segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Educar para a democracia

Os olhos do mundo estão voltados para a eleição de amanhã na maior economia do planeta e a possibilidade de vitória de um candidato que já demonstrou nenhum apreço pelas regras do jogo democrático causa temores de que a agenda populista e autoritária ganhe ainda mais impulso global.

Relatório deste ano do instituto V-Dem, vinculado à Universidade de Gotemburgo (Suécia), mostrou que a parcela da população mundial vivendo em países que se autocratizaram superou aquela habitando em nações que se democratizaram nos últimos 15 anos. Não se trata, portanto, de um fenômeno local, e para combatê-lo é fundamental refletir sobre o papel da educação na construção e preservação de uma cultura de convivência democrática.

Uma primeira constatação a ser feita é que a ampliação dos níveis de instrução não é garantia suficiente de que um país se torne mais democrático e tolerante. Apenas para ficar em um óbvio exemplo histórico, o nazismo foi germinado no início do século passado numa das sociedades mais escolarizadas da Europa à época. E o trauma da experiência do nazismo parece não ter gerado um aprendizado categórico da sociedade.


Hoje, seguindo uma receita similar — com ingredientes como a desinformação, discursos de ódio, enfraquecimento da confiança na ciência e no progresso e atitudes antiestablishment — a extrema direita recrudesceu tanto em países desenvolvidos quanto em nações pobres.

Com efeito, precisamos discutir sobre qual modelo educacional pode ser eficaz para garantir o desenvolvimento pleno de cada pessoa, incluindo tanto a formação para uma cidadania ativa e convicta dos valores democráticos como a preparação para o mercado de trabalho, em acelerada transformação.

O livro de François Dubet e Marie Duru-Bellat, “A escola pode salvar a democracia?”, de 2020, afirma que “a confiança na educação de massas não diz respeito apenas ao progresso na igualdade e ao aumento das competências dos estudantes. Diz respeito, também, à transmissão da cultura e dos valores democráticos. (...) Essa confiança baseia-se na crença de que a escola, ao mesmo tempo, educa e instrui”. Hoje, precisamos avaliar, enquanto sociedade, em que medida essa confiança está abalada.

Para além disso, supomos que a equidade no ambiente escolar é também parte importante dessa estratégia, pois altos níveis de desigualdade são prejudiciais às sociedades democráticas, por dificultarem, entre outros fatores, a construção de confiança mútua, a participação social, o respeito e a valorização da diversidade.

Como afirmou a professora e ativista norte-americana bell hooks, “temos de trabalhar para encontrar maneiras de ensinar e compartilhar conhecimento de modo a não reforçar estruturas existentes de dominação (hierarquias de raça, gênero, classe e religião). A diversidade de discursos e de presenças pode ser bastante valorizada como um recurso que intensifica qualquer experiência de aprendizado”.

Estratégias em que a educação contribua para o fortalecimento de uma sociedade democrática não deveriam ser conflitantes com o desenvolvimento de capital humano. A princípio, a economia tende a ganhar com o fortalecimento da democracia, como demonstraram, em artigo de 2019, os pesquisadores Daron Acemoglu, James A. Robinson, Pascual Restrepo e Suresh Naidu, ao constatarem que a democratização aumenta o PIB per capita em cerca de 20% no longo prazo. Os dois primeiros autores foram laureados neste ano, junto com Simon Johnson, com o Nobel de Economia.

No livro “O Corredor Estreito” (2020), Acemoglu e Robinson também argumentam que, se é verdade que o Estado precisa ser forte para manter a paz e fomentar o crescimento, é igualmente fundamental uma sociedade forte e mobilizada para controlar e limitar seus excessos. Isso só se faz com uma cidadania crítica e ativa.

A aquisição de conhecimentos essenciais básicos e o desenvolvimento de habilidades mais sofisticadas — como o pensamento crítico e o raciocínio analítico dedutivo — são fundamentais para que os cidadãos sejam mais capazes de entender fenômenos complexos e façam melhores escolhas individuais e coletivas. Mas a formação para a democracia exige mais do que isso. É preciso praticar a resolução de conflitos, a habilidade para conviver com argumentos divergentes e o debate qualificado desde cedo.

Isso não se faz por transmissão de conhecimento. Por definição, a escola pública é o local do convívio com as diferenças. Conflitos vão sempre existir, mas a maneira como os processamos é que pode diferenciar experiências autoritárias das democráticas.

Felizmente, temos experiências pelo Brasil de escolas que conseguiram melhorar seus indicadores de convivência e aprendizagem sem apelar para falsas soluções autoritárias. Precisamos que a escola seja uma instituição que fortaleça a democracia, assegure o desenvolvimento cognitivo, emocional e social e promova a cidadania. O caminho passa por aqui.

'Não somos militares. Por que estamos sendo atingidos?'

Quando o ataque aéreo aconteceu, Mohammed estava distribuindo comida quente para vizinhos idosos — algo que ele e seus amigos vinham fazendo desde a última invasão israelense ao Líbano, em 1º de outubro.

O engenheiro civil, de 29 anos, estava a cerca de 5 metros da explosão, que destruiu uma casa em sua aldeia no sul do Líbano.

Camadas de pele foram queimadas de sua testa e bochechas, deixando seu rosto cru e rosado. Suas mãos estavam carbonizadas. Seu abdômen tem queimaduras de terceiro grau. Duas semanas depois, ele irradia dor e trauma, mas quer contar sua história.

“Estava tudo preto, fumaça por todo lado”, ele diz em voz baixa. “Demorou cerca de um minuto. Então comecei a reconhecer o que estava ao meu redor. Percebi que meus dois amigos ainda estavam vivos, mas sangrando muito. Demorou cerca de cinco minutos para as pessoas nos tirarem de lá.”

Mohammed relata os horrores de sua cama no hospital governamental Nabih Berri, que fica no topo de uma colina em Nabatieh. É uma das maiores cidades do sul, e fica a apenas 11 km (sete milhas) da fronteira com Israel, em linha reta. Antes da guerra, era o lar de cerca de 80.000 pessoas.

Mohammed diz que não houve nenhum aviso antes do ataque – “de forma alguma, nem para nós, nem para nossos vizinhos, nem para a pessoa dentro da casa que foi atingida”.

Essa pessoa era um policial, ele diz, que foi morto no ataque.

“Não somos militares”, ele diz, “não somos terroristas. Por que estamos sendo atingidos? As áreas que estão sendo atingidas são todas áreas civis.”

Mohammed retornará para casa, para sua aldeia, Arab Salim, quando for liberado, embora ela continue sob fogo. “Não tenho mais para onde ir”, ele diz. “Se eu pudesse [sair], eu iria. Não há lugar.”

Enquanto circulamos pelo hospital, outro ataque aéreo faz com que a equipe corra para uma sacada, para verificar o que foi atingido dessa vez. O hospital oferece uma vista panorâmica da fumaça cinza saindo de um terreno alto a cerca de 4 km de distância.

Pouco depois, alguns andares abaixo, na sala de emergência, o lamento de uma sirene avisa sobre a chegada de vítimas – daquele ataque aéreo. Ele atingiu a vila de Mohammed, Arab Salim.

Uma mulher é levada às pressas em uma maca, com sangue escorrendo pelo rosto. Ela é seguida pelo marido, que bate na parede em frustração antes de cair em choque. Os médicos desaparecem atrás de portas fechadas para examiná-la.

Em poucos minutos, o diretor do hospital, Dr. Hassan Wazni, informa à equipe que ela tem uma artéria rompida e deve ser transferida para um centro vascular especializado em um hospital mais ao norte.

"Ela precisa disso imediatamente", ele diz, enquanto gritos de dor vêm da sala de exames. "Fale com Saida [uma cidade próxima]. Se estiver tudo bem, vamos levá-la imediatamente, porque ela não pode esperar."

O hospital recebe de 20 a 30 vítimas de ataques aéreos israelenses por dia. A maioria são civis, mas ninguém é mandado embora. “Aceitamos todos os pacientes, todos os feridos e todos os mártires que vêm”, ele diz. “Não fazemos discriminação entre eles.”

O Dr. Wazni não saiu do hospital desde que a guerra começou. Atrás de sua mesa em seu escritório, ele abre um maço de cigarrilhas. “Acho que é OK quebrar algumas regras em uma guerra”, ele diz com um sorriso de desculpas.

Ele está lutando para pagar salários e conseguir 1.200 litros de combustível por dia para acionar os geradores que abastecem o hospital. “Não recebemos nada do governo”, ele diz. “Ele não tem.”

Seu combustível é o expresso, que ele nos oferece repetidamente.

Com 170 leitos, o Nabih Berri é o principal hospital público da cidade, mas agora tem apenas uma equipe mínima e 25 pacientes. Os doentes e feridos trazidos para cá são transferidos rapidamente para hospitais em áreas mais seguras mais ao norte. A equipe diz que houve “muitos ataques” perto do Nabih Berri. Durante nossa visita, havia vidro quebrado dentro do saguão.

Nabatieh está sob fogo há mais de um mês.

Ataque aéreo destruiu o mercado de Nabatieh e edifícios municipais

O prédio da prefeitura foi explodido há duas semanas, matando o prefeito, Ahmad Kahil, e outras 16 pessoas. Na época, ele estava tendo uma reunião para coordenar a distribuição de ajuda. Quando passamos pelas ruínas, pacotes de pão achatado permanecem visíveis no chão de uma ambulância destruída.

A greve massiva derrubou vários prédios vizinhos – um quarteirão da cidade está faltando na paisagem.

Também está faltando um mercado da era otomana – o coração de Nabatieh – que foi destruído no mesmo dia. Séculos de história foram esmagados em escombros, a herança virou pó.

O antigo mercado, ou souk, era estimado por Hussein Jaber, 30, que faz parte dos serviços de emergência do governo. Ele e seus homens, alguns deles voluntários, nos levam até lá para uma breve visita. Eles dirigem em alta velocidade - a única maneira de viajar em Nabatieh.

