quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Por ora, o risco maior é o 'Viabra', vírus da incompetência aguda brasileira

O coronavírus pode diminuir de um quinto a um terço do crescimento da China neste trimestre, a gente lê por aí em relatórios financeiros e em textos de consultorias. É uma diferença brutal de estimativa (rir, rir, rir), ainda mais para um PIB grande como o chinês, equivalente a um sexto da economia mundial.

A tolice não para por aí, embora a doença seja séria e possa matar milhares de pessoas. Por ora, no entanto, a gente corre mais risco com o Viabra (“Vírus da Incompetência Aguda Brasileira”), que infecta evidentemente o INSS ou a Educação, para ficar só em dois exemplos, mas pode infectar até a medula da política econômica.

A gente não tem informação confiável nem sobre a doença, que dirá de seus efeitos na economia da China ou do mundo. Não se sabe bem o número de casos chineses, com o que não se conhece a velocidade de expansão da infecção nem quão letal é.


Cientistas de Hong Kong criticam os números da China (pode haver mais infecções). Há dúvidas sobre qualquer contagem porque, afora a confusão que esses surtos provocam, duvida-se que ora existam profissionais e testes em quantidade suficiente para fazer exames.

O coronavírus vai ter efeito pior do que seu primo que causava a Sars (síndrome respiratória aguda grave), epidemia de 2002-2003? Pelo que se tem registro, a Sars matou cerca de 800 pessoas e infectou umas 8 mil, de novembro de 2002 a julho de 2003. Uns estudos do efeito econômico da doença dizem que a epidemia tirou cerca de um décimo do crescimento do PIB chinês, que corria então ao ritmo de 10% ao ano. Além de Hong Kong e Singapura, no restante do mundo, o efeito foi na prática irrelevante, afora para os mortos, suas famílias e seus amigos.

Isto posto, o vírus parece bastante agressivo, escreve gente que estuda o assunto, em revistas científicas. Um baque significativo na economia chinesa pode ter efeitos diretos no Brasil (preços de minério e petróleo) e indiretos. Até a semana passada, o FMI e bancões pareciam animadinhos com alguma retomada da economia mundial. Para o FMI, o crescimento global passaria dos 2,9% estimados para 2019 para 3,3% neste 2020. Se houver desgraça maior na China, não vai rolar.

Enquanto seu vírus não vem, o nosso principal problema somos nós mesmos e o Viabra, o vírus da incompetência. Além de gente desclassificada, há gente desqualificada em postos-chave do governo.

Desgraçar a vida de gente na fila do INSS ou infernizar vestibulandos do Enem, no curto prazo nem causa danos econômicos, pode-se congratular barbaramente o governo. Mas o Viabra está espalhado pela administração federal, um risco enorme para a economia, doente grave que convalesce devagar. Nesse ano, seria preciso haver outra rodada de redução duradoura de gasto, um programa de obras na rua e algum conserto tributário, pelo menos. Se nem ao menos o pacotão rudimentar e antissocial de ajuste econômico for adiante, o caldo azeda.

Exagero? Note como o Ministério da Economia diz “a” e Jair Bolsonaro diz “não a” ou “b” sobre tantos assuntos. O governo cria crises políticas do puro ar, do nada. A maioria delas tem sido espuma tóxica, daninha, mas que se dissipa.

E quando não for? Esperar que Rodrigo Maia governe o grosso da economia com uns economistas de Bolsonaro e controle suas atrocidades maiores pode até ser uma expectativa razoável, mas o mero fato de que as coisas tenham funcionado assim, e olhe lá, não diz boa coisa sobre o nosso arranjo.

Notória negligência

A responsabilidade quando temos perdas de vidas humanas é da negligência do poder público que não soube ouvir o que os cientistas estão alertando há muito tempo e tomar medidas
Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima
 

Recorde de mortes por policiais e a queda de homicidios no Rio são fenômenos desconectados

A letalidade policial bateu um novo recorde no Rio de Janeiro em 2019, enquanto a criminalidade teve uma queda histórica no Estado, tendência que se estende ao resto do Brasil, um dos países mais violentos do mundo. Segundo dados oficiais do Governo fluminense, 1.810 pessoas morreram em intervenções policiais no ano passado, a cifra mais alta em duas décadas. Os 3.995 homicídios registrados, por outro lado, representam um resultado histórico, o menor desde 1991. Embora os políticos partidários da linha dura com a criminalidade apontem para a eficácia dessa posição, numerosos especialistas brasileiros em segurança pública advertem que os dois fenômenos não estão vinculados.

Ao conhecer o balanço anual da violência, o governador de Rio, Wilson Witzel, tuitou na semana passada: “Nossa política de segurança vem gerando resultados positivos mês após mês”. Quando fazia campanha para o cargo que ocupa há pouco mais de um ano, o mesmo Witzel prometeu: “A polícia vai mirar na cabecinha e... fogo” contra os suspeitos armados com fuzis. Em seus tuítes, o governador, que foi juiz e militar, enumerou as estatísticas, que também refletem notáveis quedas nos latrocínios e apreensões de armas. Mas Pablo Nunes, especialista da Rede de Observatórios da Segurança, explica que “é improvável que as variações nas taxas de homicídios e mortes por policiais estejam relacionadas. Quando analisamos os bairros e cidades do Estado do Rio, na maioria dos casos onde as mortes por policiais aumentaram, os homicídios também aumentaram ou se estabilizaram, e vice-versa”.

