segunda-feira, 27 de julho de 2015

Desastres artificiais

Aflições (Foto: Arquivo Google)

Quando se trata de explicar, a gente sempre tenta. Não devia, mas tenta. A tarefa, por ingrata, quase nunca esclarece. Confunde frequentemente. Frustra sempre. Mas o fato é que existe uma obsessão nacional em fornecer explicação que dê ordem ao caos e forneça razão onde a logica não aprece faz tempo.

Quando acometidos desta compulsão, os patrícios costumam ver na ausência de informação alheia à oportunidade de embelezar a realidade. Imediatamente, atribuem aos outros a causa da desinformação. Autocritica, só a favor.

Vendem o lado de lá do equador como terra alegre, bonita, onde se plantando tudo dá. Realçam as praias, a natureza, e a hospitalidade. Neste mundo dourado, não existe lugar para reconhecer poluição, destruição, pobreza ou desmatamento.

Em rasgos de entusiasmo retórico, nossos embaixadores do gogó promovem a combinação de verde e amarelo a condição de moda de indiscutível bom gosto. E dizem que não é verdade que ali nada funciona. O segredo, dizem eles, é entender que tudo ali funciona diferentemente.

Portanto, é o caso de suspender a aplicação de leis consideradas universais fora das fronteiras do antigo país do futebol. Carece aplicar novo conjunto de regras criadas especialmente para que tema terra das palmeiras, onde gorjeia o sabiá (de maneira única, diga-se).

Nesta bizarra (re) construção da realidade, sobra imaginação, transborda pretensão, e falta contato com o mundo concreto. Tudo, claro, somente é possível, com muita vontade de acreditar e, de preferencia, evitando a qualquer custo o próprio reflexo do espelho.

Entretanto, desatino é por definição coisa efêmera. Desmorona no primeiro choque com a realidade. E, ao desfilar orgulhosamente as virtudes do país tropical abençoado por Deus, inevitavelmente vem à mesa a ausência de desastres naturais. Ali, não existem. Furacões, tufões, terremotos, nevascas, tsunamis, vulcões são coisas para lugares menos favorecidos.

Deus, afinal de contas, é (ou deveria ser) brasileiro. Reservou-nos o privilegio de viver longe de desastres naturais. E nos condenou a sofrer permanentemente com desastres artificiais auto impostos. Nos fez os únicos culpados pelas nossas aflições.

A economia brasileira vai demorar até se reaquecer


A desesperança tomou conta dos trabalhadores e também dos empresários. Creio que algo saiu fora da curva. Provavelmente foi a política de investimentos pesados do Estado via BNDES, a juros subsidiados para os campeões nacionais, que gerou um déficit incontrolável da dívida pública. A crise de 2008 não é a única responsável por nossas agruras atuais. Os assuntos se completam uns ligados aos outros. Um fio condutor os une indelevelmente.

O escritor austríaco Stefan Zweig escreveu o livro “Brasil, o País do futuro”. Um estrangeiro acreditava no Brasil, como nós não iríamos acreditar? O momento vivido pela nação é preocupante em virtude do agravamento da crise econômica, com reflexos no desemprego, na inflação, no aumento da dívida pública e na falta de investimento.

A crise dos anos 80 é similar à de agora. O início das nossas agruras começa em 2008 e o ápice está ocorrendo em 2015. Como tudo está ligado a tudo, a crise dos países ricos detonada em 2008 pegou a nação agora, exatamente no estágio de recuperação dos EUA, onde começou a quebra do setor imobiliário, no distante 2008. Mas, a Europa ainda patina, inclusive a poderosa Alemanha. Nem se fala da Grécia, que se encontra na UTI. A China desacelerou brutalmente pegando o Brasil de surpresa, visto que era a maior compradora das commodities, principalmente os minérios do Brasil, notadamente o minério de ferro. As ações da Vale despencaram. A maior mineradora do Brasil está nas cercanias da crise.

Nem os próprios criadores, ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa, acreditam no ajuste fiscal, que provoca desesperança de empresários e trabalhadores. As famílias puxaram o freio de mão, agravando o quadro de recessão e desemprego crescente.

É chegada a hora do sacrifício. No entanto, todos deveriam participar, ricos e pobres, mas não é isso que está acontecendo. Se houvesse um esforço conjunto da sociedade, poderíamos sair da crise e voltar a experimentar um ciclo de crescimento mas rapidamente.

Do jeito que estamos, a curto prazo se torna quase impossível a economia sair do atoleiro em que se encontra. No mínimo, o esforço concentrado durará pelos próximos cinco anos. Vejam bem, a maior nação do globo enfrentou uma grave crise em 2008 e só agora em 2015 dá sinais de recuperação. Nesse sentido, falar em cinco anos para o Brasil sair da crise significa até uma dose de otimismo.

O bicho da demagogia

Agosto vem aí

O Senado, em Roma, decidiu dar nome aos doze meses em que o ano foi dividido. Para homenagear Julio César e Otávio Augusto, o sétimo e o oitavo mês são até hoje julho e agosto. O problema é que, naqueles idos, os bajuladores pareciam os mesmos de agora. Como o imperador era Tibério, ofereceram-lhe tornar-se patrono de um dos outros meses. Modesto, ele recusou maliciosamente: “O que fareis quando Roma chegar a ter treze imperadores?”

O episódio se conta às vésperas da chegada de agosto, para nós um mês azarado e pleno de surpresas. Getúlio Vargas suicidou-se, Jânio Quadros renunciou, Costa e Silva adoeceu. Dilma pretende recuperar-se, mas pode ser surpreendida por outra tragédia. No Congresso, cresce a tendência da rejeição de suas contas do ano passado, em especial se for essa a decisão do Tribunal de Contas da União. Nossa imperatriz estaria incursa em crime de responsabilidade e sujeita ao impeachment. Michel Temer assumiria, ainda que na dependência do Tribunal Superior Eleitoral, que se considerar ter havido dinheiro podre na campanha presidencial do PT, no ano passado, atingirá também o vice-presidente.


Como estamos na primeira metade do mandato, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, chefiaria provisoriamente o Executivo, dispondo de noventa dias para convocar eleições diretas. Isso caso o TSE e o Supremo Tribunal Federal não se inclinassem pela singular tese de convocar Aécio Neves, como segundo colocado nas eleições de 2014.

Em suma, abre-se a perspectiva de um agosto à altura dos anteriores referidos, em matéria de confusão.

Fernando Henrique não perde oportunidade de aparecer. Entrado nos oitenta anos, em vez de recolher-se para redigir suas memórias, continua dando palpite em tudo. Acaba de repetir não querer conversa com Dilma e Lula. Logo que publicada a versão deles desejarem encontrar-se com o antecessor para exame da crise atual, o sociólogo declarou ter nome e número no catálogo telefônico, não precisando de intermediários para acertar uma reunião. Quer dizer, aceitaria conversar. Como sua disposição pegou mal no ninho tucano, avançou para dizer que nada tem a ver com o governo e prefere saltar de banda. Agora, enfatiza de novo a recusa. Deveria ter presente que em política nenhum risco acompanha o silêncio.

Perdeu, príncipe

Chamou-se “O jogo da imitação” o filme sobre a vida do criptoanalista Alan Turing, que desvendou os códigos nazistas durante a Segunda Guerra. O esforço coletivo será menor para desvendar as anotações no iPhone de Marcelo Odebrecht. Elas revelam algumas indicações contundentes e inequívocas de corrupção. Mas trazem muitos enigmas que nos impelem a devendá-los, pelo menos para saber o que, realmente, aconteceu com o Brasil. E, é claro, extrair as consequências.