“Nós nascemos e fomos criados aqui”, diz Hussein, gesticulando em volta de lajes de concreto e metal retorcido. “Estamos aqui desde que éramos crianças. O souk significa muito para nós. É muito triste vê-lo assim. Ele guarda memórias do passado e dos lindos dias que passamos com as pessoas desta cidade.”

Assim como o Dr. Wazni, Hussein e seus colegas permaneceram com o povo, apesar dos riscos. Mais de 110 paramédicos e socorristas foram mortos em ataques israelenses no Líbano no ano passado, de acordo com números do governo libanês — a maioria deles no mês passado. Alguns ataques envolvem “aparentes crimes de guerra”, de acordo com o grupo de campanha internacional, Human Rights Watch.

Hussein perdeu um colega e um amigo neste mês, em um ataque aéreo a 50m de sua estação de defesa civil, onde eles dormem com colchões contra as janelas. O homem morto, Naji Fahes, tinha 50 anos e dois filhos.

“Ele era entusiasmado e forte e amava ajudar os outros”, Hussein me conta. “Mesmo sendo mais velho do que nós, ele era o que corria para ir em missões, para estar com as pessoas e resgatá-las.”

Ele morreu, como viveu.

Quando o ataque aéreo aconteceu, Naji Fahes estava do lado de fora da estação, pronto para partir em uma missão.

Enquanto Hussein fala, temos companhia. Um drone israelense circula nos céus, depois fica mais baixo e mais alto. O zumbido insistente do drone compete com sua voz. “Nós o ouvimos 90% do tempo”, ele diz. “Achamos que ele está diretamente acima de nós agora. Muito provavelmente ele está nos observando.”

Quanto ao Hezbollah, sua presença na cidade está fora de vista.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) nos disseram que estão “operando somente contra a organização terrorista Hezbollah, não contra a população libanesa”.

Israel diz que sua luta é “contra a organização terrorista Hezbollah, inserida na população civil e na infraestrutura”.

Um porta-voz disse que “toma muitas medidas para mitigar os danos civis, incluindo avisos antecipados”, embora não tenha havido nenhum aviso sobre o ataque aéreo que feriu Mohammed, ou o ataque que matou o prefeito.

Em cinco horas e meia nesta cidade outrora movimentada, vimos duas pessoas ao ar livre, a pé. Ambas saíram correndo, sem vontade de falar. Durante nossa visita, um drone estava transmitindo mensagens do exército israelense – instruindo as pessoas a saírem imediatamente.

Estima-se que apenas algumas centenas permanecem aqui, sem vontade ou incapazes de se mudar para outro lugar. São principalmente os velhos e os pobres, e eles viverão ou morrerão com sua cidade.

E Hussein e sua equipe estarão aqui, para ajudá-los. “Somos como uma rede de segurança para o povo”, ele diz. “Ficaremos e continuaremos. Estaremos ao lado dos civis. Nada nos deterá.”

SOS

Estamos presos em um ciclo vicioso em que os problemas econômicos reduzem o foco político no meio ambiente, enquanto a destruição da natureza custa bilhões à economia.

Até que tenhamos líderes mundiais com a sabedoria e a coragem de colocar a natureza como prioridade política máxima, os riscos relacionados à natureza continuarão a aumentar.
Tom Oliver, professor de biodiversidade na Universidade de Reading

Sociedade americana prestes a acertar contas com seus fantasmas

Onze horas da manhã em Nova York. Dias atrás, numa escola pública da Rua 56, entre a Segunda e Terceira avenidas de Manhattan, as aulas seguiam seu curso normal. Os alunos em aula nem sequer levantavam a cabeça para observar, através da porta envidraçada, as idas e vindas de estranhos em direção à quadra da esportes. Eram na maioria mulheres indo votar antecipadamente. Do portão de entrada até o local das urnas, dezenas de voluntários — novamente mulheres, na maioria — agradeciam o comparecimento de quem chegava e forneciam a absurda cédula em papel, trilíngue (inglês, espanhol, chinês), que mais parece um cardápio de vinho metido a chique. Tudo na maior calmaria, pontuado por discretos acenos de cabeça indicando esperança na sororidade pró-Kamala Harris.

Não longe dali, a livraria Barnes & Noble da Quinta Avenida expunha em espaço nobre um best-seller que fez barulho sete anos atrás: “On tyranny”, do historiador Timothy Snyder. Nele, o professor de Yale e Prêmio Hannah Arendt elenca 20 lições sobre tirania no século XX a ser aprendidas em tempos presentes. Escrito pouco depois da traumática vitória de Donald Trump à Presidência em 2016, a obra voltou a ganhar urgência e relevância. Ensinamento do primeiro capítulo desse chamamento à razão e guia de preservação de liberdades em tempos de incerteza: “Não obedeça antecipadamente”.

Faltando menos de cem horas para o fatídico acerto de contas da sociedade americana com seus fantasmas, até mesmo o venerado Jon Stewart, mais influente comediante político do país, admite estar tenso. Ele diz procurar se preservar do ritmo circadiano das redes sociais, da torrente de pesquisas de opinião e do noticiário partidário:

— É difícil escapar da compulsão neurótica de checar a milésima adivinhação eleitoral do dia.

Mais difícil ainda, senão impossível, tem sido para a democrata Kamala tocar uma campanha convencional contra um adversário propositalmente desvairado e instável. Deveria ela ignorar ou vilipendiar os insistentes elogios de Trump à genitália de um famoso campeão de golfe? Como competir com as encenações ostensivamente falsas (porém fotogênicas) do candidato republicano, que ora se fantasia de atendente de McDonald’s, ora se apresenta como motorista fake de um caminhão de lixo fake? Tudo surreal e altamente eficaz, destinado a manter em suspenso a questão-chave: o resultado da eleição será respeitado?

Quatro anos atrás, brotara da mente privilegiadamente trevosa de Steve Bannon a recomendação para que Trump declarasse vitória já na noite da eleição, independentemente da apuração e do resultado. Assim foi feito, em 6 de janeiro de 2021 a horda de trumpers tentou impedir pela força a certificação da vitória de Joe Biden, e o negacionismo da derrota perdura até hoje.

Pois bem, eis que na terça-feira passada o mesmo Steve Bannon ressurge bronzeado e desenvolto da prisão federal de Danbury, Connecticut, e convoca uma entrevista coletiva em endereço de prestígio e poder — 540 Park Avenue — para a mesma tarde. Ele havia cumprido seus quatro meses de prisão por desacato a uma convocação do Congresso, declarou-se ex-prisioneiro político e garantiu que desta vez a campanha de Trump está mais bem preparada para travar qualquer tipo de batalha. Embora não faça mais parte do círculo persuasivo de Trump — esse espaço foi ocupado de braçada por Elon Musk —, Bannon mantém o estilo rombudo, espaçoso e combativo de antes.

Coube ao analista político Bill Kristol comparar a realidade ficcional de Trump ao superestado Oceânia, criado por George Orwell em “1984”. Enquanto na imaginária edificação sem janelas havia luzes internas permanentemente acesas do repressivo “Ministério do Amor”, na vida real de 2024 Trump descreveu nos seguintes termos seu assustador comício no Madison Square Garden do domingo anterior:

— O amor naquela arena foi de tirar o fôlego. Nunca houve evento tão lindo. Foi uma festa de amor. Amor pelo país.

Na verdade, o que se viu e se ouviu por horas a fio foi um desfilar de ódio, racismo, xenofobia e fascismo. Sim, fascismo — desta vez a palavra é inescapável.

Em 1935, quando Sinclair Lewis publicou sua seminal distopia “It can’t happen here”, recebida como ficção de regime totalitário, um pedaço real do inimaginável já havia, de fato, acontecido. Foi num domingo ensolarado de fevereiro de 1931 que policiais de Los Angeles cercaram um parque público frequentado por latinos, prenderam 400 pessoas ao acaso, todos de pele escura, enquanto o mesmo se repetia em hospitais, mercados, igrejas, clubes e associações. Em pouco tempo, mais de 1,8 milhão de mexicanos foram deportados por ordem do governo de Herbert Hoover —60% deles tinham cidadania americana. Passado quase um século, Trump e seus aliados discutem abertamente a deportação em massa de 10 milhões de imigrantes.

Quando realidade e ficção se misturam, e a civilização fica à deriva, leva vantagem quem proclama certezas simples para problemas enroscados.

— Preciso dizer que me orgulho de votar em Kamala Harris, escreveu Kristol. — Tenho certeza de que, se eleita, ela me desapontará, é sempre assim. Mas pelo menos terá conseguido ficar à altura do momento.

Dorrit Harazim

A 'máquina de preconceitos': Google diz o que você quer ouvir

"Estamos à mercê do Google." Eleitores indecisos nos EUA que recorrem ao Google podem ter visões de mundo dramaticamente diferentes – mesmo quando estão fazendo exatamente a mesma pergunta.

Digite "Kamala Harris é uma boa candidata democrata", e o Google pinta um quadro otimista. Os resultados da pesquisa mudam constantemente, mas na semana passada, o primeiro link foi uma pesquisa do Pew Research Center mostrando que "Harris energiza os democratas". O próximo é um artigo da Associated Press intitulado "A maioria dos democratas acha que Kamala Harris seria uma boa presidente", e os links seguintes eram semelhantes. Mas se você tem ouvido coisas negativas sobre Harris, você pode perguntar se ela é uma "má" candidata democrata. Fundamentalmente, essa é uma pergunta idêntica, mas os resultados do Google são muito mais pessimistas.

"Tem sido fácil esquecer o quão ruim Kamala Harris é", disse um artigo da Reason Magazine no primeiro lugar. Então o US News & World Report ofereceu uma interpretação positiva sobre como Harris não é "a pior coisa que poderia acontecer à América", mas os resultados a seguir são todos críticos. Um artigo da Al Jazeera explicou "Por que não estou votando em Kamala Harris", seguido por um tópico interminável no Reddit sobre por que ela não é boa.


