Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa
Os farrapos completam
a paisagem íntima
O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante
Depois as doze horas de trabalho
Escravo
Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra
A velhice vem cedo
Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.
Agostinho Neto
sexta-feira, 3 de outubro de 2025
Israelenses e palestinos: divididos para sempre?
O quadro apresentado pelas pesquisas é cada vez mais claro: a maioria dos israelenses e palestinos perdeu a confiança mútua e, com ela, também a esperança de que o conflito possa um dia ser resolvido pacificamente.
Isso ficou particularmente evidente em uma pesquisa publicada em agosto de 2025 pela Universidade Hebraica de Jerusalém : 62% dos israelenses entrevistados concordaram com a afirmação "não há pessoas inocentes em Gaza". Se forem considerados apenas os judeus israelenses, esse número chega a 76%.
"Estou chocado com a pouca humanidade que existe. Minha maior preocupação com Israel é a falta de empatia", disse Corey Gil-Shuster, diretor do programa de mestrado em Resolução de Conflitos e Mediação da Universidade de Tel Aviv, à DW. "As pessoas nem sentem empatia por crianças, idosos ou doentes, como pacientes com câncer."
Desde 2012, Gil-Shuster aborda regularmente temas controversos em sua série de vídeos na web, The Ask Project, solicitando aos espectadores que formulem perguntas, que ela então dirige diretamente a ambas as populações em pesquisas de rua. Em um vídeo, ela perguntou aos palestinos se eles apoiariam novas ações, como o ataque terrorista contra Israel em 7 de outubro de 2023. Em outro clipe, ela pergunta aos israelenses se eles estão felizes com o sofrimento da população de Gaza.
Recentemente, uma mulher no norte de Israel deu de ombros quando questionada sobre empatia pelos idosos, doentes e crianças, relata Gil-Shuster com tristeza. "Eu nem penso no que o mundo pensa de nós; esse é outro assunto. Estou comovida com a pouca humanidade que há nesta questão", observa ela. Desde 7 de outubro de 2023, houve "uma desumanização quase completa".
Khalil Shikaki também identifica um ponto baixo na relação entre os dois lados. O cientista político dirige o Centro Palestino de Pesquisa de Política e Opinião (PCPSR) em Ramallah. "Nos últimos dois anos, houve uma desumanização quase total. Ambas as sociedades chegaram a um ponto em que não estão dispostas a reconhecer a humanidade uma da outra", explica.
Shikaki afirma à DW que esse fato também tem um impacto significativo nos compromissos que as pessoas estão dispostas a assumir para alcançar uma solução de paz. O especialista realiza regularmente pesquisas de opinião nos territórios palestinos e também participa de estudos conjuntos com israelenses. Sua última pesquisa, de maio de 2025, revelou, entre outras coisas, um ceticismo significativo entre os palestinos. Na Faixa de Gaza, 69% e na Cisjordânia, 88% dos entrevistados não acreditam que Israel se retirará de Gaza, mesmo que o Hamas entregue suas armas.
Mas Shikaki também ressalta que a confiança mútua não precisa ser um pré-requisito para a reaproximação, mas que ela pode florescer no decorrer de um processo de paz. "Se esperarmos que palestinos e israelenses confiem uns nos outros, isso nunca acontecerá", lamenta.
Mas como alcançar a reaproximação após décadas de conflito? O norte-irlandês Gary Mason aborda essa questão e, com sua organização Rethinking Conflict, compartilha as experiências do conflito na Irlanda do Norte com pessoas no Oriente Médio. Em ambos os casos, há questões controversas relacionadas a território, identidade e religião, disse Mason em entrevista à DW.
Além dos extremos, tanto israelenses quanto palestinos querem uma solução para o conflito. "Se houver um cessar-fogo no Oriente Médio nos próximos quatro a seis meses, acho que ainda pode levar de cinco a dez anos até que um acordo de paz seja alcançado. Na Irlanda do Norte, 27 anos após o Acordo da Sexta-Feira Santa, ainda precisamos continuar trabalhando em nosso processo de paz", enfatiza Mason.
Segundo Gil-Shuster, muitas pessoas já se resignaram ao conflito e se adaptaram à situação. Mas uma comunicação política adequada pode mudar isso. "O primeiro passo é uma campanha de marketing: estamos todos cansados, não queremos continuar assim, e é por isso que estamos agindo agora", diz ela. "É preciso dar às pessoas uma visão do que isso pode significar. E então é preciso continuar falando sobre isso, fazendo marketing, como se Israel e Palestina fossem um produto."
Para lançar um processo de paz confiável, é necessário o apoio de atores externos confiáveis, diz Shikaki, especificamente os Estados Unidos, como o aliado mais próximo de Israel, e os estados árabes, como defensores dos palestinos.
"Com base nas pesquisas conjuntas entre israelenses e palestinos, fica claro que, neste caso, os israelenses estariam dispostos a mudar de ideia e apoiar uma solução de dois Estados."
Entre os palestinos, isso está ganhando novo impulso, embora, ao mesmo tempo, dois terços deles duvidem de sua viabilidade, segundo pesquisas. Em setembro, França, Reino Unido, Austrália e outros países deram o passo, em grande parte simbólico, de reconhecer um Estado palestino. O plano de Trump prevê pelo menos um "caminho confiável para a autodeterminação e soberania palestinas" após reformas na administração palestina.
O governo israelense rejeita veementemente um Estado palestino com plenos direitos e recentemente intensificou a construção de assentamentos na Cisjordânia ocupada. Além disso, o Índice de Paz da Universidade de Tel Aviv, baseado em pesquisa, documenta o declínio do apoio israelense a uma solução de dois Estados: em abril/maio de 2025, apenas 21% dos judeus israelenses eram a favor de uma solução de dois Estados.
De qualquer forma, a Cisjordânia ocupada é tão fragmentada por assentamentos israelenses que os críticos consideram um estado palestino irrealista devido à falta de território contíguo.
No entanto, o exemplo da Irlanda do Norte mostra que isso não precisa ser um critério para excluir uma reaproximação. Na capital, Belfast, certas áreas unionistas ou republicanas ainda são separadas por muros cujos portões são fechados todas as noites. "Quando chegar a hora, eles serão derrubados", diz Mason. "Depois de um conflito, 27 anos não é muito tempo, especialmente porque as memórias aqui são tão intensas."
Mason trabalha com conflitos desde o início da década de 1990. Naquela época, israelenses e palestinos negociavam no âmbito do processo de paz de Oslo, "e a Irlanda do Norte era considerada o grande conflito insolúvel", afirma. Hoje, são israelenses e palestinos os que mais têm dúvidas sobre se conseguirão se reconciliar em um futuro próximo.
David Ehl / Shani Rozanes
Isso ficou particularmente evidente em uma pesquisa publicada em agosto de 2025 pela Universidade Hebraica de Jerusalém : 62% dos israelenses entrevistados concordaram com a afirmação "não há pessoas inocentes em Gaza". Se forem considerados apenas os judeus israelenses, esse número chega a 76%.
"Estou chocado com a pouca humanidade que existe. Minha maior preocupação com Israel é a falta de empatia", disse Corey Gil-Shuster, diretor do programa de mestrado em Resolução de Conflitos e Mediação da Universidade de Tel Aviv, à DW. "As pessoas nem sentem empatia por crianças, idosos ou doentes, como pacientes com câncer."
Desde 2012, Gil-Shuster aborda regularmente temas controversos em sua série de vídeos na web, The Ask Project, solicitando aos espectadores que formulem perguntas, que ela então dirige diretamente a ambas as populações em pesquisas de rua. Em um vídeo, ela perguntou aos palestinos se eles apoiariam novas ações, como o ataque terrorista contra Israel em 7 de outubro de 2023. Em outro clipe, ela pergunta aos israelenses se eles estão felizes com o sofrimento da população de Gaza.
Recentemente, uma mulher no norte de Israel deu de ombros quando questionada sobre empatia pelos idosos, doentes e crianças, relata Gil-Shuster com tristeza. "Eu nem penso no que o mundo pensa de nós; esse é outro assunto. Estou comovida com a pouca humanidade que há nesta questão", observa ela. Desde 7 de outubro de 2023, houve "uma desumanização quase completa".
Khalil Shikaki também identifica um ponto baixo na relação entre os dois lados. O cientista político dirige o Centro Palestino de Pesquisa de Política e Opinião (PCPSR) em Ramallah. "Nos últimos dois anos, houve uma desumanização quase total. Ambas as sociedades chegaram a um ponto em que não estão dispostas a reconhecer a humanidade uma da outra", explica.
Shikaki afirma à DW que esse fato também tem um impacto significativo nos compromissos que as pessoas estão dispostas a assumir para alcançar uma solução de paz. O especialista realiza regularmente pesquisas de opinião nos territórios palestinos e também participa de estudos conjuntos com israelenses. Sua última pesquisa, de maio de 2025, revelou, entre outras coisas, um ceticismo significativo entre os palestinos. Na Faixa de Gaza, 69% e na Cisjordânia, 88% dos entrevistados não acreditam que Israel se retirará de Gaza, mesmo que o Hamas entregue suas armas.
Mas Shikaki também ressalta que a confiança mútua não precisa ser um pré-requisito para a reaproximação, mas que ela pode florescer no decorrer de um processo de paz. "Se esperarmos que palestinos e israelenses confiem uns nos outros, isso nunca acontecerá", lamenta.
Mas como alcançar a reaproximação após décadas de conflito? O norte-irlandês Gary Mason aborda essa questão e, com sua organização Rethinking Conflict, compartilha as experiências do conflito na Irlanda do Norte com pessoas no Oriente Médio. Em ambos os casos, há questões controversas relacionadas a território, identidade e religião, disse Mason em entrevista à DW.
Além dos extremos, tanto israelenses quanto palestinos querem uma solução para o conflito. "Se houver um cessar-fogo no Oriente Médio nos próximos quatro a seis meses, acho que ainda pode levar de cinco a dez anos até que um acordo de paz seja alcançado. Na Irlanda do Norte, 27 anos após o Acordo da Sexta-Feira Santa, ainda precisamos continuar trabalhando em nosso processo de paz", enfatiza Mason.
Segundo Gil-Shuster, muitas pessoas já se resignaram ao conflito e se adaptaram à situação. Mas uma comunicação política adequada pode mudar isso. "O primeiro passo é uma campanha de marketing: estamos todos cansados, não queremos continuar assim, e é por isso que estamos agindo agora", diz ela. "É preciso dar às pessoas uma visão do que isso pode significar. E então é preciso continuar falando sobre isso, fazendo marketing, como se Israel e Palestina fossem um produto."
Para lançar um processo de paz confiável, é necessário o apoio de atores externos confiáveis, diz Shikaki, especificamente os Estados Unidos, como o aliado mais próximo de Israel, e os estados árabes, como defensores dos palestinos.
"Com base nas pesquisas conjuntas entre israelenses e palestinos, fica claro que, neste caso, os israelenses estariam dispostos a mudar de ideia e apoiar uma solução de dois Estados."
Entre os palestinos, isso está ganhando novo impulso, embora, ao mesmo tempo, dois terços deles duvidem de sua viabilidade, segundo pesquisas. Em setembro, França, Reino Unido, Austrália e outros países deram o passo, em grande parte simbólico, de reconhecer um Estado palestino. O plano de Trump prevê pelo menos um "caminho confiável para a autodeterminação e soberania palestinas" após reformas na administração palestina.
O governo israelense rejeita veementemente um Estado palestino com plenos direitos e recentemente intensificou a construção de assentamentos na Cisjordânia ocupada. Além disso, o Índice de Paz da Universidade de Tel Aviv, baseado em pesquisa, documenta o declínio do apoio israelense a uma solução de dois Estados: em abril/maio de 2025, apenas 21% dos judeus israelenses eram a favor de uma solução de dois Estados.
De qualquer forma, a Cisjordânia ocupada é tão fragmentada por assentamentos israelenses que os críticos consideram um estado palestino irrealista devido à falta de território contíguo.
No entanto, o exemplo da Irlanda do Norte mostra que isso não precisa ser um critério para excluir uma reaproximação. Na capital, Belfast, certas áreas unionistas ou republicanas ainda são separadas por muros cujos portões são fechados todas as noites. "Quando chegar a hora, eles serão derrubados", diz Mason. "Depois de um conflito, 27 anos não é muito tempo, especialmente porque as memórias aqui são tão intensas."
Mason trabalha com conflitos desde o início da década de 1990. Naquela época, israelenses e palestinos negociavam no âmbito do processo de paz de Oslo, "e a Irlanda do Norte era considerada o grande conflito insolúvel", afirma. Hoje, são israelenses e palestinos os que mais têm dúvidas sobre se conseguirão se reconciliar em um futuro próximo.
David Ehl / Shani Rozanes
Você é um número
Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento -- tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio também recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número de recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás, é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número sexo, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando como um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?
Clarice Lispector
Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio também recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número de recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás, é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número sexo, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando como um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?
Clarice Lispector
Desumanidade
Alguém que diz ‘sou contra o aborto’, mas concorda com o tratamento desumano de imigrantes nos Estados Unidos, eu não sei se isso é pró-vida.
Papa Leão XIV
Trump, Hegseth e os macho men
A sequência das fotografias é poderosa: Donald Trump segura na mão o telefone fixo, Benjamin Netanyahu encosta o auscultador ao ouvido e liga para o Qatar para pedir desculpas públicas pelo ataque israelita. A imagem é clara: nem o incorrigível Netanyahu resiste a Trump.
Este é o tom da Administração Trump, cuja propaganda assenta fundamentalmente na ideia do homem-forte que exerce a autoridade sem piedade, a toda a velocidade, a partir de coisas pelo caminho. Ele é o xerife que entra no saloon para “endireitar” o lugar.
As tarifas são ideológicas? Sim, mas têm esta mensagem indexada: ou alinham ou sofrem. As universidades são woke? É o que veremos. Os prefeitos e os governadores democratas não apertam com os meliantes nas suas cidades e nos seus estados? Vamos lá pôr a tropa.
Isto mesmo garantiu Trump num evento que juntou, em Quantico, mais de 800 altas patentes do Exército norte-americano: “Disse ao Pete [Hegseth, secretário da Defesa] que devemos utilizar algumas destas cidades perigosas como campos de treino para os nossos militares e para a Guarda Nacional.”
Nesta mesma cerimônia, cheia de gente fardada, perfeitamente barbeada e alinhada, também foi dito isto: não há lugar para homens de barba ou com barriga, só os mais aptos fisicamente podem continuar (e os testes físicos vão subir de nível), e se as mulheres não aguentarem a exigência, azar o delas. Uma posição curiosa, visto que o caminho das próximas guerras parece ser o dos conflitos híbridos, dos drones, robôs e inteligência artificial, que reduzirão previsivelmente o número de botas no terreno.
Na prática, o que Hegseth — um ex-Marine que gosta de exibir as suas proezas atléticas, de praticar exercício ao lado de soldados e ocasionalmente revelar confidencialidades no Signal — organizou foi um encontro para-religioso de adoração ao poderoso líder dos EUA.
Um momento bizarro, mas também preocupante, que lembra episódios antigos em que uma estrutura militar foi subjugada à vontade de um líder ressentido e pouco recomendável. Pior: este não é um acto isolado, sucede à robusta parada de Junho, em Washington, que deixou o mundo espantado com o espetáculo militarista.
Visto de fora, parece o início de um enredo de um filme catastrofista, em que homens maniqueístas de cabelo à escovinha assumem o controle de uma sociedade democrática. A caricatura e a sátira do último filme de Paul Thomas Anderson aplicadas à realidade: os macho men.
Este é o tom da Administração Trump, cuja propaganda assenta fundamentalmente na ideia do homem-forte que exerce a autoridade sem piedade, a toda a velocidade, a partir de coisas pelo caminho. Ele é o xerife que entra no saloon para “endireitar” o lugar.
As tarifas são ideológicas? Sim, mas têm esta mensagem indexada: ou alinham ou sofrem. As universidades são woke? É o que veremos. Os prefeitos e os governadores democratas não apertam com os meliantes nas suas cidades e nos seus estados? Vamos lá pôr a tropa.
Isto mesmo garantiu Trump num evento que juntou, em Quantico, mais de 800 altas patentes do Exército norte-americano: “Disse ao Pete [Hegseth, secretário da Defesa] que devemos utilizar algumas destas cidades perigosas como campos de treino para os nossos militares e para a Guarda Nacional.”
Nesta mesma cerimônia, cheia de gente fardada, perfeitamente barbeada e alinhada, também foi dito isto: não há lugar para homens de barba ou com barriga, só os mais aptos fisicamente podem continuar (e os testes físicos vão subir de nível), e se as mulheres não aguentarem a exigência, azar o delas. Uma posição curiosa, visto que o caminho das próximas guerras parece ser o dos conflitos híbridos, dos drones, robôs e inteligência artificial, que reduzirão previsivelmente o número de botas no terreno.
Na prática, o que Hegseth — um ex-Marine que gosta de exibir as suas proezas atléticas, de praticar exercício ao lado de soldados e ocasionalmente revelar confidencialidades no Signal — organizou foi um encontro para-religioso de adoração ao poderoso líder dos EUA.
Um momento bizarro, mas também preocupante, que lembra episódios antigos em que uma estrutura militar foi subjugada à vontade de um líder ressentido e pouco recomendável. Pior: este não é um acto isolado, sucede à robusta parada de Junho, em Washington, que deixou o mundo espantado com o espetáculo militarista.
Visto de fora, parece o início de um enredo de um filme catastrofista, em que homens maniqueístas de cabelo à escovinha assumem o controle de uma sociedade democrática. A caricatura e a sátira do último filme de Paul Thomas Anderson aplicadas à realidade: os macho men.
Del rigor en la ciencia
O erudito e admirável Jorge Luis Borges, maldito a ponto de se permitir manifestações racistas e se deixar ser condecorado pelo sanguinário Pinochet, produziu um magistral conto de um só parágrafo de 118 palavras e referência pérfida, Del rigor en la ciência, descrevendo o destino do inútil “Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele”. Lewis Carroll, em Sylvie and Bruno concluded, já tinha elucubrado sobre a utilidade de “um mapa de um país em escala de uma milha por milha!” Pois é, o racionalismo ocidental utiliza-se da abstração como método de análise, a decomposição do real em elementos universais (simples).
Todo coletivo é uma abstração. Quando falo da África, meus filhos dizem que a África não existe, que eu estou generalizando, e perguntam, “Qual África, a do Norte árabe e muçulmano ou a África Subsaariana?” Se eu disser que é a Subsaariana, eles dirão que ela também não existe e vão querer saber de qual país especificamente eu estou falando. Será da Guiné, da Guiné Equatorial ou da Guiné-Bissau? E poderíamos continuar, seriam os Fulas, os Balantas, Manjacos, Mandingas, Papéis ou alguma outra das mais de 20 etnias que vivem na Guiné-Bissau?
