segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Pintando o sete

Escrevo com antecedência habitual num hotel da Bahia. É perigoso escrever com alguma antecedência no Brasil. Segunda-feira nunca se sabe o que será.

Bolsonaro sequestrou o 7 de Setembro, transformando uma data nacional num evento partidário. Confesso que hesitei sobre o tema da semana passada. Pensei em escrever algo sobre como escapar dos primeiros efeitos do golpe de Estado.

Infelizmente, é essa a minha experiência. Gostaria de transmitir algo sobre reaproveitamento de alimentos ou como fazer móveis em casa. Mas o que retive foi como escapar nos primeiros e confusos momentos de um golpe.

Optei por uma outra análise e escrevi que tudo acabaria na quarta-feira. Esqueci que, no carnaval, alguns blocos resilientes saem às ruas mesmo com as cinzas.

Foi assim que vi os caminhoneiros nos 20 bloqueios pelos quais passei até chegar aqui. Eles não sabiam que tudo acabou. No Sul da Bahia, vi dois deles sentados no para-choque e pensei naquele soldado japonês que passou anos sem saber que a guerra acabara.


De fato, não acabou totalmente. Mas era evidente que Bolsonaro não tinha nada de durável a propor. Quando anunciou que reuniria o Conselho da República para mostrar a foto da multidão, era evidente que estava perdido.

Infelizmente, não foi possível para a imprensa entrevistar os manifestantes. Muitos questionam o STF por causa de sua postura contra a corrupção. Não sabem que o único ministro indicado por Bolsonaro é talvez menos rigoroso que os outros.

Alguns acham que o voto eletrônico não é auditável. O universo digital é etéreo e misterioso para eles, e compensa insistir na campanha que esclarece sobre a segurança do sistema.

É possível deslocar uma grande parte desse público do bloco de apoio a Bolsonaro. Essa é uma das tarefas diante do fracasso do mito.

A outra, naturalmente, foi realizada ontem. Uma união de pelo menos algumas forças democráticas para demonstrar que nenhum golpe passará: os dias de chantagem golpista chegam ao fim.

Para um resultado melhor, é preciso deixar de lado o slogan “nem Bolsonaro nem Lula”. É algo que diz respeito a uma escolha eleitoral que ainda está distante. O problema central agora é outro.

É preciso deter o processo de destruição do meio ambiente, encarar a crise hídrica, fortalecer o combate à pandemia, indicar as linhas mestras de uma retomada econômica.

Bolsonaro não se preocupa com isso. Ele queria uma foto da multidão e achava que, mostrando essa foto, mudaria o rumo do país, o que, no seu universo, significa ter voto impresso e derrubar alguns ministros. É incapaz de escrever uma nota admitindo que pintou o sete e foi socorrido pelo Michel Temer, que deveria ter lhe aplicado algumas mesóclises como castigo.

É hora de voltar à dura realidade do Brasil. Na televisão na terça-feira, disse que o Conselho da República se reuniria na realidade paralela do bolsonarismo. Na estrada, alguns caminhoneiros comemoram o estado de sítio e dizem que estão fazendo História.

As pessoas precisam compreender que não basta vestir uma camisa amarela, saudar o mito e comer sua macarronada para alterar o curso da História. As coisas são bem mais complicadas. Também para os que sempre fizeram oposição a Bolsonaro. O fato de tanta gente aceitar bandeiras que derrubam a democracia deve nos levar a uma reflexão. Até que ponto basta apenas defendê-la de seus inimigos, sem examinar suas fraquezas e tentar fortalecê-la no cotidiano?

Não é preciso apenas que Bolsonaro passe, mas que passem também as condições político-sociais que deram margem a essa ilusão coletiva. Na euforia do processo de redemocratização, não contávamos com retrocesso.

Estamos pagando um preço alto, em vidas humanas, recursos naturais, convivência fraternal, imagem externa; enfim, algo que já não temos como pagar no futuro. Hora de reconstruir.

O camburão de Petrônio

No feriado de 12 de outubro de 1977, o Palácio do Planalto amanheceu protegido por soldados e atiradores de elite em posições estratégicas. O presidente da República decidira exonerar seu ministro do Exército, Sylvio Frota, que era abertamente contra o processo de abertura lenta e gradual na política brasileira.

Naquele dia ocorreu o confronto decisivo entre os partidários da democracia e os defensores do regime fechado conduzido pelos militares.

Geisel enviou emissários ao aeroporto de Brasília onde ocorreu o estica e puxa político-militar. Uns generais eram convidados a ir para o Quartel General do Exército, outros para o Palácio do Planalto. O presidente venceu o confronto e determinou a exoneração de seu Ministro do Exército.

O episódio pavimentou o caminho para o general João Baptista Figueiredo subir a rampa do Planalto e promulgar a anistia. Os integrantes da chamada linha dura foram relegados à desimportância. O general Augusto Heleno era ajudante de ordens do ministro Sylvio Frota. Hoje é um dos principais conselheiros do presidente da República.



Os herdeiros daquela turma de perdedores se espalharam pela babel brasileira. Uns se envolveram com o negócio das drogas. Os jogos de azar atraíram alguns, outros decaíram para o grupo de ladrões profissionais do erário público e milicianos que infestaram áreas não protegidas pelos governos locais e nacional.

O jovem militar Jair Bolsonaro foi punido por tentar colocar bomba no quartel por causa de baixos salários. Nunca escondeu ser contra a anistia.

O presidente Bolsonaro pertence àquela turma. Manteve a admiração pelo coronel Brilhante Ustra, acusado de torturar presos políticos, sua alergia a assuntos ligados ao meio ambiente e a questão de gênero. Ele não consegue entender a vida democrática.

Desconhece o esforço de negociação do saudoso Petrônio Portela, ministro da Justiça do governo Figueiredo que, com paciência e determinação, negociou passo a passo a anistia. A medida permitiu que Brizola e Arraes, dentre centenas de expatriados, retornassem ao Brasil.

Bolsonaro gosta do poder. Ele enxerga nos milhares de seguidores a legitimidade para modificar a essência do regime político nacional. Não quer realizar a eleição, porque há o risco de derrota. A solução é sublevar o estado brasileiro, derrubar os conceitos constitucionais, assumir plenos poderes, suspender as garantias individuais, fechar o Congresso e modificar a constituição do Supremo Tribunal Federal para conseguir impor sua vontade.

Isso se chama ditadura, semelhante a que está no poder na Venezuela.

Ele gosta cada vez mais de exercer o poder de comando. Nomeia com prazer e demite com humilhação, inclusive generais. Prometeu liberalismo e entregou intervencionismo estatal. Acenou com radical presença contra a corrupção, mas demitiu o ministro que liderou a operação lava-jato e colocou no poder partidos políticos especializados em trabalhar em proveito próprio.

Defendeu com afinco os interesses pecuniários de filhos e apaniguados.

A esquerda evoluiu na esteira do Partido dos Trabalhadores, cujo líder, Luís Inácio Lula da Silva jamais foi comunista. Ele se envolveu no projeto do então deputado José Dirceu que se aliou a outras legendas para buscar a hegemonia no país.

Quase chegou lá. Perdeu-se quando os dinheiros e os interesses começaram a guiar suas prioridades. Foi resgatado pela surpreendente decisão do Supremo Tribunal Federal de libertá-lo. Este detalhe complica ainda mais o cenário político atual.

Bolsonaro começou sua administração demitindo assessores próximos, civis e militares. Moldou o governo à sua feição. Bajulou as polícias militares e fez questão de interferir no comando das Forças Armadas. Exigiu lealdade absoluta e inquestionável. Promoveu até o ridículo desfile de veículos militares fumacentos, a pretexto de lhe prestar apoio público.

O resultado da evolução dos fatos neste curto espaço histórico aparece nos dois comícios no dia 7 de setembro. Foi a tentativa de reverter aquilo que ocorreu em Brasília, há 43 anos. Ele não quer admitir que a democracia seja uma realidade no Brasil.

Petrônio Portela, quando negociava com os militares a abrangência da anistia, me disse numa conversa particular. ‘Se eu falhar, o camburão vai passar na minha casa. Mas, não se iluda: depois também vai passar na sua”. Achei que este tempo tinha ficado na história. Mas é atual. O golpe de estado foi ensaiado. O Supremo, com auxílio precioso de Michel Temer, segurou o movimento. Até agora.

O povo precisa de beleza

Minha primeira reação foi de indignação moral. O fedor da corrupção empesteou o ar. Isso tem sido comum na história da política. Nem mesmo a Dinamarca escapou. “Há algo podre no reino da Dinamarca!”, Shakespeare escreveu no “Hamlet”.

Aí vieram as explicações. O fedor era uma ilusão. Flatulências da oposição. Mas os instrumentos para detecção de odores mostravam que o fedor existia, sintoma de que havia algo podre também na República do Brasil.

