“É preciso estabilidade política”, “se o País não cresce, nunca vai ser possível aumentar salários”, “os portugueses não querem eleições”, “não se pode dar tudo a todos”, “é preciso chamar os técnicos, afastar os políticos”, “vamos nomear uma comissão independente, um grupo de trabalho, chamar a sociedade civil”, “ele é bom porque é independente, não veio dos partidos”.
Estas frases soam familiares? Quantas vezes as ouvimos todos já no café do bairro, na banca de hortaliças no mercado, no restaurante mais caro, na caixa de comentários do jornal ou no Twitter, numa conferência ou num estúdio de televisão, num táxi ou à porta da escola dos miúdos?
Todas estas frases, de uma maneira mais polida ou mais boçal, traduzem o mesmo sentimento: uma enorme impotência. São frases que nos dizem que não há nada a fazer, porque não há alternativa. São frases que nos põem no nosso lugar, no lugar dos que se indignam, mas não têm força para mudar nada. São frases que mostram que precisamos de um ser iluminado, de um técnico, de um especialista, de um D. Sebastião. São frases que nos dizem para desistir, porque nunca faremos a diferença. São frases de quem já nada espera ou de quem acha que a única coisa que tem a fazer é esperar.
Frases como esta andam por aí há muitos anos. Acho que as ouvi toda a minha vida e já não vou para nova. Mas cada vez se repetem mais, como um muro que se ergue à nossa frente. Elas ganham a força que nós vamos perdendo.
São frases perigosas porque, cada uma à sua maneira, ajudam a que olhemos para a democracia como um instrumento obsoleto. Ouvi, esta semana na rádio, um ouvinte desiludido sentenciar por fim: “O povo português não tem maturidade para viver em democracia”.
Eu entendo o ouvinte. Depois de muitos anos a levar com estas frases, ele conclui que faz parte de um povo que não tem as qualificações mínimas para exercer o direito à sua autodeterminação. Já não é só a democracia que tem falhas (porque as tem), somos nós que não estamos à altura dela. Somos politicamente desqualificados.
Quem já tenha lido sobre o que passou na Primeira República sabe o quanto, a dada altura, os jornais se encheram de artigos a glorificar a ditadura. E não faltam razões para o fazer.
Nada é mais estável do que uma ditadura. Sob uma ditadura, não há crises políticas nem escândalos. Não é porque não estejam uns quantos a roubar e a ser corrompidos (sabemos bem que é o regime mais corrupto de todos), mas nunca saberemos ao certo quem nem como e seguramente não seremos incomodados com notícias sobre corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Haverá corrupção, nepotismo e tráfico de influências, mas não se escreverá uma linha sobre isso nem se abrirá um processo, a menos que os crimes tenham sido cometidos por quem já não interessa ao regime e, nesse caso, também nunca saberemos se os acusados são ou não culpados, porque também deixará de haver julgamentos justos.
Imaginem o sossego! Acabam-se as notícias sobre casos, casinhos e megaprocessos. Acabam-se mesmo as notícias. A não ser aquelas que sirvam para exaltar as virtudes do ditador e do seu regime. Uma limpeza! Acaba-se com aqueles jornalistas ofegantes e comentadores maledicentes. Ninguém faz perguntas e ninguém chateia. Claro que se formos vítimas de uma injustiça nos vai custar talvez um pouco não a poder denunciar. Mas quem se importa com isso? Temos sempre o Tik Tok e o Instagram e o X e o Facebook, que lá falamos sem filtros. Ou será que não? Será que nos podem apagar comentários, bloquear a conta, tornar-nos invisíveis manipulando o algoritmo?
Não importa. Ao menos vai tudo a eito. Limpamos o pântano. Cortamos a direito com uma motosserra. E nós, os nacionais puros, os trabalhadores, os que não temem porque não devem, teremos tudo aquilo de que precisamos. Ou será que não? Como faremos se o plafond do seguro acabar quando nos chega o cancro? Como conseguiremos viver na velhice se alguém declarar que a Segurança Social é um Esquema de Ponzi? Como estudarão os nossos filhos se os preços dos colégios dispararem por já não haver escola pública?
E isso que importa? Viverão os mais fortes. E quem são os mais fortes? Somos nós, os vencedores. Aqueles que agora vivem tolhidos pelo inconveniente da crise política, que só não ascendem aos píncaros da fortuna porque são obrigados a pagar impostos, os que têm de levar com a maçada de votar.
Que chatice que é votar. Para que é que querem saber a nossa opinião? Que esbulho que é pagar impostos! Quem é que pode achar boa ideia contribuir com uma parte do seu trabalho para que todos possam ter acesso a saúde, educação, justiça, pontes e estradas. Mas se tudo isso falha, estamos a pagar para quê? Sim, falhará alguma coisa por agora, mas podemos dizer que falha sempre? E daquela vez em que a nossa mãe foi assistida por ter um cancro? E quando precisámos de recorrer ao centro de saúde ou à escola? Bem, não interessa. Havemos de ser dos que prosperam e não precisam do Estado para nada. E se não formos, é porque somos uns falhados e merecemos morrer.
E morrer, já se sabe, tem pelo menos uma enorme vantagem: não precisamos de ir votar.
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