Como qualquer líder carismático que se alimenta do caos, Trump prospera na tragédia. A guerra no Oriente Médio, com suas cenas de horror e destruição, tornou-se para ele mais do que um tema geopolítico; virou um trampolim para reafirmar sua imagem. Seu papel na pressão para que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aceitasse um acordo de cessar-fogo em troca de reféns foi relevante. Mas seu verdadeiro objetivo não é a paz — é a autopromoção, como fez ao expulsar recentemente o presidente da Ucrânia, Volodimyr Zelensky, da Casa Branca.
Enquanto o mundo ainda sente o impacto brutal dos ataques de 7 de outubro e das atrocidades cometidas pelo Hamas, incluindo o assassinato da família Bibas, celebrado por terroristas, Trump não está interessado em justiça, reparação ou soluções reais. Da mesma forma, ignora deliberadamente as violações de direitos humanos cometidas pelo governo de Netanyahu.
Desde o início da ofensiva israelense, Gaza se tornou um campo de morte. Com bombardeios sistemáticos a áreas civis, ataques a hospitais e bloqueio do fornecimento de água, eletricidade e ajuda humanitária, Israel tem sido amplamente acusado de crimes de guerra. A destruição da infraestrutura essencial não visa apenas o Hamas — ela empurra milhões de palestinos para uma crise humanitária sem precedentes. Mesmo diante de ordens da Corte Internacional de Justiça para permitir ajuda à população civil, o governo israelense segue sua campanha, resultando em mais de 46 mil mortos, segundo autoridades locais, incluindo milhares de crianças.
Mas Trump não condena esses abusos — ele os instrumentaliza. O sofrimento real de palestinos e israelenses não importa para ele. O que importa são os slogans e como a tragédia pode ser convertida em capital político.
Foi assim que surgiu seu vídeo altamente produzido por Inteligência Artificial generativa, publicado na Truth Social, promovendo uma visão fantasiosa: uma “Riviera em Gaza”. A cena é quase surreal. Uma trilha sonora épica embala imagens de praias paradisíacas, enquanto um coro canta “Trump vai te libertar”. No centro da encenação, o bilionário Elon Musk distribui notas de dólares, como um magnata benevolente, pronto para erguer um paraíso capitalista sobre os escombros da guerra.
Mas por trás do espetáculo midiático, há algo muito mais sombrio. Trump sugeriu abertamente que os palestinos deveriam deixar Gaza, uma posição que, segundo o Artigo 2 da Convenção sobre Genocídio de 1948, configura limpeza étnica. Expulsar mais de dois milhões de pessoas de suas casas não apenas viola o direito internacional, mas cria um desastre humanitário de proporções catastróficas. Para onde iriam esses refugiados? Quais seriam as implicações políticas e econômicas para os países vizinhos, já sobrecarregados com décadas de deslocamento forçado? Essas questões não interessam a Trump. Seu discurso não trata de reconstrução nem de paz — trata de marketing político.
A guerra já deixou um saldo devastador. Em Gaza, 1,8 milhão de pessoas passam fome e quase toda a população foi deslocada. Enquanto isso, 250 reféns israelenses foram sequestrados pelo Hamas, muitos submetidos à tortura — por vezes televisionada e celebrada. Enquanto Netanyahu avança com sua ofensiva indiscriminada e violações do direito internacional, Trump usa a tragédia como uma ferramenta de campanha. Ele não está preocupado com os mortos, mas com como pode transformar a guerra em um trampolim para seu próprio retorno ao poder.
Trump governa por meio da atenção que consegue atrair. Ele não precisa estar certo — ele só precisa ser o assunto. Seu modus operandi segue a lógica da “sociedade do espetáculo”, descrita por Guy Debord: uma realidade onde imagens, emoções e narrativas substituem os fatos concretos. Seu vídeo sobre Gaza é um exemplo perfeito. Um projeto absurdo, mas que gera manchetes, distrai da complexidade do conflito e, acima de tudo, mantém seu nome no centro da conversa.
E essa é a verdadeira estratégia. Criar polêmicas e jogar declarações inflamadas ao vento, sabendo que qualquer reação — crítica ou aplauso — apenas reforça sua presença no debate. Ele já fez isso antes, ao transformar crises internas em armas contra a imprensa, o judiciário e seus opositores.
E, agora, usa o Oriente Médio para se consolidar como um líder global, alguém que, na mente de seus seguidores, poderia resolver conflitos internacionais como se fossem episódios de um reality show.
Como Weber descreveu, a dominação carismática mina as instituições democráticas porque substitui o compromisso com a lei pela lealdade cega ao líder. Trump segue essa cartilha com precisão cirúrgica: desacredita a mídia, ridiculariza seus adversários, menospreza instituições e se coloca como o único capaz de salvar não apenas os Estados Unidos, mas o mundo. O problema é que essa ilusão de grandeza não se mede em votos ou likes — mede-se em vidas humanas.
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