sábado, 30 de agosto de 2025

Assalto ao BB

Em 1986, Jair Bolsonaro estava no Exército e publicou um artigo em uma revista a reclamar do salário. Pegou 15 dias de cadeia por transgressão da disciplina militar. Seu terceiro filho, Eduardo, tinha 2 anos. O presidente do Brasil era José Sarney, a quem coube assinar na época uma legislação de combate aos crimes contra o sistema financeiro, a 7.492, a popular Lei do Colarinho Branco. Em autoexílio nos Estados Unidos desde fevereiro, o hoje deputado Eduardo afrontou a lei escancaradamente, na impatriótica cruzada montada com mesada do pai em solo norte-americano para tentar salvar o capitão de ir em cana de novo, agora como condenado por tentativa de golpe. Ele disse no YouTube que o Banco do Brasil será cortado das finanças internacionais pelos EUA, sofrerá fuga de capitais e irá à falência. “Tenho certeza que já tem gente nesse momento preocupado, querendo descobrir para onde levar o dinheiro.” Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira é crime. ­Custa de 2 a 6 anos de prisão. Está lá no artigo 3º da Lei do Colarinho Branco. A Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal foram instados a tomar providências.



O Banco do Brasil é o segundo maior do País em volume de ativos e o quinto em clientes. Entre estes estão Bolsonaro, Eduardo e o juiz Alexandre de ­Moraes, do STF. O salário do magistrado, de 46 mil reais brutos e 30 mil líquidos, é depositado na instituição. O monitoramento permanente feito pela área de segurança do banco identificou acesso indevido à conta de Moraes por cinco funcionários, após os EUA o terem enquadrado na Lei Magnitsky, que obriga empresas estadunidenses a banir quem o governo quer, do contrário elas próprias podem ser castigadas. A espada de Tio Sam saiu da bainha graças a Eduardo e a Paulo Figueiredo, neto do último general-ditador brasileiro, tudo com a intenção de impedir Bolsonaro de ser julgado a partir de 2 de setembro. A sanção ainda não surgiu efeito. Outro integrante do Supremo, Flávio Dino, baixou um despacho que bota os bancos numa sinuca. Caso apliquem sanção de um país estrangeiro, terão de se haver com o Tribunal. O vídeo de Eduardo surgiu dois dias depois, no embalo de uma campanha da extrema-direita nas redes sociais contra o BB.

Não é a única sabotagem contra a instituição planejada pelo bolsonarismo. O lucro do BB despencou neste ano e uma das duas explicações é o calote recorde de produtores rurais. A instituição é responsável por metade dos empréstimos a agropecuaristas. De cada 3 reais da carteira de crédito, 1 real foi para eles, um total de 404 bilhões de reais. O agronegócio, como se sabe, é bolsonarista raiz. Na cúpula do banco, há quem desconfie que a inadimplência é uma ação orquestrada de ruralistas interessados em prejudicar o governo. Seus dirigentes dizem em público que ela resulta de queda dos preços das commodities e da ação de advogados espertalhões, que têm aconselhado médios e grandes produtores a ir à Justiça pedir recuperação judicial e, dessa maneira, obter autorização para não pagar débitos. “A inadimplência (do agronegócio) vem pressionando os nossos resultados, elevando a necessidade das nossas provisões”, comentou a presidente do BB, Tarciana Medeiros, em agosto, ao anunciar o balanço do segundo trimestre. Uma situa­ção que continua, prosseguiu ela, e fará o lucro anual encolher entre 32% e 43%.

Enquanto isso, a poderosa bancada ruralista no Congresso faz andar leis para espetar nos cofres públicos, ou melhor, nas costas dos contribuintes a fatura do calote. Propõe rolar dívidas do agro ou securitizá-las, que significa converter o débito em papéis negociáveis no mercado financeiro e lastreados no Tesouro Nacional, ou seja, o papagaio pode cair no colo do Estado. O projeto mais avançado para realizar o sonho da turma foi aprovado em julho na Câmara dos Deputados e está no Senado. Cria uma linha de 30 bilhões de reais,­ com verba do Fundo Social do Pré-Sal, para socorrer por dez anos os endividados. É sempre bom lembrar: os donos de terras pagam quantias ridículas pela imensidão que controlam. Cada um recolheu 1,7 mil reais, em média, de Imposto Territorial Rural no ano passado. “É muito baixo o ITR. Estamos falando com alguns prefeitos sobre como equacionar isso”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista ao jornalista Luis Nassif, na qual apontou um “ataque” do bolsonarismo ao Banco do Brasil tanto no front “dívidas” quanto no do incentivo a saques.


O ataque levou funcionários e simpatizantes da instituição a promover manifestações na porta de agências em algumas cidades, em 27 de agosto. “Quando alguém espalha que um banco desse porte está quebrado, assume a responsabilidade por possíveis consequências gravíssimas. Isso pode gerar pânico nos correntistas e causar exatamente o problema que dizem denunciar. É um ato de irresponsabilidade política e econômica”, afirma o deputado Reimont, do PT do Rio de Janeiro, bancário de carreira e presente em um ato em Brasília.

Um representante do sistema financeiro que atua na capital federal comentou recentemente, em uma reunião com parlamentares, que o pior a acontecer em decorrência da campanha bolsonarista seria uma corrida bancária para sacar dinheiro. O perigo foi apontado pelo BB, pelo Banco Central, pela Advocacia-Geral da União e pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, em documentos enviados à Polícia Federal e ao Supremo, que pedem a abertura de um inquérito para investigar o crime previsto na Lei do Colarinho Branco.

A denúncia do Banco do Brasil, que levou a AGU a acionar a PF, identificou que a campanha começou um dia após a decisão de Dino sobre o risco de os bancos cumprirem as sanções trumpistas à revelia das regras nacionais. Um vídeo no YouTube do canal bolsonarista AuriVerde Brasil mostrou um advogado, Jeffrey Chiquini, a declarar: “O Banco do Brasil é 51% estatal, o Banco do Brasil vai cumprir a decisão do Flávio Dino e o Banco do Brasil vai ser sancionado pela Lei ­Magnitsky, e vai ser desligado do sistema Swift global. Tirem imediatamente seu dinheiro do Banco do Brasil porque ele será sancionado, isso é uma certeza”. Chiquini defende no Supremo um réu golpista, Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais de Bolsonaro na Presidência. Ainda em 19 de agosto, escreveu no ex-Twitter: “Meu conselho a você que tem conta no Banco do Brasil, tire seu dinheiro de lá”. O post tinha mais de 1 milhão de visualizações antes de ser apagado.

Na mesma rede social, as páginas bolsonaristas Vox Liberdade e Revista Timeline publicaram uma suposta fuga de recursos das agências do Banco do Brasil nos EUA. Em um grupo de WhatsApp de gerentes da instituição, um deles contou que um cliente havia retirado 3,5 milhões de reais. O “conselho” de Chiquini foi reproduzido no Instagram, no perfil de um apoiador do deputado Nikolas Ferreira, do PL mineiro. “Os fatos, como se vê, são gravíssimos. E as possíveis e indesejadas consequências também, caso não sejam imediatamente prevenidas, evitadas e severamente punidas”, anota a denúncia do Banco do Brasil. “Observa-se uma ação articulada de disparo massivo de publicações que buscam aterrorizar a sociedade com a perspectiva iminente de um colapso no sistema financeiro nacional”, ressalta a AGU, ao requerer providências à PF.

Na representação ao Supremo, ­Lindbergh Farias pediu investigação de dois colegas deputados. Eduardo Bolsonaro, em razão do vídeo de 20 de agosto no YouTube visualizado mais de 500 mil vezes, e Gustavo Gayer, do PL de Goiás. “Tirem seu dinheiro dos bancos. Moraes vai quebrar o Brasil”, havia escrito Gayer no ex-Twitter. Arrependeu-se como ­Chiquini e apagou depois, talvez por ter sido informado do batom na cueca contra si. O post tinha tido mais de 250 mil visualizações. “O tipo penal em questão é formal, não exigindo resultado material. A simples divulgação da informação falsa com potencialidade lesiva já configura o crime”, afirma a representação de Farias. “A conduta também pode enquadrar-se na Lei nº 1.521/1951, que trata dos crimes contra a economia popular”, prossegue a papelada dirigida a Moraes, por ser o juiz o relator do inquérito contra Bolsonaro e Eduardo por coação do STF em parceria com os EUA. Espera-se que o magistrado encaminhe o caso à PF e à Procuradoria-Geral da República, para apurações.

No relatório final da PF sobre a coação, há informações interessantes sobre dois correntistas do Banco do Brasil: Bolsonaro e Eduardo. Na eleição de 2022, o então presidente havia declarado um patrimônio de 2,3 milhões de reais, dos quais 315 mil mantidos em uma conta na instituição. Ele tornou-se um ricaço após deixar o poder. Entre 2023 e 2024, arrecadou 19 milhões de reais em doações de apoiadores para supostamente pagar os advogados. Até junho deste ano, tinha gastado 4,5 milhões com Celso Vilardi, seu defensor na ação penal por tentativa de golpe, 3,3 milhões com Paulo Amador da Cunha Bueno e quantia igual com Daniel Tesser.

Com a mesma verba das doações, o capitão enviou 2 milhões de reais de mesada a Eduardo, o conspirador. O deputado havia declarado patrimônio de 1,6 milhão na eleição de 2022, dos quais 600 mil depositados numa conta no Banco do Brasil. Autoexilou-se em fevereiro passado na pátria de Trump e, após receber a bolada do pai, gastou 1,6 milhão de reais na compra de dólares. O dinheiro foi enviado a um banco na cidade de São Francisco, no estado da Califórnia. Em Washington, circula a informação de que um estrategista e colaborador trumpista, Jason Miller, é um dos lobistas mais bem pagos dos EUA na atualidade, com cachê de 50 mil dólares mensais, e que tem colaborado com o filho 03 na obtenção de sanções ao Brasil. Seria ele remunerado com dinheiro enviado por Bolsonaro? Em 2021, Miller esteve no Brasil, e encontrou o então presidente no Palácio da Alvorada. Foi preso por algumas horas pela Polícia Federal por ordem de Moraes.

Descontado o que gastou com advogados, com o filho e com um repasse de 2 milhões à esposa Michelle, Bolsonaro embolsou 4 milhões de ­reais, recursos que tem usado para esbaldar-se como rentista e lucrar com o juro alto do Banco Central. A taxa do BC começou a subir em setembro de 2024. Estava em 10% anuais e chegou a 15% em junho passado. Esse foi o outro motivo para a queda de 40% do lucro do BB no primeiro semestre. As pequenas e médias empresas sentiram a paulada do crédito mais caro. O outro motivo é o setor rural. “A gente está no maior nível de inadimplência do agro na história”, declarou Tarciana Medeiros em agosto.

