Se confirmada, a derrota de Donald Trump fará bem à democracia nos Estados Unidos e no mundo. Atestará que a corrosão das instituições representativas não é a única sina dos países que se entregaram a líderes populistas. Tendo ascendido pelo voto livre, podem ser por ele dispensados antes de consumar os seus projetos autoritários.
Mas o provável resultado das eleições americanas não garante a transferência suave do governo para os democratas. E ainda que ocorra no final das contas, enfraquecerá, mas não erradicará, lideranças que, naquele país ou em qualquer outro, e não apenas nos dias que correm, se afirmam representantes do "povo verdadeiro" —o volk, no jargão nazista— em contraposição a elites cosmopolitas, surdas aos anseios das pessoas comuns. Em seu nome, os populistas agem para solapar as regras que limitam o poder dos governantes e garantem os direitos de todos, inclusive das minorias.
A Itália oferece um exemplo da força e resiliência do fenômeno. Desde que o sistema de partidos do segundo pós-Guerra, ancorado na Democracia Cristã, veio abaixo nos anos 1990, políticos populistas, ora no governo, ora na oposição, tornaram-se participantes destacados da vida política do país. Casos de Silvio Berlusconi, Giuseppe Conte, Matteo Salvini, Beppe Grillo, à frente de diferentes partidos —Força Itália, Liga Norte, Liga, Movimento 5 Estrelas— com significativa projeção eleitoral.
"O populismo é uma sombra permanente da moderna democracia representativa" diz o historiador alemão Jan Werner Müller, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Alimenta-se do que o filósofo italiano Norberto Bobbio chamou de promessas não cumpridas da democracia. Populistas exploram expectativas frustradas e variados temores, reais ou imaginários: do desemprego, da destituição, dos imigrantes, dos negros, dos pobres, dos esquerdistas ateus. E se beneficiam da exposição às feias engrenagens da política por parte de um público mais informado.
O fato é que, já há algumas décadas, a desconfiança dos cidadãos em face de partidos, parlamentos e governos só faz crescer em todo o mundo democrático. No Brasil, a propósito, é assustadoramente elevada. Cidadãos insatisfeitos e desconfiados são mais sensíveis a políticos, tanto faz se de direita ou de esquerda, para os quais a vitória eleitoral é só o que conta, não passando de um estorvo os mecanismos de controle do poder típicos do sistema representativo.
Ganhando ou perdendo eleições, o populismo está aí para ficar. Mas fará toda a diferença para a democracia sempre que for batido nas urnas.
Maria Hermínia Tavares
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Vitória do caos
O mundo está testemunhando a decomposição de um Estado que, dissessem o que dissessem os detratores, mantinha pelo menos a aparência de ser civilizado. A polarização aguda realçou todos os defeitos do modelo —da multiplicidade de regras entre os estados ao colégio eleitoral.A apuração dos votos será lenta. Mas já é possível proclamar o grande vencedor da disputa presidencial americana. Nem Biden nem Trump. Prevaleceu o caos. A democracia dos Estados Unidos sai do processo eleitoral mais doente do que entrou.
Tempos sombrios
São inquietantes as notícias que chegam no início de novembro desta inacabável e insidiosa pandemia: as eleições norte-americanas podem consolidar tendência recente de renúncia à cooperação internacional e estimular o populismo e o desrespeito às regras democráticas; já é certo que os Estados Unidos estão profundamente divididos, em um clima que pode evoluir para confrontos violentos, e têm um bizarro sistema eleitoral, mormente se comparado ao moderno sistema brasileiro; a Europa está sofrendo com a segunda onda da Covid-19 e atentados terroristas motivados por intolerância religiosa; inexiste perspectiva concreta para distribuição, em curto prazo, de vacina contra a doença que está infelicitando a humanidade, especialmente nos países pobres.
Não se conseguiu promover um debate consistente sobre esses temas e outros associados à crise sanitária, ao contrário do que está sendo feito em muitos países.
Na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern lembra que seu vitorioso enfrentamento da pandemia é fundado na firmeza e na antecedência.
O Congresso sequer conseguiu aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias e instalar a Comissão Mista para tratar do orçamento de 2021.
Algumas iniciativas parlamentares para mitigar os rigores da crise ainda não lograram prosperar, como o projeto de lei nº 3566/2020 apresentado pelo Deputado André de Paula, na Câmara dos Deputados, tratando da indispensável moratória tributária para as micro e pequenas empresas e o projeto de lei nº 578/2019 apresentado pelo Senador Álvaro Dias, no Senado, que propicia a conversão da bolsa família em emprego, sem custo fiscal.
Em lugar disso, persiste a pretensão de aprovar uma ampla reforma tributária, com severos impactos sobre preços, setores e entes federativos, com base em reuniões por videoconferência, apresentações em powerpoint e divulgação de exercícios econométricos que pretendem projetar um futuro longínquo a partir de suposições precárias.
Aqui, insistimos com polêmicas infantilizadas ou incompreensíveis, como a obrigatoriedade ou não de aplicação de uma vacina que, infelizmente, ainda não está disponível. As redes sociais são utilizadas por autoridades, de forma banal, para emitir bisonhos comentários sobre fatos corriqueiros ou proferir xingamentos a adversários do dia. As eleições municipais são um tedioso espetáculo de promessas inviáveis e de disputas por rendosos cargos políticos. Definitivamente, não estamos bem.
Parece que ninguém está levando a sério o aumento do desemprego e da pobreza, a crise fiscal dos Estados e Municípios, a insolvência de empresas, a instabilidade do câmbio, as ameaças inflacionárias, a necessidade de proteção para os vulneráveis, a possibilidade de uma segunda onda da pandemia.
Não se conseguiu promover um debate consistente sobre esses temas e outros associados à crise sanitária, ao contrário do que está sendo feito em muitos países.
Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel, com a serenidade habitual, adverte que o inverno será duro e difícil, e pede aos compatriotas que assumam conduta solidária e empática.
Na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern lembra que seu vitorioso enfrentamento da pandemia é fundado na firmeza e na antecedência.
O Congresso sequer conseguiu aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias e instalar a Comissão Mista para tratar do orçamento de 2021.
Algumas iniciativas parlamentares para mitigar os rigores da crise ainda não lograram prosperar, como o projeto de lei nº 3566/2020 apresentado pelo Deputado André de Paula, na Câmara dos Deputados, tratando da indispensável moratória tributária para as micro e pequenas empresas e o projeto de lei nº 578/2019 apresentado pelo Senador Álvaro Dias, no Senado, que propicia a conversão da bolsa família em emprego, sem custo fiscal.
É indispensável que sejam apresentadas mais iniciativas voltadas para arrostar a crise, especialmente por parte do Executivo.
Em lugar disso, persiste a pretensão de aprovar uma ampla reforma tributária, com severos impactos sobre preços, setores e entes federativos, com base em reuniões por videoconferência, apresentações em powerpoint e divulgação de exercícios econométricos que pretendem projetar um futuro longínquo a partir de suposições precárias.
Quando se retira o véu das agendas ocultas, percebe-se que se pretende, por exemplo, reduzir a carga tributária de geladeiras e automóveis de luxo para aumentar a de livros, mensalidades escolares e consultas médicas, em nome de uma enganosa e regressiva alíquota única.
A existência de um número grande de alíquotas efetivas no ICMS não pode ser pretexto para instituição de uma alíquota única. Vedação à implantação de regimes especiais e à redução de base de cálculo já representaria uma enorme simplificação.
Debates sobre as propostas estão interditados, limitando-se a exposições formais de representantes setoriais, ouvidas com a indiferença de um frade de pedra. Negociações, quando existem, são operadas em ambiente privado, traduzindo uma peculiar forma de privatização da reforma tributária.
O Estado não pode demitir de si a responsabilidade de conduzir reformas de tal envergadura, em que se exigem imparcialidade e prevalência do interesse público.
O nosso dever face à pandemia
Testar, identificar e isolar. Se queremos mesmo combater a pandemia, é nessas três ações que precisamos de nos concentrar. O foco tem de estar na prevenção, na interrupção imediata das cadeias de contágio, na criação de um sentimento coletivo que demonstre como todos somos importantes e temos um papel a desempenhar nesta tarefa. Pensar que tudo se resolve com mais camas nos hospitais, com mais ventiladores, com mais médicos e enfermeiros é estar sempre a correr atrás do prejuízo (mesmo que isso seja necessário em situações de emergência, porque falhou tudo o resto). E se é verdade que em Portugal temos uma boa capacidade de testagem, ainda nos falta o resto: identificar rapidamente todos os contactos em risco e isolá-los o mais depressa possível, com informação precisa e eficaz.
Se já pensava que esta era a melhor forma de combater a pandemia – até porque foi assim que países como a Coreia do Sul e Taiwan conseguiram quebrar as redes de contágio, sem precisarem de obrigar as suas populações a confinamentos totais –, a minha experiência das últimas semanas mais não fez do que reforçar essa convicção. Descrevo-a, de forma cronológica, com o menor número de palavras que consigo e apelando à paciência e compreensão do leitor.
Se já pensava que esta era a melhor forma de combater a pandemia – até porque foi assim que países como a Coreia do Sul e Taiwan conseguiram quebrar as redes de contágio, sem precisarem de obrigar as suas populações a confinamentos totais –, a minha experiência das últimas semanas mais não fez do que reforçar essa convicção. Descrevo-a, de forma cronológica, com o menor número de palavras que consigo e apelando à paciência e compreensão do leitor.
