domingo, 3 de maio de 2020

A fila única para a Covid está na mesa

O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto defendeu a instituição de uma fila única para o atendimento de pacientes de Covid-19 em hospitais públicos e privados. Nas suas palavras:

“Dói, mas tem que fazer. Porque senão brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar. Não tem cabimento isso”.


Ex-diretor da Agência de Vigilância Sanitária e ex-superintendente do Hospital Sírio-Libanês, Vecina tem autoridade para dizer o que disse. A fila única não é uma ideia só dele. Foi proposta no início de abril por grupos de estudo das universidades de São Paulo e Federal do Rio. Na quarta-feira, o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Zasso Pigatto, enviou ao ministro Nelson Teich e aos secretários estaduais de Saúde sua Recomendação 26, para que assumam a coordenação “da alocação dos recursos assistenciais existentes, incluindo leitos hospitalares de propriedade de particulares, requisitando seu uso quando necessário, e regulando o acesso segundo as prioridades sanitárias de cada caso.”

Por quê? Porque a rede privada tem 15.898 leitos de UTIs, com ociosidade de 50%, e a rede pública tem 14.876 e está a um passo do colapso.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (ex-diretor de uma Unimed) jamais tocou no assunto. Seu sucessor, Nelson Teich (cuja indicação para a pasta foi cabalada por agentes do baronato) também não. Depois da recomendação do Conselho, quatro guildas da medicina privada saíram do silêncio, condenaram a ideia e apresentaram quatro propostas alternativas. Uma delas, a testagem da população, é risível, e duas são dilatórias (a construção de hospitais de campanha e a publicação de editais para a contratação de leitos e serviços). A quarta vem a ser boa ideia: a revitalização de leitos públicos. Poderia ter sido oferecida em março.

Desde o início da epidemia os barões da medicina privada se mantiveram em virótico silêncio. Eles viviam no mundo encantado da saúde de griffe, contratando médicos renomados como se fossem jogadores de futebol, inaugurando hospitais com hotelarias estreladas e atendendo clientes de planos de saúde bilionários. Veio a Covid, e descobriram-se num país com 40 milhões de invisíveis e 12 milhões de desempregados.

Se o vírus tivesse sido enfrentado com a energia da Nova Zelândia, o silêncio teria sido eficaz. Como isso era impossível, acordaram no Brasil, com 60 mil infectados e mais de seis mil mortos.

A Agência Nacional de Saúde ofereceu aos planos de saúde acesso aos recursos de um fundo se elas aceitassem atender (até julho) clientes inadimplentes. Nem pensar. Dos 780 planos, só nove aderiram.

O silêncio virótico provocou-lhes uma tosse com a recomendação do Conselho Nacional de Saúde. A fila única é um remédio com efeitos laterais tóxicos. Se a burocracia ficar encarregada de organizá-la, arrisca só ficar pronta em 2021. Ademais, é discutível se uma pessoa que pagou caro pelo acesso a um hospital deve ficar atrás de alguém que não pagou. Na outra ponta dessa discussão, fica a frase de Vecina: “Brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar.” Os números da epidemia mostram que o baronato precisa sair da toca.

A Covid jogou o sistema de saúde brasileiro na arapuca daquele navio cujo nome não deve ser pronunciado (com Leonardo DiCaprio estrelando o filme). O transatlântico tinha 2.200 passageiros, mas nos seus botes salva-vidas só cabiam 1.200 pessoas: 34% dos homens da primeira classe salvaram-se; na terceira classe, só 12%.

Sinal dos tempos estranhos

Um dia alguém vai estudar o Brasil de 2020 durante a pandemia.

Enquanto a rede pública de saúde dava sinais de colapso, o presidente da Federação Brasileira de Hospitais, guilda de 4.200 instituições privadas, informava que a ociosidade média dos leitos de UTIs de seus associados estava em 50%.

O diretor do Sírio-Libanês, o hospital das celebridades (Lula, Dilma e companhia), explicava o efeito dessa ociosidade, provocada pela suspensão dos procedimentos eletivos para clientes de planos de saúde dos abonados:

“Todos os nossos hospitais nesse momento que estão com ocupação baixa têm custos fixos que têm que ser pagos. Essas empresas vão ficar numa situação econômica difícil. Já neste mês há instituições com dificuldade de pagar a folha de pagamento. Outros vão aguentar de dois a três meses. Mas se essa situação persistir por muito tempo, vão ter problema de solvência.”

Se esse darwinismo econômico é irredutível, vale o que disse o doutor Paulo Guedes: “É da vida ser abatido, é do mercado. Uma economia de mercado de vez em quando é atingida”. Quem acha que é da vida ser abatido pelo coronavírus deve entender que também é da vida que sua empresa pegue o vírus da insolvência.

Madame Natasha

Natasha adora as entrevistas do ministro Nelson Teich. Suas platitudes permitem que ela tire sonecas vespertinas.

Por acaso ela ainda não tinha adormecido quando o doutor disse o seguinte:

“O que tem que ficar claro é que é um número que vem crescendo”.

Naquele dia haviam morrido 473 pessoas (durante todo o ano em que combateu o exército alemão na Itália, a Força Expedicionária Brasileira perdeu 474 pracinhas).

Como o ministro havia visto sinais de que a epidemia estava contida, deveria ter dito o seguinte:

“Ficou claro para mim que o número vem crescendo.”

Na mesma entrevista, o ministro apontou para o fato de que o aumento das mortes estava restrito a alguns estados, como São Paulo, Rio e Amazonas.

Em agosto de 1945, os militares japoneses aloprados diziam em Tóquio que havia um problema restrito às cidades de Hiroshima e Nagasaki.

Chavismos

A deputada Joice Hasselmann, ex-líder do governo de Jair Bolsonaro no Congresso, disse à repórter Julia Chaib que o Brasil corre o risco de cair “num chavismo de verdade, com sinal trocado”.

Em 2018, durante a campanha eleitoral, o general Hamilton Mourão, que foi adido militar na Venezuela, explicou a essência do poder chavista:

“Existe uma corrupção muito grande nas Forças Armadas venezuelanas. Elas perderam a mão em relação à missão que têm no país.”

Vargas tentou

Quando o ministro Alexandre de Moraes bloqueou a nomeação de um delegado amigo da família Bolsonaro para a direção da Polícia Federal, mostrou que o bom funcionamento das instituições acaba protegendo os presidentes.

Na manhã de 29 de outubro de 1945, Getulio Vargas decidiu nomear seu irmão Benjamin para a Chefatura de Polícia do Rio, um dos cargos mais importantes da República. À noite, estava deposto.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e garante:


Essa epidemia é uma gripezinha, o programa Pró-Brasil era apenas um estudo e o amigo inglês de Paulo Guedes está pronto para oferecer 40 milhões de testes para o coronavírus.

A verdadeira herança maldita no Brasil


Pandemônio

Em entrevista ao programa Câmera Aberta, da Band, em 1999, Bolsonaro, indagado se, caso fosse presidente, fecharia o Congresso, respondeu: “Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia”. Nessa entrevista defendeu a tortura e disse que o Brasil “só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para uma guerra civil (...) matando uns 30 mil (...). Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”.

Ao votar no impeachment, ele o fez em homenagem ao torturador coronel Brilhante Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”, disse.

Pela segunda vez, em plena pandemia, dia 19/4, Bolsonaro foi à manifestação dominical contra o Congresso Nacional e a favor da ditadura. Antes da fala de Bolsonaro, circunstantes gritavam “Fora Maia”, “AI-5”, “Fecha o Congresso”, “Fecha o STF” e carregavam faixas pedindo “intervenção militar já com Bolsonaro”, que em seu discurso falou: “Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil” – adotando como seu, portanto, o teor do encontro.

A identificação com essa reunião se comprova ao pretender interferir a favor dos manifestantes, com a mudança do diretor da Polícia Federal: na mensagem enviada a Moro, ministro da Justiça, Bolsonaro reproduz nota do site O Antagonista segundo a qual a PF está “na cola” de 10 a 12 deputados bolsonaristas.

O presidente, então, escreveu: “Mais um motivo para a troca”. Patente, destarte, que buscava intervir no inquérito determinado pelo ministro Alexandre de Moraes instaurado para verificar “a existência de organizações e esquemas de financiamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano”. A nomeação de pessoa íntima para a diretoria da PF, cuja posse foi obstada pelo STF, é prova do interesse de demissão do então dirigente para se imiscuir nas investigações.


A atitude de Bolsonaro em face da pandemia, “uma gripezinha”, mostra indiferença pelo que poderia acontecer se desrespeitadas as normas de isolamento e quarentena determinadas pela OMS e pelo ex-ministro Mandetta.

Na última terça-feira, indagado sobre o aumento do número de mortes, o presidente deu resposta agressiva: “E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagres”. A soberba, todavia, revela-se no uso das expressões “eu sou a Constituição”, “tenho a caneta”, “o presidente sou eu”, “quem manda sou eu”.

Tais comportamentos indicam possível anormalidade de personalidade, a merecer análise médica acurada.

