o início da ofensiva israelense, Gaza se tornou um campo de morte. Com bombardeios sistemáticos a áreas civis, ataques a hospitais e bloqueio do fornecimento de água, eletricidade e ajuda humanitária, Israel tem sido amplamente acusado de crimes de guerra. A destruição da infraestrutura essencial não visa apenas o Hamas — ela empurra milhões de palestinos para uma crise humanitária sem precedentes. Mesmo diante de ordens da Corte Internacional de Justiça para permitir ajuda à população civil, o governo israelense segue sua campanha, resultando em mais de 46 mil mortos, segundo autoridades locais, incluindo milhares de crianças.
Mas Trump não condena esses abusos — ele os instrumentaliza. O sofrimento real de palestinos e israelenses não importa para ele. O que importa são os slogans e como a tragédia pode ser convertida em capital político.
Foi assim que surgiu seu vídeo altamente produzido por Inteligência Artificial generativa, publicado na Truth Social, promovendo uma visão fantasiosa: uma “Riviera em Gaza”. A cena é quase surreal. Uma trilha sonora épica embala imagens de praias paradisíacas, enquanto um coro canta “Trump vai te libertar”. No centro da encenação, o bilionário Elon Musk distribui notas de dólares, como um magnata benevolente, pronto para erguer um paraíso capitalista sobre os escombros da guerra.
Mas por trás do espetáculo midiático, há algo muito mais sombrio. Trump sugeriu abertamente que os palestinos deveriam deixar Gaza, uma posição que, segundo o Artigo 2 da Convenção sobre Genocídio de 1948, configura limpeza étnica. Expulsar mais de dois milhões de pessoas de suas casas não apenas viola o direito internacional, mas cria um desastre humanitário de proporções catastróficas. Para onde iriam esses refugiados? Quais seriam as implicações políticas e econômicas para os países vizinhos, já sobrecarregados com décadas de deslocamento forçado? Essas questões não interessam a Trump. Seu discurso não trata de reconstrução nem de paz — trata de marketing político.
A guerra já deixou um saldo devastador. Em Gaza, 1,8 milhão de pessoas passam fome e quase toda a população foi deslocada. Enquanto isso, 250 reféns israelenses foram sequestrados pelo Hamas, muitos submetidos à tortura — por vezes televisionada e celebrada. Enquanto Netanyahu avança com sua ofensiva indiscriminada e violações do direito internacional, Trump usa a tragédia como uma ferramenta de campanha. Ele não está preocupado com os mortos, mas com como pode transformar a guerra em um trampolim para seu próprio retorno ao poder.
Trump governa por meio da atenção que consegue atrair. Ele não precisa estar certo — ele só precisa ser o assunto. Seu modus operandi segue a lógica da “sociedade do espetáculo”, descrita por Guy Debord: uma realidade onde imagens, emoções e narrativas substituem os fatos concretos. Seu vídeo sobre Gaza é um exemplo perfeito. Um projeto absurdo, mas que gera manchetes, distrai da complexidade do conflito e, acima de tudo, mantém seu nome no centro da conversa.
E essa é a verdadeira estratégia. Criar polêmicas e jogar declarações inflamadas ao vento, sabendo que qualquer reação — crítica ou aplauso — apenas reforça sua presença no debate. Ele já fez isso antes, ao transformar crises internas em armas contra a imprensa, o judiciário e seus opositores.
E, agora, usa o Oriente Médio para se consolidar como um líder global, alguém que, na mente de seus seguidores, poderia resolver conflitos internacionais como se fossem episódios de um reality show.
Como Weber descreveu, a dominação carismática mina as instituições democráticas porque substitui o compromisso com a lei pela lealdade cega ao líder. Trump segue essa cartilha com precisão cirúrgica: desacredita a mídia, ridiculariza seus adversários, menospreza instituições e se coloca como o único capaz de salvar não apenas os Estados Unidos, mas o mundo. O problema é que essa ilusão de grandeza não se mede em votos ou likes — mede-se em vidas humanas.
Como qualquer líder carismático que se alimenta do caos, Trump prospera na tragédia. A guerra no Oriente Médio, com suas cenas de horror e destruição, tornou-se para ele mais do que um tema geopolítico; virou um trampolim para reafirmar sua imagem. Seu papel na pressão para que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aceitasse um acordo de cessar-fogo em troca de reféns foi relevante. Mas seu verdadeiro objetivo não é a paz — é a autopromoção, como fez ao expulsar recentemente o presidente da Ucrânia, Volodimyr Zelensky, da Casa Branca.
Enquanto o mundo ainda sente o impacto brutal dos ataques de 7 de outubro e das atrocidades cometidas pelo Hamas, incluindo o assassinato da família Bibas, celebrado por terroristas, Trump não está interessado em justiça, reparação ou soluções reais. Da mesma forma, ignora deliberadamente as violações de direitos humanos cometidas pelo governo de Netanyahu.
Desde o início da ofensiva israelense, Gaza se tornou um campo de morte. Com bombardeios sistemáticos a áreas civis, ataques a hospitais e bloqueio do fornecimento de água, eletricidade e ajuda humanitária, Israel tem sido amplamente acusado de crimes de guerra. A destruição da infraestrutura essencial não visa apenas o Hamas — ela empurra milhões de palestinos para uma crise humanitária sem precedentes. Mesmo diante de ordens da Corte Internacional de Justiça para permitir ajuda à população civil, o governo israelense segue sua campanha, resultando em mais de 46 mil mortos, segundo autoridades locais, incluindo milhares de crianças.
Mas Trump não condena esses abusos — ele os instrumentaliza. O sofrimento real de palestinos e israelenses não importa para ele. O que importa são os slogans e como a tragédia pode ser convertida em capital político.
Foi assim que surgiu seu vídeo altamente produzido por Inteligência Artificial generativa, publicado na Truth Social, promovendo uma visão fantasiosa: uma “Riviera em Gaza”. A cena é quase surreal. Uma trilha sonora épica embala imagens de praias paradisíacas, enquanto um coro canta “Trump vai te libertar”. No centro da encenação, o bilionário Elon Musk distribui notas de dólares, como um magnata benevolente, pronto para erguer um paraíso capitalista sobre os escombros da guerra.
Mas por trás do espetáculo midiático, há algo muito mais sombrio. Trump sugeriu abertamente que os palestinos deveriam deixar Gaza, uma posição que, segundo o Artigo 2 da Convenção sobre Genocídio de 1948, configura limpeza étnica. Expulsar mais de dois milhões de pessoas de suas casas não apenas viola o direito internacional, mas cria um desastre humanitário de proporções catastróficas. Para onde iriam esses refugiados? Quais seriam as implicações políticas e econômicas para os países vizinhos, já sobrecarregados com décadas de deslocamento forçado? Essas questões não interessam a Trump. Seu discurso não trata de reconstrução nem de paz — trata de marketing político.
A guerra já deixou um saldo devastador. Em Gaza, 1,8 milhão de pessoas passam fome e quase toda a população foi deslocada. Enquanto isso, 250 reféns israelenses foram sequestrados pelo Hamas, muitos submetidos à tortura — por vezes televisionada e celebrada. Enquanto Netanyahu avança com sua ofensiva indiscriminada e violações do direito internacional, Trump usa a tragédia como uma ferramenta de campanha. Ele não está preocupado com os mortos, mas com como pode transformar a guerra em um trampolim para seu próprio retorno ao poder.
Trump governa por meio da atenção que consegue atrair. Ele não precisa estar certo — ele só precisa ser o assunto. Seu modus operandi segue a lógica da “sociedade do espetáculo”, descrita por Guy Debord: uma realidade onde imagens, emoções e narrativas substituem os fatos concretos. Seu vídeo sobre Gaza é um exemplo perfeito. Um projeto absurdo, mas que gera manchetes, distrai da complexidade do conflito e, acima de tudo, mantém seu nome no centro da conversa.
E essa é a verdadeira estratégia. Criar polêmicas e jogar declarações inflamadas ao vento, sabendo que qualquer reação — crítica ou aplauso — apenas reforça sua presença no debate. Ele já fez isso antes, ao transformar crises internas em armas contra a imprensa, o judiciário e seus opositores.
E, agora, usa o Oriente Médio para se consolidar como um líder global, alguém que, na mente de seus seguidores, poderia resolver conflitos internacionais como se fossem episódios de um reality show.
Como Weber descreveu, a dominação carismática mina as instituições democráticas porque substitui o compromisso com a lei pela lealdade cega ao líder. Trump segue essa cartilha com precisão cirúrgica: desacredita a mídia, ridiculariza seus adversários, menospreza instituições e se coloca como o único capaz de salvar não apenas os Estados Unidos, mas o mundo. O problema é que essa ilusão de grandeza não se mede em votos ou likes — mede-se em vidas humanas.
sexta-feira, 7 de março de 2025
'Capitães da Areia' continua a retratar o Brasil, 88 anos depois
O livro "Sobre o Romance Social: Ideologia e Significação em Capitães da Areia", de autoria de Leandro Lima Ribeiro, mestre em Linguística e Semiótica, lançado no final de 2024, analisa a linguagem e os significados da obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, publicada em 1937. Segundo Ribeiro, o Brasil vive uma realidade muito semelhante à década de 1930 por conta da ascensão da extrema direita. Em sua obra, Jorge Amado conta a história de um grupo de crianças que morava em um trapiche e vivia pelas ruas de Salvador. “A partir daquele contexto que a gente vivia durante a pandemia [de 2020], de muitas pessoas em situação de rua, que chegaram até mesmo a falecer, eu pensei por que não trazer Capitães da Areia para os dias de hoje e entender ele a partir dos mesmos problemas que o Jorge Amado aponta em 1930, que continuam escancarados?”, diz Leandro Ribeiro.
De acordo com o pesquisador, por muito tempo, o romance foi ignorado pelo meio acadêmico, que considerava que seu viés político-partidário era mais importante do que a estética do texto e que, por isso, era uma literatura panfletária e de baixa qualidade. Já Leandro Ribeiro explora essa linguagem que se dizia ser desimportante: “a gente, obviamente, não desconsidera a ideologia, mas a nossa preocupação é compreender a semiótica, a significação e sua importância”, explica.
