segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Por que o humor nos liberta dos fantasmas


A sátira não mata, liberta. Os dogmas, religiosos ou políticos, é que têm semeado cadáveres ao longo da História.
O humor e a sátira, que implicam sempre uma crítica ao poder, foram ensanguentados nestes dias na França, salpicando todos nós. Sobre as implicações do assassinado de humoristas irreverentes (que verdadeiro humorista não é assim?), já se escreveu quase tudo.

Mas talvez um aspecto tenha sido menos lembrado: o da força que esse gênero literário de sátira possui para libertar os seres humanos dos fantasmas que os angustiam desde o tempo das cavernas.

Se há algo tipicamente humano, é o humor. Não os medos, nem a violência, que também existem no reino animal. Uma das manifestações artísticas que enobrecem a capacidade intelectual do Homo sapiens é a possibilidade de ridicularizar o poder – e a nós mesmos – como antídoto para as tentações de onipotência.

Todos os poderes odeiam os humoristas e satíricos. Quanto mais tiranos os poderes se revelam, mais os odeiam

A sátira dói porque nos desnuda, revela nossos limites, castiga nossa pretensão de acreditar que sejamos importantes e intocáveis.

Ela ameaça o poder porque o coloca em seus limites, já que os que o detêm, seja no âmbito político, religioso ou cultural, podem escorregar na tentação de se considerar intocáveis. E, ao mesmo tempo, liberta a todos nós dos fantasmas aninhados em nossos genes. Fantasmas que afligem e às vezes tiram o sono de grandes e pequenos.

Nada liberta mais nossas crianças dos fantasmas que povoam seus sonhos e suas vigílias do que ridicularizar as bruxas e os super-homens. As crianças adoram quando rimos dos adultos, nós, que constituímos para elas o medo ao poder que castiga ou castra seus melhores sonhos de liberdade.

Poucas coisas são tão libertadoras, em todos os âmbitos, como uma ilustração inteligentemente sarcástica sobre qualquer poder político ou religioso.

Todos os poderes odeiam os humoristas e satíricos. Quanto mais tiranos os poderes se revelam, mais os odeiam. Não há nenhum teste melhor para medir o grau de democracia de uma pessoa ou instituição do que sua capacidade de aceitar a ironia sobre ela e o que ela representa.

Se o humor nos desnuda e remove o falso brilho do poder, não faz mais do que nos trazer de volta às nossas origens, já que todos, desde o início dos tempos, nascemos nus, desvalidos, necessitados de tudo. Nascemos sem poder. Chorando, não rindo.

O humor nos liberta das estruturas com as quais os mantos do poder nos vão revestindo e cobrindo. Devolve nossa essência.

Bastaria essa força de libertação de nossos medos, de nossas estúpidas crenças de superioridade, para defendermos os gênios do humor e sua força criativa.

Democracia não se perverte

Democracia não pode ser pervertida para combater o terror
Deputado do Partido Socialista francês, Eduardo Rikhan Cypel, brasileiro radicalizado na França


A semana de terror assistida por milhões em todo o mundo tem muito a ensinar sobre democracia. Em particular àquele ao qual o ex-presidente francês, general Charles de Gualle, como "não é um país sério".
Em nenhum momento, nenhuma voz por lá se levantou em um gesto antidemocrático. Em uníssono, o país quis uma resposta séria e dentro da legalidade para combater o terrorismo, o que só pode acontecer em democracias estabelecidas.
Democracias há por todo o mundo, e nem adianta encher a boca para se proclamar que vive numa delas, porque raríssimas respeitam os princípios de liberdade e de direitos.
Na França, para combater o radicalismo de bandidos, travestidos de seguidores do Islã, não se reduziu a democracia. Nem através de decretos ou outras ações, o governo feriu princípios, maquiou aqui e ali. Sabem muito bem que não se pode ostentar a democracia com demagogia ou marketing de discursos faraônicos, muitas vezes eivados de totalitarismo.

Tem-se democracia, e devemos respeito a ela, ou apenas somos mascarados para ocultar a face verdadeira de uma republiqueta. Os franceses são definitivamente sérios que não se deixarem levar por malandragem de picaretas sempre dispostos a empurrar com a barriga uma democracia de fachada.
Tem que existir em todos os momentos de uma nação que a queira na íntegra. Perverter a democracia para se manter no poder a qualquer custo, mesmo que a vaca tussa, pintando o diabo, é fazer terror com o próprio povo.

Governo massacra aposentados e pensionistas

Circula na internet, causando desapontamento e revolta a aposentados e pensionistas, uma tabela contendo um quadro comparativo de benefícios pagos pelo INSS entre 1997 e 2014.