Quando nos debruçamos sobre a metodologia utilizada pelos organismos internacionais para comparar os indicadores econômicos e sociais dos vários países do planeta, nos deparamos com inúmeras “liberdades” muito pouco criteriosas, como a utilização de índices proxy (indiretos, análogos) para dados não disponíveis em determinados países; e a utilização de indicadores extrapolados de países que apresentam características “semelhantes”.
Mas, embora com vários problemas metodológicos, os indicadores sociais dos organismos internacionais acabam por refletir sim a “realidade” dos diversos países do mundo – a realidade do ponto de vista do ocidente, mais precisamente da União Europeia e dos Estados Unidos.
Até o século XVIII, a riqueza entre as nações do mundo não era muito diferenciada. A significativa disparidade econômica teve início com o capitalismo industrial, que provocou, a partir do século XIX, a desestruturação das sociedades agrárias europeias, um intenso fluxo migratório em direção às cidades e a imigração em massa de alemães, escandinavos, eslavos, espanhóis, franceses, ingleses, irlandeses, italianos e portugueses para as Américas. A África foi completamente colonizada e as longínquas e tradicionais China e Índia foram submetidas ao ocidente no mesmo período.
No início do século XX, diante do refluxo da hegemonia inglesa, o mundo mergulhou na Primeira Guerra Mundial, que marcou o fim dos impérios multiétnicos, multiculturais e multilinguísticos Austro-húngaro, Otomano e Russo. Na sequência, mergulhamos na Segunda Guerra Mundial, na Guerra Fria entre os blocos capitalista e comunista… e aqui chegamos aos tempos interessantes deste século XXI, entre as guerras no Haiti, Ucrânia, Congo, Sahel (sul do Saara), Sudão, Somália-Etiópia, Iêmen, Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Afeganistão, Mianmar…
Com a generalização da mercadoria, a sociabilidade e o consumo distanciaram a Europa e os Estados Unidos dos demais países – e o padrão de vida ocidental passou a ser referência mundial. Do ponto de vista do ocidente, as sociedades exóticas gostariam de atingir o status ocidental, sinônimo de “civilização”. As elites de todos os países do mundo mandam seus filhos estudar nas universidades europeias e norte-americanas e, dessa e de outras formas, os valores ocidentais passam a se contrapor aos valores das sociedades tradicionais. Alfabetização, racionalização, progresso, desenvolvimento e nível de consumo passaram a ser vistos como a meta a ser alcançada pelo resto do planeta. E os indicadores econômicos e sociais dos organismos internacionais pontuam a distância de cada um dos países ao “paraíso terrestre”.
Enquanto isso, massas de imigrantes batem desesperadamente à porta da Europa e dos Estados Unidos. Levas de habitantes do terceiro mundo se arriscam para fugir das guerras e do “atraso de vida”, em busca da “civilização”. Muitos perecem no caminho, outros voltam deportados, e os demais submetem-se a viver como imigrantes ilegais ou cidadãos de segunda categoria em sociedades xenófobas.
O ocidente, o paraíso terrestre, ao que tudo indica, está pagando a conta de sua selvagem colonização do globo. Ernesto Mané, em Antes do início, cita um diálogo em Lisboa em 2011 – “… alguém lhe disse: ‘Preto, volta para a sua terra’. Ele respondeu: ‘Vocês chegaram à minha terra em 1400 e, de lá, só saíram em 1978; eu estou na sua terra há apenas três anos, então falta muito ainda para estarmos quites.’
Todo coletivo é uma abstração. Quando falo da África, meus filhos dizem que a África não existe, que eu estou generalizando, e perguntam, “Qual África, a do Norte árabe e muçulmano ou a África Subsaariana?” Se eu disser que é a Subsaariana, eles dirão que ela também não existe e vão querer saber de qual país especificamente eu estou falando. Será da Guiné, da Guiné Equatorial ou da Guiné-Bissau? E poderíamos continuar, seriam os Fulas, os Balantas, Manjacos, Mandingas, Papéis ou alguma outra das mais de 20 etnias que vivem na Guiné-Bissau?
Quando nos debruçamos sobre a metodologia utilizada pelos organismos internacionais para comparar os indicadores econômicos e sociais dos vários países do planeta, nos deparamos com inúmeras “liberdades” muito pouco criteriosas, como a utilização de índices proxy (indiretos, análogos) para dados não disponíveis em determinados países; e a utilização de indicadores extrapolados de países que apresentam características “semelhantes”.
Mas, embora com vários problemas metodológicos, os indicadores sociais dos organismos internacionais acabam por refletir sim a “realidade” dos diversos países do mundo – a realidade do ponto de vista do ocidente, mais precisamente da União Europeia e dos Estados Unidos.
Até o século XVIII, a riqueza entre as nações do mundo não era muito diferenciada. A significativa disparidade econômica teve início com o capitalismo industrial, que provocou, a partir do século XIX, a desestruturação das sociedades agrárias europeias, um intenso fluxo migratório em direção às cidades e a imigração em massa de alemães, escandinavos, eslavos, espanhóis, franceses, ingleses, irlandeses, italianos e portugueses para as Américas. A África foi completamente colonizada e as longínquas e tradicionais China e Índia foram submetidas ao ocidente no mesmo período.
No início do século XX, diante do refluxo da hegemonia inglesa, o mundo mergulhou na Primeira Guerra Mundial, que marcou o fim dos impérios multiétnicos, multiculturais e multilinguísticos Austro-húngaro, Otomano e Russo. Na sequência, mergulhamos na Segunda Guerra Mundial, na Guerra Fria entre os blocos capitalista e comunista… e aqui chegamos aos tempos interessantes deste século XXI, entre as guerras no Haiti, Ucrânia, Congo, Sahel (sul do Saara), Sudão, Somália-Etiópia, Iêmen, Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Afeganistão, Mianmar…
Com a generalização da mercadoria, a sociabilidade e o consumo distanciaram a Europa e os Estados Unidos dos demais países – e o padrão de vida ocidental passou a ser referência mundial. Do ponto de vista do ocidente, as sociedades exóticas gostariam de atingir o status ocidental, sinônimo de “civilização”. As elites de todos os países do mundo mandam seus filhos estudar nas universidades europeias e norte-americanas e, dessa e de outras formas, os valores ocidentais passam a se contrapor aos valores das sociedades tradicionais. Alfabetização, racionalização, progresso, desenvolvimento e nível de consumo passaram a ser vistos como a meta a ser alcançada pelo resto do planeta. E os indicadores econômicos e sociais dos organismos internacionais pontuam a distância de cada um dos países ao “paraíso terrestre”.
Enquanto isso, massas de imigrantes batem desesperadamente à porta da Europa e dos Estados Unidos. Levas de habitantes do terceiro mundo se arriscam para fugir das guerras e do “atraso de vida”, em busca da “civilização”. Muitos perecem no caminho, outros voltam deportados, e os demais submetem-se a viver como imigrantes ilegais ou cidadãos de segunda categoria em sociedades xenófobas.
O ocidente, o paraíso terrestre, ao que tudo indica, está pagando a conta de sua selvagem colonização do globo. Ernesto Mané, em Antes do início, cita um diálogo em Lisboa em 2011 – “… alguém lhe disse: ‘Preto, volta para a sua terra’. Ele respondeu: ‘Vocês chegaram à minha terra em 1400 e, de lá, só saíram em 1978; eu estou na sua terra há apenas três anos, então falta muito ainda para estarmos quites.’
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
O homem mais perigoso do mundo quer ganhar o Nobel da Paz…
No final de 2019, numa sala lotada do Comité Olímpico de Portugal, assisti àquela que foi uma das últimas intervenções públicas de Adriano Moreira. A abrir um dia de debates, organizado pelo saudoso José Manuel Constantino, sobre Migrações, Desporto e Religiões – um tema agora ainda mais atual –, o velho professor de Ciência Política e Relações Internacionais, então já com 97 anos, aproveitou todo o seu conhecimento e a sua intuição para traçar um retrato dos problemas e riscos que pairavam sobre o mundo. Fê-lo numa época em que ainda ninguém imaginava que, poucas semanas depois, um coronavírus desconhecido iria paralisar meio planeta, e que, após nos livrarmos da pandemia, entraríamos numa espécie de regresso a um passado que já pensávamos ultrapassado, com múltiplas guerras, intensa polarização política, declínio democrático, limitação das liberdades e um ambiente geral que parece só estar à espera de um fósforo incauto para fazer tudo explodir. Mas antes de isto começar a ser visível, já Adriano Moreira tinha então identificado o risco principal que se encontrava à espreita. E sintetizou-o numa frase: “A maior ameaça atual ao mundo é a incultura e a leviandade do Presidente dos EUA, Donald Trump.”
Cinco anos depois, de regresso à Casa Branca, Donald Trump tem feito tudo para demonstrar o acerto da convicção de Adriano Moreira. E, em simultâneo, lembrar a justeza de um ensinamento do antigo chanceler alemão Otto von Bismarck, a quem é atribuída a frase “uma simples leviandade pode desencadear um desastre”.
Desde janeiro, Donald Trump tem utilizado essa ameaça de “leviandade” como a sua principal arma política.
Sem outra racionalidade que não seja a de provocar a incerteza e fomentar o caos, o Presidente dos EUA usa todos os momentos para lembrar à maioria do resto do mundo (não todo…) que qualquer pormenor numa negociação de tarifas ou uma discordância de pontos de vista sobre um assunto, até porventura menor, pode ser o suficiente para fazer escalar a sua posição e endurecer o tom das suas ameaças. Ou seja: provocar o tal desastre. E fá-lo sempre escudado no imenso poder militar da maior e mais experimentada máquina de guerra do mundo. Como que a avisar que, em última opção, não hesitará um segundo em esmagar quem lhe mostrar a mais pequena oposição.
Donald Trump quer ganhar o Prémio Nobel da Paz, mas é atualmente o homem mais perigoso para a paz. Quando se vangloria, num discurso provocador na Assembleia Geral das Nações Unidas, de já ter acabado com sete conflitos nos primeiros oito meses deste seu segundo mandato, ele não está só a efabular e a deixar-se levar pelo seu exagero habitual. O que ele está a dizer, sem o nomear, é algo muito aterrador. É isto: “Não me contrariem, se não…”
A verdade é que são cada vez menos os que o contrariam. Prova disso é o facto de aqueles que, ainda há poucos anos, se riram ruidosamente com as diatribes de Trump nas Nações Unidas terem agora optado pelo silêncio, perante um ataque verbal quase sem precedentes às instituições globais, à ciência e a um conceito de Humanidade que tenha os direitos humanos no seu centro, e não o poder da força.
Donald Trump quer acabar com as Nações Unidas por uma única e exclusiva razão: porque quer ocupar esse espaço no centro do mundo, poder impor a sua decisão e não precisar de dialogar com mais ninguém. É essa a cartilha que está a exportar para os outros países.
Neste contexto, o mais grave nem sequer é o facto de os populistas de todo o mundo terem passado a copiar o estilo e os argumentos de Trump. Nada de diferente seria de esperar, a esse respeito. O pior de tudo é o grau de silêncio e de tolerância, nalguns momentos a roçar a submissão, com que tantos líderes de países democráticos passaram a encarar as ameaças e as diatribes emanadas de Washington, nomeadamente na Europa, que deveria ser o farol dos valores de democracia, da liberdade e da justiça social.
Por mais que deseje o Nobel da Paz, o que Donald Trump está a fazer é a tornar o mundo mais perigoso. Um mundo em que cresce a intolerância, se reprimem as liberdades e se controlam os negócios sempre para a defesa exclusiva dos interesses de quem detém o poder e a força. O que ele quer é exportar o caos e promover a ascensão de ditadores em cada país, com quem pode dialogar no mesmo comprimento de onda.
Assim, ao continuarem a mostrar-se submissos e resignados perante essa forma de estar de Trump, com medo de o enfurecer, os líderes europeus não só se tornam cada vez mais irrelevantes no plano internacional, como acabam por ser cúmplices da Administração dos EUA com os contínuos ataques à democracia e aos direitos humanos. E, com isto, ficam à mercê das consequências de uma qualquer leviandade.
Cinco anos depois, de regresso à Casa Branca, Donald Trump tem feito tudo para demonstrar o acerto da convicção de Adriano Moreira. E, em simultâneo, lembrar a justeza de um ensinamento do antigo chanceler alemão Otto von Bismarck, a quem é atribuída a frase “uma simples leviandade pode desencadear um desastre”.
Desde janeiro, Donald Trump tem utilizado essa ameaça de “leviandade” como a sua principal arma política.
Sem outra racionalidade que não seja a de provocar a incerteza e fomentar o caos, o Presidente dos EUA usa todos os momentos para lembrar à maioria do resto do mundo (não todo…) que qualquer pormenor numa negociação de tarifas ou uma discordância de pontos de vista sobre um assunto, até porventura menor, pode ser o suficiente para fazer escalar a sua posição e endurecer o tom das suas ameaças. Ou seja: provocar o tal desastre. E fá-lo sempre escudado no imenso poder militar da maior e mais experimentada máquina de guerra do mundo. Como que a avisar que, em última opção, não hesitará um segundo em esmagar quem lhe mostrar a mais pequena oposição.
Donald Trump quer ganhar o Prémio Nobel da Paz, mas é atualmente o homem mais perigoso para a paz. Quando se vangloria, num discurso provocador na Assembleia Geral das Nações Unidas, de já ter acabado com sete conflitos nos primeiros oito meses deste seu segundo mandato, ele não está só a efabular e a deixar-se levar pelo seu exagero habitual. O que ele está a dizer, sem o nomear, é algo muito aterrador. É isto: “Não me contrariem, se não…”
A verdade é que são cada vez menos os que o contrariam. Prova disso é o facto de aqueles que, ainda há poucos anos, se riram ruidosamente com as diatribes de Trump nas Nações Unidas terem agora optado pelo silêncio, perante um ataque verbal quase sem precedentes às instituições globais, à ciência e a um conceito de Humanidade que tenha os direitos humanos no seu centro, e não o poder da força.
Donald Trump quer acabar com as Nações Unidas por uma única e exclusiva razão: porque quer ocupar esse espaço no centro do mundo, poder impor a sua decisão e não precisar de dialogar com mais ninguém. É essa a cartilha que está a exportar para os outros países.
Neste contexto, o mais grave nem sequer é o facto de os populistas de todo o mundo terem passado a copiar o estilo e os argumentos de Trump. Nada de diferente seria de esperar, a esse respeito. O pior de tudo é o grau de silêncio e de tolerância, nalguns momentos a roçar a submissão, com que tantos líderes de países democráticos passaram a encarar as ameaças e as diatribes emanadas de Washington, nomeadamente na Europa, que deveria ser o farol dos valores de democracia, da liberdade e da justiça social.
Por mais que deseje o Nobel da Paz, o que Donald Trump está a fazer é a tornar o mundo mais perigoso. Um mundo em que cresce a intolerância, se reprimem as liberdades e se controlam os negócios sempre para a defesa exclusiva dos interesses de quem detém o poder e a força. O que ele quer é exportar o caos e promover a ascensão de ditadores em cada país, com quem pode dialogar no mesmo comprimento de onda.
Assim, ao continuarem a mostrar-se submissos e resignados perante essa forma de estar de Trump, com medo de o enfurecer, os líderes europeus não só se tornam cada vez mais irrelevantes no plano internacional, como acabam por ser cúmplices da Administração dos EUA com os contínuos ataques à democracia e aos direitos humanos. E, com isto, ficam à mercê das consequências de uma qualquer leviandade.
Tempos sombrios e esperança
Observando o que acontece no mundo, afirmo que vivemos tempos sombrios. A escuridão, que cobre cada vez mais o mundo, tem diversos componentes, muitos deles desconexos, que, combinados, formam um véu cinzento que torna o futuro incerto.
As guerras mais destacadas pelos meios de comunicação ocorrem no Médio Oriente e na Europa. No entanto, o número de mortes por guerras e outros conflitos armados em África, bem como as mortes violentas decorrentes do crime organizado, muitas vezes superam as relatadas pelos meios de comunicação. As chamadas mortes indiretas, decorrentes desses conflitos, mas não causadas por ferimentos de guerra ou outros tipos de violência, agravam este panorama. As alterações climáticas, atribuídas por consenso científico à ação humana, estão a produzir consequências trágicas em todo o mundo. As nações mais ricas e poluidoras fingem não ter nada a ver com elas. A isso se soma a situação política de alguns países, que está a levar as democracias ao suicídio e ao surgimento de movimentos políticos extremistas.
Precisamos compreender a escuridão do mundo para agir, se quisermos que a humanidade tenha um futuro.
Hannah Arendt, em alguns dos seus livros, como Homens em tempos sombrios ou Origens do totalitarismo, analisa a escuridão dos tempos. Não vou aqui me alongar sobre a brilhante e profunda análise de Hannah, simplesmente copio duas frases que, segundo ela, caracterizam a escuridão do mundo:
• Dissolução da verdade factual: em ensaios como Verdade e política e Sobre a mentira na política, ela mostra como a manipulação sistemática dos fatos cria um clima de irrealidade. Quando tudo se torna opinião, extingue-se a luz que guia o julgamento comum.
• Massificação e solidão: em Origens do totalitarismo, a base do totalitarismo é a atomização: indivíduos isolados e desconectados tornam-se presas fáceis de ideologias que prometem um significado total. A solidão política abre caminho para o terror.
A obscuridade deste mundo não tem o mesmo tom em todos os lugares. Algumas características são semelhantes e estão a ser distribuídas, quase universalmente, pelas tecnologias de comunicação instantânea. Alguns tons sombrios – paradoxalmente – são evidentes. Sempre que fatos e dados se confundem com opiniões e ideologias, as relações humanas se obscurecem, a ciência se retrai e a política torna-se cinzenta. O isolamento e a atomização dos indivíduos impedem olhar para o outro e vê-lo como um ser humano, igual a quem o está a olhar. Os movimentos identitários, que muitas vezes defendem causas justas, contribuem, às vezes sem querer, para o isolamento, pois as relações só se dão dentro do mesmo círculo.
A realidade é obscurecida por ecossistemas de desinformação, hoje auxiliados pela inteligência artificial. A polarização e a política transformada em espetáculo substituem a deliberação civilizada. Muitas vezes, a indignação é recompensada, prevalecendo sobre a compreensão. E se somarmos o stress climático e a precariedade econômica para a grande maioria, produz-se um retrocesso político e a democracia sofre.