Marcelo Odebrecht foi intitulado o Príncipe dos Empreiteiros. Jovem, rico e bem educado, adotou a tática petista de negar, encarou com desdém a investigação. Na cadeia, tropeçou pela primeira vez, enviando um bilhete determinando a destruição de um e-mail sobre venda de sondas. Mas agora, com as mensagens em seu telefone, eu diria: perdeu, playboy, na linguagem plebleia, mas o adequado é: perdeu, Príncipe.
São evidentes, mesmo com as barreiras de códigos, as relações íntimas entre a Odebrecht e o governo. Cúmplice na Lava-Jato, pede um contato ágil com o grupo de crise do governo. Esperar um contato ágil do grupo do governo é sonho de executivo. De todas as maneiras, isso demonstrava como estavam juntos, na tarefa de escapar da polícia.

Recados como este a Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma: avisa a ela que pode aparecer a conta da Suíça. Não é preciso grandes decifradores para supor que a campanha do PT foi feita com dinheiro que veio da Suíça. Bem que desconfiei. Uma campanha tão bem educada: a grana vinha da Suíça. Esse tópico é tão interessante que quase todos fingiram não notar, como se não olhar para a bomba impedisse que exploda.

Odebrecht usou métodos de máfia, ao mobilizar dissidentes da Polícia Federal para melar a Lava-Jato. Tudo indica que foram esses dissidentes, numa outra ação, que colocaram uma escuta clandestina na cela de Alberto Youssef, na esperança de anular o processo. Está quase tudo lá no telefone de Marcelo. Amigos poderosos, propinas, orientação para artigos. Numa dessas, ele reclama que o foco da Lava-Jato está sobre os empreiteiros e é preciso deslocá-lo para os políticos. Mas a tática está dando certo. Políticos são mais experientes e escorregadios. O grande material contra eles virá precisamente das delações, de anotações como essas do iPhone.

Marcelo Odebrecht optou pelo silêncio. Mas deixou pistas pelo caminho. Como se dissesse; se querem me pegar, trabalhem um pouco com a cabeça. Ele terá que se explicar ao juiz Sérgio Moro. Mas se usar a tática do bilhete, destruir/desconstruir, vai se dar mal. É hora de contar tudo ou então assumir as consequências. Até plano de fuga, saída Noboa, estava previsto em suas mensagens. Noboa é um dirigente equatoriano que fugiu do país para a República Dominicana.

Chega de esconde-esconde. Isso vale também para Dilma e o PT. Em Portugal, abriram-se investigações sobre o negócio entre telefônicas no Brasil. Uma equipe peruana vem investigar no país o caso Odebrecht, pois suspeita que houve corrupção. Os americanos monitoram a Odebrecht. O Brasil virou uma grande cena do crime. Qualquer dia vão nos cercar com aquelas fitas pretas e amarelas e chamar os turistas para filmarem o PT, aliados e a Odebrecht, dizendo que não roubaram nada. Foi tudo dentro da lei. Só pela cara de pau mereciam uma punição extra.


Hoje, Dilma, Renan e Eduardo Cunha constituem um triângulo das Bermudas. Nele desaparece toda a esperança. Cunha agora é contra Dilma, Renan também. Há quem ache que é preciso poupá-los porque são contra Dilma. Mas hoje quase todo mundo é. Cunha está sendo acusado de levar US$ 5 milhões da Toyo Setal. Um dos indícios era o requerimento que a deputada Solange Gomes apresentou para pressionar os empresários. O requerimento foi produzido no computador de Cunha.

Fui deputado com os dois, Cunha e Solange. Um dia, ela veio com um jabuti para acrescentar numa medida provisória: isentar a indústria nuclear de alguns impostos. Fui perguntar o que era aquilo e ela não sabia responder. Percebi que era apenas uma assinatura de aluguel. Trabalhava em sintonia com Eduardo Cunha. Quando surgiu essa pista do requerimento de Solange, mesmo antes de descobrirem que veio do computador de Cunha, na solidão do quarto hotel, soltei o grito da torcida do Atlético Mineiro:

— Eu acredito!

As próximas semanas devem ser decisivas contra essas forças que ainda dominam o Brasil mas estão em contradição com ele. Ministros, deputados, presidentes e ex-presidente, todos farão o esforço final para escapar da enrascada. Dilma contra Cunha, Renan contra Dilma, Dilma contra Renan, eles podem dançar à vontade o balé dos enforcados. Lembram-me uma canção da infância, nascida nas rodas de capoeira: “A polícia vem, que vem brava, que não tem canoa cai n’água. Pau, pau, peroba, foi o pau que matou a cobra.” Pelo menos cantávamos, naquela época.

Hora de recomeçar.

Fernando Gabeira

Crise não é marola

Eu tenho insistido muito que a gente está num tempo em que é necessário democratizar a democracia exatamente por entender que ela está vivendo já uma espécie de estagnação.
(...) A gente vive uma crise civilizatória, uma crise onde cinco grandes crises, econômica, social, ambiental, politica e de valores, constituem uma única crise, que é uma crise civilizatória.
Marina Silva

América Latina nunca teve tantos jovens, mas não aproveita impulso


A população jovem da América Latina nunca tinha sido tão numerosa: 108 milhões de pessoas têm entre 15 e 24 anos. Era uma estatística previsível havia anos. Mas o futuro chegou à região e a oportunidade de aproveitar esse impulso demográfico como motor de desenvolvimento está lhe escapando das mãos. Enquanto o crescimento econômico da zona não passará de 1% este ano (quando entre 2000 e 2012 foi, em média, de 4% ao ano), os governos procuram, cada um por seu lado, alternativas para evitar a pobreza e a desigualdade entre os jovens. Diminuir a evasão escolar e incentivar o emprego digno são os objetivos prioritários das políticas públicas para essa população.

Na América Latina há trabalho para os jovens, mas boa parte desse emprego é precária. Economias incentivadas pelas atividades informais levaram a trabalhos mal remunerados e pouco protegidos. Embora a taxa de desemprego juvenil não seja alarmante, pois está em 14%, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o panorama da precariedade é patente. As estatísticas revelam que de cada 10 jovens com trabalho, 6 o desempenham sem as garantias de Seguro Social ou estabilidade para o futuro. A proliferação do trabalho informal abre uma brecha entre a população e prejudica o crescimento dos países.


O ingrediente-chave para obter qualidade no emprego é a educação. “Há uma relação direta entre o nível educacional e a probabilidade de conseguir um emprego bem remunerado”, explica Rafael de Hoyos, economista do Banco Mundial. Uma relação que alguns países latino-americanos começaram a ver com clareza. México e Chile, por exemplo, estão procurando alternativas com a reforma de seus sistemas educacionais, mas ainda se encontram em uma etapa incipiente do ajuste do modelo.

A OIT enfatiza que os jovens da região não alcançam um nível de educação médio ou superior. Apenas 35% prosseguem com seus estudos depois do ensino médio – e isso repercute em suas oportunidades para conseguir um emprego, principalmente de qualidade. Países como Argentina, Chile, Costa Rica e Cuba conseguiram ampliar sua cobertura educacional para aumentar as oportunidades de trabalho de sua juventude, mas outras nações, como Guatemala e Nicarágua, sofrem atrasos significativos.