De 2020 a 2023, o atraso no pagamento de dívidas agropecuárias foi de 1% ou menos. Em 2024, pulou para 2,4%. Neste ano, para 3,4%. “Nem nas previsões mais pessimistas prevíamos isso”, disse a executiva. São 20 mil caloteiros rurais, dos quais 74% nunca tinham tido pagamentos atrasados até 2023. Detalhe: é da agropecuária que o banco cobra os menores spreads, 4%. Das empresas em geral cobra 5% e das pessoas físicas, 13%. Depois de três anos seguidos de lucro recorde e acima de 30 bilhões de reais, agora o saldo ficará entre 21 bilhões e 25 bilhões, conforme as projeções internas.

Uma decisão do Conselho Monetário Nacional em vigor desde janeiro complicou as coisas. Os bancos precisam separar recursos para cobrir perdas esperadas. Até então, o provisionamento era feito quando o calote se consumava. No caso do agronegócio, o Banco do Brasil tem sido capaz de identificar as perdas esperadas, daí fazer provisões mais volumosas. Quanto maior a provisão, menor o lucro. Desde que a crise de pagamentos do setor rural ficou explícita, na divulgação do resultado do primeiro trimestre, em maio, o valor das ações da instituição caiu de 25 para 20 reais. Seu valor de mercado recuou cerca de 28 bilhões de reais. A instituição tem 1,5 milhão de acionistas, e o governo é o maior deles, com 50% do capital.

No embalo da crise do agro, o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar foi trocado em agosto. Saiu um funcionário de carreira, Luiz Gustavo Braz Lage, no banco desde 1981, entrou o agrônomo Gilson Bittencourt, com passagens por vários ministérios dos governos Lula e Dilma Rousseff. Antes disso, a diretoria já havia experimentado várias substituições. O atual ocupante do cargo, Alberto Martinhago Vieira, é o quarto na atual gestão.

Tarciana Medeiros tem dito que o banco conhece o perfil dos agropecua­ristas inadimplentes, em especial daqueles que buscaram recuperação judicial por orientação advocatícia. Neste último grupo estão 808 clientes, cujas dívidas somadas são de 5,4 bilhões de ­reais, média individual de 6,6 milhões de reais­. São, de fato, grandes produtores. O BB firmou um acordo de cooperação com a Advocacia-Geral da União para combater o que chama de litigância predatória. Diz que tem tentado esclarecer os clientes que, ao entrarem na Justiça com pedido de recuperação, ficarão marcados em todo o sistema financeiro e terão dificuldade de obter empréstimos em qualquer instituição. Isso porque, ao contrário de uma empresa comum, que pode abrir outra firma com novo CNPJ, é o CPF do ruralista que aparece nos processos de recuperação judicial, e CPF não muda (ao menos legalmente). A reclamação contra a ação de advogados levou a Ordem dos Advogados do Brasil a cobrar explicações da presidente da instituição.

Recuperação judicial à parte, o BB traçou um perfil médio dos devedores rurais. Metade é composta de produtores de soja, milho e da bovinocultura e localiza-se no Centro-Oeste e no Sul. São principalmente dessas duas regiões os congressistas da bancada ruralista que têm trabalhado para conseguir adiar o pagamento de dívidas e mandar a conta aos cofres públicos. O deputado­ Rodolfo Nogueira, do PL de Mato Grosso do Sul, propôs em maio rolar dívidas de devedores rurais do seu estado por dez anos, além de três de carência. Soa a legislar em causa própria. Na campanha de 2022, Nogueira informou à Justiça Eleitoral possuir 497 toneladas de soja, avaliadas na época em 1,4 milhão de reais. Tinha também 127 mil reais no Banco do Brasil.

O texto final da lei com linha de crédito especial de 30 bilhões de reais é de autoria do deputado gaúcho Afonso Hamm, do PP. Na última eleição, Hamm declarou ter seis propriedades de terra. O projeto que coube a ele relatar e dar a cara final tinha sido proposto em 2023 pelo colega cearense Domingos Neto, do PSD, para atender prioritariamente pequenos produtores e pescadores afetados pela seca até 2020. Hamm mudou o perfil dos favorecidos e esticou até junho de 2025 as dívidas abrangidas.

O senador Luiz Carlos Heinze, conterrâneo e colega de partido de Hamm, apresentou, em fevereiro, uma lei para securitizar dívidas rurais de produtores de áreas atingidas por calamidade pública ou por perdas causadas por fatores climáticos até este ano. Heinze é um dos maiores expoentes da bancada ruralista. Ao eleger-se em 2019, declarou à Justiça ser proprietário de 24 terras nuas. Sua proposta de securitização foi aprovada em maio na Comissão de Agricultura do Senado com parecer favorável do senador gaúcho Hamilton Mourão, do Republicanos, vice-presidente de Bolsonaro. A palavra está agora com a Comissão de Assuntos Econômicos.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Está aqui

Nós, como sociedade, precisamos aceitar o fato de que o fascismo não está chegando aos Estados Unidos, ele já está aqui. Trump está nacionalizando as forças policiais e, ao mesmo tempo, enviando a Guarda Nacional para cidades azuis sem outra razão além de intimidar, controlar e afirmar sua presença. Ele prejudicou eleições no passado e agora trabalha para garantir que eleições futuras sejam ilegalmente distorcidas. Ele está prendendo e sentenciando pessoas sem o devido processo legal. A cada dia, parece haver uma nova ação que ele toma que não é apenas ilegal, mas também flagrantemente inconstitucional. Ele está trabalhando para que o Departamento de Estado dos EUA (DOGE) supervisione todas as eleições. Ele e seu partido apoiam a Teoria do Executivo Unitário — o que significa que não acreditam em freios e contrapesos sobre o presidente. Ele está desmantelando o sistema regulatório e a rede de segurança social. Ele está trabalhando para acabar com as proteções no local de trabalho. Ele quer revogar as licenças de agências de notícias que não o cobrem favoravelmente. Ele está iteralmente tentando reescrever a história e controlar o conteúdo dos museus para se adequar à sua agenda. E ele constantemente brinca sobre ser um ditador. Quando alguém lhe disser quem é, acredite.

Essa é uma agenda autoritária clássica.

Mundo sem poesia é imundo

A realidade da vida, em si mesma, não se sustenta.


O ser humano é mais que um organismo que precisa de comida, roupa, sono e ar.

As pessoas são famintas de carinho, ficam frias sem o cobertor da esperança, não dormem direito apenas com os braços de travesseiros, e querem, sempre, voar nos pensamentos. Respirar não basta, não preenche. Queremos inspiração para criar, amar, repartir. Aspiramos ser um outro ser, o que não somos podemos imaginar.

Nem o macaco no zoológico aguenta as limitações, por mais bem tratado que seja. Claro que ele trocaria de bom grado a sua jaula pela liberdade da floresta.

Deixamos para amanhã a luz que poderíamos ter ainda hoje. Nos assusta a poesia que iluminaria o túnel escuro em que nos arrastamos.

Nós, os macacos evoluídos, temos a dor e o prazer de querer romper limites. E procuramos desesperadamente achar a chave da gaiola da civilização.

A chave está dentro da gente. Sabemos disso. Mas dá trabalho procurar com afinco. Dói nos conhecermos.

Daí desistimos com facilidade.

E preferimos ficar macaqueando a farsa que a realidade externa nos mostra como felicidade.

Triste espelho distorcido esse do dia-a-dia em que nos miramos para ajeitar o sorriso no rosto enquanto a alma chora.

E vamos dançar, vamos para a balada. A música é alta para atordoar, a bebida forte para alterar rápido, e os corpos se juntam hoje para se desjuntarem amanhã cedinho como copinhos descartáveis de café.

Queremos amor, claro. Só queremos e não temos porque, como todos, não desenvolvemos a delicadeza da entrega, da generosidade, do gosto pelas diferenças, pelas descobertas lentas, cautelosas e profundas.

Os poemas escancarados de amor, de paixão, de entrega, de renúncia ao seu próprio umbigo, vão rareando, encolhendo, sumindo.

Poema de amor não enche barriga, dizemos. Nem ajuda a conquistar beltrana, a impressionar fulano.

E seguimos assombrados e sozinhos e surpresos porque contas bancárias, academias de ginástica e carro novo, também não conseguem nos tirar de nossa solidão.

Nos contentamos com prazer sexual sem nunca chegar ao orgasmo espiritual, cósmico, que um simples e poderoso verso proporciona.

E assistimos o noticiário para que este nos confirme que a poesia é inútil.

Claro que nenhum bandido gosta de poesia. O poema é o território do humano, do sensível, do compartilhar. Nada a ver com o território sangrento de sua violência.

Poderosos também não são chegados. Poesias insistem, frequentemente, em lembrar que existe todo um povo em redor deles, com seus apelos e urgências. Então, a política fica sendo a chatice, o tédio, o exercício vazio da crueldade. Falta o sonho.

Política sem sonho é apenas um discurso.

Demoramos milênios para adquirir o dom da fala. Séculos para dominarmos a escrita.

Aprendemos a registrar em letras aquilo que estava engasgado na garganta imaterial de nosso íntimo.

Frase após frase, passamos pela vida a procurar uma resposta.

E todas as respostas estão ali, na nossa frente. São muitas porque muitas são nossas perguntas.

Mas uma dessas respostas foi feita para nós por um de nossos semelhantes. A mesma coisa que nos inquieta também afligiu algum poeta, em algum momento.

Teremos a coragem de ouvir?

Poesia não se destina a fracos. Antenados percebem que da fraqueza vem sua força.

Onde quer que se vá, um poeta já se atreveu a passar por lá. Pelos céus e pelos infernos de todos nós.

A tecnologia muda, os costumes mudam, mas o ser humano é o que sempre foi e será, nem muito melhor, nem muito pior que isso que está aí.

Dia a dia rima com poesia sim. Você decide. Abra um livro de poesia já. Antes que seja tarde.

Ulisses Tavares é, claro, poeta, mas não otário, mano.

Coloque o farol na popa e vá em frente!

Você é uma jangada. Frágil, qualquer onda mais forte balança e quase o afoga. Você é o condutor e o passageiro ao mesmo tempo, candidato ao naufrágio, lutando e rezando para voltar à praia.

Um país é um barco. Grande, mas nem sempre bem construído. E muito menos bem conduzido. O povo é apenas marinheiro cumprindo ordens.

A Terra é um navio. Imenso, farto, mas com os passageiros de primeira classe capazes de festejar e dançar enquanto ele afunda como um Titanic.

Jangada, barco e navio navegam pelas mesmas águas turbulentas da História, numa viagem que começou bem antes e não se sabe onde irá parar.

O futuro é uma incógnita, mas o passado é a bússola que pode nos indicar se estamos fora da melhor rota. Se pegamos o caminho errado.

E isso faz toda diferença.

Sua jangada, precária de corpo e alma, a qualquer momento será engolfada pela tormenta dos azares, do imprevisível. A felicidade é apenas um momento de calmaria entre horas de ventos cortantes.

As milhas já navegadas, porém, ensinam a prevenir desastres anunciados.

Olhe os que foram engolidos pelo Triângulo das Bermudas da existência humana: drogas, egoísmo, alienação.