Veio depois o espanto psicótico. Percebeu-se que o mau cheiro era produzido não só por intestinos apodrecidos pela corrupção mas também por mentes apodrecidas pela loucura.

Mas o que sinto agora é outra coisa: horror estético. Tudo ficou grotesco. Barreto Pinto: somente os velhos se lembram do nome desse deputado. Apareceu na revista “O Cruzeiro” vestido de sobrecasaca e cueca samba-canção. Sobrecasacas são vestimentas de suprema nobreza. Usam-nas os regentes de orquestra, os pianistas, personalidades ilustres em cerimônias de grande pompa. Por outro lado, não havia nada de indecente numa cueca samba-canção. Todos os homens as usavam. E as mulheres gostavam de ver os seus homens na intimidade usando as ditas cuecas, as únicas que havia. Imagino até que as cuecas samba-canção as excitassem. Eram símbolos masculinos. Mas juntar sobrecasaca com cueca samba-canção é, definitivamente, grotesco. Não só grotesco como psicanaliticamente revelador: em cima, o corpo dignificado pela beleza atemporal da casaca, a máscara. Embaixo, o inconsciente, o corpo revelado e humilhado na verdade que as calças escondem, as pernas finas de velho saindo pela boca larga da cueca branca. Seus colegas parlamentares sentiram vergonha. Não o perdoaram. Foi cassado por quebra do decoro parlamentar.


Fiquei intrigado com o sentido da palavra “decoro”. Não posso me valer de um dicionário porque estou escrevendo de um lugar numa serra de Minas onde não há dicionários. Valer-me-ei do meu dicionário particular que mora na minha memória: “Decoro parlamentar, s.m. Refere-se ao estilo de comportamento verbal e corporal que um parlamentar deve ter para que as normas da estética não sejam quebradas”. Se não é isso, fica sendo…

Corrupção se castiga. Loucura se trata. Mas o grotesco é inesquecível. Quem viu não esquece mais. E embora poucos saibam disso, um povo precisa de beleza. É da beleza que nasce a esperança. O Hino Nacional é belo. Lembram-se da Fafá de Belém cantando nos comícios pelas “Diretas Já”? Todo mundo tremia e chorava por causa da beleza. A bandeira é bela, ondulada pelo vento. Quantas coisas bonitas a bandeira evoca no seu silêncio! Meu filho chorou ao vê-la pendida triste, enrolada no mastro, humilhada, escondendo-se de vergonha… E o Congresso, como um dos símbolos da nação, tem também de ser belo!

Mas isso ele não é. É impossível esquecer o grotesco: os deputados elegeram o Severino como seu modelo. O tempo passou. O grotesco ficou. A Câmara ficará severinomórfica por muito tempo…

Lembro-me da sessão em que Collor foi cassado. Todos os deputados se sabiam vistos pelo povo. Queriam posar de heróis. Vestiram suas palavras com casacas. E a cada nome que se chamava ouvia-se o ridículo: “Por Deus, pela pátria, pela família, sim, senhor presidente!”, “Pela honestidade, pela justiça, pelo Brasil, sim, senhor presidente!”. E assim, sem fim… Eu fiquei com vergonha. As sobrecasacas verbais não escondiam as pernas finas que saíam das cuecas samba-canção.

Estou cansado do grotesco. Quem nos devolverá a alegria da beleza?
Rubem Alves, Folha SP 24;01/2006.

Sopa de letras

Qualquer pessoa de bom senso entende que nem todos os textos se podem ler ao pé da letra. É o caso da ficção, que pode transportar o leitor a mundos fantasiosos, pôr falas na boca de personagens imaginárias e inventar paisagens inexistentes. É o caso também da poesia em que o eu poético exprime sentimentos diversos das vivências do autor, onde as palavras são lapidadas como se fossem diamantes e as sonoridades contam.

Mesmo na prosa há figuras de estilo que funcionam como recursos utilizados para melhorar e embelezar o texto, para sugerir ideias, interpretações, sensações. As parábolas bíblicas integram essa estratégia tão cara às culturas antigas, ou as hipérboles que seriam absurdas uma vez levadas à letra. De facto, saber ler um texto tendo em conta o seu estilo literário é o primeiro passo para uma boa interpretação do mesmo.


O literalismo bíblico, porém, recusa a interpretação, ou melhor, impõe sempre uma interpretação literal a menos que não interesse à agenda da ideologia religiosa em questão. Nesse caso tenta desajeitadamente uma incursão para fora do campo da literalidade mas sem qualquer lógica ou enquadramento hermenêutico.

Os textos bíblicos incluem, entre outros estilos, literatura poética, de viagens, histórica, devocional, sapiencial e revelacional, mas também textos jurídicos e um pouco de apocalíptica. Ora, todos estes estilos necessitam de interpretação diferenciada. Por exemplo, ninguém lê poesia, que remete para o simbólico e cujos termos admitem uma generosa amplitude de cargas semânticas, da mesma forma como um texto jurídico, que se pauta por uma objectividade quase obsessiva, onde cada vírgula conta e cada termo deve ser o mais explícito e claro possível.

Conta-se que no interior do Brasil dos anos quarenta um recluso aderiu à fé cristã na cadeia. Ao tomar contacto com a Bíblia deparou-se com o seguinte texto do evangelho de Mateus: “Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno” (18:8,9). Acto contínuo arrancou um dos olhos de modo a evitar cair no inferno…

Como é óbvio a tentação da literalidade é amiga dos fundamentalismos e tem as suas razões, a maior das quais será talvez a falta de cultura bíblica, que não tem em conta os contextos escriturísticos, culturais, políticos, sociais e religiosos das diferentes eras ao longo de milhares de anos.

Por outro lado trata indistintamente o Antigo Testamento e o Novo como se fossem escritos na mesma época, sem distinguir os termos nem os tempos das alianças e ignorando a entrada do Cristo Encarnado na história humana, da qual resultou um novo paradigma. Querem aplicar a lei de Moisés à Igreja, mas normalmente apenas a parte que interessa. Caso contrário assumem justificações casuísticas para as incongruências demasiado fortes que a literalidade não consegue ultrapassar.

Se os cristãos fossem hoje cumprir a Torah à letra estaríamos a apedrejar até à morte os adúlteros e os homossexuais, não poderíamos envergar roupa com incorporação de determinados tipos de tecidos, não podíamos comer um rol imenso de alimentos e satisfaríamos muitos outros interditos, além de guardar religiosamente o sábado, quando ninguém poderia trabalhar.

Portanto, a literalidade bíblica não pode servir apenas quando dá jeito, nem pode ser alvo de aplicação casuística sem qualquer lógica ou enquadramento hermenêutico. Uma boa exegese obriga a critérios claros e objectivos que não permitam devaneios interpretativos. Stephen Tomkins escreve no The Guardian que na declaração de fé da Convenção Baptista do Sul (EUA), o primeiro ponto é a Bíblia, antes de qualquer menção a Deus. Daí o célebre aforismo idólatra de William Chillingworth: “A Bíblia, digo, apenas a Bíblia, é a religião dos protestantes!”. Nestas coisas há uns que erram por excesso e outros por defeito.

O literalismo bíblico é uma pecha característica de alguns sectores religiosos. O verdadeiro problema está em que muitos, em vez de abordarem os textos bíblicos com toda a seriedade e disponibilidade mental e espiritual, usam-nos de forma instrumental, como ferramenta com o fim de validar os seus pressupostos doutrinários e a sua agenda religiosa. E já se vê que daí não pode resultar nada de bom. Fazer uma sopa de letras, quando se trata dos textos bíblicos (ou quaisquer outros), resulta sempre numa mistela intragável.

sábado, 11 de setembro de 2021

Povo zerado

Todos querem apenas sobreviver. Se analisarmos a história, vamos concluir que o nível de vida do povo baixou a zero. Não de todos. Os que se locupletaram estão lá. Aqueles que os serviram se arranjaram. E todo mundo só quis servir. Foram décadas que derrotaram a civilização
Ignácio de Loyola Brandão

A facilidade irresponsável com que o governante daqui atrai e aglutina gente medrosa

O Brasil é o país que mais lincha no mundo, um linchamento ou tentativa de linchamento por dia. Há cerca de 30 anos, quando comecei uma extensa pesquisa sociológica sobre esse grave problema social, a geografia desse crime de multidão mostrava que eram estados de maior incidência de linchamentos a Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, nessa ordem.

Hoje o centro está deslocado para o Norte, o Amazonas, sobretudo Manaus. A multidão, com facilidade, elege inimigos e os trucida, supondo com isso assegurar sua liberdade e seu modo de ser. Seu medo é juiz e carrasco.