As boas e as más intenções


Numa coisa Karl Marx estava certo: o capitalismo é um regime de exploração. Mas daí partiu para uma conclusão errada: só o trabalhador produz riqueza e o capitalista só explora. Não é verdade, e essa conclusão errada foi responsável pelo fracasso dos governos comunistas, que excluíram a iniciativa privada –ou seja, o empreendedor– e puseram em seu lugar meia dúzia de burocratas do partido, incapazes de gerir até mesmo uma quitanda.

É curioso que ninguém se tenha dado conta disso, a começar pelo próprio Marx, homem culto e de rara inteligência. Talvez a razão de tal equívoco tenha sido o caráter selvagem do capitalismo do século 19, que explorava os trabalhadores sem qualquer escrúpulo.

Marx via os capitalistas, portanto, como cruéis exploradores que não mereciam participar da sociedade igualitária do futuro, a qual, segundo ele, seria governada pela ditadura do proletariado. O que, aliás, nunca aconteceu nem podia acontecer, uma vez que, a começar por ele, quase todos os líderes revolucionários de esquerda eram de classe média.

Chego a pensar que tampouco a classe operária sonhada por Marx era revolucionária. O operário não só não tinha conhecimento dos problemas da sociedade como temia perder o emprego, uma vez que não lhe restaria outro meio de sobrevivência.

Ele era pobre, o irmão era pobre, o pai era pobre. Já o cara de classe média, se perdia o emprego, tinha o pai para socorrê-lo ou algum outro parente. Por isso o operário pensava duas vezes antes de se meter em encrenca.

Tanto isso é verdade que, em nenhum país desenvolvido, a revolução operária aconteceu. Nos Estados Unidos, que possuíam a maior classe operária do planeta, o partido comunista nunca teve qualquer importância.

A verdade é que, se sem o trabalhador não há produção, sem o empresário também não há. Neste momento, aqui mesmo no Brasil, há milhões de pessoas inventando agora pequenas empresas, médias empresas, grandes empresas, que vão promover o crescimento econômico do país, gerar empregos e riqueza.

Mas não é o empresário que, sozinho, vai pôr sua empresa para funcionar; precisa do trabalhador. O problema é que a riqueza produzida assim é mal dividida: o patrão fica com a parte do leão. Daí a desigualdade que caracteriza a sociedade capitalista e que, se já não é a mesma que no século 21, tampouco conseguiu eliminar a pobreza, mesmo em países desenvolvidos.

Está errado, mas também não estaria certo todo mundo ganhar a mesma coisa, uma vez que as pessoas têm capacidades diferentes. Nem todo mundo é Bill Gates ou Pelé ou Picasso. Tampouco tem sentido alguém ganhar milhões de dólares por hora enquanto outros mal ganham para sobreviver.

A conclusão a tirar de tudo isso, conforme penso, é que, se o regime capitalista tem a virtude de produzir riqueza, é uma riqueza desigualmente dividida. A conclusão inevitável é que devemos batalhar por uma divisão menos injusta possível.

Inteiramente justa, jamais o conseguiremos, porque, como se viu, a própria natureza é injusta, cria pessoas com capacidades desiguais. A justiça é, portanto, uma invenção humana e, por isso mesmo, depende das pessoas e das instituições para acontecer de fato.


Mas não é assim que pensam certos políticos que decidiram pôr, no lugar do marxismo extinto, um populismo dito de esquerda, que se vale da referida desigualdade social para ganhar o apoio dos mais pobres para chegar ao poder e pôr em prática programas assistencialistas, que não resolvem os problemas; pelo contrário, os agravam, como ocorre hoje na Venezuela, na Argentina e no Brasil.

Não há exagero, portanto, em apontar o caráter demagógico do populismo que, chegado ao governo, faz o contrário do que prometeu.

É possível até que, em alguns casos, acreditem, na sua visão equivocada, que têm a solução dos problemas, mas, na hora de enfrentá-los, veem que, nesse campo, milagres não acontecem. O resultado é o desastre, de que é exemplo o governo Dilma no Brasil.

Mas esse populismo está sendo desmistificado pela realidade dos fatos, como ocorreu agora mesmo na Grécia, onde o premiê Alexis Tsipras teve que fazer exatamente o contrário do que prometeu para chegar ao poder: submeteu-se às imposições dos credores.

Não estamos à altura

Difícil imaginar que João Goulart sofreria golpe militar, se seus apoiadores tivessem percebido e reconhecido os próprios erros e assegurado apoio e confiança na população. O golpe de 1964 foi consequência de forças diretamente golpistas autoritárias, mas também da omissão e incompetência dos democratas.

Tanto quanto as campanhas ideológicas dos golpistas, o golpe se apoiou no descontentamento popular com a inflação, o desemprego, a instabilidade por greves, as disputas internas na base de apoio; a incapacidade daqueles ao lado do presidente para perceber os erros cometidos; a euforia de que tudo estava bem e não havia o que temer, o mandato estava garantido e os militantes e sindicalistas prontos para uma guerra nas ruas em defesa da Constituição e do governo; e ainda a falta de percepção da força dos opositores, inclusive externa, no tempo da Guerra Fria. A causa de golpes também é a incapacidade dos governantes de reconhecerem a realidade.

Em 1964, o Brasil estava dividido entre esquerda e direita sem diálogo, cada lado com seus interesses econômicos e ideológicos acima do interesse maior do Brasil.

Cinquenta anos depois, atravessamos um momento parecido: com vantagens, fim da Guerra Fria e despolitização das forças armadas, e com desvantagens, raiva popular diante da corrupção e sentimento de traição pós-eleitoral, além de que o Fla-Flu partidário está menos preparado ideologicamente.

A disputa entre governo e oposição outra vez impede um entendimento político em favor do futuro do Brasil. Desta vez, felizmente, os golpistas são raros, mas também são raros os que percebem os prejuízos na interrupção do mandato da presidente e os que percebem os prejuízos que decorrerão da continuidade por mais três anos e meio do governo sem credibilidade, com uma equipe frágil politicamente e uma base dividida, unida por interesses menores por cargos.


Os próximos meses estão entre as consequências arriscadas da interrupção do mandato de um presidente (o segundo dos quatro eleitos diretamente depois da redemocratização) ou as consequências previsíveis da continuidade do atual governo. A única alternativa tranquilizadora para os próximos anos é uma concertação negociada dos democratas comprometidos com: estabilidade política e monetária, com crescimento econômico e com avanço social e respeito ecológico.

Ainda é tempo de evitar a tragédia e o desastre, mas esta ideia parece ingenuidade diante da nossa incapacidade como líderes nacionais. Neste momento, a culpa é de todos nós, por não estarmos à altura do desafio histórico do momento. E se não encontrarmos uma saída negociada, o povo na rua convocará por cima da Constituição uma eleição geral antecipada, com impeachment de todos.

Se não somos golpistas por ação, estamos golpistas por omissão, devido ao oportunismo ou à incompetência, perdidos e em disputas sem o sentimento de interesse nacional e de longo prazo.

domingo, 26 de julho de 2015

País tateia na escuridão


Um véu de incerteza teima em cobrir o espírito nacional, adensando as expectativas, aumentando as angústias e diminuindo a crença nas instituições políticas e sociais. Em quase todos os aspectos da vida nacional, impera a dúvida.