Hannah e eu somos otimistas/realistas diante da crescente escuridão do mundo. Vivendo em tempos “sombrios”, não estamos resignados a permanecer neste estado. A escuridão aumenta a necessidade e a oportunidade de acender luzes individuais e coletivas que possam colaborar para diminuir a penumbra, ou pelo menos iluminar um caminho. A responsabilidade de acendê-las não é transferível, é individual, e é dever de cada um que, insatisfeito, percebe a penumbra.
A título de exemplo, podemos mencionar algumas ações que iluminam:
• Cooperação científica e tecnológica.
• Jornalismo independente que apresenta fatos e dados que alimentam a luta contra opiniões.
• Criação de associações (e instituições) nas quais a palavra e a ação importam.
• Organização e participação em eventos em que o pensamento crítico seja fomentado.
• Ensino do método científico na infância para formar cidadãos que não aceitem argumentos de poder.
• Proteção do pluralismo.
Esses exemplos limitados podem estimular a imaginação coletiva, produzindo uma imensa quantidade de canais que iluminem a escuridão que nos rodeia.
As guerras mais destacadas pelos meios de comunicação ocorrem no Médio Oriente e na Europa. No entanto, o número de mortes por guerras e outros conflitos armados em África, bem como as mortes violentas decorrentes do crime organizado, muitas vezes superam as relatadas pelos meios de comunicação. As chamadas mortes indiretas, decorrentes desses conflitos, mas não causadas por ferimentos de guerra ou outros tipos de violência, agravam este panorama. As alterações climáticas, atribuídas por consenso científico à ação humana, estão a produzir consequências trágicas em todo o mundo. As nações mais ricas e poluidoras fingem não ter nada a ver com elas. A isso se soma a situação política de alguns países, que está a levar as democracias ao suicídio e ao surgimento de movimentos políticos extremistas.
Precisamos compreender a escuridão do mundo para agir, se quisermos que a humanidade tenha um futuro.
Hannah Arendt, em alguns dos seus livros, como Homens em tempos sombrios ou Origens do totalitarismo, analisa a escuridão dos tempos. Não vou aqui me alongar sobre a brilhante e profunda análise de Hannah, simplesmente copio duas frases que, segundo ela, caracterizam a escuridão do mundo:
• Dissolução da verdade factual: em ensaios como Verdade e política e Sobre a mentira na política, ela mostra como a manipulação sistemática dos fatos cria um clima de irrealidade. Quando tudo se torna opinião, extingue-se a luz que guia o julgamento comum.
• Massificação e solidão: em Origens do totalitarismo, a base do totalitarismo é a atomização: indivíduos isolados e desconectados tornam-se presas fáceis de ideologias que prometem um significado total. A solidão política abre caminho para o terror.
A obscuridade deste mundo não tem o mesmo tom em todos os lugares. Algumas características são semelhantes e estão a ser distribuídas, quase universalmente, pelas tecnologias de comunicação instantânea. Alguns tons sombrios – paradoxalmente – são evidentes. Sempre que fatos e dados se confundem com opiniões e ideologias, as relações humanas se obscurecem, a ciência se retrai e a política torna-se cinzenta. O isolamento e a atomização dos indivíduos impedem olhar para o outro e vê-lo como um ser humano, igual a quem o está a olhar. Os movimentos identitários, que muitas vezes defendem causas justas, contribuem, às vezes sem querer, para o isolamento, pois as relações só se dão dentro do mesmo círculo.
A realidade é obscurecida por ecossistemas de desinformação, hoje auxiliados pela inteligência artificial. A polarização e a política transformada em espetáculo substituem a deliberação civilizada. Muitas vezes, a indignação é recompensada, prevalecendo sobre a compreensão. E se somarmos o stress climático e a precariedade econômica para a grande maioria, produz-se um retrocesso político e a democracia sofre.
Hannah e eu somos otimistas/realistas diante da crescente escuridão do mundo. Vivendo em tempos “sombrios”, não estamos resignados a permanecer neste estado. A escuridão aumenta a necessidade e a oportunidade de acender luzes individuais e coletivas que possam colaborar para diminuir a penumbra, ou pelo menos iluminar um caminho. A responsabilidade de acendê-las não é transferível, é individual, e é dever de cada um que, insatisfeito, percebe a penumbra.
A título de exemplo, podemos mencionar algumas ações que iluminam:
• Cooperação científica e tecnológica.
• Jornalismo independente que apresenta fatos e dados que alimentam a luta contra opiniões.
• Criação de associações (e instituições) nas quais a palavra e a ação importam.
• Organização e participação em eventos em que o pensamento crítico seja fomentado.
• Ensino do método científico na infância para formar cidadãos que não aceitem argumentos de poder.
• Proteção do pluralismo.
Esses exemplos limitados podem estimular a imaginação coletiva, produzindo uma imensa quantidade de canais que iluminem a escuridão que nos rodeia.
Um pobre-diabo
Estendeu a mão ao deputado governista e balbuciou algumas palavras confusas, de que ele mesmo ignorava a significação. O gesto era contrafeito: enquanto o braço avançava timidamente, o resto do corpo se retraía, parecia querer recuar para além da parede. Correu a vista pelos quadros ali pendurados, deteve-se numa paisagem verde e azul, bastante desenxabida. Teve a impressão de que, se continuasse a encolher-se, iria achatar-se como a paisagem — coqueiros verdes e céu azul. A voz era uma espécie de ronco inexpressivo.
— Homem das cavernas, monologou. Criatura paleolítica. Homem das cavernas, sem dúvida.
Mas, em vez de dizer qualquer coisa que melhorasse a sua triste situação, pensou nos trogloditas e, como se achava perturbado, confundiu-os com a multidão que fervilhava lá embaixo, na rua. Avizinhou-se da janela. As pessoas que rolavam nos automóveis apareceram-lhe armadas e ferozes, cobertas de peles cabeludas. Olhou com desgosto a mão que tinha apertado a mão do político influente. Comprida, fina, inútil.
A chaminé da fábrica elevava-se a distância. Anúncios verdes, vermelhos, acendiam-se e apagavam-se. O letreiro de um jornal reluzia em frente, num quinto andar. Àquela hora o elevador enchia-se, tipos suados, de roupas frouxas, entravam e saíam. Os ônibus e os bondes moviam-se devagar, como formigas, e a carga deles aumentava ou diminuía nos postes, uma parte esgueirava-se na sombra — linhas insignificantes dentro da noite.
— Criatura paleolítica. Mãos compridas, finas, inúteis.
Esta incoerência irritou-o. Desejou afastar-se, atravessar a porta, entrar no corredor, virar à esquerda, tocar um botão, descer, ziguezaguear à toa pela cidade, traço insignificante.
Chegou-se à mesa. Ouvia desatento a voz sonora do político, sentia nela estranho poder, achava natural que na câmara as galerias se excitassem e batessem palmas escutando-a. Notava apenas que ela o jogava para direções contrárias: a porta meio cerrada e a parede onde se penduravam os coqueiros verdes e o céu azul.
Pensou no jogo de bilhar. Massé? Era, devia ser massé. A bola avançava, mas recuava antes de alcançar a tabela ou outra bola. Jogo difícil. Massé? Tinha ouvido a palavra. Ouvido ou lido, não sabia direito. Bola de bilhar. Isto. Bola de bilhar não tem memória.
Em todo o caso o deputado governista era um bom jogador. Via-lhe a mão curta e gorda, bem tratada, muito branca, e lembrava-se dos artigos e dos livros que ela havia redigido. Imaginou-a mexendo-se no papel com segurança, compondo uma prosa gorda, curta e branca, prosa que lhe dava sempre a ideia de toicinho cru. Detestava aquilo, desprezava o autor, um pedante, homem de frases arrumadas com aparato. Lendo-o, sentia-se duplamente roubado. Em primeiro lugar perdia tempo. E como levava uma vida ruim, gastando solas sem proveito em viagens às repartições, achava injustiça a ascensão do outro. Injustiça, evidentemente. Um roubo.
A amargura e o veneno desapareciam. Apertava as mãos úmidas, tentava dominar a carne bamba, que pesava demais, queria despregar-se dos ossos. Se ao menos tivesse uma cadeira para se sentar, a atrapalhação ficaria reduzida. Recostar-se-ia, cruzaria as pernas, balançaria a cabeça aprovando, naturalmente. Pareceria um sujeito educado. Mas assim de pé não se aguentava: ora caía para um lado, ora caía para outro, escorava-se à mesa, não podia resistir ao desejo de subir nela. As nádegas encostavam-se à tábua, pouco a pouco iam ganhando terreno, firmavam-se, uma perna se levantava, balançava.
O político influente passeava sem se fatigar. Dava três passos, parava, voltava-se, dava três passos novamente, tornava a parar, e assim por diante. Máquina bem construída, nenhuma peça prejudicava a função das outras. E falava. Quando se detinha, a mão curta e gorda movia-se traçando vagamente no ar a figura de um vaso, um vaso bojudo que encerrava o discurso.
Que dizia o deputado? Não podia compreender, mas deviam ser coisas graves e corretas, diferentes daquela prosa escrita, gorda e mole. Encolheu-se cheio de respeito, vencido pelo som e pelo gesto conveniente.
Em casa, de pijama e chinelos, em frente do livro ou do jornal, ser-lhe-ia fácil discutir e indignar-se, catar minudências, concluir que estava sendo roubado. Soltaria o papel, acenderia o cigarro, deitar-se-ia na cama. Depois retomaria com rancor o livro ou o jornal, torceria o nariz a um defeito qualquer, e o defeito se alastraria na página inteira como nódoa. Diria injúrias mentalmente ao deputado, comparar-se-ia a ele, queixar-se-ia da sorte.
Agora estava distraído e incapaz de julgar. As palavras do orador perdiam-se, confusas. O que havia era o gesto, o gesto que desenhava no ar figuras bojudas. Teve a impressão extravagante de que a sala se enchia de panelas. Isto lhe causava sério transtorno, porque, andando com firmeza no soalho bem envernizado, o político havia crescido muito. Sumira-se o escritor medíocre. Um sujeito respeitável movia-se com aprumo e dignidade. Os olhos duros e cinzentos contrastavam com a voz suave; a queixada larga avançava, agressiva, armada de fortes dentes amarelos; os cantos da boca pregueavam-se ligeiramente; o rosto vermelho tomava a aparência de uma cara de gato.
Sentiu medo. Quis afastar-se — e percebeu que estava sentado na mesa, diante do orador governista, que se conservava de pé. Escorregou para o chão, envergonhado.
Recordou-se da situação difícil em que se tinha achado muitos anos antes, ao descer de um bonde. Correra perigo imenso, e ainda se arrepiava ao passar por aquela amaldiçoada esquina. Desenroscara-se do banco, pisara no estribo, saltara no asfalto, dera dois passos para a calçada de uma drogaria, onde caixões e um poste pintado de branco fechavam o caminho. Um buzinar de automóvel, à direita, esfriara-lhe o sangue. À esquerda uma carroça de leiteiro ia passar em frente ao bonde parado. Os três veículos combinavam-se perfeitamente: o bonde continuaria a viagem depois da passagem da carroça; o automóvel, sem diminuir a marcha, formaria com a parte traseira dela um ângulo reto. Fora meter-se ali, no espaço minguado. Mexia-se desordenadamente e não conseguia orientar-se. Num segundo revolvera na cabeça muitas coisas desencontradas: cenas da infância, a escola, o professor ranzinza, empregos ordinários, dias de fome, o pigarro antipático da mulher da pensão. A morte buzinava, empurrava-o para todos os lados, fazia-o dançar no asfalto como uma barata doida. Se retrocedesse, não alcançaria o estribo do carro. Com um salto poderia chegar à calçada, mas os caixões cresciam, oscilavam, ameaçavam cair, esmagá-lo antes que o automóvel o tocasse. O poste oscilava, as casas em redor oscilavam, os andares altos da drogaria queriam desabar e obstruir a rua. Apenas o bonde se imobilizara. A carroça de leiteiro movia-se no mesmo lugar, o automóvel rodava uma eternidade sem adiantar-se. Fugira-lhe a consciência. Ia tropeçar, tombar, esquecer as casas, os veículos e as pessoas. Acordara abraçado ao poste, achatando-se como uma lagartixa, forcejando por livrar-se de um objeto áspero que lhe roçava as costas. Pisara a calçada, apoiara-se a um caixão, desmaiado e quase idiota.
A angústia que experimentara naquele dia voltava-lhe agora, ao descer desajeitadamente da mesa. Avançou atordoado no soalho, ouviu passos à direita, temeu recuar, pareceu-lhe que o político ia transformá-lo numa pasta vermelha. Não ousou virar-se para a esquerda, onde qualquer coisa devia fechar-lhe o caminho. Ficou ali de pé, sentindo vagamente que, se conseguisse andar dois metros, evitaria um desastre.
Deu algumas pernadas e encostou-se à parede, respirando a custo. Bem. Estava em segurança. Afirmou que estava em segurança, e a ideia do perigo sumiu-se completamente. A presença do orador governista já não lhe inspirava temor: o que lhe causava era admiração, respeito supersticioso. O olho duro e cinzento continuava a fixar-se nele como um olho de cobra.
— Em segurança.
Apesar de se ter dissipado o pavor que o agarrara ao afastar-se da mesa, não se resolveria a abandonar o refúgio conquistado junto à parede, ao pé da janela.
Quis ver a rua novamente. Se voltasse o rosto, avistaria a chaminé da fábrica, o arranha-céu que tinha uma redação no quinto andar. O elevador subia e descia, repórteres apressados entravam e saíam.
Não se voltou: uma grande preguiça amarrava-o, dava-lhe jeito de estátua.
— Estátua muito mal-arranjada, pensou.
E sorriu, descobrindo que não perdera o discernimento. Tentou aparentar desembaraço, falar. A voz rouca, metálica, fanhosa, escapou-lhe como um grunhido.
Aquela voz horrível sempre lhe causara prejuízos. Conhecendo as desvantagens que ela produzia, calava-se diante de pessoas estranhas, manifestava-se por meio de caretas.
Não sabia precisamente o que dizia naquele instante. Repetiu as últimas palavras do deputado e logo se conteve. O som desagradável trouxe-lhe a ideia de serras chiando em madeira dura. Talvez a repetição fosse inconveniente ou viesse retardada, fora de propósito. Fazia com efeito um minuto que o orador andava em silencio, certamente esperando que ele se despedisse. A mão deixara de agitar-se acariciando a frase redonda, as figuras bojudas como panelas tinham desaparecido.
Bem. Achou que a personagem diminuíra um pouco, tomara proporções quase vulgares. A pupila dura espetava-o, mas o discurso findara — e evidentemente existia redução.
Precisava sair dali, percorrer as avenidas, entrar nos cafés, abalroar os transeuntes, escutar pedaços de conversas, desviar- se dos carros, ver miudinhos os tipos imponentes e dominadores. Aquela entrevista, que lhe havia colado no espírito algumas esperanças, acabava mal. Nem o pedido, laboriosamente preparado, conseguira formular. As esperanças pouco a pouco se desgrudavam — e ele esmorecia, como uma grande ave depenada.
Um arrepio atravessou-lhe a coxa, subiu o tronco e foi morrer nos músculos do pescoço, entortando-lhe o rosto e livrando-o dos olhos maus do orador governista. Examinou com atenção distante a moldura dourada que cercava os coqueiros verdes e o céu azul. Novo arrepio. Uma grande ave depenada e friorenta.
Lembrou-se de outra moldura que lhe havia caído, anos atrás, em cima da cabeça. Escrevia com dificuldade, folheando o dicionário; o quadro pesado se despregara e lhe partira o couro cabeludo.
Desviou-se precipitadamente, levantou o braço para se defender. O político influente interpretou mal o gesto e estendeu-lhe a mão:
— Adeus.
— Muito obrigado, doutor, respondeu sem refletir.
O resto se perdeu num murmúrio. Deu uns passos vacilantes na madeira envernizada e escorregadia, retirou-se tonto, sentindo na cabeça a pancada que lhe tinha rachado o couro cabeludo, anos atrás.
Ao cerrar a porta, respirou com alívio. Meteu-se num corredor escuro, dobrou esquinas, parou, apertou um botão, acendeu um cigarro, pensou nos telegramas estrangeiros lidos pela manhã. Penetrando no elevador, mastigava o cigarro, nervoso. À medida que descia tranquilizava-se. E ao pisar na calçada, criticava livros, mentalmente. A literatura do político era com efeito ridícula.
Remoeu as coisas desparafusadas que ele escrevera. Malucas, absolutamente malucas. Roeu as unhas com fúria e multiplicou o deputado:
— Cretinos.
Graciliano Ramos
— Homem das cavernas, monologou. Criatura paleolítica. Homem das cavernas, sem dúvida.
Mas, em vez de dizer qualquer coisa que melhorasse a sua triste situação, pensou nos trogloditas e, como se achava perturbado, confundiu-os com a multidão que fervilhava lá embaixo, na rua. Avizinhou-se da janela. As pessoas que rolavam nos automóveis apareceram-lhe armadas e ferozes, cobertas de peles cabeludas. Olhou com desgosto a mão que tinha apertado a mão do político influente. Comprida, fina, inútil.
A chaminé da fábrica elevava-se a distância. Anúncios verdes, vermelhos, acendiam-se e apagavam-se. O letreiro de um jornal reluzia em frente, num quinto andar. Àquela hora o elevador enchia-se, tipos suados, de roupas frouxas, entravam e saíam. Os ônibus e os bondes moviam-se devagar, como formigas, e a carga deles aumentava ou diminuía nos postes, uma parte esgueirava-se na sombra — linhas insignificantes dentro da noite.
— Criatura paleolítica. Mãos compridas, finas, inúteis.
Esta incoerência irritou-o. Desejou afastar-se, atravessar a porta, entrar no corredor, virar à esquerda, tocar um botão, descer, ziguezaguear à toa pela cidade, traço insignificante.
Chegou-se à mesa. Ouvia desatento a voz sonora do político, sentia nela estranho poder, achava natural que na câmara as galerias se excitassem e batessem palmas escutando-a. Notava apenas que ela o jogava para direções contrárias: a porta meio cerrada e a parede onde se penduravam os coqueiros verdes e o céu azul.
Pensou no jogo de bilhar. Massé? Era, devia ser massé. A bola avançava, mas recuava antes de alcançar a tabela ou outra bola. Jogo difícil. Massé? Tinha ouvido a palavra. Ouvido ou lido, não sabia direito. Bola de bilhar. Isto. Bola de bilhar não tem memória.