Sem cuidar do corpo, você será uma casca de noz boiando no mar. Sendo egoísta, virará um homem solitário mesmo se rodeado de gente. Comprará tudo, menos o incomparável: amor, admiração, amizade. E, se alienando, será plateia perpétua, nunca ator no palco da vida. Vota, mas não apita nada.

Nosso barco País de vez em quando acerta o rumo do porto seguro. Mas, no mais das vezes, parece uma canoa furada onde impera o salve-se quem puder.

Novamente colocar o farol na popa, a parte de trás, em vez da popa, a parte da frente, nos ajuda a iluminar o hoje e clarear o possível amanhã.

O barco já começou a navegar errado, com uma elite ociosa e corrupta e sem nenhum apreço pela educação. São séculos de tirar riquezas e colocar pobrezas. Primeiro pelos portugueses, depois por nossa própria conta e escolha.

Nosso navio Terra, por sua vez, recebe insultos e devolve flores há milênios.

Mas está com seu casco avariado, sem combustível e superlotado. Sua única saída é sacudir-se e livrar-se da tripulação toda para continuar como no início dos tempos.

A esperança é que jangada, barco e navio encontrem uma corrente marítima segura para continuarem navegando.

Não temos como resolver com facilidade tão grave problema. Não dá para enfrentar a fúria de Netuno, o senhor dos mares, esquecendo de Juno, o deus do tempo.

Juno, aquele de duas faces da mitologia, uma olhando para a frente, outra voltada para o que passou.

A História, portanto o passado, é nosso manual prático de cabotagem.

O ser humano tem sido guerreiro, escravagista, fanático religioso e prepotente em todos os quadrantes e latitudes.

E sempre afundou sua jangada nas procelas da ambição.

Os governantes tem sido ora populistas, ora mentirosos, ora oportunistas.

E sempre afundaram o barco do povo em nome de seus mesquinhos interesses pessoais.

A Terra foi loteada em fronteiras bem delimitadas e guardadas. E essas fronteiras tem sido a justificativa para extrair o máximo de cada metro quadrado sem pensar no vizinho.

E, como a Terra é redonda, o navio de todos nós é o mesmo e afunda por inteiro.

Portanto, o axioma está formado, a Esfinge pronta a nos devorar se não dermos a resposta correta.

Sem conhecer o que já passamos, como iremos decidir onde será melhor passar?

A História não é algo estático, parado no tempo.

É um tsunami indo e vindo, se repetindo, como uma lição que ainda não aprendemos.

Comecemos pela jangada, passemos para o barco e chegaremos ao navio.

Sem ler História, de nossa vida, de nosso País, de nosso Planeta, estaremos perdidos.

E iremos ao fundo, sem a mínima ideia de porque fomos parar lá.

Ulisses Tavares é uma jangada com medo de ir à pique. Por isso se mira na História e tenta mudar o rumo do barco e do navio. Mas se sente um pouco sozinho nessa tarefa. Alguém aí disposto a ajudar? Cartas para a redação.
Ulisses Tavares

Uma alternativa que precisa ser humana

O século XXI atravessa um processo de reconfiguração geopolítica tão profundo quanto aquele vivido no imediato pós-Guerra Fria. Após décadas de dominação unipolar liderada pelos Estados Unidos – marcada por guerras preventivas, sanções unilaterais e chantagem financeira –, assistimos agora à ascensão de um novo polo global. Os BRICS, que começaram como uma aliança econômica entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, transformaram-se num vetor de contestação à ordem mundial hegemônica. Com sua recente ampliação e crescente influência sobre países do Sul Global, os BRICS se afirmam como alternativa concreta à arquitetura ocidental do poder. Mas a pergunta essencial permanece: essa nova ordem será mais justa ou apenas trocará os protagonistas da dominação?

De acordo com dados recentes do Geopolitical Economy Report e da EY Global, o bloco BRICS+ – já incluindo países como Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes – representa hoje 44% do PIB mundial em Paridade de Poder de Compra (PPP) e abriga 56% da população global. Em contraste, o G7, que dominou o século XX com suas políticas neoliberais e intervencionistas, recuou para cerca de 30% do PIB global (PPP). A inversão de protagonismo não é apenas simbólica: ela indica uma nova centralidade produtiva e tecnológica nas mãos do Sul Global. No entanto, o fato de o BRICS superar o G7 em paridade de poder de compra não resolve, por si só, a crise de legitimidade do sistema internacional. A questão não é apenas de quem comanda, mas como comanda – e a serviço de quem.


Nesse sentido, há uma contradição evidente entre a promessa emancipatória do BRICS e as realidades concretas vividas pelos trabalhadores nos países que compõem o bloco. A China, embora celebre avanços colossais em infraestrutura, tecnologia e crescimento econômico, ainda mantém práticas laborais que atentam contra a dignidade humana. A chamada jornada 996 – das 9h às 21h, seis dias por semana – ainda é observada em diversas empresas do setor de tecnologia, apesar de sua ilegalidade formal. Essa lógica extenuante de produtividade sem limites já foi amplamente denunciada por movimentos populares e até por tribunais locais, que reconhecem o vínculo entre esse regime de trabalho e o adoecimento mental da juventude chinesa.

Na Índia, a situação é igualmente alarmante. O Global Slavery Index 2023, publicado pela organização Walk Free, revelou que 11 milhões de pessoas vivem em condições de escravidão moderna no país – a maior cifra registrada no mundo. São trabalhadores aprisionados em servidão por dívidas, exploração infantil, tráfico humano e condições degradantes de moradia e saúde. Embora existam iniciativas bem-sucedidas de resgate e proteção, como o modelo desenvolvido em Tamil Nadu com apoio da International Justice Mission, a estrutura social baseada em castas e desigualdades históricas continua a alimentar esse ciclo de opressão.

Diante desse panorama, é legítimo questionar: que tipo de nova ordem está sendo construída? Uma ordem que silencia diante da brutalidade dos regimes de trabalho? Que incorpora Estados autoritários como Arábia Saudita e Irã sem exigir contrapartidas mínimas em direitos civis, políticos e sociais? Ou uma ordem verdadeiramente democrática, multilateral, centrada na solidariedade entre os povos?

O Brasil, neste contexto, possui uma responsabilidade histórica. Sua posição estratégica, tanto regional quanto diplomática, pode influenciar os rumos do bloco. Mais do que buscar vantagens comerciais ou protagonismo simbólico, o Brasil deve tensionar o BRICS em favor dos direitos humanos, dos direitos trabalhistas, da saúde mental dos trabalhadores e da transição ecológica justa. Deve, também, recusar a seletividade moral que tantas vezes caracteriza a política internacional. Se o país critica, corretamente, o belicismo norte-americano, também deve criticar com firmeza o genocído cometido por Israel contra o povo palestino, bem como a invasão russa na Ucrânia, que viola os princípios mais elementares do direito internacional. A defesa da paz e da autodeterminação dos povos não pode se dobrar aos interesses estratégicos de aliados momentâneos.

É evidente que a emergência de um mundo multipolar, com empresas como BYD, Embraer, Huawei e as novas cadeias globais de valor em energia limpa e mobilidade sustentável, representa uma oportunidade histórica. A descentralização do poder pode, sim, favorecer uma distribuição mais justa de recursos, tecnologias e conhecimento. Mas essa descentralização deve vir acompanhada de uma nova ética: a ética da solidariedade, da cooperação e da centralidade da vida. Uma ordem que substitui Washington por Pequim, sem alterar as estruturas de exploração do trabalho, é apenas a repetição de um mesmo pesadelo com outros sotaques.

O desafio, portanto, não é apenas econômico. É civilizacional. Os BRICS não podem se tornar apenas um novo eixo de influência global. Devem se tornar uma referência de esperança. Um projeto de humanidade que supere a lógica do lucro, da guerra, da exploração e do adoecimento psíquico em massa. Um pacto mundial que priorize a justiça social, o direito ao descanso, a igualdade de gênero, o cuidado com o planeta e a construção de uma cultura internacional de paz.

O século XXI não precisa de novos impérios. Precisa de novas alianças. De um multilateralismo que se oponha tanto ao imperialismo armado quanto ao autoritarismo econômico. E de uma nova voz, que venha do Sul, mas fale por toda a humanidade. Uma voz que diga, com a autoridade moral de quem já sofreu demais: nunca mais seremos engrenagens caladas de uma máquina que nos adoece.

Decidir com tempo, experiência e ao lado de quem realmente importa

Você valoriza a sabedoria e a experiência? Pense em alguém cuja presença marcou sua trajetória, cuja orientação trouxe clareza em um momento decisivo ou ensinamento significativo. Pode ter sido uma mentora ou mentor, uma figura familiar, professora, professor, gestora, gestor, médica ou médico. O que importa não é o título, o gênero ou o prestígio, mas a sabedoria transmitida, que deixou marcas profundas e contribuiu para quem você é hoje.

Ou você tem se deixado levar por promessas ilusórias de sucesso rápido, atraído por fórmulas mágicas e discursos vazios? Cursos que garantem resultados imediatos, gurus com segredos infalíveis, médicos que prometem curas milagrosas ou métodos que asseguram riqueza sem esforço são apenas armadilhas que desviam do verdadeiro crescimento.

O verdadeiro crescimento vem da experiência e do compromisso genuíno com a prática. Como Darwin nos ensina, a adaptação contínua é essencial: não há atalhos!

A neurociência e a epigenética, ciência que estuda os mecanismos que atuam para além da genética, mostram que nossas memórias e conhecimentos se consolidam por meio de experiências sensoriais e emocionais, criando referências que sustentam nossa identidade, resiliência e dão sentido à vida.

Vivemos em uma sociedade que valoriza a rapidez e a eficiência, mas que frequentemente nos empurra para atalhos ilusórios. No entanto, é no tempo investido, nas relações nutridas e no aprendizado contínuo que encontramos o verdadeiro significado. Fugir dos atalhos não é perder tempo, é ganhar vida e reproduzir experiências evolutivas.

Porém, é na ausência que valorizamos o que perdemos. E é na falta que fazemos aos outros que somos verdadeiramente reconhecidos. A saudade e as memórias são lembretes do que realmente importa e fazem parte do arquivo pessoal da nossa vida.

Quando lidamos com perdas, sejam elas de pessoas, oportunidades ou empregos, são essas memórias e aprendizados que nos permitem seguir adiante sem nos ferir ou nos autodestruir. Compreender esse processo nos ajuda a viver de forma mais consciente, valorizando o presente e cultivando experiências significativas.

Sócrates, o filósofo grego, usava a maiêutica: um método de perguntas que leva à reflexão e ao autoconhecimento, base de muitas práticas de liderança e desenvolvimento pessoal até hoje. Essa abordagem ainda inspira práticas fundamentais em áreas como a medicina, que exige escuta ativa para diagnósticos precisos; na psicoterapia, onde o diálogo facilita a ressignificação de vivências; e também em contextos como a magistratura e a parentalidade, seja com nossos filhos ou com nossos colaboradores. No julgamento que condenou Sócrates à morte por ingestão de cicuta, manteve-se fiel à sua integridade e coerência até o fim, um gesto que ecoa como exemplo de coragem ética e fidelidade à própria verdade. Naquela época, esse ato extremo consolidou sua imagem como herói e mito. No entanto, nos dias de hoje, meu conselho é que não levemos nossos princípios ao ponto da autodestruição, seja por omissão ou passividade. Expressar o que pensamos, com coragem e respeito, evita ressentimentos e abre espaço para a transformação de ambientes e relações. Nossa voz e experiência têm poder de cura e mudança, especialmente quando aprendemos com quem mais nos ensina pela simplicidade como nossos filhos, nossos melhores mestres.