Não sabemos até onde irá essa Operação Lava Jato. Até quando o juiz Sérgio Moro continuará a dar as cartas? Até quando o STF fechará o imbróglio que envolve políticos? Ignoramos se as cartas do intrincado jogo de poder serão repartidas entre grupos que defendem o governo e se servirão para administrar as intempéries que assolam as roças da política.

Não sabemos o tamanho da enrascada que consome Estados e municípios. Estamos no início do caos, no meio da crise ou muito longe do fim do túnel? Ninguém sabe, mas todos se aventuram a garantir verdades nesse território que ama construir versões.

Ora, Dilma será afastada; ora, Lula movimentará seus exércitos para defendê-la; ora, os tucanos dizem não querer impeachment; ora, dizem ser a favor; ora, as contas do Governo serão desaprovadas pelo TCU e as contas de campanha, idem, pelo TSE. Nada certo.

Nas ruas, nos escritórios, praças e bares, emerge o país lúdico que ri da tragédia e se comove com a comédia. Comédia e tragédia, aqui, se fundem num amálgama que, frequentemente, traduz a falta de racionalidade do nosso povo tropical.

As redes sociais se locupletam com sátiras e piadas, algumas de extremo mau gosto. Mas há também graça. A improvisação, o gosto pela aventura, a alma criativa se expandem nesses tempos de recessão econômica.

A desconstrução de eixos administrativos montados por governos anteriores passa a integrar o exercício dos governantes que iniciaram sua jornada em janeiro deste ano. E assim cresce o Produto Nacional Bruto do Eterno Retorno. 




Os nossos homens públicos mais parecem dândis na escuridão. Não enxergam o profundo caos em que está afundada a imensa maioria da população brasileira.
Não são apenas as gritantes estatísticas de violência das metrópoles que assustam. Os assassinatos e assaltos (até de roubo de bicicletas) tornam-se eventos banais.

O desemprego ronda as famílias ( são mais de 8 milhões de desempregados) e deflagra ondas de medo, corroendo esperanças.

Os serviços públicos continuam a cair de qualidade. Morre-se de doença velha – dengue, por exemplo- em um atestado de volta ao passado.

A tristeza se estampa nas filas de pessoas que procuram emprego. As cenas do interior tórrido do Nordeste voltam com intensidade. Repete-se a cosmética de miséria incrustada em nossas mentes.

Para onde foram os bilhões dos desvios da roubalheira?

Quem consegue enxergar melhorias nas áreas da saúde, educação, saneamento básico, transportes urbanos, segurança pública?

Em alguns Estados, a penúria se instala. Os governos procuram ajustar suas contas. De 27, cerca de 20 estão perto do ajuste. Mas os cofres continuam pobres.

Nas ruas, as massas ruminam desconfianças, afastam-se das instituições e de seus representantes, afogam-se em mágoas, perdem-se em ilusões.

O Governo Federal deixou de ser a Tábua de Salvação para ser a Caixa de Pandora, cheia de surpresas; dos bons tempos de farta Bolsa Família, só lembranças. Da era do crédito fácil da era Lula, só velhos retratos.

A imagem da presidente Dilma afunda-se. Bate em 7% de aprovação.

Quando se espera que o governo defenda o rigor do pacote de ajustes, reduz a meta fiscal. Joaquim Levy, o próprio, que defende rigor nas contas, anuncia a desidratação de seu pacote com a redução da meta fiscal para 0,15% do PIB com abate de R$ 26,4 bilhões na receita.

A propósito, conseguirá Levy fazer passar pelo congresso o projeto de repatriação de recursos de brasileiros no exterior? De 500 bilhões, conseguira trazer 40?

A nova matriz econômica começa de maneira capenga. Onde foram parar as grandes obras do PAC? Caminham lentas. O PT gira tonto pelas ruas do Planalto, sem saber que rumo tomar.

Descalabros emergem todos os dias, ganhando espaços midiáticos, a partir das trombetas de Curitiba. O torto, o errado, o inusitado, o roubo, as negociatas que fariam inveja a Tio Patinhas já não mais comovem. De tão rotineiras, amortecem nosso espírito.

Sem perspectivas e sem crenças, o povo acaba banalizando a criminalidade. Que se expande. Um estado catatônico se instaura. Matar virou um ato de rotina. A morte é um evento que não mais comove.

A grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas riquezas materiais, o produto nacional bruto. É o conjunto de seus valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o respeito às leis, a visão de liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.

A anulação de alguns desses elementos espirituais faz das Nações uma terra selvagem. O país tateia na escuridão.
Mapa do Brasil (Foto: Arquivo Google)

Um filme de terror a que ninguém quer assistir

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Uma das primeiras apostas de Hollywood para levar mais gente aos cinemas utilizou um truque psicológico extremamente simples: pavor. Há mais de um século, tal como antes na literatura, as pessoas eram atraídas pelo que deveriam abominar e, graças a esta contradição, surgiram os Frankensteins, os Dráculas, médicos loucos, fantasmas, almas do outro mundo, lobisomens, monstros importados do passado, do fundo do mar, do espaço, do futuro.

No Brasil, talvez por força da infantilização das grandes audiências – para as quais medo não tem charme –, um filme de horror chamou a atenção de um dos mais importantes jornais do mundo sem provocar grande frisson, apesar de nosso protagonismo na película.

“Recessão e suborno: a crescente podridão no Brasil” foi o título do editorial desta quinta-feira no secular Financial Times, o jornal cor-de-salmão que raramente pisa em falso quando dá opinião (sobre música, vinho, política ou macroeconomia) e, por isso, foi vendido no mesmo dia por mais de R$ 4 bilhões de reais aos japoneses da Nikkei. “Incompetência, arrogância e corrupção tiraram do Brasil seu encanto mágico (...) Não é de admirar que o país hoje seja comparado a um infindável filme de horror.”



Que o governo não reagisse ou reagisse no estilo inglês – glacialmente – era o esperado. Designado para responder, Jacques Wagner, ministro da Defesa, contestou com o argumento de veterano cinéfilo: “não é filme de horror, mas de superação”. A surpresa veio da repercussão – quase nenhuma. Por solidariedade e/ou despeito, nossa mídia enfiou a viola no saco e saiu de fininho. Para não ser denunciada como alarmista ou golpista, talvez por sentir-se absolutamente desamparada diante de uma crise tão disseminada e ameaçadora, a verdade é que a retórica e o racionalismo anglo-saxônico se impuseram aos floreios da prosa neolatina.

Ao associar de forma direta, impiedosa, o fenômeno macroeconômico da recessão à esfera criminal onde se encaixa o suborno, o jornal escancara a natureza da nossa desgraça. Para não deixar dúvidas quanto à gravidade do que está sendo investigado, adiciona dois penosos ingredientes raramente utilizados nas avaliações sobre o que aconteceu na Petrobras: incompetência e arrogância.

Para coroar o diagnóstico, o arrasador substantivo – podridão – que nos remete a Shakespeare e ao inconformado Hamlet, ao reconhecer que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Na injusta metáfora, o Bardo não se referia apenas ao casal regicida (mãe e padrasto de Hamlet), mas à sociedade desmoralizada, corrompida, desprovida de senso moral que permitiu a consumação e a ocultação do crime.

Entende-se por que o editorial não foi transcrito e traduzido na íntegra em nossa imprensa: por pudor e autoestima. Verdadeira bomba arrasa-quarteirão, espalha estilhaços, fere a todos que, mesmo de longe, percebem o enredo. O interminável filme de horror do qual somos personagens e espectadores, ao contrário do que apregoam os mestres no gênero, parece condenado ao insucesso. Ninguém faz questão de vê-lo, o desfecho ainda demora. Nossas plateias são impacientes, se resignam às longas e artificiosas telenovelas, mas quando se trata de crises exigem soluções imediatas, no atual mandato.