Em todo o caso o deputado governista era um bom jogador. Via-lhe a mão curta e gorda, bem tratada, muito branca, e lembrava-se dos artigos e dos livros que ela havia redigido. Imaginou-a mexendo-se no papel com segurança, compondo uma prosa gorda, curta e branca, prosa que lhe dava sempre a ideia de toicinho cru. Detestava aquilo, desprezava o autor, um pedante, homem de frases arrumadas com aparato. Lendo-o, sentia-se duplamente roubado. Em primeiro lugar perdia tempo. E como levava uma vida ruim, gastando solas sem proveito em viagens às repartições, achava injustiça a ascensão do outro. Injustiça, evidentemente. Um roubo.
A amargura e o veneno desapareciam. Apertava as mãos úmidas, tentava dominar a carne bamba, que pesava demais, queria despregar-se dos ossos. Se ao menos tivesse uma cadeira para se sentar, a atrapalhação ficaria reduzida. Recostar-se-ia, cruzaria as pernas, balançaria a cabeça aprovando, naturalmente. Pareceria um sujeito educado. Mas assim de pé não se aguentava: ora caía para um lado, ora caía para outro, escorava-se à mesa, não podia resistir ao desejo de subir nela. As nádegas encostavam-se à tábua, pouco a pouco iam ganhando terreno, firmavam-se, uma perna se levantava, balançava.
O político influente passeava sem se fatigar. Dava três passos, parava, voltava-se, dava três passos novamente, tornava a parar, e assim por diante. Máquina bem construída, nenhuma peça prejudicava a função das outras. E falava. Quando se detinha, a mão curta e gorda movia-se traçando vagamente no ar a figura de um vaso, um vaso bojudo que encerrava o discurso.
Que dizia o deputado? Não podia compreender, mas deviam ser coisas graves e corretas, diferentes daquela prosa escrita, gorda e mole. Encolheu-se cheio de respeito, vencido pelo som e pelo gesto conveniente.
Em casa, de pijama e chinelos, em frente do livro ou do jornal, ser-lhe-ia fácil discutir e indignar-se, catar minudências, concluir que estava sendo roubado. Soltaria o papel, acenderia o cigarro, deitar-se-ia na cama. Depois retomaria com rancor o livro ou o jornal, torceria o nariz a um defeito qualquer, e o defeito se alastraria na página inteira como nódoa. Diria injúrias mentalmente ao deputado, comparar-se-ia a ele, queixar-se-ia da sorte.
Agora estava distraído e incapaz de julgar. As palavras do orador perdiam-se, confusas. O que havia era o gesto, o gesto que desenhava no ar figuras bojudas. Teve a impressão extravagante de que a sala se enchia de panelas. Isto lhe causava sério transtorno, porque, andando com firmeza no soalho bem envernizado, o político havia crescido muito. Sumira-se o escritor medíocre. Um sujeito respeitável movia-se com aprumo e dignidade. Os olhos duros e cinzentos contrastavam com a voz suave; a queixada larga avançava, agressiva, armada de fortes dentes amarelos; os cantos da boca pregueavam-se ligeiramente; o rosto vermelho tomava a aparência de uma cara de gato.
Sentiu medo. Quis afastar-se — e percebeu que estava sentado na mesa, diante do orador governista, que se conservava de pé. Escorregou para o chão, envergonhado.
Recordou-se da situação difícil em que se tinha achado muitos anos antes, ao descer de um bonde. Correra perigo imenso, e ainda se arrepiava ao passar por aquela amaldiçoada esquina. Desenroscara-se do banco, pisara no estribo, saltara no asfalto, dera dois passos para a calçada de uma drogaria, onde caixões e um poste pintado de branco fechavam o caminho. Um buzinar de automóvel, à direita, esfriara-lhe o sangue. À esquerda uma carroça de leiteiro ia passar em frente ao bonde parado. Os três veículos combinavam-se perfeitamente: o bonde continuaria a viagem depois da passagem da carroça; o automóvel, sem diminuir a marcha, formaria com a parte traseira dela um ângulo reto. Fora meter-se ali, no espaço minguado. Mexia-se desordenadamente e não conseguia orientar-se. Num segundo revolvera na cabeça muitas coisas desencontradas: cenas da infância, a escola, o professor ranzinza, empregos ordinários, dias de fome, o pigarro antipático da mulher da pensão. A morte buzinava, empurrava-o para todos os lados, fazia-o dançar no asfalto como uma barata doida. Se retrocedesse, não alcançaria o estribo do carro. Com um salto poderia chegar à calçada, mas os caixões cresciam, oscilavam, ameaçavam cair, esmagá-lo antes que o automóvel o tocasse. O poste oscilava, as casas em redor oscilavam, os andares altos da drogaria queriam desabar e obstruir a rua. Apenas o bonde se imobilizara. A carroça de leiteiro movia-se no mesmo lugar, o automóvel rodava uma eternidade sem adiantar-se. Fugira-lhe a consciência. Ia tropeçar, tombar, esquecer as casas, os veículos e as pessoas. Acordara abraçado ao poste, achatando-se como uma lagartixa, forcejando por livrar-se de um objeto áspero que lhe roçava as costas. Pisara a calçada, apoiara-se a um caixão, desmaiado e quase idiota.
A angústia que experimentara naquele dia voltava-lhe agora, ao descer desajeitadamente da mesa. Avançou atordoado no soalho, ouviu passos à direita, temeu recuar, pareceu-lhe que o político ia transformá-lo numa pasta vermelha. Não ousou virar-se para a esquerda, onde qualquer coisa devia fechar-lhe o caminho. Ficou ali de pé, sentindo vagamente que, se conseguisse andar dois metros, evitaria um desastre.
Deu algumas pernadas e encostou-se à parede, respirando a custo. Bem. Estava em segurança. Afirmou que estava em segurança, e a ideia do perigo sumiu-se completamente. A presença do orador governista já não lhe inspirava temor: o que lhe causava era admiração, respeito supersticioso. O olho duro e cinzento continuava a fixar-se nele como um olho de cobra.
— Em segurança.
Apesar de se ter dissipado o pavor que o agarrara ao afastar-se da mesa, não se resolveria a abandonar o refúgio conquistado junto à parede, ao pé da janela.
Quis ver a rua novamente. Se voltasse o rosto, avistaria a chaminé da fábrica, o arranha-céu que tinha uma redação no quinto andar. O elevador subia e descia, repórteres apressados entravam e saíam.
Não se voltou: uma grande preguiça amarrava-o, dava-lhe jeito de estátua.
— Estátua muito mal-arranjada, pensou.
E sorriu, descobrindo que não perdera o discernimento. Tentou aparentar desembaraço, falar. A voz rouca, metálica, fanhosa, escapou-lhe como um grunhido.
Aquela voz horrível sempre lhe causara prejuízos. Conhecendo as desvantagens que ela produzia, calava-se diante de pessoas estranhas, manifestava-se por meio de caretas.
Não sabia precisamente o que dizia naquele instante. Repetiu as últimas palavras do deputado e logo se conteve. O som desagradável trouxe-lhe a ideia de serras chiando em madeira dura. Talvez a repetição fosse inconveniente ou viesse retardada, fora de propósito. Fazia com efeito um minuto que o orador andava em silencio, certamente esperando que ele se despedisse. A mão deixara de agitar-se acariciando a frase redonda, as figuras bojudas como panelas tinham desaparecido.
Bem. Achou que a personagem diminuíra um pouco, tomara proporções quase vulgares. A pupila dura espetava-o, mas o discurso findara — e evidentemente existia redução.
Precisava sair dali, percorrer as avenidas, entrar nos cafés, abalroar os transeuntes, escutar pedaços de conversas, desviar- se dos carros, ver miudinhos os tipos imponentes e dominadores. Aquela entrevista, que lhe havia colado no espírito algumas esperanças, acabava mal. Nem o pedido, laboriosamente preparado, conseguira formular. As esperanças pouco a pouco se desgrudavam — e ele esmorecia, como uma grande ave depenada.
Um arrepio atravessou-lhe a coxa, subiu o tronco e foi morrer nos músculos do pescoço, entortando-lhe o rosto e livrando-o dos olhos maus do orador governista. Examinou com atenção distante a moldura dourada que cercava os coqueiros verdes e o céu azul. Novo arrepio. Uma grande ave depenada e friorenta.
Lembrou-se de outra moldura que lhe havia caído, anos atrás, em cima da cabeça. Escrevia com dificuldade, folheando o dicionário; o quadro pesado se despregara e lhe partira o couro cabeludo.
Desviou-se precipitadamente, levantou o braço para se defender. O político influente interpretou mal o gesto e estendeu-lhe a mão:
— Adeus.
— Muito obrigado, doutor, respondeu sem refletir.
O resto se perdeu num murmúrio. Deu uns passos vacilantes na madeira envernizada e escorregadia, retirou-se tonto, sentindo na cabeça a pancada que lhe tinha rachado o couro cabeludo, anos atrás.
Ao cerrar a porta, respirou com alívio. Meteu-se num corredor escuro, dobrou esquinas, parou, apertou um botão, acendeu um cigarro, pensou nos telegramas estrangeiros lidos pela manhã. Penetrando no elevador, mastigava o cigarro, nervoso. À medida que descia tranquilizava-se. E ao pisar na calçada, criticava livros, mentalmente. A literatura do político era com efeito ridícula.
Remoeu as coisas desparafusadas que ele escrevera. Malucas, absolutamente malucas. Roeu as unhas com fúria e multiplicou o deputado:
— Cretinos.
Graciliano Ramos
Trump não é o Kissinger do Médio Oriente
Dois anos após o bárbaro ataque de 7 de outubro de 2023, a guerra em Gaza deixou de ser apenas um conflito armado. Tornou-se o espelho de uma crise moral e diplomática que expõe Israel a uma solidão cada vez mais visível. Os números falam por si: mais de 65 mil palestinos mortos, dezenas de reféns ainda em cativeiro, uma devastação que já não se mede apenas em vidas perdidas, mas também numa legitimidade em erosão contínua.
Benjamin Netanyahu, que outrora se apresentava como guardião de Israel, é hoje o rosto de uma barbárie marcada por crimes de guerra. Enquanto países como o Reino Unido, França, Canadá e Austrália – insuspeitos de qualquer simpatia pelo Hamas – reconheceram formalmente o Estado palestino, na ONU o primeiro-ministro discursava para uma sala que se esvaziava em protesto. A fotografia é inequívoca: Israel já não fala aos seus aliados, mas às paredes de auditórios desertos, reflexo de um isolamento que se adensa a cada semana.
O regresso de Donald Trump à Casa Branca acrescenta uma ironia cruel a esta paisagem. O Presidente dos Estados Unidos, reciclado como mediador improvável, recebe Netanyahu em Washington com um plano de vinte pontos que mistura pragmatismo e espetáculo. O objetivo declarado é transformar a devastação em Gaza numa oportunidade de paz, abrindo a porta à normalização das relações de Israel com a Arábia Saudita, o Líbano, a Síria e até, possivelmente, o Iraque. A arquitetura desta visão não nasceu em Washington, mas no círculo de Jared Kushner, Steve Wittkoff e Tony Blair, que procuram redesenhar o “Grande Médio Oriente” e transformá-lo num mercado financeiro ou imobiliário.
Trump redesenha assim, na prática, os Acordos de Abraão, constrói uma coligação com vários países árabes e muçulmanos – incluindo a Turquia, que historicamente sempre insistiu em que o Hamas não é uma organização terrorista – e encurrala o Grupo. Pressiona contra anexações, promete a libertação de reféns e corteja aliados árabes. A sua aposta é clara: apresentar-se como o único capaz de impor um acordo, tratando a Palestina como um negócio a fechar, sem disfarçar a indiferença moral que o caracteriza.
Mas as dificuldades são evidentes: um plano ambicioso, mas proposto no meio de uma violência e de uma desconfiança sem precedentes. Para funcionar, exigirá um cessar-fogo imediato, a retirada faseada das tropas israelitas, a libertação simultânea de reféns e prisioneiros e a reconstrução de Gaza sob supervisão internacional. No papel, a Faixa passaria para uma administração tutelada por uma força estrangeira, com participação árabe e um papel residual da Autoridade Palestina, enquanto um “Conselho da Paz” exerceria de fato a sua administração.
Netanyahu encenou na ONU a sua intransigência, comparando a criação de um Estado palestino a entregar território à Al-Qaeda depois do 11 de setembro. Falou em “acabar o trabalho” em Gaza, no seu habitual tom de confronto. Mas não convenceu ninguém que não estivesse já convencido. As famílias dos reféns protestaram, os delegados abandonaram a sala. A guerra, que começou como resposta a um massacre, transformou-se no álibi de uma fuga para a frente, minando os interesses estratégicos de Israel.
Daí a desconfiança perante a sua súbita vontade de negociar de boa-fé. Os obstáculos são de ordem política e existencial. Netanyahu resiste porque ceder significaria trair a coligação de colonos e ultranacionalistas que sustenta o seu poder. O Hamas resiste porque qualquer concessão seria vista como rendição. E no meio deste cinismo, muitos líderes proferem uma coisa em privado e outra em público. O plano de Washington, ainda que menos fantasioso do que a “Riviera de Gaza”, mantém ambiguidades profundas. Prevê zonas de segurança israelitas “por tempo indeterminado”, eleições palestinianas e uma Autoridade Palestina relegada a nota de rodapé. As condições mínimas para manter a possibilidade de um Estado palestino passam por uma retirada israelita real de Gaza e pela suspensão imediata da construção de colonatos na Cisjordânia. Sem isso, não será possível restaurar a confiança entre ambos.
Do lado árabe, a coligação delineada por Trump não é homogênea. O Qatar, a Turquia, o Egito e a Jordânia pressionam os líderes do Hamas, mas terão exigido limites claros à supervisão internacional e um calendário para a solução dos dois Estados, consagrada na Declaração de Nova Iorque, já recordada pela França e pela UE. Internamente, figuras como Benny Gantz veem uma oportunidade histórica, Yair Lapid oferece a Netanyahu uma rede de segurança, enquanto Bezalel Smotrich exige um futuro sem Autoridade Palestina. Todos sabem, porém, que sem acordo Israel ficará condenado a uma ocupação permanente em Gaza e a uma insurgência sem fim.
É inegável que as vitórias militares israelitas contra o Irã e o Hezbollah abriram um espaço sem precedentes para a integração regional. A queda do regime sírio pró-Irã, o fortalecimento do Líbano e do Iraque e até o debate interno em Teerã sobre os custos de apoiar “proxies” revelam uma transformação em curso. É este o momento que os arquitetos do plano querem converter numa vitória política, transformando os ganhos militares numa vitória diplomática.
Mas o futuro – e o histórico da região – não inspira otimismo. A curto prazo, a presença israelita em Gaza dificilmente terminará tão cedo e os colonos não abandonarão voluntariamente a Cisjordânia. A médio prazo, a provável consolidação do “Conselho da Paz” como instituição permanente, juntamente com o afastamento da Autoridade Palestina, tornará inviável a solução dos dois Estados, desligando os governos de Gaza e da Cisjordânia e enterrando de vez os Acordos de Oslo. A longo prazo, o Médio Oriente já nos ensinou que as profecias geopolíticas são perigosas. Mas apesar dos traços neocolonialistas do plano, ele parece ser neste momento a única via possível para pôr termo à violência.
A conferência de imprensa de Trump e Netanyahu revelou-se mais um monólogo surrealista do que um ato de diplomacia. Ainda assim, um cessar-fogo imediato, a entrada de ajuda humanitária e a promessa de fim do governo do Hamas são avanços necessários e bem-vindos. Porém, o papel da Autoridade Palestiniana – e com ele de um governo representativo dos palestinianos – permanece incerto, subordinado a um “Conselho de Paz” que, conhecendo o Presidente dos Estados Unidos, pode muito bem não passar de uma fachada para extrair benefícios para si e para o seu círculo mais próximo. Alguém acredita realmente que o Presidente dos Estados Unidos – ou o seu sucessor, sendo ele J.D. Vance – abdicaria do seu “mandato” sobre a região?
Gaza ainda corre o risco de se transformar na Riviera privada do Presidente dos Estados Unidos. Portanto, talvez ainda seja cedo para entronizar Trump como o Kissinger do Médio Oriente – ou encomendar o Prêmio Nobel da Paz.
Benjamin Netanyahu, que outrora se apresentava como guardião de Israel, é hoje o rosto de uma barbárie marcada por crimes de guerra. Enquanto países como o Reino Unido, França, Canadá e Austrália – insuspeitos de qualquer simpatia pelo Hamas – reconheceram formalmente o Estado palestino, na ONU o primeiro-ministro discursava para uma sala que se esvaziava em protesto. A fotografia é inequívoca: Israel já não fala aos seus aliados, mas às paredes de auditórios desertos, reflexo de um isolamento que se adensa a cada semana.
O regresso de Donald Trump à Casa Branca acrescenta uma ironia cruel a esta paisagem. O Presidente dos Estados Unidos, reciclado como mediador improvável, recebe Netanyahu em Washington com um plano de vinte pontos que mistura pragmatismo e espetáculo. O objetivo declarado é transformar a devastação em Gaza numa oportunidade de paz, abrindo a porta à normalização das relações de Israel com a Arábia Saudita, o Líbano, a Síria e até, possivelmente, o Iraque. A arquitetura desta visão não nasceu em Washington, mas no círculo de Jared Kushner, Steve Wittkoff e Tony Blair, que procuram redesenhar o “Grande Médio Oriente” e transformá-lo num mercado financeiro ou imobiliário.
Trump redesenha assim, na prática, os Acordos de Abraão, constrói uma coligação com vários países árabes e muçulmanos – incluindo a Turquia, que historicamente sempre insistiu em que o Hamas não é uma organização terrorista – e encurrala o Grupo. Pressiona contra anexações, promete a libertação de reféns e corteja aliados árabes. A sua aposta é clara: apresentar-se como o único capaz de impor um acordo, tratando a Palestina como um negócio a fechar, sem disfarçar a indiferença moral que o caracteriza.
Mas as dificuldades são evidentes: um plano ambicioso, mas proposto no meio de uma violência e de uma desconfiança sem precedentes. Para funcionar, exigirá um cessar-fogo imediato, a retirada faseada das tropas israelitas, a libertação simultânea de reféns e prisioneiros e a reconstrução de Gaza sob supervisão internacional. No papel, a Faixa passaria para uma administração tutelada por uma força estrangeira, com participação árabe e um papel residual da Autoridade Palestina, enquanto um “Conselho da Paz” exerceria de fato a sua administração.
Netanyahu encenou na ONU a sua intransigência, comparando a criação de um Estado palestino a entregar território à Al-Qaeda depois do 11 de setembro. Falou em “acabar o trabalho” em Gaza, no seu habitual tom de confronto. Mas não convenceu ninguém que não estivesse já convencido. As famílias dos reféns protestaram, os delegados abandonaram a sala. A guerra, que começou como resposta a um massacre, transformou-se no álibi de uma fuga para a frente, minando os interesses estratégicos de Israel.