A narrativa de Jorge Amado traz trechos de jornais fictícios para representar a opinião da elite de Salvador, que dizia que os garotos eram “meninos assaltantes e ladrões que infestam nossa urbe”, segundo escrito na obra. Jorge Amado produz seu romance em um sentido contrário, colocando as crianças como sujeitos políticos, em mazela e abandonados, lutando por sua sobrevivência. Logo após o lançamento de Capitães da Areia, centenas de exemplares do livro foram queimados em praça pública pela Comissão de Busca e Apreensão de Livros da ditadura do Estado Novo, acusados de serem “propagadores do credo comunista”, como publicou o Jornal da Bahia.
- Acho [Capitães da Areia] uma obra que representa bem o Brasil da década de 1930 e o de hoje. A nossa configuração atual é muito parecida, porque a gente vê uma guinada da extrema direita adentrando os espaços, essas visões retrógradas. Ninguém pode ser diferente, todo mundo tem que seguir uma agenda moral e civilizatória à risca, e o que diverge disso, é sancionado.
Leandro Ribeiro defendeu o mestrado em Semiótica e Linguística Geral em 2022, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Agora, está no programa de doutorado na mesma área e com o mesmo orientador, Antônio Vicente Pietroforte. O pesquisador estuda, atualmente, a carnavalização da linguagem.
O estudo de Leandro explora as ideias e os papéis sociais em Capitães da Areia, que se apresentam de maneira oposta ao senso comum. O conceito de liberdade das crianças, por exemplo, não está relacionado com bens materiais, mas sim com a liberdade das ruas e com o poder de se esquivar das normas sociais. O especialista chama isso de carnavalização da linguagem, “que é a ótica do reverso. As dicotomias que a nossa cultura judaico-cristã nos impõe, como bom e mal, Deus e demônio, céu e inferno, é tudo ao reverso. Não existe só céu e inferno. Por que não pensar em um terceiro termo, em um outro modo de ser?”. De acordo com o especialista, o carnaval não está apenas nas festas, mas também na cultura brasileira, nas obras e nas expressões artísticas.
Outra questão que o pesquisador apresenta é a semântica de Exu, que explica como os capitães da areia são vistos pelos outros. Exu, entidade da umbanda e orixá do candomblé, é designado socialmente como parte de uma religião inferior e, ao mesmo tempo, causa medo e é chamado de demônio. As crianças passam por um estigma semelhante: são invisibilizadas, pois estão às margens da sociedade, e são (ultra)visibilizadas, termo criado por Leandro, já que são consideradas como ameaça por essa mesma sociedade. Leandro Ribeiro acrescenta que, de certa forma, toda a população de rua, negra e periférica e, também, as pessoas LGBTQIA+ passam por essa estigmatização.
O pesquisador destaca o papel da universidade de trazer visões diferentes sobre questões que parecem certezas, mas que não são, e para solucionar questões sociais e desfazer preconceitos. “O ensino, a pesquisa e a extensão devem ser voltados para a formação de cidadãos críticos e com autonomia intelectual”, diz. Ele afirma que apenas o conhecimento é capaz de transformar a sociedade e abrir espaço para novas possibilidades.
A narrativa de Jorge Amado lida constantemente com o emocional das personagens e, portanto, do leitor. Para analisar esse aspecto, Leandro Ribeiro escolheu o Sem-Pernas, tanto por ser a personagem que mais o sensibilizou, quanto por sua história ser diferente das outras crianças. Sem-Pernas desejava ter o carinho de uma família, por mais que isso fosse contrário ao conceito de liberdade do grupo. Quando percebe que não é possível, ele cria um sentimento de ódio contra a vida, chamado de cólera. O processo é tão violento que o garoto tira a própria vida.
O ódio de Sem-Pernas se inicia no momento em que ele entende que não possui os direitos humanos básicos e começa a ter a percepção de que não é um ser humano como os outros “e, portanto, ele recorre ao único direito possível, que é o direito à morte. Eu venho da periferia e a gente sempre lembra dos nossos amigos que brincavam conosco durante a infância e que perderam a vida, se entregaram à violência, à criminalidade, às drogas. Acho que ele representa muito bem isso”, relata o pesquisador.
Um censo realizado pela prefeitura de São Paulo em 2022 registrou que há 3.759 crianças e adolescentes em situação de rua na cidade. Deles, 80% mantém vínculos familiares e está nas ruas para gerar renda e ajudar a sustentar suas famílias, diferente da história de Jorge Amado, em que os jovens são órfãos.
Questionado, Leandro Ribeiro afirma que as questões problemáticas da infância na rua que aparecem em Capitães da Areia estão sendo mascaradas, mas permanecem. O especialista explica que o romance retrata a experiência de viver nas ruas por um lado relativamente positivo, mas que há questões negativas que perduram, como a criminalidade, a prostituição, sobretudo a infantil, e o uso de drogas. “É por isso que é uma encruzilhada, porque você fica diante dela e não sabe para onde vai”, complementa Leandro. Segundo ele, “o discurso da esfera pública começa a dizer que é melhor a criança desempenhando aquele papel [de sustentar a família] do que roubando ou matando, só que o problema em si não é superado”.
De acordo com o pesquisador, por muito tempo, o romance foi ignorado pelo meio acadêmico, que considerava que seu viés político-partidário era mais importante do que a estética do texto e que, por isso, era uma literatura panfletária e de baixa qualidade. Já Leandro Ribeiro explora essa linguagem que se dizia ser desimportante: “a gente, obviamente, não desconsidera a ideologia, mas a nossa preocupação é compreender a semiótica, a significação e sua importância”, explica.
A narrativa de Jorge Amado traz trechos de jornais fictícios para representar a opinião da elite de Salvador, que dizia que os garotos eram “meninos assaltantes e ladrões que infestam nossa urbe”, segundo escrito na obra. Jorge Amado produz seu romance em um sentido contrário, colocando as crianças como sujeitos políticos, em mazela e abandonados, lutando por sua sobrevivência. Logo após o lançamento de Capitães da Areia, centenas de exemplares do livro foram queimados em praça pública pela Comissão de Busca e Apreensão de Livros da ditadura do Estado Novo, acusados de serem “propagadores do credo comunista”, como publicou o Jornal da Bahia.
- Acho [Capitães da Areia] uma obra que representa bem o Brasil da década de 1930 e o de hoje. A nossa configuração atual é muito parecida, porque a gente vê uma guinada da extrema direita adentrando os espaços, essas visões retrógradas. Ninguém pode ser diferente, todo mundo tem que seguir uma agenda moral e civilizatória à risca, e o que diverge disso, é sancionado.
Leandro Ribeiro defendeu o mestrado em Semiótica e Linguística Geral em 2022, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Agora, está no programa de doutorado na mesma área e com o mesmo orientador, Antônio Vicente Pietroforte. O pesquisador estuda, atualmente, a carnavalização da linguagem.
O estudo de Leandro explora as ideias e os papéis sociais em Capitães da Areia, que se apresentam de maneira oposta ao senso comum. O conceito de liberdade das crianças, por exemplo, não está relacionado com bens materiais, mas sim com a liberdade das ruas e com o poder de se esquivar das normas sociais. O especialista chama isso de carnavalização da linguagem, “que é a ótica do reverso. As dicotomias que a nossa cultura judaico-cristã nos impõe, como bom e mal, Deus e demônio, céu e inferno, é tudo ao reverso. Não existe só céu e inferno. Por que não pensar em um terceiro termo, em um outro modo de ser?”. De acordo com o especialista, o carnaval não está apenas nas festas, mas também na cultura brasileira, nas obras e nas expressões artísticas.
Outra questão que o pesquisador apresenta é a semântica de Exu, que explica como os capitães da areia são vistos pelos outros. Exu, entidade da umbanda e orixá do candomblé, é designado socialmente como parte de uma religião inferior e, ao mesmo tempo, causa medo e é chamado de demônio. As crianças passam por um estigma semelhante: são invisibilizadas, pois estão às margens da sociedade, e são (ultra)visibilizadas, termo criado por Leandro, já que são consideradas como ameaça por essa mesma sociedade. Leandro Ribeiro acrescenta que, de certa forma, toda a população de rua, negra e periférica e, também, as pessoas LGBTQIA+ passam por essa estigmatização.
O pesquisador destaca o papel da universidade de trazer visões diferentes sobre questões que parecem certezas, mas que não são, e para solucionar questões sociais e desfazer preconceitos. “O ensino, a pesquisa e a extensão devem ser voltados para a formação de cidadãos críticos e com autonomia intelectual”, diz. Ele afirma que apenas o conhecimento é capaz de transformar a sociedade e abrir espaço para novas possibilidades.
A narrativa de Jorge Amado lida constantemente com o emocional das personagens e, portanto, do leitor. Para analisar esse aspecto, Leandro Ribeiro escolheu o Sem-Pernas, tanto por ser a personagem que mais o sensibilizou, quanto por sua história ser diferente das outras crianças. Sem-Pernas desejava ter o carinho de uma família, por mais que isso fosse contrário ao conceito de liberdade do grupo. Quando percebe que não é possível, ele cria um sentimento de ódio contra a vida, chamado de cólera. O processo é tão violento que o garoto tira a própria vida.
O ódio de Sem-Pernas se inicia no momento em que ele entende que não possui os direitos humanos básicos e começa a ter a percepção de que não é um ser humano como os outros “e, portanto, ele recorre ao único direito possível, que é o direito à morte. Eu venho da periferia e a gente sempre lembra dos nossos amigos que brincavam conosco durante a infância e que perderam a vida, se entregaram à violência, à criminalidade, às drogas. Acho que ele representa muito bem isso”, relata o pesquisador.
Um censo realizado pela prefeitura de São Paulo em 2022 registrou que há 3.759 crianças e adolescentes em situação de rua na cidade. Deles, 80% mantém vínculos familiares e está nas ruas para gerar renda e ajudar a sustentar suas famílias, diferente da história de Jorge Amado, em que os jovens são órfãos.
Questionado, Leandro Ribeiro afirma que as questões problemáticas da infância na rua que aparecem em Capitães da Areia estão sendo mascaradas, mas permanecem. O especialista explica que o romance retrata a experiência de viver nas ruas por um lado relativamente positivo, mas que há questões negativas que perduram, como a criminalidade, a prostituição, sobretudo a infantil, e o uso de drogas. “É por isso que é uma encruzilhada, porque você fica diante dela e não sabe para onde vai”, complementa Leandro. Segundo ele, “o discurso da esfera pública começa a dizer que é melhor a criança desempenhando aquele papel [de sustentar a família] do que roubando ou matando, só que o problema em si não é superado”.
Tanto fez que agora tanto faz?