Brasil, um país pacífico?


Quem nunca ouviu que “o Brasil é um país pacífico”? Os que proferem tal afirmativa o fazem de boca cheia e com o peito estufado de orgulho. Há muitos anos o país não entra declaradamente em guerra, é fato, porém... Que me perdoem os orgulhosos e as crianças – poupadas da dura realidade pela inocência nata –, mas estão afirmando uma grande mentira. O nosso “pacífico” país ocupa o 11.º lugar no ranking de homicídios por países, desenvolvido pelo Instituto Igarapé. O dado foi publicado em maio deste ano e pautou matérias dos maiores veículos da imprensa nacional.

Somos um dos países mais violentos do mundo, e isso é reflexo de inúmeros fatores provenientes, em grande parte, da má administração pública. O resultado da vergonhosa colocação no ranking de homicídios (pior do que alguns países em guerra) pode ser visto no sistema prisional brasileiro. Amargando a marca de 607.700 presos, segundo estudo recente do Ministério da Justiça, o Brasil ocupa o 4.º lugar no ranking das maiores populações carcerárias do mundo.

Para completar o desastre, a ONG Anistia Internacional classificou o sistema prisional brasileiro da seguinte forma: (presídios com) “superlotação extrema, condições degradantes, e onde casos de tortura e violência continuam sendo endêmicos”. Não bastasse isso, a Câmara dos Deputados aprovou, no último dia 2, a redução da maioridade penal. De acordo com levantamento realizado pelo site de notícias G1, a medida, se sancionada, pode aumentar em 32 mil o número de presos no país. 

Outra constatação preocupante é o crescimento da população carcerária: 74% em cinco anos. De todo esse universo, vale ressaltar, apenas 12% das penas são oriundas de crimes contra a vida.



Diante das estatísticas e constatações, é simples compreender por que figuramos entre os países mais violentos do mundo. Além de punir, as penas têm por finalidade ressocializar o indivíduo. Quem acompanhou o desenrolar dos acontecimentos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, entre 2013 e 2014 não precisa de muitas explicações para entender o quão assertiva é a afirmação da Anistia Internacional e que o nosso sistema prisional é, na verdade, um macabro depósito humano.

Essa situação, além dos irreparáveis danos humanos, traz danos financeiros e estruturais à sociedade brasileira. Um preso custa, em média, R$ 1,5 mil mensais aos cofres públicos. Nas prisões federais o valor é mais que dobrado: R$ 3.447 por preso ao mês. Ou seja, o Brasil gasta mais para manter um detento do que um aluno na educação pública. O que podemos esperar? Aquilo que está posto, um crescente desproporcional na população carcerária, com custos altos e resultados negativos.

Uma administração pública de qualidade deve usar os recursos do Estado de forma coerente, sempre visando bons resultados com o emprego do mínimo de recursos possível. No que tange à questão prisional do país, é óbvio que os recursos estão sendo mal empregados. As cadeias são uma extensão dos QGs do crime organizado, quase todas são controladas por facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC). O Estado acaba por sustentar o organismo criminoso do país.


Isso tudo pode ser evitado, basta planejamento estratégico, foco e ação ordenada. A maior parte das penas no Brasil é paga com restrição da liberdade, com cadeia. Para diminuir a população carcerária, uma excelente medida seria a adoção de penas alternativas para crimes mais brandos, a exemplo do não pagamento das pensões alimentícias. Atualmente, um pai que deixa de pagar pensão é preso junto com homicidas e latrocidas. Ele gera o mesmo custo que outro preso e, pior, passa a conviver com o universo do crime. Dois prejuízos de uma só vez.

Além de rever as penas para crimes de menor gravidade, é importante transformar os presídios em um ambiente efetivamente de ressocialização, com estudo e trabalho obrigatórios a todos os detentos. Dessa forma, eles reduziriam os custos da sua manutenção de acordo com o que produzissem, e poderiam retornar à sociedade com uma profissão.

Quanto à redução da maioridade penal, o calculo é muito simples: o governo assumirá o aumento dos gastos com um sistema prisional qualitativamente falido, em lugar de investir na educação – onde um aluno sai mais barato que um preso. Claramente uma atitude dispendiosa que, no longo prazo, além de inflar ainda mais as cadeias, tem potencial para aumentar o crime organizado, aumentar a insegurança no país e gerar outros gastos em reflexo do aumento da criminalidade.


Sabendo dos prejuízos, por que não executar uma ação frutífera para o país? Um gestor profissional e responsável tem capacidade e conhecimento para mudar esse quadro: reduzindo a população carcerária, os custos, investindo em medidas preventivas à criminalidade como educação – que já mostrou resultados assustadoramente positivos em outros países – e, sobretudo, fazendo das penas algo produtivo para a sociedade, com detentos realizando serviços para o governo em variados ofícios. Por fim, veríamos um país mais próspero, funcional e, efetivamente, menos violento.

Também cansamos de mentiras e safadezas, Lula

Embora seja um mito em decadência, figura em franca queda de popularidade e prestes a ajustar contas com o judiciário, o ator (ou humorista de trago-tragi-comédias) Luiz Inácio Lula da Silva faz de tudo para manter a eterna pose de sindicalista de resultados. Na sexta (24), na posse da direção do Sindicato dos Bancários do ABC, Lula deixou baixar o caboclo $talinácio e comprovou que continua em excelente forma, no esporte de malhação da mídia, desta vez atirando de forma genérica, sem citar os veículos de comunicação inimigos. Lula agora posa de perseguido e sai em defesa da Dilma - cabra marcada para cair e derrubá-lo junto:


"Eu quero dizer para vocês que eu estou cansado de mentiras e safadezas. Eu estou cansado de agressões à primeira mulher que governa esse país. Eu estou cansado de ver o tipo de perseguição e o tipo de criminalização que tentam fazer às esquerdas nesse país. Eu tenho a impressão que muitas vezes a gente vê na televisão, parece os nazistas criminalizando os judeus, os romanos criminalizando os cristãos, os fascistas criminalizando o povo italiano. Parece tantas outras perseguições que a gente já viu".

Lula tentou fazer uma leitura do imaginário popular oposicionista - que tanto o incomoda: "Cada vez mais as coisas pioram para nós, jogamos a culpa no governo. É mais fácil. A gente tem que encontrar alguém para jogar a culpa. Eu quero dizer para todas as pessoas que estão descrentes, que acham que o mundo vai acabar, que está vivendo uma crise, que não há um momento na história desse país que não tivemos uma crise. Neste pais não há razão para ter medo do futuro porque tem uma mulher da maior dignidade governando esse país. Não tem pessoa com o caráter mais forte do que a Dilma. Ela está sendo vítima de uma conjuntura que está prejudicando chineses, alemães, americanos (...)".