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| Osama Hajjaj |
No sábado, 24 de outubro, ao sair de casa para ir participar na abertura da VISÃO Fest, um evento público com a presença de 30 oradores de alto nível, recebi a mensagem de que, uma semana antes, tinha estado, durante várias horas numa viagem de carro, com alguém que acabara de descobrir que se encontrava infetado com o SARS-CoV-2. Liguei logo para a linha SNS24, a contar o sucedido. Informaram-me de que devia isolar-me e que iriam enviar-me, em pouco tempo, a prescrição para fazer o teste. Ato imediato: dei meia-volta, deixando a Mafalda Anjos quase sozinha na tarefa de receber os nossos convidados, e entrei em isolamento – embora pudesse ser apenas um falso alarme, não podia, em circunstância alguma, correr o risco de ser o superspreader de um evento pelo qual passaram, entre outros, o primeiro-ministro e a diretora-geral da Saúde. Fiz o teste nessa mesma tarde e recebi o resultado cerca de 44 horas depois: positivo. Nas horas seguintes, liguei a todas as pessoas com quem me lembrava de ter estado, a pouca distância, nas últimas duas semanas. Um dia depois de receber o resultado do teste, foi-me enviado o código para instalar na aplicação StayAway Covid. Estranhamente, mal o introduzi, a app desligou-se, com um agradecimento, partindo do princípio de que somos todos obedientes e respeitamos o isolamento – o que não está provado, infelizmente. Dois dias depois de saber que estava infetado, recebi a chamada de rastreio. Todos os contactos que forneci eram de pessoas que já estavam em isolamento profilático – algumas até com testes feitos, todos negativos! –, porque as tinha avisado da minha condição.
Escrevo isto, no meu décimo dia de isolamento, não por me achar especial – há, de certeza, todos os dias, milhares de portugueses com experiências semelhantes –, mas para ilustrar como o nosso papel, enquanto cidadãos, é absolutamente crucial no combate à Covid-19. Como se observa pelo meu relato, o sistema assenta, quase em absoluto, na colaboração voluntária dos cidadãos. Parte do princípio de que todos nós cumprimos as normas e as recomendações que nos transmitem. Mas se não as seguirmos, temos de ter consciência de que seremos também responsáveis pelo caos que pode instalar-se nos hospitais.
Não há sistema de saúde capaz de resistir à pandemia sem que os cidadãos façam parte da solução. No fundo, basta cumprir, aliás, aquilo que está inscrito no primeiro parágrafo do artigo 64º da Constituição: “Todos têm direito à proteção da saúde e o dever de a defender e promover.” Se o fizermos, podemos passar, individualmente, alguns dias em casa – mas estaremos a evitar que vamos todos, ao mesmo tempo, para casa. Depende de nós!
Escrevo isto, no meu décimo dia de isolamento, não por me achar especial – há, de certeza, todos os dias, milhares de portugueses com experiências semelhantes –, mas para ilustrar como o nosso papel, enquanto cidadãos, é absolutamente crucial no combate à Covid-19. Como se observa pelo meu relato, o sistema assenta, quase em absoluto, na colaboração voluntária dos cidadãos. Parte do princípio de que todos nós cumprimos as normas e as recomendações que nos transmitem. Mas se não as seguirmos, temos de ter consciência de que seremos também responsáveis pelo caos que pode instalar-se nos hospitais.
Não há sistema de saúde capaz de resistir à pandemia sem que os cidadãos façam parte da solução. No fundo, basta cumprir, aliás, aquilo que está inscrito no primeiro parágrafo do artigo 64º da Constituição: “Todos têm direito à proteção da saúde e o dever de a defender e promover.” Se o fizermos, podemos passar, individualmente, alguns dias em casa – mas estaremos a evitar que vamos todos, ao mesmo tempo, para casa. Depende de nós!
Tudo é político
Ouvi essa expressão quando entrei na faculdade de filosofia (feita para moças e veados, tal era o estigma, conforme algumas pessoas disseram, encorajando-me) para me bacharelar em História, e ser um merda de um professor, conforme vaticinou um médico que queria namorar a minha namorada. Estávamos nos acabados anos 50.
Foi de professores dedicados que ouvi o axioma: “Tudo é político”. E a vida também é política? Ou haveria, além da religião, da filosofia e da coragem de honrar o Humano, uma política para o sofrimento, o inesperado e a morte?
Fiquei aturdido com essa tonelagem que meus jovens ombros recebiam quando descobri a responsabilidade de ser um protagonista no futuro do Brasil. A descoberta da política como um modo de reler a minha existência na qual um copo d’água ou um beijo seriam um ato político, reitero, assustou-me.
Foi de professores dedicados que ouvi o axioma: “Tudo é político”. E a vida também é política? Ou haveria, além da religião, da filosofia e da coragem de honrar o Humano, uma política para o sofrimento, o inesperado e a morte?
Fiquei aturdido com essa tonelagem que meus jovens ombros recebiam quando descobri a responsabilidade de ser um protagonista no futuro do Brasil. A descoberta da política como um modo de reler a minha existência na qual um copo d’água ou um beijo seriam um ato político, reitero, assustou-me.
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| Nahid Zamani |
Primeiro, porque passava de objeto a sujeito. Depois, porque eu percebia que a maior parte das pessoas não se dava conta de sua importância num mundo que ficava cada vez maior e menor. Quando descobri a fórmula, virei o que chamávamos de “conscientizado” por oposição aos “alienados”. Aqueles que simplesmente viviam sem ter o menor vislumbre de suas qualidades ou motivação para ir além de suas rotinas.
Um jovem a enxergar prisões em todo lugar e eu logo vi a religião como uma delas. Depois, no auge da minha jornada, classifiquei tudo e todos como “alienados”. Seria não político o amor familiar? Gostar de filmes americanos? Ler Joaquim Nabuco? Como ser igualitário com crianças a serem nutridas e disciplinadas? Seria possível escapar de um permanente debate e destino político?
Virei noite falando disso com meus amigos. O casamento, a paternidade e a vida profissional sem privilégios de família foram definitivos para uma parada meditativa. Sem dúvida, tudo era político. Sobretudo, era claro, para os políticos e os filhos, compadres, companheiros e amigos dos políticos. A antropologia social relativizou-me antes do livro que escrevi – Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social.
Não seria mais sensato dizer que a política é uma parte importante da vida? Não seria mais inteligente descobrir que alienados e conscientizados trocam de lugar? Se todos são alienados, como queria o Simão Bacamarte da história de Machado de Assis, não seríamos nós os conscientemente alienados, conforme repetia papai aceitando sereno a minha postura revolucionária sustentada por ele – o alienado maior?
Tempos depois, vi com nojo e decepção como o axioma de que tudo é política desembocava num outro pressuposto: o de que tudo era poder e exercer o poder em nome dos oprimidos permitia ir além de todos os limites. Também tenho vivido a oportunidade de reconstruir um outro lado – o lado de uma direita sempre envergonhada e estigmatizada, bem como alienada – jogado no lixo pela ignorância e pelo mesmo protagonismo dos condenáveis laços de família. Esses hóspedes não convidados segundo analistas políticos brasileiros.
Assim tem sido meu aprendizado do tudo é mesmo política.
E assim sendo, nada se pode fazer para inibir uma moralidade nacional na qual as obrigações devidas aos compadres, companheiros e parentes (sobretudo aos filhos) são uma forma silenciosa de fazer política. Ela, de fato e de direito, engloba o chamado “político”, tirando-o de sua impessoalidade – essa dimensão crítica numa democracia é concretizada pelo voto secreto. Pois o segredo e o impessoal contêm a semente da intimidade – esse avatar da liberdade igualitária.
Vida e morte ancoram a existência. Morre o ator Sean Connery, que encarnava na ficção do cinema a idealização mítica de um agente secreto estilo Pelé em luta contra o mal. Um mal sempre atenuado nas aventuras de James Bond (o simbólico Ligador) por romances sensuais machistas, porém sedutores. Quem não queria ser o 007 ou a namorada dele?
Morto o ator, fica – eis o segredo dos mitos – o personagem na sua representação imortal a indicar que, pelo menos no cinema, o bem vence o mal.
Coisa cada vez mais complicada de acreditar neste mundo globalizado e, sobretudo, neste Brasil no qual as “fake news”, esses veículos de calúnia e mentira, são levadas a sério ao lado da burrice como política, conforme revela a questão das vacinas contra a pandemia.
– Papai, disse um amado filho para um pai idoso, afinal o 007 morreu bem. Noventa anos é um bocado de vida.
– É muito para quem tem 50, 60 ou 70 anos. Mas para mim, com 84, os 90 são um muro, tipo fronteira. Seriam mais seis curtos anos e depois...
Um jovem a enxergar prisões em todo lugar e eu logo vi a religião como uma delas. Depois, no auge da minha jornada, classifiquei tudo e todos como “alienados”. Seria não político o amor familiar? Gostar de filmes americanos? Ler Joaquim Nabuco? Como ser igualitário com crianças a serem nutridas e disciplinadas? Seria possível escapar de um permanente debate e destino político?
Virei noite falando disso com meus amigos. O casamento, a paternidade e a vida profissional sem privilégios de família foram definitivos para uma parada meditativa. Sem dúvida, tudo era político. Sobretudo, era claro, para os políticos e os filhos, compadres, companheiros e amigos dos políticos. A antropologia social relativizou-me antes do livro que escrevi – Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social.
