sábado, 27 de maio de 2017

O desmonte da Lava Jato

A parcela da classe política mais diretamente envolvida nas denúncias da Lava Jato – a cúpula dos três principais partidos, PT, PMDB e PSDB - movimenta-se, com o apoio do presidente Michel Temer, para nova investida contra a Força Tarefa de Curitiba.

Se bem-sucedida, poderá ser letal.

Além de providências de ordem operacional, já adotadas, como a redução de nove para quatro do número de delegados na investigação e redução do respectivo orçamento, providências que emanam do Ministério da Justiça, cogita de outras iniciativas, no âmbito do Judiciário, que atingem o coração da Lava Jato.

A principal: a tentativa de nova mudança na jurisprudência do STF, hoje em favor da prisão em segundo grau – isto é, na imediata sequência da sentença inicial, fazendo com que o condenado recorra aos tribunais superiores de dentro da cadeia.

Antes, era o contrário: recorria em liberdade, explorando os infindáveis recursos que a lei processual brasileira oferece, beneficiando-se da prescrição da pena. Acaba de acontecer com Paulo Maluf, que jamais foi condenado por jamais ter sido julgado.

Um bom escritório de advocacia garante as acrobacias processualísticas – e são avaliados (e orçados) por essa habilidade.

A prisão em segundo grau, prática vigente nas principais nações democráticas do planeta (nos EUA é já no primeiro grau), foi levada ao exame do STF em fevereiro do ano passado.

E foi aprovada. Voltou a ser apreciada em outubro – e voltou a ser aprovada, ainda que por estreita margem, 6 a 5. E pode voltar a ser revista pela terceira vez, com outro placar.

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Se já era estranho que, num prazo de poucos meses (entre fevereiro e outubro de 2016), uma mesma Corte, sem nenhuma mudança em sua composição - e sem que nenhum fato novo o determinasse -, tenha voltado a examinar uma decisão dela própria, que dizer de uma terceira retomada, sete meses depois?

A dedução inevitável, pelos efeitos práticos que daí advirão, é de que se trata de mais uma manobra contra a Lava Jato. Pois é ali que efeitos profundos e imediatos ocorrerão.

Um dos fatores que mais estimulam a opção dos réus pela delação premiada é exatamente a perspectiva de cumprimento imediato da sentença, tão logo confirmada em segunda instância. E as sentenças do juiz Sérgio Moro têm sido rapidamente confirmadas em segundo grau, no Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre.

Esse rito objetivo, sem prejuízo do devido processo legal, , mas poupado do longo e tortuoso trajeto nos tribunais superiores – STJ e STF -, estimulou o recurso ao instituto da delação premiada, permitindo que as investigações fisgassem mais e mais gatunos, numa dimensão sem precedentes na História do país.

No entanto, se houver agora um recuo nessa jurisprudência, é possível (e provável) que as coisas mudem. Alguns figurões, já na fila das delações – como Antonio Palocci, Eike Batista, Sérgio Cabral -, podem (e devem) mudar de ideia. Os processos em Brasília obedecem a ritos que não se atêm à ortodoxia jurídica.

Quem propôs a re-re-revisão do tema foi o ministro Gilmar Mendes. Ele foi favorável à prisão em segundo grau nas duas votações anteriores, mas disse, esta semana, que mudou de opinião.

Ao analisar, na terça-feira, um caso concreto, no âmbito da Segunda Turma do STF, disse estar sensibilizado pelos argumentos de seu colega Dias Toffoli, que mudara também de opinião entre a primeira e a segunda votação do tema: na primeira, apoiara a prisão em segundo grau; na segunda, a condenara.

Gilmar procura um meio termo: não exclui a possibilidade desse tipo de prisão, mas não a quer compulsória. Como a composição do STF mudou, com a morte de Teori Zavaski, que apoiou a prisão em segundo grau, e sua substituição por Alexandre de Moraes (único ministro indicado por Temer), a simples mudança de voto de Mendes inverte o resultado anterior.

Nesses termos, volta-se ao Brasil de sempre: condena-se, mas não se prende – e inocenta-se por decurso de prazo. Essa providência, em plena articulação, forneceria a saída “honrosa” por que clamam Temer, Lula, Dilma, Aécio e quantos mais, nesse patamar da hierarquia política, dela necessitem.

O “Fora, Temer” é também o “fora” a seus fictícios adversários petistas, que põem a militância a urrar contra o presidente, mas com ele buscam animadamente um destino comum. Longe de Sérgio Moro – e fora, isto sim, da cadeia.

Para onde vamos?

Os brasileiros se sentem no momento sem chão. Perplexos. Dias atrás viviam tempos de retomada. A inflação refluía. Bem como os juros. A atividade econômica ensaiava uma volta, ainda que tímida. O desemprego caía. As reformas, trabalhista e da previdência, estavam encaminhadas.

As expectativas de mercado eram as melhores possíveis. A Nação começava finalmente a entrar nos trilhos após um longo e tenebroso período nas mãos petistas. Como que por uma hecatombe, tudo mudou. Ou quase. A delação dos irmãos Batista impôs uma nova agenda de crise. Parou o ciclo virtuoso. Embalados pela ideia do quanto pior, melhor, tubarões da ladroagem, oportunistas da pior espécie e arruaceiros de plantão aproveitaram para sabotar o País. Nas ruas, a baderna tomou conta.

Os agitadores promoveram quebra-quebra, tocaram fogo em ministérios, invadiram prédios públicos, impuseram o caos, numa selvageria espantosa. Movimentos ditos de esquerda, como CUT e MST, braços radicais vinculados ao Partido dos Trabalhadores, financiados durante anos por subvenções federais nas gestões Dilma e Lula, empunharam suas bandeirolas vermelhas e palavras de ordem inflamadas para reclamarem, indignados, dos erros de Temer.

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Indignação que faltou quando seus próprios líderes deixaram jorrar bilhões em desvios da Petrobrás, em esquemas de Mensalão e para a corrupção institucionalizada. No Congresso, protagonizando espetáculos ainda mais deprimentes, parlamentares de oposição tentaram impor na marra a tese de só votar projetos de interesse nacional após a retirada de cena do presidente.