O gráfico mostra que os benefícios equivalentes ao salário mínimo subiram 503,25% de 1997 a 2014, enquanto o reajuste para que aposentados e pensionistas que recebem mais de um mínimo foi de apenas 199,07%.

A decepção dos aposentados e pensionistas é mais do que procedente. Esta política é massacrante e não pode ser mantida eternamente, pois tende a nivelar por baixo todos os benefícios, o que representa uma inominável injustiça àqueles que mais contribuíram para manter a Previdência Social.

E com um detalhe deplorável: muitos desses aposentados passaram anos e anos contribuindo sobre 20 salários de referência, que com a reforma da previdência foram reduzidos para apenas 10 salários de referência, sem que essas contribuições a mais tivessem sido devolvidas, numa flagrante apropriação indébita de recursos do contribuinte.

Cabe aqui uma observação importante. A tabela que circula na internet está equivocada, porque se baseou nos valores do salário mínimo vigente no país, que não serve para cálculo dos benefícios do INSS, embora seja considerado piso. Quando o INSS fala em 10 salários, refere-se sempre a salário de referência ou salário de contribuição, e não ao salário mínimo.

Mesmo assim, a tabela serve para demonstrar os prejuízos de quem recebe mais de um salário mínimo. Em 1997, por exemplo, o salário mínimo era de R$ 120,00 e o teto do INSS estava em R$ 1.031,87. Ou seja, era de 8,59 salários mínimos. Em 2014, o mínimo passou a R$ 724 e o valor máximo dos benefícios para R$ 4.390,24, equivalentes a apenas 6,06 salários mínimos. E a queda é progressiva.

O pior de tudo isso é saber que o reajuste das pensões e aposentadorias vem sendo baseado num índice de inflação subavaliado, que não condiz com o verdadeiro aumento do custo de vida, circunstância que aumenta ainda mais os prejuízos dos brasileiros da terceira idade. É revoltante ou não?

Carlos Newton

Cumpra a lei

Um governo que é incapaz de fazer cumprir sua própria lei deixa de ser governo
John Steinbeck

A presidência ditatorial ou a ditadura presidencial

Marcada para o dia 27, terça-feira, a primeira reunião do ministério arrisca-se a ser a última. Pelo menos, com os atuais ministros empossados no primeiro dia do ano, somados aos que permaneceram, no total de 39. Isso porque, depois de conhecida a lista do procurador-geral da República relacionando supostos envolvidos no escândalo da Petrobrás, será possível à presidente Dilma fazer alguns ajustes. Poderá dispensar ministros porventura denunciados, assim como recrutar aliados que ficaram fora da lambança.

De qualquer forma, essas reuniões ministeriais perderam sua razão de ser depois que a equipe inchou. Servem apenas para a presidente dar recados genéricos, quando não passa reprimendas, tornando-se inviável que cada um dos presentes possa sequer dar bom dia aos colegas, quanto mais expor suas metas, suas dificuldades, pedindo e contribuindo   com conselhos para o vizinho do lado. Meia hora que fosse para cada um pronunciar-se e dois dias não seriam suficientes, mesmo sem intervalo para refeições ou para uma soneca.

Não dá para governar em colegiado, ou seja, facultando-se a todos os ministros opinar a respeito de temas comuns ou até colaborando, uns, nas questões dos outros, como já aconteceu no passado. Cada vez mais dividido em compartimentos estanques, pelo número absurdo de participantes, o ministério tornou-se uma entidade insossa, amorfa e inodora, na medida em que todos ouvem a palavra presidencial mas ficam impossibilitados de debater e apresentar opiniões ou discordâncias. Nada diferente daquelas vetustas salas de aula do passado, onde o mestre-escola pontificava e os alunos calavam.

Sequer se torna possível dividir o ministério em grupos determinados, como o político, o econômico, o social e o da infraestrutura. Vigora hoje a ditadura presidencial. Em separado, só poucos ministros conseguem despachar com a presidente. Outros chegarão ao final do ano conhecendo apenas o auditório palaciano, sem ter entrado no gabinete de Dilma, limitados às bissextas reuniões conjuntas. Numa palavra, ministros de primeira e de segunda classe, poucos privilegiados, muitos discriminados, mas todos calados e subservientes.

Cada vez mais o exercício da chefia do governo torna-se tarefa monocrática, especialmente se seu ocupante apresenta temperamento e características monárquicas. Se impõe sua decisão sem admitir ponderações ou sugestões. O resultado é seu isolamento permanente, dentro da concepção de que ministros existem para obedecer e cumprir ordens. Já se foi o período em que tinham condições e coragem para expor roteiros de ação e até correções de rumo. Curvam-se à fala do trono. Precisamente o que assistiremos dia 27.
  