Daí a desconfiança perante a sua súbita vontade de negociar de boa-fé. Os obstáculos são de ordem política e existencial. Netanyahu resiste porque ceder significaria trair a coligação de colonos e ultranacionalistas que sustenta o seu poder. O Hamas resiste porque qualquer concessão seria vista como rendição. E no meio deste cinismo, muitos líderes proferem uma coisa em privado e outra em público. O plano de Washington, ainda que menos fantasioso do que a “Riviera de Gaza”, mantém ambiguidades profundas. Prevê zonas de segurança israelitas “por tempo indeterminado”, eleições palestinianas e uma Autoridade Palestina relegada a nota de rodapé. As condições mínimas para manter a possibilidade de um Estado palestino passam por uma retirada israelita real de Gaza e pela suspensão imediata da construção de colonatos na Cisjordânia. Sem isso, não será possível restaurar a confiança entre ambos.
Do lado árabe, a coligação delineada por Trump não é homogênea. O Qatar, a Turquia, o Egito e a Jordânia pressionam os líderes do Hamas, mas terão exigido limites claros à supervisão internacional e um calendário para a solução dos dois Estados, consagrada na Declaração de Nova Iorque, já recordada pela França e pela UE. Internamente, figuras como Benny Gantz veem uma oportunidade histórica, Yair Lapid oferece a Netanyahu uma rede de segurança, enquanto Bezalel Smotrich exige um futuro sem Autoridade Palestina. Todos sabem, porém, que sem acordo Israel ficará condenado a uma ocupação permanente em Gaza e a uma insurgência sem fim.
É inegável que as vitórias militares israelitas contra o Irã e o Hezbollah abriram um espaço sem precedentes para a integração regional. A queda do regime sírio pró-Irã, o fortalecimento do Líbano e do Iraque e até o debate interno em Teerã sobre os custos de apoiar “proxies” revelam uma transformação em curso. É este o momento que os arquitetos do plano querem converter numa vitória política, transformando os ganhos militares numa vitória diplomática.
Mas o futuro – e o histórico da região – não inspira otimismo. A curto prazo, a presença israelita em Gaza dificilmente terminará tão cedo e os colonos não abandonarão voluntariamente a Cisjordânia. A médio prazo, a provável consolidação do “Conselho da Paz” como instituição permanente, juntamente com o afastamento da Autoridade Palestina, tornará inviável a solução dos dois Estados, desligando os governos de Gaza e da Cisjordânia e enterrando de vez os Acordos de Oslo. A longo prazo, o Médio Oriente já nos ensinou que as profecias geopolíticas são perigosas. Mas apesar dos traços neocolonialistas do plano, ele parece ser neste momento a única via possível para pôr termo à violência.
A conferência de imprensa de Trump e Netanyahu revelou-se mais um monólogo surrealista do que um ato de diplomacia. Ainda assim, um cessar-fogo imediato, a entrada de ajuda humanitária e a promessa de fim do governo do Hamas são avanços necessários e bem-vindos. Porém, o papel da Autoridade Palestiniana – e com ele de um governo representativo dos palestinianos – permanece incerto, subordinado a um “Conselho de Paz” que, conhecendo o Presidente dos Estados Unidos, pode muito bem não passar de uma fachada para extrair benefícios para si e para o seu círculo mais próximo. Alguém acredita realmente que o Presidente dos Estados Unidos – ou o seu sucessor, sendo ele J.D. Vance – abdicaria do seu “mandato” sobre a região?
Gaza ainda corre o risco de se transformar na Riviera privada do Presidente dos Estados Unidos. Portanto, talvez ainda seja cedo para entronizar Trump como o Kissinger do Médio Oriente – ou encomendar o Prêmio Nobel da Paz.
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Trump inventa um plano para a paz em Gaza, e o mundo finge acreditar
Por um lado, a situação em Gaza é tão desesperadora que dá vontade de acreditar em qualquer nesga de uma solução, por rebuscada que seja. Por outro lado, não deixa de espantar ver líderes mundiais, em particular aqui na Europa, fazer de conta que existe um plano de Donald Trump para Gaza minimamente credível.
"Sim, por favor, qualquer coisa que pare com a matança", diz o coração. A memória, desafortunadamente, tem obrigação de desconfiar.
O que Trump apresenta para Gaza assemelha-se aos esquemas mais insólitos do colonialismo do século 19, no tempo dos protetorados ou dos domínios pessoais. Que Gaza passe a ser ocupada por uma força internacional, gerida por um conselho de celebridades políticas, sob tutela do próprio Trump, sem condições claras para qualquer autogoverno por palestinos, já para não falar de calendário para vir a fazer parte do território da Palestina numa solução de dois Estados, e que uma parte do mundo ache que isto é um início de acordo, só nos indica como o século 21 vai ficando cada vez mais longe de qualquer relação com o sistema internacional herdado da Segunda Guerra Mundial. Estamos agora no puro domínio do arbitrário.
O que justificará a aparência de credibilidade emprestada a este plano, uma semana depois do discurso delirante de Trump na Assembleia-Geral das Nações Unidas? Cada ator tem uma motivação diferente. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, gosta de se apresentar como se estivesse no comando da situação, e por isso comunica o plano como sendo israelo-americano, provavelmente à espera que no regresso ao seu país os seus parceiros de governo acabem por sabotá-lo.
Os líderes europeus evitam antagonizar Trump e pretendem talvez influenciar o plano, aproximando-o das propostas de franceses e sauditas para o envolvimento da Liga Árabe e para uma solução de dois Estados. Os palestinos esperam que a libertação dos seus prisioneiros possa ajudar a desbloquear a sua própria situação política. Por outro lado, a extrema direita israelense e o Hamas, que é o seu equivalente funcional, podem sempre preferir que o outro lado rejeite o plano antes de terem de ser eles a fazê-lo.
Crucial, como sempre, é a posição de Netanyahu. Para alguns, aquilo que Netanyahu mais quer é manter-se no poder e evitar ser julgado pelos tribunais do seu país, que poderão condená-lo por corrupção. Para outros, aquilo que Netanyahu mais quer é manter-se fiel à visão que o anima desde a sua juventude, de procurar por todos os meios impedir que os palestinos tenham o seu próprio Estado.
Para mim, aquilo que Netanyahu mais quer é evitar ter de escolher entre as duas opções anteriores. Por isso navegar o plano de Trump parece ser a forma mais viável de comprar tempo por agora.
A triste verdade é que este plano —se considerarmos que é verdadeiramente um plano, não um improviso— tem demasiados pontos frágeis e lacunas sobre a sua implementação ao longo do tempo. Em cada uma delas esconde-se uma hipótese de o fazer descarrilar. A exaustão pode levar-nos a querer acreditar em qualquer coisa que possa funcionar. Quem dera a crença bastasse.
Rui Tavares
"Sim, por favor, qualquer coisa que pare com a matança", diz o coração. A memória, desafortunadamente, tem obrigação de desconfiar.
O que Trump apresenta para Gaza assemelha-se aos esquemas mais insólitos do colonialismo do século 19, no tempo dos protetorados ou dos domínios pessoais. Que Gaza passe a ser ocupada por uma força internacional, gerida por um conselho de celebridades políticas, sob tutela do próprio Trump, sem condições claras para qualquer autogoverno por palestinos, já para não falar de calendário para vir a fazer parte do território da Palestina numa solução de dois Estados, e que uma parte do mundo ache que isto é um início de acordo, só nos indica como o século 21 vai ficando cada vez mais longe de qualquer relação com o sistema internacional herdado da Segunda Guerra Mundial. Estamos agora no puro domínio do arbitrário.
O que justificará a aparência de credibilidade emprestada a este plano, uma semana depois do discurso delirante de Trump na Assembleia-Geral das Nações Unidas? Cada ator tem uma motivação diferente. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, gosta de se apresentar como se estivesse no comando da situação, e por isso comunica o plano como sendo israelo-americano, provavelmente à espera que no regresso ao seu país os seus parceiros de governo acabem por sabotá-lo.
Os líderes europeus evitam antagonizar Trump e pretendem talvez influenciar o plano, aproximando-o das propostas de franceses e sauditas para o envolvimento da Liga Árabe e para uma solução de dois Estados. Os palestinos esperam que a libertação dos seus prisioneiros possa ajudar a desbloquear a sua própria situação política. Por outro lado, a extrema direita israelense e o Hamas, que é o seu equivalente funcional, podem sempre preferir que o outro lado rejeite o plano antes de terem de ser eles a fazê-lo.
Crucial, como sempre, é a posição de Netanyahu. Para alguns, aquilo que Netanyahu mais quer é manter-se no poder e evitar ser julgado pelos tribunais do seu país, que poderão condená-lo por corrupção. Para outros, aquilo que Netanyahu mais quer é manter-se fiel à visão que o anima desde a sua juventude, de procurar por todos os meios impedir que os palestinos tenham o seu próprio Estado.
Para mim, aquilo que Netanyahu mais quer é evitar ter de escolher entre as duas opções anteriores. Por isso navegar o plano de Trump parece ser a forma mais viável de comprar tempo por agora.
A triste verdade é que este plano —se considerarmos que é verdadeiramente um plano, não um improviso— tem demasiados pontos frágeis e lacunas sobre a sua implementação ao longo do tempo. Em cada uma delas esconde-se uma hipótese de o fazer descarrilar. A exaustão pode levar-nos a querer acreditar em qualquer coisa que possa funcionar. Quem dera a crença bastasse.
Rui Tavares
Poesia precisa de pássaros
Para escrever poesia que não seja política, é preciso ouvir os pássaros, e para ouvi-los é preciso que cessem os bombardeios.
Marwan Makhoul, poeta palestino
Direita trumpista se comporta igualzinho à esquerda woke
O período que se seguiu à morte do ativista de direita americano Charlie Kirk foi intenso. Muita gente foi demitida, muita gente foi cancelada, muita gente foi calada — e não só nos Estados Unidos, também aqui no Brasil. A maioria era, essencialmente, responsável pelo terrível crime de mau gosto. Dizer coisas fora do tom, desagradáveis, porque não gostavam de Kirk. Não faltou quem comparasse o comportamento das massas canceladoras da direita aos muitos canceladores de esquerda. Porque, afinal, o comportamento foi rigorosamente o mesmo.
Pois é, nos tempos da internet, uma das coisas que viraram tabu é comparar esquerda com direita. Afinal, a extrema direita no Brasil tentou um golpe de Estado, nos Estados Unidos promove o descrédito do sistema eleitoral, na Europa o partido alemão AfD quer vestir roupa nova no velho nazismo, e a xenofobia corre solta. Assim, para qualquer tentativa de fazer comparação, alguém tira da manga a carta da falsa equivalência. Isso não muda o fato à nossa frente. A direita trumpista se comportou igualzinho à esquerda woke. Tem explicação. Uma explicação que envolve redes sociais e ajuda a compreender a crise democrática.
Precisamos voltar a ler Francis Fukuyama. Frank, como o chamam seus amigos, está com 72 anos e segue produzindo loucamente, como já fazia há mais de 30 anos, quando propôs a ideia do fim da História. Porque a explicação da semelhança já estava lá no livro, em 1990, e ele a vem desenvolvendo muito nos últimos anos. Ele mostra como política identitária não é exclusividade da esquerda, é turbinada pelas redes e é nosso maior problema.
A tese de Fukuyama começa por thymos. Platão dividia a alma humana em três partes. Logos, a razão; epithymia, o apetite, desejo; e thymos, o anseio por reconhecimento e dignidade. Quando alguém se sente desrespeitado, busca reconhecimento, luta às vezes com raiva pelo olhar do outro, é de thymos que falamos. O impulso político na sociedade, hoje, está ancorado nesse nosso aspecto de todo humano.
Há um desejo, da parte de grupos há muito jogados para as franjas da sociedade, de ser reconhecidos. Negros, mulheres, a comunidade LGBTQIA+. Dos anos 1990 para cá, porém, a percepção dessa luta mudou. Ela deixou de ser uma briga por direitos universais. Uma luta para todos serem tratados igualmente perante a lei. Os grupos se fecharam no entorno da identidade comum e passaram a ver o resto da sociedade como rival. Como algo à parte. Só meu grupo importa.
A identidade à direita, o nacionalismo cristão, o nacionalismo branco, os movimentos anti-imigrantes aparecem em resposta. Os instintos talvez já estivessem lá, mas há claramente a formação a partir do espelho. A direita aprende a promover sua militância daquele jeito com a esquerda. Aí, se apresenta como vítima. O Estado comunista tenta tirar meus direitos, de cidadão de bem. Mas, ponha o olho lá, e é a mesma estrutura. O mesmo comportamento. A mesma rejeição à ideia de universalidade dos direitos. O mesmo desejo de tratamento especial em detrimento do outro grupo. Tanto na esquerda quanto na direita, os grupos fazem a mesma demanda: olhem para mim. Reconheçam-me em detrimento do outro. A minoria se põe como vítima, a maioria reage também se percebendo como vítima, apesar de predominante. Todos ignorados porque o outro foi visto.
Fukuyama vem mostrando, especialmente de 2020 para cá, como as redes sociais turbinam esse mecanismo. Claro. Elas são construídas para que pessoas se exibam, se mostrem, se apresentem. O desafio que as redes trazem a cada um que se junta a elas é um só: descubra como aparecer mais que os outros. A rede quer que todo mundo busque reconhecimento. Não é à toa que as emoções presentes são raiva, orgulho, revolta — ressentimento. O outro tem, por que não tenho?
O problema do direito ao reconhecimento, a ser visto como parte da sociedade, é de todos nós. É da natureza humana. Mas, quando a busca por reconhecimento de identidades do grupo assume as rédeas da política, a democracia quebra. Porque o tribalismo não é novo. Já tivemos, no passado, sociedades divididas em tribos, em clãs, por religiões. Nada disso é desconhecido. A democracia nasceu com a ideia sofisticada de que todos somos iguais perante a lei, porque é uma solução melhor para todo mundo. Não é “seu grupo precisa ser pior que o meu”. É “temos os mesmos direitos por sermos brasileiros”. Ou americanos. Ou seja lá o que for.
Quando a política pré-moderna toma as rédeas, o jogo será assim: quem consegue ferrar mais com o outro grupo, quem derruba mais gente, quem prende, quem cala. Não pode ser isso que queremos.
Pois é, nos tempos da internet, uma das coisas que viraram tabu é comparar esquerda com direita. Afinal, a extrema direita no Brasil tentou um golpe de Estado, nos Estados Unidos promove o descrédito do sistema eleitoral, na Europa o partido alemão AfD quer vestir roupa nova no velho nazismo, e a xenofobia corre solta. Assim, para qualquer tentativa de fazer comparação, alguém tira da manga a carta da falsa equivalência. Isso não muda o fato à nossa frente. A direita trumpista se comportou igualzinho à esquerda woke. Tem explicação. Uma explicação que envolve redes sociais e ajuda a compreender a crise democrática.
Precisamos voltar a ler Francis Fukuyama. Frank, como o chamam seus amigos, está com 72 anos e segue produzindo loucamente, como já fazia há mais de 30 anos, quando propôs a ideia do fim da História. Porque a explicação da semelhança já estava lá no livro, em 1990, e ele a vem desenvolvendo muito nos últimos anos. Ele mostra como política identitária não é exclusividade da esquerda, é turbinada pelas redes e é nosso maior problema.
A tese de Fukuyama começa por thymos. Platão dividia a alma humana em três partes. Logos, a razão; epithymia, o apetite, desejo; e thymos, o anseio por reconhecimento e dignidade. Quando alguém se sente desrespeitado, busca reconhecimento, luta às vezes com raiva pelo olhar do outro, é de thymos que falamos. O impulso político na sociedade, hoje, está ancorado nesse nosso aspecto de todo humano.
Há um desejo, da parte de grupos há muito jogados para as franjas da sociedade, de ser reconhecidos. Negros, mulheres, a comunidade LGBTQIA+. Dos anos 1990 para cá, porém, a percepção dessa luta mudou. Ela deixou de ser uma briga por direitos universais. Uma luta para todos serem tratados igualmente perante a lei. Os grupos se fecharam no entorno da identidade comum e passaram a ver o resto da sociedade como rival. Como algo à parte. Só meu grupo importa.
A identidade à direita, o nacionalismo cristão, o nacionalismo branco, os movimentos anti-imigrantes aparecem em resposta. Os instintos talvez já estivessem lá, mas há claramente a formação a partir do espelho. A direita aprende a promover sua militância daquele jeito com a esquerda. Aí, se apresenta como vítima. O Estado comunista tenta tirar meus direitos, de cidadão de bem. Mas, ponha o olho lá, e é a mesma estrutura. O mesmo comportamento. A mesma rejeição à ideia de universalidade dos direitos. O mesmo desejo de tratamento especial em detrimento do outro grupo. Tanto na esquerda quanto na direita, os grupos fazem a mesma demanda: olhem para mim. Reconheçam-me em detrimento do outro. A minoria se põe como vítima, a maioria reage também se percebendo como vítima, apesar de predominante. Todos ignorados porque o outro foi visto.
Fukuyama vem mostrando, especialmente de 2020 para cá, como as redes sociais turbinam esse mecanismo. Claro. Elas são construídas para que pessoas se exibam, se mostrem, se apresentem. O desafio que as redes trazem a cada um que se junta a elas é um só: descubra como aparecer mais que os outros. A rede quer que todo mundo busque reconhecimento. Não é à toa que as emoções presentes são raiva, orgulho, revolta — ressentimento. O outro tem, por que não tenho?
O problema do direito ao reconhecimento, a ser visto como parte da sociedade, é de todos nós. É da natureza humana. Mas, quando a busca por reconhecimento de identidades do grupo assume as rédeas da política, a democracia quebra. Porque o tribalismo não é novo. Já tivemos, no passado, sociedades divididas em tribos, em clãs, por religiões. Nada disso é desconhecido. A democracia nasceu com a ideia sofisticada de que todos somos iguais perante a lei, porque é uma solução melhor para todo mundo. Não é “seu grupo precisa ser pior que o meu”. É “temos os mesmos direitos por sermos brasileiros”. Ou americanos. Ou seja lá o que for.
Quando a política pré-moderna toma as rédeas, o jogo será assim: quem consegue ferrar mais com o outro grupo, quem derruba mais gente, quem prende, quem cala. Não pode ser isso que queremos.
A escola que morreu
O sistema de ensino atual vem do séc. XIX, situando-se na lógica da Revolução Industrial, quando se tornava necessário formatar operários para as fábricas segundo um modelo uniforme. Nesse contexto, o professor era o detentor dos saberes e passava-os a um conjunto de alunos, de modo semelhante e ao mesmo tempo, numa sala de aula através duma dinâmica unidirecional.