Já opinei ser a interdição um caminho eventual para Bolsonaro. Não estava a fazer blague. As atitudes habituais permitem supor possível transtorno de personalidade, falha profundamente estudada por Odon Ramos Maranhão, titular de Medicina Legal (Psicologia do crime, 2.ª ed. Malheiros, 1995, cap. 7) e objeto de classificação pela CID-10, a Classificação Internacional de Doenças da OMS, em livro específico sobre doenças mentais (Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, editor Artes Médicas, pág. 199).

Nessa classificação, o transtorno de personalidade antissocial tem por características a “indiferença insensível face aos sentimentos alheios; uma atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito a regras; a baixa tolerância à frustração; a incapacidade para experimentar culpa e propensão a culpar os outros”.

Poderia haver, eventualmente, transtorno de personalidade paranoide, cujos sintomas seriam, por exemplo, “combativo e obstinado senso de direitos pessoais; tendência a experimentar autovalorização excessiva e preocupação com explicações conspiratórias”.

Outra publicação respeitada é o DSM-5, da Associação Psiquiátrica Americana, que em http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico-e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf.pdf, nas páginas 645 e seguintes, estuda os tipos de transtornos da personalidade, cabendo destacar: “1- paranoide, caracterizado por desconfiança e suspeita tamanhas que as motivações dos outros são interpretadas como malévolas; 2- antissocial, cujo padrão é desrespeito e violação dos direitos dos outros; 3- narcisista, que apresenta sentimento de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia”.

Atentemos para o comportamento reiterado de Bolsonaro, ao longo do tempo, em favor de situações que geram dor, em apoio a manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF, chegando a agir, como presidente, para não se apurar devidamente a organização do ato de domingo 19 de abril; em campanha contra o isolamento social, única medida possível para reduzir mortes; usando a trágica expressão, “e daí?” acerca do aumento do número de mortes; no gosto pelo aplauso popular, pois, no domingo 15 de março, ao ser ovacionado em frente ao Planalto falou: “Isso não tem preço”.

São esses os sinais indicativos de possível enquadramento nas categorias psiquiátricas acima lembradas, o que cumpre ser verificado por experts em medida adotada em defesa do País.

No meio da pandemia, um pandemônio.

Exemplo do vírus delivery

Cerimônia de posse dos novos ministros da
Justiça, André Luiz Mendonça, e da AGU, José Levi
 O leitor desavisado e incrédulo olha para esses registros e até desconfia se não foram feitos em uma época passada, tamanho o absurdo e o descaso com a saúde pública e com o compromisso de se dar o exemplo para a sociedade. Milhares de pessoas mortas por causa de uma pandemia ainda sem cura, países chorando por seus falecidos, médicos desesperados longe de suas famílias e os representantes dos poderes brincando com a vida. O mundo vê isso e deve pensar que tipo de ignorantes moram neste país,  já que os seus próprios mandatários andam na contramão cotidianamente e chutam todas as recomendações para escanteio. Dá vergonha. Dá medo. Marcelo Copelli 

Os vivos e os mortos

1.

Estendendo as mãos para fora da cama, admirou-se de não encontrar nada. "Ora essa", pensou, "as formigas devem ter comido a parede", e voltou a dormir. Pouco depois, a mulher o sacudiu: "Olha, seu preguiçoso", disse ela, "enquanto você estava dormindo, roubaram a nossa casa". O céu intacto espraiava-se por todos os lados. "Bem, o que está feito, está feito", pensou ele.

Pouco depois, ouviu-se um barulho. Era um trem que se aproximava deles a toda velocidade. "Com tanta pressa", pensou, "vai chegar com certeza antes de nós", e voltou a dormir. Depois, o frio o despertou. Estava banhado em sangue. Alguns pedaços da sua mulher jaziam junto dele. "Com o sangue", pensou ele, "surgem sempre muitos contratempos; se aquele trem não tivesse passado eu seria feliz. Mas, uma vez que já passou...", e tornou a adormecer.

Nos últimos anos, sonâmbulos como o homem pacífico de Henri Michaux pulularam por estas terras. Liberais com deficiência de aprendizado, juristas de palanque e articulistas do chefinho distraíram-se dos ímpetos totalitários do asno que alçaram ao poder com o simples objetivo de apear um governo levemente trabalhista.

Quando confrontados, disseram: "O poder irá moderá-lo...", e voltaram a dormir.


2.

Hoje, as instituições estão sequestradas por milícias fascistas. A cada dia mais frágeis, adiam o momento em que terão que finalmente combater ou capitular. Indecisos entre o cálculo político e a defesa da Constituição, a desonra e a guerra, congressistas, senadores e presidentes das duas casas assistem, lívidos, a corrosão do que nos sobrava de Estado Democrático de Direito. Sem perceber que, um a um, todos estão virando sombras.

Antes de cair no sono, soltarão outra nota de repúdio.

3.

As intrigas palacianas com ramificações em grupos de extermínio que testemunhamos no meio de uma pandemia só podem acabar em (mais) tragédia. Não haverá renúncia ou acordo. Haverá tiroteio, assassinato, suicídio. Este governo miliciano sabe que, fora do poder, será encarcerado.

Entre a inocência e a impotência, a oposição democrática descobre a cada dia novos buracos para enfiar o pescoço. Enquanto nós, os últimos ilustrados, inventamos novas formas de conversar com o espelho. Sempre um pouco acima do chão, um pouco revolucionários – ligeiramente subversivos. Mas não muito.

Talvez por isso, nós, que ainda estamos vivos, fomos – e seguimos – incapazes de estar a altura do desafio histórico que temos diante dos olhos. A esperança que nos resta é outra.

4.

Quantos zeros precisam estar à direita para que a pilha de corpos torne-se (ou deixe de ser) uma abstração? Qual é o limite do aceitável? Qual o grau de parentesco? A aritmética da compaixão? Qual será a imagem, o cadáver exposto na calçada, a cova coletiva, que irá riscar uma linha a partir da qual um "e daí?" seja respondido com a guilhotina que merece?

Logo uma tempestade pesada cairá em cada trecho do Planalto Central, nas secas colinas, sobre os mangues e as florestas. Cairá, também, sobre os cemitérios, em rajadas nas cruzes e lápides, nas pontas dos portões, nos espinheiros e jardins, na grama, na lama. Ouviremos essa chuva cair na terra, como se encontrasse seu pouso definitivo, sobre todos os vivos e todos os mortos.

Talvez nesse dia, os últimos falem mais alto que os primeiros.

J.P. Cuenca

Com o Centrão revigorado por Jair Bolsonaro, vêm aí uma enorme Farra do Boi

Vem aí uma enorme Farra do Boi. É o Centrão revigorado, com a mão na botija de ouro. Bolsonaro já combinou com Valdemar Costa Neto – este exemplo de honestidade – a área de vigilância da Saúde. Na área está ainda o epidemiologista Wanderson Oliveira, que ficou (por enquanto) da gestão Mandetta.

Por que o PL mira a vigilância? É a área das grandes compras do Ministério da Saúde. Dá para faturar um dindim formidável.

 O PL levará também a presidência do Banco do Nordeste, outra teta do dindim na região.

Para o PP – um partido de homens probos – irão o FNDE e o DNOCS. Dois centros de grandes compras do governo. O FNDE toca programas da educação básica – a merenda e o transporte escolar e o Programa Nacional do Livro Didático.Já pensou o tamanho do bufê da festa?

O PSD ficará com a Funasa, outro foco de faturamento extra. O Republicanos (???) levará uma secretaria na Agricultura e a Secretaria de Mobilidade Urbana. O PTB de Roberto Jefferson quer influir no Dnit (ex-DNER).


Vamos destrinchar o caso como se fosse um frango assado sobre a mesa. Moro diz que Bolsonaro lhe falou que precisa “interagir” com o diretor da PF, ter informações sobre investigações da PF.

Pergunta: há inquéritos da PF que interessam diretamente a Bolsonaro? Sim. As investigações do STF sobre as fake-news visam ao “gabinete do ódio”, operado por Carlos Bolsonaro.

Sim. As investigações sobre rachadinha e relações com a milícia de Rio das Pedras (incluindo assassinato de Marielle) visam a Flávio Bolsonaro.

Sim. As investigações sobre financiamento de manifestações anticonstitucionais, contra o Congresso e o STF, visam a Eduardo Bolsonaro.

Faz lógica, não faz?

Este post é dedicado aos ingênuos que votaram em Bolsonaro para acabar com a corrupção no Brasil.

A corte de Bolsonaro

Na extinta monarquia brasileira, conforme o artigo 99 da Constituição de 1824, “a pessoa do imperador é inviolável e sagrada” e “ele não está sujeito a responsabilidade alguma”. Ou seja, o imperador não respondia pelos seus atos, sendo estes, em si mesmos, a expressão da lei. Essa figura do Poder irresponsável, acima de todos os outros, foi extinta com a Proclamação da República, em 1889. A primeira Constituição republicana, de 1891, estabelece a “responsabilidade do presidente” (Capítulo V) e os diversos crimes de responsabilidade pelos quais o presidente poderia ser acusado (artigo 54), como desrespeito à Constituição e improbidade administrativa.

O presidente Jair Bolsonaro age como se ainda estivéssemos sob a Constituição de 1824 e como se ele fosse o imperador. “Quem manda sou eu”, disse recentemente Bolsonaro, invocando, pela enésima vez, um poder que ele considera ilimitado. Neste caso específico, Bolsonaro quer ter poder de nomear amigos para dirigir a Polícia Federal (PF) e fazê-la trabalhar para atender a seus interesses e aos de seus filhos, que aparecem em investigações da PF.