Coincidência não foi a manifestação contra o aumento das tarifas de transporte publico verificada em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, na noite de sexta-feira. Até a baderna que se seguiu às passeatas pacificas terá sido minuciosamente programada. Vieram as mesmas depredações de sempre, com personagens encapuzados e organizados. Seria bom prestar atenção. Se a onda de julho de 2013 voltar, será bem mais violenta.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O discurso da rainha e a máquina publicitária

O Partido dos Trabalhadores mantém uma relação muito própria com a realidade. A exemplo dos partidos totalitários, os fatos, para o PT, são meras referências a partir das quais são concebidas e propagadas as versões mais convenientes. Três fatores se têm revelado utilíssimos para que cada versão, malgrado sua desconexão com os acontecimentos, produza o efeito político pretendido.

O primeiro desses fatores é a velocidade com que a máquina publicitária petista produz e distribui a versão mais proveitosa. É imperioso que chegue a todos os cantos do país simultaneamente com a notícia a partir da qual a versão foi construída. O partido dispõe, então, de numerosa e bem organizada rede de reprodução e repetição das versões que constrói. Em instantes, no canto mais remoto do país, onde houver um vereador do PT ou um dirigente partidário local, ele sabe muito bem o que deve propagar e repetir incessantemente sobre cada assunto de interesse da sigla. Bastaria essa coesão para fazer da mentira verdade e da verdade mentira. Nada que não tivesse sido utilizado antes por todos os partidos de viés totalitário, ao longo do século 20. Inclusive o anseio por reescrever a história, transformando bandidos em heróis e vice-versa, sempre com base nas versões construídas. A Comissão da Verdade é o recente exemplo local de algo que foi prática corrente no mundo comunista.

O segundo fator tem a ver com a fragilidade intelectual do grande público. Quem faz política com astúcia conta com ela e dela se aproveita. Valem-se dessa fragilidade, aliás, todos os vigaristas bem sucedidos. Confiam nela os mentirosos, nas muitas esferas da vida social. Não bastasse isso, é fato: quase sempre, a mentira bem contada é mais atrativa do que a verdade.

O terceiro fator é uma peculiar idiossincrasia de parte da imprensa brasileira que exige de si conduta estéril, uma azoospermia que parece não ter cura, uma equidistância em relação a toda divergência. Graças a isso, mentira e verdade se defrontam com igualdade de condições. Ponto e contraponto. Ainda que um ou outro seja descarado embuste, são raras, entre nós, matérias editoriais desmascarando tramoias. Mesmo se produzidas em série, como as que rechearam o discurso de Dilma.

Os textos que Dilma leu durante a posse, preparados por ghost writer, formam duas coletâneas de exemplos do que examinei acima. Versão, versão, versão, ufanismo, falsidade e mistificação. Graças a esse menosprezo aos fatos, a presidente pode afirmar, sob aplausos, que esta é a “primeira geração de brasileiros que não vivenciou a tragédia da fome”. Graças a ele, a presidente mencionou os escândalos que espocam na Petrobras feito milho de pipoca como se fossem causados por seres alienígenas vindos de algum planeta capitalista. Graças ao mesmo menosprezo pela verdade e pelos fatos, ela referiu um compromisso com a “Pátria Educadora” (meu Deus, que diabo será isso?) depois de haver entregue o Ministério da Educação a um ex-governador que absolutamente não é do ramo. Graças a ele, prometeu extirpar a corrupção no mesmo dia em que chamava para integrar seu ministério pelo menos uma dúzia de políticos envolvidos em denúncias de corrupção. E por aí foi Dilma, comprometida com muito mais do mesmo.

O lobo mau


Se ele fosse um homem mau, eu não teria tanto medo dele. Mas este homem não tem princípios. Ele não sabe a diferença
Vice presidente norte-americano Adlai Stevenson (1835–1914) sobre certo político mau- caráter

O PT e Charlie Hebdo


O que ocorreu em Paris fere a conquista mais preciosa da humanidade, que é o direito de se manifestar. Alega-se que o cristianismo teve seu tempo de trevas na Idade Média. Pois é: quantos séculos faz? Estamos em pleno século 21

Terrorismo e coerência não combinam. Caso contrário, os energúmenos que enxergam agressão numa piada, por mais abjeta, veriam que é incomparável, sob todos os aspectos, com o que eles mesmos promovem em terras muçulmanas contra cristãos.