“São todos iguais”, “este rouba, mas ao menos faz”, “só querem é tachos”, “é preciso dizer umas verdades”, “só quem não trabalha é que tem tudo de mão beijada, a mim nunca me deram nada”, “já não se pode dizer nada”, “isto só lá vai com um Salazar em cada esquina”, “este país não se governa nem de deixa governar”.
Estas frases soam familiares? Quantas vezes as ouvimos todos já no café do bairro, na banca de hortaliças no mercado, no restaurante mais caro, na caixa de comentários do jornal ou no Twitter, numa conferência ou num estúdio de televisão, num táxi ou à porta da escola dos miúdos?
Todas estas frases, de uma maneira mais polida ou mais boçal, traduzem o mesmo sentimento: uma enorme impotência. São frases que nos dizem que não há nada a fazer, porque não há alternativa. São frases que nos põem no nosso lugar, no lugar dos que se indignam, mas não têm força para mudar nada. São frases que mostram que precisamos de um ser iluminado, de um técnico, de um especialista, de um D. Sebastião. São frases que nos dizem para desistir, porque nunca faremos a diferença. São frases de quem já nada espera ou de quem acha que a única coisa que tem a fazer é esperar.
Frases como esta andam por aí há muitos anos. Acho que as ouvi toda a minha vida e já não vou para nova. Mas cada vez se repetem mais, como um muro que se ergue à nossa frente. Elas ganham a força que nós vamos perdendo.
São frases perigosas porque, cada uma à sua maneira, ajudam a que olhemos para a democracia como um instrumento obsoleto. Ouvi, esta semana na rádio, um ouvinte desiludido sentenciar por fim: “O povo português não tem maturidade para viver em democracia”.
Eu entendo o ouvinte. Depois de muitos anos a levar com estas frases, ele conclui que faz parte de um povo que não tem as qualificações mínimas para exercer o direito à sua autodeterminação. Já não é só a democracia que tem falhas (porque as tem), somos nós que não estamos à altura dela. Somos politicamente desqualificados.
Quem já tenha lido sobre o que passou na Primeira República sabe o quanto, a dada altura, os jornais se encheram de artigos a glorificar a ditadura. E não faltam razões para o fazer.
Nada é mais estável do que uma ditadura. Sob uma ditadura, não há crises políticas nem escândalos. Não é porque não estejam uns quantos a roubar e a ser corrompidos (sabemos bem que é o regime mais corrupto de todos), mas nunca saberemos ao certo quem nem como e seguramente não seremos incomodados com notícias sobre corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Haverá corrupção, nepotismo e tráfico de influências, mas não se escreverá uma linha sobre isso nem se abrirá um processo, a menos que os crimes tenham sido cometidos por quem já não interessa ao regime e, nesse caso, também nunca saberemos se os acusados são ou não culpados, porque também deixará de haver julgamentos justos.
Imaginem o sossego! Acabam-se as notícias sobre casos, casinhos e megaprocessos. Acabam-se mesmo as notícias. A não ser aquelas que sirvam para exaltar as virtudes do ditador e do seu regime. Uma limpeza! Acaba-se com aqueles jornalistas ofegantes e comentadores maledicentes. Ninguém faz perguntas e ninguém chateia. Claro que se formos vítimas de uma injustiça nos vai custar talvez um pouco não a poder denunciar. Mas quem se importa com isso? Temos sempre o Tik Tok e o Instagram e o X e o Facebook, que lá falamos sem filtros. Ou será que não? Será que nos podem apagar comentários, bloquear a conta, tornar-nos invisíveis manipulando o algoritmo?
Não importa. Ao menos vai tudo a eito. Limpamos o pântano. Cortamos a direito com uma motosserra. E nós, os nacionais puros, os trabalhadores, os que não temem porque não devem, teremos tudo aquilo de que precisamos. Ou será que não? Como faremos se o plafond do seguro acabar quando nos chega o cancro? Como conseguiremos viver na velhice se alguém declarar que a Segurança Social é um Esquema de Ponzi? Como estudarão os nossos filhos se os preços dos colégios dispararem por já não haver escola pública?
E isso que importa? Viverão os mais fortes. E quem são os mais fortes? Somos nós, os vencedores. Aqueles que agora vivem tolhidos pelo inconveniente da crise política, que só não ascendem aos píncaros da fortuna porque são obrigados a pagar impostos, os que têm de levar com a maçada de votar.
Que chatice que é votar. Para que é que querem saber a nossa opinião? Que esbulho que é pagar impostos! Quem é que pode achar boa ideia contribuir com uma parte do seu trabalho para que todos possam ter acesso a saúde, educação, justiça, pontes e estradas. Mas se tudo isso falha, estamos a pagar para quê? Sim, falhará alguma coisa por agora, mas podemos dizer que falha sempre? E daquela vez em que a nossa mãe foi assistida por ter um cancro? E quando precisámos de recorrer ao centro de saúde ou à escola? Bem, não interessa. Havemos de ser dos que prosperam e não precisam do Estado para nada. E se não formos, é porque somos uns falhados e merecemos morrer.
E morrer, já se sabe, tem pelo menos uma enorme vantagem: não precisamos de ir votar.
“É preciso estabilidade política”, “se o País não cresce, nunca vai ser possível aumentar salários”, “os portugueses não querem eleições”, “não se pode dar tudo a todos”, “é preciso chamar os técnicos, afastar os políticos”, “vamos nomear uma comissão independente, um grupo de trabalho, chamar a sociedade civil”, “ele é bom porque é independente, não veio dos partidos”.
Estas frases soam familiares? Quantas vezes as ouvimos todos já no café do bairro, na banca de hortaliças no mercado, no restaurante mais caro, na caixa de comentários do jornal ou no Twitter, numa conferência ou num estúdio de televisão, num táxi ou à porta da escola dos miúdos?
Todas estas frases, de uma maneira mais polida ou mais boçal, traduzem o mesmo sentimento: uma enorme impotência. São frases que nos dizem que não há nada a fazer, porque não há alternativa. São frases que nos põem no nosso lugar, no lugar dos que se indignam, mas não têm força para mudar nada. São frases que mostram que precisamos de um ser iluminado, de um técnico, de um especialista, de um D. Sebastião. São frases que nos dizem para desistir, porque nunca faremos a diferença. São frases de quem já nada espera ou de quem acha que a única coisa que tem a fazer é esperar.
Frases como esta andam por aí há muitos anos. Acho que as ouvi toda a minha vida e já não vou para nova. Mas cada vez se repetem mais, como um muro que se ergue à nossa frente. Elas ganham a força que nós vamos perdendo.
São frases perigosas porque, cada uma à sua maneira, ajudam a que olhemos para a democracia como um instrumento obsoleto. Ouvi, esta semana na rádio, um ouvinte desiludido sentenciar por fim: “O povo português não tem maturidade para viver em democracia”.
Eu entendo o ouvinte. Depois de muitos anos a levar com estas frases, ele conclui que faz parte de um povo que não tem as qualificações mínimas para exercer o direito à sua autodeterminação. Já não é só a democracia que tem falhas (porque as tem), somos nós que não estamos à altura dela. Somos politicamente desqualificados.
Quem já tenha lido sobre o que passou na Primeira República sabe o quanto, a dada altura, os jornais se encheram de artigos a glorificar a ditadura. E não faltam razões para o fazer.
Nada é mais estável do que uma ditadura. Sob uma ditadura, não há crises políticas nem escândalos. Não é porque não estejam uns quantos a roubar e a ser corrompidos (sabemos bem que é o regime mais corrupto de todos), mas nunca saberemos ao certo quem nem como e seguramente não seremos incomodados com notícias sobre corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Haverá corrupção, nepotismo e tráfico de influências, mas não se escreverá uma linha sobre isso nem se abrirá um processo, a menos que os crimes tenham sido cometidos por quem já não interessa ao regime e, nesse caso, também nunca saberemos se os acusados são ou não culpados, porque também deixará de haver julgamentos justos.
Imaginem o sossego! Acabam-se as notícias sobre casos, casinhos e megaprocessos. Acabam-se mesmo as notícias. A não ser aquelas que sirvam para exaltar as virtudes do ditador e do seu regime. Uma limpeza! Acaba-se com aqueles jornalistas ofegantes e comentadores maledicentes. Ninguém faz perguntas e ninguém chateia. Claro que se formos vítimas de uma injustiça nos vai custar talvez um pouco não a poder denunciar. Mas quem se importa com isso? Temos sempre o Tik Tok e o Instagram e o X e o Facebook, que lá falamos sem filtros. Ou será que não? Será que nos podem apagar comentários, bloquear a conta, tornar-nos invisíveis manipulando o algoritmo?
Não importa. Ao menos vai tudo a eito. Limpamos o pântano. Cortamos a direito com uma motosserra. E nós, os nacionais puros, os trabalhadores, os que não temem porque não devem, teremos tudo aquilo de que precisamos. Ou será que não? Como faremos se o plafond do seguro acabar quando nos chega o cancro? Como conseguiremos viver na velhice se alguém declarar que a Segurança Social é um Esquema de Ponzi? Como estudarão os nossos filhos se os preços dos colégios dispararem por já não haver escola pública?
E isso que importa? Viverão os mais fortes. E quem são os mais fortes? Somos nós, os vencedores. Aqueles que agora vivem tolhidos pelo inconveniente da crise política, que só não ascendem aos píncaros da fortuna porque são obrigados a pagar impostos, os que têm de levar com a maçada de votar.
Que chatice que é votar. Para que é que querem saber a nossa opinião? Que esbulho que é pagar impostos! Quem é que pode achar boa ideia contribuir com uma parte do seu trabalho para que todos possam ter acesso a saúde, educação, justiça, pontes e estradas. Mas se tudo isso falha, estamos a pagar para quê? Sim, falhará alguma coisa por agora, mas podemos dizer que falha sempre? E daquela vez em que a nossa mãe foi assistida por ter um cancro? E quando precisámos de recorrer ao centro de saúde ou à escola? Bem, não interessa. Havemos de ser dos que prosperam e não precisam do Estado para nada. E se não formos, é porque somos uns falhados e merecemos morrer.
E morrer, já se sabe, tem pelo menos uma enorme vantagem: não precisamos de ir votar.