No mundo de hoje, manter-se fiel à própria verdade é um ato de resistência e superação. Nelson Mandela, com sua trajetória de 27 anos de prisão, exemplifica resiliência e fidelidade aos princípios. Ele dizia: “A maior glória de viver não está em nunca cair, mas em levantar-se sempre que cair.”

A desistência pode parecer uma solução rápida, mas muitas vezes leva a um sofrimento silencioso, um luto prolongado e um ciclo de arrependimento que pode resultar em depressão e melancolia crônica. E é essencial reconhecer estes desafios emocionais e buscar apoio para não entrar nesta condição ou sairmos tão rápido quanto possível.

Como resistir? Manter-se fiel a si mesmo é o que fortalece. Autoconhecimento, autocontrole e responsabilidade são essenciais para enfrentar adversidades. Esses valores conectam tempo e memória, experiência e equilíbrio, lealdade e desafios.

Sócrates incorporava esses valores ao seguir os Preceitos Délficos, ensinamentos dos Sete Sábios da Grécia inscritos no Templo de Apolo, em Delfos. Seus princípios, que guiavam sua conduta e busca pela verdade, continuam essenciais para uma vida equilibrada e para as tomadas de decisão. Esses valores se conectam diretamente aos três preceitos mais conhecidos:

1. Conhece-te a ti mesmo (Gnothi seauton): o tempo e a memória são fundamentais para o autoconhecimento. Antes de buscar respostas externas, resgate as lições do passado e valorize a sabedoria presente em sua trajetória e na experiência daqueles que vieram antes.

Dica prática: reserve um tempo para refletir sobre sua trajetória. Revise suas memórias e aprendizados, identifique erros e acertos. Converse com mentores e familiares para ampliar sua visão e evitar a estagnação.

2. Nada em excesso (Meden agan): no mundo acelerado de hoje, equilíbrio é essencial. Viver o presente com consciência evita desperdício de tempo e energia. O aprendizado contínuo mantém a mente ativa, previne a estagnação e evoluímos absorvendo novas experiências e conhecimentos.

Dica prática: evolua constantemente: faça cursos, desenvolva competências estratégicas, amplie sua visão de mundo e atualize-se com as demandas da sua área de atuação. Expandir seu repertório fortalece sua adaptação e resiliência. Evite sua zona de conforto: questione, aprimore-se e desafie seus limites, mesmo com intolerantes, uma chance de também eles evoluírem.

3. Não faças promessas que não possas cumprir (Epangellou medeni): a integridade fortalece relações e constrói confiança. Em tempos de superficialidade e impulsividade, honrar compromissos e reconhecer limites é essencial. A vida é um processo contínuo, e buscar atalhos pode comprometer seu crescimento e credibilidade. Dica prática: seja leal e responsável com suas promessas. Antes de se comprometer, avalie, planeje e comunique-se com clareza. Falhas podem prejudicar relações, comprometer sua reputação e fechar oportunidades. Assuma falhas, elas nos humanizam e, acredite, provocam cura coletiva.



Além desses três, há muitos outros preceitos, como: “Evite a injustiça”, “Respeite todas as pessoas”, “Aprenda com a adversidade” e “Aja com prudência”. Enfim, eles fortalecem a ética, a responsabilidade e o aprendizado contínuo, fundamentais para uma vida equilibrada e significativa e podem ser uma boa escola de valores para gestores de primeira viagem. Também nos lembram que investir tempo, cultivar relações e aprofundar o conhecimento são escolhas essenciais. Talento não se constrói com atalhos!

Em tempos de pressa e descartabilidade, a sensação de obsolescência, a ideia de que tudo deve ser constantemente renovado; e o conceito de mundo líquido, segundo Zygmunt Bauman, podem nos afastar de nossas raízes e referências. No entanto, a vivência e o conhecimento dos mais velhos são um presente valioso, oferecendo ensinamentos que transcendem modismos e impulsionam nosso crescimento. Por que esperar perder para valorizar? Aproveite o tempo com quem sabe e, principalmente, é experiente! Nesse sentido, são oráculos vivos em nossas vidas e também em nossas memórias, facilitadores do nosso sucesso.

Além disso, a tecnologia e a modernidade ampliam o acesso ao conhecimento, conectando gerações e potencializando a troca entre experiência e inovação. Elas permitem que o conhecimento dos mais velhos seja preservado e compartilhado, como na mentoria. E o melhor: evitam erros e prejuízos. A tecnologia também pode ser uma aliada na preservação do que há de mais precioso hoje: nosso tempo e atenção. Com mais tempo, podemos fortalecer nossas conexões e criar novas memórias e experiências. Assim, o progresso se torna mais acessível e inclusivo, sem atalhos.

Dica sensível neste momento: aproveite os benefícios da inteligência artificial com consciência crítica e empatia. Ela oferece apoio e agilidade em muitas tarefas, mas ainda carrega limitações, como vieses éticos e cognitivos herdados de seus desenvolvedores humanos. Use-a como ferramenta, sem perder de vista a importância do olhar humano, da escuta genuína e da sabedoria que nasce da experiência vivida e das relações significativas. A inteligência artificial não é humana, nem substitui o papel de um psicoterapeuta ou mentor. Ela pode apoiar, mas não sente, não intui e não compreende contextos com a mesma profundidade emocional de um ser humano. Cuidar dessa distinção é preservar a ética, a empatia e o próprio valor do encontro humano.

Ouça. Aprenda. Valorize. Aproveite o tempo com quem importa, com quem tem experiência real e algo a compartilhar, não apenas promessas ou cobranças. A sabedoria não nasce de fórmulas prontas: ela floresce no encontro, na escuta e na vivência autêntica. E você, tem dedicado seu tempo a quem realmente importa?
Rubens Harb Bollos

Malafaia e a hipocrisia dos 'cidadãos de bem'

"Eu gravo um vídeo e te arrebento… Vai pro meio de um cacete, pô!". "Esse seu filho é um babaca!". Essas mensagens, ditas com muita agressividade, foram enviadas pelo pastor Silas Malafaia para o ex-presidente Jair Bolsonaro. O tal filho "babaca" é Eduardo Bolsonaro, mas isso nem vem ao caso. O que chama atenção é o tom do pastor, mais parecido com o usado por um bandido integrante de uma gangue (e não falo das de Brasília, mas daquelas que aparecem em programas policiais vespertinos).

O tom é violento até para um apoiador do ex-presidente famoso, entre outras coisas, pelos absurdos que sempre disse e pelo belicismo: "vamos metralhar a petralhada do Acre" é um dos exemplos. Lembram?


As mensagens onde Malafaia grita palavrões e impropérios foram encontradas no celular de Jair Bolsonaro pela Polícia Federal (PF) e fazem parte da investigação que fez com que Malafaia fosse alvo de uma operação da corporação. O inquérito era sobre o crime de coação a autoridades, na tentativa de embaraçar a ação penal que julga a trama golpista envolvendo o ex-presidente.

A agressividade e os palavrões ditos nas mensagens seriam constrangedores para qualquer adulto que finge ser sério e responsável. Mas não estamos falando de qualquer um. Malafaia é um dos nomes mais poderosos do mundo evangélico. Ele é presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e um dos líderes religiosos mais influentes do Brasil.

O pastor é também um dos maiores representantes dos tais "valores da família", um conceito aberto que tem sido muito usado pela extrema direita brasileira e mundial nos últimos anos para polarizar a sociedade e conseguir votos. De um lado estão eles, as "pessoas de família" que lutam pelos "bons costumes" e pregam "bons" valores. Do outro, aqueles que espalham "ideologias comunistas" (sic), que "fazem orgias" em universidades, usam drogas e muitas outras fake news que são espalhadas nos últimos anos.

Os defensores da família e moralistas estilo Malafaia são também os que pregam contra a diversidade, propagam que gays vão para o inferno, que o aborto deve ser proibido até para uma menina de 14 anos que foi estuprada e que mulheres devem "edificar o lar".

Silas Malafaia é um dos defensores mais radicais e ruidosos desses "valores". Junto com seus aliados, eles bradam em alto e bom som que querem "defender a família brasileira". Mas que família é essa que o senhor quer defender, pastor?

Malafaia e outros líderes bolsonaristas mostram ser grandes exemplos do falso moralismo, aquela atitude que faz com que a pessoa pregue uma coisa e seja exatamente o oposto, ou seja, ela faz exatamente o contrário daquilo que defende publicamente. Falar que vai "arrebentar" alguém e "mandar para o cacete" não tem nada de cristão e não é, de forma alguma, uma atitude que se espera de um "cidadão de bem", como Malafaia e seus aliados gostam de se autointitular.

O mesmo vale para a família Bolsonaro, amigos e parceiros do pastor. Durante as investigações, a PF encontrou também mensagens de Eduardo Bolsonaro onde o filho fala o seguinte para o pai: "VTNC (vai tomar no C*), seu ingrato do caralho".

É impossível não tentar imaginar como esses sujeitos se tratam no convívio íntimo depois de ler essas mensagens. Não sou vidente, mas dá para supor que o respeito e o diálogo passam longe do dia-a-dia dessas pessoas "de bem".

Em resposta ao escândalo causado pelo tom de suas mensagens (inclusive no meio evangélico), Malafaia disse que "todos xingam, mesmo que em pensamento, o que já é um pecado", e chama aqueles que os criticaram de "hipócritas". É curioso ver o pastor se defendendo usando uma palavra que caberia perfeitamente a ele.

E, podem apostar, os falsos moralistas vão continuar tentando angariar votos e apoio bradando que são exemplos de verdadeiros cidadãos de bem. Imagina se não fossem…

Pela anistia, outra anistia

Luiz Fux, Flávio Dino e Alexandre de Moraes mantiveram condenação de duas mulheres por furto de R$ 14 e de pedaço de carne. André Mendonça, Nunes Marques e Dias Toffoli negaram liberdade a homem que furtou produtos no valor de R$ 62. Dois exemplos recentes da rejeição do princípio da insignificância em ações de habeas corpus no STF. Crime sem violência, sem ameaça, sem prejuízo relevante. Só pobreza.

Há distinção de classes dentro da legalidade. Mesmo não escrita na letra da lei, aparece nas práticas institucionais. Nas entreletras da lei, o Estado de Direito discrimina. Dá tratamento diverso e desvantajoso ao pobre.