Mais de cem mil cristãos – incluídas aí crianças - são assassinados por ano no mundo muçulmano pelo simples fato de que são cristãos. Não fazem proselitismo, não hostilizam, não fazem piada, nem muito menos constroem templos. Apenas têm outra crença. É o bastante.

Somente em Paris, há mais de cem mesquitas – grande parte construída nesta Era em que o Ocidente é alvo de atentados e hostilidades, sob pretexto religioso -, sem que se impeça ou constranja alguém de frequentá-las (a partir de agora, e em decorrência do que aconteceu na quarta-feira, já não se sabe).

O atentado tem força simbólica maior que os inúmeros que o precederam nos últimos anos em todo o Ocidente. O alvo foi a liberdade, personificada numa revista de humor. Nesses termos, é ainda mais chocante que o das Torres Gêmeas de Nova York, que atingiu o coração financeiro do capitalismo.

O que ocorreu em Paris fere a conquista mais preciosa da humanidade, que é o direito de se manifestar. Alega-se que o cristianismo teve seu tempo de trevas na Idade Média. Pois é: quantos séculos faz? Estamos em pleno século 21. De lá para cá, muito sangue correu para que jornais pudessem circular livremente.

O Charles Hebdo já ridicularizou padres, pastores e rabinos, e nenhum apontou nem sequer um estilingue contra a revista.

Comentou-se a pouca ênfase com que o governo brasileiro repudiou o episódio, sem falar no silêncio de entidades diretamente ligadas às vítimas – Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por exemplo.

Outras, como PT e CUT, por meio de alguns de seus militantes, procuraram atribuir, nas redes sociais, a responsabilidade às próprias vítimas. É compreensível.

É para essa gente – os que representam os algozes – que a diplomacia brasileira (e bolivariana) tem direcionado seus interesses na Era PT. Foi Lula quem trouxe para cá, e o recebeu com tapete vermelho, o sanguinário ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que proclamava seu propósito de banir Israel da face da terra.

Foi ele também que comparou atos repressivos homicidas no Irã, em retaliação a protestos contra fraudes eleitorais, a uma briga de torcida entre Flamengo e Vasco.

Dispôs-se a mediar, num lance cômico – que o Charlie Hebdo, se lhe desse importância, teria ridicularizado -, os conflitos do Oriente Médio. Lula, como se recorda, invocou seus dons de sindicalista para resolver um conflito imemorial, que transcende a capacidade de compreensão (e solução) da humanidade.

Pior: pretendeu resolvê-lo em favor de uma das partes, o que desfaz o sentido d o verbo mediar. Em Israel, recusou-se a visitar o monumento ao fundador do sionismo, Theodor Herzi, gesto diplomático que nenhum chefe de Estado, em visita ao país, recusa fazê-lo. Já Dilma, no final do ano passado, num igualmente ridículo discurso na assembleia da ONU, condenou as retaliações militares aos degoladores do Exército Islâmico, propondo diálogo.

Sua proposta, quem sabe, poderia agora ser recolocada à polícia francesa e às famílias das vítimas.

O tom da diplomacia petista, que transformou o Itamaraty de órgão de Estado numa célula partidária, é de hostilidade aos Estados Unidos e à União Europeia. Ao Ocidente. E de franca simpatia a governos que promovem e acobertam atos como os que estarreceram o mundo na quarta-feira.

A diplomacia do PT definitivamente não pode repetir com o mundo civilizado: “Je suis Charlie”
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Ruy Fabiano

Desgraça mundial é felicidade para corruPTos


Há 12 anos no poder, o PT ainda não sabe o que fazer


O problema na maioria dos países não é esquerda ou direita. O problema maior chama-se governos. São todos irresponsáveis. Não começou agora. No Brasil, nenhum governo jamais teve respeito pela população. Gastam o dinheiro dos impostos, tributos, taxas e multas, como se ele desse em árvore, no quintal do Palácio. Isto sem falar no que roubam.

E para mudar esta nossa Monarquia Republicana, é preciso aperfeiçoar o sistema político, caso contrário, depois de arrumarem novamente a casa, às custas da população, aparecerá outro irresponsável e bagunçará tudo de novo. Lógico, cada vez com alguns espertalhões bem mais ricos. Desta vez são os sindicalistas a enriquecerem. Sem contar os de sempre: os fornecedores e financiadores dos governos.

Veja-se o governo FHC. Se não levarmos em conta a continuidade do Plano Real, as privatizações e a Lei de Responsabilidade Fiscal, também pouco fez, salvo a compra de votos para a reeleição, que o beneficiou, mas o feitiço acabou virando contra o feiticeiro. Mas é preciso reconhecer que FHC prejudicou menos o país que a atabalhoada Dilma.