Não seria mais sensato dizer que a política é uma parte importante da vida? Não seria mais inteligente descobrir que alienados e conscientizados trocam de lugar? Se todos são alienados, como queria o Simão Bacamarte da história de Machado de Assis, não seríamos nós os conscientemente alienados, conforme repetia papai aceitando sereno a minha postura revolucionária sustentada por ele – o alienado maior?
Tempos depois, vi com nojo e decepção como o axioma de que tudo é política desembocava num outro pressuposto: o de que tudo era poder e exercer o poder em nome dos oprimidos permitia ir além de todos os limites. Também tenho vivido a oportunidade de reconstruir um outro lado – o lado de uma direita sempre envergonhada e estigmatizada, bem como alienada – jogado no lixo pela ignorância e pelo mesmo protagonismo dos condenáveis laços de família. Esses hóspedes não convidados segundo analistas políticos brasileiros.
Assim tem sido meu aprendizado do tudo é mesmo política.
E assim sendo, nada se pode fazer para inibir uma moralidade nacional na qual as obrigações devidas aos compadres, companheiros e parentes (sobretudo aos filhos) são uma forma silenciosa de fazer política. Ela, de fato e de direito, engloba o chamado “político”, tirando-o de sua impessoalidade – essa dimensão crítica numa democracia é concretizada pelo voto secreto. Pois o segredo e o impessoal contêm a semente da intimidade – esse avatar da liberdade igualitária.
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Assisti feliz às comemorações dos 80 anos de Pelé – um dos maiores personagens positivos da vida brasileira. Nada roubou, a ninguém enganou com seu extraordinário talento e o peso do negrume glorioso de sua pele. Vida e morte ancoram a existência. Morre o ator Sean Connery, que encarnava na ficção do cinema a idealização mítica de um agente secreto estilo Pelé em luta contra o mal. Um mal sempre atenuado nas aventuras de James Bond (o simbólico Ligador) por romances sensuais machistas, porém sedutores. Quem não queria ser o 007 ou a namorada dele?
Morto o ator, fica – eis o segredo dos mitos – o personagem na sua representação imortal a indicar que, pelo menos no cinema, o bem vence o mal.
Coisa cada vez mais complicada de acreditar neste mundo globalizado e, sobretudo, neste Brasil no qual as “fake news”, esses veículos de calúnia e mentira, são levadas a sério ao lado da burrice como política, conforme revela a questão das vacinas contra a pandemia.
– Papai, disse um amado filho para um pai idoso, afinal o 007 morreu bem. Noventa anos é um bocado de vida.
– É muito para quem tem 50, 60 ou 70 anos. Mas para mim, com 84, os 90 são um muro, tipo fronteira. Seriam mais seis curtos anos e depois...
O que aprender com a eleição americana
Adiantou ou não, é outra história. Mas Joe Biden e o Partido Democrata acertaram ao pôr em julgamento no processo eleitoral americano o caráter de Donald Trump. Aqui, em 2022, esse poderá ser um dos trunfos da oposição contra Jair Bolsonaro, além dos certamente pobres resultados de sua administração.
O caráter – ou a falta dele – de Bolsonaro é tão ou mais vulnerável do que o de seu ídolo que parece ter escapado do pior. E se a economia foi bem nos Estados Unidos até a pandemia do Covid-19, no Brasil ela chegará mal daqui a dois anos. Cadê as prometidas reformas do Estado? O desemprego ainda será grande.
O cenário não é nada bom para ele. O ministro Paulo Guedes, da Economia, em conflito cada vez mais acirrado com seus colegas, disse outro dia que precisava fazer muita besteira para que o dólar batesse até o fim do ano a casa dos 7 reais. Já bateu a casa dos 6. Investimentos externos escasseiam.
O caráter – ou a falta dele – de Bolsonaro é tão ou mais vulnerável do que o de seu ídolo que parece ter escapado do pior. E se a economia foi bem nos Estados Unidos até a pandemia do Covid-19, no Brasil ela chegará mal daqui a dois anos. Cadê as prometidas reformas do Estado? O desemprego ainda será grande.
Bolsonaro está assustado com o que se passa em países vizinhos do nosso. Ele acha que o continente começa a adernar para a esquerda sob os efeitos da recente eleição na Bolívia e do plebiscito no Chile. Sabe que não terá dinheiro para manter os programas assistencialistas que ancoram sua popularidade.
O cenário não é nada bom para ele. O ministro Paulo Guedes, da Economia, em conflito cada vez mais acirrado com seus colegas, disse outro dia que precisava fazer muita besteira para que o dólar batesse até o fim do ano a casa dos 7 reais. Já bateu a casa dos 6. Investimentos externos escasseiam.
E parte dos eleitores que em 2018 votaram em Bolsonaro, principalmente os de maior renda e escolaridade, começa a dar-lhe as costas, insatisfeito. O governo é uma tremenda confusão. Nem uma vitória de Trump será capaz de salvá-lo. O Mito simplesmente corre o risco de deixar de sê-lo.
'2016 não foi um acidente'
Giuseppe Maggiore
Trump não é um fenômeno passageiro. Não podemos achar que 2016 foi um acidente, um “erro” de 2016.
Este é um país dividido em dois e isso mostra que o Trumpismo é muito forte e que, mesmo se perder a Casa Branca, seguirá muito forte.
Este é um país que tem um setor muito progressista e de esquerda, mas o centro do país é muito conservador e esta eleição é o sinal de que grande parte dos americanos não suporta a ideia de um governo paternalista, que diga o que eles podem ou não fazer, mesmo em um momento de epidemia
Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue
O estadista e a assombração
O discurso de Joe Biden ontem à noite foi uma serena declaração de vitória, mesmo que ele tenha negado já ter vencido a eleição. Precisava confirmar seu lema de que “todo voto será contado”. Agiu e falou como um estadista tentando reunir o país após a eleição. No mesmo momento, o presidente Donald Trump queria parar a contagem dos votos. Trump continuará sendo forte após a derrota na eleição? Não. O que lhe deu força nos últimos quatro anos foi o extraordinário poder da presidência americana. Fora dela, será apenas o ex-presidente. Mas o país que sai das urnas está com fratura exposta, o que exigirá de Biden um enorme esforço para superar tão funda ferida.
O primeiro sinal de fraqueza foi dado por Trump quando cantou vitória na madrugada de quarta-feira, mas ameaçando ir à Suprema Corte, já falando em fraude. Era o seu melhor momento da apuração e Trump ameaçava. Deixou claro que na aparente calma com que falava e se declarava vitorioso, com tanto ainda a ser apurado, estava mais uma vez usando a estratégia de criar confusão. No final do dia de ontem ele exigia a recontagem dos votos em Wisconsin, uma tropa trumpista tumultuava um centro de apuração em Detroit, e ele falou em ir à Suprema Corte para parar de contar votos.
Confirmou-se desde o começo da apuração o cenário de um país dividido, em que uma parte do eleitorado é estimulada a não confiar nas regras do jogo, e no qual a eleição é decidida por pouco. O aumento da participação popular no processo eleitoral não trouxe a moderação, mas sim mostrou a profundidade da divisão do país. Na sociedade, isso indica conflitos e violência, e no sistema político, impasse e paralisia.
Para a economia é um cenário difícil. A recessão reduziu de intensidade no terceiro trimestre, mas os Estados Unidos ainda não recuperaram o que perderam. Como todos os países do mundo. A segunda onda da pandemia aprofundará a crise. A vitória de Biden fará com que nos próximos dois meses e meio um presidente lame duck (pato manco), que sempre negou a gravidade da pandemia, esteja ainda no comando do aparato governamental. O Congresso terá que encontrar caminhos para negociar o pacote de ajuda com o Congresso. E ontem até o líder trumpista no Senado, Mitch McConnell, disse que mais estímulos serão aprovados este ano.
Há problemas por todos os lados na sociedade americana, ela sai politraumatizada deste período de uma presidência conflituosa e que quebrou todos os protocolos. As velhas divisões raciais se somaram a uma radicalização religiosa e moralista. Donald Trump, como suas cópias no mundo, é pessoa totalmente distante dos valores de família e de religião que ele manipula. Também é apenas estratégia apostar na anticiência, nos delírios persecutórios, nas teorias da conspiração. Mas com isso ele conseguiu uma legião de eleitores. Suficiente para alimentar o discurso de descrédito das instituições, mas insuficiente para mantê-lo na Casa Branca.
Esses têm sido tempos de enorme desafio para a democracia, tempos que assombraram os corações das pessoas que sabem o que os extremistas de direita já fizeram contra a humanidade. No segundo mandato Trump iria escalar o trabalho de demolição da democracia americana. Ouvir palavras serenas de Joe Biden falando o que se espera de um vencedor, que se proponha a governar para todos, afastando a divisão entre estados azuis e vermelhos, é tranquilizador. “Foi uma campanha difícil, mas mais difícil para o país. É hora de baixar a temperatura, de ouvir um ao outro, de enxergar o outro, de respeitar e cuidar um do outro novamente. Unir, sarar e ficar juntos como uma Nação”, disse Biden. A realidade ainda trará as dificuldades e dores do tempo presente. Mas é esperança o que está diante de nós.