Os linchamentos ocorrem em áreas de ocupação relativamente recente, seja pelo advento de novas populações migrantes, seja pela chegada de novos vizinhos em bairros urbanos. O crime de multidão, no Brasil, é praticado por gente que tem medo. Medo do que é novo, do que é diferente e de quem é diferente. É crime da ordem sem progresso, a da sociedade do medo.

O medo tem muitas causas. Como a exclusão social, crônica no Brasil. Somos uma sociedade alicerçada sobre escravidões, a do índio, a do negro e a dos brancos e mestiços condenados a viver aquém do mínimo próprio da sociedade capitalista. O que se compreende neste nosso capitalismo subdesenvolvido, inconcluso, baseado no ganho fácil e não raro meramente rentista. E, não tão raro, no saque das riquezas nacionais, no patrimônio da pátria e na lesão ao princípio civilizado do bem comum. Nossa pobreza já é a da miséria de condição humana.


O presidente da República, desde o primeiro dia de seu mandato, vem mobilizando, com êxito, essas multidões residuais que têm medo. Os que conseguiram ter mais riqueza do que a que pode ser moralmente justificada, os que ganharam facilmente nas brechas do capitalismo frágil e ultrapassado em que o lucro vem mais da esperteza do que da competência empresarial.

Vem mais das brechas do próprio poder ainda capturado mais pelo oligarquismo da política brasileira do que da consciência democrática dos direitos individuais comprometidos com o bem comum e a concepção de pátria. Gente cuja pátria está reduzida à cueca verde e amarela. Gente que tem pavor da ética possível e necessária que acabará motivando a insurgência cívica dos verdadeiros cidadãos.

O presidente da República tem medo, medo da verdade própria da política e da democracia. Comete um erro que dele fará grande vítima do equívoco que comete todos os dias. O erro é o de convocar as multidões para dar-lhe o raivoso apoio de que julga carecer para sustentar-se no poder e na concepção autoritária e antidemocrática de poder que o inspira.

É que a multidão não tem caráter. Diferente do cidadão e da pessoa, que são entidades íntegras das sociedades modernas, a multidão é apenas sujeito da desordem, da baderna destrutiva.

Os mais de 2 mil linchamentos que estudei, analisados em meu livro “Linchamentos - a justiça popular no Brasil”, confirmaram a tese de Gustave Le Bon, que, no século XIX, estudou pela primeira vez de modo sistemático o comportamento de multidão.

A multidão é o sujeito social da loucura coletiva. Essa loucura é gradativa. A multidão se transforma ao longo de seus atos. Vai do senso comum ignorante, motivado por um fato real ou suposto, até a loucura coletiva, cúmplice do louco que a simboliza. O nazismo e o fascismo foram isso.

Não é estranho que consignas nazistas apareçam aqui em ideias como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Deus nunca está acima de todos. Ele pode estar na alma de todos que a têm no lugar da sublime concepção do divino e do sagrado.

A convocação das multidões anômalas no Dia da Pátria e em eventos anteriores para peitar nas ruas a Constituição e aqueles que, em nome dela, foram designados pela história para cumpri-la e fazê-la cumprir, coloca no centro do acontecer político essa personagem enlouquecida da sociedade moderna.

Esse louco coletivo tem gerado líderes loucos, como Hitler, Mussolini, Trump no período recente e todos que o copiam e imitam. A multidão é uma entidade social de dois gumes. Danton e Robespierre, que mobilizaram multidões, acabaram perdendo a cabeça na guilhotina.

A facilidade irresponsável com que o governante daqui atrai e aglutina gente medrosa é notória tanto em suas bravatas quanto nas bravatas dos que são por ele atraídos.

A era de Bolsonaro será conhecida como a era do medo. Não só por conta da pandemia, coadjuvante satânica, filha da falta de responsabilidade social que há muito tomou conta do Estado brasileiro. Mas também da crônica enfermidade social da insegurança que cada vez mais tomou conta do país e já corroeu os fundamentos identitários do caráter nacional brasileiro. Estamos à beira do abismo da história.

Barbacena, a cidade-manicômio que sobreviveu à morte atroz de 60.000 brasileiros

Quando João Bosco Siqueira completou 45 anos, seus colegas do corpo militar de bombeiros lhe deram algo de valor inestimável: localizar sua mãe. Aquela desconhecida era a chave das origens para este brasileiro que nasceu em um manicômio e cresceu em um orfanato. Missão cumprida. O abraço que dona Geralda e o filho arrebatado tanto desejavam aconteceu no dia 11 de novembro de 2011 em um quartel diante do olhar emocionado de dezenas de uniformizados. Um ponto final nas vidas de ambos. Geralda tinha 15 anos quando deu à luz no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, a 500 quilômetros de São Paulo. Seu patrão, um advogado, levou-a até lá para evitar o escândalo depois de estuprá-la e engravidá-la, conta Siqueira em uma entrevista por videochamada. A dor de relembrar o drama é tanta que para várias vezes para conter o choro e tomar ar antes de continuar seu relato. Antes e depois dela, dezenas de milhares de brasileiros foram abandonados em hospícios de Barbacena, que ficou conhecida como a cidade dos loucos.


A maioria dos internos, como Geralda, eram sãos. Eram alcoólatras, sifilíticos, prostitutas, homossexuais, epiléticos, mães solteiras, esposas substituídas por uma amante, inconformistas... supostas escórias sociais que suas famílias ou a polícia enviavam em trens a esta cidade de Minas Gerais. Cerca de 60.000 internos morreram de fome, frio ou diarreia durante nove décadas até o fechamento nos anos noventa. Viviam mal, nus, forçados a trabalhar como suposta terapia em pátios na intempérie ou em celas.

A ansiedade que o confinamento da pandemia causou a milhões de pessoas em todo o mundo reacendeu o debate sobre a saúde mental e o estigma que ainda a cerca. Um segredo que ídolos como a ginasta Simone Biles ou a tenista Naomi Osaka ajudam a romper ao falarem de seus problemas mentais.

Barbacena chama atenção porque, em vez de enterrar a infâmia perpetrada em nome da psiquiatria, as autoridades concordaram em olhá-la de frente. Transformaram um dos pavilhões do Colônia no Museu da Loucura, que agora completa 25 anos, aniversário que junto com uma série trouxe o assunto de volta à atualidade. E, em sintonia com o movimento internacional de humanização dos cuidados aos doentes mentais, a partir do ano 2000 empreenderam uma mudança transcendental.

Esta cidade que vivia de hospitais psiquiátricos e do cultivo de rosas substituiu aqueles depósitos indesejáveis por residências terapêuticas. “Até então não havia limite. Entrava todo aquele que aparecia na porta. Começamos a avaliá-los um a um e a maioria não precisava ser internada. As internações caíram de 130 por mês para 30”, explica Flávia Vasques, coordenadora da rede pública de saúde mental desta cidade de 140.000 habitantes, durante entrevista em um ambulatório.

O museu é um percurso pelas atrocidades sofridas por milhares de pacientes, algumas em consonância com práticas internacionais. “Escolheram chamá-lo de Museu da Loucura para despertar o interesse do público e por não se referir apenas a uma história local, mas por ser uma referência para analisar o passado, preservá-lo e não repeti-lo”, explica a diretora do museu, Lucimar Pereira, enquanto guia a visita.

Aproveitando o clima de montanha, nasceu como sanatório para ricos, com telefone e talheres de prata, mas em 1903 tornou-se o primeiro manicômio de Minas Gerais, que centralizou em Barbacena o atendimento psiquiátrico neste Estado que tem a mesma área da Espanha.

O Colônia era um manicômio com cemitério, evidência de que curar não era a missão. Durante décadas não houve médicos ou enfermeiras, mas meros guardas. O tratamento era simples: comprimidos azuis ou rosas em função dos sintomas, além de eletrochoques e lobotomia, como mandava então a medicina.

Quando faltou espaço para dormir, os burocratas adotaram uma solução batizada de leito único que recomendaram estender a outros centros: fora com as camas, eliminadas. Sem elas, cabiam mais pacientes. Os internos dormiam amontoados no chão para se aquecer nas noites frias. Alguns morriam sufocados. Muitas vezes os sãos enlouqueciam. E nem mesmo depois de mortos tiveram piedade deles. Os cadáveres de mais de 1.800 pacientes foram vendidos para universidades até os anos setenta. O resto era levado em um carrinho até o cemitério para ser jogado em valas comuns. O cemitério ainda está lá, fechado, mas uma placa promete um dia transformá-lo em um memorial que combinará rosas e loucura. Eram alimentados com purês putrefatos porque baniram os talheres —em nome da segurança—, de modo que depois de décadas sem mastigar muitos perderam os dentes.