'Vamos sorrir. Sorriso'”
A citação do título é da brasileira Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, deputado demitido pela ditadura militar que oprimiu o Brasil de 1964 a 1985. Ele foi retirado de casa, torturado e assassinado no quartel do Exército em 1971, mas sua família só conseguiu obter a certidão de óbito após 25 anos de dura luta. A história real de Eunice e sua família é contada no longa-metragem de Walter Salles Ainda Estou Aqui , vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. A vitória, celebrada (quase) como a final de uma Copa do Mundo no Brasil em meio a uma catarse carnavalesca , encontra hoje cinco crianças sem o corpo do pai para enterrá-lo; para um país com um presidente de centro-esquerda encurralado pela extrema direita, em grande parte um defensor dessa mesma ditadura; Nenhum dos cinco autores identificados foi punido, uma demora que já permitiu que três deles morressem sem responder pelo crime; a corrosão mundial da democracia, que ficou explícita numa cerimónia de Óscar sem qualquer crítica contundente ao horror diário praticado por Donald Trump e Elon Musk , como se os artistas abdicassem da sua responsabilidade pública e espontaneamente colocassem uma mordaça. A covardia parece ser uma das crueldades extras do novo fascismo.
Muitos esperam que o apoio e as comemorações da vitória unam, ao menos por um momento, um Brasil profundamente dividido, onde a possibilidade de diálogo foi rompida. Mas, como Eliana Paiva, uma das filhas, relembrou em entrevistas, o filme é sobre um assassinato brutal. E de um corpo insepulto. O que aponta para muitos outros corpos não enterrados.
Ao contrário de países como a Argentina, o Brasil não processou os crimes da ditadura militar. A falta de responsabilização, que até hoje permite que torturados encontrem seus torturadores na padaria da esquina, está no DNA da extrema direita representada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O premiado filme, que traz a memória a um país que optou por apagá-la, é mais um pequeno ato de resistência. “Vivemos em uma época em que a memória está sendo apagada como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante”, disse o diretor aos repórteres após a cerimônia.
A campanha do Oscar — e antes dela outros prêmios, como o Goya de melhor filme ibero-americano e o Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres, que interpreta a protagonista Eunice Paiva — estourou bolhas e já levou mais de cinco milhões de brasileiros às salas de cinema. Infelizmente, isso não se traduz em mais horror contra os torturadores e assassinos, que continuam agindo contra os negros pobres nas favelas e periferias do Brasil, nas delegacias e prisões.
O filme de Walter Salles merece todos os prêmios, mas seu sucesso de público mostra que as elites brasileiras (e mundiais) ainda têm mais facilidade de se identificar com uma família branca, de classe média, com uma mãe de cinco filhos dedicada ao lar e à família. Investigações da Comissão Nacional da Verdade revelaram 434 mortos e desaparecidos, a maioria deles brancos. A ditadura exterminou pelo menos 8.000 indígenas.
Para ser eficaz, a memória não pode ser seletiva. Eunice Paiva entendeu que as desigualdades também estão presentes na esquerda progressista. Após a violência contra sua família, ela se formou em direito e trabalhou por muitos anos para proteger os povos indígenas e seus territórios na Amazônia.
“Vamos sorrir. “Sorria” é um mantra de resistência. Eunice Paiva escolheu a vida, e essa é a escolha mais revolucionária, aquela que todos devemos fazer neste momento em que a democracia e o futuro humano no planeta estão sob ataque.
Muitos esperam que o apoio e as comemorações da vitória unam, ao menos por um momento, um Brasil profundamente dividido, onde a possibilidade de diálogo foi rompida. Mas, como Eliana Paiva, uma das filhas, relembrou em entrevistas, o filme é sobre um assassinato brutal. E de um corpo insepulto. O que aponta para muitos outros corpos não enterrados.
Ao contrário de países como a Argentina, o Brasil não processou os crimes da ditadura militar. A falta de responsabilização, que até hoje permite que torturados encontrem seus torturadores na padaria da esquina, está no DNA da extrema direita representada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O premiado filme, que traz a memória a um país que optou por apagá-la, é mais um pequeno ato de resistência. “Vivemos em uma época em que a memória está sendo apagada como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante”, disse o diretor aos repórteres após a cerimônia.
A campanha do Oscar — e antes dela outros prêmios, como o Goya de melhor filme ibero-americano e o Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres, que interpreta a protagonista Eunice Paiva — estourou bolhas e já levou mais de cinco milhões de brasileiros às salas de cinema. Infelizmente, isso não se traduz em mais horror contra os torturadores e assassinos, que continuam agindo contra os negros pobres nas favelas e periferias do Brasil, nas delegacias e prisões.
O filme de Walter Salles merece todos os prêmios, mas seu sucesso de público mostra que as elites brasileiras (e mundiais) ainda têm mais facilidade de se identificar com uma família branca, de classe média, com uma mãe de cinco filhos dedicada ao lar e à família. Investigações da Comissão Nacional da Verdade revelaram 434 mortos e desaparecidos, a maioria deles brancos. A ditadura exterminou pelo menos 8.000 indígenas.
Para ser eficaz, a memória não pode ser seletiva. Eunice Paiva entendeu que as desigualdades também estão presentes na esquerda progressista. Após a violência contra sua família, ela se formou em direito e trabalhou por muitos anos para proteger os povos indígenas e seus territórios na Amazônia.
“Vamos sorrir. “Sorria” é um mantra de resistência. Eunice Paiva escolheu a vida, e essa é a escolha mais revolucionária, aquela que todos devemos fazer neste momento em que a democracia e o futuro humano no planeta estão sob ataque.
A mentira como verdade
O principal canal de Donald Trump para disseminar mentiras chama-se Truth Social —Confederação da Verdade ou algo assim. É a rede social fundada por ele em 2021, destinada a disparar textos, posts e arquivos para os lorpas americanos. Mas, se a extrema direita acha que essa tática de fazer da mentira a verdade é de sua invenção, engana-se. Foi usada com grande sucesso pela União Soviética de 1917 a 1991, através de seu jornal oficial, Pravda, editado pelo Partido Comunista com a função de encobrir os crimes do Estado. Pravda, em português, quer dizer verdade.
Outra tática dos comunistas era inverter o sentido de certas palavras. Os países-satélites da URSS no Leste Europeu, tristes ditaduras subjugadas a Moscou, eram chamados de repúblicas "populares" ou "democráticas". O povo a que elas se referiam era o Comitê Central do Partido Comunista local, que supostamente o representava. Da mesma forma, na Alemanha, o nazismo era uma abreviatura de "nacional-socialismo". Não tinha nada de socialista, mas a palavra ajudou-o a consolidar-se.
Corromper palavras é típico dos autoritários de qualquer cor política. Bolsonaro e seus esbirros, adeptos da ditadura militar que asfixiou o Brasil por 21 anos, têm o cinismo de gritar por "liberdade de expressão" —liberdade que querem usar justamente para suprimi-la se voltarem ao poder. É o mesmo cinismo com que dizem "o Brasil acima de tudo" enquanto municiam Trump para afrontar a soberania brasileira.
O perigo não está só na mentira, mas, pior ainda, na mentira como verdade.
Em "1984", romance de George Orwell, a mentira era também a especialidade do Ministério da Verdade, órgão dedicado a "corrigir" periodicamente a história, falsificando informações e convertendo antigos heróis em inimigos do regime. Seu slogan era "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado". Seu modelo era o mesmo Pravda, que apagava das fotos os velhos revolucionários que tinham se voltado contra Stalin.
Outra tática dos comunistas era inverter o sentido de certas palavras. Os países-satélites da URSS no Leste Europeu, tristes ditaduras subjugadas a Moscou, eram chamados de repúblicas "populares" ou "democráticas". O povo a que elas se referiam era o Comitê Central do Partido Comunista local, que supostamente o representava. Da mesma forma, na Alemanha, o nazismo era uma abreviatura de "nacional-socialismo". Não tinha nada de socialista, mas a palavra ajudou-o a consolidar-se.
Corromper palavras é típico dos autoritários de qualquer cor política. Bolsonaro e seus esbirros, adeptos da ditadura militar que asfixiou o Brasil por 21 anos, têm o cinismo de gritar por "liberdade de expressão" —liberdade que querem usar justamente para suprimi-la se voltarem ao poder. É o mesmo cinismo com que dizem "o Brasil acima de tudo" enquanto municiam Trump para afrontar a soberania brasileira.
O perigo não está só na mentira, mas, pior ainda, na mentira como verdade.
quarta-feira, 5 de março de 2025
A implosão da mentira
Mentiram-me.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a
nódoa sobre o rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por
lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a
nódoa sobre o rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por
lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.
Affonso Romano de Sant’Anna
O sueco
Os problemas do Brasil, as mesquinharias de nossa vida pública, a miséria fundamental de nosso povo, todas essas coisas de repente cansam e desanimam uma pessoa sensível. Evandro Pequeno encontrou uma solução: “Eu sou um sueco em trânsito.”
Não saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo e escrevendo por aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada (muito menos pela famosa dívida externa), não ter vergonha de nada: ser um sueco em trânsito.
E, se possível, como Evandro fazia, tocar fagote.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
Não saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo e escrevendo por aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada (muito menos pela famosa dívida externa), não ter vergonha de nada: ser um sueco em trânsito.
E, se possível, como Evandro fazia, tocar fagote.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
O que Orwell pensaria da briga de Trump e Zelenski?
Quem leu "1984", de George Orwell, lembra-se do ambiente de permanente vigilância e opressão, do medo e da lavagem cerebral, da novilíngua e do Grande Irmão. Mas em geral esquece a lição de geopolítica que o romance encerra.
Em "1984" há três blocos. O primeiro, dominado pelos Estados Unidos da América, é a Oceânia, e inclui todas as Américas mas também as Ilhas Britânicas. O segundo bloco é a Eurásia, dominado pela União Soviética e que vai, como o ex-presidente Dmitri Medvedev gosta tanto de dizer ainda hoje, de Lisboa a Vladivostok. O terceiro é a Lestásia, e é dominado pela China, incluindo o Extremo Oriente e parte do Sudeste Asiático.
Donald Trump não leu "1984". Mas o mundo de que ele gosta é quase igual ao do romance. Há três potências que têm supersoberania: ele, Vladimir Putin e Xi Jinping. Os outros que se adaptem. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial tratam da hipervigilância. E a democracia dissolve-se num permanente espetáculo narcísico.
Esse ensaio tinha por título "Sobre a Unidade Europeia" e desenhava a proposta de uma federação continental, com um forte viés socialista democrático, uma sociedade pluralista e de bem-estar que assegurava a sua independência por meio da integração de países médios e pequenos. A construção da unidade europeia era a forma de evitar o esmagamento do continente entre o imperialismo do Kremlin e o da Casa Branca, que acabaram por dividir a Europa a meio.