$talinácio também deu uma de economista: "A inflação está alta agora, está assustando muita gente, mas está 9% e com perspectiva de cair porque a Dilma tem obsessão de não permitir que a inflação ultrapasse esse limite, que chegou a 9% ao ano e não a 80% ao mês. Lembrando que quando eu peguei esse pais, a inflação estava 12,5% ao ano e o desemprego estava 12%. Quem estiver apostando no fracasso do país, vai quebrar a cara porque esse país é muito grande e tem um grande poder de reação".
Os-Silva-e-Segio-Moro

Lula acertou em pelo menos dois pontos de seus 20 minutos de discurso demagógico para sindicalistas e puxa-sacos. Primeiro, que não é só ele quem está cansado de tantas mentiras e safadezas. Segundo, que o Brasil tem um gigantesco poder de reação, embora nossa Elite Moral pareça viver deitada em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo. A maioria esclarecida do povo brasileiro rejeita as bobagens proclamadas pelo acuado $talinácio, cada vez mais próximo do juízo final político. As colaborações premiadas nos processos da Lava Jato - que revelam os subterrâneos onde Lula usava e abusava de sua influência para promover lucrativos negócios - se transformaram no "calcanhar de Lula". Aquiles acaba de ser deposto de sua fraqueza historicamente famosa.

A vaca já tossiu e vai para o brejo com a crise política e econômica. O Boi (aquele sindicalista que dedurava inimigos para o delegado Romeu Tuma, nos tempos da dita-dura) está indo atrás. Por isso, o Presidentro nunca esteve tão furioso quanto àquela Lula gigante assassina que ficou famosa no Youtube, desde agosto de 2010, ao atacar um robô submarino da Petrobras. Nunca foi tão justa e perfeita uma metáfora da natureza (um bicho que se julga poderoso contra uma empresa). Ainda mais que agosto está chegando, para desgosto de muito político que deixa a nação brasileira pt da vida...

A profecia de Dilma


Crise é crise e não adianta chorar pitangas depois que ela eclode. Sabe-se que é preciso achar saídas, por mais dolorosas que elas sejam. Sabe-se também em quais ombros recai a fatura, já materializada nas contas de luz, nos preços dos alimentos, do transporte, dos bens e serviços, no emprego que vai embora.

Nada disso parece comover a presidente Dilma Rousseff.

Ela resiste a cortar gastos no custeio do governo e os dela própria. Em sua recente viagem a Nova York desembolsou U$ 22 mil do contribuinte para hospedar-se por duas noites na suíte Tiffany do Hotel St. Regis, aposentos com 158 m². Mais de R$ 40 mil cada pernoite. Um acinte.



Com luxos dessa ordem, Dilma escancara seu completo descaso aos que estão pagando a conta da crise sem precedentes em que ela meteu o país. E amplia sua rejeição. Continua sem aprender que política se faz com gestos – para os quais ela definitivamente não tem qualquer habilidade - e símbolos.

Erra ainda mais como governante. Não reduz em um milímetro a máquina gigantesca. Não corta um cargo sequer. Gasta muito mais do que arrecada. E gasta mal.

Mas há de se fazer justiça. Nessa seara os erros do governo começaram muito antes.

Antecessor e padrinho de Dilma, o ex Lula dirigiu o país em época de fartura. Desperdiçou dinheiro em caprichos milionários, a exemplo da refinaria Abreu e Lima (PE), em parceria com o bolivariano Hugo Chávez, que lhe deu o cano. Ou ainda no lançamento de foguetes com a Ucrânia, acordo que será desfeito 12 anos depois de lançar pelos ares R$ 500 milhões do Tesouro.

Na Copa do Mundo da Fifa, Lula foi imbatível. Sob a sua batuta, o Brasil iniciou a construção ou reforma de 12 estádios. Custaram R$ 8 bilhões, 285% acima dos R$ 2,8 bilhões fixados em 2007. Quase o montante total do esforço fiscal que o governo estabeleceu agora ao reduzir sua meta para 2015.

De acordo com o Tribunal de Contas da União, a Copa custou R$ 25,5 bilhões. Apenas R$ 7 bilhões foram investidos em mobilidade, e das 26 obras previstas em aeroportos, só 14 foram concluídas.

Embora o país tenha pelo menos 25 empreiteiras de grande porte, de acordo com o faturamento publicado na revista O Empreiteiro, as 10 denunciadas pela Lava-Jato aparecem em todas essas obras e, na maior parte das vezes, com generosos financiamentos do BNDES, que também assegurou a elas expansões na América do Sul. Sempre com o aval de Lula.

A partilha entre o cartel de empreiteiras companheiras pode ter garantindo obras da Copa para todas, mas no caso do Centro de Lançamento de Alcântara, de onde sairiam os foguetes ucranianos, o contrato do consórcio Odebrecht-Camargo Correa foi direto, sem licitação.

Não há receita mais perversa para um país do que um governo tarimbado em incompetência, malversação, roubalheira e incúria. Que gasta a rodo sem ter receita. Que, quando não patrocina, estimula ou faz vistas grossas à corrupção.

Dilma jamais imaginaria que as palavras ditas em 2013, na inauguração da Arena Fonte Nova, em Salvador, seriam proféticas: "Somos um país conhecido como sendo insuperável no campo, mas nós estamos mostrando que somos insuperáveis também fora de campo”.

Na Copa, o seleção brasileira terminou eliminada pela Alemanha por vexamosos 7 x 1. Extra-campo, os resultados são ainda piores.

Meditação sobre os poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes 

sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta. 

José Jorge Letria

Desesperança nas cidades

Pesquisas recentes feitas por administrações municipais, mas não divulgadas por motivos óbvios, mostram que a popularidade dos prefeitos da região metropolitana e de cidade mais povoadas de Minas está muito baixa, no limite do “volume morto”.

A maioria dessas populações, excetuando a capital, considera o prefeito alguém ruim ou péssimo. O resultado apenas corrobora a pesquisa CNT/MDA da última semana, que expõe o descrédito total dos brasileiros com relação a suas instituições e seus políticos.
Porém, no caso dos prefeitos, a situação é bem mais crítica, pois, daqui a um ano, eles já estarão novamente colocando os nomes para as disputas eleitorais.

Se fosse hoje, eles não conseguiriam se reeleger. O mais grave é que os seus opositores diretos também estão pessimamente avaliados. Como se não houvesse mal que não pudesse piorar, o resultado disso é um espaço ainda maior para aventureiros e pessoas com menos capacidade de administração.

O motivo dessa lástima é, assim como no plano nacional, a ausência de lideranças capazes de resgatar a confiança de sua gente e de apresentar alternativas plausíveis ao estado caótico em que as cidades estão mergulhadas.

Claro, a crise gera menos arrecadação e, com ela, menos dinheiro para arcar com necessidades elementares, como saúde, desenvolvimento social e educação, mas o péssimo desempenho desses Poderes Executivos não pode ser atribuído exclusivamente ao momento econômico que vem sendo amargado pelo país.

As desaprovações municipais têm muito mais a ver com a baixa qualidade dos gestores. Ainda agarrados a uma política do empreguismo e da procrastinação, os prefeitos simplesmente não tomam decisões de fato relevantes. Eles fingem que administram, pois muitos deles são incapazes até de faturar importantes receitas, como o IPTU, por exemplo. Segundo equivocadamente imaginam, a medida os explodiria. Não percebem que a inércia com que lidam está arruinando as parcas estruturas sociais que ainda resistem.

Basta saber que algumas dessas cidades possuem mais de 12 mil servidores públicos, sendo quase um terço disso de livre nomeação, que são incapazes de prestar serviços razoáveis para seu povo. São centenas de milhões gastos todos os anos com uma folha de pagamento ineficiente.