“Hoje estive em um campo de concentração nazista. Em nenhum lugar vi algo assim”, declarou depois de visitar o Colônia em 1979 o psiquiatra Franco Basaglia, promotor da reforma dos manicômios na Itália. Jornalistas locais fizeram as primeiras denúncias públicas nas décadas de sessenta e setenta. Suas fotos e relatos causaram espanto, mas logo caíram no esquecimento. A jornalista Daniela Arbex era adulta quando ouviu falar pela primeira vez do atroz episódio da história local. “Fui procurar os sobreviventes. E graças a eles consegui resgatar o que acontecia atrás das paredes”, explica por telefone a autora do livro Holocausto Brasileiro, publicado em 2019. Um best-seller que contribuiu para divulgar um horror de que muitos brasileiros nunca ouviram falar. Ela insiste que todos foram cúmplices: os médicos, as famílias, os moradores, a sociedade em geral.

Siqueira conta na cidade onde passa o confinamento com a família que sua mãe, dona Geralda, ainda mora em Barbacena. Eles se viam todo mês até que o coronavírus perturbou tudo. O bombeiro se irrita com o fato de que alguns moradores acreditem que divulgar as atrocidades prejudica a reputação local. Para ele é o melhor antídoto para evitar que ninguém mais seja tratado de maneira tão desumana. “Apesar de ter nascido na barbárie, sou fruto de uma rede de solidariedade”, insiste, referindo-se às freiras e outros adultos dos orfanatos, que o guiaram quando era adolescente e invejava aqueles que recebiam alguma visita.

Bento Marcio da Silva sempre teve família. Mas passou metade de seus 57 anos entrando e saindo de hospitais psiquiátricos, incluindo o Colônia. Fala com naturalidade de sua doença —”sou bipolar”— e da batalha para que os psiquiatras mudassem a medicação que durante 15 anos lhe causou terríveis efeitos colaterais. Ele conta entre risadas que em seus momentos de euforia cantava, cantava, cantava e cantava sem descanso. A resposta? “Eles me amarravam em uma maca, me davam injeções aqui, aqui, aqui e aqui, e me mantinham ali o dia todo. Acabava totalmente encharcado de urina e fluidos. ‘Se me derem Aldol, vou perder o juízo’, lhes dizia, mas insistiam”, conta. Ninguém o escutava então. Durante anos vagou pelas estradas do Brasil para evitar que o encerrassem novamente. “Cheguei a ter uma barba tão longa que me chamavam de Bin Laden”, diz. Uma imagem que contrasta com sua esmerada elegância atual.

Silva mora em uma residência terapêutica que na terça-feira estava em festa porque Zezé, um dos sete pacientes, completava 60 anos. É emocionante ver esses homens abandonados e degradados durante tantos anos concentrados em segurar os talheres para levar à boca um pedaço de bolo ou um copo de Coca-Cola sem cafeína. No êxtase da alegria, Zezé ri tão alto que desloca a dentadura. Com suas muitas sequelas, parecem imensamente felizes enquanto cantam “parabéns para você”. Não têm mais medo dos desconhecidos nem de sair na rua. E os moradores da cidade também não os temem, explica Leandra Melo Vidal, coordenadora das 27 residências espalhadas por Barbacena, que conhece detalhadamente as histórias de cada um. Eles a adoram.

Alguns dos sobreviventes são muito dependentes, mas a mudança experimentada por outros é impressionante. “Com a reabilitação, foram recuperando capacidades humanas como escolher”, decidir quando tomar banho ou que roupa vestir. Foi difícil para eles abandonar as rotinas dos anos intramuros ou assumir que podiam acumular pertences, comer à vontade. No início, os terapeutas acreditaram que alguns eram mudos porque ficaram sem pronunciar uma palavra durante 50 anos —”talvez para se proteger”, arrisca Vidal—, até que um dia recuperaram a fala.

Mediante programas financiados pelo sistema de saúde pública, deixaram para trás uma vida em hospitais psiquiátricos desumanos para viverem a velhice juntos e com dignidade. Existem legalmente, recebem uma pensão. O processo de esvaziamento dos hospitais continua. Os 85 pacientes crônicos que ainda estão internados serão distribuídos pelos municípios vizinhos devido à saturação de Barbacena.

Quando Geralda tinha quinze anos e protestava desconsolada que seu bebê havia sido roubado, era tratada com eletrochoques. “Chorar e protestar não vai adiantar nada, você não vai voltar a vê-lo”, avisaram-na então. O bombeiro Siqueira, que lhe deu dois netos, fica feliz por ela não ter feridas mais graves: “Deus foi generoso com a minha mãe, que é uma mulher simples, porque se ela tivesse consciência da violência que sofreu teria enlouquecido”.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Um país não consegue viver nessa angústia permanente

Não há melhor palavra para definir o que aconteceu em Brasília, na noite do dia 6 para o dia 7, do que “tenebroso”. Tenebroso, segundo o dicionário, significa “Coberto por trevas; repleto de escuridão; escuro, negro, sombrio”. Em sentido figurado, tenebroso é o que “incita o medo, causando horror; medonho: crime tenebroso”; e, ainda, “merecedor de desdém; que se deve desprezar por ser perverso; malévolo”. Tenebroso vem do latim “tenebrosus”, derivado de tenebra, que é “escuridão, falta de luz”, e cujo radical indo-europeu teme deu origem também a temeridade e temerário, o que “age às cegas, imprudente”.

Vejam só quantas coisas uma simples palavra explica.

A madrugada do dia 7 foi pior do que o dia 7 propriamente dito, porque o escuro favorece as más intenções. Aquele desfile de caminhões mugindo pela Esplanada dos Ministérios, o cortejo de carros buzinando por Brasília, as pessoas embrulhadas em bandeiras.

O sentimento das trevas era real e palpável, e se espalhou pelo país — ou, vá lá, pelo país que usa redes sociais. Todo mundo foi dormir tarde, na pilha, conferindo o celular constantemente, sem saber o que esperar do dia seguinte.

Que, afinal, trouxe mais do mesmo.

As mesmas multidões de meia-idade, os mesmos cartazes constrangedores escritos em mau inglês, os mesmos arroubos golpistas de uma massa que não vê contradição em pedir “liberdade” e “intervenção militar” na mesma passeata.

Considerando-se a antecedência da convocação, os esforços de divulgação e de logística, e a angústia da noite, era de se esperar algo nunca antes visto na história deste país. Pois não foi. Foram manifestações grandes, mas qualquer bom show de música reúne a mesma quantidade de pessoas com muito menos trabalho.

Ainda assim, isso não faz a menor diferença. Saber quantas pessoas exatamente havia na Paulista ou na Esplanada dos Ministérios é irrelevante, apenas uma curiosidade estatística.

Não é esse o problema.

O que importa mesmo, de verdade, é que um país não consegue viver nesse estado de angústia permanente, nesse sobressalto constante. A vida precisa de paz. Mesmo em circunstâncias normais, tocar o barco já é bastante difícil num país com os problemas e o tamanho do Brasil; quem dirá durante uma pandemia. Desde o começo deste governo tenebroso (repito a palavra) não temos descanso.

O pior é que estamos ficando exaustos e paralisados, aceitando ofensa em cima de ofensa, como se a grosseria e os descalabros do “Mito” fossem apenas um estilo vagamente excêntrico, um jeitinho caserna de ser.

Não há tecido social que suporte isso.

No dia 7 de Setembro Bolsonaro ultrapassou todos os limites do aceitável, mesmo para uma nação de sapos fervidos como a nossa. Um homem que declara com todas as letras que não vai obedecer a lei não está apto para governar, ponto.

O que ele propõe é sedição, o que ele comete é traição.

Ele só teve coragem de chegar até aqui porque Brasília é cúmplice e as elites do país são coniventes: temos um Napoleão de hospício na presidência e todo mundo faz de conta que isso é normal.

Sementeira da desordem


E aí estão os três elementos desordem: ambição dos que sabem ler mas não têm juízo, a ferocidade desocupada dos vagabundos e dos facínoras - e a ingenuidade dos analfabetos, que, coitados, são sempre os menos responsáveis e sempre os que mais sofrem
Olavo Bilac, "Revolta da vacina"

Insucesso de público, outra vez em cartaz a peça 'Jair paz e amor'

Dólar fora do controle. Pandemia aparentemente sob controle, mas sujeita ao aparecimento de novas variantes. Inflação recorde, beirando à casa dos 10% nos últimos 12 meses. Disparada no preço dos combustíveis e greve dos caminhoneiros. Reformas econômicas paralisadas. Ameaça de calote no valor de 90 bilhões de em dívidas judiciais vencidas. Crise hídrica às portas.

Na política, Centrão dá as cartas. Presidente sem partido rejeita todos eles e todos o rejeitam por tratar-se de uma companhia nefasta. Crise institucional que se arrasta pondo em choque o Executivo e o Judiciário. Fantasma do golpe que ora assombra, ora se retrai para de novo assombrar. Eleições polarizadas à vista, o que só contribui para o aumento das tensões.