O problema agora são as medidas que o novo ministro Joaquim Levy terá que forçosamente tomar para corrigir uma situação criada por inteira má fé.

Sabemos que a Dilma mente ao dizer que entende de economia, mas é impossível aceitar o fato de que no seu governo ninguém soubesse que as medidas eleitoreiras que ela tomou (ou eles tomaram) causariam sérios problemas ao país.

Acompanho as crises desde 1966, E a dose de erros da gerentona – antes de aterrissar em Brasília, era diretora de uma estatal falida no RS, a CRT – superou todas as más expectativas. E a reeleição dessa quadrilha vai custar muito caro ao país. O ano está apenas começando. Já passei por isso em governos anteriores.

A democracia, se fosse exercida na sua plenitude, precisaria ter salvaguardas para defenestrar com mais facilidade pessoas que exercem a governança com tanta má fé. Se os candidatos – quase todos, uns bandidos impostos pelos partidos políticos – fossem escolhidos pelos eleitores, e já com cláusulas que preservassem as instituições, não teríamos crises periódicas, quase cíclicas.

Vinte e dois anos na oposição – e que oposição, se há governo sou contra. Mais 12 anos com a chave do cofre na mão, e eles ainda não sabem o que fazer. Incrível. Agora então, Dilma misturou alhos com bugalhos na composição dos “40” ministros, para ver se não lhe fazem tanta cobrança, e eles nada farão, além de brigar entre si.

A única coisa prevista para os próximos dois anos será tentar consertar as merdas feitas nos quatro anos anteriores. Nem vou falar das empresas privadas que fecharão as portas em função do arrocho que vem por aí.

Haja saco para aguentar os próximos quatro anos – se Dilma durar tanto… Agora, vai inundar o país de propaganda do governo (paga por nós) sobre o que ela vai fazer pela educação no Brasil. Aprendeu com o “padrinho”, o capo Lula “Ninefingers”.

Martim Berto Fuchs

Seguiremos publicando (editorial conjunto europeu)


O atentado cometido em Paris na quarta-feira 7 de janeiro contra o Charlie Hebdo e o odioso assassinato de nossos colegas, ferrenhos defensores do pensamento livre, não é apenas um ataque à liberdade de imprensa e à liberdade de opinião. É além disso um ataque aos valores fundamentais de nossas sociedades democráticas europeias.

Já nos últimos meses, a liberdade de pensar e informar estava sob a mira, com a decapitação de outros jornalistas, norte-americanos, europeus e de países árabes, sequestrados e assassinados pelas mãos da organização Estado Islâmico. O terrorismo, seja qual for sua ideologia, rechaça a busca da verdade e não aceita a independência de espírito. O terrorismo islâmico, ainda mais.

Depois de negar-se a ceder às ameaças por ter publicado, há quase 10 anos, caricaturas de Maomé, o jornal Charlie Hebdo não mudou em nada sua cultura da irreverência. Com o mesmo ânimo, nós, os jornais europeus que trabalhamos juntos habitualmente dentro do grupo Europa, continuaremos dando vida aos valores de liberdade e independência que são o fundamento de nossa identidade e que todos compartilhamos. Continuaremos informando, investigando, entrevistando, editando, publicando e desenhando sobre todos os temas que nos pareçam legítimos, em um espírito de abertura, enriquecimento intelectual e debate democrático.

Devemos isso a nossos leitores. Devemos isso à memória de todos os nossos colegas assassinados. Devemos isso à Europa. Devemos isso à democracia. “Nós não somos como eles”, dizia o escritor tcheco Vaclav Havel, opositor do totalitarismo que triunfou e se tornou presidente. Essa é nossa força.

Editorial conjunto dos diários Le Monde, The Guardian, Süddeutsche Zeitung, La Stampa, Gazeta Wyborcza e El País

Conta corrente para todos na Índia


Mais de 100 milhões de pessoas já recebem benefícios sociais por meio dos bancos
O primeiro-ministro da Índia, o nacionalista hindu Narendra Modi, considera a inclusão financeira “uma prioridade nacional” para facilitar o crescimento inclusivo de um país que se desenvolve em diferentes velocidades. Em seu primeiro discurso no dia da Independência, em agosto do ano passado, lançou a estratégia Projeto do Primeiro-Ministro do Dinheiro do Povo. Seu objetivo, que todas as famílias —tanto no campo quanto nas cidades— tenham acesso a serviços financeiros dá frutos: em menos de cinco meses foram abertas mais de 100 milhões de contas correntes sob essa iniciativa.