O futuro das cidades, com este Brasil incerto e com prefeitos tão parcimoniosos e sem criatividade, preocupados em manter bobos da corte que os elogiem, é de escuridão. Só podemos esperar mais mendicância, a perpetuação de uma cultura da preguiça e o aumento do desinteresse de cidadãos pela metade, destituídos de motivação para acreditar em algo melhor em um futuro que tem a mesma cara de hoje.

Canis et circensis

O mundo híbrido de sentimentos e tecnologias é capaz de promover algumas crueldades jamais imaginadas. Um exemplo recente está na Sony, que ao descontinuar o suporte e manutenção de sua linha de robôs caninos AIBO, condena à morte certa os cerca de 150 000 beagles que vendeu entre 1999 e 2005. Diferente dos animaizinhos que supostamente teriam sofrido maus tratos no Instituto Royal de São Roque, o fim da vida desses cãezinhos digitais será tão indolor quanto a "morte" de qualquer outro dispositivo eletrônico.

O mesmo, no entanto, não poderá ser dito de seus pobres donos. Muitos deles, especialmente os mais velhos, desenvolveram com seus mascotes eletrônicos uma relação mais intensa do que normalmente se dá com traquitanas computadorizadas. Para alguns, suas máquinas ganharam vida própria.

É fácil julgar esses usuários. Um robô é mais cômodo e conveniente do que um animalzinho, da mesma forma que um cão ou gato é mais cômodo e conveniente do que uma criança. A realidade, no entanto, é mais complicada e sutil. Por demandarem um longo período de treinamento e adaptação, os bonecos, como os mascotes vivos, criam em seus donos uma forma de dependência psicológica. Por mais que as necessidades e demandas de um aparelho digital sejam construídas, a relação emocional entre pessoas e objetos é mais comum do que se imagina. Ela se dá nos telefones que são customizados com capinhas, protetores de tela e diversos aplicativos e configurações, dando a seus usuários um trabalho que uma TV, uma máquina de lavar ou um liquidificador jamais ousariam.

É uma relação delicada. Quando dá certo, ela oferece a seus donos um ombro amigo, mesmo que artificial, para que frustrações com relação a um mundo exterior cada vez mais frio e competitivo sejam desabafadas. Em sociedades extremamente agressivas, como as do Japão e de Cingapura, em que mostrar qualquer fragilidade (em casos mais extremos, até procurar ajuda psicológica) é considerado sinônimo de fraqueza, esses tamagotchis - vivos ou não - são válvulas de escape possíveis. O mesmo se dá para os espaços sociais agressivos e isolados em que um número cada vez maior de jovens é obrigado a viver, abandonados pelos pais e oprimidos pelo grupo.

AIBO é mais do que um brinquedo. Como várias "loucuras" que mal deixaram o Japão, o cãozinho é pouco conhecido no Ocidente. Acrônimo para Robô de Inteligência Artificial e homônimo para "amigo" ou "parceiro" em japonês, os últimos Aibos eram capazes de falar mais de mil palavras, compreender mais de cem e se exprimir em mais de 60 estados emocionais. Os mais empáticos podiam ver o mundo de seu ponto de vista através de uma câmara embutida na cabeça do cãozinho.

É fácil dizer que um robô não é um ser vivo, mas o que identifica a "vida" em uma relação afetiva? Cães são vivos, mas não compreendem. Robôs não são vivos, mas estão cada vez mais próximos de uma simulação bastante razoável de compreensão. Como previu o Teste de Turing, a máquina não precisa pensar, desde que aparente fazê-lo.

Já faz um tempo que os gêneros fantásticos da literatura lidam com essa dialética existencial. Em 1982, os androides de Blade Runner se comportavam como humanos, se sentiam vivos e se revoltavam com o fato de serem temporários. Em Toy Story, o astronauta Buzz Lightyear tem de aprender a notícia deprimente de que, em vez do indivíduo livre e autêntico que acredita ser, ele não passa de um boneco, vendido em grandes quantidades em lojas, idêntico a milhares de outros, banal e com discurso previsível.

Nos planos da Sony, o cãozinho deveria se transformar em uma nova plataforma, como o PlayStation. Mas os primeiros modelos eram limitados, e como aconteceu com o Orkut para o Google, o AIBO nunca passou de um projeto paralelo para a empresa, acostumada a vender produtos às dezenas de milhões, não centenas de milhares. Na virada do século, quando a gigante japonesa entrou em crise, o projeto foi encerrado. A assistência técnica durou mais uma década. Mas o aparelho é muito mais complicado do que um jipe ou fusca, por isso as peças começaram a rarear e as oficinas fecharam. Sobrou para mecânicos informais que canibalizam partes funcionais de alguns para consertar outros.

Tem coisas do Japão que parecem Ficção Científica. Para a religião Xintoísta, muito popular no país, tudo está interligado. Suas divindades, os "Kami", podem ser definidos como espíritos ou essências presentes em cada objeto. Partes de um todo indivisível, eles estão integrados à essência humana em uma grande rede complexa. É misticismo, mas está cada vez mais próximo do futuro. Mesmo que seja uma versão de futuro em que não se imagine viver.

sábado, 25 de julho de 2015

O impeachment de Dilma Bolada

Charge O Tempo 25/07
Entre os vários problemas e crises que assolam a República, urge resolver um em particular: é preciso encaminhar o processo de impeachment de Dilma Bolada. A ausência de graça já seria motivo o bastante para depor a suposta caricatura, mas, para os supostos puristas, aqui vai uma suposta razão técnica: desvio de função.

Daqui a décadas, quando a única certeza é que Renan Calheiros ainda estará presidindo o Senado, os historiadores olharão para o caso Dilma Bolada como o ápice da lógica de cooptação que caracteriza a política brasileira desde o Império. O legado mais sem-graça dos anos Dilma Rousseff definitivamente é o estabelecimento, com firma reconhecida em cartório, do humor a favor.

Na tentativa de dotar a presidenta de algum carisma, seu partido foi capaz de cooptar uma caricatura que não debocha do caricaturado e, assim, nos furtou umas boas gargalhadas durante anos de marasmo político e econômico — Jeferson Monteiro, o autor da personagem, provou ter capacidade de nos fazer rir antes de aderir —, e, agora, não vai ter operação da Polícia Federal que resolva isso.
O que vai ter é CPI, informa a Folha de S.Paulo. A CPI dos Crimes Cibernéticos, ironicamente proposta pelo PT, mas devidamente envenenada pelo novo oposicionista Eduardo Cunha, pretende quebrar o sigilo bancário do autor da Dilma Bolada, como parte das investigações sobre o que o jornal chama de “guerrilha petista na internet”. Não se sabe no que isso pode dar, mas, em tempos de Operação Lava Jato, já podemos pensar em negociar algumas piadas engraçadas com o humorista no acordo de colaboração premiada.

Afora os trâmites legais, contudo, a população brasileira de bem e de mal tem o dever cívico de se unir em torno da bandeira do impeachment bolado. Não dá mais para topar vez ou outra nastimelines da vida com "lacradas" menos engraçadas que o humor involuntário dos blogueiros que se esforçam para defender o Governo. Tudo tem limite, até porque Dilma Bolada já deu filhos igualmente sem-graça, como Haddad Tranquilão (apesar de heróicas exceções, como Aécio de Papelão, entre outras sátiras de fato), e tem até cartunista consagrado se contaminando pela má influência. Neste momento de esculhambação geral da República, preservemos pelo menos o riso.