Você pode ver a mesma dicotomia com perguntas sobre Donald Trump, teorias da conspiração, debates políticos contenciosos e até mesmo informações médicas. Alguns especialistas dizem que o Google está apenas repetindo suas próprias crenças de volta para você. Pode estar piorando seus próprios preconceitos e aprofundando as divisões sociais ao longo do caminho.

"Estamos à mercê do Google no que diz respeito às informações que conseguimos encontrar", diz Varol Kayhan, professor associado de sistemas de informação na Universidade do Sul da Flórida, nos EUA.

"A missão do Google é dar às pessoas as informações que elas querem, mas às vezes as informações que as pessoas acham que querem não são as mais úteis", diz Sarah Presch, diretora de marketing digital da Dragon Metrics , uma plataforma que ajuda empresas a ajustar seus sites para melhor reconhecimento do Google usando métodos conhecidos como " otimização de mecanismos de busca " ou SEO.

É um trabalho que exige uma análise meticulosa dos resultados do Google e, alguns anos atrás, Presch percebeu um problema. "Comecei a observar como o Google lida com tópicos em que há debates acalorados", diz ela. "Em muitos casos, os resultados foram chocantes."

Alguns dos exemplos mais gritantes analisaram como o Google trata certas questões de saúde. O Google frequentemente extrai informações da web e as mostra no topo dos resultados para fornecer uma resposta rápida, que ele chama de Featured Snippet . Presch pesquisou por "link entre café e hipertensão". O Featured Snippet citou um artigo da Mayo Clinic, destacando as palavras "A cafeína pode causar um aumento curto, mas dramático, na sua pressão arterial". Mas quando ela pesquisou "nenhuma ligação entre café e hipertensão", o Featured Snippet citou uma linha contraditória do mesmo artigo da Mayo Clinic: "A cafeína não tem um efeito de longo prazo na pressão arterial e não está associada a um risco maior de pressão alta".

A mesma coisa aconteceu quando Presch pesquisou por "o TDAH é causado pelo açúcar" e "o TDAH não é causado pelo açúcar". O Google apresentou Featured Snippets que argumentam que apoiam ambos os lados da questão, novamente retirados do mesmo artigo. (Na realidade, há pouca evidência de que o açúcar afeta os sintomas do TDAH, e ele certamente não causa o transtorno.)

Ela encontrou o mesmo problema com questões políticas. Pergunte "o sistema tributário britânico é justo", e o Google cita uma citação do deputado conservador Nigel Huddleston, argumentando que de fato é. Pergunte "o sistema tributário britânico é injusto", e o Featured Snippet do Google explica como os impostos do Reino Unido beneficiam os ricos e promovem a desigualdade.

"O que o Google fez foi retirar pedaços do texto com base no que as pessoas estão procurando e alimentá-las com o que elas querem ler", diz Presch. "É uma grande máquina de preconceitos."

Por sua vez, o Google diz que fornece aos usuários resultados imparciais que simplesmente combinam as pessoas com o tipo de informação que elas estão procurando. "Como um mecanismo de busca, o Google visa apresentar resultados de alta qualidade que sejam relevantes para a consulta que você inseriu", diz um porta-voz do Google. "Nós fornecemos acesso aberto a uma variedade de pontos de vista de toda a web, e damos às pessoas ferramentas úteis para avaliar as informações e fontes que elas encontram."

Segundo uma estimativa, o Google lida com cerca de 6,3 milhões de consultas a cada segundo, totalizando mais de nove bilhões de pesquisas por dia. A grande maioria do tráfego da internet começa com uma Pesquisa do Google, e as pessoas raramente clicam em qualquer coisa além dos cinco primeiros links — muito menos se aventuram na segunda página. Um estudo que rastreou os movimentos oculares dos usuários descobriu que as pessoas geralmente nem olham para nada além dos primeiros resultados. O sistema que ordena os links na Pesquisa do Google tem um poder colossal sobre nossa experiência do mundo.

De acordo com o Google, a empresa está lidando bem com essa responsabilidade. "Pesquisas acadêmicas independentes refutaram a ideia de que o Google Search está empurrando as pessoas para bolhas de filtro", diz o porta-voz.

A questão das chamadas "bolhas de filtro" e "câmaras de eco" na internet é um tema quente, embora algumas pesquisas tenham questionado se os efeitos das câmaras de eco online foram exagerados .

Mas Kayhan – que estudou como os mecanismos de busca afetam o viés de confirmação , o impulso natural de buscar informações que confirmem suas crenças – diz que não há dúvidas de que nossas crenças e até mesmo nossas próprias identidades políticas são influenciadas pelos sistemas que controlam o que vemos online. "Somos dramaticamente influenciados por como recebemos informações", ele diz.

O porta-voz do Google diz que um estudo de 2023 concluiu que a exposição das pessoas a notícias partidárias se deve mais ao fato de que é nisso que elas clicam, do que ao Google fornecer notícias partidárias em primeiro lugar. Em certo sentido, é assim que o viés de confirmação funciona: as pessoas procuram evidências que apoiam suas opiniões e ignoram evidências que as desafiam. Mas mesmo naquele estudo, os pesquisadores disseram que suas descobertas não implicam que os algoritmos do Google não sejam problemáticos. "Em alguns casos, nossos participantes foram expostos a notícias altamente partidárias e não confiáveis ​​no Google Search", disseram os pesquisadores, "e trabalhos anteriores sugerem que mesmo um número limitado dessas exposições pode ter impactos negativos substanciais".

De qualquer forma, você pode escolher se envolver com informações que o mantêm preso em sua bolha de filtro, "mas há apenas um certo buquê de mensagens que são colocadas na sua frente para você escolher em primeiro lugar", diz Silvia Knobloch-Westerwick, professora de comunicação mediada na Technische Universität Berlin, na Alemanha. "Os algoritmos desempenham um papel substancial neste problema."

O Google não respondeu à pergunta da BBC sobre se há uma pessoa ou uma equipe especificamente encarregada de abordar o problema do viés de confirmação.

"Na minha opinião, todo esse problema decorre das limitações técnicas dos mecanismos de busca e do fato de que as pessoas não entendem quais são essas limitações", diz Mark Williams-Cook, fundador do AlsoAsked , outra ferramenta de otimização de mecanismos de busca que analisa os resultados do Google.

Um caso antitruste recente dos EUA contra o Google revelou documentos internos da empresa onde funcionários discutem algumas das técnicas que o mecanismo de busca usa para responder suas perguntas. "Nós não entendemos documentos – nós os fingimos", escreveu um engenheiro em um slideshow usado durante uma apresentação de 2016 na empresa. "Um bilhão de vezes por dia, as pessoas nos pedem para encontrar documentos relevantes para uma consulta... Além de algumas coisas básicas, dificilmente olhamos para documentos. Olhamos para pessoas. Se um documento recebe uma reação positiva, achamos que é bom. Se a reação é negativa, provavelmente é ruim. Simplificando grosseiramente, esta é a fonte da mágica do Google."

Em outras palavras, o Google observa para ver no que as pessoas clicam quando inserem um determinado termo de busca. Quando as pessoas parecem satisfeitas com um certo tipo de informação, é mais provável que o Google promova esse tipo de resultado de busca para consultas semelhantes no futuro.

Um porta-voz do Google diz que esses documentos estão desatualizados e que o sistema usado para decifrar consultas e páginas da web se tornou muito mais sofisticado.

"Essa apresentação é de 2016, então você tem que encarar com uma pitada de sal, mas o conceito subjacente ainda é verdadeiro. O Google cria modelos para tentar prever o que as pessoas gostam, mas o problema é que isso cria um tipo de loop de feedback", diz Williams-Cook. Se o viés de confirmação empurra as pessoas a clicar em links que reforçam suas crenças, ele pode ensinar o Google a mostrar às pessoas links que levam ao viés de confirmação. "É como dizer que você vai deixar seu filho escolher sua dieta com base no que ele gosta. Ele vai acabar comendo junk food", diz ele.

Williams-Cook também se preocupa que as pessoas podem não entender que quando você pergunta algo como "Trump é um bom candidato", o Google pode não necessariamente interpretar isso como uma pergunta. Em vez disso, ele geralmente apenas puxa documentos relacionados a palavras-chave como "Trump" e "bom candidato".

Ele diz que isso dá às pessoas expectativas equivocadas sobre o que elas encontrarão quando fizerem uma pesquisa, e isso pode levá-las a interpretar mal o que os resultados da pesquisa significam.

Se os usuários fossem mais claros sobre as deficiências do mecanismo de busca, Williams-Cook acredita que eles poderiam pensar sobre o conteúdo que veem de forma mais crítica. "O Google deveria fazer mais para informar o público sobre como a Busca realmente funciona. Mas eu não acho que eles farão, porque para fazer isso você tem que admitir algumas imperfeições sobre o que não está funcionando", ele diz. ( Para saber mais sobre o funcionamento interno dos mecanismos de busca, leia este artigo sobre como as atualizações do algoritmo do Google estão mudando a internet).

O Google é aberto sobre o fato de que a Busca nunca é um problema resolvido, diz um porta-voz da empresa, e a empresa trabalha incansavelmente para lidar com os profundos desafios técnicos no campo conforme eles surgem. O Google também aponta para recursos que oferece que ajudam os usuários a avaliar informações, como a ferramenta " Sobre este resultado " e avisos que permitem que os usuários saibam quando os resultados sobre um tópico relacionado a notícias de última hora estão mudando rapidamente.