Como se a discussão de mudanças vitais e urgentes para todos os cidadãos pudesse ser usada como moeda de troca, na base da chantagem. Estavam se lixando para o melhor em prol do Brasil. Os espertalhões planejaram travar a pauta de qualquer maneira até a obtenção do intento almejado. A retaliação como forma de gerar mais incerteza política, econômica e administrativa movia a patota.

Ao fim e ao cabo a minoria ruidosa e ensandecida dos petistas pretende impor – em afronta aberta à Constituição – eleições diretas antecipadas para, se possível, recolocar seu timoneiro Lula de volta no Planalto, mudando o curso dos julgamentos que devem levá-lo à cadeia. Suprema desfaçatez, mesmo a deposta Dilma, denunciada por caixa dois, entre outros crimes, e acusada de receber milhões dos irmãos Batista, apelou à Justiça para reassumir o cargo. Diz o provérbio que quando o caldo entorna, os ratos são os primeiros a aparecer.

No Senado, o congressista Randolfe Rodrigues deu chiliques. Queria ir às vias de fato com os demais, evitar a leitura de um relatório da comissão que propunha mudanças na Lei Trabalhista. Seus colegas de parlamento, os petistas Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann, investigados por improbidade e comprometidos até o pescoço na Lava-Jato, usaram do mesmo expediente e aos berros, provocando e sem senso de responsabilidade, tumultuaram o quanto podiam. Hoje são esses mesmos aloprados que querem, a qualquer custo, assumir o poder para manter funcionando as maracutaias de outros carnavais.

A forma como o sistema político fará uma reciclagem é a grande discussão que se segue. O presidente Temer prevaricou. Recebeu na calada da noite um empresário e escutou dele relatos absurdos de práticas de gatunagem. Deve ser investigado e, se comprovado seu envolvimento, punido na letra da lei. Isso não necessariamente significa condená-lo antecipadamente.

Apeá-lo do posto na marra e colocar na vaga um aventureiro, pretenso “salvador da pátria”, como muitos arvoram o papel, pode, ao invés de sanar a crise, agravá-la. Não devemos ser indulgentes com o malfeito, mas também não podemos ser alheios aos interesses ocultos. E eles são muitos. Dizem que Temer perdeu as condições de governabilidade. E é bem possível que sim.

Mas a dúvida maior é quem hoje, nesse carcomido cenário político que aí está, reúne as condições para tamanha tarefa? A conversa gravada em áudio está decerto repleta de trucagens. Na denúncia, a principal prova não foi sequer periciada. A frase que induziria ao entendimento de uma anuência do presidente para com um crime não está no contexto. As chances de adulteração não estão descartadas. E nesse caldeirão de incertezas, o presidente recusou renunciar.

Sabe que um processo de impeachment se alongaria por meses e mesmo a alternativa de cassação de sua chapa (ao lado de Dilma), por questões alheias a essas que estão pesando contra si, poderia ser contestada no Supremo, arrastando o assunto por anos – enquanto a Nação sangra sem trégua. Temer ainda tenta convencer os compatriotas, mesmo aliados, que possui condições de seguir no cargo.

Foi de fato o fiador das reformas, como hábil negociador e conhecido traquejo político. Seus eventuais substitutos, boa parte deles cogitados a varejo nas rodas de Brasília, ou descartam a possibilidade ou estão com algum nó para desatar. Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, e natural sucessor, responde a três inquéritos e seria, como Temer, um presidente no cargo submetido a investigações.

O jurista Nelson Jobim, que também disse não, já foi conselheiro de empresas flagradas na Lava-Jato e é visto como preposto de Lula, o que gera ressalvas a seu nome. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, teve passagem como funcionário da J&F e muitos poderão levantar a suspeita de que os irmãos Batista fizeram a delação para derrubar um governo e colocar no lugar alguém de sua confiança. E por aí vai a novela que celebra mais um triste capítulo de nossa história. Nesse momento delicado o Congresso tem que fazer sua parte e os brasileiros precisam estar atentos ao risco de virarem massa de manobra, seguindo como cordeiros para o curral de criminosos contumazes.

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Minh Dam                                                                                                                                                                                 Mais:
Aquarela, Minh Dam 

A falácia das 'diretas já'

Os defensores da antecipação da eleição direta para presidente querem fazer acreditar que somente assim teremos um governo com legitimidade e, portanto, capaz de tirar o País da crise. Essa concepção do voto direto como panaceia dos problemas nacionais se presta a vários propósitos, a maioria inconfessáveis, e nenhum deles efetivamente democrático. Quem apregoa a eleição direta para presidente agora, de afogadilho, ou defende interesses turvos ou é apenas oportunista.

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Em primeiro lugar, basta observar quais partidos lideram o esforço para colocar o tema na pauta do Congresso. São em sua maioria siglas que desde sempre se dedicam a questionar a legitimidade e a sabotar qualquer governo democraticamente eleito que não seja integrado por um dos seus. Os notórios PT, PSOL, Rede e PCdoB, entre outros, informaram que vão se reunir na semana que vem para discutir a formação de uma “frente nacional” para defender a antecipação da eleição presidencial direta. A memória nacional está repleta de exemplos de como os petistas e seus filhotes mais radicais jamais aceitaram o resultado das eleições presidenciais que perderam, e provavelmente continuarão a não aceitar caso o vencedor do próximo pleito não seja Lula da Silva ou alguém da patota.

Com Michel Temer na Presidência, a estratégia antidemocrática consiste em infernizar a vida do presidente para que ele renuncie e, ato contínuo, sejam convocadas eleições diretas. Para tanto, apostam na aprovação de alguma das propostas que estão no Congresso com vista a alterar o artigo 81 da Constituição, que determina que, em caso de vacância da Presidência e da Vice-Presidência nos últimos dois anos do mandato, haverá eleição para ambos os cargos “trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei”. Na proposta que está no Senado, torna-se direta a eleição quando ocorrer a vacância nos três primeiros anos.

O casuísmo é tão evidente que custa acreditar que esse tipo de proposta esteja sendo levado a sério e eventualmente avance. Os parlamentares envolvidos nesse esforço usam o especioso argumento, expresso no projeto, de que é preciso “devolver à população brasileira o direito de escolher o presidente da República, por meio de eleições diretas”. Para eles, o atual Congresso, engolfado em escândalos de corrupção, não tem “legitimidade” para fazer essa escolha.