Rodolfo Borges

As dificuldades de perdoar o perdão

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Difícil mesmo é perdoar o perdão. A História está cheia de exemplos de gente que traiu, perdeu, foi perdoada e, sob a capa da adesão incondicional, cheia de arrependimentos e de desculpas, transformou-se em adversário e até inimigo implacável e falso.

Tome-se a relação entre a presidente Dilma e o Lula. Apesar das demonstrações ostensivas de subordinação, subserviência e amizade eterna, depois de elevada ao poder a criatura insurgiu-se contra o criador. Passou a governar como se o primeiro-companheiro fosse um estorvo, uma peça de museu desimportante que devia reverenciar, mas da qual não precisava e nem acreditava, julgando-o ultrapassado. Veio o tempo das vacas magras, Madame perdeu não só a popularidade, mas o controle do país.

O Lula passou-lhe uns pitos, até de público, fez recomendações e abriu os braços para recebê-la de novo e perdoar anteriores desvios. Perdoou.

Aqui se aplica a máxima acima referida. Perdoar o perdão só é próprio do santos. São Pedro traiu Jesus três vezes, foi perdoado e tornou-se o arauto do cristianismo. Mas era São Pedro.

No calvário em que o PT se arrasta, o natural seria a adesão incondicional de Dilma às lições e ensinamentos do Lula, única taboa de salvação para conseguir levar seu governo até o fim. No entanto…

No entanto, assiste-se a presidente perdoada, às escondidas, destilar fel sobre quem a perdoou. O mínimo a esperar dela seria o engajamento total no roteiro traçado pelo antecessor, até como forma de sobrevivência. Não é o que se vê. Apesar de bissextos encontros, Madame dá a impressão de ter ouvidos moucos. Continua aferrada aos postulados de Joaquim Levy e despreza os conselhos de criar fatos positivos e iniciativas capazes de reconquistar a opinião pública. Ignora mecanismos de recuperar a renda nacional e enfrentar o desemprego crescente. Rendeu-se à receita recessiva e não se lembra de anunciar programas de obras públicas em condições de absorver a mão de obra ociosa. Preferiu propor a redução das jornadas de trabalho e do salário dos trabalhadores. Mais a supressão do seguro-desemprego, do abono salarial e das pensões das viúvas. Pratica ao contrário as recomendações de quem a perdoou.

Platão ensinou que nenhuma sociedade consegue evitar o ciclo fatal que se inicia com a monarquia, transforma-se em aristocracia, torna-se oligarquia e explode na democracia, para em seguida mergulhar no caos e redundar na ditadura.

A gente fica pensando qual dessas fases está próxima de se verificar, com panelaços programados para 16 de agosto…

Corrupção à brasileira: Lula na Foreign Policy


Uma vez - essa história não faz tanto tempo assim -, eu caminhava de mãos dadas com Margarida (também jornalista) pelo aeroporto de Barajas, na fase em que a Espanha flanava toda cheia de si sobre as ondas de seu mais recente (e já desmoronado) sonho de império, opulência econômico-financeira e tranquilidade política.

Barajas, um dos mais importantes e movimentados aeroportos da Europa, acabara de ser reformado e modernizado (a capital espanhola inteira, aliás, parecia um imenso canteiro de obras e paraíso das grandes empreiteiras). Era então o mais novo e imponente postal de entrada e saída da cidade repaginada. O mundo e o tempo loucos e maravilhosamente criativos dos anos 60/70 haviam ficado para trás nas muitas voltas. A juventude quase nem fumava ou lembrava mais dos famosos “chinos de Madri” da canção “Un Vestido y un Amor”, do portenho Fito Paes, que o baiano Caetano Veloso transformaria em sucesso mundial no disco “Fina Estampa”.

Foi no aeroporto, daquela vez, que vi a “FP-Foreign Policy” (edição espanhola) exposta em um lugar de destaque da vitrine na babel do quiosque de revistas e periódicos do mundo inteiro. Achei estranho o nome da publicação, mas o design moderno da capa e as chamadas para as matérias principais da edição que acabara de sair do forno, me apanharam de cheio.

Comprei um exemplar para ler no voo de volta ao Brasil. Abri a revista e logo fui arrebatado por uma paixão jornalística à primeira vista, da qual depois não mais me afastei ou me arrependi, apesar das novas e tantas viradas do planeta. Isso aconteceu há uma década, quando o Brasil também “era tudo de bom”, no dizer quase nunca questionado da baita propaganda oficial do Governo Lula e do PT. Nem se falava em Mensalão e, muito menos, se imaginava um escândalo de ladroagem envolvendo corruptos e corruptores - malfeitores públicos e privados em conluio - do tamanho da Lava Jato. Que a cada dia, praticamente, aponta para novos desvãos criminosos e de consequências ainda insondáveis. A conferir.

Recordo do episódio em Madri depois de ver, esta semana, a reportagem da “FP-Foreign Policy” (edição dos Estados Unidos), que traz entre seus principais conteúdos, uma reportagem demolidora a partir do título: “Lula está apoiando empresas corruptas a fazer negócios corruptos no exterior”.

Abro aqui um breve espaço de informações sobre a “FP”, para quem desconhece a revista norte-americana não ficar imaginando que a publicação de nome tão estranho é um “balcão de negócios jornalísticos”, ou algo superficial, nos moldes das revistas de escândalos em torno de “celebridades”, tão comuns na Espanha e no Brasil, ou dos famosos tabloides britânicos, para ler no metrô e jogar no lixo.

“Foreign Policy (FP)” requer muitos e quase todos favoráveis adjetivos: prestigiosa, inovadora, lúcida, substanciosa e inteligente revista dedicada a ideias globais. Trata de assuntos internacionais (do futebol da FIFA, na Suíça e Estados Unidos, ao Petrolão, no Brasil) de maneira diferente e igualmente interessante. Encara criticamente, de forma permanente e criteriosa, o desafio de alcançar em seu conteúdo, a difícil mescla jornalística de “seriedade, amenidade e rigor”. Servidos em textos primorosos

Há, porém (e sempre há um porém), os que consideram FP um reduto inexpugnável de intelectuais neoliberais , elitistas vaidosos e inimigos do “pensamento de esquerda e dos intelectuais, gente do poder e de governantes em geral que o expressam e representam”.

São opiniões. O fato é que a reportagem da “Foreign Policy” considera que o Brasil cria novo modelo de investigação da corrupção ao apurar ação do ex-presidente Lula fora do governo, o que é praticamente inédito em todo o mundo. “Enquanto muitos ex-presidentes e premiês já foram investigados após deixarem os cargos, é a ação deles enquanto governantes que normalmente é analisada. Investigações (neste caso ) estão examinando o papel que [Lula] da Silva teve para garantir contratos para a Odebrecht em Cuba, no Panamá, na Venezuela, em Gana e em outros países'', diz a revista americana em sua página na Internet.


“Lula está ajudando empresas corruptas a fazerem negócios corruptos no exterior'', afirmou à revista o diretor regional da Transparência Internacional, Alejandro Salas. Paro por aqui. Quem quiser saber mais veja na revista, cuja reportagem causa impacto internacional.

Foreign Policy é editada em Washington desde 1970. A edição espanhola da revista, cujo exemplar adquiri em Barajas, é bem mais recente: começou em 2004. Me penitencio, pessoal e profissionalmente, pelo atraso da descoberta, apesar de ter passado antes pelos Estados Unidos, quando FP já era sucesso entre seus leitores, principalmente nos meios intelectuais e jornalísticos. Vida que segue.