Diante de um quadro desses, os que de fato mandam e sempre mandaram no país decidiram intervir – e de novo está servida a farsa de um presidente cronicamente pecador que se diz arrependido dos seus pecados. A versão Jair paz e amor, por falsa, não convence ninguém. É um clássico encenado sempre que o presidente acidental se vê em apuros, acuado, e com medo de cair.


“O grupo dos cinco não brinca em serviço”, observou um deputado federal paulista que conhece o caminho das pedras. “Não rasga dinheiro, acumula, e não põe seus negócios em perigo para dar suporte a um presidente doido”. O grupo dos cinco tem por endereço a Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, sede da maior fatia do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

O discurso incendiário de Bolsonaro no 7 de setembro na Avenida Paulista derrubou a Bolsa de Valores no dia seguinte e pôs em circulação a ideia de que o impeachment seria a única solução. Cauteloso, Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, consultou suas fontes do mercado. O PSDB e o PMDB apressaram-se em declarar que topavam discutir o impeachment.

Então se fez ouvir a voz dos donos do poder, e ela foi peremptória: impeachment, não, jamais. Bolsonaro que se dane, mas o impeachment seria um tormento com duração de 6 a 7 meses, causando sérios danos à economia. Lira, boneco de ventríloquo do mercado, então ficou contra. PSDB e PMDB recuaram para não perder seus financiadores. Mas isso só não bastaria.

Faz mais de ano que o ex-presidente Michel Temer abriu um canal de comunicação com Bolsonaro e, a pretexto de “dar palpites”, aconselha-o em momentos delicados. Na maioria das vezes não é ouvido. Mas dessa vez, Bolsonaro fora previamente avisado de que o mercado falaria pela boca de Temer. E ouviu-o com atenção. Assinou a nota que ele trouxe pronta e divulgou-a de imediato.

Bom menino, esse rapaz que se elegeu presidente prometendo destruir o “sistema”, mas que a ele se submete para tentar sobreviver. Bolsonaro está em avançado estágio de decomposição. Com popularidade em queda, sem dinheiro para prorrogar o pagamento do auxílio emergencial e anabolizar o programa Bolsa Família, vê-se na direção de uma derrota fragorosa ano que vem.

O que lhe resta senão conformar-se com ela ou tentar evitá-la mediante um ato de força, embora lhe falte força para tal? A reapresentação por curta temporada do Jair paz e amor pode funcionar como uma trégua em meio a uma batalha. Bolsonaro vai lamber as feridas, contar o número de feridos e mortos que perdeu e dar tratos à bola sobre o que fazer doravante.

Bolsonaro não vai parar, taokey!?

A sobrevivência política de Jair Bolsonaro depende do engajamento de sua militância, pois não há nada que o presidente da República possa oferecer ao país, além de ofensas e confusão institucional. O golpismo está no DNA do bolsonarismo e o recuo momentâneo atende ao interesse de quem lhe dá sustentação política, o Centrão, pressionado que estava pelo impeachment.

Além de acalmar o mercado financeiro e tentar esvaziar o protesto dos caminhoneiros, a nota de arrego de Bolsonaro vem às vésperas das manifestações do domingo 12, que ganhou a forma de um movimento essencialmente antibolsonarista, unindo sob a mesma bandeira ‘branca’ lideranças liberais, progressistas e de centro.


Não é à toa que o PT de Lula se recusa a aderir ao protesto, pois tampouco o impeachment de Bolsonaro interessa ao ex-presidiário e aos agentes políticos e econômicos que o apoiam nos bastidores.

Claro está que os principais atores nesse cenário permanecem em suas posições. Bolsonaro não pediu desculpas a Moraes e ao STF, nem o fará; seus filhos permanecerão com a espada de Dâmocles sob a cabeça; Arthur Lira manterá o impeachment engavetado e Ciro Nogueira seguirá com a chave do cofre nas mãos.

Os bolsonaristas fanáticos seguirão se oferecendo ao sacrifício, na esperança de que Bolsonaro, em uma estratégia de guerra mirabolante e inacessível aos reles mortais, “dê um xeque-mate no establishment”.

E o eleitor pagador de impostos, que não suporta a cleptocracia lulopetista e o bolsonarismo genocida, seguirá torcendo por uma terceira via que parece cada vez mais inviável.
Claudio Dantas

O capitão sem rumo e o empurrão que falta

A ameaça do bolsonarismo de um golpe de Estado no dia 7 de setembro, com invasão do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), mostrou-se mais uma vez um blefe, um anticlímax para os seus próprios militantes – que saíram de Brasília frustrados, porque acreditaram, piamente, que seriam conduzidos pelo seu líder para um novo regime político no país: uma ditadura fascista.

Bolsonaro e o seu governo saem mais fracos das manifestações do que já estavam, apesar de estas terem demonstrado, principalmente em São Paulo, que o movimento neofascista continua ativo e apoiando-os. Mas não é por aí, principalmente, que se pode avaliar a situação de Bolsonaro; como evidenciam todas as pesquisas, ele continua a ter o apoio de um quarto dos eleitores (nem todos identificados com o fascismo) e, por isso mesmo, tende a se reduzir com a piora da situação socioeconômica e a crise institucional do país. Essas manifestações não terão a capacidade de recuperar o apoio político perdido a partir de 2020, desde o início da pandemia.

Ao contrário; com uma pauta explícita e mais agressiva contra a democracia e as instituições do Estado de Direito, as manifestações, ao que tudo indica, aumentaram a fragilidade de Bolsonaro e de seu governo no âmbito institucional e na sociedade, induzindo que partidos e parlamentares até então reticentes passassem a admitir a possibilidade crescente do impeachment. O isolamento político do neofascismo cresceu.

A tática de Bolsonaro fica cada vez mais clara: é de permanente “fuga para frente”. Apesar de vir sofrendo, desde o início da pandemia e com as sucessivas defecções de apoiadores, um processo de perda de apoio popular e de isolamento político-institucional e na sociedade civil, a resposta e as iniciativas políticas do bolsonarismo são cada vez mais agressivas, dando impressão aparente de estar forte e na ofensiva. O anúncio em seu discurso em Brasília, que convocaria o Conselho da República (órgão consultivo) para discutir medidas de exceção, vai na mesma direção, de se manter, aparentemente na ofensiva e de dar uma satisfação aos decepcionados militantes do movimento neofascista. Novos factoides, com novas ameaças a pessoas e instituições, juntamente com teorias conspirativas e a disseminação de notícias falsas, deverão continuar acontecendo. Bolsonaro não pode dar a impressão de estar na defensiva nem de estar recuando.

Na verdade, essa tática, que esconde a fraqueza de Bolsonaro e o seu governo, serve a três objetivos:

1- Testar a resiliência das instituições democráticas e avaliar a possibilidade de execução de um golpe de Estado, o que inclui testar o grau de apoio que poderia haver nas forças armadas no sentido amplo e na sociedade civil para essa aventura.

2- Colocar em atividade permanente o movimento neofascista (o bolsonarismo), núcleo original e fundamental de apoio a Bolsonaro, e que ainda é estratégico para manter a sua competitividade eleitoral em 2022 – inviabilizando a possibilidade da chamada “3ª via” (uma candidatura da direita neoliberal, que se vende como sendo o “centro democrático”).

3- Impor permanentemente, em cada conjuntura, a pauta política do país, com a função de jogar para o fundo da cena política os assuntos que colocam Bolsonaro e o seu governo na defensiva (prática diversionista): a situação econômica do país (inflação, carestia, desemprego, pobreza, estagnação, aumento dos juros, desvalorização do real, crise energética etc.); o desempenho desastroso e genocida no enfrentamento da pandemia, evidente desde o início e mais recentemente revelado sistemática e formalmente pela CPI da Covid; e as denúncias, prisões preventivas e processos em andamento contra os filhos e apoiadores de Bolsonaro que têm por objeto as fake news e práticas inegavelmente corruptas (“rachadinhas” e compra de vacinas).

Nas últimas semanas, de preparação e anúncio dos atos do dia 7 de setembro, ficou evidenciado (por pesquisas, declarações e ações nas próprias manifestações) que os participantes e apoiadores do bolsonarismo nas polícias (militar, civil e federal) constituem uma minoria – apesar da crença bastante difundida em contrário. A expectativa de muitos, de que haveria o protagonismo dessas corporações em atos de violência e indisciplina, com a invasão do Congresso e do STF, com no limite a decretação de um golpe de Estado, não se concretizou.