“Se queremos eliminar a pobreza, temos que eliminar a discriminação financeira. Temos que conectar todas as pessoas com o sistema financeiro”, afirmou Modi. Agora, as grandes camadas pobres da sociedade podem abrir uma conta sem depositar uma rúpia e ter acesso a serviços como contas de banco com cartão para retirar dinheiro em caixas automáticos, créditos, transferências, seguro e pensões. Com essas contas, o Governo também poderá enviar dinheiro para outros programas destinados aos mais pobres, como bolsas de estudo. Como incentivo para a bancarização, os que abrem contas sob esse programa recebem um seguro contra acidentes e outro de vida.

Nos primeiros dias da campanha, em meados do ano passado, foram abertas 15 milhões de novas contas, volume que esta semana subiu para 103 milhões. É um número elevado em um país de 1,2 bilhão de habitantes marcado pela desigualdade e cujo acesso ao setor bancário é inferior à média mundial.

Com essa iniciativa o Governo espera que os cidadãos abandonem o costume de guardar as economias embaixo do colchão ou de outras maneiras informais, e façam depósitos nas agências. Analistas que apoiam o projeto destacam, além disso, que os mais pobres costumam depender de canais informais de crédito, como os agiotas, que frequentemente cobram juros até cinco vezes mais altos do que os bancos. Acrescentam que, com a bancarização, o dinheiro que o Governo destina aos excluídos poderá chegar de fato aos beneficiados e não se perderá no caminho.

Tática velha de militares



Dilma não está inovando ao inventar um “inimigo externo” para eludir a realidade interna. Com sinal trocado, o regime militar utilizou a mesma tática. A teoria da Segurança Nacional de Golbery dizia que os grandes inimigos do Brasil eram o movimento comunista internacional e seus agentes internos.

E na Venezuela o presidente Maduro usa a mesmíssima tática, assim como a utilizou o general Gualtieri, na Guerra das Malvinas.

Hubert Alqueres

Sob o signo da chantagem


Encenado pelos partidos da base parlamentar do governo, espetáculo mais grotesco não poderia ser programado para este mês de janeiro além da caça aos cargos de segundo escalão dos ministérios. Diante da escalação do primeiro time da equipe, o descontentamento do PMDB, PT, PP, PSD, PDT, PTB e penduricalhos acirrou em todos a ambição de alargarem outros espaços de poder, não tendo recebido os ministérios que esperavam. Utilizam a ameaça de sempre: caso não consigam o maior número possível de dirigentes das múltiplas empresas e dos departamentos encarregados de fazer funcionar a máquina governamental, irão retirar o apoio parlamentar prometido ao palácio do Planalto.

Aliás, é no segundo escalão que se localizam as melhores e mais polpudas oportunidades de abastecer os caixas dos partidos e as contas bancárias de seus líderes. Diretorias de toda espécie assemelham-se a frutas maduras prestes a ser colhidas, daí o conflito entre os partidos. Julgam-se no direito de ocupar espaços tidos como herança, assim como de avançar em territórios ocupados por seus concorrentes.

A confusão é geral, mas o pior nessa caça ao tesouro é a postura da presidente Dilma. Ela e seu núcleo palaciano mais próximo consideram a disputa normal. Suas dificuldades são apenas para contentar a todos. Como aconteceu na definição do ministério, existem feudos e capitanias hereditárias a atender, bem como novas ambições a contemplar. A administração pública fica exposta num amplo balcão de negócios onde oferta e procura celebram acordos abjetos, sem a mínima atenção à eficiência da máquina administrativa e ao melhor funcionamento do poder público.

Tudo se faz sob o signo da chantagem. Determinado banco, departamento ou empresa estatal vai para esse ou aquele partido na medida em que a nomeação assegure mais votos na Câmara ou no Senado. Senão… Senão retiram o apoio a projetos de interesse do governo, quando fevereiro chegar…

Nos tempos em que não havia sido criada a indústria automobilística, quando todo mundo andava a cavalo, de carruagem, charrete ou diligência, a sabedoria popular comparou os políticos que não se definiam a ferreiros, daqueles acostumados a dividir suas marteladas entre o cravo e a ferradura.

Setores ligados ao PT e ao governo fizeram chegar à imprensa informes sobre a presença de Eduardo Cunha na ainda não confirmada lista dos envolvidos no escândalo da Petrobras.

Logo veio a oposição, espalhando a versão de que mais de um ministro do governo Dilma integraria a relação que o procurador geral da República ainda está devendo.

A tréplica não demorou. Os jornais divulgam que o recém-eleito senador e ex-governador de Minas, Antônio Anastasia, também faz parte do grupo prestes a ser denunciado junto ao Supremo Tribunal Federal. Para evitar esse festival de suposições e de baixarias, só mesmo se Rodrigo Janot terminasse sua tarefa de denunciar quem merece ser denunciado e de livrar o pescoço de quem não merece ser degolado.