O porta-voz do Google diz que é fácil encontrar resultados que refletem uma variedade de pontos de vista de fontes por toda a web, se é isso que você quer fazer. Eles argumentam que isso é verdade mesmo com alguns dos exemplos que Presch apontou. Role mais para baixo com perguntas como "Kamala Harris é uma boa candidata democrata" e você encontrará links que a criticam. O mesmo vale para "o sistema tributário britânico é justo" - você encontrará resultados de pesquisa que dizem que não é. Com a consulta "ligação entre café e hipertensão", o porta-voz do Google diz que a questão é complicada, mas o mecanismo de busca traz à tona fontes confiáveis ​​que se aprofundam na nuance.

Claro, isso depende de as pessoas explorarem além dos primeiros resultados – quanto mais abaixo na página de resultados você for, menor a probabilidade de os usuários se envolverem com os links. No caso da hipertensão relacionada ao café e do sistema tributário britânico, o Google também resume os resultados e dá sua própria resposta de forma proeminente com Featured Snippets – o que pode tornar menos provável que as pessoas sigam links mais abaixo nos resultados da pesquisa.

Por muito tempo, observadores descreveram como o Google está em transição de um mecanismo de busca para um "mecanismo de resposta", onde a empresa simplesmente fornece a informação, em vez de apontar para fontes externas. O exemplo mais claro é a introdução do AI Overviews , um recurso em que o Google usa IA para responder a consultas de busca para você, em vez de exibir links em resposta. Como a empresa colocou, agora você pode " Deixar o Google fazer a busca para você ".

"No passado, o Google mostrava algo que outra pessoa havia escrito, mas agora ele mesmo está escrevendo a resposta", diz Williams-Cook. "Isso agrava todos esses problemas, porque agora o Google tem apenas uma chance de acertar. É uma jogada difícil."

Mas mesmo que o Google tivesse a capacidade técnica de lidar com todos esses problemas, não está necessariamente claro quando ou como eles devem intervir. Você pode querer informações que respaldem uma crença específica e, se for o caso, o Google está fornecendo um serviço valioso ao entregá-lo a você.

Muitas pessoas se sentem desconfortáveis ​​com a ideia de uma das empresas mais ricas e poderosas do mundo tomar decisões sobre qual é a verdade, diz Kayhan. "É trabalho do Google consertar isso? Podemos confiar que o Google vai consertar a si mesmo? E isso é mesmo consertável? Essas são perguntas difíceis, e não acho que alguém tenha a resposta", diz ele. "A única coisa que posso dizer com certeza é que não acho que eles estejam fazendo o suficiente."

sábado, 2 de novembro de 2024

Pensamento do Dia



Foi um erro supor que a eleição em São Paulo seria um embate entre direita e esquerda

Se estivermos em busca do que esteve em disputa nas eleições municipais de 27 de outubro, em São Paulo, descobriremos que foi o nada protagonizado pelo ninguém. Somados os “votos” brancos e nulos aos “votos” dos que votaram abstendo-se de votar, que de fato é voto, veremos que o grande vencedor foi o “ninguém”. Não só pela incerteza que caracterizou essa eleição, mas também pelas características da situação eleitoral em relação a eleições passadas.

Dizer que a zona leste da cidade era petista e de esquerda, tornou-se reduto do forasteiro Marçal e de um Nunes, que ainda se pensa como vice-prefeito ou mesmo subprefeito de Parelheiros, nada diz além do fato de que ninguém é dono do eleitorado. Nem a esquerda nem a direita, até porque esquerda e direita não têm sido, de fato, protagonistas primários do processo político. O são meramente adjetivos.

É preciso reconhecer que a cidade já não é propriamente uma cidade fabril nem operária. Sua periferia e seu subúrbio são espaços de vaivém cotidiano dos que moram num lugar e trabalham em outro.


As cidades do subúrbio, que foram cidades industriais e proletárias, tornaram-se cidades-dormitório. O crescimento econômico e a decorrente especulação imobiliária empurraram os trabalhadores para fora. O espaço proletário transformou-se em espaço de classe média.

A reestruturação produtiva da indústria e a migração das indústrias para espaços distantes, onde a terra é muito mais barata do que na região metropolitana de São Paulo, mudou radicalmente a territorialidade paulistana.

Hoje é possível prever que os municípios da Grande São Paulo, nos próximos dez a vinte anos, estarão muito próximos do desaparecimento, subsumidos por uma nova territorialidade, a da metrópole, com nova configuração político-administrativa.

Esse processo teve início no governo de Mário Covas, quando ele reconheceu a necessidade de aglutinação em consórcios de municípios da área metropolitana para atendimento conjunto de demandas e necessidades que isoladamente já não tinham condições de atender.

A complexa rede de transporte sobre trilhos, vislumbrada pelo então governador José Serra, com a possibilidade de que moradores da Baixada Santista pudessem morar em Santos e trabalhar em São Paulo, está sendo implantada. A área metropolitana se estenderá, em pouco tempo, a Campinas, Santos e Sorocaba. Com o futuro trem-bala, chegará a São José dos Campos.

O transporte sobre trilhos recriará a metrópole e seu centro. Os órgãos do governo do Estado devem retornar ao centro velho e histórico, completamente refuncionalizado.

Nessas mudanças, há muita coisa que a direita não vê nem tem competência para compreender e implementar. Mas a esquerda está ideologicamente atrasada. Conhece rótulos e conceitos não necessariamente científicos para definir a realidade, e não para compreendê-la nem para desenvolver uma práxis condizente com as radicais mudanças sociais e políticas que estão acontecendo.

Quero estar acordado quando morrer

Parabenizo as professoras Arlene Clemesha, Adma Fadul Muhana e todos os que se empenharam em criar o Centro de Estudos Palestinos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A existência deste centro é um acontecimento, e certamente vai estreitar as relações acadêmicas e culturais entre a USP e as universidades da Palestina.

Em 1982, quando o Estado ocupante bombardeou Beirute, o general israelense Rafael Eytan declarou que os palestinos eram “baratas drogadas numa garrafa”. No dia 9 de outubro de 2023, o ministro da Defesa de Israel disse que ia combater “animais humanos”. Com essas mesmas palavras os personagens brancos e racistas de um conto de James Baldwin nomeiam os afro-americanos; depois torturam e queimam até a morte o corpo de um homem negro, como vem ocorrendo com muitos palestinos de Gaza, incluindo crianças.


Como se sabe, James Baldwin, um norte-americano negro e homossexual, foi não apenas um grande escritor e ensaísta, mas também um incansável ativista antirracista e defensor da causa palestina.

Eu me lembrei desse conto enquanto lia o livro Quero estar acordado quando morrer, de Atef Abu Saif (Ed. Elefante). Atef, ex-ministro da Cultura da Palestina, é autor de vários romances, peças de teatro, reportagens e diários.

Os bons livros de ficção dão vida perene às imagens do passado. O jornalismo, quando visceralmente honesto e verdadeiro, dá vida perene às imagens e à catástrofe do tempo presente. O livro de Atef, publicado recentemente, é o testemunho de uma agressão monstruosa, covarde e extremamente cruel que ocorre há mais de um ano.

Como diz o título, Atef quer estar acordado quando morrer. Inúmeras vezes, em dias seguidos ou alternados, ele sentiu ou intuiu que ia morrer. Felizmente sobreviveu. Atef fala dessa sobrevivência, sempre precária, tantas vezes em suspenso, como se a vigília e o pesadelo fossem um estado permanente, ou uma linha tênue, quase invisível, que separa a vida da morte.

Durante quase 90 dias, o escritor foi testemunha do horror dos bombardeios por terra, ar e mar; viu corpos mutilados e desfigurados de amigos, parentes e de tantos outros palestinos que ele conhece, ou que conhecia, pois muitos foram assassinados. Atef narra brevemente a história dessas pessoas, invoca outros bombardeios contra Gaza ao longo deste século, e a primeira Intifada (1987-93), quando perdeu amigos de infância, foi ferido três vezes e preso por vários meses. Ele também nos lembra que esse pesadelo diuturno a que é submetido seu povo tem origem na Nakba, a catástrofe de 1948, quando 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas e terras, e centenas de vilarejos e aldeias foram destruídos.

Segundo o saudoso romancista libanês Elias Khoury, a Nakba não acabou. De fato, a catástrofe iniciada antes mesmo de 1948 atravessou a segunda metade do século passado e culminou nesse genocídio executado pelo Estado ocupante, mas que só se tornou possível com a ajuda direta, maciça e incondicional do governo dos Estados Unidos e, em grau menor, de alguns países árabes e europeus.

Atef escreveu em seu diário:

“Todos os dias olho para o futuro como um cego contemplando a noite”.

Edward Said assinalou que todas as ações do poder ocupante visam ao extermínio dos palestinos. Em seguida, acrescentou: “Mas os palestinos não vão desaparecer”.

Penso que Atef e todos nós concordamos com o autor de Orientalismo.

Os palestinos não vão desistir de viver, nem de lutar pela liberdade; não vão desistir de escrever, imaginar, sonhar. O Estado ocupante e racista vem matando poetas, artistas, atores, atrizes, músicos, jornalistas, fotógrafos e cineastas. Mas essa barbárie não é recente. Em 8 de julho de 1972, agentes israelenses mataram em Beirute o escritor palestino Ghassan Kanafani, cuja novela notável Umm Saad é citada no livro de Atef. Em 6 de dezembro de 2023, assassinaram o professor e poeta Refat Alareer, autor do poema Se eu tiver de morrer, traduzido em 30 idiomas e lido nas redes sociais por mais 30 de milhões de pessoas. As bombas calaram o poeta, mas não o poema, cujo título premonitório refere-se à morte do autor, mas os versos aludem liricamente à vida, à infância, à liberdade. Refat Alareer vive e viverá nesse poema, que se tornou um dos símbolos mais potentes da resistência: um canto universal escrito em árabe por um jovem professor de literatura de língua inglesa de uma das 19 universidades de Gaza que foram destruídas, juntamente com livrarias, escolas, museus, teatros e centros culturais.