A sociedade brasileira se comprometeu, por meio da Constituição de 1988, a reduzir desigualdades, erradicar pobreza e combater causas da pobreza. Mas nossa poderosa vulgata sobre riqueza e pobreza faz inferências moralmente cruéis e empiricamente ignorantes sobre o indivíduo rico e pobre, sobre as qualidades de caráter que explicam riqueza, os defeitos que justificam pobreza. Bloqueou a promessa.


Pobre tem vício, rico tem virtude. Pobre é dotado de preguiça, burrice e inveja. E doença. E falta de tempo. E falta de saúde e educação. E vício da má alimentação. E culpa pela insegurança alimentar. Padece de dependência do Estado, de "vício em Bolsa Família". E da mania de engravidar. Pobreza é demérito na "loteria do nascimento" (vale ler livro de Michael França e Filipi Nascimento).

Ricos somos dotados de fibra e esforço, propósito e inteligência. E berço. E herança. E boa escola. E escrivaninha. E tempo livre. E sono. E alimentação saudável. E rede social não virtual. Geramos emprego, fazemos a economia crescer. Riqueza é mérito individual.

Esses vícios e virtudes presumidos geram efeitos jurídicos. Ricos recebemos subsídio, incentivo e isenção. Perdão, anistia e desoneração. E supersalário. Gozamos da simpatia judicial e policial. Gozamos da presunção de legalidade. De segurança no espaço privado.

Podemos pagar advocacia da litigância de má-fé, das nulidades e dos recursos criativos ("quem tem sai na frente", mostrou o sociólogo Marc Galanter). "Ser rico não é pecado", confessou João Camargo, "mas não dá direito à moleza", respondeu Armínio Fraga.

Pobre paga mais imposto e leva pejotizaçāo. Sofre abordagem policial com cacetete e tiro. Sofre antipatia judicial e policial, violência e segregação no espaço público. Sofre presunção de ilegalidade. Não tem lobby político nem advocatício. No conflito distributivo, corte de gastos costuma empobrecer o pobre. Ricos tendemos a ter "déficit de compaixão", diz a psicologia.

Quase ninguém assume autoria desse algoritmo da cultura nacional. Soa caricato demais, imoral demais. Esse senso comum compilado sintetiza um código da discriminação, e segue influenciando nossos reflexos verbais, políticos e jurídicos. Causa não só derrotas distributivas como desequilíbrios punitivos.

O regime jurídico não escrito da pobreza, em especial o regime penal e prisional da pobreza, ilumina a depravada contradição dos recentes atos por anistia da delinquência política serial.

Existe virtude no perdão, a depender de quem se perdoa, por quais razões. O mesmo país que dá anistias formais e informais a criminosos públicos, pela via legislativa, judicial e por obstrução monocrática do STF, não perdoa o crime de pobreza.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


O declínio da democracia americana

E os Estados Unidos, hein? Durante oito décadas, vendidos como o farol da democracia e a garantia de que regimes baseados em liberdades e direitos poderiam florescer. Hoje, porém, esse capital simbólico se dissolve rapidamente e oferece ao mundo menos um exemplo a seguir do que um modelo a evitar.

Quem diria que, em 2025, apenas cogitar entrar naquele país já significa abrir mão de dez direitos e renunciar a cinco liberdades fundamentais? E que, se conseguir atravessar a fronteira —ou, sendo residente, decidir permanecer—, a pessoa terá de aceitar uma perda substancial em praticamente todos os direitos que lhe conferem as constituições liberal-democráticas.

O sujeito acorda em solo americano e lá se foram alguns de seus direitos individuais, pois o primeiro artigo da nova constituição afirma que Trump é o Estado e é ele quem decide sobre o que se pode falar e qual opinião se deve ter. Seus direitos sociais, inclusive os econômicos, tampouco permanecem intactos, porque é o Estado quem determina com quem se negocia, a que taxas e com quais produtos.


Nem preciso falar dos direitos de terceira geração —ao desenvolvimento, à paz e ao meio ambiente—, porque esses encontram hoje no governo americano o seu principal antagonista em nível global. Basta acreditar neles para ser considerado antiamericano.

A justiça internacional virou anedota, já que o segundo artigo da constituição trumpista estabelece que as leis dos Estados Unidos, interpretadas exclusivamente pelo governo, se sobrepõem a quaisquer normas nacionais ou decisões de organismos multilaterais.

Se o presidente (vamos chamá-lo assim por falta de um título mais excelso) decide que perpetradores de crimes contra o Estado de Direito devem ser considerados democratas —como o húngaro Antal Rogán—, enquanto democratas são violadores de direitos humanos, não pode ser contestado. Basta um ato de Trump e tiranos viram democratas e democratas, déspotas —justificações não são necessárias, o presidente não deve explicações.

Em poucas semanas, juízes do Tribunal Penal Internacional e da Suprema Corte do Brasil —que ousaram julgar genocidas ou golpistas sob a proteção do presidente— foram eles próprios julgados e condenados no único tribunal que realmente conta na galáxia: o arbítrio de Trump. Netanyahu e Bolsonaro são uns santos, os juízes que os julgam, monstros.

Decisão inquestionável, sanções imediatas. E só uma pessoa no planeta pode arbitrar a dosimetria. Imaginem quem.

Todos os condenados estão sujeitos às únicas leis que agora valem incondicionalmente para todos os cidadãos do planeta. Da decisão não cabe recurso; ao contrário, qualquer reação é tratada como agravante. O caso das tarifas ilustra bem: anuncia-se 50%. "Mas, se o país reagir, aumentarei para 100%, 1.000%, até onde eu quiser."

O mesmo vale para quem ousar desafiar o édito que transforma um tribunal ou indivíduo em pária do sistema financeiro: quem oferecer guarida a um "criminoso" segundo a lei de Trump será severamente punido. O braço longo da lei americana alcançará o dissidente, sua família e seus amigos onde quer que estejam. Fronteiras, magistrados e leis nacionais não bastarão para poupá-los. O mundo inteiro vive sob a regra infantil de mãe de chinelo na mão ameaçando: "Se correr é pior".

De longe, o mais grave é a constatação de que, pela primeira vez em 80 anos, no clube das três superpotências não resta uma democracia funcional. E isso altera um equilíbrio delicado, mas essencial, que desde 1945 permitiu que as democracias prosperassem.

Mudanças eram esperadas, mas em outra direção. Muitos apostaram na democratização da Rússia após o esfacelamento da União Soviética. Outros acreditaram que a economia de mercado, dominada com eficiência pela China, suavizaria sua ditadura. Nada disso ocorreu.

O inesperado foi a "desdemocratização" dos Estados Unidos —e a velocidade vertiginosa com que a erosão avançou, sem encontrar resistências, num país repleto de instituições criadas justamente para conter o absolutismo. Em outras palavras: ninguém esperava ver os Estados Unidos transformados naquilo que, por oito décadas, sua retórica denunciou como características dos "regimes inimigos da liberdade".

É daí que surgem os paradoxos do presente. De repente, um regime liberticida como a China parece a fada sensata diante do caos produzido por Trump nas relações internacionais. E até Putin, sanguinário e perigoso, que "apenas" deseja anexar um vizinho, parece menos ameaçador por deter uma fração mínima do poder do americano.

Já comprei pipoca para ver Bolsonaro

Já comprei pipoca para assistir, a partir da semana que vem, ao julgamento de Jair Bolsonaro e de militares que o apoiavam por tentativa de golpe de Estado. Não há muita dúvida nem sobre o veredicto que será dado à maioria dos réus nem sobre a importância histórica desse juízo.

Um dos erros em série cometidos pelo Brasil foi o de nunca responsabilizar plenamente os militares pelas várias rupturas e viradas de mesa que promoveram ao longo de nossa não tão longa história democrática. Impunidade nessas situações é praticamente um convite à próxima intervenção.

Espera-se que a condenação agora eleve substancialmente o custo de ignorar as regras fundamentais da democracia e ponha fim ao ciclo de golpismo barato.

Politicamente, a situação é mais ambígua. É certo que o processo contra o ex-presidente, encimado pela assombrosa campanha de Eduardo Bolsonaro por sanções dos Estados Unidos contra o Brasil, marca uma redução da influência da família.

Receio, porém, que os Bolsonaros, apesar da trajetória descendente, ainda conservem força suficiente para vetar candidaturas de direita, o que significa que não voltarão imediatamente para o campo da irrelevância política de onde não deveriam ter saído.

Em relação ao pleito de 2026, as coisas são ainda mais fluidas. A polarização transforma a disputa naquilo que meus colegas das páginas de esporte chamam de jogo de seis pontos. Perdas de um lado são ganhos para o outro e vice-versa.

No início do ano, o governo Lula parecia caminhar resolutamente para as cordas, mas as reinações de Dudu combinadas com preços de comida um pouco mais comportados recolocam o petista no jogo com boas chances.

Nada garante, contudo, que Lula não cometerá nenhuma tolice digna de Bolsonaros ou verá sua proverbial sorte revertida.

O que quer que aconteça na eleição, no plano institucional a condenação de golpistas representa inequívoco avanço, o que já faz valer a pipoca.
Hélio Schwartsman

'A destruição da Palestina é a destruição do Planeta' – e também da humanidade?

A Destruição da Palestina é a Destruição do Planeta é o título do livro de Andreas Malm, professor de Ecologia Humana na Lund University, Suécia. No livro, Malm recupera uma história pouco documentada midiaticamente: o histórico interesse britânico na região da Palestina, enquanto ainda estava sob domínio do Império Otomano. O ano era 1840 e os britânicos buscavam estender seu domínio colonial no mundo. A região era atrativa em razão da sua localização estratégica e porque poderia ser também uma área de livre-comércio que até então tinha influência do Egito, cujo comércio estava em ascensão. O objetivo era desmembrar a crescente dominância árabe na região, bem como aproveitar recursos naturais na costa mediterrânea onde hoje se localiza a Faixa de Gaza, rica em reserva de gás e petróleo. Para tanto, em 1840, a cidade de Akka foi inteiramente destruída e seus habitantes, assassinados. Dava-se início ali um projeto colonial que passou das mãos da Grã-Bretanha para Israel.



A Palestina é um paradigma contemporâneo para pensarmos que a aniquilação da região, sua cultura, independência econômica e população, significa também que outros povos e culturas em outros lugares do mundo, bem como a natureza, pode ser aniquilada; já foi feito uma vez, por que não poderia acontecer novamente? Ilan Pappe, reconhecido historiador do conflito Israel-Palestina, reforçou, em 6 de agosto de 2025, no ato Da Limpeza Étnica ao Genocídio na Palestina, na Faculdade de Direito da USP, que essa escala de destruição não se refere somente ao evento localizado naquela região, mas diz respeito a toda a humanidade, e mencionou a importância da linguagem na descrição dessa destruição. Já Raja Shehadeh, em What Does Isarel Fear From Palestine, narra episódios de crescente desumanização dos palestinos.