Além disso, no plano institucional-parlamentar, o chamado Centrão e os presidentes da Câmara e do Senado, sujeitos fundamentais para a viabilização do impeachment de Bolsonaro, explicitaram o seu limite: apesar de seus compromissos com o presidente, não o acompanharão em uma tentativa de golpe de Estado. E no plano institucional-jurídico, o STF e outras instâncias do judiciário e o Ministério Público, apesar de serem parcialmente responsáveis pela situação trágica em que nos encontramos, têm confrontado e colocado em xeque todas as iniciativas antidemocráticas de Bolsonaro, disfarçadas de liberdade de expressão.

Mesmo entre as igrejas evangélicas e seus pastores, bastiões do bolsonarismo, começaram a aparecer publicamente críticos e vozes discordantes, inclusive através da elaboração e divulgação de manifestos. O mesmo ocorrendo com os caminhoneiros, outra forte base do bolsonarismo, com lideranças indo à justiça contra Bolsonaro e a União. Por fim, as várias frações do grande capital, que marcharam unidas no apoio à eleição de Bolsonaro, passaram, ainda que cautelosa e moderadamente, a apresentar divergências (inclusive no interior do capital financeiro) com relação às iniciativas golpistas de Bolsonaro.

Por sua vez, o adesão do PSDB ao impeachment de Bolsonaro, após as manifestações, evidencia, mais uma vez, que a preocupação maior e imediata de Bolsonaro, já há algum tempo, não é com a esquerda ou Lula, mas com a direita neoliberal, pois esta, depois de apoiá-lo, participar de seu governo (na figura de Paulo Guedes e no sequestro do Banco Central) e ir para a oposição, já percebeu (assim como Bolsonaro) que, na impossibilidade de inviabilizar de novo a candidatura de Lula, a alternativa de uma “3ª via” competitiva em 2022 exige a retirada de Bolsonaro (de alguma maneira) da competição eleitoral. É essa direita neoliberal, através de seus representantes e prepostos, quem mais tem incomodado política e concretamente Bolsonaro e o seu governo, nos planos midiático e judicial, ao dificultar enormemente suas ações e “narrativas”. Os alvos específicos das agressões de Bolsonaro nas manifestações mais recentes não deixam margem a dúvidas.

De outro lado, da parte de Lula e da esquerda em geral, mas principalmente da corrente hegemônica do PT, embora no plano do discurso o impeachment continue no horizonte, quase todas as ações políticas estão sendo dirigidas tendo por foco e objetivo primordial a eleição do próximo ano – com o suposto de que o adversário principal, e que ao que tudo indica até agora será derrotado, deve ser Bolsonaro. O discurso de Lula na véspera do dia 7 de setembro é exemplar a esse respeito: não contemplou e nem sequer mencionou, em momento algum, as manifestações contra Bolsonaro e em defesa da democracia, que também ocorreriam concomitantemente às manifestações bolsonaristas. Restringiu-se a criticar o óbvio caráter antidemocrático destas últimas e de Bolsonaro e, principalmente, acenou com a possibilidade de uma mudança do país para melhor, com a alusão implícita à eleição de 2022. Além disso, parte da oposição, e da própria esquerda, não convocaram nem participaram dessas manifestações, com o receio de haver um confronto violento com os bolsonaristas. Apesar disso, o “Grito dos Excluídos” e o “Fora Bolsonaro”, nas cidades em que ocorreram, sempre sem confrontos ou violências, foram significativos e evidenciaram a disposição de luta dos democratas e da esquerda.

A cena política do país é bastante complexa e muito incerta; no entanto, como sempre, podem-se fazer algumas conjecturas:

1- Não há possibilidade política, interna e internacionalmente, para um golpe de Estado clássico, com ruptura institucional (fechamento do Congresso e intervenção no STF) e instalação de uma ditadura, seja esta militar ou pessoal.

2- A candidatura de Lula e o seu favoritismo parecem irreversíveis; um novo golpe jurídico, que o retire de novo da cena política e da eleição, se mostra cada vez mais improvável.

3- A candidatura de Bolsonaro é a segunda mais competitiva, mas dependerá da manutenção do movimento neofascista unido e mobilizado, através de estímulos e orientações políticas como as que se explicitaram nas manifestações do último 7 de setembro. No entanto, a frustração dos seus militantes com o desfecho dos atos realizados nesta data, e que a reunião do tal Conselho da República não conseguirá reverter, poderá iniciar um processo de desidratação do movimento, dificultando ainda mais a reeleição de Bolsonaro – com essa passando a depender de um improvável (para dizer o mínimo) acordo de Bolsonaro com a direita neoliberal.

4- Mas as dificuldades não são apenas de Bolsonaro. A direita neoliberal é a tendência política com maior dificuldade na conjuntura; por um lado, não aceita a candidatura (fortemente favorita) de Lula, mas não tem como impedi-la, e de outro sabe que não conseguirá fazer um acordo com Bolsonaro minimamente confiável. A possibilidade de sua “3ª via”, portanto, exige, cada vez mais, para ser competitiva, retirar Bolsonaro da eleição de 2022. Ainda não achou um caminho para resolver o seu dilema.

Em suma, além de a montanha ter parido um rato no dia 7 de setembro, as ameaças antidemocráticas de Bolsonaro só reforçaram o seu isolamento político, trazendo para a defesa do impeachment segmentos políticos antes contrários ou vacilantes. Portanto, objetivamente, parar Bolsonaro e abreviar o seu mandato continua no cenário político; a sua fraqueza e de seu governo é crescente, mas a possibilidade de sua retirada através de um impeachment, ou de alguma outra maneira, continua incerta. Caso ocorra, abrirá uma conjuntura inteiramente nova, com uma grande derrota do neofascismo no país e um novo momento de ascensão das forças democráticas e de esquerda. Mas para isso, estas últimas têm que ser protagonistas e se colocar na linha de frente pelo impeachment, nas ruas (com grandes mobilizações) e no parlamento.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Bolsonaro sequestra Dia da Independência para salvar sua pele

O presidente Jair Bolsonaro parou de governar há muito tempo. Em três anos, sua gestão inaugurou alguns projetos locais de infraestrutura e flexibilizou normas sobre armamentos, provocando um forte aumento das compras de armas em um país já notoriamente violento. Fora disso, Bolsonaro representa a destruição da floresta amazônica, a gestão criminosa da pandemia que deixou até agora quase 600 mil mortos, a polarização da sociedade e os ataques mais graves à democracia do Brasil desde a Constituição de 1988.

Mas o que faz alguém que não tem nada a mostrar além de desastres? Sua aprovação nas pesquisas está caindo, pois os brasileiros estão sentindo na pele que a pobreza está crescendo, que os preços estão aumentando e que o real vale cada vez menos. A resposta de Bolsonaro é: procurar desculpas, desviar a atenção, mentir e culpar os outros.


Bolsonaro havia anunciado, com antecedência, que esse dia, o Dia da Independência do Brasil, seria o dia decisivo para ele e seu governo – e, indiretamente, ameaçou dar um golpe. Se um número grande de pessoas comparecesse, ele disse, seria um sinal claro de apoio do povo. E seria também um voto de desconfiança no Supremo Tribunal Federal, contra o qual ele está em conflito pois alguns ministros supostamente não o deixariam governar. Ele teria então um mandato das ruas, na sua interpretação, para ignorar o Supremo e o Congresso.

Bolsonaro não somente abusou do Dia da Independência do Brasil, que pertence a todos os brasileiros, mas também submeteu o Brasil a um teste de estresse por razões egomaníacas. O fato de milhares de brasileiros terem ido às ruas nesse feriado para pedir um golpe é insuperável como má ironia, e mostra o delírio coletivo que tomou conta do Brasil.

Para Bolsonaro, todo esse circo se trata, principalmente, de imagens e aparências. Assim como as "motociatas" sem sentido que ele vem organizando nas cidades do país há semanas – é realmente preciso se perguntar o que o presidente do Brasil faz com o seu tempo – as manifestações desta terça também foram realizadas para mostrar o suposto grande apoio do povo a Bolsonaro. Com base nas fotos de Bolsonaro no meio de milhares de apoiadores, ele pode afirmar, por exemplo, que as pesquisas com resultados negativos para ele são falsas, e que seu governo só perderá as eleições no ano que vem se houver fraude eleitoral.

Também é possível imaginar que essas manifestações se tornaram uma certa necessidade emocional para Bolsonaro. Quem não preferiria ser celebrado constantemente por seus apoiadores em vez de ler documentos e conduzir negociações difíceis, como faz a maioria dos outros chefes de governo no mundo.