Bolsonaro não se conforma que outros Poderes limitem o seu, como aconteceu na quarta-feira passada, 29, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem, amigo da família presidencial, para chefiar a PF, em razão de evidente desvio de finalidade. “No meu entender, uma decisão política. Política!”, esbravejou Bolsonaro, tentando desqualificar a decisão do ministro Alexandre de Moraes.

Com espírito imperial, Bolsonaro avisou que vai insistir na nomeação, desautorizando a Advocacia-Geral da União (AGU), que havia informado que não recorreria da decisão. O problema, como explicou a própria AGU, é que não há mais do que recorrer, já que a nomeação de Alexandre Ramagem foi tornada sem efeito pelo próprio Bolsonaro. Se quiser insistir nisso, o presidente terá que reeditar a nomeação, em franca afronta ao Supremo.

O presidente disse que “desautorizar um presidente da República com uma canetada”, em referência ao ato do ministro Alexandre de Moraes, pode levar a uma “crise institucional”, e rogou: “Eu apelo a todos que respeitem a Constituição”.

Ora, o respeito pela Constituição deve começar pelo presidente da República, cujas nomeações devem observar os princípios da impessoalidade, da moralidade e do interesse público. Bolsonaro, ao contrário, não quer que seus ministros e assessores trabalhem pelo País, e sim como despachantes de interesses privados, tanto os de sua família como os dos amigos.

O presidente vive a infernizar ministros e assessores que não se curvam a suas vontades – os ex-ministros da Saúde e da Justiça que o digam –, enquanto favorece os sabujos que, malgrado sua incrível incompetência, não lhe economizam encômios. Na corte bolsonarista, em breve quase não haverá ministros, apenas amigos do rei.

Aos cortesãos, não faltarão prebendas. Como mostrou recentemente uma reportagem Estado, o presidente Bolsonaro cobrou da Receita Federal uma solução para as dívidas tributárias de igrejas evangélicas, cujos líderes são seus entusiasmados apoiadores. A Receita descobriu que as igrejas estavam usando a remuneração de pastores, também chamada de “prebenda”, que é isenta de tributos, para distribuir participação nos lucros e pagar remuneração variável, ou seja, de acordo com o número de fiéis. Bolsonaro não viu nenhum problema em exigir pessoalmente do secretário da Receita, José Barroso Tostes Neto, que alivie as multas.

Esse caso ilustra bem o tipo de influência que Bolsonaro quer exercer nos órgãos da República, que, ao contrário do que pensa o presidente, devem atuar nos limites da lei e conforme o interesse público. É com esse espírito que Bolsonaro ainda pretende colocar um funcionário de sua estrita confiança na chefia da PF para transformá-la em polícia particular. Sabe-se lá onde isso vai parar, razão pela qual o Supremo vem tomando seguidas decisões que mostram ao presidente que o tempo do soberano irresponsável já passou faz mais de um século.</p>

sábado, 2 de maio de 2020

Um presidente que odeia pelas manhãs

Quase todo mundo sabe que política é a arte do entendimento, a busca do possível, a técnica de guiar ou orientar um grupo, uma comunidade, uma cidade, um estado ou uma nação através de argumentos e medidas que atendam ao interesse da maioria. É isso o que se espera do homem público, seja ele um veterano conservador ou um novato reformador. Ele precisa pensar muito antes de tomar uma decisão, calcular antecipadamente o impacto de cada passo que for dar, cada frase que for pronunciar. Procurar não cometer erros e evitar turbulências que o atrapalhem alcançar o objetivo da maioria. Ter jogo de cintura, buscar a paz. Exatamente o contrário do que faz cotidianamente o presidente Jair Bolsonaro.

Quando as coisas chegam a um ponto de ebulição capaz de gerar uma explosão, o bom político recolhe-se, cala-se, conta até dez, dorme sobre o problema para ter tranquilidade para decidir no dia seguinte. Comete o conhecido “sleep on it”, que é a técnica de deixar a matéria esfriar antes de nela tocar, ou consultar o travesseiro antes de reagir. Com Bolsonaro ocorre o oposto. Ele quase sempre amanhece atazanado, pronto para dar uma bronca em repórter, para reagir ao que considerou um insulto recebido na véspera, a reverberar sobre algo que por prudência deveria ter sido deixado para trás ou sobre o qual seria melhor discorrer com a calma das manhãs.


Duas razões parecem estar por trás dessa volúpia matinal do presidente. A primeira e mais evidente é que no “sossego do lar”, Bolsonaro passa horas sem ouvir seus assessores, seus generais, aqueles que tentam e muitas vezes conseguem colocar freios em seus ímpetos. No Alvorada, quando a noite cai, o presidente só tem os seus filhos, os três zeros que entopem sua cabeça com as ideias que ele vai desovar ao longo do dia e expelir de modo mais direto e sem rodeios na entrevista que dá na porta do palácio aos jovens repórteres atônitos, que produzem as principais manchetes de quase todos os dias.

A segunda razão tem natureza emocional. Bolsonaro sente-se encorajado pela claque que amanhece diariamente com ele na saída da residência oficial. Dá para ver como ele se regozija com os aplausos e palavras de apoio quando fala, quando ofende jornais ou manda jornalista calar a boca, quando desce o pau em governadores, deputados e senadores ou quando ataca ministros do Supremo Tribunal Federal. Percebe-se em alguns momentos que ele fala e olha para a claque rindo, buscando incentivo, que obviamente obtém. Essa turma o incensou mesmo quando defendeu o fim do isolamento e disse que a Covid-19 não passava de uma gripezinha.

Se da claque não se deve esperar mesmo muita coisa, afinal essa turma é composta por seguidores e admiradores fiéis e cegos, o mesmo não devia se dizer do presidente. Mas é o que ocorre. Não se pode esperar muito de Jair Bolsonaro. Sobretudo pelas manhãs. O ataque ao ministro Alexandre de Moraes é um exemplo da clássica frase “de onde menos se espera daí é que não sai nada mesmo”, do Barão de Itararé. Quando sai alguma coisa, vem nesse formato que atenta contra o mais elementar dos mandamentos do bom político, que é não permitir que a coisa fuja do seu controle. No episódio, Bolsonaro entregou o controle ao Supremo, que reagiu em coro contra ele.

E não adianta tentar explicar os arroubos presidenciais pela lógica bolsonarista de que o mundo mudou com o fim da política clientelista. Até porque essa máxima besteira, que há muito tempo tinha sido explodida, foi agora soterrada pelo acordo com o centrão. E depois não é disso que se trata. O que ocorre é que o presidente se vê esvaziado dos ensinamentos do dia quando se deixa contaminar pela ignorância da noite. Woodrow Wilson, que governou os Estados Unidos de 1913 a 1921, produziu um frase que qualquer brasileiro adulto que acompanhou a política nacional dos últimos 20 anos entende bem: “Nos assuntos públicos a burrice é mais perigosa do que a desonestidade, porque é mais difícil de ser combatida”.

Brasil da pirataria


'Presidente, assuma sua irresponsabilidade'

Desde que tivemos conhecimento da primeira transmissão comunitária da Covid-19, no dia 13 de março, tomamos imediatamente as medidas restritivas no estado do Rio, que estão sendo tomadas em todo o mundo, cada país com suas peculiaridades e características. Todas as decisões foram baseadas em autoridades sanitárias, infectologistas e nosso secretário de Saúde, Edmar Santos. As ações de contenção do vírus, todos sabemos, são duras e têm consequências econômicas. Sempre soubemos disso. Mas a decisão sempre foi priorizar a vida das pessoas. Pessoas que perdem suas vidas não trabalham.

O coronavírus atinge o mundo inteiro. Mas só no Brasil isso virou política. O núcleo bolsonarista e seu gabinete de "fake news" insiste na estapafúrdia tese de conspiração política. Algo como “os governadores querem destruir a economia para enfraquecer o Bolsonaro”. Ora, se essa tese fosse transportada para todo o mundo, seria o caos mundial. Em todos os lugares do mundo, o isolamento social foi entendido como absolutamente necessário. Como uma ação de sobrevivência em meio a uma guerra. Uma guerra humanitária e de saúde como nunca vista antes.

Logo depois da iniciativa do estado do Rio, governadores de todo o Brasil seguiram a mesma linha. E decidiram por proteger seus cidadãos desse vírus letal. O mais letal da nossa geração.

Sabíamos que, com o comércio fechando as portas, com os empresários em dificuldade, com as pessoas que mais precisam em desespero, que o estado teria que atender a todos. Mas é aí que a tese de bolsonaristas, defendida pelo presidente da República, nos deixa atônitos. O presidente, que trata o Covid-19 como uma "gripezinha” ou “resfriadinho”, manda-nos recados semanais de que a conta a ser paga pela decisão dos governadores pelo isolamento social é nossa. E esse é o absurdo dos absurdos. O papel do governo federal é imediatamente socorrer os estados. Não é um favor. É uma obrigação. Não é uma perseguição pessoal, como faz crer o presidente da República. Socorrer os estados é socorrer o povo. Essa narrativa pobre e pueril de que devemos pagar a conta não vai prosperar. 