É curioso notar, pelo noticiário da guerra em Gaza (poderíamos dizer que é uma guerra, já que a Palestina não é um Estado reconhecido e também não tem exército?), que estamos em franca direção a uma contabilidade de diferenciação de “unidades humanas”. As medidas de grandeza aplicadas às vidas dos israelenses e palestinos são distintas. Podemos citar apenas alguns números: quatro israelenses (soldados) trocados por 200 palestinos em janeiro de 2025; 33 reféns do Hamas trocados por 1.900 palestinos que estavam presos em Israel, também no mesmo mês. Nem todos os prisioneiros são terroristas, já que a rotina de intimidação e violência colonial na Faixa de Gaza é uma constante. Alvos fáceis, qualquer um pode ser preso para ser intimidado a colaborar com o colonizador.

Em tempos de inteligência artificial, parece que a mente humana passou a funcionar pela lógica dos números, atribuindo valor quantitativo a seres humanos de diferentes origens. Assim é possível criar uma escala admissível de sofrimento humano, atribuindo a cada um, a depender da sua nacionalidade (ou a falta dela), religião, cor, gênero, classe social, um valor ou falta de valor que determina o quanto de sofrimento será possível cada um passar. De 0 a 10, quanto vale um cidadão brasileiro que nasceu na periferia, é pobre e racializado? Quanto vale um morador branco de um bairro favorecido? Podemos fazer essa contabilidade pelo noticiário sobre a violência policial no Brasil, por exemplo. O que acontece em Gaza é uma reverberação amplificada do que está em curso em populações periféricas racializadas no nosso país.

E como tudo isso é ou não é noticiado? Como a linguagem pode moldar a percepção de modo a ajudar na atribuição de valor na contabilidade das “unidades de sofrimento humano” disponíveis na humanidade? O que é a humanidade frente ao cálculo de quem pode viver e quem pode morrer? Este cálculo não é novidade. Também foi realizado pelo nazismo, ao projetar e desenhar o Holocausto judaico, em larga escala. Felizmente, a linguagem ajudou historicamente a reconhecermos o antissemitismo. O sociólogo francês Michel Wieviorka, no livro Violence: A New Approach (La Violence, em francês), discorre sobre como os testemunhos das vítimas dos campos de concentração em audiovisual ajudaram na construção da percepção de que, de fato, os judeus foram vítimas do nazismo.

Já que as “unidades de sofrimento humano” podem ter seu valor atribuído pela linguagem, cabe entender como a Palestina vem historicamente sendo contada, ou como, historicamente, se atribui linguagem ao conflito israelo-palestino. Isso foi em parte investigado em artigos que assinei com a minha então orientanda de mestrado, Vitória P. Baldin, como, por exemplo, A emergência do digital no conflito palestino-israelense e a linha do tempo das estratégias político-comunicativas, Perspectivas de uma comunicação para paz em relação à cobertura jornalística brasileira sobre o conflito palestino-israelense e Reflexões sobre as relações entre mídia noticiosa e conflito permanente entre palestinos e israelenses. O objetivo é contribuir com a perspectiva de que a produção midiática no campo da comunicação, e, em particular, os formatos jornalísticos, coconstituem guerras e conflitos.

O resultado maior dessa investigação, como resultado do mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicações e Artes acabou de ser publicado por Baldin: A Mídia e a Palestina: Comunicação, Poder e Resistência na Era da Informação. “Mais do que representar o conflito, a mídia aqui é entendida como parte dele – agente que molda o visível, o dizível e o possível. Este é um convite à escuta e ao reposicionamento epistemológico. Um chamado a pensar a Palestina não como exceção, mas como espelho das contradições comunicacionais do nosso tempo.” A possibilidade de a Palestina espelhar as contradições comunicacionais do nosso tempo, como conclui a autora, nos mostra que também estamos em frente a um espelhamento de um momento sombrio da existência humana neste planeta.

O árabe, a esquerda e os que permaneceram em silêncio: a história não os perdoará

O fato de que os autoproclamados guardiões da ordem pós-Segunda Guerra Mundial são as mesmas entidades que estão violenta e descaradamente violando todas as leis internacionais e humanitárias é suficiente para alterar fundamentalmente nossa relação com a "ordem baseada em regras" defendida pelo Ocidente.

As consequências do genocídio israelense em Gaza serão terríveis. Um evento desse grau de barbárie, sustentado por uma conspiração internacional de inércia moral e silêncio, não será relegado à história como apenas mais um "conflito" ou uma mera tragédia.

O genocídio de Gaza é um catalisador para grandes eventos que estão por vir. Israel e seus benfeitores estão profundamente cientes dessa realidade histórica. É precisamente por isso que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu está em uma corrida contra o tempo, tentando desesperadamente garantir que seu país permaneça relevante, se não de pé, na era que se aproxima. Ele busca isso por meio da expansão territorial na Síria, da agressão implacável contra o Líbano e, claro, do desejo de anexar todos os territórios palestinos ocupados.

Mas a história não pode ser controlada com tanta precisão. Por mais inteligente que se considere, Netanyahu já perdeu a capacidade de influenciar o resultado. Ele não conseguiu estabelecer uma agenda clara em Gaza, muito menos alcançar quaisquer objetivos estratégicos em uma extensão de 365 quilômetros quadrados de concreto destruído e cinzas. Os moradores de Gaza provaram que o sumud coletivo pode derrotar um dos exércitos modernos mais bem equipados.

De fato, a própria história nos ensinou que mudanças de grande magnitude são inevitáveis. O verdadeiro sofrimento é que essa mudança não está acontecendo com rapidez suficiente para salvar uma população faminta , e o crescente sentimento pró-palestino não está se expandindo na velocidade necessária para alcançar um resultado político decisivo.

Nossa confiança nessa mudança inevitável está enraizada na história. A Primeira Guerra Mundial não foi apenas uma "Grande Guerra", mas um evento cataclísmico que abalou completamente a ordem geopolítica da época. Quatro impérios foram fundamentalmente reorganizados; alguns, como o Austro-Húngaro e o Otomano, foram extintos.

A nova ordem mundial resultante da Primeira Guerra Mundial teve vida curta. O sistema internacional moderno que temos hoje é um resultado direto da Segunda Guerra Mundial. Isso inclui as Nações Unidas e todas as novas instituições econômicas, jurídicas e políticas centradas no Ocidente, forjadas pelo Acordo de Bretton Woods em 1944. Isso inclui o Banco Mundial, o FMI e, por fim, a OTAN, semeando assim as sementes de ainda mais conflitos globais.

A queda do Muro de Berlim foi anunciada como o evento singular e definidor que resolveu os conflitos persistentes da luta geopolítica pós-Segunda Guerra Mundial, supostamente inaugurando um novo realinhamento global permanente ou, para alguns, o "fim da história".

A história, porém, tinha outros planos. Nem mesmo os horríveis ataques de 11 de setembro e as guerras subsequentes lideradas pelos EUA conseguiram reinventar a ordem global de forma consistente com os interesses e prioridades dos EUA e do Ocidente.

Gaza é infinitamente pequena quando julgada por sua geografia, valor econômico ou importância política. No entanto, provou ser o evento global mais significativo que define a consciência política desta geração.

O fato de que os autoproclamados guardiões da ordem pós-Segunda Guerra Mundial são as mesmas entidades que estão violenta e descaradamente violando todas as leis internacionais e humanitárias é suficiente para alterar fundamentalmente nossa relação com a "ordem baseada em regras" defendida pelo Ocidente.

Isso pode não parecer significativo agora, mas terá consequências profundas e de longo prazo. Comprometeu em grande parte e, de fato, deslegitimou a autoridade moral imposta, muitas vezes pela violência, pelo Ocidente sobre o resto do mundo durante décadas, especialmente no Sul Global.

Essa deslegitimação autoimposta também impactará a própria ideia de democracia, que tem sido sitiada em muitos países, incluindo as democracias ocidentais. Isso é natural, considerando que a maior parte do planeta acredita firmemente que Israel deve pôr fim ao seu genocídio e que seus líderes devem ser responsabilizados. No entanto, pouca ou nenhuma ação se segue.

A mudança na opinião pública ocidental em favor dos palestinos é impressionante quando considerada no contexto da total desumanização do povo palestino pela mídia ocidental e da lealdade cega dos governos ocidentais a Israel. Mais chocante ainda é que essa mudança seja, em grande parte, resultado do trabalho de pessoas comuns nas redes sociais, ativistas mobilizados nas ruas e jornalistas independentes, principalmente em Gaza, trabalhando sob extrema pressão e com recursos mínimos.

Uma conclusão central é a incapacidade das nações árabes e muçulmanas de levar em conta essa tragédia que se abate sobre seus próprios irmãos na Palestina. Enquanto alguns se entregam à retórica vazia ou à autoflagelação, outros subsistem em um estado de inércia, como se o genocídio em Gaza fosse um tema estrangeiro, como as guerras na Ucrânia ou no Congo.

Este fato por si só desafiará a nossa autodefinição coletiva — o que significa ser árabe ou muçulmano, e se tais definições carregam identidades suprapolíticas. Só o tempo dirá.

A esquerda também é problemática à sua maneira. Embora não seja um monolito, e embora muitos na esquerda tenham defendido os protestos globais contra o genocídio, outros permanecem fragmentados e incapazes de formar uma frente unificada, mesmo que temporariamente.

Alguns esquerdistas ainda perseguem suas próprias histórias, paralisados ​​pelo medo de que o antissionismo lhes rendesse o rótulo de antissemitismo. Para esse grupo, a autopoliciamento e a autocensura os impedem de tomar medidas decisivas.

A história não se deixa levar por Israel ou pelas potências ocidentais. Gaza, de fato, resultará no tipo de mudanças globais que afetarão a todos nós, muito além do Oriente Médio. Por enquanto, porém, é mais urgente que usemos nossa vontade e ação coletivas para influenciar um único evento histórico: pôr fim ao genocídio e à fome em Gaza.

O resto será deixado para a história e para aqueles que desejam ser relevantes quando o mundo mudar novamente.

Fogo e fumaça na era Trump

Desde muito jovem sou ligado às notícias. Durante algum tempo, minha tarefa no Jornal do Brasil era ler todos os jornais pela manhã e planejar a edição do dia seguinte. Sou, portanto, um grande consumidor de informação.

De uns tempos para cá, com o advento das redes sociais, o volume se amplificou. Não só jornais e revistas, como blogs, podcasts, robôs, grupos, opiniões, comentários e influenciadores invadiram a cena. O que era uma grande onda virou tsunami, impossível de surfar.

Dentro desse contexto, no entanto, procuro analisar um dado importante em nosso cotidiano: a posição dos Estados Unidos em relação ao Brasil e à América Latina. Para alguns, trata-se apenas de uma repetição da velha tendência imperial de determinar a vida dos países do continente. Acontece que há fatos novos: além da cacofonia das redes, há um presidente especializado em bombardear o mundo com uma sucessão de notícias. É um presidente que tem uma rede própria e usa parte do tempo para postar projetos, ideias, avisos e devaneios.


A incompreensão dessa tática de Trump acaba produzindo um nervosismo inútil e prejudicial. É o caso da Lei Magnitsky aplicada a Alexandre de Moraes. Bastou o anúncio, sem detalhes de como será usada, para que se desencadeasse um psicodrama nacional. Um ministro escreveu um despacho, as ações dos bancos brasileiros caíram na Bolsa de Valores, e as redes estão cheias de ameaças anunciando que o país quebrará.