Ora, os atuais congressistas foram eleitos pelo voto direto, o mesmo voto direto que os defensores da antecipação da eleição presidencial direta consideram essencial para conferir legitimidade ao eleito. Michel Temer também foi escolhido em eleições diretas. Estava, como vice, na chapa de Dilma Rousseff à Presidência em 2010 e em 2014. Por quatro vezes – os dois turnos de cada eleição –, cada um de seus eleitores visualizou sua foto e seu nome na urna eletrônica e confirmou o voto. Hoje se encontra no exercício da Presidência em decorrência do estrito cumprimento dos preceitos constitucionais. E, se tiver de deixar o cargo, a Constituição diz claramente como substituí-lo.

Mas os inimigos da democracia só apreciam a Constituição quando esta lhes dá alguma vantagem. Se for um entrave para suas pretensões políticas, então que seja rasgada, sob a alegação aparentemente democrática de que a antecipação da eleição direta “atende aos anseios da sociedade brasileira, sob o eco do histórico grito das ruas a clamar ‘Diretas Já’, nos idos da década de 1980”, como diz o texto da PEC no Senado. A justificativa omite, marotamente, que aquele era um dos componentes do processo de restabelecimento da democracia, na saída do regime militar, ao passo que hoje a democracia está em pleno vigor.

Finalmente, não são apenas eleições diretas que definem um regime democrático, muito menos conferem legitimidade automática aos eleitos. A democracia, em primeiro lugar, se realiza pelo respeito à Constituição, expressão máxima do pacto entre os cidadãos. Aproveitar-se da convulsão política para promover alterações constitucionais com vista a favorecer um grupo político viola escandalosamente esse pacto e, portanto, a própria democracia.

Lula cumpre o que prometeu: tocar fogo no país

Quando se trata de vandalismo e baderna, o Lula é um cara de palavra. Ele prometeu e está cumprindo fielmente o que já declarou para alguns de seus fanáticos: tocar fogo no Brasil. Os episódios lamentáveis de Brasília são os primeiros ensaios dos petistas – muitos pagos pelas centrais sindicais com o dinheiro do contribuinte – para as próximas cenas que vão aterrorizar o país, caso o juiz Sérgio Moro condene Luiz Inácio no início do próximo mês, quando prometeu proferir a sentença. O ex-presidente pretende, com essas arruaças, intimidar os procuradores e o juiz da Lava Jato para evitar uma condenação que o tornaria inelegível, e, portanto, fora do páreo das eleições de 2018, o que ele não admite.

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Os vândalos que atacaram os prédios públicos de Brasília são convocados pelas centrais sindicais e pelos dirigentes de movimentos sociais. Em troca, eles normalmente recebem uns trocados e uma marmita. São socados dentro dos ônibus a caminho dos protestos que podem ocorrer em qualquer lugar do Brasil. Os que têm mais sorte ganham uma camiseta vermelha, uma bandeira e, nos intervalos dos protestos, um sanduíche de mortadela. Antes de viajarem são doutrinados e estimulados a quebrar e incendiar o patrimônio público.

Quando perguntado o que fazem ali normalmente não sabem. E quem os levou até o local, não dizem. São buchas de canhão que os pelegos usam para levar porrada da polícia, enquanto eles, os falsos líderes, escondem-se para não mostrar a cara. Até a queda da Dilma, eram esses pelegos que davam as cartas, que pressionavam os políticos e que se sentiam protegidos pelo seu principal guru, Lula, o ex-operário, que já responde a vários processos por corrupção. Luis Inácio transformou o país numa república sindical e estimulou que seus militantes e seus políticos saqueassem e assaltassem o patrimônio brasileiro.

Agora, com o imbróglio de Temer, ameaçado de perder o cargo, Luis Inácio começou a incentivar seus asseclas no Congresso Nacional apara exigir eleição direta. Claro, ele precisa urgentemente se submeter ao voto popular enquanto ainda não foi condenado, porque está prestes a ir para a cadeia. É tão pretensioso que acha que teria chances de ser eleito com uma rejeição que já se aproxima dos 60%.

É impossível imaginar o Brasil sendo governado novamente por essa corja que dilapidou as empresas públicas e espalhou a corrupção em todos os setores do estado. Que entregaram aos irmãos Batista a bagatela de 8,1 bilhões de reais do BNDES para que eles comprassem empresas no exterior e gerassem renda e emprego lá fora sob o pretexto de que o Brasil precisava criar multinacionais. Os “caipiras” foram embora, vivem em palacete com o dinheiro do nosso banco, deixaram um rastro de escândalo no país e ainda foram premiados pelo Ministério Público que não viu crimes nos atos deles, perdoando-os de qualquer castigo penal.

Toda essa bagunça – não se engane – é fruto do governo do PT. A Dilma também é produto deles. Uma burocrata que até hoje não sabe que foi presidente do Brasil, a sétima economia do mundo. No governo a única coisa que fazia era receber ordem do seu guru Lula. E quando ensaiou administrar foi interrompida pelo parceiro que exigiu a cabeça de ministros e outros auxiliares mais próximos dela. Uma presidente de papel, fantoche, que não teve autonomia para exercer o cargo que o povo brasileiro destinou a ela pelo voto.

Ora, a crise ainda é petista. Ou a gente esqueceu que o Temer foi o vice da Dilma em dois mandatos? Ele foi indicado por Lula depois de sucessivas reuniões com os caciques do PMDB. Era paparicado pelos petistas porque dominava o maior partido e o mais bem estruturado do país. Como vice, foi fiel a presidente até perceber que poderia ocupar o lugar dela com manobras escusas.

Diante da crise que se agrava, a petezada, que ainda grita por aí afora o “golpe” e o “Fora Temer”, agora se prepara para outra façanha: derrubar o Temer para tentar eleger o Lula em eleição direta. O nome disso qual é se não golpe.