Algumas palavrinhas

Bolsonaro confessou que nem sempre lê os decretos que assina. São textos longos e que além de lidos têm que ser compreendidos… É muita letrinha e isso é muito cansativo.

Não dá para transformá-lo, nessa altura do campeonato, num grande leitor, mas pelo menos podemos usar apenas outras poucas letrinhas para fazê-lo ver o que está perdendo.

Ou não?

Sou teimosa, vou tentar.

De Cicero, o grande tribuno romano: “Uma sala sem livros é um corpo sem alma”.

De Jane Austen a grande escritora inglesa: “Uma pessoa, seja um cavalheiro ou uma dama, que não sente prazer em ler um bom romance, deve ser intoleravelmente estúpida”.

De Mark Twain, o admirável escritor americano: “Bons amigos, bons livros e uma consciência tranquila, eis a vida ideal”.

De Neil Galman, novelista britânico: “Os contos de fadas são mais do que verdadeiros. Não é somente porque nos contam que os dragões existem, mas porque garantem que eles podem ser vencidos”.

De Groucho Marx, o magistral cômico do cinema: “Fora do cachorro, o melhor amigo do homem é o livro. Dentro do cachorro é muito escuro para ler”

De Paul Valéry, o notável poeta francês: “Os livros têm os mesmos inimigos que os homens – fogo, umidade, bichos, tempo e seu próprio conteúdo”.

De Jorge Luis Borges, o gênio literário argentino: “Imagino que o Paraíso seja uma espécie de biblioteca”

De Ernest Hemingway, o brilhante escritor americano: “Não há amigo mais leal que um livro”.

De Winston Churchill, o estadista a quem o mundo todo muito deve: “Ele tem o dom de comprimir a maior quantidade de palavras na menor quantidade de ideias”.

Será de quem que Churchill falava? Se não fosse a brutal diferença de geração, eu diria que era do Bolsonaro. Cai como um luva, não cai?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa 

Soneto da covid-19

Talvez um dia andemos novamente
Pela Consolação, pela Paulista,
E consigamos, milagrosamente,
Chegar salvos e sãos à Bela Vista.

Talvez possamos, como se ontem fosse,
Cantar aquela cálida canção
E achá-la muito mais intensa e doce
Do que nós a julgáramos então.

Talvez nos seja um dia restituída
Aquela nossa venturosa vida
E voltemos a andar pela cidade

Alegres, sorridentes e confiantes
Como naqueles belos dias antes
Dos longos dias de calamidade.
Raul Drewnick

Para não cair, Bolsonaro rende-se ao 'é dando é que se recebe'

Estelionato eleitoral é se eleger prometendo uma coisa e, depois, fazer o seu oposto. Lembra algo? Calma! Jair Messias Bolsonaro, que esta semana acusou seus desafetos de conspirarem para transformá-lo num pato manco, poderá ser lembrado por último.

Estelionato eleitoral, por exemplo, lembra o presidente Fernando Henrique Cardoso, que sucedeu a Itamar Franco. Para se reeleger em 1998, ele garantiu que o Real manteria seu valor em relação ao dólar. Eleito e reempossado, desvalorizou o Real.

Lembra mais o quê? Sim, Dilma Rousseff, que se reelegeu prometendo manter a política econômica do seu primeiro mandato, nada ortodoxa. Fez o contrário, para desencanto dos que votaram nela e horror do PT que passou a criticá-la.

Fernando Henrique não conseguiu eleger seu sucessor, o ex-ministro da Saúde José Serra. Para não amargar uma derrota fragorosa, Serra se apresentou como se fosse candidato de oposição ao governo. No caso de Dilma, ela foi derrubada.

Governantes procedem assim quando a realidade os contraria. Não o fazem necessariamente por maldade. Dão o dito pelo não dito para sobreviver. Fernando Henrique e Dilma sabiam que não teriam como honrar sua palavra. Esperavam retomá-la depois.


Não é o caso de Bolsonaro, incapaz de enxergar um palmo à frente. Ele acreditou que se imporia à realidade. Inventou formas bizarras de superá-la. E terceirizou a solução de problemas que seria incapaz de resolver por não ter se preparado para tal.

Em breve, o que restará das promessas que ele fez para se eleger? Combate à corrupção? Abandonada desde que a dupla dinâmica formada por Flávio, o Zero Um, e Queiroz, o seu faz tudo, passou a ser investigada pelo Ministério Público no caso da “rachadinha”.

O ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, expelido do governo por se opor ao aparelhamento da Polícia Federal, tem muito que contar a esse respeito. Suas principais iniciativas contra a corrupção foram sabotadas, ora pelo Congresso, ora por Bolsonaro.

Crescimento econômico? O pibinho de 2019 foi menor do que o pibinho deixado como herança por Michel Temer. O próximo será negativo – algo como menos seis por cento ou até pior. O projeto neoliberal do ministro Paulo Guedes foi para o espaço.

Bolsonaro prometeu governar em harmonia com os demais poderes? Em algum discurso, uma vez eleito, prometeu. Em campanha, não, porque não combinava com seu perfil. Pois vive em guerra permanente para dominar os demais poderes.

O presidente eleito para “quebrar o sistema”, agora com medo de que lhe abreviem o mandato, está prestes a se aliar ao sistema. O Centrão vem aí! Em breve, numa repartição de sua cidade, a fina flor do fisiologismo político estará em cartaz.

Centrão é como foi batizado o grupo de partidos que adere a qualquer governo desde que possa faturar cargos, emendas ao Orçamento da União, e outros favores impróprios de ser mencionados. Melhor, antes, retirarem as crianças da sala.

Foi na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 que o Centrão nasceu. Inicialmente, sua razão de ser era contrapor-se à esquerda no debate das questões econômicas. De lá para cá, Centrão virou sinônimo de coisa ruim, que se vende em troca de sinecuras.

Bolsonaro não quer saber disso, não. Sem partido, sem base de apoio no Congresso porque nunca se interessou em construí-la, precisa, às pressas, de pelo menos o voto de 171 deputados para barrar na Câmara a abertura de um processo de impeachment.

Por isso ele declarou aberta a temporada do “é dando que se recebe”, uma máxima de São Francisco de Assis. Como, por aqui, o que o santo rezava acabou desvirtuado, Bolsonaro sempre poderá apelar para Lucas, versículo 6:38: “Dai, e ser-vos-á dado”.

É verdade que, segundo o apóstolo Paulo, Jesus ensinou: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35). Mas Bolsonaro e o Centrão pularam essa página da Bíblia.

Pensamento do Dia


Como uma onda no mar?

“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.” Sem dúvida alguma. E, sim: “tudo passa, tudo sempre passará”. Mas a epidemia não vem em ondas mais ou menos simétricas, como o mar. A epidemia vem em onda forte seguida de outras ainda fortes, em onda moderada seguida de ondas fortes, em onda que tudo varre e ainda pode ser seguida do mais profundo descalabro. A evolução depende de como os governos se comportam. Também depende de como os governos se comportam dentro da realidade de cada país. Não adianta imitar a Suécia, apostar na imunidade de rebanho e deixar a onda passar. Primeiramente porque não sabemos o que haverá de ser das escolhas da Suécia. Depois, porque o Brasil não é a Suécia. Por fim, porque os suecos estão respeitando o distanciamento social sem quarentena, por conta própria. Trata-se de questão de comportamento.

Muito me preocupam os cenários econômicos. Não por sua extrema gravidade. Eles me preocupam porque muitas vezes se baseiam em premissas equivocadas, como a de que haverá uma primeira onda — essa que estamos atravessando — seguida de onda mais mansa, ou de uma sequência de ondinhas. É este tipo de premissa que escora as projeções do FMI: a onda forte é agora, no segundo semestre haverá outra, mais fraca, e, depois, vida que segue. Muitos economistas estão seguindo essa linha de raciocínio para justificar suas posições. Alguns resolveram inclusive ignorar já a primeira onda, voltando a apoiar uma agenda de reformas que, francamente, diz respeito a um mundo que não existe mais. Entre esses consta o ministro da Economia brasileiro, que resolveu mudar o tom no momento em que o país entra na fase mais crítica da crise humanitária. Com ele foram os economistas de mercado e todos aqueles que preferem ignorar a realidade. A realidade é que a capacidade hospitalar da cidade de São Paulo está se esgotando. A realidade é que a taxa de mortalidade no Rio de Janeiro entre os mais pobres já é muito mais elevada do que entre os mais ricos. Quem prefere encarnar o surfista alienado cuja imagem ficou associada à música que intitula este artigo — nada contra a música, gosto muito — está, neste momento, agindo de forma imoral. Queiram os economistas ou não, há uma dimensão moral nesta crise que não será esquecida.
Se alguém parasse para olhar os dados brasileiros — que estão subnotificados —, observaria que o número de casos no país está subindo rapidamente a cada dia. O número de mortos já é maior do que o da China. Quando vocês estiverem lendo esta coluna, já teremos superado a China no número total de casos. Não estamos na crista da onda, prestes a nela deslizar com a destreza daqueles que o fazem de forma incansável nas praias do Rio. Estamos no pé de uma montanha cujo pico nos ilude. E do pé dessa montanha resolvemos, de uma hora para outra, ignorar nossos mortos, nossos doentes, os do presente e os do futuro, voltando à ladainha das reformas.