O modelo escolar vigente baseia-se num certo esmagamento da individualidade devido à normalização geral, visto que os alunos são tratados como se fossem uma massa igual, e num processo de competitividade baseado em testes e notas. Apesar dos esforços dos bons professores, o sistema escolar tende a não se compadecer com as reais necessidades dos alunos em termos de identidade, de pertença, de segurança e de valorização pessoal.
De facto, temos um ensino centrado na ditadura do currículo e não no aluno, como preconizava há muito Carl Rogers. Como resultado temos dois problemas sérios: o abandono escolar e uma verdadeira epidemia de distúrbio mental entre os alunos.
Além do mais, veja-se a perfeita inutilidade e falsidade dos rankings das escolas, em que se compara o que não é comparável. Na instrução primária ensinaram-me que nunca se pode somar batatas com cebolas, mas hoje comparam-se resultados escolares sem levar em conta o tipo de escola, a comunidade humana em que ela se situa ou as habilitações literárias e condições sociais dos pais dos alunos. Um embuste.
A escola devia perseguir, como grande objetivo da educação, a capacidade de ajudar os jovens a florescer na vida, desenvolvendo as suas potencialidades, talentos naturais e vocações, atribuindo-lhes as competências de que necessitem para tal. Sobretudo, precisamos duma escola que prepare as crianças para a vida, ensinando-lhes literacia financeira, economia doméstica, o Código da Estrada, primeiros socorros, e outras matérias muito práticas, além das competências sociais.
Por outro lado, precisamos duma escola realmente ligada à comunidade local, às empresas, instituições sociais, desportivas, culturais e religiosas locais, que tenha em conta não a massificação mas as especificidades da comunidade humana envolvente.
Há outra forma de pensar a educação segundo as boas práticas de outros países, em que existem salas dedicadas a diferentes áreas, os docentes funcionam mais como facilitadores e conselheiros, e onde os testes iguais para todos são substituídos por projectos elaborados segundo os interesses dos alunos, os quais redundam em créditos atribuídos, igualmente de acordo com uma tabela previamente estabelecida de horas de trabalho.
Os professores são essenciais em todo este processo, não para coartar a iniciativa e criatividade dos alunos mas para os apoiar nos processos de descoberta e desenvolvimento, com vista a uma verdadeira comunidade de aprendizagem.
Nas escolas públicas e a partir do segundo ciclo, existe a necessidade urgente duma disciplina de “Introdução ao fenómeno religioso”, onde os alunos tenham acesso às grandes linhas das principais religiões do mundo, nesta sociedade globalizada e cada vez mais heterogénea. Será enriquecedor conhecer as bases de fé das religiões, a sua história, interditos, alimentação, vestuário, ritos e crenças. Só assim deixarão de olhar para os migrantes de forma desajustada – ou para os nacionais de outro país se eles próprios emigrarem – e respeitarão a diferença a que os outros têm tanto direito como eles mesmos.
Então e porque não muda a escola? Por um lado porque os atuais professores não foram treinados para um novo tipo de ensino, mas também porque os sindicatos estão demasiado centrados nas condições de trabalho e regalias dos profissionais do ensino, raramente funcionando como força inovadora. Mas sobretudo porque o País, sendo pequeno, tem uma tutela da educação que tudo quer controlar, dificilmente abrindo mão dos seus velhos poderes em nome duma autonomia saudável e adequada das escolas.
Uma coisa é certa. Se a escola não servir para potenciar a vocação, interesses e sensibilidades dos alunos, possibilitando-os a crescer segundo a individualidade de cada um, para pouco serve. A escola-unicamente-transmissora-de-conhecimentos morreu. Precisamos de ser capazes de dar espaço a uma nova escola, que olhe os alunos como indivíduos únicos, pois só assim poderão singrar nesta sociedade massificadora.
Hoje as crianças e adolescentes recebem muitíssimo mais conhecimento através de outros suportes de informação via internet, do que dum qualquer professor e, por isso, as aulas tornaram-se aborrecidas para muitos, tornando esse tempo um frete, em especial para os que estão mais à frente.
O modelo escolar vigente baseia-se num certo esmagamento da individualidade devido à normalização geral, visto que os alunos são tratados como se fossem uma massa igual, e num processo de competitividade baseado em testes e notas. Apesar dos esforços dos bons professores, o sistema escolar tende a não se compadecer com as reais necessidades dos alunos em termos de identidade, de pertença, de segurança e de valorização pessoal.
De facto, temos um ensino centrado na ditadura do currículo e não no aluno, como preconizava há muito Carl Rogers. Como resultado temos dois problemas sérios: o abandono escolar e uma verdadeira epidemia de distúrbio mental entre os alunos.
Além do mais, veja-se a perfeita inutilidade e falsidade dos rankings das escolas, em que se compara o que não é comparável. Na instrução primária ensinaram-me que nunca se pode somar batatas com cebolas, mas hoje comparam-se resultados escolares sem levar em conta o tipo de escola, a comunidade humana em que ela se situa ou as habilitações literárias e condições sociais dos pais dos alunos. Um embuste.
A escola devia perseguir, como grande objetivo da educação, a capacidade de ajudar os jovens a florescer na vida, desenvolvendo as suas potencialidades, talentos naturais e vocações, atribuindo-lhes as competências de que necessitem para tal. Sobretudo, precisamos duma escola que prepare as crianças para a vida, ensinando-lhes literacia financeira, economia doméstica, o Código da Estrada, primeiros socorros, e outras matérias muito práticas, além das competências sociais.
Por outro lado, precisamos duma escola realmente ligada à comunidade local, às empresas, instituições sociais, desportivas, culturais e religiosas locais, que tenha em conta não a massificação mas as especificidades da comunidade humana envolvente.
Há outra forma de pensar a educação segundo as boas práticas de outros países, em que existem salas dedicadas a diferentes áreas, os docentes funcionam mais como facilitadores e conselheiros, e onde os testes iguais para todos são substituídos por projectos elaborados segundo os interesses dos alunos, os quais redundam em créditos atribuídos, igualmente de acordo com uma tabela previamente estabelecida de horas de trabalho.
Os professores são essenciais em todo este processo, não para coartar a iniciativa e criatividade dos alunos mas para os apoiar nos processos de descoberta e desenvolvimento, com vista a uma verdadeira comunidade de aprendizagem.
Nas escolas públicas e a partir do segundo ciclo, existe a necessidade urgente duma disciplina de “Introdução ao fenómeno religioso”, onde os alunos tenham acesso às grandes linhas das principais religiões do mundo, nesta sociedade globalizada e cada vez mais heterogénea. Será enriquecedor conhecer as bases de fé das religiões, a sua história, interditos, alimentação, vestuário, ritos e crenças. Só assim deixarão de olhar para os migrantes de forma desajustada – ou para os nacionais de outro país se eles próprios emigrarem – e respeitarão a diferença a que os outros têm tanto direito como eles mesmos.
Então e porque não muda a escola? Por um lado porque os atuais professores não foram treinados para um novo tipo de ensino, mas também porque os sindicatos estão demasiado centrados nas condições de trabalho e regalias dos profissionais do ensino, raramente funcionando como força inovadora. Mas sobretudo porque o País, sendo pequeno, tem uma tutela da educação que tudo quer controlar, dificilmente abrindo mão dos seus velhos poderes em nome duma autonomia saudável e adequada das escolas.
Uma coisa é certa. Se a escola não servir para potenciar a vocação, interesses e sensibilidades dos alunos, possibilitando-os a crescer segundo a individualidade de cada um, para pouco serve. A escola-unicamente-transmissora-de-conhecimentos morreu. Precisamos de ser capazes de dar espaço a uma nova escola, que olhe os alunos como indivíduos únicos, pois só assim poderão singrar nesta sociedade massificadora.
Repensar o valor em tempos de colapso climático
Belém se prepara para receber a COP30, em 2025. Enquanto chefes de Estado, diplomatas e executivos afinam discursos sobre “transição energética” e “neutralidade de carbono”, a Amazônia arde em chamas e rios inteiros desaparecem. No mesmo ano em que a conferência se anuncia como “histórica”, comunidades do Baixo Amazonas sofrem com a seca mais severa em décadas, enquanto, no Sul do Brasil, milhares de famílias perdem casas e plantações em enchentes inéditas. Do outro lado do Atlântico, ondas de calor fecham escolas na França e ameaçam idosos em bairros populares de Paris. Os exemplos se multiplicam: incêndios no Canadá, furacões mais intensos no Caribe, desertificação no Sahel. A linguagem técnica fala em “eventos extremos”, mas a realidade é outra: trata-se de uma crise das condições de vida. Lugares antes considerados seguros se tornaram instáveis. Regiões agrícolas produtivas convivem com perdas constantes. Cidades se adaptam à base de muros, bombas hidráulicas e ar-condicionado, criando novos abismos sociais entre os que podem se proteger e os que ficam expostos.
O que está em jogo não é apenas a estabilidade climática, mas a própria possibilidade de manter meios favoráveis à vida: plantar, respirar, beber água, caminhar sob o sol sem adoecer. Não basta contabilizar mortes, perdas econômicas ou gigatoneladas de CO₂. O colapso atual nos força a perguntar algo mais profundo: o que consideramos viver bem? Durante séculos, confundimos progresso com mais máquinas, mais velocidade, mais consumo. Hoje, esse modelo mostra seus limites: cada avanço técnico parece abrir novas frentes de devastação. A catástrofe não é apenas natural nem exclusivamente social. Ela nos obriga a olhar para a relação entre a vida e os meios que a sustentam. A crise climática é também uma crise de valores: as categorias que herdamos para definir o que é normal, saudável ou desejável perderam aderência. É a partir dessa fratura que precisamos começar a pensar.
Se há algo que a crise climática escancara é a fragilidade da separação entre vida e ambiente. Estamos acostumados a falar no “meio” como se fosse um cenário externo, um pano de fundo neutro no qual as sociedades humanas se desenrolam. Mas a experiência do colapso mostra que não há distância: o meio é inseparável da vida que nele se desenha. Essa intuição foi formulada de maneira clara por Georges Canguilhem, filósofo da vida e da medicina. Para ele, a vida não é passiva nem se reduz a adaptar-se. O próprio ato de viver consiste em instaurar normas, em diferenciar o que é favorável e o que é hostil. Normal e patológico não são categorias fixas: são efeitos dessa capacidade vital de criar critérios em relação ao meio. Quando um organismo se encontra em um território desconhecido, ou quando o clima se altera, ele precisa redefinir suas normas. É nesse movimento que se reconhece a potência criativa da vida. O problema do nosso tempo é que os meios se transformam em velocidade vertiginosa, impulsionados por processos técnicos e econômicos globais. A vida, com sua plasticidade, resiste, mas a cada dia vê comprimida a margem de invenção. Cultivos tradicionais deixam de prosperar, cidades inteiras se tornam insalubres, doenças antes controladas reaparecem em novas regiões. O que antes era considerado normal – o ritmo das chuvas, a fertilidade dos solos, a estabilidade das estações – perde consistência. O que chamamos de crise ambiental é, portanto, também uma crise normativa. Não sabemos mais quais critérios adotar para distinguir o aceitável do intolerável. Fala-se em segurança alimentar, mas os próprios alimentos viajam milhares de quilômetros e dependem de insumos tóxicos. Fala-se em energia limpa, mas cada nova barragem ou parque eólico reconfigura territórios, expulsa comunidades e cria novas desigualdades. O que falta não é apenas tecnologia, mas um horizonte de sentido capaz de restituir à vida a possibilidade de criar seus próprios meios. É nesse ponto que a questão da vida e do meio, tão marginalizada pelo discurso técnico, precisa voltar ao centro. Sem recolocar essa relação como chave de leitura, o debate climático se limita a planilhas e metas, incapaz de enfrentar o essencial: como sustentar a continuidade da vida em sua pluralidade de mundos.
Durante séculos, a ideia de progresso funcionou como horizonte comum das sociedades modernas. A técnica, o crescimento econômico e a expansão das cidades eram vistos como sinais de avanço universal. O meio transformado pela engenharia, pela ciência e pela indústria aparecia como garantia de um futuro melhor. Era possível acreditar que cada máquina inventada, cada infraestrutura erguida, cada hectare conquistado representava um passo em direção ao bem-estar coletivo. Hoje, essa promessa perdeu credibilidade. A mesma técnica que prometia libertação tornou-se fonte de novos riscos. Barragens que deveriam garantir energia e desenvolvimento provocam deslocamentos em massa e desastres ambientais. Fertilizantes que multiplicaram a produção agrícola contaminam solos e águas. Sistemas de transporte global, que conectaram mercados e culturas, espalham vírus em velocidade inédita e intensificam a dependência de combustíveis fósseis. O progresso mostra sua face contraditória: a aceleração da inovação técnica gera um encadeamento de catástrofes, muitas vezes mais rápidas do que nossa capacidade de resposta. O problema não está apenas em más aplicações da tecnologia ou em falhas de planejamento. O que se revela é o próprio núcleo da promessa: identificar progresso com poder de transformação do meio. Essa equivalência entre vitalidade e técnica sustentou a crença de que mais energia, mais velocidade, mais circulação significariam automaticamente melhores condições de vida. A crise climática expõe o erro dessa tradução. Quanto mais aceleramos, mais reduzimos a margem de adaptação da vida e mais estreitamos as possibilidades de convivência com outros seres. O que chamamos hoje de catástrofe não é o colapso de uma ordem natural estável, mas a falência de um regime histórico de valores. O progresso já não é sinônimo de saúde ou de futuro, mas o nome de uma máquina que consome meios de vida em escala planetária. Colocar em questão essa promessa não significa negar a importância das descobertas científicas ou dos avanços técnicos, mas recusar a ideia de que eles, por si só, garantem continuidade da vida. A questão que se impõe é outra: quais técnicas, quais usos da ciência, quais formas de transformar o meio ainda podem ser consideradas favoráveis à vida?
Diante do fracasso da promessa de progresso, emergem novas maneiras de compreender a Terra. Bruno Latour e Isabelle Stengers chamam a atenção para um fato simples, mas perturbador: o planeta não é um pano de fundo passivo sobre o qual se desenrola a história humana. A Terra vive, cria, age, reage. O que chamamos de Gaia não é uma divindade nem uma metáfora poética, mas o nome de uma força que devolve à humanidade os efeitos acumulados de sua ação. Essa virada implica abandonar a visão de um mundo único e estável, governado por leis naturais que poderíamos dominar ou corrigir à vontade. A Terra não cabe mais nesse modelo. Secas prolongadas, tempestades imprevisíveis e degelo acelerado não são apenas acidentes a serem administrados: são sinais de que vivemos num sistema vivo e instável, que se transforma em resposta às pressões humanas. Para povos indígenas, essa constatação não é novidade. Muito antes de se falar em Antropoceno, eles já diziam que a invasão colonial significava o fim de seus mundos. Cada floresta derrubada, cada rio desviado, cada território tomado não representava apenas uma perda material, mas a destruição de relações vitais com espíritos, animais e plantas. O que hoje chamamos de catástrofe global foi, para eles, um processo contínuo de ruína desde o início da colonização. Falar em Gaia, portanto, não é apenas atualizar a ciência climática, mas também reconhecer a multiplicidade de mundos que compõem a Terra. A ideia de um colapso único, homogêneo e universal esconde que existem diferentes modos de experimentar e nomear a crise. Para uns, é a ameaça de inundações que exigem investimentos em diques e seguros; para outros, é a perda irreversível de territórios e modos de vida. Essa perspectiva cosmopolítica desloca o debate. Não se trata mais de encontrar uma solução técnica global, mas de admitir que diferentes coletivos – humanos e não humanos – devem ser considerados na definição do que conta como viver. A crise climática deixa de ser apenas problema de engenheiros e diplomatas: torna-se disputa sobre como compor mundos comuns entre formas de vida diversas.
Se a cosmopolítica nos obriga a reconhecer a multiplicidade de mundos, o ecofeminismo mostra como a exploração da natureza e a opressão das mulheres caminham lado a lado. Ao longo da modernidade, o trabalho invisível do cuidado foi relegado a um segundo plano, assim como os ciclos vitais da terra foram tratados como recursos a serem extraídos sem limites. A mesma lógica que transformou florestas em monoculturas reduziu a experiência feminina ao silêncio da reprodução. Vandana Shiva fala em “monocultura da mente”: a ideia de que há apenas uma forma válida de conhecimento, a científica, que legitima a homogeneização das práticas agrícolas, a dependência de agrotóxicos e sementes patenteadas. Essa monocultura não destrói apenas a biodiversidade, mas também a pluralidade de saberes. Donna Haraway, por sua vez, propõe pensar o parentesco além da família biológica, reconhecendo que viver é sempre viver com outros – animais, plantas, microrganismos. Val Plumwood denuncia o dualismo que separa cultura e natureza, racionalidade e corpo, masculino e feminino, e mostra como esse esquema legitima a dominação. O ecofeminismo não se limita a denunciar: ele propõe outro critério de valor. O cuidado, tão desvalorizado nas sociedades capitalistas, aparece como central para pensar a continuidade da vida. Isso não significa uma romantização do papel tradicional das mulheres, mas a valorização do trabalho vital de sustentar meios de existência. Cuidar de uma criança, de um idoso, de uma horta ou de uma nascente não é atividade secundária: é o coração de qualquer projeto de futuro. O que emerge dessa perspectiva é uma ética da reciprocidade. A vida não se sustenta pela acumulação infinita, mas pela atenção aos limites, pela manutenção dos vínculos, pela capacidade de regenerar. Em vez da corrida pelo crescimento, o ecofeminismo sugere outro horizonte: viver bem é viver em relações que sustentem a pluralidade dos seres. Essa virada desloca a economia da exploração para uma política do cuidado – uma lição indispensável diante da catástrofe climática.
Outra chave de leitura da crise climática vem da tradição marxista. Se o termo Antropoceno sugere que “a humanidade” como um todo seria responsável pela devastação, críticos lembram que nem todos têm a mesma participação ou sofrem as mesmas consequências. Por isso, muitos preferem falar em Capitaloceno: não é o ser humano genérico que ameaça a Terra, mas um sistema econômico que transforma tudo em mercadoria e trata a vida como matéria-prima para acumulação. Essa leitura tem longa história. Rosa Luxemburgo já apontava, no início do século XX, que o capitalismo precisava expandir continuamente para novos territórios, destruindo modos de vida locais. Silvia Federici mostrou como a transição ao capitalismo foi também captura dos corpos e do trabalho reprodutivo, subordinando mulheres e camponeses a um regime de exploração contínua. Mais recentemente, Kohei Saito retomou Marx para defender um comunismo ecológico, baseado no decrescimento e no uso racional dos recursos comuns.