A voz da rua

 
A estabilização do país e a retomada do crescimento não podem servir de escudo para a manutenção da corrupção e o desmonte da Operação Lava Jato. Os fins não justificam qualquer meio, principalmente os espúrios
Movimento Vem Pra Rua

Náufrago...

Perdidos em alto-mar, procuramos boia e bússola. No Brasil, a tradicional boia da boa colocação era “dada” de favor e pelos amigos. Ela garantia um emprego no “governo” pelo resto da vida com aposentadoria herdada pela esposa, tal como as fazendas de café dos barões que viraram ministros republicanos. Era inadmissível trabalhar com as mãos tanto quanto seria um contrassenso fazer política sem mentir ou tirar vantagem de recursos que, num mundo personalizado, sendo de todos, não era de ninguém. Esse estilo está afundando.

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O enriquecimento assombroso por meio da política, a confusão entre ideologia e obséquio num mundo digital, tem separado o trabalhador do malandro bem como a verdade da mentira. Mas o pior é descobrir que os malandros são os eleitos.

Numa reforma política, o primeiro ponto a ser mudado seria o tamanho dos privilégios embutidos nos cargos. Seria transformar proxenetas da sociedade em servidores do povo. Isso sim, faria o povo ganhar personalidade.

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A tragédia do governo Temer sinaliza que verdade e mentira, oposição e situação, têm um papel indispensável na política democrática. Sem essa divisão, implodimos o Brasil num imenso e criminoso incesto.

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Supomos que o Brasil é tocado por luta de classe, quando basta um noticiário para estampar que ele também é um teatro de ações entre amigos ideologicamente fantasiados.

E como a amizade não foi tema de Marx e Engels (embora eles tenham sido amigos!), nossos teóricos jamais a tomaram como problema digno de estudo - exceto por alguns alienados, como tem sido o meu caso. Machado de Assis que, para alguns, foi um beletrista reacionário, mas que para esse vosso cronista é - ao lado de Manuel Antônio de Almeida e Jorge Amado - um dos nossos melhores sociólogos, tocou nesse tema em toda a sua obra. E, em Dom Casmurro, ele o desnuda, quando revela a transfiguração de um Bentinho inocente num Casmurro paranoico por meio de uma questão que até hoje afeta o nosso sistema: como viver a formalidade que divide e individualiza em paralelo com a informalidade da amizade, que promove simpatias e intimidades? Quem deve ter prioridade? As relações ou os indivíduos por ela envolvidos? Somos donos de nossas vidas ou são nossas vidas (e nossos elos) que nos governam?

Em Memórias de Um Sargento de Milícias, essa questão é aprofundada quando o Major Vidigal, responsável pela ordem pública, desmancha-se quando é visto por meio de suas intimidades. A desmontagem do poderoso pelos amigos é, penso eu, um dos temas centrais da democracia.

No caso do Brasil, porém, os limites e as responsabilidades dos papéis públicos como subordinados aos interesses coletivos só agora têm sido politizados. A construção e a desconstrução de presidentes, governadores, ministros e outras figuras públicas é o problema central do Brasil que precisa descolar atores de papéis. E papéis públicos de amigos pessoais.

Como um presidente, num palácio, esquece o papel que lá o colocou?

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Como é possível a Michel Temer redefinir seus laços com os brothers Wesley e Joesley? Que amizade é essa que ele recebe o sujeito na calada da noite como amigo, mas ele o detona como presidente, num encontro que hoje o faz desenhar como um Drácula? Ou melhor, como um amigo da onça?
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Muito pouco sabemos do significado da amizade em nosso sistema. Os que jamais estudaram Weber dizem que amizade não é assunto para sociólogos sérios. Antropólogos, como Mauss, Lévi-Strauss e Wolf, porém, distinguem a amizade como a dimensão básica do humano.
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No Brasil, foi e tem sido a amizade que, como uma mola, faz alguém subir ou cair, honrar ou roubar. É também a amizade que permite não entrar em fila e esperar - esse elemento trivial da vida democrática. Como Alberto Junqueira e eu indicamos num livro recém-publicado - Fila e Democracia -, as filas só têm legitimidade quando há consciência de igualdade. Mas, como mostra o drama do momento, relações; amizades, compadrios e as simpatias estão na base do elo espúrio e malandro entre a economia, as finanças, a política e os poderes da República.

Esquecemos as coerções impostas pelos cargos públicos em nome das amizades. Promessas ideológicas irrefutáveis e generosas são rompidas pelos deveres implícitos das amizades. No Brasil, a amizade tanto pode libertar quanto condenar. Ela, até hoje - daí a dramaticidade da crise -, permitiu confundir verdade com mentira. Até hoje, o caudilho e eventual tirano é, antes de mais nada, um amigo e um pai.

Sem nenhum controle, a amizade transformou a vida partidária numa farsa ideológica e o sistema político num descarado balcão de negociatas. Ela é o rabo que prende todo mundo...
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É impossível não ter amigos e a sombra abençoada da amizade, mas sem discutir os seus limites é - como estamos vendo, vivendo e adoecendo - impossível construir um país decente. 

Paisagem brasileira

Fontes de água natural brotando das falésias
Praia das Fontes (CE), Alex Uchôa

Cem anos de perdão para Temer e Kassab

O presidente Michel Temer disse que seu aliado Rodrigo Rocha Loures é uma pessoa “de muito boa índole”. Imagine se não fosse. Flagrado recebendo R$ 500 mil de um lobista, ele foi convidado a devolver a propina à Polícia Federal. Ao abrir a mala, os agentes tiveram uma surpresa: faltavam R$ 35 mil.

Nesta quinta, o deputado depositou o resto do dinheiro numa conta judicial. Ele não explicou se o desfalque foi causado por esquecimento, distração ou falta de talento para a matemática. Mesmo sem uma desculpa esfarrapada, o caso já garantiu lugar no anedotário da Lava Jato.


No início do mês, a Folha contou outros episódios de desvio do desvio. O delator André Santana, que trabalhava com os marqueteiros do PT, disse ter sido assaltado num táxi quando carregava dinheiro entregue pela Odebrecht. Ele não soube dizer se carregava R$ 1 milhão ou R$ 1,5 milhão para o caixa dois da chapa Dilma-Temer. De acordo com o relato, a história ficou por isso mesmo.