O partido Republicano terá que fazer algum tipo de transição para uma liderança mais moderada para voltar a se comunicar com uma parte do eleitorado. Até por instinto de sobrevivência, precisará se afastar de Trump, o líder tóxico. O partido Democrata, mesmo vencendo a eleição, precisará de muita habilidade para governar. Primeiro, para costurar as diferenças das tendências internas, depois para governar sem o controle do Senado, e por fim, e mais importante, para reduzir a extrema tensão que dominou o país nos últimos anos.
O primeiro sinal de fraqueza foi dado por Trump quando cantou vitória na madrugada de quarta-feira, mas ameaçando ir à Suprema Corte, já falando em fraude. Era o seu melhor momento da apuração e Trump ameaçava. Deixou claro que na aparente calma com que falava e se declarava vitorioso, com tanto ainda a ser apurado, estava mais uma vez usando a estratégia de criar confusão. No final do dia de ontem ele exigia a recontagem dos votos em Wisconsin, uma tropa trumpista tumultuava um centro de apuração em Detroit, e ele falou em ir à Suprema Corte para parar de contar votos.
Confirmou-se desde o começo da apuração o cenário de um país dividido, em que uma parte do eleitorado é estimulada a não confiar nas regras do jogo, e no qual a eleição é decidida por pouco. O aumento da participação popular no processo eleitoral não trouxe a moderação, mas sim mostrou a profundidade da divisão do país. Na sociedade, isso indica conflitos e violência, e no sistema político, impasse e paralisia.
Para a economia é um cenário difícil. A recessão reduziu de intensidade no terceiro trimestre, mas os Estados Unidos ainda não recuperaram o que perderam. Como todos os países do mundo. A segunda onda da pandemia aprofundará a crise. A vitória de Biden fará com que nos próximos dois meses e meio um presidente lame duck (pato manco), que sempre negou a gravidade da pandemia, esteja ainda no comando do aparato governamental. O Congresso terá que encontrar caminhos para negociar o pacote de ajuda com o Congresso. E ontem até o líder trumpista no Senado, Mitch McConnell, disse que mais estímulos serão aprovados este ano.
Há problemas por todos os lados na sociedade americana, ela sai politraumatizada deste período de uma presidência conflituosa e que quebrou todos os protocolos. As velhas divisões raciais se somaram a uma radicalização religiosa e moralista. Donald Trump, como suas cópias no mundo, é pessoa totalmente distante dos valores de família e de religião que ele manipula. Também é apenas estratégia apostar na anticiência, nos delírios persecutórios, nas teorias da conspiração. Mas com isso ele conseguiu uma legião de eleitores. Suficiente para alimentar o discurso de descrédito das instituições, mas insuficiente para mantê-lo na Casa Branca.
Esses têm sido tempos de enorme desafio para a democracia, tempos que assombraram os corações das pessoas que sabem o que os extremistas de direita já fizeram contra a humanidade. No segundo mandato Trump iria escalar o trabalho de demolição da democracia americana. Ouvir palavras serenas de Joe Biden falando o que se espera de um vencedor, que se proponha a governar para todos, afastando a divisão entre estados azuis e vermelhos, é tranquilizador. “Foi uma campanha difícil, mas mais difícil para o país. É hora de baixar a temperatura, de ouvir um ao outro, de enxergar o outro, de respeitar e cuidar um do outro novamente. Unir, sarar e ficar juntos como uma Nação”, disse Biden. A realidade ainda trará as dificuldades e dores do tempo presente. Mas é esperança o que está diante de nós.
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Estupro culposo: 'O que é isso?'
Eu gostaria de viver em um mundo onde mulheres e meninas não fossem estupradas. Queria que a palavra estupro sequer existisse. Infelizmente, não é assim. A cada oito minutos no Brasil, uma mulher ou menina é estuprada. Se as vítimas não pronunciam a palavra “estupro” em hospitais ou tribunais é porque o medo da perseguição as emudece. E, não sem razão, nos mostrou a cena de interrogatório em que Mariana Ferrer é uma vítima de estupro confrontada em um tribunal de homens. O réu, acusado da violência sexual, é o empresário André de Camargo Aranha.
A cena é um extrato do que aconteceria entre portas nos tribunais. Com as audiências virtuais, vítima, algoz, promotor, juiz e advogado estão em um mesmo quadro. E as imagens nos fazem testemunhas do que antes seria descrito como um lamento das vítimas sobre os maus tratos do Judiciário. No extrato que assisti, até mesmo sua posição na tela é de desamparo—a única mulher, abaixo de quatro homens. Um deles a interpela com a voz do patriarca que tem o poder de mando absoluto: exibe fotos, descreve suas poses e posições como “ginecológicas”, altera a voz e a repreende nas lágrimas. Descreve sua angústia como “choro dissimulado, falso e essa lábia de crocodilo”, insinua ser Mariana uma mulher vulgar. Ele é o advogado do acusado.
Mariana implora ao representante máximo da decência—ou do justo, se quiserem—na cena: “Eu estou implorando, Excelentíssimo”, diz ela, “eu estou implorando por respeito”.
O juiz pergunta se Mariana quer beber água para se recompor. O que fez o juiz imaginar que a vítima tinha sede? Talvez, um trejeito dos homens que ignoram a verdadeira dor de quem sofre.
Os quatro homens da cena são matéria idêntica em confronto àquela mulher tão jovem: eles estão ali para proteger o algoz, mas também em aliança silenciosa com outros homens. São homens de poder e mando, brancos no corpo e embranquecidos nos valores, com direito à voz de mando e a quem a espoliação dos corpos das mulheres e das meninas se fez como regra naturalizada da vida.
Ao que se sabe, e aqui repito as evidências transcritas em reportagens sobre o caso, há evidências de materialidade de estupro, algumas delas até mesmo inoportunas, como o fato de Mariana ser virgem (laudo pericial indica que o hímen foi rompido na ocasião). Importa repetir que a verdade da vítima se submeteu aos testes de veridição da polícia e do Judiciário —mas nem assim aqueles homens aquietaram-se diante da dor da vítima.
Era preciso aniquilá-la em qualquer tentativa de atestar a culpa de um dos homens tão parecidos a qualquer um deles presente à cena. Houve uma divisão de tarefas, talvez silenciosa, mas tácita entre eles. É assim que se atualiza o patriarcado. Ao advogado coube a brutalidade da agressão verbal; ao algoz, o silêncio foi oportuno a um rosto escondido pela máscara. O promotor e o juiz foram os arquitetos do conluio de “estupro culposo”. Há palavras que não se reinventam.
Esse é o caso de estupro. Para os que têm dúvidas, explico: estupro é um crime de violência sexual. Em geral, de homens contra mulheres, meninas ou crianças. A vítima dos homens é sempre uma pessoa vulnerável, seja porque tem medo, porque é dependente ou porque se encontra em situação fragilizada. Não há “estupro culposo”, um neologismo de homens no poder que se arvoram inaugurar palavras e interpretações jurídicas para proteger outros iguais a si mesmos.
Na fantasia patriarcal, o estupro seria “culposo” quando o agressor não teria a intenção de violentar sexualmente sua vítima ou quando ignoraria a vulnerabilidade da vítima. Para o promotor, o algoz estuprou a vítima, mas foi incapaz de discernir que ela não consentiu. Descreveu a violência como “estupro culposo”, tese que o juiz acolheu para inocentar o acusado por “falta de provas”.
Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, descreveu as cenas do interrogatório como “estarrecedoras”, extratos de “tortura e humilhação”. Mariana expressou seu estarrecimento, se dirigindo ao juiz e perguntando “o que é isso?”.
Ela estava atordoada pelo espetáculo de violência naturalizada pelos representantes do poder. É como se ela sentisse que algo de muito equivocado estivesse em curso na cena. Em uma retórica desesperada das vítimas comparou-se a outros ainda mais miseráveis expostos ao poder: “nem os acusados são tratados do jeito que estou sendo tratada, pelo amor de Deus”, disse ela.
Tristemente, Mariana estava errada — ela era, sim, a acusada para aquele tribunal de homens. Como ousava nomear um deles de estupro, ainda mais publicamente? Sua ousadia seria silenciada pela sentença de inocência do algoz sob a chancela de “estupro culposo”.
Tudo mudou para sempre
O mundo em geral, e a América em particular, estão em crise. Temos o grande problema verdadeiro que todos devemos enfrentar, que é a mudança climática. Está chegando rápido. É como um asteroide tremendo que vem do espaço e vai destruir grande parte da Terra. Se não agirmos já, será tarde demais. E o sofrimento nas gerações vindouras será espantoso. Já vemos os primeiros sinais neste país, os piores incêndios e os piores furacões que tivemos em nossa história. E é só o começo. Vai implicar uma nova forma de vida. As pessoas se irritam por usar máscaras na pandemia, imagine os tipos de mudanças que teremos que fazer para reduzir as emissões. Depois há o sistema capitalista norte-americano, que criou uma sociedade tão injusta e tão favorável aos ricos que, a não ser que essas questões sejam abordadas, o país continuará piorandoPaul Auster
Ler importa!
Foi preciso um policial branco asfixiar um negro, para o mundo despertar para o lema “vidas negras importam”. O grito de “não consigo respirar” ecoou em todas as partes. Pena que um analfabeto não grite o mesmo e de seu grito surja um movimento com o lema: “ler importa”. As pessoas não percebem que o analfabeto não respira plenamente, uma vez que, além de comida e oxigênio, o ser humano se alimenta de conhecimento e estes chegam, sobretudo, pela leitura.