Porque soberano é o vírus, não o presidente da República ou o ministro da Economia.

Cadê a renda básica emergencial, que não chega nas mãos das pessoas? E as filas criminosas em frente à Caixa Econômica Federal para sacar o benefício? O que dizer da ausência de repasses fundamentais para os estados e municípios? O que falar do desembolso de apenas R$ 5 bilhões para o SUS até agora? Como se pode pensar em defender a redução de tributação sobre os bancos neste momento? E por que cargas d’água vamos querer avançar com medidas de austeridade contidas nas reformas se o que precisamos é de mais endividamento público para ao menos atenuar a depressão econômica?

O Brasil nunca viu uma deflação. O modo-padrão é logo morrer de medo de inflação, é dizer que não podemos nos endividar porque cairemos na espiral inflacionária de eras passadas. Mas não. Essa não é mais a realidade. A realidade é uma espiral de queda de preços extremamente danosa para a economia, para as pessoas. Nos vídeos que tenho feito para o YouTube tenho explicado o que é uma espiral deflacionária. Para os leitores interessados, recomendo assisti-los, pois, para nós, brasileiros, é algo inédito. Mas não é algo que, nós, economistas, desconheçamos, ainda que alguns não a tenham visto de perto.

Como uma onda no mar? Não. Como um tsunami a chegar no oceano de ignorância deste desgoverno.

Profetadas

Ouve-se e custa a acreditar, mas o “Polígrafo SIC” comprovou a veracidade dos factos relatados, no âmbito duma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social. Bolsonaro determinava uma “proclamação santa” anunciando um jejum religioso contra a pandemia do coronavírus, à qual teriam aderido os “maiores líderes evangélicos” do país.

Segundo o El País (Brasil) no dia 5 de Abril o presidente participou numa “roda de orações” pelo fim da pandemia que serviu também como cerimónia de encerramento do jejum, reunindo-se com pastores e fiéis evangélicos que o foram ver ao Palácio Alvorada. Na altura ouviu de um dos religiosos “a afirmação de que a partir desse domingo, dia 5 de Abril, dia proclamado de jejum, não haveria mais mortes nem doentes infectados pelo coronavírus“. Bolsonaro atendeu o pedido de um pastor e ajoelhou-se com o grupo que fez orações e cantou músicas de louvor. Em silêncio, o presidente ouviu o pastor, em tom exaltado, dizer que, a partir daquele instante, não haveria mais nenhuma morte pela Covid-19 no Brasil, porque o país estaria abençoado por Deus e pelo presidente Bolsonaro”.


Como é evidente continuaram a morrer pessoas de Covid-19 e, passada pouco mais de uma semana, o governo informou que o país tinha atingido um recorde diário de 217 mortos e 3.257 novos casos de infecção, tendo até duplicado as percentagens anteriores de vítimas mortais e de infectados. A profecia falhou porque era falsa. A promiscuidade entre política e religião constitui a negação do que deve ser um estado moderno e laico, e leva o sagrado a reboque de interesses políticos. De facto, a Igreja brasileira perdeu há muito qualquer autoridade profética para falar à nação, por se ter envolvido até ao pescoço na política partidária.

Por outro lado, este triste episódio revela uma série de equívocos perigosos. Antes de mais, qual é a legitimidade de um chefe de estado para convocar um acto religioso? Se o estado é laico e a constituição garante rigorosa isenção face às religiões, por que motivo se poderá justificar tal convocação, agravada pela associação a uma pequena parte dos líderes cristãos, excluindo assim a maioria deles? Bolsonaro é presidente de todos os brasileiros e não só dos neopentecostais. Aliás, tal convocação só faria sentido se viesse duma plataforma religiosa que não excluísse nenhuma confissão à partida. O argumento bíblico de que terão havido precedentes de reis do Antigo Israel que o fizeram esquece que os tais eram também sacerdotes e viviam num estado confessional, o que muda tudo.

E por que razão o presidente da república aceitou sem pestanejar uma oração manipuladora e patética que apenas expressou um desejo humano, apresentado em forma de declaração profética? Já agora, visto que não se confirmou, e porque tais sectores religiosos gostam tanto de imitar o Antigo Testamento, será bom lembrar que os falsos profetas hebreus na altura eram punidos com a morte… O que lhes vale é que já não vivemos nesse tempo de que eles tanto gostam, caso contrário seriam executados.

Por último, como é possível a um líder religioso dizer que o país estava abençoado “por Deus e pelo presidente Bolsonaro”, colocando ambos em pé de igualdade?

Estes falsos profetas são ainda mais censuráveis do que os charlatães que no início de cada ano vão à televisão fazer previsões a partir do alinhamento dos astros e dizendo normalmente o que as pessoas gostariam de ouvir. Todos eles sem excepção auguraram um ano de 2020 espectacular, extremamente positivo, e não houve nem um que falasse da eventualidade duma pandemia que viria a provocar centenas de milhares de mortos e o colapso das economias em todo o mundo.

Mas os falsos profetas são ainda mais censuráveis também porque põem os seus desejos na boca do divino, pretendendo falar em seu nome, enquanto os astrólogos supostamente se limitam a fazer uma leitura dos astros. Sobre os que debitam profetadas já o sacerdote-profeta Jeremias alertava há 2600 anos: “Os profetas profetizam falsamente no meu nome; nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, e adivinhação, e vaidade, e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam” (Jeremias 14:14).

Entretanto o ministro Sérgio Moro, a estrela maior deste governo, bateu com a porta e deixou acusações gravíssimas ao presidente, que exigem investigação judicial, agravando assim a crise política e desferindo um profundo golpe no bolsonarismo.

Falta pouco

É tempo de reconhecer a magnitude do problema e tomar medidas. Não ajuda politizar neste momento. Essa é hora de todos os atores do país estarem unidos em torno de um objetivo comum: lidar com a questão de saúde. Ninguém quer que uma crise de saúde se transforme numa crise de direitos humanos
Joel García Hernández, o presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos

O fim da Nova Política ou 'me salvem, se puderem!'

A junção da pandemia com as crises econômica e política, autoimpostas pelo presidente, fez com que a “nova política”, do velho político Jair Bolsonaro, viesse abaixo. Alguns dias atrás, o presidente esteve na manifestação em frente ao QG do Exército, onde anunciou que “não iria negociar nada”. Entretanto, logo depois, Bolsonaro se encontrou com um dos líderes do “centrão”, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL). Em seguida, ainda compartilhou uma “live” na qual o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) denunciava um suposto golpe preparado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Paralelamente, também foram sinalizadas aproximações com o PP, PSD, Republicanos e PL, de Valdemar da Costa Neto. E justamente Lira, Jefferson e Valdemar, figuras da velha política, com “passagem” pelos casos do mensalão e “vítimas” da Operação Lava Jato.

A compra de muitas brigas, principalmente com Rodrigo Maia, a saída de Mandetta e o turbulento pedido de demissão de Moro, tudo isso gerou um certo senso de urgência no chefe do Executivo. E o “não quero negociar nada” desmanchou-se no ar, em função da necessidade de se constituir uma base para impedir um possível processo de impeachment.


Bolsonaro acumula, até a data de hoje, um total de 31 pedidos de impeachment contra ele. A esses pedidos, somam-se a CPI da “Fake News”, que ameaça atingir seus filhos, e o inquérito autorizado pelo ministro Celso de Mello, sobre as denúncias feitas por Moro. Pronto, estão dadas as condições para o presidente esquecer a “nova política” e voltar os olhos para a velha, porém “enxuta”, política.

A investida no centrão também visa dividí-lo para quebrar o poder de Rodrigo Maia, podendo desembocar num possível candidato à presidência da Câmara dos Deputados, apoiado pelo governo, para disputar contra alguma preferência de Maia em fevereiro de 2021.
O presidente da República comprou muitas brigas e queimou rapidamente o seu capital político. A saída de Moro, além de tirar parte da sua base de apoio popular, também deve encarecer a relação com o centrão.

A distribuição de cargos é a condição para a formação dessa base-proteção. Mas, como tudo que deixamos para “comprar” de última hora, sairá mais caro; e pode ser que o presidente “compre”, mas não leve. Parte do centro político não parece estar disposto a embarcar nisso que, para muitos, parece uma furada.

Paulinho da Força (Solidariedade-SP), conhecido pela sua volatilidade ideológica, recusou-se a entrar para a base, ainda que, segundo ele, tenham lhe oferecido a gestão do Porto de Santos.

Sobre a aproximação com o “centrão”, Bolsonaro afirmou que vai encarar com naturalidade qualquer negociação de cargos na administração pública federal. “Acham que eu tenho controle em tudo o que acontece?”

Realmente, a negociação na política, dentro de limites republicanos, é normal e necessária, há cargos políticos a serem preenchidos, no entanto, o presidente se esquece de que foi ele mesmo quem reforçou a demonização dos acordos. Não que os combinados que estejam em curso sejam os mais republicanos, visto que, aparentemente, o preço da construção da base de apoio sobe na mesma proporção do enfraquecimento do governo. A saída de Moro, sem dúvidas, inflacionou as negociações.

A desconfiança é mútua: da parte de Bolsonaro, por não ver comprometimento dos novos apoiadores; por parte do “centrão”, por ver em Bolsonaro um arrombo de contradições, que gera insegurança.