Em outro depoimento, um executivo narrou o sumiço de propina escondida numa cocheira. É isso mesmo: a maior empreiteira do país teria perdido R$ 8 milhões surrupiados de uma baia do aristocrático Jockey Club Brasileiro, na zona sul do Rio. Até onde se sabe, nenhum cavalo foi intimado a depor sobre o assunto.

O delator João Antônio Bernardi contou uma história menos rocambolesca. Disse ter sido assaltado no Largo da Carioca, perto da sede da Petrobras. Quem conhece a região corre o risco de acreditar, exceto por um detalhe: o batedor de carteira teria levado nada menos que R$ 100 mil.

Na semana passada, o lobista Ricardo Saud fez mais um relato intrigante. Acostumado a distribuir propina em nome da JBS, ele se disse espantado com políticos que teriam embolsado dinheiro destinado às próprias campanhas. “O Michel Temer fez uma coisa até muito deselegante. Nessa eleição, eu só vi dois caras roubar [sic] deles mesmos. Foi o Kassab e o Temer”, afirmou.

Temer, o presidente que uniu o Brasil

Quando assumiu o cargo da presidente afastada Dilma Rousseff, no começo de maio de 2016, Temer prometeu unir o país. Mas nem ele mesmo deveria saber o quão sério falava e quanto estava disposto a mobilizar nesse esforço. Certo é que ele não tinha em mente um inquérito contra si por suspeita de corrupção.

E foi justamente isso que uniu nada menos que 95% dos brasileiros contra ele. Os 5% restantes provavelmente devem se manter ao seu lado por razões de Estado, pelo desejo de continuidade política ou por outros motivos menos ideológicos – e não por alguma lealdade genuína.

Vale lembrar que o presidente do Brasil já era recordista de impopularidade quando, na segunda quinzena de maio, um jornal o acusou de corrupção. Segundo a reportagem, ele concordou com os donos do maior conglomerado de carne do mundo, Joesley e Wesley Batista, sobre o pagamento de um valor de seis dígitos para comprar o silêncio do seu colega de partido Eduardo Cunha, condenado por corrupção.

A denúncia partiu dos próprios empresários, que entregaram à Procuradoria-Geral da República uma gravação do diálogo em questão. O fato de que o presidente precisou de vários dias para afirmar que a gravação da conversa era falsa não ajudou a tornar seu discurso de defesa mais crível. E os brasileiros passaram a ver a questão assim: o presidente precisa deixar o cargo – e, mais especificamente, ir direto para a cadeia.


Isso seria uma bênção para o Brasil. Isso porque provaria mais uma vez o que tem se tornado mais e mais evidente nos últimos tempos: nem influentes criminosos conseguem mais escapar da Justiça. Atualmente, parece que todo mundo está tentando salvar a própria pele. Isso é evidenciado pelo próprio caso do presidente: por que os barões da carne teriam entregado Temer para a Justiça?

Temer acusa os irmãos Batista de terem embolsado alguns milhões com as turbulências cambiais que vieram na esteira da denúncia – algo que eles podiam antecipar. Mas essa não foi a principal motivação deles. Afinal, o testemunho deles também provocou desgaste para eles próprios. É mais provável que em meio a essa grande faxina da Justiça e devido ao passado deles, eles tenham decidido que era melhor fazer um bom negócio antes de ir para o banco dos réus. Tudo seguindo lema: quem dedurar primeiro, se sai melhor. É o que no Brasil se chama de delação premiada.

Um requisito para que Temer se torne o primeiro ex-presidente a ir parar na cadeia deve ser, é claro, um processo íntegro. Sua culpa deve ser impecavelmente determinada – correndo o risco de que, no final, Temer saia impune.

Isso porque mais um caso em que a Constituição é violada para derrubar um chefe de Estado indesejado – como aconteceu na deposição de Dilma –, na melhor das hipóteses só faria com que o Estado brasileiro se tornasse mais popular entre a população no curto prazo.

No entanto, se se quiser que, pela primeira vez em muito tempo, a maioria dos brasileiros tenha confiança nas instituições, é preciso um limpo e, talvez ainda mais importante, transparente processo.

Porque, independentemente do veredito, não se pode deixar espaço para ideólogos que se aproveitem do caso para seus objetivos políticos e que poderiam fazer com que os brasileiros voltem à estaca zero. Se a Justiça brasileira for bem-sucedida nisso, o caso de Temer pode unir os brasileiros para valer.

Terra dos fogos: do lixo de 'Gomorra' ao incêndio de Brasília

Sob o céu de Brasília, na tarde tenebrosa de quarta-feira, 24 de maio, sigo as imagens da cobertura veloz e nervosa da Globo News, canal fechado de TV que sintonizo em Salvador (também em reboliço tenso para os lados da histórica Praça do Campo Grande).

Observo as línguas de fumaça escura que sobem de vários prédios, na Esplanada dos Ministérios, e se espalham pelo espaço sem fim da cidade de marcante “traço do arquiteto”, da poética canção de Djavan, em sua “Linha do Equador”.

Mesmo de longe sente-se, virtualmente, aquela angustiosa e incômoda sensação de travo na boca, causado pelas cenas perversas de desordem predatória e o forte odor de lixo e pólvora misturados no ar.


Aqui e ali, focos de labaredas de fogo riscam o carregado ambiente pré - junino na capital do Brasil. São os sanitários químicos instalados pelo poder público, “para dar conforto e condições dignas” aos participantes da manifestação, convocada pelas centrais sindicais, ao lado de barulhentos e agressivos grupos partidários e estudantis, “de esquerda”.

Mobilizados, segundo afirmam seus dirigentes na rua e no Congresso, para protestar contra a reforma das leis trabalhistas e gritar pelo fim do governo de Michel Temer, metido em seu maior e mais vergonhoso escândalo.
Desde a divulgação de deslavada conversa, pontilhada de malfeitos, gravada pelo dono da JBS (Friboi), Joesley Batista, durante encontro clandestino com o mandatário maior da na& ccedil;ão, altas horas da noite, no palácio presidencial do Jaburu. Tudo (ou quase), revelado à sociedade em furo jornalístico de O Globo, através da coluna de Lauro Jardim, que fez a bola de neve rolar montanha abaixo e alcançar em cheio as terras de fogo do Planalto Central.