Pergunto-me como teria Orwell visto aquele vergonhoso momento de agressão verbal de Trump e seu vice, J. D. Vance, a Volodimir Zelenski, no Salão Oval, na semana passada. Por um lado, creio que não teria ficado surpreendido, ele que uma vez escreveu que "se quereis uma visão do futuro, basta imaginar a imagem de uma bota a pisar um rosto humano, para sempre".
Ele entenderia que a brutalidade para o novo fascismo do século 21, tal como para o original do século 20, é uma parte essencial da natureza política do movimento, não apenas um subproduto.
Por outro lado, Orwell ficaria ainda mais assustado, porque o que está em cima da mesa agora não é Trump e Putin dividirem a Europa a meio, mas partilharem-na entre si. E ficaria ainda mais preocupado porque os instrumentos tecnológicos de vigilância que existem hoje são ainda mais perigosos do que aqueles que ele imaginou para o seu romance.
Perante isso, o que fazer? O episódio do Salão Oval teve ao menos a vantagem de deixar claro perante os europeus que a sua unidade não é apenas uma ideia bonita, mas uma necessidade prática.
Os desafios atuais transcendem as fronteiras da Europa. Faz sentido hoje reinventar o mundo livre, e incluir todas as democracias que ainda não soçobraram, para reformar as Nações Unidas e refazer a globalização. Para grandes males, grandes remédios.
Em "1984" há três blocos. O primeiro, dominado pelos Estados Unidos da América, é a Oceânia, e inclui todas as Américas mas também as Ilhas Britânicas. O segundo bloco é a Eurásia, dominado pela União Soviética e que vai, como o ex-presidente Dmitri Medvedev gosta tanto de dizer ainda hoje, de Lisboa a Vladivostok. O terceiro é a Lestásia, e é dominado pela China, incluindo o Extremo Oriente e parte do Sudeste Asiático.
Donald Trump não leu "1984". Mas o mundo de que ele gosta é quase igual ao do romance. Há três potências que têm supersoberania: ele, Vladimir Putin e Xi Jinping. Os outros que se adaptem. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial tratam da hipervigilância. E a democracia dissolve-se num permanente espetáculo narcísico.
Foi em 1948 que George Orwell escreveu "1984" (o título é uma mera inversão do ano em que estava). O romance foi o seu diagnóstico de pesadelo para o mundo que antevia antes de morrer, no ano seguinte. Mas também em 1948 Orwell escreveu um ensaio político, que quase ninguém leu, no qual expunha o seu otimismo da vontade em relação à alternativa política ao mundo que temia.
Esse ensaio tinha por título "Sobre a Unidade Europeia" e desenhava a proposta de uma federação continental, com um forte viés socialista democrático, uma sociedade pluralista e de bem-estar que assegurava a sua independência por meio da integração de países médios e pequenos. A construção da unidade europeia era a forma de evitar o esmagamento do continente entre o imperialismo do Kremlin e o da Casa Branca, que acabaram por dividir a Europa a meio.
Pergunto-me como teria Orwell visto aquele vergonhoso momento de agressão verbal de Trump e seu vice, J. D. Vance, a Volodimir Zelenski, no Salão Oval, na semana passada. Por um lado, creio que não teria ficado surpreendido, ele que uma vez escreveu que "se quereis uma visão do futuro, basta imaginar a imagem de uma bota a pisar um rosto humano, para sempre".
Ele entenderia que a brutalidade para o novo fascismo do século 21, tal como para o original do século 20, é uma parte essencial da natureza política do movimento, não apenas um subproduto.
Por outro lado, Orwell ficaria ainda mais assustado, porque o que está em cima da mesa agora não é Trump e Putin dividirem a Europa a meio, mas partilharem-na entre si. E ficaria ainda mais preocupado porque os instrumentos tecnológicos de vigilância que existem hoje são ainda mais perigosos do que aqueles que ele imaginou para o seu romance.
Perante isso, o que fazer? O episódio do Salão Oval teve ao menos a vantagem de deixar claro perante os europeus que a sua unidade não é apenas uma ideia bonita, mas uma necessidade prática.
Os desafios atuais transcendem as fronteiras da Europa. Faz sentido hoje reinventar o mundo livre, e incluir todas as democracias que ainda não soçobraram, para reformar as Nações Unidas e refazer a globalização. Para grandes males, grandes remédios.
Trump abandonar Ucrânia evoca pacto de 1938 com nazistas
"Não posso deixar de me perguntar: já estivemos aqui antes? Tchecoslováquia, 1938. Temos um agressor às nossas portas, com a intenção de tomar território que não é dele. E os negociadores [...] já estão entregando suas fichas de barganha antes mesmo de as negociações começarem. Essa é uma tática desastrosa. E estamos caminhando a toda velocidade para o desastre."
Essas observações foram feitas em fevereiro por Kaja Kallas, ex-premiê da Estônia e atual alta representante da União Europeia para Exterior e Segurança, durante a Conferência de Segurança de Munique.
O local do discurso não poderia ser mais simbólico: a poucas centenas de metros do prédio no qual, há 86 anos, líderes da França e do Império Britânico assinaram o Acordo de Munique, que marcou o clímax da política de apaziguamento dos anos 1930, quando potências ocidentais concordaram em ceder a ambições territoriais da Alemanha nazista na esperança de que isso serviria para evitar um novo conflito mundial.
Como parte do acordo, em 1938, líderes franceses e britânicos decidiram abandonar aos nazistas a antiga Tchecoslováquia (hoje dividida entre República Tcheca e Eslováquia), permitindo que o regime de Adolf Hitler anexasse, sem luta, parte considerável do país da Europa Central. Em nenhum momento os tchecoslovacos foram ouvidos, enquanto as potências da época decidiam seu destino.
No entanto, longe de satisfazer os nazistas, o acordo foi rapidamente rasgado por Hitler, que, bastante reforçado pelo domínio do novo território, anexou o restante da Tchecoslováquia e depois voltou seus olhos para a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Entre os tchecos, o acordo ficou conhecido como "A traição de Munique". E para vários líderes se tornou um paradigma de que a política de apaziguamento, quando aplicada a regimes expansionistas e agressivos, está fadada ao fracasso.
"Como historiador e político, a única coisa que posso dizer hoje é: Munique nunca mais”, disse o premiê polonês Donald Tusk, na mesma conferência em fevereiro de 2025, ecoando a visão da estoniana Kallas.
Os dois políticos do Leste Europeu não estavam apenas citando um acordo que é considerado um dos maiores desastres da história da diplomacia, mas também manifestando temor de que a história possa se repetir agora com a Ucrânia, há três anos está sob ataque da Rússia sob Vladimir Putin.
Tusk e Kallas evitaram mencionar nomes, mas entre os participantes da conferência estava claro que o temor era que os EUA, desde janeiro novamente sob o comando de Donald Trump, reencenassem o papel dos britânicos e franceses em 1938, abandonando os ucranianos frente aos russos.
E, ao longo de fevereiro, o temor entre os europeus apenas foi reforçado. Trump revelou que havia começado a conversar diretamente com Putin, e negociadores americanos e russos se reuniram na Arábia Saudita para falar sobre a guerra – os ucranianos e seus aliados na Europa não foram convidados.
Em seguida, Trump declarou que não achava "importante” que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, participasse das negociações, e começou a condicionar a continuidade da ajuda militar e financeira dos EUA aos ucranianos à assinatura de um bilionário acordo de exploração mineral, classificado por alguns analistas como uma "extorsão”. Posteriormente, chamou o líder ucraniano de "ditador" e fez elogios a Putin.
A virada na posição americana ficou mais clara quando representantes do governo Trump começaram a falar abertamente em pressionar os ucranianos a fazerem concessões territoriais ao Kremlin para pôr fim ao conflito – atualmente, os russos ocupam 20% do território ucraniano.
"Esta guerra precisa acabar e isso exigirá concessões territoriais", pontificou Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, nesta segunda-feira (03/03), horas antes de a Casa Branca suspender novos pacotes de ajuda aos ucranianos. Ao mesmo tempo, acrescentou que "isso exigirá concessões russas em termos de garantias de segurança".
No entanto, como lembram historiadores, Hitler também ofereceu em 1938 ao então premiê britânico Neville Chamberlain garantias semelhantes de que se contentaria com uma fatia da Tchecoslováquia, antes de ocupar completamente o país e direcionar suas tropas para outros alvos.
"Em comparação com as concessões de Donald Trump a Vladimir Putin, até mesmo a política fatal de apaziguamento de Neville Chamberlain em relação a Hitler parece um realismo corajoso e baseado em princípios. Afinal de contas, Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, estava tentando evitar uma grande guerra na Europa. A manobra de Trump, por outro lado, ocorre quando a guerra já está em andamento”, apontou o historiador britânico Timothy Garton Ash, em artigo publicado no semanário alemão Die Zeit.
Entre 1933 e 1938, o regime nazista de Adolf Hitler adotou uma política rearmamento e de violação de tratados assinados pela Alemanha na esteira da derrota na Primeira Guerra Mundial. Vários desses passos, como a remilitarização da região ocidental alemã da Renânia em 1936, e a anexação da vizinha Áustria em 1938, provocaram pouca comoção entre a França e o Império Britânico.
Na segunda metade de 1938, Hitler começou a voltar suas atenções para a região montanhosa dos Sudetos, uma fatia da Tchecoslováquia com 3 milhões de habitantes, na maioria de etnia alemã, e que representava 25% do território do país. Sob Hitler, que via a Tchecoslováquia como um estado "artificial" e "fraudulento", a propaganda nazista começou a inundar a Alemanha, denunciando que os alemães dos Sudetos estavam supostamente sofrendo atrocidades nas mãos dos eslavos tchecoslovacos. Os nazistas então começaram a deslocar tropas para a fronteira.
Criada em 1918, após o colapso do Império Austro-Húngaro, a Tchecoslováquia era oficialmente aliada da França e possuía relações amistosas com os britânicos. E a região dos Sudetos, que estava na mira de Hitler, era peça primordial da estratégia de defesa tchecoslovaca, possuindo uma rede reforçada de fortalezas e bunkers. O país possuía ainda um dos parques industriais mais formidáveis da Europa.
No entanto, franceses e britânicos decidiram não agir para defender a Tchecoslováquia. Diante das ameaças de Hitler, o então premiê britânico Neville Chamberlain solicitou uma reunião com o ditador, na esperança de que se encontrasse uma solução diplomática para evitar a guerra. Uma série de encontros entre ambos se sucedeu em setembro de 1939.