A Lei Magnitsky se aplica às empresas e indivíduos nos Estados Unidos. Moraes é apenas alguém que vive de salário e faz a maioria de suas compras no território brasileiro. O máximo que pode acontecer é migrar para o Pix. É possível dizer muito sobre isso, menos afirmar que é uma tragédia.

Uma noite dessas, fui dormir depois de ler inúmeros posts sobre um avião da CIA que pousou em Porto Alegre e foi para São Paulo. Eram muitos os boatos. Chegaram a extravasar para a mídia convencional. Fui dormir tranquilo porque sei que a CIA é uma agência que trabalha discreta e clandestinamente. Usa aviões, helicópteros, barcos, carros, ônibus e motocicletas, enfim, o que for necessário. A última coisa que teria é um avião que, ao pousar num país, seria facilmente identificado como sendo da CIA.

Outra notícia que segui de perto: o envio de três destróieres americanos ao Caribe, com a missão de pressionar a Venezuela. Deveriam chegar em 36 horas. Passado o tempo, li no site venezuelano TalCual que os três estavam muito longe: um em Guantánamo, Cuba; outro, no Panamá; o terceiro, na costa americana.

Maduro convocou 4 milhões de milicianos, fez discursos e desfilou com aquele casaco com a bandeira da Venezuela. Os navios americanos não apareceram porque, no seu lugar, o Furacão Erin sacudiu o Caribe. Choveu muito na Venezuela, houve até apagão em Caracas. Se os venezuelanos tivessem se preparado para as inundações, no lugar da invasão americana, talvez tivessem mais eficácia.

O jornalismo explora muito as tensões. Temo estar me transformando num antijornalista porque, na maioria dos casos, vejo crises cheias de som e fúria significando nada. Estou pronto para iniciar um novo gênero: o Correio Zen, órgão destinado a mostrar que, na maior parte das vezes, é melhor não se deixar levar pela confusão das redes e pelas bravatas dos políticos. Preciso apenas de um patrocinador que aceite perder dinheiro com serenidade.

É necessário reaprender o pacote básico da civilidade: bom dia, por favor e obrigado

Tem que entender de IA. Muito. Também precisa saber sobre programação de computadores. Usando inteligência emocional, é lógico. A resiliência está em dia? O networking bombando? Seu mindset foi atualizado esta semana? Análise de dados é pré-requisito, sustentabilidade também. O inglês perfeito, claro, é obrigatório, mas, com o tarifaço, mandarim virou tendência. A economia digital tá dominada? E blockchain, tá por dentro? Como assim não é íntimo das criptomoedas?

A garotada está correndo igual galinha sem cabeça atrás das habilidades necessárias para a sobrevivência no século XXl. Pelo que dizem coaches, gurus e mentores, sem elas você está condenado ao limbo profissional: não encontrará ocupação, não se tornará empreendedor, não criará um unicórnio de bilhões.


Será que não falta nada nesse pacote de conhecimentos?

Depois de ouvir os elegantes áudios dos Bolsonaros e do Malafaia, rodar pelas redes sociais e dar um giro pelas ruas, posso afirmar que o que anda sumida é a educação. Não a que se aprende nos cursos da moda, mas a ensinada pelos pais, em casa, na hora do jantar. Estão faltando modos, como diziam nossas avós.

Ao invés de dominar o pacote Office, aquele do Excel, PowerPoint e Word, é necessário reaprender o pacote básico da civilidade: bom dia, por favor e obrigado.

Não entendo os fãs do ex-presidente suspirando pela sua grosseria como se fosse um sinal de autenticidade. Em algum momento vão se dar conta do erro que é chamar urubu de meu louro. Já os admiradores do pastor me são ainda mais incompreensíveis: como podem celebrar um religioso que está sempre xingando alguém? Pelo vocabulário que usa, me parece que ele seria mais feliz como dono de bordel ou chefe de torcida organizada. Eu o aconselharia a procurar um psiquiatra, talvez um exorcista.

A educação que se aprende em casa não é apenas a das regras básicas de etiqueta, como saber lidar com os talheres, dar lugar a idosos nos transportes públicos e não usar palavrões como vírgula. Na verdade, essa etiqueta é o de menos: o principal é a gentileza, o respeito e cordialidade. Exatamente as que se encontram em vias de extinção.

Cadê o Ibama e o Greenpeace nessas horas?

Basta acompanhar os bate-bocas no Congresso Nacional para perceber que, daquele jeito, com aquela gente, nada pode dar certo. O problema é que grosseria como estilo de vida está se espalhando como rastilho de pólvora. Chegou na fila do banco, na reunião de condomínio, na mesa do bar. Também se espalha a ideia de que a cortesia é frescura de uma elite ultrapassada. Como se houvesse algum tipo de relação entre dizer bom dia e o saldo bancário. Não vou citar os CEPs cariocas onde pode ser comprovado que essa relação não existe, tenho apreço pela paz, mas acho que o leitor sabe de onde estou falando.

Que me perdoem os coaches, mentores e gurus, mas nenhuma das habilidades do primeiro parágrafo — ou skills, como eles dizem— abre mais portas do que uma boa educação. Você pode andar com as marcas mais caras estampadas no peito, palavras da moda no discurso e vários diplomas em inglês debaixo do braço, mas é a maneira como você cumprimenta, fala e se comporta que vai dizer — de cara — quem você é.

Menos MBA e mais Socila, por favor.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


O lugar de Trump é no TPI, não na cerimônia do Prêmio Nobel

O sonho do presidente dos EUA é receber o Prêmio Nobel da Paz em Oslo, segundo dizem; o lugar apropriado para ele é o Tribunal Penal Internacional em Haia. Nenhum outro não israelense tem tanta responsabilidade pelo banho de sangue em Gaza quanto Donald Trump. Se quisesse, ele (e somente ele) poderia, com um telefonema, pôr fim a esta guerra terrível e à matança dos reféns.

Gaza nos deixa sem palavras

A ONU declarou fome em Gaza. Oficialmente. Porque já se suspeitava disso. Durante meses, vimos a devastação da escassez de alimentos se desdobrar nos corpos dos palestinos. Ao vivo. Em nossas telas. Ao lado de nossa impotência e vergonha.

Durante quase quatro décadas como correspondente no Oriente Médio, testemunhei em primeira mão a dor e a miséria causadas por ditadores, conflitos sectários, guerras civis, desastres naturais e invasões estrangeiras. Nunca antes havia testemunhado a crueldade de uma comunidade inteira ser aniquilada, com o mundo como testemunha . E cúmplice. Porque a fome em Gaza não é (apenas) obra de Netanyahu e seus capangas. É também responsabilidade daqueles que a possibilitam (os israelenses, os EUA, a Europa, os vizinhos árabes, até mesmo a Rússia e a China).

Ainda me lembro dos olhos vidrados dos sudaneses famintos que chegaram a Cartum em junho de 1990, fugindo da seca nas províncias do sul. Sua fome, embora agravada pela má gestão, corrupção e conflitos locais, havia sido desencadeada pela falta de chuva. A fome que mata os habitantes de Gaza hoje é intencional, resultado de uma decisão política.

Não há desculpa para as ações de Israel desde 8 de outubro de 2023. Nem em Gaza, nem na Palestina, nem no Oriente Médio em geral. O massacre perpetrado pelo Hamas na véspera (que o mundo condenou) não justifica o abandono dos princípios mais básicos da humanidade . Enquanto isso, o apoio do governo e dos militares aos abusos dos colonos na Cisjordânia reforça a ideia de que 7 de outubro está sendo usado como pretexto para um projeto anterior.

Sob os bombardeios dos EUA, afegãos e iraquianos puderam buscar refúgio em países vizinhos. Sob sanções internacionais, iraquianos, iranianos e afegãos continuaram a receber alimentos e medicamentos do exterior. Com graus variados de dificuldade, jornalistas sempre tiveram acesso a zonas de conflito. Este não é o caso em Gaza, onde Israel priva seus habitantes de abrigo seguro e comida.

Prisão a céu aberto, inferno na Terra, limpeza étnica, genocídio… Organizações humanitárias estão ficando sem palavras para descrever o horror vivenciado naquele pedaço de terra palestina. Muitos cidadãos também.

Somos bilíngues, escrevemos uma coisa e pensamos outra

A língua brasileira, isto é, o português falado com sotaque nheengatu e impregnado de palavras do tupi antigo, contém segredos em que o que está sendo dito pode dizer mais do que se pensa. Na verdade, somos bilíngues. Escrevemos uma coisa e pensamos outra.

A linguagem oculta incertezas próprias da duplicidade. Além do que, as escravidões que tivemos e sua cultura da sujeição e do medo nos ensinaram mais a perguntar do que a afirmar.

Nós nos rebelamos nas insurreições sutis, a dos meandros. A língua brasileira, um tanto diversa da língua portuguesa, já é em si mesma uma rebelião: a rebelião das vogais contra as consoantes. Na palavra “ganhá”, na falta do erre do infinitivo, o ganhar não significa precisamente vencer um conflito, mas perdê-lo.

Em sua “Caderneta de campo”, na Guerra de Canudos, Euclides da Cunha anotou respostas de prisioneiros interrogados e degolados em seguida pelo Exército: “E eu sei?”. Ou: “Tem, não” — concordar para discordar.


Nesta conjuntura de reemergência do nosso autoritarismo crônico, antipatriótico e anticapitalista, do falso patriotismo dos traidores da pátria, temos um cenário propício para a compreensão dessa decisiva característica sociológica da sociedade brasileira.

No caso da imposição de tarifas anticapitalistas para salvar o capitalismo americano, a crise econômica prevista abre brechas para o que não é econômico, mas combinação de irresponsabilidade social e política.

Em relação a nós, lembra-nos a afirmação do general Costa e Silva, em pronunciamento na televisão ainda em preto e branco para explicar o golpe de 1964: “Estávamos à beira do abismo, mas agora, com a revolução militar, o país deu um passo à frente...”. O general desfalava a língua brasileira.

O substrato profundo e invisível das circunstâncias produz, em todas as partes, personagens e enredos. Se na história da sociedade contemporânea a esquerda populista produziu líderes carrancudos e totalitários, como Stálin, a direita e a extrema direita produziram notórios e perigosos bufões.

O mais emblemático deles foi Mussolini, que aparecia em público fazendo gestos da imponência que não tinha, o que o tornava mais ridículo do que fisicamente era.

Hitler, que tinha uma figura acanhada e tosca, era bufo de nascimento. Ensaiava discursos e a teatralidade circense de poses de valentão para contrapor-se à imagem do alemão derrotado na Primeira Guerra Mundial. O alemão teatral tinha que mostrar sua cara para sobrepor-se ao alemão sacrificado nas trincheiras.