Mahmud Darwich, outro grande poeta palestino, escreveu no livro Memória para o esquecimento: “os fatos devem falar”. Atef Abu Saif deu voz aos fatos, que a maior parte da grande imprensa oculta, manipula ou distorce.

No posfácio de seu livro, Atef Abu Saif dirige-se ao leitor:

O que você tem nas mãos não foi planejado como um diário. Quando comecei, escrevia esses textos diariamente porque queria que as pessoas soubessem o que estava acontecendo. Queria que existisse um relato de eventos caso eu morresse. Senti a presença da morte tantas vezes… Conseguia senti-la pairando sobre mim, em meu ombro, e escrevi como uma maneira de resistir a ela, de desafiá-la – se não para derrotá-la, ao menos para não pensar nela. Como a guerra continua, só consigo pensar em sobrevivência. Não consigo lamentar. Não consigo me recuperar. Minha dor teve de ser adiada. Meu luto postergado. Agora não é hora de pensar nisso. Neste livro, porém, consigo ver todos que amei e perdi, e posso continuar conversando com eles. […] Ainda posso ainda posso acreditar que eles estão aqui comigo.

Nós, neste auditório, estamos com você e com o povo palestino, Atef.
Milton Hatoum

Um defeito de pele que está nos nossos olhos

“Nós nascemos com uma deficiência”, disse-lhe o pai. “A deficiência é a nossa cor”. E, por isso, explicou, “temos de trabalhar mais, de nos esforçarmos mais”. Cresceu com essa certeza e com a marca de ser “do bairro”, de vir das barracas. Há demasiadas crianças a aprender cedo essa lição. A de que nascem com um defeito colado à pele, um problema que se manifesta nos lábios grossos, nos narizes achatados, nos cabelos crespos. Olham-nos de lado, as pessoas mudam de passeio quando se aproximam em ruas escuras, os seguranças perseguem-nos instintivamente nas lojas, as mulheres agarram-se às malas quando os veem. São suspeitos.

Demorei demasiado tempo a percebê-lo. Para lá chegar, foram precisos muitos relatos como este sobre o que uma rapariga ouviu do pai, ainda criança. Histórias como esta esbarraram demasiadas vezes na minha incredulidade. Seria possível? Somos cegos ao que não sentimos. Para quem nasce branco, o racismo pode ser invisível. Porque o racismo é uma coisa que se sente na pele. Crava-nos as unhas sem deixar marcas que se possam ver.



A discriminação faz-se num jogo de sombras. As coisas não são evidentes. O mundo tem demasiados matizes de cinzento. E das outras cores todas. “Não existe cor de pele”, corrijo pela enésima vez, enquanto o meu filho mais novo me pede um lápis bege. Uma e outra vez, é preciso corrigir o que nos parece natural, mas não é. Houve um momento em que aprendemos aquilo que repetimos sem pensar.

Somos parte de uma engrenagem. Muitos dos nossos movimentos nasceram muito antes de nós. É preciso um esforço enorme para travar essa máquina e perceber como nos impele a triturar os outros.

Os outros são sempre outros. Nunca somos nós. Nós somos diferentes. E há tantos matizes e tantas maneiras de não as vermos, de não nos vermos.

Encontro um homem vestido com uma djellaba azul clara e um pequeno hijab kippah de crochet branco no topo da cabeça, longas barbas pretas apenas abaixo do queixo e pele escura, que faz questão de me mostrar que fala Português enquanto me conduz num Uber. É simpático, bem-disposto, fala-me das notícias do dia e de quanto o impressionaram as histórias de tumultos e autocarros queimados à volta de Lisboa.

O carro ainda mal entrou na estrada principal que há de levar-me ao meu destino e já o simpático motorista sentencia: “A culpa é dos africanos. Portam-se muito mal”. E, antes que eu tenha tempo de responder, conta-me que mora na Reboleira, onde teve problemas com vizinhos africanos.

Hesito. “O que devo dizer a este homem?”, pergunto-me, enquanto cravo os olhos na sua pele escura. “Já alguma vez foi maltratado por ser muçulmano?”, arrisco. Detém-se, como se não percebesse a pergunta. Não percebe. Insisto.

Aos poucos, vou tentando confrontá-lo com a forma como o vê quem olha para a maneira como está vestido e o entende como uma ameaça. Um outro. Ele que olha para os africanos como “outros”, todos iguais, é cego à ideia de que também ele pode ser um “outro” ameaçador.

Pergunta após pergunta, vejo-o a perceber o que lhe estou a tentar dizer. E é, então, ele que me pergunta por Odair Moniz, pelo homem que morreu baleado pela polícia. A cada resposta, a cada detalhe, faz um esgar, abana a cabeça. “Não é justo”, repete.

O carro para, cheguei ao meu destino. “É uma mulher muito inteligente e o que diz é justo”, diz-me com o sorriso sincero de quem chegou a algum lugar. Comovo-me com a ideia de que o levei até ali, quando é tão difícil sair do lugar de onde estamos.

Às vezes, é difícil ver. É quase sempre difícil ver. Mas a empatia é uma lente de aumentar que ajuda muito. Perceber que o “outro” também podemos ser nós ajuda muito.

Ninguém nasce com uma deficiência. O mundo é que não tem capacidade para nos acolher a todos da mesma maneira. Não há defeitos de pele. Há olhos que não sabem ver. Mas estamos sempre a tempo de aprender.

O fantasma da Saúde na era da IA

Nos últimos anos, a proliferação de desinformação na área da saúde atingiu proporções alarmantes, especialmente nas plataformas digitais. João Henrique Rafael Junior, analista de Comunicação do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP, monitora essa situação desde 2019, quando começaram os trabalhos da União Pró-Vacina (UPVacina), observando como o ecossistema digital, em particular o Facebook, se tornou um terreno fértil para propagandas de remédios milagrosos. “Houve uma transição dessas propagandas do conteúdo orgânico para um modelo patrocinado, no qual muitos lucram com anúncios que colocam em risco a vida das pessoas”, destaca Rafael Junior.

Em um trabalho conjunto entre o IEA-RP e a Rádio USP Ribeirão, utilizando ferramentas da própria plataforma Meta, como a Biblioteca de Anúncios, foram mapeadas essas campanhas em dois dias do mês de setembro (25 e 29). A estratégia foi capturar e registrar manualmente esses anúncios, uma vez que, após a veiculação, eles são removidos sem deixar rastros. Com isso, foram coletadas 513 publicidades que promoviam produtos sem mostrar comprovação científica e muitas vezes sem autorização dos órgãos reguladores.

Entre os principais tópicos dessas propagandas estão tratamentos para diabete, saúde sexual, emagrecimento e problemas de visão. “O que vemos é uma mudança de paradigma proporcionada pela inteligência artificial (IA); conteúdos que antes eram restritos, na sua maioria, a textos e imagens estáticas, foram aprimorados para vídeos elaborados que manipulam imagem e voz de personalidades e autoridades. Também pode ser observado um aumento substancial em escala, com centenas e até milhares produzidos e impulsionados diariamente”, avalia Rafael Junior.




O professor Fernando Bellissimo Rodrigues, infectologista e chefe do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, alerta sobre os perigos da desinformação na saúde, que se intensificam com o uso crescente das redes sociais. Segundo o especialista, a internet está repleta de informações, algumas confiáveis, outras não, e cabe ao público separar o joio do trigo. “Alertamos as pessoas para confiar menos em informações oriundas de perfis individuais nas plataformas digitais e procurar fontes mais confiáveis, como associações de profissionais da saúde ou entidades, como a Sociedade Brasileira de Geriatria ou a Associação Brasileira de Nutrição, que são mais confiáveis do que opiniões divulgadas por influenciadores nas redes sociais”, afirma.

Rodrigues alerta, ainda, que a desinformação afeta de maneira desproporcional as pessoas com menor nível educacional. “A população com menor escolaridade tende a ser mais vulnerável a promessas milagrosas, embora pessoas de alta escolaridade também acabem sendo enganadas.”
Padrão perigoso

Essas campanhas patrocinadas, além de utilizarem imagens e logos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de maneira possivelmente fraudulenta, também exploram personalidades públicas para aumentar sua credibilidade.

O levantamento revelou que 27,5% dessas propagandas utilizam a imagem do médico Drauzio Varella, uma das figuras mais respeitadas na área da saúde no Brasil. Outras personalidades, como âncoras de telejornais e artistas renomados também aparecem.


As personalidades mais utilizadas nesses anúncios são, além de Drauzio Varella, o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, a apresentadora Ana Maria Braga e âncoras de telejornais nacionais, que alcançam milhões de pessoas. Além delas, aparece o deputado Celso Russomano e figuras como Carlos Alberto de Nóbrega e Susana Vieira, também frequentemente usadas, muitas vezes em anúncios que simulam entrevistas e programas televisivos para conferir um ar de autenticidade.

Em entrevista à Rádio USP Ribeirão Preto, o médico Drauzio Varella fez duras críticas ao uso indevido de sua imagem e voz em propagandas manipuladas por inteligência artificial que circulam pela internet. Ele classificou essas práticas como um “crime contra a saúde pública”, destacando que muitas pessoas, especialmente as mais vulneráveis, acabam acreditando que ele está de fato promovendo os produtos. “Essas propagandas de supostos medicamentos com meu nome, algumas delas até com a minha voz montada por IA, são um crime”, afirmou.

Varella também mencionou o papel das plataformas de redes sociais na disseminação dessas informações falsas. Ele destacou a Meta como uma das principais responsáveis por permitir a circulação desses conteúdos. Para o médico, essas quadrilhas atuam em conivência com as plataformas, especialmente a Meta, que distribui isso para todos os lados, acrescentando que “as plataformas não têm interesse em remover os vídeos, já que lucram com a divulgação”.