Em seu próprio discurso durante a posse do novo ministro da Justiça, o presidente falou acerca de respeito e independência entre os três poderes. Paradoxal quando sabemos que, outro dia, ele estava em um carro de som numa manifestação que pedia a volta do AI-5, o fechamento do Congresso e do STJ.

O centrão conta com mais ou menos 160 deputados federais. Estes, somados com a parte dos parlamentares do PSL que ainda apoiam o presidente, e o grupo do MDB, vinculados à bancada do boi, bala e bíblia, onde Bolsonaro ainda tem apoio, resultariam no número necessário para barrar qualquer tentativa de processo de impedimento. Resta-nos conferir se esse casamento se concretiza e o preço da festa.

Bolsonaro, ricos e pobres

A última fornada de pesquisas traz dados relativamente desencontrados a respeito do governo Bolsonaro, mas os diversos institutos mostram, de forma inequívoca, o país dividido diante da principal dúvida em relação ao futuro: o impeachment do presidente da República, apoiado por 45% dos entrevistados, contra 48%, segundo o Datafolha. Com esse placar, não há hoje chances para um processo de afastamento de Jair Bolsonaro. Mas as pesquisas apontam também um quadro que parece extremamente volátil, o que talvez explique suas divergências em relação à popularidade presidencial neste momento. As águas da opinião pública estão se movimentando com rapidez, ao sabor da pandemia do coronavírus e das crises criadas dentro do Planalto. Em vinte dias, a situação poderá estar bem diferente.

Os levantamentos dos institutos Atlas e Jota/Quaest apontam queda consistente na aprovação de Bolsonaro algo como 8 p.p. a mais na desaprovação, pelo primeiro, e uma queda de 11 p.p no índice de bom e ótimo no segundo. O Datafolha, embora reflita desaprovação clara em relação à condução das políticas contra a Covid-19, traz intacto um núcleo de 33% dos entrevistados que continuam apoiando o governo.


A curiosidade, contudo, vem na composição desse bloco de um terço do eleitorado que considera Bolsonaro bom ou ótimo. Aos poucos, parece estar havendo uma substituição de apoiadores com maior nível de renda e mais alto grau de escolaridade por outros situados na faixa que recebe até dois salários mínimos e tem instrução primária. Traduzindo, no grosso modo: os ricos estariam abandonando Bolsonaro e os pobres se aproximando dele. Um movimento aparentemente provocado pelas medidas de auxílio emergencial na crise da pandemia, como o pagamento de R$ 600 a desempregados e autônomos, e que teria significado porque essa faixa da população tem maior peso do que as demais, chegando a mais de 70% do eleitorado.

Dificilmente, porém, seria essa uma tendência duradoura, a ponto de garantir a popularidade de Bolsonaro. Em primeiro lugar, porque os programas de ajuda federal aos mais pobres têm deixado muito a desejar em termos de eficiência e efetividade. As longas filas nas portas de agências da Caixa Econômica e as trapalhadas nos anúncios do Ministério da Cidadania vem deixando claro que falta a esse governo capacidade para executar políticas sociais. Em segundo, porque, lamentavelmente, a situação tende a piorar muito, tanto em relação à tragédia da pandemia, com suas mortes e hospitais em colapso, quanto nas previsões de desemprego e recessão nos próximos meses. E sabe-se que não há recursos para a continuidade desses programas ou, ao menos, não há intenção da equipe econômica de Paulo Guedes de dar recursos para isso quando seus três meses de vigência se esgotarem.

A falta de empatia do presidente da República em relação às vítimas da pandemia é algo que só Freud poderia explicar. Mas está diariamente nos meios de comunicação, e evidentemente não ajuda nada na preservação de sua imagem mesmo junto àqueles que são favoráveis à flexibilização do isolamento social. Insensibilidade jamais será bem recebida pelo grande público. Quando ficar claro o quanto está sendo nociva sua influência na questão das medidas de proteção ele baixa um decreto ampliando os serviços considerados essenciais no dia em que houve recorde de vítimas, sobretudo se houver mais mortes relacionadas a essa flexibilização, a responsabilização, para ricos e para pobres, terá nome e endereço certo: Jair Bolsonaro, Palácio da Alvorada, sem número, Brasilia, DF.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O significado do trabalho

 Raras vezes, como agora, foi tão importante refletir sobre o trabalho. Incertezas de diversas naturezas afligem os trabalhadores em todo o mundo – as transformações tecnológicas, as novas organizações do trabalho, as mudanças nas relações trabalhistas, além, é claro, da própria crise causada pela covid-19, que forçou a interrupção de muitas atividades e transformou o dia a dia de todos os trabalhadores. Afetado drasticamente pelo presente, o trabalho vê-se envolto também nas grandes incógnitas a respeito de como será o mundo após a pandemia.

A Constituição de 1988 define, entre os fundamentos da República Federativa do Brasil, os valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa. O trabalho é alicerce do Estado porque antes é alicerce da sociedade, da família e do próprio indivíduo. A atividade laboral é muito mais que uma fonte de renda. Ela é expressão e construção da dignidade e da liberdade humana. Privar alguém de seu trabalho é limitar sua autonomia e sua participação na sociedade.

As mulheres sofrem especialmente a privação do trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a força de trabalho ativa das mulheres no mundo é de 47%, enquanto a dos homens é de 74%. Na América Latina, o nível médio de educação das mulheres é relativamente alto, mas elas recebem salários 17% menores que os homens, porcentual contrastante com o aumento do número de lares sustentados por mulheres.


Antes da crise da covid-19, o País já tinha um enorme desafio, econômico e social, de gerar postos de trabalho. Ao longo do ano passado, o total de desempregados, subempregados e desalentados esteve em torno de 25 milhões de pessoas. Especialmente dramática é a taxa de desemprego crônico. Mais de um quarto dos desempregados procura emprego há mais de dois anos. É a deterioração das condições do mercado de trabalho afetando de forma permanente a parcela mais vulnerável da população.

A pandemia agravou ainda mais o quadro do desemprego, bem como as condições de trabalho. Trabalhadores tiveram a renda ou o salário reduzido, chegando em muitos casos à suspensão do contrato de trabalho. É um horizonte de prejuízos e de incertezas, a afligir todos.

Na retomada após a crise, o desafio de promover o trabalho deve ser prioritário. Não basta diminuir encargos patronais, como às vezes o governo Bolsonaro deu a entender que faria. É preciso ter um diagnóstico amplo sobre o panorama do trabalho no mundo atual, em profunda transição, identificando e atuando nos gargalos, ineficiências e oportunidades – e, de posse desses dados, fazer o complemento consciencioso da reforma trabalhista iniciada no governo Temer.

Cada vez mais, trabalho não é sinônimo de emprego. Não apenas as oportunidades profissionais são diferentes, como também as aspirações das novas gerações em relação à profissão são muito distintas das dos seus pais. Tal cenário exige uma resposta abrangente, que passa necessariamente por melhorar a qualidade do ensino e da formação profissional. É ilusão supor que o País poderá enfrentar a contento os desafios do trabalho do século 21 sem uma profunda melhoria da educação.

O trabalho não deve alimentar uma espécie de casta, que divide e hierarquiza as pessoas por renda, importância ou protagonismo social. Ao contrário, toda atividade profissional – intelectual ou manual, complexa ou simples, que desperta aplausos ou passa despercebida aos olhos da maioria – é âmbito de promoção da dignidade e da autonomia. É no trabalho realizado com seriedade e competência que cada um se desenvolve, aperfeiçoando sua personalidade e fortalecendo os vínculos sociais, e pode oferecer, de forma muito prática, sua melhor contribuição à família e à sociedade. Seja qual for a tarefa, o sentido do trabalho é sempre servir, somar, construir.

O feriado do 1.º de Maio é oportunidade, na emergência da pandemia, para reconhecer o mérito de todos os trabalhadores – os que atuam em atividades essenciais, os que estão trabalhando em casa e também os que estão parados, mas, sobretudo, os que se entregam, nos serviços médicos, à missão de confortar os doentes e salvar vidas.

Mês de maio

Hoje é primeiro de maio, quer dizer que começa o mês das noivas, das flores e de Nossa Senhora.

Já foi também o mês dos trabalhadores, que justamente a primeiro de maio comemoravam o seu dia especial. Dia de recordação e reparação, aniversário do sacrifício dos mártires de Chicago.

Era dia em que se podia celebrar com entusiasmo e sem escrúpulos, antes que o fascismo, o estalinismo e o estado-novismo tomassem conta dele e o maculassem com o seu bafo demagógico. Pois aos poucos, a data quase sagrada dos trabalhadores, o dia dos socialistas de todo o mundo, se foi adulterando e corrompendo. Era no primeiro de maio que o louco da cruz gamada fazia as suas mais espetaculares exibições e que o histrião da praça Veneza assomava ao balcão venerável, soltando o verbo, mãos aos quadris, queixo para a frente. No primeiro de maio era que o falecido Stalin, na sua obra sistemática de traição às jornadas de outubro e bourrage de crânes do povo russo, organizava as suas brutais manifestações de força, os desfiles em massa ― soldados, atletas, polícia, aviões, tanques ― tudo que fosse forte, e ameaçador, e de guerra, para assustar inimigos internos e externos. E era ainda no primeiro de maio que encerrava a farsa do seu endeusamento pessoal; já que demitira o barbudo Deus dos popes, e havia lugar para outro deus, por que não preencher a vaga?