O que é marcante em tudo isso é a compreensão distorcida do bolsonarismo sobre a democracia. Esse movimento a interpreta não como um equilíbrio entre os três Poderes, mas como a autocracia de Bolsonaro, ao qual tanto o Legislativo quanto o Judiciário teriam que se submeter. O próprio Bolsonaro ameaçou os ministros no Dia da Independência, que eles teriam que jogar dentro das quatro linhas da Constituição ou algo aconteceria – embora seja ele mesmo quem repetidamente se coloca fora do campo do jogo. Mas não é seu papel, de forma alguma, dar ultimatos a nenhum outro órgão constitucional. Pelo contrário, é o inverso. O presidente é fiscalizado pelo Judiciário e pelo Congresso. Dessa forma, ainda que tarde, um processo de impeachment deveria ser iniciado contra o presidente, pois há motivos mais do que suficientes.

É difícil avaliar o quão forte ainda é o bolsonarismo. O que é certo é que aqueles que ainda o apoiam são fanáticos. Como se fosse uma oração, eles repetem que são a favor de Deus, da nação e da família tradicional (e contra o comunismo, onde quer que ele esteja escondido). No Dia da Independência também ouviu-se a tríade bolsonarista de forma incessante. Deus, família, nação. Mas tanto Deus como família e nação não são projetos políticos, mas conceitos em aberto. A tragédia do Brasil é que eles foram sequestrados pelo bolsonarismo, que os utiliza para dividir a sociedade.

Isso ajuda o presidente a desviar a atenção da sua péssima performance e que ele realize seu verdadeiro objetivo: manter o poder e a proteção contra processos judiciais. Não se deve esquecer que o gatilho para a raiva de Bolsonaro foi a ação do Supremo contra políticos e youtubers que estavam incitando a violência. Além disso, o Judiciário está investigando os filhos de Bolsonaro por anos de corrupção, e as provas contra eles são avassaladoras. O próprio Bolsonaro também provavelmente será alvo do Ministério Público em algum momento. Pode-se assumir que suas constantes ameaças contra o Supremo são também uma tentativa de proteger seu clã político do Judiciário.

O presidente disse, literalmente, que é o salvador do Brasil enviado por Deus. Um presidente capaz de tais ilusões é também capaz de explorar o Dia da Independência em seu próprio benefício pessoal. O Brasil só pode esperar que Bolsonaro não cause mais danos ao país durante o resto do seu mandato. Ou que seja deposto o mais rápido possível.

O golpe começou

Quem conhece a história do fascismo italiano sabe a quantidade inumerável de vezes que Mussolini, em sua ascensão ao poder, foi dado como politicamente morto, isolado, acuado, fragilizado. No entanto, apesar das finas análises de comentaristas da vida política italiana, apesar das sutis leituras que pareciam ser capazes de pegar as mais inusitadas nuances, Mussolini, o bronco Mussolini chegou onde queria chegar. Isso ao menos deveria servir para lembrarmos da existência de três erros que levam qualquer um a perder uma guerra, a saber, subestimar a dedicação de seu oponente, subestimar sua força e, por fim, sua capacidade de pensar estrategicamente.


O mínimo que se pode dizer é que a oposição brasileira é exímia em praticar os três erros contra Bolsonaro e seus adeptos. Ela parece animada pela capacidade de tomar seus desejos por realidade, de justificar sua paralisia como se fosse a mais madura de todas as astúcias. Agora, a isso ela acrescentou uma patologia que, nos antigos manuais de psiquiatria, chamava-se “escotomização”, ou seja, a capacidade de simplesmente não ver um fenômeno que ocorre na sua frente. Mesmo tendo 600.000 mortes nas costas por negligencia de seu governo em relação à pandemia, Bolsonaro conseguiu um 7 de setembro para chamar de seu, com mais de 100.000 pessoas na Paulista e quantidade semelhante na Esplanada dos Ministérios.

Ele se colocou como o líder inconteste de uma singular sublevação do governo contra o estado, afirmando que não reconhece mais a autoridade do STF. Ou seja, ele assumiu para o mundo que está em rota de colisão com o que restou da institucionalidade da vida política brasileira. Seus apoiadores saíram desse dia com sua identificação reforçada e compreendendo-se como protagonistas de uma insurreição popular que de fato está a ocorrer, mesmo que com sinais trocados. Uma insurreição que mostra a força do fascismo brasileiro.

De nada adianta falar que essa manifestação “flopou”, que estavam presentes apenas 6% do esperado. Uma insurreição nunca precisou da maioria da população para impor sua vontade. Ela precisa de uma minoria substantiva, aguerrida, unificada e intimidadora, pois potencialmente armada. Bolsonaro tem as quatro condições, além do apoio inconteste das Polícias Militares e das Forças Armadas, que por nada nesse mundo, mas absolutamente nada irá deixar um governo que lhe promete salários de até 126.000 reais.

Aqueles que se comprazem acreditando que o verdadeiro apoio de Bolsonaro é 12% são os que normalmente fazem de tudo para que nós não façamos nada. Mas para quem quiser de fato encarar o que está a ocorrer no Brasil, não há nada mais a dizer do que “o golpe começou”. A manifestação do 7 de setembro marcou uma clara ruptura no interior do governo Bolsonaro. De fato, acerta quem diz que o governo acabou. Mas isso significa apenas que Bolsonaro pode agora abandonar a máscara de governo e assumir a céu aberto o que esse “governo” sempre foi, desde seu primeiro dia, a saber, um movimento, uma dinâmica de ruptura que se serve da estrutura do governo para ampliar-se e ganhar força.

Assim, ele pode fortalecer seu núcleo duro, transformar eleitores em fieis seguidores sem precisar ter entregue nada que um governo normalmente entregaria, sequer a proteção contra a morte violenta produzida por uma pandemia descontrolada. Nunca um presidente falou ao povo, em seu momento de maior tensão, que partilhava abertamente o desejo de romper e ignorar uma institucionalidade que é simplesmente a representação dos clássicos interesses oligárquicos das elites brasileiras.

Infelizmente, que o “povo” em questão era a massa dos que sonham com intervenções militares, que amam torturadores, que abraçam a bandeira nacional para esconder sua história infame de racismos e genocídios, isso era algo que poucos poderiam imaginar. Por outro lado, por mais que certos setores do empresariado nacional simulem desconforto com sua presença, o que realmente conta é que Bolsonaro entrega a eles tudo o que promete, sabe preservar seus ganhos como ninguém, luta por aprofundar a espoliação da classe trabalhadora sem temer o que quer que seja.

Não por outra razão, seu 7 de setembro foi precedido por manifestos de empresários defendendo a “liberdade”: nova senha para o “direito” de intimidação e de ameaça. Enquanto isso, a oposição brasileira acha que ainda estamos no terreno dos embates políticos. Ela prepara-se para eleições, finge sonhar com frentes amplas esquecendo que, desde o fim da ditadura, sempre fomos governados por frentes amplas e vejam onde chegamos. Todos os governos eram alianças “da esquerda à direita”. Não foi por falta de frente ampla que estamos nessa situação. O cálculo simplesmente não é este. A esquerda precisa entender de uma vez por todas a natureza do embate, ouvir aqueles mais dispostos ao confronto, esses que não tiveram medo de ir para a rua hoje, e assumir uma lógica de polarização. Isso implica que ela precisa mobilizar a partir da sua própria noção de ruptura, em alto e bom som. Uma ruptura contra outra. Não há mais nada a salvar ou a preservar nesse país. Ele acabou. Um país cuja data de sua independência é comemorada dessa forma simplesmente acabou. Se for para lutar, que não seja para salvá-lo, mas para criar outro.
Vladimir Safatle

Quem manda aqui sou eu

A querida colega Hildegard Angel do 247 tem razão. Não se viu ontem nas manifestações um soldado marchando, nem um evangélico cantando hino religioso. É uma constatação importante que vem a se juntar à minha reflexão. Bolsonaro está isolado e toda a sua pauta é individualista e sem propósito. O que ele defende? Nada coletivo.

Aliás, como ele mesmo prometeu, só defende a destruição. O discurso é todo feito no EU, jamais no NÓS. Não há projeto para o país, nem mesmo o econômico que era o que juntava alhos com bugalhos, ou seja, o mito com o Paulo Guedes e o Mercado. Acabou tudo. Pensando bem, de coletivo o projeto neoliberal não tem nada.

A população que ainda segue o mito (calculam em 20%) também pensa assim. Eles são aquele grupo que espera a atitude do salvador, do indivíduo, do deus, do mito, do guerreiro até do príncipe que vem salvar a população do monstro malvado. É o salvador de um lado e o demônio, mais justo ao estilo, do outro. O bem contra o mal. Deus e o diabo. O certo e o errado, o branco e o preto. Pátria e família. Tudo absoluto, nada relativo. Ele particulariza tudo para poder dar uma solução também particular. Não passa pela cabeça dessa gente nenhuma solução coletiva.