O médico também revelou que está movendo uma ação contra a Meta, em função do uso da sua imagem, mas é cético quanto ao sucesso da iniciativa. “A chance de ganhar é muito pequena, porque, claro, eles são muito poderosos”, disse Varella. Apesar disso, ele mencionou uma denúncia ao Ministério Público que, segundo ele, já conseguiu identificar duas quadrilhas envolvidas nesse esquema. Para Varella, as plataformas são “tão criminosas quanto aqueles que divulgam essas falsidades”.

Já a especialista em Vigilância Sanitária da Gerência de Fiscalização da Anvisa, Alessandra Pessoa, também em entrevista à Rádio USP Ribeirão Preto,destacou que o monitoramento do comércio eletrônico e da publicidade de produtos de saúde na internet se intensificou após a pandemia. “A Anvisa iniciou em 2021 o monitoramento ativo de propaganda na internet, utilizando inteligência artificial para rastrear produtos fiscalizados em plataformas de comércio on-line 24 horas por dia, sete dias por semana. Com essa iniciativa, chamada Epinette, já foram rastreadas mais de 100 milhões de páginas, das quais mais de 200 mil continham algum tipo de conteúdo irregular”, informa a especialista.

Entre os principais desafios enfrentados pela Anvisa, Alessandra aponta a grande quantidade de sites e perfis que fazem publicidade de produtos regulados, além da dificuldade de caracterizar como publicidade alguns conteúdos postados nas redes sociais por figuras públicas, como artistas e esportistas, ou mesmo por profissionais de saúde de destaque.
Saúde em risco

Essas áreas são especialmente preocupantes, pois os produtos prometem soluções rápidas e fáceis para problemas sérios de saúde, desviando as pessoas dos tratamentos médicos apropriados. Além dessas categorias, outros temas incluem tratamentos para visão (7%), que prometem curas milagrosas para catarata e glaucoma; dermatologia (6%), com produtos que alegam reverter sinais de envelhecimento e eliminar cicatrizes; e medicamentos para gordura no fígado e dores nas articulações (6%), que geralmente têm como alvo os idosos. A análise mostra que algumas dessas propagandas chegam a afirmar, inclusive, que o produto cura o câncer.

Essa segmentação demonstra que as propagandas buscam atingir públicos vulneráveis, especialmente pessoas mais velhas, que podem ter mais dificuldade em verificar a veracidade das informações, e aquelas que estão enfrentando algum problema grave de saúde e enxergam no produto a solução para seu caso”, informa o analista João Rafael.

O professor Rodrigues lembra que também há um uso indiscriminado de polivitamínicos e suplementos que, segundo ele, são amplamente propagados como essenciais para a saúde geral, o que, em muitos casos, é enganoso. “Os polivitamínicos têm indicações específicas, como em casos de deficiência vitamínica ou dificuldades de absorção, mas não são indicados para uso generalizado”, critica. Ele destacou que muitos suplementos vendidos em academias não entregam o que prometem. “A proteína de um suplemento não é melhor do que a que vem do leite, do ovo ou da carne”, pontua.

O professor Rodolfo Borges dos Reis, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, vê com preocupação o crescente uso de suplementos alimentares divulgados na mídia. Segundo ele, esses produtos, por não se enquadrarem na categoria de medicamentos, não passam pelos rigorosos testes de eficácia ou regulamentação da Anvisa, o que resulta na ausência de estudos científicos que comprovem seus benefícios. “A população muitas vezes se deixa fascinar por remédios naturais que, além de serem ineficazes, podem causar danos, já que não foram devidamente testados”, alerta o professor.

O professor, que é especialista em Urologia Oncológica, também destaca que a comercialização desses suplementos, muitas vezes feita por meio de plataformas digitais e impulsionada por ferramentas de inteligência artificial, seleciona grupos-alvo suscetíveis a determinadas doenças. Essa prática, segundo o professor, é preocupante, especialmente no caso de produtos que afetam o eixo hormonal e são vendidos como fitoterápicos. Ele reforça a importância de consultar um médico especialista, como um urologista, para obter orientações adequadas. “Existem medicamentos eficazes para tratar e aliviar os sintomas urinários da hiperplasia prostática benigna, além da necessidade de descartar o câncer de próstata em estágios iniciais ou avançados”, explica.
Máquina de desinformação

O levantamento mostra que 83% dessas propagandas estão no formato de vídeos e 17% utilizam imagens estáticas tradicionais. Em relação aos vídeos, fortes evidências indicam que 62% usam manipulação por IA com informações falsas. “Esses fatores revelam uma preferência clara pela produção de vídeos, que são mais eficazes para atrair e engajar o público. É um mecanismo sofisticado que se apropria da confiança depositada nas figuras públicas e no suposto selo de aprovação da Anvisa para vender produtos duvidosos e, muitas vezes, ineficazes”, destaca Rafael Junior.

A análise também revelou que 96% dos anúncios direcionam os usuários para conversas no WhatsApp, onde o vendedor mantém contato direto com a pessoa, aumentando a vulnerabilidade e a possibilidade de golpes. “Essa tática é extremamente perigosa porque o usuário é incentivado a fornecer seus dados pessoais e, muitas vezes, efetuar compras sem qualquer garantia de segurança ou qualidade”, afirma Rafael Junior.
Dados preocupantes

Dos 513 anúncios coletados, 73% foram veiculados simultaneamente no Facebook e no Instagram, mostrando que a Meta está diretamente envolvida em promover esses produtos. Apenas 26% dos anúncios ficaram restritos ao Facebook e 1% dos anúncios foram exclusivos do Instagram. Essa ampla distribuição é facilitada pela própria empresa, que fornece as ferramentas para segmentar e atingir diversos públicos, gerando lucros significativos com essas campanhas. O analista também chama a atenção para o fato de o Facebook, o Instagram e o WhatsApp serem produtos da empresa Meta.

Os dados evidenciam que o Facebook e o Instagram hospedam essas propagandas e lucram com elas, devido ao uso intensivo de suas ferramentas de publicidade. Rafael Junior destaca que, apesar das limitações impostas pela plataforma, como a restrição de anúncios de medicamentos, que exigem prescrição médica, essas regras são facilmente contornadas pelos anunciantes. Alguns desses produtos, anunciados como naturais ou cosméticos, escapam das regulações permitindo a proliferação de informações duvidosas.

Além disso, os dados também revelam que quase 80% das páginas que promovem essas propagandas são novas, criadas ainda em 2024, e cerca de 90% delas possuem menos de 2.500 seguidores, evidenciando que os responsáveis operam de maneira estratégica para evitar detecção. Caso uma página seja denunciada ou bloqueada, rapidamente outra é criada, mantendo o esquema ativo. “Esse perfil, de página pequena e recém-criada, de maneira alguma seria capaz de atingir um público mais amplo se o conteúdo não fosse impulsionado”, diz Rafael Junior.

Para o analista, a prática evidencia um problema sistêmico: “O próprio Facebook se beneficia ao permitir a criação de páginas, lucrando com as propagandas enquanto alega promover segurança e regulamentação”.

Apesar dos esforços de regulamentação nas plataformas digitais para conter anúncios enganosos, o professor Rodrigues acredita que tais medidas são insuficientes. “As notícias falsas continuam circulando impunemente e há uma dificuldade tanto jurídica quanto técnica para responsabilizar os autores dessas fraudes.”

A gerente de fiscalização da Anvisa alerta para os riscos associados ao consumo de produtos de saúde sem a devida orientação. “O primeiro ponto é não usar medicamentos ou produtos de saúde sem a orientação de um profissional habilitado. Outro ponto fundamental é desconfiar de produtos que prometem resultados milagrosos, como emagrecimento rápido ou cura de doenças crônicas, porque geralmente não passaram por testes ou comprovação científica”, ressalta Alessandra, enfatizando a importância de verificar se o produto está regularizado junto aos órgãos de vigilância sanitária. Essa verificação pode ser feita no site da Anvisa neste link.

Para combater essas práticas, a Anvisa estabeleceu uma aproximação com diversas plataformas de comércio eletrônico, orientando-as sobre como verificar a regularização de produtos antes de serem expostos para venda. “Essa parceria já permitiu melhorias nos critérios de exposição desses produtos nos sites”, afirma.
Consequências para a saúde pública

O impacto desse tipo de propaganda é profundo nas pessoas que abandonam tratamentos convencionais para adotar as soluções milagrosas apresentadas nos anúncios. Produtos que prometem cura para diabete incentivam pacientes a suspenderem o uso de insulina, enquanto remédios que alegam tratar a próstata são vendidos como alternativas aos procedimentos médicos aprovados. Em outro exemplo alarmante, medicamentos para cura de problemas de visão incentivam a suspensão de cirurgias oftalmológicas, o que pode resultar em complicações graves para os pacientes.

Sobre os tratamentos milagrosos para catarata e glaucoma, a professora Cássia Senger, do Departamento de Oftalmologia e Anomalias Craniofaciais da Faculdade de Medicina de Bauru (FMBRU) da USP, alerta para os perigos de confiar em promessas de cura rápida e soluções não comprovadas. “É fundamental que as pessoas entendam que não há uma cura milagrosa para as doenças crônicas degenerativas”, enfatiza. Ela destaca a importância de buscar informações seguras, consultando a literatura científica e verificando se o tratamento sugerido é regulamentado pelos órgãos de saúde.

A professora também chama a atenção para os riscos do abandono de tratamentos convencionais, especialmente no caso do glaucoma, uma doença degenerativa e irreversível. “O paciente que para o tratamento indicado e adota medidas alternativas acaba perdendo o acompanhamento adequado. O glaucoma é uma doença silenciosa, sem dor ou incômodo, e quando o paciente percebe, a perda da visão já ocorreu e é irreversível.”

Além disso, ela ressalta que, no caso da catarata, a única solução viável atualmente é a cirurgia. “Não existe colírio, exercício ou medicação oral que resolva a catarata. A cirurgia é o único tratamento eficaz, e o atraso na realização desse procedimento pode aumentar os riscos.”