O espetáculo horroriza e impressiona: depois de servirem de barricadas para o confronto violento com forças da PM e outras especializadas, em segurança restrita do Congresso e órgãos do poder federal – visivelmente atarantadas e fora de controle, a exemplo de boa parte dos truculentos e estranhos manifestantes - os sanitários foram depredados e queimados, juntamente com a madeira dos tapumes de proteção de ministérios (Agricultura, Fazenda, Integração Nacional, Turismo, Saúde...) e outros prédios públicos.

Daí em diante, decorreu uma das mais temerárias e preocupantes jornadas de vandalismo predatório e irresponsável de que se tem notícia na história de Brasília, que terminou o "dia de cão" sob guarda das Forças Armadas, resultante de ato de convocação sugerido pelo apavorado presidente da Câmara, Rodrigo Maia, imediatamente acatado pelo trôpego mandatário da vez no Palácio do Planalto, que determinou “providências” de seu ministro da Defesa, Raul Jungman. De equívoco em equívoco, de trapalhada em trapalhada, o resultado é o que se viu e o que se vê.

A primeira impressão do jornalista, à distância, é a de uma reedição com impressionantes toques de modernidade, de descrições literárias do romance “Macunaíma – o herói sem caráter” (de Mário de Andrade, publicado nos anos 20), somada a cenas de imagens emblemáticas do filme fundamental do cinema novo, de Joaquim Pedro de Andrade, lançado no final dos anos 60.

Por exemplo, a cena antológica daquele enganador de trabalhadores, (que com falsas promessas arrebanha pessoas desempregadas e desesperançadas), que estaciona um caminhão pau-de-arara, lotado de passageiros recrutados sabe-se lá onde e a que preço.Em local ermo, próximo à entrada de uma grande cidade, cobra a passagem de cada um dos miseráveis e depois avisa: “Pronto, chegamos, agora é cada um por si, e Deus contra”.

Da Cidade da Bahia, penso e sigo tudo com atenção, incredulidade, e alguma desconfiança, não nego: as chamas, o fumaceiro, o lixo e os detritos espalhados pelos amplos espaços da esplendorosa cidade construída, por Oscar Niemeyer, para ser um modelo para o mundo.

Mas, principalmente reparo aquelas espantosas figuras vestidas em coletes da CUT e os seus seguidores (alguns brutamontes, outros garotos quase adolescentes com camisas ou máscaras cobrindo o rosto, que espalham a desordem e o caos, implacavelmente, aos gritos de “Fora Temer” e palavras de ordem sindicais de séculos passados, que falam de realidades sociais, políticas e ideológicas já mortas em seus próprios nascedouros internacionais, mas ainda insepultas nesta parte de baixo da imaginária linha do equador.

A eocupação com princípios, ética, anti-corrupção e corruptores, parecem passar ao largo de suas preocupações e das palavras de ordem gritadas ou escritas nas faixas e cartazes.

Diante do quadro quase surreal, a memória voa, também, para as páginas de outro livro demolidor, igualmente transformado em filme fundamental para os dias que atravessamos, neste mês de maio de arrepiar: “Gomorra”, a extraordinária reportagem do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano, sobre as máfias que agem em Nápoles e em todo misterioso, perverso e depredado ambiente moral de toda a região da Campânia, no sul da Itália.

Ao tempo em que recomendo vivamente, mais uma vez, a leitura (ou releitura) atenta deste livro crucial, pulo páginas e vou direto ao último capítulo de “Gomorra”, antes do ponto final deste artigo semanal de informação e opinião. Que me perdoem os muitos adversários e críticos atuais dos textos jornalísticos opinativos, uma inegável marca histórica de imprensa brasileira desde a sua origem.

Sob o título “Terra dos Fogos”, o jornalista encerra seu livro com descrições impressionantes sobre a política, a economia e a moral nos territórios de domínio da máfia:

“As imagens de um aterro, de um precipício, de uma mina, se tornam cada vez mais sinônimos concretos e visíveis de perigo mortal para quem mora nas redondezas. Quando os aterros estão no limite, toca-se fogo no lixo. Há um lugar na região de Nápoles, que já é chamado de terra dos fogos... Os mais hábeis para organizar o fogo são os garotos ciganos, geralmente romenos, contratados a 50 euros para fazer o trabalho sujo, conta Saviano.

Na terra dos fogos do planalto central do País, depois dos estragos de quarta-feira, restou a pergunta que não quer calar: quem são, de onde vieram e quanto se pagou aos incendiários de Brasília? Responda quem souber , e puna-se todos os responsáveis, antes do próximo incêndio.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Paisagem brasileira

Baía dos Golfinhos Praia da Pipa, Brasil
Praia de Pipa (RN)

Governichos e badernaços

Qual a diferença entre um governo petista e um badernaço promovido por militantes de esquerda? É só a extensão do estrago. Praticamente uma questão contábil.

No episódio do diálogo informal e reservado entre Michel Temer e Joesley Batista, é impossível não perceber que a repercussão institucional e a reação da mídia, especialmente daqueles veículos que pretenderam andar mais rápido do que os fatos, supera, em muito, a reação social. O motivo é simples: o país, sua imagem e o conceito que nós brasileiros firmamos de nós mesmos foram soterrados por verdadeira maré de lama, inibindo sensibilidades. O famoso encontro é apenas mais um escândalo encenado em nossa Broadway de maus espetáculos políticos. Exagero? Ora, não conseguimos, agora mesmo, realizar a proeza de denunciar um escândalo, mediante acordo de delação cujas condições são, por si mesmas, escandalosas? Não concedeu a justiça brasileira aos Batista brothers, carimbada e selada, a certificação de um crime tão gigantesco quanto perfeito?