Historiadores apontam que Chamberlain era motivado tanto pelo trauma da participação britânica na Primeira Guerra Mundial, quando seu país perdeu mais de 800 mil soldados, quanto pelo temor de que suas tropas ainda não estivessem prontas para um novo conflito.
Os encontros culminaram numa reunião final em Munique, na Baviera, com a assinatura de um acordo entre a Alemanha nazista, a Itália fascista, a França e o Império Britânico. Em troca de garantias de paz, Hitler recebeu sinal verde para anexar os Sudetos.
Em nenhum momento das negociações os tchecoslovacos foram ouvidos. O mesmo ocorreu com a União Soviética, que à época também era aliada da Tchecoslováquia. "Sobre a gente, sem a gente”, dizia sobre Munique um slogan tchecoslovaco da época. Chamberlain voltou a Londres no fim de setembro de 1938 afirmando que o acordo garantia a "paz para o nosso tempo".
Houve alívio no Império Britânico e na França de que os países teriam evitado se envolver numa guerra, mas também surgiram críticas. As principais vieram de Winston Churchill, que viria a suceder a Chamberlain como premiê em 1940, quando- resumiria a política de apaziguamento como um homem que "alimenta um crocodilo” na esperança de que o animal "vá comê-lo por último".
Apesar do discurso triunfal de Chamberlain, seria uma questão de poucos meses para os nazistas rasgarem completamente o acordo. Horas após a assinatura, o próprio Hitler manifestou ao seu círculo próximo que aquela seria a última vez em que aceitaria participar desse tipo de conferência, e repetidamente expressou desprezo pelos esforços franco-britânicos.
"Nossos inimigos são homens abaixo da média, não são homens de ação, não são mestres. Eles são pequenos vermes. Eu os vi em Munique", disse o ditador nazista em 1939 a um grupo de generais.
No fim da primeira quinzena de março de 1939, meros cinco meses após a conferência, Hitler enterrou qualquer ilusão de que pretendia garantir o restante da integridade da Tchecoslováquia, ao convocar o então presidente, Emil Hácha, e forçá-lo, num encontro marcado por ameaças e intensa pressão, a aceitar a ocupação do restante do território.
Sem as fortificações dos Sudetos e abandonado pelas potências ocidentais, Hácha capitulou. As tropas nazistas ocuparam sem luta o território em 16 de março. Boa parte do país foi renomeado "Protetorado da Boêmia e da Morávia”, enquanto a fatia eslovaca foi transformada num estado-cliente da Alemanha nazista e confiada a um grupo de fascistas-católicos eslovacos.
Pouco menos de seis meses depois, em setembro, Hitler, sem precisar se preocupar com uma ameaça militar da Tchecoslováquia e com seu exército reforçado por armamentos produzidos pela indústria pesada do novo território anexado, voltou seus olhos para a Polônia, ordenando a invasão do país. Desta vez, no entanto, a França e o Império Britânico reagiram. Era o início da Segunda Guerra Mundial, que só terminaria em 1945, deixando mais de 50 milhões de mortos.
Mais de 80 anos depois do Pacto de Munique, o historiador americano Timothy Snyder apontou que, se a Tchecoslováquia tivesse resistido em 1938 e recebido assistência dos franceses e britânicos, o século 20 teria sido bem diferente.
"Se os tchecos resistissem, e os franceses, os britânicos e talvez os americanos começassem a ajudar, haveria um conflito, mas não haveria uma Segunda Guerra Mundial”, disse o historiador em entrevista ao jornal The Guardian em 2024. "Em vez disso, quando a Alemanha invadiu a Polônia em 1939, ela estava invadindo a Polônia com a indústria de armamentos tcheca, que era a melhor do mundo. Estava invadindo com soldados eslovacos. Estava invadindo a partir de uma posição geográfica que só conquistara por haver destruído a Tchecoslováquia.”
Snyder traçou ainda paralelos com a situação atual da Ucrânia: "Se os ucranianos desistirem, ou se nós desistirmos da Ucrânia, então será a Rússia fazendo guerra no futuro. Será a Rússia fazendo guerra com tecnologia ucraniana, numa posição geográfica diferente. Nesse ponto, estaremos em 1939. [Mas] estamos em 1938 agora. Na verdade, o que os ucranianos estão nos permitindo fazer é estender 1938."
Essas observações foram feitas em fevereiro por Kaja Kallas, ex-premiê da Estônia e atual alta representante da União Europeia para Exterior e Segurança, durante a Conferência de Segurança de Munique.
O local do discurso não poderia ser mais simbólico: a poucas centenas de metros do prédio no qual, há 86 anos, líderes da França e do Império Britânico assinaram o Acordo de Munique, que marcou o clímax da política de apaziguamento dos anos 1930, quando potências ocidentais concordaram em ceder a ambições territoriais da Alemanha nazista na esperança de que isso serviria para evitar um novo conflito mundial.
Como parte do acordo, em 1938, líderes franceses e britânicos decidiram abandonar aos nazistas a antiga Tchecoslováquia (hoje dividida entre República Tcheca e Eslováquia), permitindo que o regime de Adolf Hitler anexasse, sem luta, parte considerável do país da Europa Central. Em nenhum momento os tchecoslovacos foram ouvidos, enquanto as potências da época decidiam seu destino.
No entanto, longe de satisfazer os nazistas, o acordo foi rapidamente rasgado por Hitler, que, bastante reforçado pelo domínio do novo território, anexou o restante da Tchecoslováquia e depois voltou seus olhos para a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Entre os tchecos, o acordo ficou conhecido como "A traição de Munique". E para vários líderes se tornou um paradigma de que a política de apaziguamento, quando aplicada a regimes expansionistas e agressivos, está fadada ao fracasso.
"Como historiador e político, a única coisa que posso dizer hoje é: Munique nunca mais”, disse o premiê polonês Donald Tusk, na mesma conferência em fevereiro de 2025, ecoando a visão da estoniana Kallas.
Os dois políticos do Leste Europeu não estavam apenas citando um acordo que é considerado um dos maiores desastres da história da diplomacia, mas também manifestando temor de que a história possa se repetir agora com a Ucrânia, há três anos está sob ataque da Rússia sob Vladimir Putin.
Tusk e Kallas evitaram mencionar nomes, mas entre os participantes da conferência estava claro que o temor era que os EUA, desde janeiro novamente sob o comando de Donald Trump, reencenassem o papel dos britânicos e franceses em 1938, abandonando os ucranianos frente aos russos.
E, ao longo de fevereiro, o temor entre os europeus apenas foi reforçado. Trump revelou que havia começado a conversar diretamente com Putin, e negociadores americanos e russos se reuniram na Arábia Saudita para falar sobre a guerra – os ucranianos e seus aliados na Europa não foram convidados.
Em seguida, Trump declarou que não achava "importante” que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, participasse das negociações, e começou a condicionar a continuidade da ajuda militar e financeira dos EUA aos ucranianos à assinatura de um bilionário acordo de exploração mineral, classificado por alguns analistas como uma "extorsão”. Posteriormente, chamou o líder ucraniano de "ditador" e fez elogios a Putin.
A virada na posição americana ficou mais clara quando representantes do governo Trump começaram a falar abertamente em pressionar os ucranianos a fazerem concessões territoriais ao Kremlin para pôr fim ao conflito – atualmente, os russos ocupam 20% do território ucraniano.
"Esta guerra precisa acabar e isso exigirá concessões territoriais", pontificou Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, nesta segunda-feira (03/03), horas antes de a Casa Branca suspender novos pacotes de ajuda aos ucranianos. Ao mesmo tempo, acrescentou que "isso exigirá concessões russas em termos de garantias de segurança".
No entanto, como lembram historiadores, Hitler também ofereceu em 1938 ao então premiê britânico Neville Chamberlain garantias semelhantes de que se contentaria com uma fatia da Tchecoslováquia, antes de ocupar completamente o país e direcionar suas tropas para outros alvos.
"Em comparação com as concessões de Donald Trump a Vladimir Putin, até mesmo a política fatal de apaziguamento de Neville Chamberlain em relação a Hitler parece um realismo corajoso e baseado em princípios. Afinal de contas, Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, estava tentando evitar uma grande guerra na Europa. A manobra de Trump, por outro lado, ocorre quando a guerra já está em andamento”, apontou o historiador britânico Timothy Garton Ash, em artigo publicado no semanário alemão Die Zeit.
Entre 1933 e 1938, o regime nazista de Adolf Hitler adotou uma política rearmamento e de violação de tratados assinados pela Alemanha na esteira da derrota na Primeira Guerra Mundial. Vários desses passos, como a remilitarização da região ocidental alemã da Renânia em 1936, e a anexação da vizinha Áustria em 1938, provocaram pouca comoção entre a França e o Império Britânico.
Na segunda metade de 1938, Hitler começou a voltar suas atenções para a região montanhosa dos Sudetos, uma fatia da Tchecoslováquia com 3 milhões de habitantes, na maioria de etnia alemã, e que representava 25% do território do país. Sob Hitler, que via a Tchecoslováquia como um estado "artificial" e "fraudulento", a propaganda nazista começou a inundar a Alemanha, denunciando que os alemães dos Sudetos estavam supostamente sofrendo atrocidades nas mãos dos eslavos tchecoslovacos. Os nazistas então começaram a deslocar tropas para a fronteira.
Criada em 1918, após o colapso do Império Austro-Húngaro, a Tchecoslováquia era oficialmente aliada da França e possuía relações amistosas com os britânicos. E a região dos Sudetos, que estava na mira de Hitler, era peça primordial da estratégia de defesa tchecoslovaca, possuindo uma rede reforçada de fortalezas e bunkers. O país possuía ainda um dos parques industriais mais formidáveis da Europa.
No entanto, franceses e britânicos decidiram não agir para defender a Tchecoslováquia. Diante das ameaças de Hitler, o então premiê britânico Neville Chamberlain solicitou uma reunião com o ditador, na esperança de que se encontrasse uma solução diplomática para evitar a guerra. Uma série de encontros entre ambos se sucedeu em setembro de 1939.
Historiadores apontam que Chamberlain era motivado tanto pelo trauma da participação britânica na Primeira Guerra Mundial, quando seu país perdeu mais de 800 mil soldados, quanto pelo temor de que suas tropas ainda não estivessem prontas para um novo conflito.