A oftalmologista reforça a necessidade de campanhas de conscientização. “A comunidade oftalmológica busca colaborar e combater a desinformação, promovendo acesso a informações corretas e seguras sobre as doenças oculares, especialmente através do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.”
Caminhos para o combate à desinformação

Pelos riscos que oferecem, as plataformas digitais precisam ser responsabilizadas e reguladas com maior rigor para impedir que continuem lucrando com anúncios que promovem desinformação e produtos duvidosos. “Além disso, campanhas de conscientização e verificação de informações, especialmente em temas relacionados à saúde, devem ser ampliadas”, enfatizam todos os entrevistados.

Sobre a importância de uma legislação mais rigorosa para combater a desinformação na área da saúde, a professora Cristina Godoy Bernardo de Oliveira, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP e líder do Grupo de Pesquisa Direito, Ética e Inteligência Artificial do CNPq-USP, destacou que a disseminação de informações falsas, especialmente durante crises sanitárias como a pandemia da covid-19, motivou a apresentação de projetos de lei no Brasil. “Um exemplo é o PL 693/2020, que trata da responsabilidade sanitária das autoridades públicas e tipifica o crime de divulgação de informações falsas que coloquem em risco a segurança sanitária.”

Segundo a professora, embora já existam iniciativas como o Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como o “PL das Fake News”, que visa à responsabilização das plataformas digitais, a eficácia dessas medidas depende da conscientização da população. “Podemos criar leis rigorosas, mas, sem educação, o combate à desinformação será limitado, especialmente na área da saúde”, alerta a professora.

Cristina Godoy também ressaltou o papel das plataformas digitais na disseminação de informações falsas e como estas devem ser responsabilizadas ao serem notificadas judicialmente sobre conteúdos nocivos à saúde. Ela explicou que, além de remover o conteúdo prejudicial, as plataformas devem estar sujeitas a uma regulamentação mais rígida. “O debate sobre o papel dessas plataformas está presente em fóruns nacionais e internacionais, como exemplificado pela União Europeia, que já adotou medidas para impor responsabilidades mais severas às empresas digitais.”

A professora Cristina, que também coordena o Grupo de Estudos em Direito e Tecnologia (TechLaw) do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP, enfatizou que, além de uma legislação adequada, é essencial o desenvolvimento de estratégias educacionais para que a sociedade saiba identificar e evitar a desinformação, principalmente no campo da saúde. Ela citou, como exemplo, o guia virtual elaborado em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, voltado para a capacitação de agentes de saúde no combate às notícias falsas.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Encontrando a jovem capturada em uma fotografia de detidos em Gaza


Um grupo de dezenas de homens de Gaza detidos retratados em suas roupas íntimas, durante o que parece ser uma verificação israelense de armas e sinais de quaisquer ligações com o Hamas. Eles estão sentados ou agachados, entre eles, uma garotinha pode ser vista. É difícil vê-la na multidão de homens. Ela é a pequena figura mais para trás.


Os soldados ordenaram que os homens ficassem só de cueca. Até mesmo alguns dos mais velhos. Eles olham para cima, para quem quer que esteja tirando a fotografia. É quase certo que seja um soldado israelense.

A imagem parece ter sido publicada primeiro na conta do Telegram de um jornalista com fontes fortes nas Forças de Defesa de Israel.

Os homens parecem abjetos, medrosos e exaustos. A garotinha, que foi notada na foto por um produtor da BBC, está olhando para longe. Talvez algo fora do campo de visão da câmera tenha chamado sua atenção. Ou talvez ela simplesmente não queira olhar para os soldados e suas armas.

Os militares disseram às pessoas para pararem aqui. Prédios explodidos por bombas se estendem à distância atrás deles. Eles estão verificando os homens, em busca de armas, documentos, qualquer sinal de que eles possam estar ligados ao Hamas.

Muitas vezes o sofrimento desta guerra é encontrado nos detalhes de vidas individuais. A presença da criança, sua expressão enquanto ela olha para longe, é um detalhe que coloca tantas perguntas.

Acima de tudo, quem era ela? O que aconteceu com ela? A foto foi tirada há uma semana.

Uma semana de centenas de mortos, muitos feridos e milhares desalojados de suas casas. Crianças morreram sob os escombros de ataques aéreos ou porque não havia remédios ou equipe médica para tratá-las.

Trabalhando com o programa BBC Arabic Gaza Today, começamos a procurar pela criança. Israel não permite que a BBC ou outra mídia internacional acesse Gaza para reportar de forma independente, então a BBC depende de uma rede confiável de jornalistas freelancers. Nossos colegas abordaram seus contatos com agências de ajuda no norte, mostrando a fotografia em lugares para onde os deslocados tinham fugido.

Em 48 horas, a notícia retornou. A mensagem no telefone dizia: “Nós a encontramos!”

Julia Abu Warda, de três anos, estava viva. Quando nosso jornalista chegou à família na Cidade de Gaza - para onde muitos de Jabalia fugiram - Julia estava com seu pai, avô e mãe.

Ela estava assistindo a um desenho animado de galinhas cantando, difícil de ouvir por causa do zumbido ameaçador de um drone israelense sobrevoando.

Julia ficou surpresa por, de repente, ser o centro das atenções de um estranho.

"Quem é você?", perguntou o pai, brincando.

"Jooliaa", ela respondeu, esticando a palavra para dar ênfase.

Julia Abu Warda, de três anos, senta-se no colo do pai, enquanto ele olha para baixo. Há uma expressão cautelosa em seus olhos castanhos. Ela está vestida com um suéter cor de pêssego, com o cabelo em dois coques amarrados com pompons azuis.

A BBC encontrou Julia e seu pai, Mohammed, na Cidade de Gaza

Julia estava fisicamente ilesa. Vestida com um suéter e jeans, seu cabelo em coques presos por faixas florais azuis brilhantes. Mas sua expressão era cautelosa.

Então Mohammed começou a contar a história por trás da fotografia.

Cinco vezes a família foi deslocada nos últimos 21 dias. Cada vez eles estavam fugindo de ataques aéreos e tiros.

No dia em que a foto foi tirada, eles ouviram um drone israelense transmitindo um aviso para evacuação.

Isso aconteceu no distrito de Al-Khalufa, onde as IDF estavam avançando contra o Hamas.

“Houve fogo de artilharia aleatório. Fomos em direção ao centro do campo de refugiados de Jabalia, na estrada para o posto de controle.”

A família levou suas roupas, algumas latas de comida enlatada e alguns pertences pessoais.

No começo, todos estavam juntos. O pai de Julia, sua mãe Amal, seu irmão de 15 meses Hamza, um avô, dois tios e um primo.

Mas no caos, Mohammed e Julia foram separados dos outros.

“Eu me separei da mãe dela por causa da multidão e de todos os pertences que carregávamos. Ela conseguiu sair, e eu fiquei no lugar”, disse Mohammed.

Pai e filha finalmente seguiram adiante com o fluxo de pessoas saindo. As ruas cheiravam a morte. “Vimos destruição e corpos espalhados no chão”, disse Mohammed. Não havia como impedir Julia de ver pelo menos um pouco disso. Depois de mais de um ano de guerra, as crianças se familiarizaram com a visão daqueles que morreram de mortes violentas.

O grupo chegou a um posto de controle israelense.

“Havia soldados nos tanques e soldados no chão. Eles se aproximaram das pessoas e começaram a atirar acima de suas cabeças. As pessoas estavam se empurrando durante o tiroteio.”

Os homens foram obrigados a se despir até ficarem de cueca. Este é um procedimento de rotina enquanto a IDF procura por armas escondidas ou homens-bomba. Mohammed diz que eles foram mantidos no posto de controle por seis a sete horas. Na fotografia, Julia parece calma. Mas seu pai se lembrou de sua angústia depois.

“Ela começou a gritar e me disse que queria a mãe dela.”

A família foi reunida. Os deslocados estão amontoados em pequenas áreas. Os laços familiares são fortes. As notícias correm rápido na Cidade de Gaza quando os parentes chegam de Jabalia. Julia foi confortada pelas pessoas que a amavam. Havia doces e batatas fritas, uma guloseima que estava guardada.

Então Mohammed revelou ao nosso colega o profundo trauma que Julia havia sofrido, antes daquele dia do voo de Jabalia para a Cidade de Gaza. Ela tinha um primo favorito. O nome dele era Yahya e ele tinha sete anos. Eles costumavam brincar juntos na rua. Cerca de duas semanas atrás, Yahya estava na rua quando os israelenses lançaram um ataque de drone. A criança foi morta.

“A vida costumava ser normal. Ela corria e brincava”, ele disse. “Mas agora, sempre que há bombardeio, ela aponta e diz, ‘avião!’ Enquanto estamos presos, ela olha para cima e aponta para o drone voando sobre nós.”

Julia esfrega um dos olhos com a mão enquanto se inclina contra o pai, que a segura no colo. Mohammed é um jovem de cabelos escuros e barba aparada. Eles estão sentados em uma cadeira de plástico, do lado de fora.

O primo favorito de Julia, Yahya, foi morto na rua em um ataque de drone israelense

De acordo com a Unicef, agência das Nações Unidas para a infância, 14.000 crianças foram mortas na guerra.

“Dia após dia, as crianças pagam o preço por uma guerra que não começaram”, disse o porta-voz da Unicef, Jonathan Crickx.

“A maioria das crianças que conheci perderam um ente querido em circunstâncias muitas vezes terríveis.”

A ONU estima que quase todas as crianças na Faixa de Gaza — quase um milhão — precisam de apoio à saúde mental.

É difícil chamar uma criança como Julia de sortuda. Quando você pensa no que ela viu e perdeu e onde ela está presa. Quem sabe o que retornará em sonhos e memórias nos próximos dias. Agora ela sabe que a vida pode acabar de forma terrivelmente repentina.