Carlos Chagas

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Liberdade


— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga (1907-1995)

Eu sou Charlie


O ataque terrorista contra a redação da revista Charlie Hebdo, em Paris, foi mais um, dos milhares que ocorrem pelo mundo, diariamente, para eliminar de vez o direito máximo do homem. É um alerta de que atentados desse ou de outros tipos também acontecem, ou são elaborados, também aqui, porque não se mata apenas pessoas para liquidar a liberdade. Também silenciar a informação, controlar a mídia, esconder em proveito próprio ou de terceiros dados de interesse público, defender a marginalidade política e pública, perseguir os críticos (até com processos) só por não pensar segundo o evangelho da estrela, calar o cidadão em seu direito de expressão, seja ele qual for, são outras formas, das muitas, de se fuzilar a liberdade. Sem ela, o homem do século XXI será mais escravo do que em outras eras, porque não mais terá chance de ao menos sonhar com a libertação: um mero apêndice dos governos com o dever de pagar impostos e o direito de ficar calado.

Palmas para a civilização


O escritor nigeriano Chinua Achebe apresentou em “O mundo se despedaça” o território africano ainda virgem de colonização, quando só o que vicejava eram os inhames na terra e as tradições das tribos. É a partir da chegada do homem branco, ocidental e civilizado, que aquele mundo vem abaixo, junto com a autoestima de um povo.

Está claro que o ocidente se expandiu, se expande em busca de soluções para suas necessidades cada vez maiores, é preciso ter conforto, é preciso consumir, parece uma investida da qual não se escapa, esta sociedade se organiza através do consumo, o que fazer com os produtos que o capital precisa vender? Olha que hambúrguer!, assista ao cinema 3D!, jogue o game da hora!, avançamos desta forma desde o século XVIII.

Com o foco na produção, a referência óbvia virou o planeta, que não manterá por muito mais tempo e novas gerações o habitat perfeito do jeito que hoje conhecemos. A gente se arma em defesa do meio-ambiente, mas não atinamos com a verdade: o planeta sobreviverá muito bem à catástrofe chamada espécie humana, já sobreviveu antes a outras, o que está em jogo é a nossa capacidade de sobrevivência nos continentes, onde as condições naturais podem ficar demasiado hostis à civilização. Lembro que este é ainda o único planeta que temos à disposição.

Mas indo além, quando saímos do conforto da sala e mergulhamos no caldeirão de culturas que é a Terra, será que o nosso jeito ocidental de viver reconhece diferenças fundamentais? Ou impõe-se através da exposição maciça de nossas qualidades via satélite, tevê, internet? Creio que é nosso costume reverberar como se não tivéssemos defeitos, projetamos nossa receita imaculada, deve ser difícil para os outros valorizar o que é tradição.

Felizmente, a globalização também tornou visível esse confronto e nossa consciência coletiva deu um salto decisivo, impor nossa cultura como remédio já não é unanimidade, tem quem ainda pense assim, mas já se encontra quem ache que as pessoas devem viver do jeito que quiserem, talvez o mais perto que puderem de suas raízes ancestrais.

Sobra pouca aventura, porque o mundo inteiro logo não será mais novidade, de onde virá o novo quando aceitarmos e se incluirmos toda a nossa população vasta e diversificada? Aprofundaremos a consciência da existência em um movimento inesperado para dentro? Ou nos lançaremos para o espaço em uma aventura sideral que só conhecerá fronteiras se descobrirmos que não estamos sozinhos?

Do modo como vivemos, se não entregarmos a espécie à extinção, parece mais provável a segunda alternativa. O futuro sonhará com a colonização de planetas, de onde retiraremos as matérias-primas necessárias para manter viva tanta vontade de conforto e tecnologia. A Terra será poupada (tomara!) e avançaremos no infinito atrás de planetas desabitados adequados à exploração. Eu disse desabitados… o que acontecerá quando nascerem humanos na Lua ou em Marte? Novas e incríveis culturas virão, forjarão tradições, autoestima, e os naturais de lá protestarão veementes quando perceberem que são os explorados da vez. “Poupem nossa Lua!”, “Marte para os marcianos!”, posso ouvir as palavras de ordem pesarem sobre nossas consciências em férias.