Trump, desde seu primeiro governo, chamou a atenção do mundo inteiro pelo fato de que era e é um sujeito sem alegria, sem sorriso. Quando sorri, seu sorriso é indisfarçavelmente escárnio, entre a prepotência e o descaso.

Ele quer ser expressão e símbolo da América que já não existe como foi ela em seus áureos tempos. De certo modo, foi perdendo as conquistas dos grandes saltos históricos, como a abolição da escravatura, na era Lincoln, que a trouxe para o mundo moderno. E a América desenvolvimentista da era Roosevelt, do desenvolvimento econômico com desenvolvimento social. Desde então, teve apenas alguns momentos de luminosa grandeza, com Jimmy Carter e Barack Obama, governantes humanistas e de discernimento.

Os bufões, na sociedade contemporânea, começam como precursores do extremo-direitismo e como tais se confirmam no poder. Querem personificar a ordem social e política rígida, a da resistência e aversão às tendências de transformação social e à consciência inovadora. Exaltam o passado que nunca propriamente existiu. São maus conhecedores da história.

Uma reverenda senadora do DF, em dias passados, falou em “nós, os conservadores” em fingido pedido de desculpas ao PT. São reacionários. Os verdadeiros conservadores têm o sentido e a dimensão da História, de um certo possível, no marco dos valores sociais. Os reacionários, como os bolsonaristas, não os têm.

Temos o azar de ter os nossos bufões, bem mais que um. Bolsonaro é o nosso, sem a competência teatral dos bufões clássicos. Não distingue iniciativa de acabativa.

Nessa ordem de coisas, lembro-me de um comentário que por aqui corria nos anos de 1970. Um militante da mudança social, em palestra num bairro popular de São Paulo, explicou que nossa tragédia econômica decorria da injusta dívida externa.

Para não pagá-la, o jeito seria declararmos guerra aos EUA e nos deixarmos vencer pelo inimigo. Como os americanos que, após a Segunda Guerra Mundial, derrotaram os países do Eixo, os ocuparam, os desenvolveram e transformaram em potências econômicas. Fariam o mesmo aqui.

Um caboclo, no fundo da sala, dos que ainda pensam em língua nheengatu, muito desconfiado, perguntou:

— E se nóis ganhá?

Genocídio em Gaza: uma mancha em todos nós e um teste à nossa humanidade

A manipulação de palavras pela mídia ocidental em nome de Israel não começou em outubro de 2023, mas tem sido particularmente evidente desde então.

O que está acontecendo em Gaza está entre os grandes crimes deste e de qualquer outro século. É incomparável porque, ao contrário de qualquer outro momento da história, temos sido, por quase dois anos agonizantes, observadores da campanha genocida de Israel para dizimar o povo e a terra da Palestina.

Nossa humanidade coletiva exige que os genocidas em Israel e seus facilitadores americanos e ocidentais sejam processados ​​perante o mundo; caso contrário, a ilegalidade, a imoralidade e a desumanidade se tornarão o padrão. Sem consequências para os perpetradores e justiça para os palestinos, a mancha do genocídio inevitavelmente corroerá ainda mais o corpo político das sociedades que participaram ou permaneceram em silêncio diante do mal.

Neste momento, a mensagem final do jornalista da Al-Jazeera, Anas al-Sharif, nos chama. Al-Sharif estava entre os cinco jornalistas palestinos que foram as últimas vítimas da missão de Israel de silenciar o mensageiro, para garantir que seus crimes genocidas não sejam noticiados.

Al-Sharif, Mohammed Qreiqeh, Ibrahim Zaher, Moamen Aliwa, Mohammed Noufal e Mohammed al-Khaledi se juntaram à palestino-americana Shireen Abu Akleh (1971-2022) e aos outros 270 jornalistas e profissionais de mídia assassinados pelas forças de ocupação israelenses desde 7 de outubro de 2023.

Ameaçado pelos sionistas durante meses a interromper suas reportagens, al-Sharif havia preparado seu último testamento; palavras que ele esperava que alcançassem a consciência do mundo. A seguir, um trecho comovente:

 Anas al-Sharif  e os filhos Sham e Salah
Eu vivi a dor em todos os seus detalhes, experimentei o sofrimento e a perda muitas vezes, mas nunca hesitei em transmitir a verdade como ela é, sem distorção ou falsificação — para que Alá possa testemunhar contra aqueles que permaneceram em silêncio, aqueles que aceitaram nossa matança, aqueles que sufocaram nossa respiração e cujos corações não se comoveram com os restos mortais espalhados de nossas crianças e mulheres, sem fazer nada para impedir o massacre que nosso povo enfrenta há mais de um ano e meio.

Confio a vocês a Palestina — a joia da coroa do mundo muçulmano, o coração de cada pessoa livre neste mundo. Confio a vocês seu povo, suas crianças injustiçadas e inocentes que nunca tiveram tempo para sonhar ou viver em segurança e paz. Seus corpos puros foram esmagados sob milhares de toneladas de bombas e mísseis israelenses, dilacerados e espalhados pelos muros. Peço que não deixem que as correntes os silenciem, nem que as fronteiras os impeçam. Sejam pontes para a libertação da terra e de seu povo, até que o sol da dignidade e da liberdade nasça sobre nossa pátria roubada.

Apenas uma hora antes de ser morto, al-Sharif alertou sobre a iminente invasão israelense da Cidade de Gaza (no norte), uma das poucas áreas restantes não totalmente ocupadas pelas tropas israelenses (relatórios indicam que Israel atualmente controla mais de 75% de Gaza).

A manipulação de palavras pela mídia ocidental em nome de Israel não começou em outubro de 2023, mas tem sido particularmente evidente desde então. Foram necessários o massacre israelense, a mutilação, a fome e a privação de água de centenas de milhares de habitantes de Gaza para que finalmente dessem testemunho e voz à narrativa palestina.

A revolta de outubro forçou um confronto com a verdade brutal sobre a colônia sionista, uma realidade escondida com sucesso do mundo por mais de sete décadas.

Durante todos esses anos, a política americana foi alimentada com uma versão simplista da história como forma de justificar o roubo, a ocupação e a colonização forçada de terras palestinas por sionistas europeus; uma injustiça auxiliada e incentivada por todos os presidentes americanos desde que Harry S. Truman reconheceu o estado judeu em maio de 1948.

Agressão, destruição e genocídio contra os habitantes indígenas palestinos nunca foram incluídos na fábula israelense de "fazer o deserto florescer" nem no relato israelense da revolta de outubro pela mídia ocidental. Essa ausência abriu caminho para a matança organizada de Tel Aviv e para a normalização do genocídio em Gaza e na Cisjordânia ocupada.

Embora rachaduras tenham começado a se formar, a mídia tradicional continua a incorporar a história de Gaza com a perspectiva dos genocidas.

A cobertura do assassinato de al-Sharif e seus colegas por Israel é mais um exemplo de sua disposição para distorcer. Para manchar sua reputação, semear dúvidas e encobrir seu crime de guerra, Israel fez o que sempre faz: alegou que al-Sharif era um agente do Hamas. A alegação infundada e incontestável, no entanto, foi incorporada à versão do evento pela mídia tradicional.

Quase todas as notícias enviadas de Tel Aviv contêm o obrigatório "Israel diz". Devemos acreditar que todos os hospitais, casas, mesquitas, igrejas, escolas, parques e cemitérios de Gaza transformados em escombros eram centros de comando e controle do Hamas, simplesmente porque o principal genocida, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, disse isso.

Notavelmente, a maioria das pessoas teria ficado chocada se, durante a Segunda Guerra Mundial, os jornalistas tivessem se baseado na perspectiva nazista para sua cobertura da guerra. É difícil conceber que eles tivessem incluído ou se baseado no que "Hitler diz" (o arquiteto do genocídio) em sua cobertura.

Outubro de 2025 marca dois anos desde a revolta: o dia em que os movimentos de resistência de Gaza tentaram fazer o que qualquer população faria se eles, como os palestinos, tivessem sido confinados em um gueto, vigiados e mantidos em cativeiro por uma força hostil por mais de meio século, sem esperança para o futuro.

As populações árabes em todo o Oriente Médio, juntamente com seus irmãos palestinos, também sofreram desde a implantação da colônia sionista em seu meio. Déspotas árabes, aliciados por potências ocidentais, continuam a ser obedientes e úteis a elas e a Tel Aviv, enquanto negam liberdade às suas próprias populações.

O que os ditadores árabes mais temem é o poder da solidariedade muçulmana e o que ela representa para o seu futuro. Para muitos, especialmente no mundo árabe, a Palestina é o " coração de cada pessoa livre no mundo ". Ela se ergue como um símbolo de resistência inabalável à dominação e da luta incessante pela autodeterminação.

Nos últimos dias e meses, por exemplo, a polícia atacou brutalmente manifestantes pró-palestinos nas ruas do Cairo, Omã e outras cidades árabes.

O apoio aos palestinos foi criminalizado na Arábia Saudita (ironicamente, também no "democrático" Reino Unido). As autoridades sauditas têm perseguido cidadãos que criticam Israel ou expressam solidariedade a Gaza online. A Human Rights Watch afirmou que o regime, com um histórico de usar a pena de morte para silenciar críticos, está cada vez mais usando a pena capital para reprimir a dissidência.

Fiéis em locais sagrados do Islã foram presos por exibirem símbolos de solidariedade a Gaza. A profunda dor do povo árabe foi personificada de forma pungente nas palavras de um peregrino egípcio que foi recentemente preso após hastear a bandeira palestina em frente à Sagrada Caaba em Meca; ele proclamou em tom de pesar: "Wa Islamah!" — uma frase em árabe que se traduz como "Ó Islã" ou "Onde está o Islã?". Ela tem sido usada historicamente para expressar angústia e como um pedido de ajuda quando o Islã ou os muçulmanos estão sob ameaça.

Israel sempre representou uma ameaça à região, à paz e à segurança globais. Até agora, não conheceu limites ou fronteiras para seus excessos horríveis e perigosos. Sem restrições, sua arrogância, arrogância, virulência e criminalidade aumentaram. Israel se tornou descaradamente confiante em seu genocídio devido ao apoio inabalável e uniforme das classes políticas em Washington, Londres, Berlim, Paris e Bruxelas.

Os Estados Unidos e seus aliados podem estar despertando para a realidade de que um Israel descontrolado e sem sanções pode causar o colapso do sistema político, jurídico e econômico moderno que criaram após a Segunda Guerra Mundial; sistemas que os privilegiaram por mais de sete décadas. Ironicamente, esse mesmo sistema também beneficiou Israel.

O medo de perder seus privilégios econômicos pode levá-los a finalmente agir além da retórica vazia que vêm proferindo há mais de 680 dias.

Os colaboradores de Israel — a camarilha da "ordem internacional baseada em regras" — enfrentam um dilema: continuar a apoiar o Estado truculento que enfraquece imprudentemente as instituições internacionais ou tentar desmantelar o regime monstruoso que ajudaram a criar e sustentar. O problema reside em como processar um representante americano que se tornou um desonesto sem implicar seus próprios funcionários, que optaram por se envolver até o pescoço em genocídio.