O Capitaloceno não é apenas um nome novo: é uma forma de evidenciar as desigualdades que a palavra Antropoceno tende a apagar. O consumo de energia, a emissão de gases, o desmatamento e a mineração não são distribuídos igualmente. Grandes corporações, potências industriais e cadeias globais concentram a responsabilidade, enquanto comunidades pobres e povos indígenas pagam o preço mais alto. A crise, vista assim, não é apenas ecológica, mas também social e política. A crítica marxista também ilumina a maneira como a economia verde reproduz velhas lógicas sob nova roupagem. Créditos de carbono, compensações ambientais e mercados de biodiversidade são apresentados como soluções, mas frequentemente resultam em novas formas de cercamento: terras comunitárias transformadas em reservas de carbono, populações expulsas em nome da preservação. O mesmo sistema que produziu a crise oferece suas próprias “soluções”, mantendo intactas as bases da exploração.
Falar em Capitaloceno, portanto, não é apenas um exercício teórico, mas um chamado à ação. Se a crise climática é também crise do capital, enfrentar o desastre exige transformar não só a relação com a natureza, mas o próprio modelo econômico que mercantiliza a vida. A pergunta central deixa de ser apenas “como reduzir emissões?” e passa a ser “como reorganizar a sociedade para que a vida, e não o lucro, seja o valor fundamental?”.
À medida que o colapso se torna inegável, cresce também o uso político da palavra “ecologia”. Governos, empresas e organismos internacionais repetem o termo como senha de legitimidade, mas o esvaziam de sentido crítico. A ecologia, que nasceu como ciência das relações entre seres vivos e seus meios, foi convertida em linguagem de gestão. É nesse registro que surgem expressões como risco, resiliência e sustentabilidade, hoje presentes em relatórios de bancos, em planos de urbanismo e até em campanhas publicitárias. O risco é transformado em cálculo: quem pode pagar seguros, instalar barreiras ou migrar para áreas seguras, reduz sua exposição. Quem não pode, assume os prejuízos e a morte como custo invisível. A resiliência, apresentada como virtude, esconde um deslocamento perverso: já não se trata de evitar a destruição, mas de exigir que populações inteiras aprendam a conviver com ela. A sustentabilidade, tão celebrada, tornou-se selo para o “crescimento verde”, que mantém a lógica de exploração, apenas adaptada a novas métricas de carbono e biodiversidade. Esse vocabulário é o núcleo do adaptacionismo: a ideia de que não há alternativa senão ajustar-se a um mundo cada vez mais hostil. Trata-se de uma racionalidade que naturaliza a catástrofe e coloca sobre os mais vulneráveis o fardo de suportá-la. Povos indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares, moradores de periferias urbanas são convocados a “resistir” e “se adaptar”, enquanto o modelo que produz a devastação segue intocado. A ecologia oficial funciona como gramática de administração da crise. Em vez de questionar os fundamentos de nossa relação com a Terra, ela transforma a catástrofe em oportunidade de negócio e em espetáculo de diplomacia. Relatórios técnicos, metas e indicadores multiplicam-se, mas o essencial permanece fora de pauta: quais meios de vida queremos sustentar, e a que custo. Ao invés de abrir espaço para a pluralidade dos mundos, essa ecologia captura a linguagem da vida para legitimar a continuidade de um sistema que a destrói. É o que veremos de forma exemplar na COP30, em Belém, quando a Amazônia será transformada em palco para uma encenação global de compromissos verdes.
A escolha de Belém do Pará como sede da COP30, em 2025, foi celebrada como triunfo diplomático do Brasil. A narrativa oficial fala em dar “voz à Amazônia”, colocar “a floresta no centro do debate” e mostrar ao mundo a liderança brasileira na agenda climática. Mas basta observar a realidade amazônica para perceber as contradições desse espetáculo. Enquanto hotéis são reformados e avenidas asfaltadas para receber delegações estrangeiras, comunidades ribeirinhas vivem sem saneamento, com acesso precário a energia elétrica e sob ameaça constante de poluição por mercúrio do garimpo. Os discursos sobre “neutralidade de carbono” ecoam nos salões climatizados, enquanto desmatamento, hidrelétricas e agronegócio seguem avançando sobre territórios indígenas e áreas de floresta. A promessa de “dar voz” aos povos da Amazônia corre o risco de se limitar a participações simbólicas em painéis paralelos, enquanto as decisões centrais são tomadas entre governos e corporações. O programa da conferência tende a repetir a gramática já conhecida: mercados de carbono, compensações ambientais, compromissos de redução gradual de emissões. O que se negocia, na prática, é a continuidade do modelo extrativo, agora com nova roupagem. A floresta vira “estoque de carbono” e suas populações, guardiãs involuntárias de créditos vendidos em bolsas internacionais. Ao invés de interromper a lógica de destruição, a COP30 pode reforçá-la, legitimando o que há de mais perverso no adaptacionismo: a administração do desastre como se fosse inevitável. O risco de Belém é que a COP30 se converta em espetáculo de imagens e promessas, uma vitrine global onde o verde é cor de marketing. A cidade se tornará palco de uma encenação que projeta para o mundo uma Amazônia harmônica, ao mesmo tempo em que sua população continua submetida a um cotidiano de violência ambiental, social e política. A conferência pode até criar consensos diplomáticos, mas dificilmente tocará na questão fundamental: como transformar a relação entre vida e meio para que múltiplos mundos possam florescer.
A crise climática só pode ser compreendida plenamente se deslocarmos o foco: não basta falar em gigatoneladas de carbono ou em metas de redução. O que está em jogo é a própria relação entre vida e meio. Essa relação, longe de ser natural e imutável, é histórica: sociedades diferentes instituíram maneiras distintas de habitar, cultivar, criar vínculos e organizar seus mundos. Foi a modernidade ocidental que, ao identificar progresso com domínio técnico, transformou o meio em objeto de exploração e a vida em recurso a ser administrado. Georges Canguilhem mostrou que viver é sempre uma atividade normativa, isto é, de criação de critérios do que é favorável ou desfavorável em cada situação. Mas quando a velocidade das transformações ultrapassa a capacidade vital de instituir novas normas, instala-se a crise. É o que vemos agora: rios que secam em semanas, temperaturas que saltam de extremos, cidades que se tornam inóspitas em poucas décadas. O meio deixa de ser campo de invenção e passa a impor hostilidade permanente. Tratar a crise apenas como problema técnico é repetir a armadilha do progresso. O que se impõe é um programa histórico-epistemológico: examinar como chegamos a este ponto, quais valores sustentaram a equivalência entre vitalidade e produtividade, e de que modo podemos reconstruir outra gramática de convivência. Não se trata de nostalgia por um passado idílico, mas de reconhecer que a vida sempre foi plural e que o meio nunca foi único. Existem muitos mundos, muitas formas de normatividade, muitas maneiras de viver bem. Recolocar a vida e o meio no centro do debate é também abrir espaço para experiências que foram marginalizadas: saberes indígenas que compreendem a floresta como parente, práticas camponesas de cultivo que respeitam os ciclos da terra, formas de cuidado que não se deixam medir por índices de produtividade. Esses não são resquícios arcaicos, mas reservas de futuro. Num planeta em colapso, eles mostram que é possível imaginar meios favoráveis sem repetir a lógica do capital. O desafio, portanto, não é apenas sobreviver ao Antropoceno, mas reinventar os critérios que definem o que conta como viver.
Chegamos a um ponto em que os diagnósticos técnicos já não bastam. Sabemos quais são as curvas de aquecimento, as metas de emissão, os limites de desmatamento. O que falta não é informação, mas coragem para deslocar os critérios que organizam nossas escolhas. A crise climática não é apenas um problema físico, é uma crise axiológica: já não sabemos quais vidas são sustentáveis, quais meios queremos preservar, quais futuros desejamos construir. Falar em política da vida significa recolocar essa pergunta no centro. Não se trata de salvar uma abstração chamada “natureza”, nem de administrar estoques de carbono em bolsas de valores. O que está em jogo é a possibilidade de continuar criando mundos em comum, de sustentar vínculos entre espécies, de permitir que a vida siga inventando normas em territórios ainda férteis. Isso exige reconhecer as desigualdades que estruturam a catástrofe: não é o mesmo enfrentar o colapso nos bairros ricos de São Paulo e nas aldeias do Xingu, em Paris ou em Porto Príncipe. Justiça climática significa pluralizar os meios de vida, reconhecer as diferenças e proteger os mais vulneráveis. Essa política da vida não virá das cúpulas diplomáticas, mas das práticas que já reinventam cotidianos: comunidades que recuperam rios poluídos, coletivos urbanos que cultivam hortas em terrenos baldios, povos indígenas que defendem a floresta não como recurso, mas como condição de existência. São experiências frágeis diante da máquina global de exploração, mas é nelas que se encontra a semente de outro futuro.
O Antropoceno nos obriga a abandonar a gramática do progresso e a pensar em termos de continuidade vital. O que está em jogo não é simplesmente reduzir danos, mas transformar os valores que regem nossa relação com o Planeta. Diante de um planeta que responde, a alternativa é clara: ou seguimos normalizando a catástrofe em nome da resiliência, ou inventamos uma política fundada na vida e no meio que a torna possível. Não há neutralidade possível nesse horizonte. O futuro dependerá da coragem de escolher quais mundos queremos habitar e quais valores estamos dispostos a sustentar.
Caio A. T. Souto
O que está em jogo não é apenas a estabilidade climática, mas a própria possibilidade de manter meios favoráveis à vida: plantar, respirar, beber água, caminhar sob o sol sem adoecer. Não basta contabilizar mortes, perdas econômicas ou gigatoneladas de CO₂. O colapso atual nos força a perguntar algo mais profundo: o que consideramos viver bem? Durante séculos, confundimos progresso com mais máquinas, mais velocidade, mais consumo. Hoje, esse modelo mostra seus limites: cada avanço técnico parece abrir novas frentes de devastação. A catástrofe não é apenas natural nem exclusivamente social. Ela nos obriga a olhar para a relação entre a vida e os meios que a sustentam. A crise climática é também uma crise de valores: as categorias que herdamos para definir o que é normal, saudável ou desejável perderam aderência. É a partir dessa fratura que precisamos começar a pensar.
Se há algo que a crise climática escancara é a fragilidade da separação entre vida e ambiente. Estamos acostumados a falar no “meio” como se fosse um cenário externo, um pano de fundo neutro no qual as sociedades humanas se desenrolam. Mas a experiência do colapso mostra que não há distância: o meio é inseparável da vida que nele se desenha. Essa intuição foi formulada de maneira clara por Georges Canguilhem, filósofo da vida e da medicina. Para ele, a vida não é passiva nem se reduz a adaptar-se. O próprio ato de viver consiste em instaurar normas, em diferenciar o que é favorável e o que é hostil. Normal e patológico não são categorias fixas: são efeitos dessa capacidade vital de criar critérios em relação ao meio. Quando um organismo se encontra em um território desconhecido, ou quando o clima se altera, ele precisa redefinir suas normas. É nesse movimento que se reconhece a potência criativa da vida. O problema do nosso tempo é que os meios se transformam em velocidade vertiginosa, impulsionados por processos técnicos e econômicos globais. A vida, com sua plasticidade, resiste, mas a cada dia vê comprimida a margem de invenção. Cultivos tradicionais deixam de prosperar, cidades inteiras se tornam insalubres, doenças antes controladas reaparecem em novas regiões. O que antes era considerado normal – o ritmo das chuvas, a fertilidade dos solos, a estabilidade das estações – perde consistência. O que chamamos de crise ambiental é, portanto, também uma crise normativa. Não sabemos mais quais critérios adotar para distinguir o aceitável do intolerável. Fala-se em segurança alimentar, mas os próprios alimentos viajam milhares de quilômetros e dependem de insumos tóxicos. Fala-se em energia limpa, mas cada nova barragem ou parque eólico reconfigura territórios, expulsa comunidades e cria novas desigualdades. O que falta não é apenas tecnologia, mas um horizonte de sentido capaz de restituir à vida a possibilidade de criar seus próprios meios. É nesse ponto que a questão da vida e do meio, tão marginalizada pelo discurso técnico, precisa voltar ao centro. Sem recolocar essa relação como chave de leitura, o debate climático se limita a planilhas e metas, incapaz de enfrentar o essencial: como sustentar a continuidade da vida em sua pluralidade de mundos.
Durante séculos, a ideia de progresso funcionou como horizonte comum das sociedades modernas. A técnica, o crescimento econômico e a expansão das cidades eram vistos como sinais de avanço universal. O meio transformado pela engenharia, pela ciência e pela indústria aparecia como garantia de um futuro melhor. Era possível acreditar que cada máquina inventada, cada infraestrutura erguida, cada hectare conquistado representava um passo em direção ao bem-estar coletivo. Hoje, essa promessa perdeu credibilidade. A mesma técnica que prometia libertação tornou-se fonte de novos riscos. Barragens que deveriam garantir energia e desenvolvimento provocam deslocamentos em massa e desastres ambientais. Fertilizantes que multiplicaram a produção agrícola contaminam solos e águas. Sistemas de transporte global, que conectaram mercados e culturas, espalham vírus em velocidade inédita e intensificam a dependência de combustíveis fósseis. O progresso mostra sua face contraditória: a aceleração da inovação técnica gera um encadeamento de catástrofes, muitas vezes mais rápidas do que nossa capacidade de resposta. O problema não está apenas em más aplicações da tecnologia ou em falhas de planejamento. O que se revela é o próprio núcleo da promessa: identificar progresso com poder de transformação do meio. Essa equivalência entre vitalidade e técnica sustentou a crença de que mais energia, mais velocidade, mais circulação significariam automaticamente melhores condições de vida. A crise climática expõe o erro dessa tradução. Quanto mais aceleramos, mais reduzimos a margem de adaptação da vida e mais estreitamos as possibilidades de convivência com outros seres. O que chamamos hoje de catástrofe não é o colapso de uma ordem natural estável, mas a falência de um regime histórico de valores. O progresso já não é sinônimo de saúde ou de futuro, mas o nome de uma máquina que consome meios de vida em escala planetária. Colocar em questão essa promessa não significa negar a importância das descobertas científicas ou dos avanços técnicos, mas recusar a ideia de que eles, por si só, garantem continuidade da vida. A questão que se impõe é outra: quais técnicas, quais usos da ciência, quais formas de transformar o meio ainda podem ser consideradas favoráveis à vida?
Diante do fracasso da promessa de progresso, emergem novas maneiras de compreender a Terra. Bruno Latour e Isabelle Stengers chamam a atenção para um fato simples, mas perturbador: o planeta não é um pano de fundo passivo sobre o qual se desenrola a história humana. A Terra vive, cria, age, reage. O que chamamos de Gaia não é uma divindade nem uma metáfora poética, mas o nome de uma força que devolve à humanidade os efeitos acumulados de sua ação. Essa virada implica abandonar a visão de um mundo único e estável, governado por leis naturais que poderíamos dominar ou corrigir à vontade. A Terra não cabe mais nesse modelo. Secas prolongadas, tempestades imprevisíveis e degelo acelerado não são apenas acidentes a serem administrados: são sinais de que vivemos num sistema vivo e instável, que se transforma em resposta às pressões humanas. Para povos indígenas, essa constatação não é novidade. Muito antes de se falar em Antropoceno, eles já diziam que a invasão colonial significava o fim de seus mundos. Cada floresta derrubada, cada rio desviado, cada território tomado não representava apenas uma perda material, mas a destruição de relações vitais com espíritos, animais e plantas. O que hoje chamamos de catástrofe global foi, para eles, um processo contínuo de ruína desde o início da colonização. Falar em Gaia, portanto, não é apenas atualizar a ciência climática, mas também reconhecer a multiplicidade de mundos que compõem a Terra. A ideia de um colapso único, homogêneo e universal esconde que existem diferentes modos de experimentar e nomear a crise. Para uns, é a ameaça de inundações que exigem investimentos em diques e seguros; para outros, é a perda irreversível de territórios e modos de vida. Essa perspectiva cosmopolítica desloca o debate. Não se trata mais de encontrar uma solução técnica global, mas de admitir que diferentes coletivos – humanos e não humanos – devem ser considerados na definição do que conta como viver. A crise climática deixa de ser apenas problema de engenheiros e diplomatas: torna-se disputa sobre como compor mundos comuns entre formas de vida diversas.
Se a cosmopolítica nos obriga a reconhecer a multiplicidade de mundos, o ecofeminismo mostra como a exploração da natureza e a opressão das mulheres caminham lado a lado. Ao longo da modernidade, o trabalho invisível do cuidado foi relegado a um segundo plano, assim como os ciclos vitais da terra foram tratados como recursos a serem extraídos sem limites. A mesma lógica que transformou florestas em monoculturas reduziu a experiência feminina ao silêncio da reprodução. Vandana Shiva fala em “monocultura da mente”: a ideia de que há apenas uma forma válida de conhecimento, a científica, que legitima a homogeneização das práticas agrícolas, a dependência de agrotóxicos e sementes patenteadas. Essa monocultura não destrói apenas a biodiversidade, mas também a pluralidade de saberes. Donna Haraway, por sua vez, propõe pensar o parentesco além da família biológica, reconhecendo que viver é sempre viver com outros – animais, plantas, microrganismos. Val Plumwood denuncia o dualismo que separa cultura e natureza, racionalidade e corpo, masculino e feminino, e mostra como esse esquema legitima a dominação. O ecofeminismo não se limita a denunciar: ele propõe outro critério de valor. O cuidado, tão desvalorizado nas sociedades capitalistas, aparece como central para pensar a continuidade da vida. Isso não significa uma romantização do papel tradicional das mulheres, mas a valorização do trabalho vital de sustentar meios de existência. Cuidar de uma criança, de um idoso, de uma horta ou de uma nascente não é atividade secundária: é o coração de qualquer projeto de futuro. O que emerge dessa perspectiva é uma ética da reciprocidade. A vida não se sustenta pela acumulação infinita, mas pela atenção aos limites, pela manutenção dos vínculos, pela capacidade de regenerar. Em vez da corrida pelo crescimento, o ecofeminismo sugere outro horizonte: viver bem é viver em relações que sustentem a pluralidade dos seres. Essa virada desloca a economia da exploração para uma política do cuidado – uma lição indispensável diante da catástrofe climática.