O filme “Apocalypto”, de Mel Gibson, surpreende com essas questões decorrentes dos males da civilização. Certamente é mais um, mas me faz lembrar que não existem bonzinhos neste jogo cínico onde se enfrentam as influências cotidianas e os modos de vida. Mesmo a selva, a natureza, para onde convergem os olhares querendo uma solução, não explica nada. Os animais são pródigos em se dividirem em violentos clãs e bandos, em disputa eterna pelos melhores territórios. Dali sobressai neste aspecto só a lei do mais adaptado. Somos melhores?

Por que então esta dor sobre o que é o certo a fazer? Esta civilização que mata e decepciona, que incorre em omissões terríveis, também convoca o ser humano a admirar a ciência e a arte. Não há duvida: estamos ferrados entre as noções de beleza e de crime. Por enquanto nós. Até quando?

Marco Antonio Martire (Transcrito de Rubem)

Paisagens Brasileiras

Tempo chuvoso em Ouro Preto, Aguilon 

Minha mãe já sabia


Em seu discurso de posse, a presidente reeleita Dilma Rousseff anunciou o lema de seu governo, Brasil, pátria educadora: "Isso significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis". O que causa admiração não é descobrir que só agora, em seu segundo mandato, a educação aparece como prioridade – mesmo porque o tema nunca interessou, de verdade, a nenhum político, nem a seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, nem, muito menos, ao tucano Fernando Henrique Cardoso. Surpreendente é a frase explicativa.

"Universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis" aponta para uma dessas duas interpretações possíveis: ou já atingimos um patamar de excelência na educação e o que precisamos é apenas garantir o ingresso do conjunto dos cidadãos nas escolas; ou devemos assegurar a admissão de todos num sistema que nos próximos quatro anos apontará para um grau de aprimoramento digno de Primeiro Mundo. Como o Brasil ocupa as últimas posições em testes de avaliação internacional de ensino – por exemplo: o Relatório de Capital Humano, formulado pelo Fórum Econômico Mundial nos coloca na em 88º lugar entre 122 países –, e como reputamos que a presidenta Dilma Rousseff é uma pessoa íntegra, podemos, sem sombra de dúvida, descartar a primeira hipótese de interpretação da frase explicativa.

Então, ainda que tarde, e ainda que descrentes, devemos analisar a frase de acordo com a segunda hipótese: iremos assistir, nos próximos 48 meses, um esforço para sanear as bases da educação brasileira, assentadas em um pântano de omissão, incompetência e desmando, para transformá-la em um oásis de eficiência, disseminação de conhecimento e preparação para a vida, que é o que todos ansiamos. Verifiquemos, pois, como a presidenta Dilma está se organizando para enfrentar esse desafio.

Não há mágica para resolver o gravíssimo problema da educação nacional, herança da mentalidade colonizadora, gananciosa, egoísta e predatória, que sobrevive em nossa elite individualista e burra. O Brasil dedica cerca de 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, percentual bem próximo daquele destinado pelos países ricos que contam com ensino de qualidade. O problema, então, não reside necessariamente no montante do dinheiro aplicado nessa área, mas em como ele é gerido.

O Ministério da Educação, encarregado de levar à frente o projeto, foi entregue ao ex-governador Cid Gomes, que divide com o irmão, Ciro, o controle da política cearense. Juntos, os Gomes garantiram a vitória acachapante de Dilma no Estado: quase 80% dos votos foram dados a ela. Cid é filiado ao Partido Republicano da Ordem Social (PROS), minúscula legenda que fez, no último pleito, um governador (o do Amazonas, José Melo) e 11 deputados federais. Não consta que ele tenha relação íntima com a pasta da qual é titular, mas, a bem da verdade, isso não tem importância, pois trata-se de um cargo político.

Mas qual o saldo da administração de Cid Gomes no Ceará? Embora tenha se tornado nacionalmente conhecido por uma declaração infeliz, ele implementou algumas políticas que impulsionaram o ensino fundamental no Estado. Em 2011, durante uma greve de trabalhadores da educação, o então governador afirmou, diante das reivindicações por melhores condições de emprego, que quem entra na vida pública – e ele estava pensando nos manifestantes – deve se sentir motivado não por questões financeiras, mas por "amor e espírito público". Como essa declaração acirrou os ânimos, os grevistas se reuniram em protesto em frente à Assembleia Legislativa, tendo sido dispersados pela Polícia Militar com cassetete, gás pimenta e gás lacrimogênio. Por outro lado, o nível do ensino fundamental no Ceará avançou – as notas subiram, nos primeiros anos, de 4,4 em 2011 para 5 em 2013, e, nos últimos anos, de 3,7 para 3,9 –, embora o desempenho no ensino médio tenha caído de 3,4 para 3,3 no mesmo período, segundo avaliação do do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Escola Básica).