A falta de leitura asfixia pessoas e sociedade. Lutar contra o racismo exige luta contra o analfabetismo. Até porque 10 dos nossos 12 milhões de analfabetos são descendentes de escravos. Fala-se que “vidas negras importam” esquecendo-se que a falta de importância às vidas negras decorre em parte do abandono escolar a que os jovens negros são condenados, por serem pobres. O racismo produz analfabetismo entre os negros deixados sem escola, e acirra o racismo estrutural na sociedade.
Ao lado dos esqueletos sociais da escravidão, o analfabetismo é o berço do preconceito, a causa maior da exclusão social e do racismo. A luta contra o racismo conseguiu fazer com que os negros brasileiros já não se sintam inferiores aos brancos, como ocorria até recentemente, mas negros ou brancos sentem-se inferiores quando são analfabetos. Apesar disso, os que, corretamente, lutam contra o racismo com leis que criminalizam este comportamento, não lutam contra o analfabetismo que produz o racismo. Até lutam para que um pequeno número de negros entre na universidade, mas não para que todos os negros saiam do analfabetismo.
“Ler importa” não se refere apenas à chaga do analfabetismo total, mas também à necessidade de abolir o analfabetismo funcional que atinge quase 100 milhões de brasileiros. “Ler importa” não apenas para decifrar o que uma combinação de letras quer dizer em uma palavra, mas também para saber o que as palavras querem dizer combinadas entre elas em textos longos, em livros de literatura e de filosofia. “Ler importa” não apenas para decifrar as letras na bandeira do Brasil, mas também como aquelas palavras chegaram ali, identificar a base filosófica delas, por que os republicanos as escreveram logo depois da proclamação da República - e até hoje, 131 anos depois, ainda não entendemos que “ler importa”.
Apesar de todos os nossos avanços sociais e econômicos, temos em 2020 duas vezes mais adultos analfabetos do que em 1889. Não percebemos que a liberdade de expressão deve significar mais do que liberdade para alguns escreverem o que pensam, mas também a possibilidade de todos lerem o que está escrito. Por mais liberdade que tenha, não é livre a imprensa em um país com 12 milhões de adultos analfabetos plenos e 100 milhões de analfabetos funcionais.
“Ler importa” para todos e para ler tudo.
Recentemente, a proposta de aumentar impostos sobre livros foi rejeitada pelos que compram livros, mas eles não se mobilizaram para que todos pudessem ler; não houve luta contra o imposto infinito que pesa sobre os analfabetos, plenos e funcionais, que não lerão os livros, mesmo que distribuídos gratuitamente. A compra do livro é o primeiro passo, mas sua aquisição só ocorre pela leitura. Houve um movimento no sentido de “livro importa” para quem sabe ler, mas não de “ler importa” para todos.
“Ler importa” porque a leitura não é apenas um direito de cada pessoa, é um motor para o progresso de todos. Sem conhecer a história do Brasil, sem ler as propostas dos candidatos, o eleitor pode ser enganado mais facilmente; sem literatura acessível a todos, fica difícil formar a consciência nacional de um povo. “Ler importa” porque entre dois bons médicos, dois bons cientistas, dois bons engenheiros, aqueles que leem jornais, revistas, literatura, serão melhores que os outros.
É na educação de base que, além de alfabetizar, formam-se leitores. De todas as falhas de nossa educação de base, além de não alfabetizar todos na idade certa, não ensinar matemática e ciências, não auxiliar na prática das artes, não ensinar um ofício a cada jovem, nossas escolas não formam leitores em nosso idioma, e ainda menos em idiomas estrangeiros - porque “ler importa” tanto que é preciso ler em mais de um idioma.
“Vidas negras importam” e “ler importa” também. Por isso, “educação importa”.
Ao lado dos esqueletos sociais da escravidão, o analfabetismo é o berço do preconceito, a causa maior da exclusão social e do racismo. A luta contra o racismo conseguiu fazer com que os negros brasileiros já não se sintam inferiores aos brancos, como ocorria até recentemente, mas negros ou brancos sentem-se inferiores quando são analfabetos. Apesar disso, os que, corretamente, lutam contra o racismo com leis que criminalizam este comportamento, não lutam contra o analfabetismo que produz o racismo. Até lutam para que um pequeno número de negros entre na universidade, mas não para que todos os negros saiam do analfabetismo.
“Ler importa” não se refere apenas à chaga do analfabetismo total, mas também à necessidade de abolir o analfabetismo funcional que atinge quase 100 milhões de brasileiros. “Ler importa” não apenas para decifrar o que uma combinação de letras quer dizer em uma palavra, mas também para saber o que as palavras querem dizer combinadas entre elas em textos longos, em livros de literatura e de filosofia. “Ler importa” não apenas para decifrar as letras na bandeira do Brasil, mas também como aquelas palavras chegaram ali, identificar a base filosófica delas, por que os republicanos as escreveram logo depois da proclamação da República - e até hoje, 131 anos depois, ainda não entendemos que “ler importa”.
Apesar de todos os nossos avanços sociais e econômicos, temos em 2020 duas vezes mais adultos analfabetos do que em 1889. Não percebemos que a liberdade de expressão deve significar mais do que liberdade para alguns escreverem o que pensam, mas também a possibilidade de todos lerem o que está escrito. Por mais liberdade que tenha, não é livre a imprensa em um país com 12 milhões de adultos analfabetos plenos e 100 milhões de analfabetos funcionais.
“Ler importa” para todos e para ler tudo.
Recentemente, a proposta de aumentar impostos sobre livros foi rejeitada pelos que compram livros, mas eles não se mobilizaram para que todos pudessem ler; não houve luta contra o imposto infinito que pesa sobre os analfabetos, plenos e funcionais, que não lerão os livros, mesmo que distribuídos gratuitamente. A compra do livro é o primeiro passo, mas sua aquisição só ocorre pela leitura. Houve um movimento no sentido de “livro importa” para quem sabe ler, mas não de “ler importa” para todos.
“Ler importa” porque a leitura não é apenas um direito de cada pessoa, é um motor para o progresso de todos. Sem conhecer a história do Brasil, sem ler as propostas dos candidatos, o eleitor pode ser enganado mais facilmente; sem literatura acessível a todos, fica difícil formar a consciência nacional de um povo. “Ler importa” porque entre dois bons médicos, dois bons cientistas, dois bons engenheiros, aqueles que leem jornais, revistas, literatura, serão melhores que os outros.
É na educação de base que, além de alfabetizar, formam-se leitores. De todas as falhas de nossa educação de base, além de não alfabetizar todos na idade certa, não ensinar matemática e ciências, não auxiliar na prática das artes, não ensinar um ofício a cada jovem, nossas escolas não formam leitores em nosso idioma, e ainda menos em idiomas estrangeiros - porque “ler importa” tanto que é preciso ler em mais de um idioma.
“Vidas negras importam” e “ler importa” também. Por isso, “educação importa”.
O sonho da pátria armada
O deputado federal Eduardo Bolsonaro usou as redes sociais no domingo para decretar que “o tiro também é cultura”. Só faltou completar: em vez de livro, por que não um fuzil? Na postagem, o parlamentar se referiu à visita que fez ao Bope (Batalhão de Operações Especiais) do Distrito Federal, onde teve aula de tiro ao alvo, acompanhado do secretário especial de Cultura do Ministério do Turismo, Mario Frias, e do secretário nacional de incentivo e fomento à cultura, André Porciúncula.
Depois do treinamento, ele e seus companheiros, todos armados de revólver e fuzil, posaram ao lado da imagem de uma caveira, símbolo do batalhão e, por extensão, da cultura como o Zero Três a vê. Filho e pai são defensores do liberou geral, da flexibilização das leis sobre o porte e a posse de arma, e os dois fizeram do tema promessa de campanha. A novidade é o filho aparecer agora com esse disfarce, para dar a impressão de que atirar é um divertimento intelectual.
Depois do treinamento, ele e seus companheiros, todos armados de revólver e fuzil, posaram ao lado da imagem de uma caveira, símbolo do batalhão e, por extensão, da cultura como o Zero Três a vê. Filho e pai são defensores do liberou geral, da flexibilização das leis sobre o porte e a posse de arma, e os dois fizeram do tema promessa de campanha. A novidade é o filho aparecer agora com esse disfarce, para dar a impressão de que atirar é um divertimento intelectual.
O pai sempre foi mais direto nas suas declarações, nunca escondeu seus objetivos, nunca disfarçou seu projeto ou sonho. Disse com todas as letras: “Eu quero todo mundo armado”, “Só um povo armado é forte e livre”, “Povo armado jamais será escravizado”.
A propósito, está sendo relançado o clássico “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, sobre uma sociedade distópica em que os livros são proibidos. Mantê-los em casa é considerado crime, e os donos são punidos como criminosos. E a missão dos bombeiros não é apagar incêndios, mas atiçá-los. O 451 do título é a temperatura, em graus Fahrenheit, em que o papel pega fogo e queima.
Taí um livro que, se fossem chegados à leitura, Jair e Eduardo Zero Três deveriam ler e, se possível, entender que se trata de uma crítica ao obscurantismo.
Enquanto isso, a Amazônia e o Pantanal continuam pegando fogo.