Qualquer análise política dos fatos em curso que ignore esses dois vetores – saturação da opinião pública e a intensidade do risco PT – corre o risco de enfrentar problemas de comunicação e compreensão. O prestígio do presidente é tão pouco diferente de zero que pode, para efeitos práticos, ser considerado nulo. Mas a alternativa... Ah! Quem confia nos atores que se alvoroçam para assumir o papel? O simples fato de pretenderem desempenhá-lo já os descredencia porque os mecanismos que os poderiam beneficiar são os mesmos que interromperiam o processo de recuperação econômica e ampliariam o dano aos setores mais carentes do país. Os desempregados, os subempregados, os sem qualquer esperança, não entendem muito de política. São a massa facilmente ludibriável, mas reconhecem as notícias ruins, que vão, logo ali, alcançar seu bolso, sua mesa e suas famílias.

Isso já ficou muito claro para quem, observando as atuais manifestações de rua, nota que elas se restringem aos militantes de sempre, divididos em dois grupos distintos: o grupo daqueles cuja esperança tem preço e o daqueles que preferem receber pouco, mas à vista.

O presidencialismo brasileiro, em situação normal, é um desastre sempre pronto para acontecer. A cada dia que passa, o que está em curso tem o dom de estampar sorrisos em fisionomias que prefiro de cenho ferrado e vociferantes. Não nos surpreendamos, então, se o Fora Temer acabar reconsolidando a base e dando suporte à sua presidência. Afinal, dirão muitos, o mal menor não tem presidido tantas decisões políticas e eleitorais em nosso país? Tal fato será mais uma conseqüência do desastre ético que foram os treze anos do governo PT/PMDB. Terceirizamos a moralidade pública para a Lava Jato e nos tornamos ainda mais escandalosamente tolerantes.

Percival Puggina

Cidadãos ativos

Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais.


Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo. A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos ativos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar. 
Mia Couto

Em nome dos deuses

Não deixa de ser irônico que a religião, acusada pelos velhos comunistas de ser o “ópio do povo”, hoje assuste seus fiéis dizendo que a política é que se transformou no “ópio do povo”. Partidos se tornaram guardiães de dogmas, com seus líderes transformados numa espécie de santos modernos, que devem ser cultuados, que nunca falham, que não erram, que não roubam... rsrs.

Hoje, as religiões têm até seus próprios partidos políticos, sempre baseados em dogmas e “princípios divinos”, produzindo novos ópios para os povos. O radicalismo religioso é o fundamento “moral” do Estado Islâmico.

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Pastores, padres e mulás continuam estimulando guerras em nome de Deus, assim como líderes políticos as defendem em nome da “causa popular”, como a única verdade, a única certeza, e os que pensam diferente são perseguidos como “infiéis”. Ou “burgueses”.

Na hora em que as religiões se politizam, sempre em nome de um “Deus” a que só eles têm acesso, que só eles conhecem e interpretam, vale a pena rever o que o filósofo holandês Baruch Spinoza escreveu no século XVII, usando seu racionalismo para falar, também ele, em nome de Deus.

“Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz e te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio, como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?

Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar. Para de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro de ti... aí é que estou.”

Nelson Motta

Imagem do Dia

New York
Parque Estadual de Watkins Glen (EUA)

Antes dos nomes, será necessário definir critérios

A terra continua em transe e a política no Brasil é só vertigem, tensão, indefinição. Mente quem diz saber onde canta o galo e no que tudo pode resultar. As principais varáveis saíram do controle, perdeu-se racionalidade e há inúmeros fatores de incerteza. Os protagonistas são inábeis para extrair o tumor sem deixar sequelas. No mais, da Lava Jato sempre poderá irromper mais um vulcão.

Michel Temer afirma que não renunciará; antes, prefere ser derrubado. A batalha só está perdida quando se ergue bandeira branca; o presidente ganha tempo, até para negociar melhor a saída. Que moribundo descrê de milagre? Todavia, o agravamento da situação fica evidente: a confiança de que o presidente reagirá é, a cada dia, mais tênue. Mesmo desqualificando o mensageiro, o governismo não consegue apaga a mensagem: os detalhes do encontro com Joesley Batista levarão a vida toda para explicar.


O presidente já não governa, apenas cuida de sua defesa: articula apoios e jantares em que vai ficando só. No Congresso Nacional, não há ordem unida, nem controle. No front das reformas, o cronograma se perdeu. Na economia, reversões de expectativas são preocupantes. Pior que o temor da deterioração do ambiente é a sensação de que o ambiente de fato se deteriorou. Já haveria vazio de poder?

A céu aberto, se discute o nome que substituirá Temer. Jornalistas especulam; caciques partidários cogitam; empresários, em desespero, questionam: qual é o nome? Ansiedade e precipitação ampliam as possibilidades de erro. Colocar a carroça a frente dos bois, discutir nomes e não critérios, talvez seja o primeiro deles. Os critérios, contudo, dependem da consciência dos problemas.

Necessário ir às causas estruturais da crise. Os problemas não estão apenas em Temer; como não estavam exclusivamente em Dilma, não estarão só em Rodrigo Maia. Na internet, já há meme “Fora Maia” — não apenas por sarcasmo, mas também pela evidência estrutural dos problemas. Troca-se moscas, nomes se sucedem e o país continua na mesma.

O sistema deixou de funcionar: o presidencialismo de coalizão baseado no fisiologismo chegou ao colapso. O tradicional modo de financiamento da política chegou ao esgotamento — o patrimonialismo matou a galinha dos ovos de ouro. O mal corporativista está ativo e oculto; uma terrível crise de liderança revela o desgaste dos materiais e a falta de renovação.

A crise econômica é resultado de um pouco de tudo; omitir sua natureza política, não dissipa os problemas, apenas prolonga o drama. Confunde-se efeitos e causas, se quer amenizar a dor, mas se não se vai à doença. Nomes com foco específico nas reformas econômicas — Maia ou Meirelles —, não compreendem a natureza política da crise; são incapazes de superá-la. Tornam-se água que vai à chama, não à origem do fogo. Quer-se baldear um naufrágio com as mãos.

Os critérios deveriam ser claros: primeiro, a obediência à Constituição; depois, não bulir com a Operação Lava Jato — nos limites da lei, ela pode levar a ajustes na relação público-privado. Ao mesmo tempo, necessário preservar Meirelles e a área econômica — tudo o que o país não precisa é de mais incerteza e a sensação de ainda maior amadorismo.