Eles acabaram com os sindicatos, com as ONGs, com as instituições culturais com qualquer projeto que pense na solução para muitos. Não se fala em fome, em pobreza, em trabalho. Nada que envolva mais de meia dúzia de pessoas. Não se fala em cultura, em saúde, em educação, nada que encha uma sala de aula, um museu ou um hospital. Nada. A pandemia não existe mais, a cultura também não, e a escola precisa ser reduzida a um colégio militar que ensina a disciplina, individualmente, cada um por si, obedecendo ao superior e não contestando suas ordens.



O que se viu ontem foi isso e as pesquisas mostram hoje no Globo o tipo de população que estava na Paulista. Classe média, ensino médio, de cor branca e maioria de homens. Nada mais médio. Nada mais individualista e sem ambições coletivas. A característica da classe média mais explorada pelo governo Bolsonaro é justamente a do cada um por si. Nada de se juntar ao vizinho. Melhor passar por cima dele querendo, por mérito próprio, chegar acima, o que quase nunca vai acontecer, do que se juntar a ele e juntos lutarem por algo melhor. Nada disso. Não há uma palavra de ordem coletiva e construtiva de alguma coisa. É só destruição e catarse a favor de um capitão marrento que grita exatamente o que o sujeito na rua quer ouvir. Não há nem confraternização entre os que ouvem. Um abraço, um sorriso. Nada. Só entre bandidos condenados. Selfies com o Queiróz têm para eles mais importância do que um programa de governo que vise melhorar a vida de todos. Eu sou amigo do bandido, do espertalhão, do transgressor. Eu prefiro avançar o sinal vermelho, não respeitar o radar de velocidade e não obedecer ao Supremo do que seguir as leis da sociedade, as decisões da justiça ou até mesmo os caminhos do Congresso.

O país deles é o país da não- política, da meritocracia, da segregação da malandragem e da esperteza. Nada que a democracia use em seus princípios. Bolsonaro não é um político incompetente, ele é um fascista perverso e é preciso que a imprensa oficial diga isso. A Globo, a CNN e os jornais ficam criticando o presidente como se ele fosse um político conservador que comete muitos erros, mas pode se redimir. Cada vez menos, é verdade, mas eles são incapazes de enquadrar o mito onde ele sempre esteve desde o começo e nós sabíamos. Ele sempre foi um militar medíocre que deu um jeito esperto e aliado a cúmplices inescrupulosos e outros inocentes acabou seu elegendo. Mas ele não quer nada com a política. Ele não sabe e não gosta. É preciso que ele seja chamado de tirano e fascista como sempre foi e tiranos fascistas não gostam de soluções coletivas. Gostam de aparecer cavalgando, andando de moto, discursando impropérios e debochando de tudo que é progresso social. Repete o “quem manda aqui sou eu” ignorando as regras do país que governa. Quem o aplaude também pensa assim. Nada é perfeito. Eles existem e Freud e Marx se juntam para explicar. Nada a esperar de Bolsonaro e quanto mais cedo a sociedade se convença disso, mais cedo voltamos a ser uma democracia.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Ruas foram espuma, projeto de golpe continua, elite ainda é conivente com Bolsonaro

No 7 de Setembro, Jair Bolsonaro cometeu mais alguns crimes de responsabilidade, motivo de processo de impeachment, entre outros que podem se tornar objeto de inquérito e condenação no STF. Na noite desta terça-feira (7) lúgubre, uns senadores haviam decido ir ao Supremo pedir a investigação por meio de uma “notícia-crime”. Os ministros, por sua vez, por ora ainda discutiam a elaboração de uma “mensagem dura” (hum...), apesar de Bolsonaro ter chamado alguns deles de “canalhas” e de dizer, aliás outra vez, que pode ou não obedecer a decisões do tribunal maior.

Vai ter consequência? Uns governadores, uns gatos pingados do PSDB e um ou outro partido centróide passaram a sussurrar a palavra “impeachment”. Um tucano manco, aliás meio bolsonarista, umas andorinhas depenadas e um monte de galinhas gordas de emendas não fazem um verão neste tenebroso inverno de Bolsonaro. As elites precisam tomar vergonha na cara (...), pois o tirano não vai parar a não ser que seja confrontado objetivamente. Se não o fazem, estão a dizer, na prática, que essa alternativa ou qualquer outra são piores do que Bolsonaro. Em geral, o mundo político se ocupa apenas e mal e mal de eleição, sem que ao menos exista oposição organizada, menos ainda da “terceira via”.

Que mais aconteceu em mais um dia de golpeamento da República e do projeto dos Bolsonaro de fugir da polícia? A espuma das ruas.


Sim, Bolsonaro até que juntou muita gente em São Paulo, cerca de 125 mil pessoas na Paulista, na conta razoável da Polícia Militar (este jornalista esteve lá), o equivalente a 1% da população da cidade. Sim, poderia ter acontecido algo de muito mais grave, mortes, depredação das sedes dos Poderes etc. No essencial, foi o de sempre.

Grosso modo, nas ruas houve a espuma de aglomerações covidárias em São Paulo e uns arreganhos de falangistas mais organizados em Brasília, financiados pelo agro ogro e por outros empresários bolsonaristas. No entanto, o Domingo no Parque autoritário paulista foi uma reunião meio cansada e não muito sensacional de gente convertida, não de batalhões fascistas prontos para a marcha (ainda reclusos em certos quartéis, clubes de tiro e milícias).

Bolsonaro falou para o “público interno” e não tratou de assunto real do país, nem para fazer demagogia: fome, inflação, falta d’água e luz, de emprego. Em Brasília, disse ao público que chamaria o “Conselho da República”, a quem mostraria fotos da sua força nas ruas. Era uma bravata para a galera e uma ameaça avacalhada e inviável de decretar um estado de sítio ou algo assim.

A espuma fez borbulha em mais um dia de trabalho do bolsonarismo: a normalização do golpe e a tentativa de espalhar medo, de intimidação física, um tanto frustrada. O problema está aí: Bolsonaro continua a tocar o seu projeto sem que seja impedido de maneira decisiva, um sucesso relativo. Normalizou a discussão de golpe. Sujeitou o país à tutela militar: gente da política e dos Poderes vai até os quarteis perguntar se vai haver golpe.

Na prática, conseguiu fazer com que a maior parte da elite política e econômica aceitasse seu programa de destruição do “sistema”, elite que apenas se moveu diante da ameaça explícita e reiterada do golpe de Estado. Até agora, a degradação selvagem do país havia sido tolerada: saúde, educação, desumanidade, preconceito, cafajestagem, “rachadinha”, administração comezinha do governo, desprezo internacional, em parte e por alguns justificada pelos 30 dinheiros de meia dúzia de “reformas”, muitas delas porcas.

É preciso agir contra os ataques de Bolsonaro

O tão temido 7 de Setembro de Bolsonaro não produziu mais do que discursos delirantes e incidentes isolados, como era mais ou menos esperado. O problema é que a coisa não acabou. O capitão reformado segue à frente do Executivo e continuará a investir contra os outros Poderes. Nesse contexto, o Dia da Pátria foi uma escalada, precipitada pelo desespero de quem vê suas chances de reeleição minguarem, mas ainda assim uma escalada. Devemos esperar mais ataques à democracia.


Num país mais decente, Bolsonaro já teria sofrido impeachment há tempos. Ao nem sequer abrir um processo para avaliar se o presidente comete crimes de responsabilidade, a Câmara dos Deputados normaliza suas atitudes antidemocráticas. Felizmente, a resistência ao golpismo presidencial não está limitada ao Parlamento. A cúpula do Judiciário, alvo dos principais ataques de Bolsonaro, sentiu na pele a pressão e resolveu reagir.

A capacidade de resposta do STF e das cortes superiores, porém, é limitada, porque a Constituição blinda o presidente contra ações penais. Elas só podem ser iniciadas com o aval do procurador-geral da República e de 2/3 dos deputados. Mas é possível tentar frear o presidente por outras vias. O TSE já tem os elementos para considerá-lo inelegível em 2022. Também é possível encarcerar os aliados mais exaltados do capitão reformado e até algum dos filhos. No limite, o STF poderia determinar medidas cautelares contra um presidente que comete crimes inafiançáveis e imprescritíveis descritos na Constituição.

Esses são remédios de emergência que talvez se façam necessários. A resposta correta, contudo, como venho insistindo aqui há mais de um ano, teria sido o impeachment. Um observador benigno pode até achar que a população foi enganada pela campanha mentirosa de Bolsonaro quando o elegeu. Mas não há desculpa para a sociedade que tolera ver ataques constantes à democracia sem tomar uma atitude.

Fracasso mortal

A inelegibilidade de Jair Bolsonaro já está garantida. Agora é preciso arrancá-lo na marra do Palácio do Planalto, antes que ele produza danos ainda maiores, dos quais jamais poderemos nos recuperar