No mais, é como se diz em Frei Paulo, terra do Ancelmo, sobre o que vem por aí: “God bless America e... a nós também”.
A propósito, está sendo relançado o clássico “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, sobre uma sociedade distópica em que os livros são proibidos. Mantê-los em casa é considerado crime, e os donos são punidos como criminosos. E a missão dos bombeiros não é apagar incêndios, mas atiçá-los. O 451 do título é a temperatura, em graus Fahrenheit, em que o papel pega fogo e queima.
Taí um livro que, se fossem chegados à leitura, Jair e Eduardo Zero Três deveriam ler e, se possível, entender que se trata de uma crítica ao obscurantismo.
Enquanto isso, a Amazônia e o Pantanal continuam pegando fogo.
No mais, é como se diz em Frei Paulo, terra do Ancelmo, sobre o que vem por aí: “God bless America e... a nós também”.
Aposta de alto risco
O presidente Jair Bolsonaro ontem, nas redes sociais, voltou a apostar todas as fichas na reeleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, além de denunciar suposta interferência externa na política norte-americana, sem dizer de quem. Ao mesmo tempo, o mundo aguarda em suspense o resultado do pleito, no qual o democrata Joe Biden é favorito nas pesquisas de opinião. Como escrevo antes da contagem dos votos, vou aguardar o resultado final da apuração; mesmo que, eventualmente, o presidente Trump autoproclame a sua vitória, na festa que organizou na Casa Branca para 400 convidados.
Aqui no Brasil, teríamos o resultado final da eleição, com precisão, no dia de votação, graças à urna eletrônica, à prova de fraudes, nossa melhor jabuticaba política, testada e aprovada. Nos Estados Unidos, com um sistema de votação anacrônico, que leva vários dias, inclusive com voto por correspondência, a apuração é mais complicada. Pode até gerar uma crise institucional, se Trump se declarar eleito e, depois, a contagem dos votos mostrar que o vitorioso é Baden. Como se sabe, o fato de o presidente ser eleito num colégio de delegados dos estados permite, inclusive, que o vitorioso não seja o mais votado nas urnas.
No dia da eleição, a maioria dos chefes de Estado manteve silêncio obsequioso sobre o pleito. Os líderes das democracias ocidentais, porém, torcem pelo democrata Biden, quando nada porque são confrontados pelo republicano Trump em todos os fóruns internacionais, até mesmo na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o pacto de defesa do Ocidente. Entretanto, ninguém pode acusar Bolsonaro de incoerência. Como disse o chanceler Ernesto Araujo, com a atual política externa, o Brasil optou por ser “um pária” no cenário mundial. Sem Trump, porém, essa linha de atuação se tornará insustentável, devido ao isolamento diplomático quase absoluto. Somente os governos de extrema direita, como o de Victor Orban, na Hungria, e os tiranos árabes mais sanguinários restarão como aliados, do Brasil nos fóruns internacionais, se Biden vencer o pleito.
A não ser que Bolsonaro se reposicione. O alinhamento automático com os Estados Unidos, de imediato, não muda o posicionamento do Brasil nas cadeias de comércio mundial, nas quais nosso principal parceiro é a China. A ideia de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, grande aposta de Araujo e do ministro da Economia, Paulo Guedes, não é exequível a curto prazo. Não era com Trump, muito menos com Biden. No segundo caso, para avançar nessa direção, o Brasil teria que mudar radicalmente sua política interna em relação aos direitos humanos e ao meio ambiente, além do posicionamento nos fóruns internacionais em relação aos mesmos temas.
Um momento de viragem na política norte-americana ilustra uma situação desse tipo: a eleição do presidente Jimmy Carter, que governou de 1977 a 1981. No seu governo, o Departamento de Estado deu uma guinada em relação às ditaduras da América do Sul, todas implantadas com forte apoio norte-americano. Carter pressionou muito o governo do general Ernesto Geisel, por causa das torturas e dos assassinatos de oposicionistas nos quartéis, o que ajudou a oposição a vencer as eleições de 1978 e resultou na anistia de 1979. Como naquela ocasião, a vitória de Biden pode ser um momento de viragem na política brasileira. Bolsonaro tem dificuldades para aceitar essa mudança, mas em torno dele esse assunto está em pauta, haja vista as declarações do vice-presidente Hamilton Mourão, que manteve distância regulamentar das eleições norte-americanas.
Um outro fator recomenda mais cautela de Bolsonaro quanto ao resultado do pleito: a nossa situação econômica. O Palácio do Planalto se prepara para uma segunda onda da pandemia de corona vírus da pior forma possível, ao fomenta dúvidas quanto a eficácia e a necessidade das vacinas contra o COVID-19, o que é péssimo. Também empurra as reformas com a barriga para não contrariar interesses corporativos e empresariais. A base parlamentar do governo retarda a aprovação do Orçamento da União para não ter que anunciar cortes de despesas antes das eleições. O ministro da Economia, Paulo Guedes, sonha com a prorrogação da “economia de guerra” para 2021, com o propósito de agradar o presidente Bolsonaro e criar o Renda Cidadã. É uma aposta de jogador compulsivo, que perde todos os bens e a família, acreditando na sorte grande.
O governo não tem prioridades, se movimenta de forma errática. A dívida publica brasileira, que já se aproxima de 100% do PIB, está sendo rolada a prazo de dois anos, com juros acima de 4,5%, o que é muito perigoso. Se a estratégia do governo for prorrogar a “economia de guerra”” por mais seis meses, a inflação vai disparar e a dívida pública crescerá mais ainda, vertiginosamente. Ontem, houve uma reunião dos governadores com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para discutir uma estratégia de vacinação contra a Covid-19, maneira de evitar uma segunda onda da pandemia no Brasil e a prorrogação da economia de guerra”. Quem deveria estar liderando isso é o Ministério da Saúde.
Aqui no Brasil, teríamos o resultado final da eleição, com precisão, no dia de votação, graças à urna eletrônica, à prova de fraudes, nossa melhor jabuticaba política, testada e aprovada. Nos Estados Unidos, com um sistema de votação anacrônico, que leva vários dias, inclusive com voto por correspondência, a apuração é mais complicada. Pode até gerar uma crise institucional, se Trump se declarar eleito e, depois, a contagem dos votos mostrar que o vitorioso é Baden. Como se sabe, o fato de o presidente ser eleito num colégio de delegados dos estados permite, inclusive, que o vitorioso não seja o mais votado nas urnas.
No dia da eleição, a maioria dos chefes de Estado manteve silêncio obsequioso sobre o pleito. Os líderes das democracias ocidentais, porém, torcem pelo democrata Biden, quando nada porque são confrontados pelo republicano Trump em todos os fóruns internacionais, até mesmo na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o pacto de defesa do Ocidente. Entretanto, ninguém pode acusar Bolsonaro de incoerência. Como disse o chanceler Ernesto Araujo, com a atual política externa, o Brasil optou por ser “um pária” no cenário mundial. Sem Trump, porém, essa linha de atuação se tornará insustentável, devido ao isolamento diplomático quase absoluto. Somente os governos de extrema direita, como o de Victor Orban, na Hungria, e os tiranos árabes mais sanguinários restarão como aliados, do Brasil nos fóruns internacionais, se Biden vencer o pleito.
A não ser que Bolsonaro se reposicione. O alinhamento automático com os Estados Unidos, de imediato, não muda o posicionamento do Brasil nas cadeias de comércio mundial, nas quais nosso principal parceiro é a China. A ideia de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, grande aposta de Araujo e do ministro da Economia, Paulo Guedes, não é exequível a curto prazo. Não era com Trump, muito menos com Biden. No segundo caso, para avançar nessa direção, o Brasil teria que mudar radicalmente sua política interna em relação aos direitos humanos e ao meio ambiente, além do posicionamento nos fóruns internacionais em relação aos mesmos temas.
Um momento de viragem na política norte-americana ilustra uma situação desse tipo: a eleição do presidente Jimmy Carter, que governou de 1977 a 1981. No seu governo, o Departamento de Estado deu uma guinada em relação às ditaduras da América do Sul, todas implantadas com forte apoio norte-americano. Carter pressionou muito o governo do general Ernesto Geisel, por causa das torturas e dos assassinatos de oposicionistas nos quartéis, o que ajudou a oposição a vencer as eleições de 1978 e resultou na anistia de 1979. Como naquela ocasião, a vitória de Biden pode ser um momento de viragem na política brasileira. Bolsonaro tem dificuldades para aceitar essa mudança, mas em torno dele esse assunto está em pauta, haja vista as declarações do vice-presidente Hamilton Mourão, que manteve distância regulamentar das eleições norte-americanas.
Um outro fator recomenda mais cautela de Bolsonaro quanto ao resultado do pleito: a nossa situação econômica. O Palácio do Planalto se prepara para uma segunda onda da pandemia de corona vírus da pior forma possível, ao fomenta dúvidas quanto a eficácia e a necessidade das vacinas contra o COVID-19, o que é péssimo. Também empurra as reformas com a barriga para não contrariar interesses corporativos e empresariais. A base parlamentar do governo retarda a aprovação do Orçamento da União para não ter que anunciar cortes de despesas antes das eleições. O ministro da Economia, Paulo Guedes, sonha com a prorrogação da “economia de guerra” para 2021, com o propósito de agradar o presidente Bolsonaro e criar o Renda Cidadã. É uma aposta de jogador compulsivo, que perde todos os bens e a família, acreditando na sorte grande.