Importante comunicar a gravidade da situação: o governo quebrou, não há soluções simples; mostrar os dados, persuadir sem cooptar — tudo o que Temer foi incapaz de fazer. No mais, a concertação dependerá do distensionamento político: reduzir os conflitos a patamares civilizados; tolerância e pacto de convivência democrática. Reconfigurar o sistema político. Correndo tudo muito bem, avançar na agenda de reformas econômicas.

O certo é que não se deveria começar pelos “poréns”, críticas e defeitos do possível sujeito. Com vetos e restrições, não se chegará a indivíduo algum. Deve-se partir dos “contudos”: em que pese imperfeições e poréns, o nome, contudo — não obstante, ainda assim — será capaz de identificar causas, respeitar critérios, formar boa coalizão, dialogar, comunicar, articular consensos possíveis? O país chegará a bom termo, em 2018?

Chega-se ao ponto: qual seria o Hércules — raro no mundo contemporâneo — capaz de superar esta dúzia de trabalhos? Definida a gramática, qual a prosódia da concertação: a determinação gaúcha de Jobim ou mansidão cearense de Jereissati?

Carlos Melo

Não é poder, é podre mesmo

Tanto as denúncias contra o ex-presidente Lula quanto essas outras coisas que vieram à tona na semana passada sobre atual presidente são manifestações do mesmo fenômeno.
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Nós temos um sistema político apodrecido. Se não tratarmos a causa desse problema, nós continuaremos com esse problema. Vão mudar as lideranças, vão mudar os rostos, mas o problema vai continuar existindo
Deltan Dallagnol, procurador da Lava Jato

Temer precisa decidir: ex-presidente ou estorvo?

Brasília vive sob atmosfera de franca anormalidade. Não bastasse a crise política, sindicatos e movimentos sociais transformaram o que deveria ser um ato pacífico contra Michel Temer e suas reformas num quebra-quebra que resultou em danos físicos e ao patrimônio de todos os brasileiros. A anormalidade se reflete também no Congresso. Ali, os parlamentares oscilam entre o gritaria e o empurra-empurra. Contra esse pano de fundo conturbado, há em Brasília um governo que já não governa os acontecimentos, é governado pelos fatos.

A ideia de que Temer dirige o país nesta ou naquela direção é uma ilusão. A essa altura, o suposto presidente tem dificuldades até para exercer poder efetivo sobre o grupo de cerca de 50 pessoas que o assessoram mais diretamente. Do lado de fora, o Planalto ganhou o adorno de soldados do Exército, acionados para manter a ordem, evitando o incômodo de manifestantes arruaceiros.

Nesse contexto, aproxima-se o momento em que Michel Temer terá de decidir que papel deseja desempenhar. O núcleo central do seu governo apodreceu. Seus aliados lhe dão as costas. As lideranças políticas, ou o que restou delas depois da Lava Jato, negociam o pós-Temer. Dá-se de barato que o presidente já não consegue passar nem a impressão de que comanda. Restam a Temer dois papeis: o de ex-presidente ou o de estorvo.

Tempos esquisitos

Anteontem, manifestantes em grande número, convocados e bancados pelas centrais sindicais, se reuniram em Brasília para pedir o afastamento do presidente da República. Têm lá os seus motivos. Não são os mesmos que os meus, por exemplo, cada cabeça uma sentença. Mas em vez de expor o que sentem e pensam com a cabeça, preferem usar a força bruta, se comportar como irracionais. Depredar prédios que pertencem a todos os brasileiros, deixar a nossa capital em estado lastimável, amedrontar quem lá trabalha, fazer da nossa bandeira uma piada de mau gosto.

A Polícia Militar de Brasília não soube agir, deu tiros para o alto e para os lados, fez um estrago medonho, mas não soube cumprir sua obrigação primordial, defender e proteger o povo e os prédios públicos. Perseguiu e feriu a Imprensa que estava lá para nos informar.


Que fez o Governo Federal, acuado em seus palácios e vendo a baderna se avolumar pela Esplanada dos ministérios? Convocou as Forças Armadas e logo apareceram os que não sabem ver uma farda sem associá-la aos horrores de 64 e gritam: "Forças Armadas, não!".

Como assim, Forças Armadas, não? Tempos muito esquisitos esses em que não se faz Justiça ao comportamento exemplar de nossos soldados desde a queda do regime militar, em 1985.

Queriam o quê? Deixar que os entusiasmados filhotes dos sindicatos arrebentassem com a capital? Por pouco não atingem a Catedral, por pouco não fazem de Brasília uma filial do inferno.

Pois as Forças Armadas compreenderam muito melhor e aceitaram com garbo a vontade do povo exprimida pelas Diretas Já!, muito mais do que certos civis que só pensam em como se manter no poder para usufruir do tal do foro privilegiado.

O comportamento de nossos soldados tem sido exemplar. Deles é a obrigação de zelar por nossas fronteiras e pela Lei e a Ordem. Se mais não fazem, é porque lhes falta dinheiro até para o rancho, até para os coturnos, até para manter os quartéis em bom estado.

Não sou eleitora dos bolsonaros da vida. Meu coração enregela ao pensar que eles poderiam ocupar o Planalto. Justamente por isso é que não deixarei de agradecer ao bom desempenho dos soldados que juraram e cumprem nossa Constituição.

Ainda por cima, foi muito barulho por quase nada. As Forças Armadas ficaram na Esplanada por menos de 24 horas. Foram dispensadas ontem pela manhã. A ordem já tinha sido restabelecida. Outro ponto a favor delas.

Mas os tempos estão mesmo muito esquisitos. Vemos jornalistas terem suas fontes violadas, vemos juízes que cumprem exemplarmente suas funções serem criticados por advogados que esquecem o juramento que fizeram ao serem admitidos na OAB: "O verdadeiro advogado presta serviços a seu cliente, mas a ele não pode ser subordinado. Não fazemos o que o cliente quer, mas o que a lei nos permite para que possamos defender seus direitos e interesses".

E vemos também, absolutamente chocados, tratamento diferenciado para criminosos que cometeram o mesmo crime: a corrupção que arrebenta com nossos hospitais, com nossas escolas, com nossas vidas, que ameaça nosso mais valioso bem, a democracia. Tempos muito esquisitos...