Sua sorte está na família que fará tudo o que for humanamente possível — diante de ataques aéreos, tiroteios, fome e doenças — para protegê-la.

Gaza é o horror que não pode ser negado

As manchetes mudaram para o Irã, mas Israel continua matando de fome, bombardeando e expulsando a população do norte de Gaza. Enquanto a sociedade israelense como um todo ativou seu modo de negação, as imagens horripilantes – e a política, as declarações e a realidade por trás delas – estão fazendo com que alguns israelenses protestem contra crimes de guerra, ou até mesmo pronunciem a palavra genocídio.

Dália Scheindlin 

Voto obrigatório, um velho e carcomido senhor

A abstenção de quase 30% no país nas eleições municipais assustou muita gente e despertou no Tribunal Superior Eleitoral a necessidade de se fazer um estudo profundo para saber as razões dessa acentuada ausência do eleitor.

Se somadas as quantidades de sufrágios em branco e nulos, a conta beira os 40% e, em números absolutos, mostra que vários candidatos perderam para o não voto.

Pela relevância dos dados e das motivações implícitas, a recusa à participação ativa foi um dos assuntos mais comentados nos balanços dos chamados recados das urnas.


Rivalizou com o sucesso da centro-direita, o mau desempenho da esquerda, a força das emendas parlamentares na reeleição e a constatação de que Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) não mandam na vontade das pessoas, mais interessadas na administração das respectivas cidades do que na briga dos chefes das torcidas da política nacional.

A encomenda do TSE para se estudar a abstenção nos detalhes sem dúvida é muito útil, pois uma vez concluído o trabalho vai se poder abordar o assunto com precisão, sem chutes nem ilações que possam distorcer as conclusões.

Não é necessário, porém, ir às profundezas sociológicas das raízes do Brasil para se chegar a alguns dos porquês de parcela crescente do eleitorado fazer do voto obrigatório —regido por regras de 1965, na ditadura— quase uma letra morta, quando em outro tempo já foi preferência nacional.

A cada nova pesquisa sobre o tema, porém, o facultativo ganha terreno e já representa a maioria. Segundo levantamento do Datafolha de 2020, 56% são contrários à obrigatoriedade.

Outra consulta feita em agosto de 2024, na capital paulista, registrou índice de 52%. Agora em outubro 34% dos paulistanos disseram ao mesmo instituto que não teriam votado se não fossem obrigados. A abstenção segue o ritmo de crescimento; foi de 16,2% em 2000, quase metade do índice atual.

O que está havendo? Antes de falar sobre o descrédito na política e o comportamento dos partidos, vamos a outras hipóteses menos dramáticas para explicar: o aumento da população maior de 70 anos de idade, que não é obrigada a votar e a cada vez maior facilidade para se justificar ausência.

Sobre esse segundo ponto, um parêntese: por que tenho de dizer ao Estado onde estou no dia da votação ou lhe dar satisfação sobre uma decisão privada de não exercer um direito?

E aqui chegamos aos partidos e aos políticos que muitas vezes tampouco se obrigam a dar satisfações aos cidadãos. Assumem atitudes —notadamente nos períodos de entressafra eleitoral— de total indiferença ao que lhes diz a sociedade.

Acontece, por exemplo, quando aprovam fundo eleitoral de R$ 5 bilhões, anistiam as próprias dívidas e se articulam para afrouxar a Lei da Ficha Limpa aprovada na pressão por um projeto de iniciativa popular. Isso para citar casos mais recentes. Ao longo da história (só da redemocratização) há uma coleção deles.

Cada vez mais livres de cobranças, desobrigados de prestar contas sobre a folha corrida dos candidatos escolhidos para concorrer, montados numa dinheirama pública cujos eventuais ilícitos são objeto de anistia autoconcedida, as agremiações partidárias viraram ilhas voltadas para seus interesses.

Caso precisassem atuar como entidades de direito privado que são, indo à luta para amealhar recursos e empenhar esforços para conquistar o eleitorado, não tivessem a reserva de mercado do voto obrigatório provavelmente outros galos cantariam na política nacional.

O Brasil está na vanguarda no sistema eletrônico de votação e apuração. Não faz sentido nem combina com tais avanços que se mantenha na retaguarda na relação do Estado com o cidadão que, se estimulado, poderia se transformar num eleitor mais bem disposto a ir às urnas. Ou se ausentar sem precisar se justificar.

Um Mundo

É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo

António Ramos Rosa, "Acordes"

Estudo alerta para riscos do aumento do lixo gerado pela IA

A crescente popularidade da inteligência artificial (IA) ​​generativa deve resultar num aumento acelerado do lixo eletrônico ou e-lixo (e-waste), segundo estudo publicado na revista científica Nature Computational Science esta semana.

Os cientistas responsáveis pelo estudo calcularam que o e-lixo pode atingir um total de 1,2 milhão a 5 milhões de toneladas métricas até 2030, ou mil vezes mais do o total produzido em 2023.

"Descobrimos que o e-lixo gerado pela IA generativa, particularmente grandes modelos de linguagem, pode aumentar drasticamente, com potencial de atingir até 2,5 milhões de toneladas por ano até 2030, se não se adotar nenhuma medida de redução de resíduos", disse Asaf Tzachor, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Reichman de Israel e coautor do estudo.

A pesquisa também oferece soluções para reduzir o lixo eletrônico, como estratégias para prolongar, reutilizar e reciclar hardware de IA generativa, que podem reduzir a geração residual entre 16% e 86%.

"Isso representa uma enorme oportunidade para reduzir o fluxo de resíduos, caso essas práticas sejam amplamente adotadas. Fica claro neste estudo que a natureza da crise do e-lixo é global, por isso é importante nos concentrarmos na gestão transfronteiriça do e-lixo", disse Saurabh Gupta, fundador da Earth5R, uma organização de sustentabilidade com sede na Índia. Ele não estava envolvido no estudo.



Toda vez que se joga fora um dispositivo eletrônico "desatualizado" ou quebrado, ele passa a ser considerado e-lixo. Podem ser computadores, smartphones, carregadores e cabos, brinquedos eletrônicos, automóveis e sistemas de servidores de grandes dimensões.

O e-lixo representa 70% do total de resíduos tóxicos produzidos em todo o mundo a cada ano, mas apenas 12,5% dele é reciclado. O contador em tempo real no portal de internet The World Counts mostra o quão rápido o e-lixo aumenta em todo o mundo.

"Reduzir o e-lixo é importante, porque o descarte inadequado gera liberação de materiais perigosos, como chumbo e mercúrio, que prejudicam os ecossistemas e a saúde humana", explica Gupta.

Os pesquisadores se concentraram no e-lixo produzido por algoritmos de IA generativa – os tipos de IA que geram textos, imagens, vídeos ou música a partir de grandes conjuntos de dados.

Estudos anteriores confirmaram a alta demanda de energia da IA. Estimativas do instituto de pesquisas SemiAnalysis sugerem que a IA poderá resultar em centros de dados que utilizam 4,5% da produção global de energia até 2030.


Segundo Tzachor, porém, não está tão claro quanto de e-lixo é produzido por programas de IA generativa, como o ChatGPT, incluindo todos os recursos computacionais necessários ao treinamento e uso de IA nos centros de dados.

Como a IA generativa depende de melhorias rápidas na infraestrutura de hardware e tecnologias de chip, há indícios de que ela gera mais e-lixo à medida que o hardware é atualizado ou substituído. "É muito mais fácil e econômico abordar os desafios do lixo eletrônico impostos pela IA agora, antes que eles cresçam para fora de controle", alerta Tzachor.

Os pesquisadores criaram um modelo para quantificar a escala do e-lixo nos centros de dados que dão suporte ao uso de modelos de IA generativa, como modelos de linguagem de grande porte (LLMs). Eles concluíram que o e-lixo pode atingir 5 milhões de toneladas por ano num cenário de crescimento acelerado da IA.

Mas, segundo ​Tzachor, essas estimativas são potencialmente modestas, devido à rápida transformação do ambiente de negócios da IA: "Fatores como restrições geopolíticas às importações de semicondutores e a rápida rotatividade de servidores podem intensificar a geração de e-lixo associado à IA generativa."

Ele observa ainda que o estudo incluiu apenas o e-lixo criado por sistemas de IA generativa, especificamente os grandes modelos de linguagem, e não outras formas de IA.

"O e-lixo do ecossistema de IA mais amplo é significativo. O estudo prevê que esse volume aumentará com a maior utilização da IA, criando um desafio ambiental que reunirá várias formas de inteligência artificial" aponta Gupta.
Necessidade de estratégias globais

O estudo estima que a implementação de estratégias de economia circular pode reduzir a geração de lixo eletrônico em 16% ou até 86%. Essas estratégias visam minimizar o desperdício e aumentar a eficiência do hardware de computadores.

Tzachor enumera três objetivos principais da estratégia: prolongar o uso do hardware para postergar a necessidade de novos equipamentos, reutilizar e remanufaturar componentes e extrair os materiais valiosos durante a reciclagem do hardware.

Gupta diz concordar plenamente com as conclusões do estudo: "A faixa de redução de 16% a 86% reflete o imenso potencial dessas estratégias, especialmente se apoiadas por políticas e amplamente implementadas em diferentes setores e regiões."

Segundo o especialista, sua organização, a Earth5R, já demonstrou quão eficazes podem ser as estratégias de economia circular: "Através de nossos programas de base e parcerias com empresas, já promovemos esforços locais de coleta e reciclagem de e-lixo que ajudam empresas e consumidores a gerir seus eletrônicos de forma sustentável."

Gupta enfatiza que o e-lixo é uma crise global requerendo estratégias de gestão equitativas e transfronteiriças para mitigar os danos ambientais e à saúde causados ​​quando países ricos exportam seu lixo eletrônico para regiões de baixa renda.