Aqui mesmo no Brasil, o 1º de maio não nos traz boas recordações. Tínhamos em certa época aqueles melancólicos e cômicos desfiles "da raça" ― Não, meu engano (feliz memória que tão cedo esquece!), meu engano: os "da raça" mal agouravam outra data, o nosso amado 7 de setembro. No 1º de maio o que havia eram as concentrações no estádio do Vasco (ainda não existia o Maracanã e o nosso heroico Vasco tinha então que servir); e a pelegada agitava faixas e pendões, e os trens circulavam grátis, e os trabalhadores arrebanhados para a "espontânea" tinham o dia de serviço pago, para ajudarem no vivório. Vivório esse que nem sempre havia e quando havia não era tão vibrante quanto o ampliavam os microfones oficiais.

Hoje tudo mudou, parece. E o imenso Maracanã fica mudo, pois tem medo que ele ecoe com o som errado, benza-o Deus.

E, assim, de tal modo comunistas e fascistas estragaram a data dos trabalhadores, que o melhor é que eles escolham outro dia, limpo de más lembranças. E volte o mês de maio às suas funções líricas de mês das flores e das noivas, de mês de Nossa Senhora.

Resuma-se às recordações que trazemos todos da infância ― quem não tem na sua saudade algum remoto mês de maio, com coroação e novenas ― um mês de maio como os recordo na Matriz da Conceição, em Guaramiranga? As moças vestidas de branco, o rosto corado do ar frio da serra, de pé ao alto do coro, respondendo à ladainha e cantando o Magnificat.

Mês de maio, mês da desobriga no sertão: já há milho e feijão novo, muito queijo, coalhada e doce de leite para oferecer a seu vigário que vem para fazer a festa. Mês dos casamentos ― tantos casamentos que são feitos por atacado: quinze, vinte pares alinhados em semicírculo em redor do altar, cada par com os seus dois casais de padrinhos atrás de si. E o padre diz a reza do casamento toda de uma vez só e faz a prédica de uma só vez também: contudo, na hora do "recebo a vós", pergunta de um se leva a gosto, e vai reunindo as mãos dos noivos entre as dobras da estola. E enquanto o primeiro é inquirido e abençoado, os outros pares suam, e se inquietam, e dançam ao aperto dos sapatos novos. Houve um ano em que se deu um caso de desmaio de noiva, e outro ano ainda pior: desistência de noivo, só por causa do nervoso, da tensão da demora: sendo o último da fila, o pobre teve mais de tempo de pensar, diziam os engraçados.

E depois que o vigário com um suspiro despede o último par, os sinos repicam e os cortejos se espalham, quem mora perto sai a pé, quem mora longe parte a cavalo, com sua dama na garupa.

Todavia, o pobre do padre nem aí tem descanso; porque depois começa a roda dos batizados ― que são o resultado dos casamentos do mês de maio do ano anterior.

Rachel de Queiroz. O Cruzeiro, 1/05/1054

Brasil da cova coletiva


E daí, Presidente Morte?

Quando ouvi o presidente exclamar “E daí?” diante das mortes provocadas pelo covid 19, tive ânsia de vômito. Em seguida, pensei: é um monstro. Um homem sem aquilo que minha mãe chamava de misericórdia. Na mesma hora, me veio a ordem do governador geral da Polônia, em janeiro de 1942, pouco antes da reunião em Wannsee, Berlim, que determinou a aceleração da Solução Final (nem Bolso nem o chancelar Arruda acreditam nela), destinada a exterminar todos os judeus, todos os inimigos do nazismo. O resultado, 6 milhões de mortos em fornos crematórios, fuzilamentos, e tudo o mais.

Sabemos hoje alguns nomes daqueles que comandaram a operação. Inesquecíveis Himmler, Heydrich, Adolf Eichmann e Josef Mengele, este chamado de o Doutor Morte, pela frieza com que executou as mais perversas “pesquisas” em nome da ciência.

E dai? Daí que me veio acachapante sensação, que não foi de repulsa ante a frieza e a indiferença com os milhões de habitantes do Brasil. Não foi de raiva, nem de ódio. Foi de uma tristeza imensa diante de tal desumanidade e desrespeito à dor alheia, à dor de uma nação. Não significamos nada para este senhor Jair. Ele tem por nós desdém, desprezo, desapego, desinteresse. Acima de tudo, desamor. Fiquei deprimido. Não sou ninguém, minha família nada é, meus amigos nada são, nenhum brasileiro tem qualquer significado, nenhum ser humano tem direito à vida. Nosso presidente não liga um pingo para nós, para nossas existências. Nem pelas vidas daqueles que votaram nele. Porque, se as mortes continuarem nessa progressão, onde vão parar? Se é que vão.
Expressão tão sórdida, me provocou sensação de asco. No mesmo momento, tive um retorno, memória afetiva (afetiva não é bem o termo aqui), que me fez mal, acabrunhou-me. Reação igual de mal estar tive em 1987, quando, em Berlim, como um dos convidados do DAAD para os 750 anos da cidade, decidi percorrer uma exposição chamada Topografia do Terror.

Em determinado espaço da cidade, estavam alguns edifícios que lembravam a zona do terror nazista, a Gestapo, a SS, a Direção de Segurança do Terceiro Reich. Um espaço relativamente (hoje é um memorial) pequeno onde se reunia a mortífera concentração de poder e terror do nazismo, a Prinz-Albecht-Strasse (hoje Niederkirchenstrasse), a Wilhelmstrasse e a Anhalterstrasse. Dali, emanavam as ordens de morte, horror, torturas, prisões, assassinatos, lugar que faria a delícia do famigerado Ustra, ícone do Messias. Dali, saíam as ordens que levaram milhões e milhões de judeus, ciganos, homossexuais, inimigos políticos para a morte em campos de concentração. Esse horror é conhecido.

Havia também o prédio, o Tiergarten 4, onde se procedia o Projeto T4 para Eutanásias, ou seja a eliminação de loucos, deficientes físicos, seres inúteis, tuberculosos, não convenientes a raça ariana. Como os idosos hoje, aqui. Quem estudou a história, há de se lembrar da Hans Frank e sua frase célebre. Em reunião na mansão de Wannseee, lago ameno na periferia de Berlim, em janeiro de 1942, quando se acertaram os ponteiros para a Solução Final, ou seja a morte de todos os judeus, Frank acentuou: “Cavalheiros, devo lhes pedir que se armem contra quaisquer sentimentos de compaixão”. Havia então, na Polônia, 3,5 milhões de judeus. Frank disse: “Não podemos atirar nesses 3,5 milhões, não podemos envenená-los, mas devemos ser capazes de tomar medidas que, de alguma forma, levem ao sucesso no extermínio absoluto”.

Assim, a morte de seis milhões de pessoas foi executada sem compaixão. Neste momento, no Brasil, enquanto hostes humanas – milhares e milhares de médicos, enfermeiros e voluntários – lutam, arriscando a própria vida, para defender a vida, o presidente, condena o isolamento e diz: “E daí?” “É humano esse homem? É isso um homem?”, como perguntou Primo Levi, em um de seus livros mais pungentes. E dai? Daí que nem eu, nem mais de 210 milhões de brasileiros queremos morrer de covid 19. Se sobrevivermos, vamos nos lembrar sempre de você, Jair, como o Presidente Morte.

Teich, a voz do dono que é o dono da voz

Uma vez que o presidente Jair Bolsonaro o proibiu de recomendar aos brasileiros que fiquem em casa e respeitem as medidas de restrição social baixadas por governadores e prefeitos, o ministro da Saúde, o médico e empresário Nelson Teich, saiu-se com esta:

– Ninguém está pensando em relaxar o isolamento, a gente está criando uma diretriz.

Teich observou que a diretriz não é equivalente a uma orientação ou recomendação, longe disso. É algo a ser avaliado pela população sem a interferência das autoridades. Uma espécie de terceira instância da Justiça, digamos assim.

O ministro esmerou-se mais uma vez em ser palavroso e vago como de hábito para escapar de encrencas com Bolsonaro e com os militares alocados no ministério para vigiá-lo de perto:

– As pessoas vão ter que pensar em todas as variáveis e pontos que vão ser pensados para que alguma política possa ser desenhada em algum ponto no futuro e ter uma segurança necessária. Se liberar uma diretriz dessa soar como orientação ou recomendação isso seria muito ruim, o que não é o caso.

Em resumo: o governo se omite de orientar ou recomendar qualquer coisa aos brasileiros sobre como combater o coronavírus. Cada um é cada um. Cada um proceda como preferir. Não é assim no resto do mundo, mas no país onde Bolsonaro manda é assim.

E não será Teich, sem intimidade com o aparelho público de saúde, preocupado em não se indispor com quem possa atrapalhar seus futuros negócios no ramo da medicina, não será ele que dirá faça isso, não faça aquilo. Ele é a voz do dono, que se sabe quem é.

