sábado, 8 de março de 2025

O valor do lugar

Esquecemo-nos do lugar onde nascemos ou vivemos, deixámos de pensar, porque tudo nos chega a casa com facilidade e, supostamente, a baixíssimo custo, que é o maior problema. Damos como adquirido e certo que há a fruta que hoje nos apetece, a um preço insignificante, num supermercado sempre próximo, saboreamos uvas durante todo o ano.

Deixámos de ter respostas, porque não nos questionamos, aceitamos que pensem e decidam por nós. O clique fácil, acessível, intuitivo, como que a fazer parte do nosso corpo, anestesiou-nos e adormeceu-nos. Parece um enorme paradoxo, mas deixámos de ser livres. À partida, está tudo decidido.

Alguns, poucos, temos acesso a tudo aquilo de que necessitamos à distância de uma tecla e nada nos importa quanto custou, quem regou e colheu aquelas maçãs ou fez os sapatos, muito menos onde. Tudo é acessível e fácil, barato, quase gratuito, entra-nos pela casa. E o maior paradoxo é estarmos mais longe do essencial, na verdade, mais longe de nós próprios, da nossa família e dos nossos amigos, do lugar onde vivemos.


O lugar onde vivemos deixou de ter importância, a sua alma e a sua identidade há muito que se foram e nem damos por isso, e quando esbarramos nalguma fotografia ou história fóssil, isso já não nos toca e pouco nos diz. Aceitamos tranquilamente porque está tudo pensado para uma vida confortável, sem carências nem perguntas, para os que nascemos nesta geografia, uma enorme minoria na Terra. Se está calor, ligamos o ar condicionado, se faz frio, tocamos num botão que faz uma chama parecida com a do madeiro de outrora. Acreditamos que é possível, e aceitável, voar de Lisboa para Londres por 30 euros. Desde há umas décadas que assim tem sido, a “milagrosa solução” está na mão do clique. O resto, a tecnologia, aparentemente, resolve.

Crescer. Crescem a oferta, a procura e tudo à volta; como se pode crescer sempre? E, então, para onde vamos, onde nos leva o incontornável crescimento a que estamos obrigados? Enquanto tivermos limões, mesmo que seja da África do Sul e não do Algarve, isso não nos importa? Assistimos ou decidimos? Será que podemos assistir passivamente? Será que a Terra nos deixa assistir como se nada tivéssemos a ver com o tema?

A proposta aponta para um lugar, para um sítio onde é possível ter outro modo de vida. Outro modo de vida totalmente diferente, sobretudo verdadeiro, quando comparado com o mundo do clique, do low cost, sem rosto e muito menos alma. Um modo de vida onde os pilares essenciais a uma existência digna e feliz são possíveis. Um lugar com o qual nos identificamos totalmente, que sentimos fazer parte de nós, a nossa terra, que sentimos, respiramos, tocamos e cheiramos. Se for o “nosso lugar”, a terra onde nascemos e crescemos, tanto melhor. O solo, a água e a paisagem onde nascemos. O terroir do nosso corpo, da nossa alma, onde podemos ser mais felizes porque é aqui, na terra que nos sentiu nascer, que melhor nos sentimos. Aqui, neste lugar, há alimento, abrigo e segurança, os três pilares essenciais para o viver feliz. Aqui temos nome e os outros, os vizinhos, conhecem-nos. Não necessitamos de password, integramos esta realidade, esta verdade e é aqui onde melhor podemos estar.

Por muita desmaterialização, sempre ilusória, que nos apregoem, os recursos essenciais – solo, água e ar – continuam a ser locais. Só vivendo o local podemos saber os seus limites, os seus recursos, o seu clima, os seus patrimónios. E só com estes, com todos os seus patrimónios, poderemos aspirar a um modo de vida possível e feliz onde todos caibam e possam dispor dos recursos necessários a uma vida feliz e digna, onde vamos recordar muita coisa essencial que parecemos ter esquecido; as estações do ano sintetizam quase tudo o que é essencial para a vida e a sustentabilidade local. Lugar, aquele território onde a alma suspira de alegria e os olhos riem.

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