Os encontros culminaram numa reunião final em Munique, na Baviera, com a assinatura de um acordo entre a Alemanha nazista, a Itália fascista, a França e o Império Britânico. Em troca de garantias de paz, Hitler recebeu sinal verde para anexar os Sudetos.
Em nenhum momento das negociações os tchecoslovacos foram ouvidos. O mesmo ocorreu com a União Soviética, que à época também era aliada da Tchecoslováquia. "Sobre a gente, sem a gente”, dizia sobre Munique um slogan tchecoslovaco da época. Chamberlain voltou a Londres no fim de setembro de 1938 afirmando que o acordo garantia a "paz para o nosso tempo".
Houve alívio no Império Britânico e na França de que os países teriam evitado se envolver numa guerra, mas também surgiram críticas. As principais vieram de Winston Churchill, que viria a suceder a Chamberlain como premiê em 1940, quando- resumiria a política de apaziguamento como um homem que "alimenta um crocodilo” na esperança de que o animal "vá comê-lo por último".
Apesar do discurso triunfal de Chamberlain, seria uma questão de poucos meses para os nazistas rasgarem completamente o acordo. Horas após a assinatura, o próprio Hitler manifestou ao seu círculo próximo que aquela seria a última vez em que aceitaria participar desse tipo de conferência, e repetidamente expressou desprezo pelos esforços franco-britânicos.
"Nossos inimigos são homens abaixo da média, não são homens de ação, não são mestres. Eles são pequenos vermes. Eu os vi em Munique", disse o ditador nazista em 1939 a um grupo de generais.
No fim da primeira quinzena de março de 1939, meros cinco meses após a conferência, Hitler enterrou qualquer ilusão de que pretendia garantir o restante da integridade da Tchecoslováquia, ao convocar o então presidente, Emil Hácha, e forçá-lo, num encontro marcado por ameaças e intensa pressão, a aceitar a ocupação do restante do território.
Sem as fortificações dos Sudetos e abandonado pelas potências ocidentais, Hácha capitulou. As tropas nazistas ocuparam sem luta o território em 16 de março. Boa parte do país foi renomeado "Protetorado da Boêmia e da Morávia”, enquanto a fatia eslovaca foi transformada num estado-cliente da Alemanha nazista e confiada a um grupo de fascistas-católicos eslovacos.
Pouco menos de seis meses depois, em setembro, Hitler, sem precisar se preocupar com uma ameaça militar da Tchecoslováquia e com seu exército reforçado por armamentos produzidos pela indústria pesada do novo território anexado, voltou seus olhos para a Polônia, ordenando a invasão do país. Desta vez, no entanto, a França e o Império Britânico reagiram. Era o início da Segunda Guerra Mundial, que só terminaria em 1945, deixando mais de 50 milhões de mortos.
Mais de 80 anos depois do Pacto de Munique, o historiador americano Timothy Snyder apontou que, se a Tchecoslováquia tivesse resistido em 1938 e recebido assistência dos franceses e britânicos, o século 20 teria sido bem diferente.
"Se os tchecos resistissem, e os franceses, os britânicos e talvez os americanos começassem a ajudar, haveria um conflito, mas não haveria uma Segunda Guerra Mundial”, disse o historiador em entrevista ao jornal The Guardian em 2024. "Em vez disso, quando a Alemanha invadiu a Polônia em 1939, ela estava invadindo a Polônia com a indústria de armamentos tcheca, que era a melhor do mundo. Estava invadindo com soldados eslovacos. Estava invadindo a partir de uma posição geográfica que só conquistara por haver destruído a Tchecoslováquia.”
Snyder traçou ainda paralelos com a situação atual da Ucrânia: "Se os ucranianos desistirem, ou se nós desistirmos da Ucrânia, então será a Rússia fazendo guerra no futuro. Será a Rússia fazendo guerra com tecnologia ucraniana, numa posição geográfica diferente. Nesse ponto, estaremos em 1939. [Mas] estamos em 1938 agora. Na verdade, o que os ucranianos estão nos permitindo fazer é estender 1938."
Oscar 2025: Meio século numa noite
Entre a noite em que Walter Salles recebeu o Oscar, em Los Angeles, e o dia, no Rio de Janeiro, em que Rubens Paiva foi sequestrado pela ditadura militar do seio da sua família, passaram-se 54 anos, um mês e dez dias. Nesse tempo, Eunice e seus cinco filhos enfrentaram tudo à espera do corpo que não veio. Hoje o país está imerso nessa história como se ela tivesse acontecido ontem. Não esquecer foi a grande virtude do Brasil. Tornar a história conhecida do mundo foi o maior prêmio que o filme deu a nós e à democracia brasileira. A estatueta de “Ainda estou aqui” chega no momento exato em que precisamos dela.
Assisti à cerimônia do Oscar com minhas netas mais novas, Manuela, 13, e Isabel, 11. Quando Rubens Paiva morreu, o pai delas, Vladimir, não havia nascido. Elas viram o filme, falam com intimidade sobre Eunice, Rubens e seus filhos, como se os conhecessem. O fio que trouxe a história até nós foi tecido, primeiramente, pelas mãos de Eunice. Depois, pela literatura de Marcelo Rubens Paiva. Por fim, pelo cinema brasileiro. Mais de cinco milhões de pessoas viram o filme, incontáveis famílias conversaram sobre esse tema nos seus encontros. Isso não é pouco num país em que o desmonte da memória é uma estratégia para escapar dos temas incômodos.
Depois do seu breve e discreto discurso, em que jogou luz sobre Eunice e as Fernandas, Walter Salles, na sala de imprensa, alertou para a fragilidade da democracia, “tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”. E foi ao ponto central. “Vivemos um momento em que a memória está sendo apagada, como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante.”
Fernanda Torres não ganhou o Oscar de melhor atriz e, das seis indicadas, ela é a melhor. A história exigia uma interpretação com sensibilidade e maestria técnica. Ela construiu a personagem com delicadeza. Neste tempo em que acompanhou a caravana “Ainda Estou Aqui” até o palco do Dolby Theater, o Brasil esteve em diálogo constante com Fernanda Torres. Ela conta que a mãe, a monumental Fernanda Montenegro, a orientou sobre como interpretar tragédias gregas. Com mais intensidade do que desespero, porque o sofrimento será longo. Foi o que ela fez na sua Eunice. “É uma família normal, mas enfrentando algo como Antígona, algo do tamanho de um destino grego, uma tragédia grega”, disse ela em uma de suas entrevistas.
Fernanda Torres volta ao Brasil coberta de glória após ter sido, como ela definiu, “abduzida por uma nave espacial para uma realidade paralela”. Ela fez por merecer nosso amor. Moveu-se no palco do mundo com uma naturalidade que nos orgulhou. Não se deslumbrou, não esqueceu a personagem e sempre lembrou do seu país. Numa de suas melhores entrevistas, disse que o Brasil tem pena de que o mundo não nos conheça. Nas ruas desse carnaval, o espírito lúdico e irreverente usou a Fernanda Torres como seu principal motivo para brincar.
Isso não conflita com a carga emocional da história contada no filme. Foram muitos os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar. Ulysses Guimarães, no momento constituinte da democracia, escolheu Rubens Paiva como o símbolo da sociedade que venceu os facínoras.
A Lei da Anistia pela qual Eunice lutou nos trouxe de volta quem fazia falta ao país, mas foi envenenada pela imposição da impunidade dos criminosos. A luta pelo direito dos povos indígenas ganhou musculatura com a sua militância jurídica e política, mas requer cada vez mais vigilância.
“O nome dela é Eunice Paiva”, disse Walter Salles ao receber o prêmio visto por um bilhão de pessoas. Como é forte essa história. O marido é preso e seu corpo desaparece por ação do governo. Eunice volta para a faculdade, se forma em Direito, educa os filhos, se une às lutas do seu povo, espera 25 anos por uma certidão de óbito, mantém acesa para o país a memória do marido até que a sua memória se esvai. Seu filho, atingido por um acidente que o deixa numa cadeira de rodas, resgata toda a história com a sua envolvente literatura. O cinema brasileiro leva o drama às telas no exato momento em que o horror volta a rondar o país. Selton Mello, que dá vida ao personagem cujo corpo foi sonegado à família — de novo a tragédia grega nos lembra do direito sagrado de as famílias enterrarem seus mortos — disse que entendeu nessa caminhada que o filme era o “corpo de Rubens Paiva”. Como disse Fernanda Torres ao receber o Globo de Ouro: “Que história, Walter!”.
Assisti à cerimônia do Oscar com minhas netas mais novas, Manuela, 13, e Isabel, 11. Quando Rubens Paiva morreu, o pai delas, Vladimir, não havia nascido. Elas viram o filme, falam com intimidade sobre Eunice, Rubens e seus filhos, como se os conhecessem. O fio que trouxe a história até nós foi tecido, primeiramente, pelas mãos de Eunice. Depois, pela literatura de Marcelo Rubens Paiva. Por fim, pelo cinema brasileiro. Mais de cinco milhões de pessoas viram o filme, incontáveis famílias conversaram sobre esse tema nos seus encontros. Isso não é pouco num país em que o desmonte da memória é uma estratégia para escapar dos temas incômodos.
Depois do seu breve e discreto discurso, em que jogou luz sobre Eunice e as Fernandas, Walter Salles, na sala de imprensa, alertou para a fragilidade da democracia, “tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”. E foi ao ponto central. “Vivemos um momento em que a memória está sendo apagada, como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante.”
Fernanda Torres não ganhou o Oscar de melhor atriz e, das seis indicadas, ela é a melhor. A história exigia uma interpretação com sensibilidade e maestria técnica. Ela construiu a personagem com delicadeza. Neste tempo em que acompanhou a caravana “Ainda Estou Aqui” até o palco do Dolby Theater, o Brasil esteve em diálogo constante com Fernanda Torres. Ela conta que a mãe, a monumental Fernanda Montenegro, a orientou sobre como interpretar tragédias gregas. Com mais intensidade do que desespero, porque o sofrimento será longo. Foi o que ela fez na sua Eunice. “É uma família normal, mas enfrentando algo como Antígona, algo do tamanho de um destino grego, uma tragédia grega”, disse ela em uma de suas entrevistas.
Fernanda Torres volta ao Brasil coberta de glória após ter sido, como ela definiu, “abduzida por uma nave espacial para uma realidade paralela”. Ela fez por merecer nosso amor. Moveu-se no palco do mundo com uma naturalidade que nos orgulhou. Não se deslumbrou, não esqueceu a personagem e sempre lembrou do seu país. Numa de suas melhores entrevistas, disse que o Brasil tem pena de que o mundo não nos conheça. Nas ruas desse carnaval, o espírito lúdico e irreverente usou a Fernanda Torres como seu principal motivo para brincar.