Lorota oficializada

Quem tiver prazo para retomada joga na loteria
Fábio Coelho, presidente do Google

Sem bússola no olho do furacão

Hoje é dia do trabalho e só se viu até agora a ponta do iceberg do que poderá vir a ser o desemprego no Brasil. O país navega sem qualquer visibilidade no meio de uma tempestade. O mercado de trabalho já está em forte deterioração, e a economia corre o risco concreto de ficar sem indicadores para orientar as políticas públicas em qualquer área. O Caged não está sendo divulgado desde dezembro, e o IBGE dificilmente conseguirá trazer o retrato do desemprego ou dos outros índices econômicos.

A ex-presidente do IBGE Wasmália Bivar acha que a direção do Instituto deveria estar se mobilizando, falando com a sociedade brasileira para superar o impasse que se formou:

– É preciso ir ao Supremo, Congresso, trazer a OAB, fazer seminário virtual, falar com a imprensa, enfim, explicar a todos a necessidade de ter acesso a dados que permitam ao IBGE construir uma nova forma de trabalho.

A pandemia fez com que, em todo o mundo, houvesse a suspensão das pesquisas domiciliares. Wasmália acha que o IBGE está corretíssimo em ter também suspendido para proteger as famílias e a equipe de trabalho. O problema é que em seguida o governo baixou a MP determinando que o instituto tivesse acesso aos dados individuais que teriam que ser fornecidos pelas companhias telefônicas. Por ser uma MP, e pela maneira como foi feita, produziu uma onda de reação. Partidos diferentes, a OAB e outras instituições procuraram o STF, e a ministra Rosa Weber suspendeu o repasse de dados das telefônicas.

– A questão toda foi a forma, uma MP, e que ainda deixou muitas lacunas porque não mostra direito a necessidade dos dados. Era preciso ser explicado para que fosse entendido por todos os usuários do IBGE. Uma MP pedindo acesso a informações individualizadas de todos os brasileiros, de todas empresas, provocou uma reação compreensível, mas era possível ser explicado. O que me surpreende é que vejo os dias passarem e nada ser feito – alerta Wasmália.

Ontem o IBGE divulgou que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em março ficou em 12,2%, um aumento de 1,2 milhão de pessoas desempregadas em relação ao trimestre terminado em dezembro. Todo mundo sabia que aumentaria, mas o fato é que houve uma queda em relação ao ano passado. Alguém acha que em março de 2019 o país estava pior? No meio do mês já havia muita paralisação, e a última semana de coleta já teve que ser feita via telefone.
O dado deve estar subestimado, de acordo com o economista Cosmo Donato, da LCA Consultores.

– A redução da população ocupada foi muito mais forte do que o esperado. Com as medidas de isolamento as pessoas ficaram em casa e pararam de procurar emprego. Dessa forma saíram da estatística de desemprego, mascarando o número – explicou.

Os dados mostram o aumento de 1,2 milhão de desempregados na comparação com o último trimestre, e ao mesmo tempo uma queda de 2,3 milhões na população ocupada.

Segundo Donato, o desemprego teria saltado para 13,2% caso a força de trabalho tivesse mantido o mesmo ritmo de crescimento anterior. A falta de indicadores confiáveis será um dos grandes problemas nesta crise. A Pnad é uma pesquisa feita por amostra de domicílio e dificilmente conseguirá ser feita por telefone. O repórter Bruno Villas Boas, do jornal “Valor Econômico”, escreveu sobre isso esta semana.

– As pesquisas do IBGE como um todo, não só as domiciliares, porque as empresas também estão fechadas, não dá para fazer pesquisa de comércio com tudo fechado. O mundo inteiro enfrenta o problema, mas os países buscaram alternativas, e a maioria tem registros administrativos que nós não temos – disse Wasmália Bivar.

O outro termômetro do mercado de trabalho é o Caged, que mede o mercado formal. Mas o indicador não é divulgado desde dezembro. O governo fez uma mudança de método de envio dos formulários, que passou a ser eletrônico, mas as empresas não aderiram a tempo. Com isso, os dados de janeiro e fevereiro foram postergados. Em março, veio a crise do coronavírus, e, com o trabalho remoto, as informações também não foram encaminhadas ao Ministério da Economia.

No meio de uma crise econômica da proporção da que estamos vivendo, o pior que pode acontecer é não ter indicadores. É como navegar sem bússola no meio de uma tempestade.

Pergunte ao coronavírus

Num momento de ansiedade e incertezas, multiplicam-se as previsões e os cenários sobre o mundo pós-pandemia. Mas todos esses cenários, creio, dependem da evolução da mesma variável que nos pôs nesta situação tão difícil: o coronavírus.

Uma das minhas referências nas previsões sobre o coronavírus é Bill Gates. Ele dedica parte de sua fortuna ao financiamento de projetos de saúde pública. Precisa ser bem informado, no mínimo, para não jogar dinheiro fora. Em curto artigo sobre as perspectivas, Gates acha que uma vacina eficaz contra o coronavírus estará pronta até 2021. Os caminhos da pesquisa indicam duas direções. Uma delas é a vacina tradicional, que utiliza um vírus desativado. A outra, aproveitando os avanços da genética, poderia informar as células para que bloqueiem o vírus.

Existe uma possibilidade mais rápida, anunciada pelos cientistas de Oxford no jornal The New York Times. Eles acham que conseguem lançar sua vacina ainda em setembro de 2020. Fizeram experiências com seis macacos e foram bem-sucedidos. Pretendem agora experimentá-la em 5 mil pessoas e obter a licença.

Nesse cenário, o mais otimista possível, até o final do ano já estaria em circulação uma vacina eficaz contra o coronavírus. Além de algumas centenas de milhares de mortes, apenas o ano de 2020 estaria perdido.

Outra variável que Gates aborda é a dos remédios. Ele considera ter havido um subinvestimento em pesquisas de remédios antivirais, comparadas com os antibacterianos. Acho que vai se mover nesse campo. Não existe hoje uma bala de prata. Como não existiu na luta contra o HIV-aids, para o qual, finalmente, se chegou a um coquetel de drogas.


Talvez as coisas sejam mais promissoras no campo dos testes. A tendência é que evoluam, possam ser vendidos com mais facilidade e ser usados em casa. Como já o são alguns outros testes, como o de gravidez.

Gates acha que, assim como depois de 1945 foi necessário criar uma instituição internacional para garantir a paz, será também necessária uma organização internacional para combater as pandemias, novos vírus que podem vir tanto de morcegos como de pássaros. Esse desdobramento internacional não é fácil. Uma declaração da ONU de cooperação em torno de vacinas, remédios e testes não foi apoiada por EUA, Brasil e mais 12 países.

Imagino que uma das razões da reserva norte-americana seja o direito de exploração conferido pelas patentes. Suas grandes empresas investem milhões de dólares em pesquisas e, naturalmente, querem receber esse investimento de volta, com os devidos lucros.

Esse foi um grande debate travado também no período da aids, quando se questionou o respeito às patentes numa situação excepcional. O Brasil tinha razões para questionar. Adotou uma lei que garantia o coquetel gratuito aos portadores de HIV e isso custava caro ao País. O ministro da Saúde na época era o hoje senador José Serra. Ele defendeu o que me parece ter sido a posição correta de acordo com o interesse nacional.

Hoje, em plena pandemia de coronavírus e diante de outras que podem vir, o Brasil se distancia da ideia de cooperação internacional para se alinhar com os EUA, que têm interesses bem específicos. A julgar pela posição do chanceler Ernesto Araújo, estamos diante de um “comunavírus”, que tende a acentuar a influência internacional sobre os países, reduzindo sua autonomia.

É um raciocínio que se assemelha às posições do Brasil sobre o esforço internacional para atenuar os efeitos do aquecimento planetário. Assim como é difícil, hoje, prever uma nova situação sem levar em conta a trajetória da covid-19, será muito difícil também excluir a variável ambiental de qualquer cenário futuro.

Ao contrário de países como a Nova Zelândia e a Austrália, o Brasil politizou o vírus. Eles foram bem-sucedidos, assim como, de certa forma, Portugal, onde governo e oposição se uniram diante do inimigo comum.

Num dos primeiros artigos que escrevi sobre o vírus, quando ele estava circunscrito a Wuhan, na China, afirmei que para combatê-lo seria necessária uma visão nacional e solidária. Não foi isso o que aconteceu. Assim como pesou para as civilizações antigas na América ter uma visão mítica sobre os invasores, ou deve pesar no Haiti encarar com o vodu os grandes desastres naturais, o Brasil mergulhou na cegueira ideológica.

Durante muito tempo, discutiu-se se era um vírus comunista destinado a enfraquecer o governo. Da mesma forma, discutiu-se se a cloroquina era ou não um remédio de direita.

O vírus é apenas uma proteína envolvida numa capa de gordura. E a cloroquina, uma substância química usada contra malária e outras doenças.

Portanto, quando se escrever a história dessa peste no Brasil, não se pode apenas culpá-la pelos estragos que fez. O governo digeriu mal a tese da imunização pelo amplo contágio e refugiou-se nela na esperança de tocar a economia.

Se continuar se comportando com o meio ambiente com a mesma cegueira ideológica com que encara o coronavírus, os cenários do futuro, não importa quão sofisticado for o seu desenho, terão de contar com o pano de fundo de uma terra arrasada.

'Salve, lindo pendão da esperança ...'