O governo não tem prioridades, se movimenta de forma errática. A dívida publica brasileira, que já se aproxima de 100% do PIB, está sendo rolada a prazo de dois anos, com juros acima de 4,5%, o que é muito perigoso. Se a estratégia do governo for prorrogar a “economia de guerra”” por mais seis meses, a inflação vai disparar e a dívida pública crescerá mais ainda, vertiginosamente. Ontem, houve uma reunião dos governadores com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para discutir uma estratégia de vacinação contra a Covid-19, maneira de evitar uma segunda onda da pandemia no Brasil e a prorrogação da economia de guerra”. Quem deveria estar liderando isso é o Ministério da Saúde.
Marcha da insensatez
Hoje se tem o país com recordes mundiais de morte por Covid, uma política econômica errática que assusta o mercado, o avanço das organizações criminosas por todos os poros da República, sem nenhum referencial racional para impedir o desmanche
A mentira contra a vida
Pós-verdade foi a palavra do ano de 2016. Como manda a tradição, o dicionário “Oxford” anunciou a escolha em dezembro. Um mês antes, Donald Trump havia sido eleito o 45º presidente dos Estados Unidos.
Na era da pós-verdade, os fatos importam pouco. O que conta são as versões, que podem ser fabricadas para confirmar crenças, preconceitos ou visões de mundo.
Trump usou uma mentira deslavada para se lançar na política. Ele ajudou a propagar a falsa tese de que Barack Obama teria nascido no Quênia. Isso o tornou popular entre os radicais do Partido Republicano, que não se conformavam com a presença de um negro na Casa Branca.
Na campanha, o magnata continuou a espalhar lorotas. Ele inventou que o crime não parava de crescer (as estatísticas mostravam o contrário), que os mexicanos estavam invadindo os EUA (havia mais gente saindo que entrando no país) e que Obama teria fundado o Estado Islâmico (essa dispensa comentários).
Na era da pós-verdade, os fatos importam pouco. O que conta são as versões, que podem ser fabricadas para confirmar crenças, preconceitos ou visões de mundo.
Trump usou uma mentira deslavada para se lançar na política. Ele ajudou a propagar a falsa tese de que Barack Obama teria nascido no Quênia. Isso o tornou popular entre os radicais do Partido Republicano, que não se conformavam com a presença de um negro na Casa Branca.
Na campanha, o magnata continuou a espalhar lorotas. Ele inventou que o crime não parava de crescer (as estatísticas mostravam o contrário), que os mexicanos estavam invadindo os EUA (havia mais gente saindo que entrando no país) e que Obama teria fundado o Estado Islâmico (essa dispensa comentários).
Ao assumir o poder, Trump transformou o embuste em arma cotidiana. Em julho, o jornal “The Washington Post” informou que ele já havia divulgado 20 mil informações falsas ou distorcidas.
Como todo mitômano, o republicano se apresenta como portador da verdade. Quem ousa contestá-lo é acusado de produzir fake news. Assim ele mina a confiança na ciência, na imprensa e nas universidades.
A pandemia ensinou que a indústria da pós-verdade, alimentada por populistas como Trump, pode provocar danos ainda maiores que a corrosão da democracia. “Mentiras e desinformação, conspiração e ódio não prejudicam apenas o debate democrático, mas também a luta contra o coronavírus”, afirmou na semana passada a chanceler alemã Angela Merkel.
A conservadora fez o alerta após ser vaiada por deputados do partido de extrema direita AfD, que se opõe às medidas de combate à Covid. “Não é apenas o debate democrático que depende do nosso compromisso com os fatos e a informação. As vidas humanas dependem disso também”, prosseguiu Merkel.
A frase ajuda a explicar o que está em jogo na eleição americana de 2020.
Como todo mitômano, o republicano se apresenta como portador da verdade. Quem ousa contestá-lo é acusado de produzir fake news. Assim ele mina a confiança na ciência, na imprensa e nas universidades.
A pandemia ensinou que a indústria da pós-verdade, alimentada por populistas como Trump, pode provocar danos ainda maiores que a corrosão da democracia. “Mentiras e desinformação, conspiração e ódio não prejudicam apenas o debate democrático, mas também a luta contra o coronavírus”, afirmou na semana passada a chanceler alemã Angela Merkel.
A conservadora fez o alerta após ser vaiada por deputados do partido de extrema direita AfD, que se opõe às medidas de combate à Covid. “Não é apenas o debate democrático que depende do nosso compromisso com os fatos e a informação. As vidas humanas dependem disso também”, prosseguiu Merkel.
A frase ajuda a explicar o que está em jogo na eleição americana de 2020.
Um governo que atua contra si mesmo
Em uma dinâmica normal, o governo atua politicamente para que o Congresso aprove as medidas de seu interesse. Esse movimento de coordenação dos partidos da base aliada é ainda mais lógico em relação àquelas medidas que, mais do que mera conveniência política, asseguram a governabilidade. No entanto, não se observa essa comezinha lógica na atuação do governo de Jair Bolsonaro. Os partidos da base aliada do governo estão obstruindo a pauta de votação da Câmara dos Deputados, o que impede o andamento de temas que afetam diretamente o governo federal.
Em entrevista no dia 27, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pediu aos partidos da base do governo que sejam responsáveis e acabem com a obstrução. “Espero que a responsabilidade prevaleça. Se o governo não tem interesse nestas medidas provisórias, eu não tenho o que fazer. Eu pauto, a base obstrui e eu cancelo a sessão”, disse Rodrigo Maia.
A obstrução feita pelos partidos da base aliada tem obviamente consequências no calendário das votações, com graves efeitos sobre o ano que vem. Um dos temas mais urgentes, que condicionam o andamento de vários assuntos, é a PEC Emergencial, integrante de um pacote de três propostas apresentadas pelo próprio governo federal no fim do ano passado, no chamado Plano Mais Brasil. “Sem a PEC Emergencial, vai ter muita dificuldade de aprovar o Orçamento”, advertiu o presidente da Câmara.
Em relação ao Orçamento de 2021, o Congresso tem de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). Nenhuma foi aprovada ainda. Sem a aprovação da LDO até o fim do ano, o governo não terá base legal para realizar gastos discricionários em 2021. A LDO prevê, por exemplo, a possibilidade de o governo executar, de forma provisória, a duodécima parte das despesas, em caso de não aprovação da LOA. Ou seja, sem a LDO, o governo enfrentaria uma brutal paralisia, a afetar até mesmo as despesas obrigatórias.
Em relação à LOA, há previsões de que sua votação ocorra apenas em março de 2021, o que seria prejudicial em primeiro lugar para o próprio governo. Já houve vezes em que a LOA não foi aprovada até quase meados do ano. Absolutamente inusitada, a novidade é a contribuição do próprio governo para o atraso.
Além de prejudicar o funcionamento do poder público e dificultar a saída da crise social e econômica, a obstrução das votações atinge também a aprovação das medidas provisórias – que, em tese, deveriam interessar ao Palácio do Planalto, autor das medidas. “Cabe à base avançar com as medidas provisórias pelo menos”, lembrou o presidente da Câmara.
Diante dessa estranha imobilidade, surgem críticas contra o Congresso, como se os parlamentares estivessem dificultando o andamento de temas politicamente sensíveis; por exemplo, as privatizações. Na entrevista do dia 27, Rodrigo Maia mostrou que falta fundamento a essas críticas. “Quem obstrui a pauta é a base do governo”, disse.
A ratificar a disfuncionalidade da atual situação, chama a atenção o motivo pelo qual a base aliada do governo vem obstruindo as votações do plenário da Câmara. O objetivo é colocar na presidência da Comissão Mista de Orçamento (CMO) um nome alinhado ao deputado Arthur Lira (AL), líder do PP na Câmara e um dos nomes fortes do Centrão. Segundo acordo feito em fevereiro entre os partidos da base, o presidente da CMO neste ano seria o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA). Além de obstruir a pauta, o modo de agir dos partidos do Centrão traz dificuldades para o funcionamento da própria CMO. “Se o acordo não vai ser cumprido, difícil a CMO funcionar”, reconheceu Rodrigo Maia.
Em entrevista no dia 27, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pediu aos partidos da base do governo que sejam responsáveis e acabem com a obstrução. “Espero que a responsabilidade prevaleça. Se o governo não tem interesse nestas medidas provisórias, eu não tenho o que fazer. Eu pauto, a base obstrui e eu cancelo a sessão”, disse Rodrigo Maia.
A obstrução feita pelos partidos da base aliada tem obviamente consequências no calendário das votações, com graves efeitos sobre o ano que vem. Um dos temas mais urgentes, que condicionam o andamento de vários assuntos, é a PEC Emergencial, integrante de um pacote de três propostas apresentadas pelo próprio governo federal no fim do ano passado, no chamado Plano Mais Brasil. “Sem a PEC Emergencial, vai ter muita dificuldade de aprovar o Orçamento”, advertiu o presidente da Câmara.
Em relação ao Orçamento de 2021, o Congresso tem de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). Nenhuma foi aprovada ainda. Sem a aprovação da LDO até o fim do ano, o governo não terá base legal para realizar gastos discricionários em 2021. A LDO prevê, por exemplo, a possibilidade de o governo executar, de forma provisória, a duodécima parte das despesas, em caso de não aprovação da LOA. Ou seja, sem a LDO, o governo enfrentaria uma brutal paralisia, a afetar até mesmo as despesas obrigatórias.