Isso não conflita com a carga emocional da história contada no filme. Foram muitos os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar. Ulysses Guimarães, no momento constituinte da democracia, escolheu Rubens Paiva como o símbolo da sociedade que venceu os facínoras.
A Lei da Anistia pela qual Eunice lutou nos trouxe de volta quem fazia falta ao país, mas foi envenenada pela imposição da impunidade dos criminosos. A luta pelo direito dos povos indígenas ganhou musculatura com a sua militância jurídica e política, mas requer cada vez mais vigilância.
“O nome dela é Eunice Paiva”, disse Walter Salles ao receber o prêmio visto por um bilhão de pessoas. Como é forte essa história. O marido é preso e seu corpo desaparece por ação do governo. Eunice volta para a faculdade, se forma em Direito, educa os filhos, se une às lutas do seu povo, espera 25 anos por uma certidão de óbito, mantém acesa para o país a memória do marido até que a sua memória se esvai. Seu filho, atingido por um acidente que o deixa numa cadeira de rodas, resgata toda a história com a sua envolvente literatura. O cinema brasileiro leva o drama às telas no exato momento em que o horror volta a rondar o país. Selton Mello, que dá vida ao personagem cujo corpo foi sonegado à família — de novo a tragédia grega nos lembra do direito sagrado de as famílias enterrarem seus mortos — disse que entendeu nessa caminhada que o filme era o “corpo de Rubens Paiva”. Como disse Fernanda Torres ao receber o Globo de Ouro: “Que história, Walter!”.
Nação, Democracia e uma certa ideia de refúgio
Há uma frase atribuída ao escritor inglês Samuel Johnson, nascido no início do século XVIII, que correu mundo, sendo citada até por Vladimir Lenin, o líder da Revolução Russa de 1917. Ela diz o seguinte: "O nacionalismo é o último refúgio dos calhordas". Ou seja, o ditador manda matar, manda torturar, desdenha as instituições, rouba ou deixa roubar, mas é um nacionalista. Está desculpado. Ama o seu país e ponto final.
Mas… de que nação estamos mesmo falando? De uma nação sem povo, só com hino e bandeira, muito provavelmente. Aí reside justamente a calhordice. Vários ditadores apelaram para essa fórmula, uma espécie de "mata, mas ama". Benito Mussolini, Juan Perón, Muammar Gaddafi são alguns desses ditadores. Quase todos acabaram mal. A vida deu o troco. Alguns políticos de várias partes do mundo pegaram carona nessa fórmula, com uma certa adaptação. Ou seja, procedem chantageando a população, querendo fazer crer que a polarização é inerente a toda e qualquer situação eleitoral e que, se ele, o bem-aventurado, perder as eleições, o seu amado país vai mergulhar nas trevas. Ou de uma forma menos metafórica: resvalar para uma ditadura, pura e simplesmente. Trata-se de uma atualização ou até "enriquecimento" da frase do pensador inglês, que poderia ficar assim: "a Democracia como último refúgio dos calhordas". Democracia nenhuma merece.
Mas… de que nação estamos mesmo falando? De uma nação sem povo, só com hino e bandeira, muito provavelmente. Aí reside justamente a calhordice. Vários ditadores apelaram para essa fórmula, uma espécie de "mata, mas ama". Benito Mussolini, Juan Perón, Muammar Gaddafi são alguns desses ditadores. Quase todos acabaram mal. A vida deu o troco. Alguns políticos de várias partes do mundo pegaram carona nessa fórmula, com uma certa adaptação. Ou seja, procedem chantageando a população, querendo fazer crer que a polarização é inerente a toda e qualquer situação eleitoral e que, se ele, o bem-aventurado, perder as eleições, o seu amado país vai mergulhar nas trevas. Ou de uma forma menos metafórica: resvalar para uma ditadura, pura e simplesmente. Trata-se de uma atualização ou até "enriquecimento" da frase do pensador inglês, que poderia ficar assim: "a Democracia como último refúgio dos calhordas". Democracia nenhuma merece.
Estamos diante de uma espécie de etapa superior da calhordice. Não há vida útil sem o nosso herói e não dá para imaginá-lo fora do poder. E os calhordas têm uma atração toda especial pelo poder.
Quem procede dessa maneira geralmente não possui projeto algum, além da sua própria perpetuação nas esferas de dominação.
Triste, mas real. Quem perde com isso é a Democracia, que vive de alternância, seriedade e transparência. Toda vez que a polarização se instala, aumenta - aí sim - o risco de aventuras autoritárias. Estamos vendo isso em muitos lugares. Todo cuidado é pouco.
Quem procede dessa maneira geralmente não possui projeto algum, além da sua própria perpetuação nas esferas de dominação.
Triste, mas real. Quem perde com isso é a Democracia, que vive de alternância, seriedade e transparência. Toda vez que a polarização se instala, aumenta - aí sim - o risco de aventuras autoritárias. Estamos vendo isso em muitos lugares. Todo cuidado é pouco.
Ivan Alves Filho
O legítimo herdeiro de Bolsonaro saúda o povo e pede passagem
É por isso que Bolsonaro cogita lançá-lo candidato a presidente da República no próximo ano, uma vez que poderá estar preso e impedido de concorrer. Afinal, quem puxa aos seus não degenera, embora já possa ter nascido degenerado.
Tarcísio de Freitas (Republicanos), militar e engenheiro por formação, costuma usar as redes sociais para comemorar feitos de brasileiros em competições internacionais. Do tenista João Fonseca, campeão do ATP de Buenos Aires, ele disse:
“É mais um talento brasileiro despontando para o mundo, carregando as cores da nossa bandeira”.
Durante as últimas Olimpíadas, a ginasta Rebeca Andrade e a judoca Beatriz Souza, ambas medalhistas de ouro, também foram homenageadas por Tarcísio, que ontem parabenizou a escola de samba Rosas de Ouro, campeã do carnaval paulistano.
Mas sobre o primeiro Oscar conquistado pelo Brasil com o filme “Ainda estou aqui”, que conta a história do desaparecimento do ex-deputado Rubem Paiva à época da ditadura militar de 64, não se leu nem se ouviu até aqui uma única palavra de Tarcísio.
O mesmo comportamento tiveram outros governadores bolsonaristas, como Romeu Zema (Novo), de Minas, Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Jorginho Melo (PL) de Santa Catarina. Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, aplaudiu o o filme.
Os bolsonaristas de destaque silenciaram ou só abriram a boca para criticar o filme. Bolsonaro sempre defendeu a ditadura militar e, quando deputado federal, mantinha em seu gabinete uma foto do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, de triste memória.
Brilhante Ustra foi comandante do DOI-CODI do Exército em São Paulo, onde morreram debaixo de pancadas diversos oponentes da ditadura. Ao dar seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Bolsonaro invocou Brilhante Ustra.
O legítimo herdeiro de Bolsonaro, porém, não titubeou em criticar o filme, e foi além. Atacou duramente Eunice, a viúva de Rubens Paiva, símbolo da resistência democrática ao regime militar, e ameaçou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal.
Em linha com o pensamento do pai e desconectado com a verdade, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o Zero Três, devoto confesso de Donald Trump, escreveu nas redes sociais:
“Insurgir-se contra uma ditadura inexistente é fácil, rende bastante bajulação da ‘elite’ plutocrata, superficial e niilista. Difícil é ter coragem para se insurgir contra a ditadura real, que está por aí prendendo mães de família, idosos e trabalhadores inocentes. Ah…, isso exige fibra moral e coragem para arcar com os altos custos envolvidos”.
E acrescentou, pomposo e arrogante, como se falasse para a História:
Tarcísio de Freitas (Republicanos), militar e engenheiro por formação, costuma usar as redes sociais para comemorar feitos de brasileiros em competições internacionais. Do tenista João Fonseca, campeão do ATP de Buenos Aires, ele disse:
“É mais um talento brasileiro despontando para o mundo, carregando as cores da nossa bandeira”.
Durante as últimas Olimpíadas, a ginasta Rebeca Andrade e a judoca Beatriz Souza, ambas medalhistas de ouro, também foram homenageadas por Tarcísio, que ontem parabenizou a escola de samba Rosas de Ouro, campeã do carnaval paulistano.
O mesmo comportamento tiveram outros governadores bolsonaristas, como Romeu Zema (Novo), de Minas, Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Jorginho Melo (PL) de Santa Catarina. Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, aplaudiu o o filme.
Os bolsonaristas de destaque silenciaram ou só abriram a boca para criticar o filme. Bolsonaro sempre defendeu a ditadura militar e, quando deputado federal, mantinha em seu gabinete uma foto do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, de triste memória.
Brilhante Ustra foi comandante do DOI-CODI do Exército em São Paulo, onde morreram debaixo de pancadas diversos oponentes da ditadura. Ao dar seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Bolsonaro invocou Brilhante Ustra.
O legítimo herdeiro de Bolsonaro, porém, não titubeou em criticar o filme, e foi além. Atacou duramente Eunice, a viúva de Rubens Paiva, símbolo da resistência democrática ao regime militar, e ameaçou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal.
Em linha com o pensamento do pai e desconectado com a verdade, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o Zero Três, devoto confesso de Donald Trump, escreveu nas redes sociais:
“Insurgir-se contra uma ditadura inexistente é fácil, rende bastante bajulação da ‘elite’ plutocrata, superficial e niilista. Difícil é ter coragem para se insurgir contra a ditadura real, que está por aí prendendo mães de família, idosos e trabalhadores inocentes. Ah…, isso exige fibra moral e coragem para arcar com os altos custos envolvidos”.
E acrescentou, pomposo e arrogante, como se falasse para a História:
“Esse silêncio, de vocês, cúmplices, não será quebrado. Mas o nosso, com toda firmeza moral, eu quebro, estou disposto a arcar com esse custo: Alexandre de Moraes, iremos punir você. Acredite, você irá pagar por toda maldade que cometeu, custe o que custar”.
O pai deve ter babado de satisfação com o garoto que, no passado, quis ser embaixador do Brasil em Washington, e que agora poderá sucedê-lo como líder da extrema-direita.
O pai deve ter babado de satisfação com o garoto que, no passado, quis ser embaixador do Brasil em Washington, e que agora poderá sucedê-lo como líder da extrema-direita.
terça-feira, 4 de março de 2025
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