Outra chave de leitura da crise climática vem da tradição marxista. Se o termo Antropoceno sugere que “a humanidade” como um todo seria responsável pela devastação, críticos lembram que nem todos têm a mesma participação ou sofrem as mesmas consequências. Por isso, muitos preferem falar em Capitaloceno: não é o ser humano genérico que ameaça a Terra, mas um sistema econômico que transforma tudo em mercadoria e trata a vida como matéria-prima para acumulação. Essa leitura tem longa história. Rosa Luxemburgo já apontava, no início do século XX, que o capitalismo precisava expandir continuamente para novos territórios, destruindo modos de vida locais. Silvia Federici mostrou como a transição ao capitalismo foi também captura dos corpos e do trabalho reprodutivo, subordinando mulheres e camponeses a um regime de exploração contínua. Mais recentemente, Kohei Saito retomou Marx para defender um comunismo ecológico, baseado no decrescimento e no uso racional dos recursos comuns.
O Capitaloceno não é apenas um nome novo: é uma forma de evidenciar as desigualdades que a palavra Antropoceno tende a apagar. O consumo de energia, a emissão de gases, o desmatamento e a mineração não são distribuídos igualmente. Grandes corporações, potências industriais e cadeias globais concentram a responsabilidade, enquanto comunidades pobres e povos indígenas pagam o preço mais alto. A crise, vista assim, não é apenas ecológica, mas também social e política. A crítica marxista também ilumina a maneira como a economia verde reproduz velhas lógicas sob nova roupagem. Créditos de carbono, compensações ambientais e mercados de biodiversidade são apresentados como soluções, mas frequentemente resultam em novas formas de cercamento: terras comunitárias transformadas em reservas de carbono, populações expulsas em nome da preservação. O mesmo sistema que produziu a crise oferece suas próprias “soluções”, mantendo intactas as bases da exploração.
Falar em Capitaloceno, portanto, não é apenas um exercício teórico, mas um chamado à ação. Se a crise climática é também crise do capital, enfrentar o desastre exige transformar não só a relação com a natureza, mas o próprio modelo econômico que mercantiliza a vida. A pergunta central deixa de ser apenas “como reduzir emissões?” e passa a ser “como reorganizar a sociedade para que a vida, e não o lucro, seja o valor fundamental?”.
À medida que o colapso se torna inegável, cresce também o uso político da palavra “ecologia”. Governos, empresas e organismos internacionais repetem o termo como senha de legitimidade, mas o esvaziam de sentido crítico. A ecologia, que nasceu como ciência das relações entre seres vivos e seus meios, foi convertida em linguagem de gestão. É nesse registro que surgem expressões como risco, resiliência e sustentabilidade, hoje presentes em relatórios de bancos, em planos de urbanismo e até em campanhas publicitárias. O risco é transformado em cálculo: quem pode pagar seguros, instalar barreiras ou migrar para áreas seguras, reduz sua exposição. Quem não pode, assume os prejuízos e a morte como custo invisível. A resiliência, apresentada como virtude, esconde um deslocamento perverso: já não se trata de evitar a destruição, mas de exigir que populações inteiras aprendam a conviver com ela. A sustentabilidade, tão celebrada, tornou-se selo para o “crescimento verde”, que mantém a lógica de exploração, apenas adaptada a novas métricas de carbono e biodiversidade. Esse vocabulário é o núcleo do adaptacionismo: a ideia de que não há alternativa senão ajustar-se a um mundo cada vez mais hostil. Trata-se de uma racionalidade que naturaliza a catástrofe e coloca sobre os mais vulneráveis o fardo de suportá-la. Povos indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares, moradores de periferias urbanas são convocados a “resistir” e “se adaptar”, enquanto o modelo que produz a devastação segue intocado. A ecologia oficial funciona como gramática de administração da crise. Em vez de questionar os fundamentos de nossa relação com a Terra, ela transforma a catástrofe em oportunidade de negócio e em espetáculo de diplomacia. Relatórios técnicos, metas e indicadores multiplicam-se, mas o essencial permanece fora de pauta: quais meios de vida queremos sustentar, e a que custo. Ao invés de abrir espaço para a pluralidade dos mundos, essa ecologia captura a linguagem da vida para legitimar a continuidade de um sistema que a destrói. É o que veremos de forma exemplar na COP30, em Belém, quando a Amazônia será transformada em palco para uma encenação global de compromissos verdes.
A escolha de Belém do Pará como sede da COP30, em 2025, foi celebrada como triunfo diplomático do Brasil. A narrativa oficial fala em dar “voz à Amazônia”, colocar “a floresta no centro do debate” e mostrar ao mundo a liderança brasileira na agenda climática. Mas basta observar a realidade amazônica para perceber as contradições desse espetáculo. Enquanto hotéis são reformados e avenidas asfaltadas para receber delegações estrangeiras, comunidades ribeirinhas vivem sem saneamento, com acesso precário a energia elétrica e sob ameaça constante de poluição por mercúrio do garimpo. Os discursos sobre “neutralidade de carbono” ecoam nos salões climatizados, enquanto desmatamento, hidrelétricas e agronegócio seguem avançando sobre territórios indígenas e áreas de floresta. A promessa de “dar voz” aos povos da Amazônia corre o risco de se limitar a participações simbólicas em painéis paralelos, enquanto as decisões centrais são tomadas entre governos e corporações. O programa da conferência tende a repetir a gramática já conhecida: mercados de carbono, compensações ambientais, compromissos de redução gradual de emissões. O que se negocia, na prática, é a continuidade do modelo extrativo, agora com nova roupagem. A floresta vira “estoque de carbono” e suas populações, guardiãs involuntárias de créditos vendidos em bolsas internacionais. Ao invés de interromper a lógica de destruição, a COP30 pode reforçá-la, legitimando o que há de mais perverso no adaptacionismo: a administração do desastre como se fosse inevitável. O risco de Belém é que a COP30 se converta em espetáculo de imagens e promessas, uma vitrine global onde o verde é cor de marketing. A cidade se tornará palco de uma encenação que projeta para o mundo uma Amazônia harmônica, ao mesmo tempo em que sua população continua submetida a um cotidiano de violência ambiental, social e política. A conferência pode até criar consensos diplomáticos, mas dificilmente tocará na questão fundamental: como transformar a relação entre vida e meio para que múltiplos mundos possam florescer.
A crise climática só pode ser compreendida plenamente se deslocarmos o foco: não basta falar em gigatoneladas de carbono ou em metas de redução. O que está em jogo é a própria relação entre vida e meio. Essa relação, longe de ser natural e imutável, é histórica: sociedades diferentes instituíram maneiras distintas de habitar, cultivar, criar vínculos e organizar seus mundos. Foi a modernidade ocidental que, ao identificar progresso com domínio técnico, transformou o meio em objeto de exploração e a vida em recurso a ser administrado. Georges Canguilhem mostrou que viver é sempre uma atividade normativa, isto é, de criação de critérios do que é favorável ou desfavorável em cada situação. Mas quando a velocidade das transformações ultrapassa a capacidade vital de instituir novas normas, instala-se a crise. É o que vemos agora: rios que secam em semanas, temperaturas que saltam de extremos, cidades que se tornam inóspitas em poucas décadas. O meio deixa de ser campo de invenção e passa a impor hostilidade permanente. Tratar a crise apenas como problema técnico é repetir a armadilha do progresso. O que se impõe é um programa histórico-epistemológico: examinar como chegamos a este ponto, quais valores sustentaram a equivalência entre vitalidade e produtividade, e de que modo podemos reconstruir outra gramática de convivência. Não se trata de nostalgia por um passado idílico, mas de reconhecer que a vida sempre foi plural e que o meio nunca foi único. Existem muitos mundos, muitas formas de normatividade, muitas maneiras de viver bem. Recolocar a vida e o meio no centro do debate é também abrir espaço para experiências que foram marginalizadas: saberes indígenas que compreendem a floresta como parente, práticas camponesas de cultivo que respeitam os ciclos da terra, formas de cuidado que não se deixam medir por índices de produtividade. Esses não são resquícios arcaicos, mas reservas de futuro. Num planeta em colapso, eles mostram que é possível imaginar meios favoráveis sem repetir a lógica do capital. O desafio, portanto, não é apenas sobreviver ao Antropoceno, mas reinventar os critérios que definem o que conta como viver.
Chegamos a um ponto em que os diagnósticos técnicos já não bastam. Sabemos quais são as curvas de aquecimento, as metas de emissão, os limites de desmatamento. O que falta não é informação, mas coragem para deslocar os critérios que organizam nossas escolhas. A crise climática não é apenas um problema físico, é uma crise axiológica: já não sabemos quais vidas são sustentáveis, quais meios queremos preservar, quais futuros desejamos construir. Falar em política da vida significa recolocar essa pergunta no centro. Não se trata de salvar uma abstração chamada “natureza”, nem de administrar estoques de carbono em bolsas de valores. O que está em jogo é a possibilidade de continuar criando mundos em comum, de sustentar vínculos entre espécies, de permitir que a vida siga inventando normas em territórios ainda férteis. Isso exige reconhecer as desigualdades que estruturam a catástrofe: não é o mesmo enfrentar o colapso nos bairros ricos de São Paulo e nas aldeias do Xingu, em Paris ou em Porto Príncipe. Justiça climática significa pluralizar os meios de vida, reconhecer as diferenças e proteger os mais vulneráveis. Essa política da vida não virá das cúpulas diplomáticas, mas das práticas que já reinventam cotidianos: comunidades que recuperam rios poluídos, coletivos urbanos que cultivam hortas em terrenos baldios, povos indígenas que defendem a floresta não como recurso, mas como condição de existência. São experiências frágeis diante da máquina global de exploração, mas é nelas que se encontra a semente de outro futuro.
O Antropoceno nos obriga a abandonar a gramática do progresso e a pensar em termos de continuidade vital. O que está em jogo não é simplesmente reduzir danos, mas transformar os valores que regem nossa relação com o Planeta. Diante de um planeta que responde, a alternativa é clara: ou seguimos normalizando a catástrofe em nome da resiliência, ou inventamos uma política fundada na vida e no meio que a torna possível. Não há neutralidade possível nesse horizonte. O futuro dependerá da coragem de escolher quais mundos queremos habitar e quais valores estamos dispostos a sustentar.
Caio A. T. Souto
Trump, Netanyahu e o veto à Palestina: a geopolítica da exclusão
A recente proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar o conflito entre Israel e o Hamas em Gaza volta a expor os impasses históricos em torno da questão palestiniana e a revelar os verdadeiros interesses que moldam a política internacional.
Trump afirmou que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, concordou com a ideia de criar em Gaza um “comité palestiniano de transição, tecnocrático e apolítico”, formado por especialistas internacionais e representantes locais qualificados, responsável por administrar temporariamente a região. Ao mesmo tempo, criticou a posição da maioria dos países que apoiam a criação de um Estado da Palestina, reafirmando a tradicional recusa norte-americana e israelita em aceitar essa solução.
O que se apresenta como proposta de paz soa, na prática, como um adiamento indefinido de uma reivindicação histórica. Ao substituir a soberania por um arranjo tutelado, os Estados Unidos e Israel mantêm o essencial: o controlo político e estratégico sobre os territórios, impedindo que os árabes da região se constituam como Estado pleno, com fronteiras reconhecidas, governo eleito, capacidade de autodefesa e representação internacional.
O argumento central para negar o Estado continua a ser o da segurança. Israel insiste que não pode permitir a emergência de um vizinho soberano que, na sua visão, poderia servir de plataforma para novos ataques. Mas, ao colocar toda a ênfase na segurança, ignora-se que a ocupação prolongada, a ausência de soberania e a negação de direitos são, em si mesmas, factores permanentes de instabilidade e radicalização.
A recusa também se apoia em razões territoriais e ideológicas: muitos sectores do Estado israelita não admitem abdicar de partes estratégicas da Cisjordânia, nem aceitar um rival com pretensões equivalentes de legitimidade histórica.
Para os Estados Unidos, as razões são múltiplas. No plano geopolítico, Washington mantém a pretensão de ser árbitro da região, mas raramente se posiciona de forma a contrariar os interesses de Israel. Internamente, a política em relação ao conflito é atravessada por pressões eleitorais, pelo peso do lobby pró-Israel e pelo discurso religioso de parcelas do eleitorado.
Externamente, a Casa Branca procura equilibrar-se entre o apoio incondicional a Israel e a necessidade de não perder aliados no mundo árabe, onde a causa da autodeterminação continua a ressoar fortemente. Não reconhecer a soberania reivindicada, portanto, é também uma forma de manter influência, controlar o ritmo das negociações e evitar compromissos que possam ser politicamente custosos.
O problema é que a proposta de Trump não oferece dignidade, apenas gestão. Sem governo eleito, sem soberania real e sem voz própria, Gaza correria o risco de transformar-se num protectorado indefinido, onde milhões de pessoas viveriam sob a tutela de organismos externos.
A história mostra que arranjos desse tipo tendem a prolongar os conflitos em vez de os resolver, porque não lidam com a raiz do problema: a falta de reconhecimento do direito de autodeterminação. Além disso, uma solução imposta de cima para baixo, que desconsidera a vontade popular, está condenada a ser vista como ilegítima, alimentando ainda mais ressentimento e violência.
Enquanto se discute em mesas diplomáticas, a realidade em Gaza continua a ser de destruição, deslocamento e sofrimento humano. Para aquele povo, a ideia de Estado não é um capricho, mas a condição mínima para reconstruir escolas, hospitais, energia, infraestruturas e, sobretudo, para recuperar a dignidade de viver com autonomia. Negar essa aspiração é condená-los a uma existência de dependência e humilhação, em que até os direitos mais básicos ficam sujeitos à boa vontade de outros.
Os interesses estratégicos de Israel e dos Estados Unidos explicam a recusa, mas não a justificam. Uma paz verdadeira só poderá nascer de uma solução que reconheça plenamente a soberania reivindicada, que respeite o direito internacional e que permita aos dois povos coexistirem em condições de igualdade.
O plano de Trump, ao contrário, parece apenas adiar indefinidamente essa possibilidade, criando uma gestão temporária que pode transformar-se em permanente e perpetuar a lógica da exclusão.
No fundo, o que está em jogo é a escolha entre oferecer dignidade ou impor tutela. Negar um Estado àquele povo é manter a região refém do medo, da insegurança e da desigualdade. Reconhecê-lo seria um passo arriscado para alguns, mas indispensável para qualquer paz que mereça esse nome.
Sem justiça e sem soberania, a paz será sempre uma miragem, e propostas como a que agora se apresenta não passam de sombras de solução, incapazes de oferecer futuro a uma nação que há décadas espera por ele..
Sem justiça e sem soberania, a paz será sempre uma miragem, e propostas como a que agora se apresenta não passam de sombras de solução, incapazes de oferecer futuro a uma nação que há décadas espera por ele.
Trump afirmou que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, concordou com a ideia de criar em Gaza um “comité palestiniano de transição, tecnocrático e apolítico”, formado por especialistas internacionais e representantes locais qualificados, responsável por administrar temporariamente a região. Ao mesmo tempo, criticou a posição da maioria dos países que apoiam a criação de um Estado da Palestina, reafirmando a tradicional recusa norte-americana e israelita em aceitar essa solução.
O que se apresenta como proposta de paz soa, na prática, como um adiamento indefinido de uma reivindicação histórica. Ao substituir a soberania por um arranjo tutelado, os Estados Unidos e Israel mantêm o essencial: o controlo político e estratégico sobre os territórios, impedindo que os árabes da região se constituam como Estado pleno, com fronteiras reconhecidas, governo eleito, capacidade de autodefesa e representação internacional.
O argumento central para negar o Estado continua a ser o da segurança. Israel insiste que não pode permitir a emergência de um vizinho soberano que, na sua visão, poderia servir de plataforma para novos ataques. Mas, ao colocar toda a ênfase na segurança, ignora-se que a ocupação prolongada, a ausência de soberania e a negação de direitos são, em si mesmas, factores permanentes de instabilidade e radicalização.
A recusa também se apoia em razões territoriais e ideológicas: muitos sectores do Estado israelita não admitem abdicar de partes estratégicas da Cisjordânia, nem aceitar um rival com pretensões equivalentes de legitimidade histórica.
Para os Estados Unidos, as razões são múltiplas. No plano geopolítico, Washington mantém a pretensão de ser árbitro da região, mas raramente se posiciona de forma a contrariar os interesses de Israel. Internamente, a política em relação ao conflito é atravessada por pressões eleitorais, pelo peso do lobby pró-Israel e pelo discurso religioso de parcelas do eleitorado.
Externamente, a Casa Branca procura equilibrar-se entre o apoio incondicional a Israel e a necessidade de não perder aliados no mundo árabe, onde a causa da autodeterminação continua a ressoar fortemente. Não reconhecer a soberania reivindicada, portanto, é também uma forma de manter influência, controlar o ritmo das negociações e evitar compromissos que possam ser politicamente custosos.
O problema é que a proposta de Trump não oferece dignidade, apenas gestão. Sem governo eleito, sem soberania real e sem voz própria, Gaza correria o risco de transformar-se num protectorado indefinido, onde milhões de pessoas viveriam sob a tutela de organismos externos.
A história mostra que arranjos desse tipo tendem a prolongar os conflitos em vez de os resolver, porque não lidam com a raiz do problema: a falta de reconhecimento do direito de autodeterminação. Além disso, uma solução imposta de cima para baixo, que desconsidera a vontade popular, está condenada a ser vista como ilegítima, alimentando ainda mais ressentimento e violência.
Enquanto se discute em mesas diplomáticas, a realidade em Gaza continua a ser de destruição, deslocamento e sofrimento humano. Para aquele povo, a ideia de Estado não é um capricho, mas a condição mínima para reconstruir escolas, hospitais, energia, infraestruturas e, sobretudo, para recuperar a dignidade de viver com autonomia. Negar essa aspiração é condená-los a uma existência de dependência e humilhação, em que até os direitos mais básicos ficam sujeitos à boa vontade de outros.
Os interesses estratégicos de Israel e dos Estados Unidos explicam a recusa, mas não a justificam. Uma paz verdadeira só poderá nascer de uma solução que reconheça plenamente a soberania reivindicada, que respeite o direito internacional e que permita aos dois povos coexistirem em condições de igualdade.
O plano de Trump, ao contrário, parece apenas adiar indefinidamente essa possibilidade, criando uma gestão temporária que pode transformar-se em permanente e perpetuar a lógica da exclusão.
No fundo, o que está em jogo é a escolha entre oferecer dignidade ou impor tutela. Negar um Estado àquele povo é manter a região refém do medo, da insegurança e da desigualdade. Reconhecê-lo seria um passo arriscado para alguns, mas indispensável para qualquer paz que mereça esse nome.
Sem justiça e sem soberania, a paz será sempre uma miragem, e propostas como a que agora se apresenta não passam de sombras de solução, incapazes de oferecer futuro a uma nação que há décadas espera por ele..
Sem justiça e sem soberania, a paz será sempre uma miragem, e propostas como a que agora se apresenta não passam de sombras de solução, incapazes de oferecer futuro a uma nação que há décadas espera por ele.
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