Em relação à LOA, há previsões de que sua votação ocorra apenas em março de 2021, o que seria prejudicial em primeiro lugar para o próprio governo. Já houve vezes em que a LOA não foi aprovada até quase meados do ano. Absolutamente inusitada, a novidade é a contribuição do próprio governo para o atraso.
Além de prejudicar o funcionamento do poder público e dificultar a saída da crise social e econômica, a obstrução das votações atinge também a aprovação das medidas provisórias – que, em tese, deveriam interessar ao Palácio do Planalto, autor das medidas. “Cabe à base avançar com as medidas provisórias pelo menos”, lembrou o presidente da Câmara.
Diante dessa estranha imobilidade, surgem críticas contra o Congresso, como se os parlamentares estivessem dificultando o andamento de temas politicamente sensíveis; por exemplo, as privatizações. Na entrevista do dia 27, Rodrigo Maia mostrou que falta fundamento a essas críticas. “Quem obstrui a pauta é a base do governo”, disse.
A ratificar a disfuncionalidade da atual situação, chama a atenção o motivo pelo qual a base aliada do governo vem obstruindo as votações do plenário da Câmara. O objetivo é colocar na presidência da Comissão Mista de Orçamento (CMO) um nome alinhado ao deputado Arthur Lira (AL), líder do PP na Câmara e um dos nomes fortes do Centrão. Segundo acordo feito em fevereiro entre os partidos da base, o presidente da CMO neste ano seria o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA). Além de obstruir a pauta, o modo de agir dos partidos do Centrão traz dificuldades para o funcionamento da própria CMO. “Se o acordo não vai ser cumprido, difícil a CMO funcionar”, reconheceu Rodrigo Maia.
Ao longo dos últimos dois anos, o Congresso foi alvo de muitos ataques do bolsonarismo. Nessas campanhas, Rodrigo Maia foi frequentemente apresentado como o grande coordenador do Centrão, a dificultar o andamento das reformas. Não há dúvida de que o Legislativo merece várias críticas. Mas é de justiça reconhecer que Jair Bolsonaro tem conseguido a proeza de fortalecer o que há de pior e mais disfuncional no Congresso.
Por onde anda o humor?
Se há hoje um insumo escasso (ou mesmo ausente) na vida brasileira, sobretudo na política, não há dúvida de que é o humor. Nem sempre foi assim. Crises, de variados tamanhos, nunca faltaram ao país, mas o humor as permeava, mesmo nos seus piores momentos. É sua missão moral, física e metafísica. Não importa a ideologia, todos os que adentram a vida pública se expõem, gostando ou não, à Sua Excelência, o Humor. Uma caricatura vale mais que um editorial e diz mais da realidade que um tratado sociológico. Tem a síntese e a contundência de um poema gráfico. E o detalhe: não há humor a favor. É a mais ferina ferramenta crítica que Deus inseriu na Criação.
Todos gostam de rir… dos outros. Só o sábio ri de si mesmo. Mas sabedoria e política raramente se encontram.
Por isso, quando o tempo fecha – isto é, quando a democracia faz as malas e sai de cena -, os primeiros a entrar em cana são os humoristas. Vamos aqui falar de um deles.
Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé, pontificou na imprensa dos anos 20 aos anos 60. Não obstante sua longevidade, é nome esquecido. Gaúcho de Rio Grande, iniciou-se no âmbito regional, mas, com a ocupação gaúcha do Rio de Janeiro, consolidada após a Revolução de 30, veio para a então capital federal.
Veio, porém, na contramão de seus conterrâneos getulistas, que o perseguiriam – e o levariam mais de uma vez à prisão.
Em pleno Estado Novo, “A Manha” publicou, na primeira página, foto de um bebê gorducho pelado, com a legenda: “GG quando BB”. GG era o apelido de Getúlio, mas ditaduras não gostam de intimidades. A polícia invadiu o escritório do Barão e deu-lhe uma surra. Ele então colocou uma placa na porta: “Entre sem bater”.
Inicialmente, assinava Apporely, abreviação de seu extenso nome. Mas acabou chegando ao pseudônimo que o consagrou a partir da conjunção de dois acontecimentos. O primeiro, a anistia à família imperial, no governo Epitácio Pessoa, anos 20.
Descendentes dos antigos nobres do Império, que escondiam sua origem, decidiram exibi-la. Já não havia riscos e tornou-se chique, fonte de prestígio. Apareceram, como era de se prever, os falsos nobres e os barões de araque, como se dizia.
Mais adiante, na revolução de 30, aguardava-se o embate sangrento – o início de uma guerra civil sem precedentes – entre as forças revolucionárias de Getúlio Vargas e as tropas federais, aliadas do presidente Washington Luiz. O confronto se daria no município paranaense de Itararé. Mas acabou não acontecendo. Houve acordo.
E o termo Itararé – “a batalha que não houve” – associou-se a algo que inexistiu. Dizia-se: “A festa do fulano? Foi uma festa de Itararé, uma festa de nada”. Surge então o barão inexistente: o Barão de Itararé, cujo brasão, de uma antinobreza total, era um prato, com um frango assado e talheres cruzados.
Após a Intentona Comunista, de 1935, o Barão, que já estivera algumas vezes na prisão, para lá voltou. Ele e um imenso contingente de artistas, intelectuais e ativistas. A pretexto do acontecido, o governo Vargas, como preâmbulo do Estado Novo, que viria dois anos depois, iniciou uma série de prisões por todo o país.
Entre outros, lá estava o escritor alagoano Graciliano Ramos, ainda desconhecido. Sujeito seco e sisudo, de sorriso escasso, não resistiu ao Barão. E o incluiu em suas “Memórias do Cárcere” (recém-reeditadas pela Editora Record). No ambiente depressivo da prisão, a chegada do Barão (recorda Graciliano) alegrou a todos.
Ele criou a “Rádio Libertadora”, com uma “programação em grade”, narrada de dentro da cela. E não apenas fez Graciliano rir, como levar o riso às “Memórias”, com a “Teoria das Duas Hipóteses”.
Ei-la, como Graciliano a recordou:
“Apporely sustentava que tudo ia muito bem. Fundava-se a demonstração no exame de um fato de que surgiam duas alternativas; excluía-se uma, desdobrava-se a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por diante, numa cadeia comprida.Ali, onde vivíamos, Apporely afirmava, utilizando o seu método, que não havia motivo para receio. Que nos poderia acontecer?Seríamos postos em liberdade ou continuaríamos presos. Se nos soltassem, bem: era o que desejávamos. Se ficássemos na prisão, deixar-nos-iam sem processo ou com processo.Se não nos processássemos, bem: à falta de provas, cedo ou tarde, nos mandariam embora.Se nos processassem, seríamos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvessem, bem: nada melhor esperaríamos. Se nos condenassem, dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com pena leve, muito bem: descansaríamos algum tempo, sustentados pelo governo, depois iríamos para a rua.Se nos arrumassem pena dura, seríamos anistiados ou não. Se fôssemos anistiados, excelente: era como se não houvesse condenação. Se não nos anistiassem, cumpriríamos sentença ou morreríamos. Se cumpríssemos sentença, magnífico: voltaríamos para casa. Se morrêssemos, iríamos para o céu ou para o inferno. Se fôssemos para o céu, ótimo: era a suprema aspiração de cada um. E se fôssemos para o inferno? A cadeia findava aí.”
O Barão tinha suas vítimas prediletas. Uma delas, Plínio Salgado, o líder do Integralismo, cujo lema era “Deus, Pátria e Família”. Por um lapso auditivo, disse ele, quase se filiou àquela corrente ideológica: “Entendi Adeus, Pátria e Família”.
O mal de certos políticos não é a falta de persistência. É a persistência na faltaBarão de Itaraé
Outro de seus alvos era o governador de São Paulo, Adhemar de Barros, um dos ícones do fisiologismo político de então, cujos aliados, orgulhosos, proclamavam: “Rouba, mas faz”.
Adhemar candidatou-se à Presidência da República em 1960. E um de seus aliados foi pedir ao Barão uma quadrinha para uso na campanha. E o Barão saiu-se com esta:
“Deus fez o homem do barro/do barro bom e batuta/mas esse Adhemar de Barros/que barro filho da puta!”.
A contribuição não foi aceita.
O senso de improviso é um dom dos humoristas. O repórter perguntou ao Barão como ele interpretava a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein. E ele: “O quebra-noz é bom pra nós – e ruim pra noz”. Sua definição de anistia: “ato pelo qual o governo perdoa generosamente as injustiças e crimes que ele mesmo cometeu”. E de orçamento: “conta que o governo faz para saber onde aplicar um dinheiro que ele já gastou”.
E gostava de inverter ditos populares: “de onde menos se espera… daí é que não sai nada”. Ou então” “Tempo é dinheiro? Paguemos nossas dívidas com o tempo”.
E gostava de inverter ditos populares: “de onde menos se espera… daí é que não sai nada”. Ou então” “Tempo é dinheiro? Paguemos nossas dívidas com o tempo”.
Foi candidato a vereador pelo Rio – e se elegeu. Seu compromisso de campanha: “Farei na vida pública tudo o que faço na privada”. O Barão faz falta, sobretudo num momento como este.
Ruy Fabiano
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