Ilona Szabó, especialista em segurança pública, adverte de que “às vezes as reduções da criminalidade são utilizadas para legitimar o abuso da força. A relação, entretanto, é falsa”, escreve nesta quarta-feira na Folha de S.Paulo. Daniel Cerqueira, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, concorda: “Essa retórica do governador é falsa. Estatisticamente não vemos relação”. O especialista acrescenta que, em todo caso, “a violência policial estimula a violência em geral”.


A queda dos homicídios no decorrer de 2019, que foi também o primeiro ano de mandato presidencial do ex-militar Jair Bolsonaro, estende-se pelo Brasil inteiro. É um dos dados que o ultradireitista mais alardeia e que influi no recente aumento de sua popularidade neste país que está há anos entre os mais violentos do mundo, excetuando as nações em guerras. A especialista Szabó alerta que existem “líderes que estão reduzindo problemas complexos a discussões binárias e reforçando a violência como solução”. Justamente nesta quarta-feira, o Governo autorizou que os donos de armas legais possam comprar quatro vezes mais munição por ano do que antes.

Os tiroteios são tão frequentes no Rio que quatro crianças foram alcançadas por balas perdidas desde o início de 2020. A última delas, de cinco anos, assistia a um jogo de futebol amador. Uma bala atingiu o menino nesta segunda-feira na cabeça depois de perfurar a mão de seu pai, que tentava protegê-lo da troca de tiros entre policiais e bandidos. O garoto sobreviveu, mas está em estado muito grave.

O Rio de Janeiro ―Estado onde vivem 17 milhões de brasileiros― se destaca em nível nacional e internacional pelo tanto que sua polícia mata. Para que se tenha uma ideia, as 1.810 pessoas mortas por disparos de agentes em 2019 representam mais do que o dobro das 800 vítimas assassinadas pela organização terrorista ETA na Espanha durante quatro décadas, ou metade das mortes no conflito da Irlanda do Norte. O assunto alcançou tal magnitude que a ONU expressou sua preocupação em setembro passado. E também tem seu reflexo na cultura popular. A telenovela mais vista da atualidade no Brasil, Amor de Mãe, tem entre seus vilões um policial corrupto que mata um policial honesto.

Na comparação nacional, as forças de segurança do Rio também se destacam, como indica a comparação com São Paulo. A taxa de mortes cometidas pela polícia fluminense supera a soma de homicídios perpetrados por bandidos e policiais em São Paulo, segundo a Folha. Um dos fatores que explica essa diferença é que o grupo criminoso mais poderoso de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), proíbe matar sem autorização no território que domina.

É muito pouco provável que um policial seja denunciado no Brasil por abater um suspeito, muito menos julgado ou condenado. Nem um só agente do Rio foi levado à Justiça em 2019, segundo uma investigação da revista Época, que analisou os casos dos 195 mortos pela polícia em julho, o mês mais letal. Revela que foram abertos 151 inquéritos, que 11 casos foram arquivados, e que não foram encontradas informações sobre outros 19. A revista descobriu que os boletins de ocorrência revelavam um padrão: incursões em favelas de patrulhas compostas por dois a seis policiais com fuzis para reprimir o tráfico de drogas; são atacados, respondem, fazem buscas no local, localizam a vítima e a levam ao hospital. Ressalta a Época que em 60% dos casos os agentes não retornaram ao local dos fatos para investigar. A imensa maioria das vítimas da violência policial é composta por homens negros, pobres e moradores de favelas.

O professor Cerqueira salienta que as mortes violentas vêm diminuindo no Rio do Janeiro desde 2003, com a única exceção do biênio 2016-2017, quando se registrou uma alta coincidindo com a crise socioeconômica generalizada na cidade depois das Olimpíadas do Rio.

A estagnação brasileira

Um olhar sobre a trajetória da economia brasileira nas últimas quatro décadas, quando o ritmo de crescimento caiu para um patamar bem inferior ao registrado nas décadas anteriores, mostra que, muito provavelmente, o país ainda não acabou de desmontar o modelo de desenvolvimento que faliu em 1982. Naquele ano, por causa da elevação da taxa de juros nos Estados Unidos a inacreditáveis 20% ao ano, países em desenvolvimento, como o Brasil, que se endividaram na década de 1970 simplesmente quebraram.

Em vez de reconhecer o fato de que, dali em diante, o modelo de Estado-empresário e de substituição de importações não teria mais como ser mantido por causa da enorme e abrupta restrição fiscal e creditícia surgida em 1982, os governantes optaram, nos anos seguintes, principalmente durante o governo Sarney (1985-1990), por insistir na salvação do que não tinha mais como dar certo.


A extensão do modelo de forte intervenção do Estado na economia e de fechamento comercial criou dificuldades que visivelmente até hoje impedem o país de voltar a crescer de acordo com seu potencial histórico. A insistência, ademais, permitiu que os setores da sociedade beneficiados por aquele regime econômico - a burocracia estatal e a indústria - se organizassem e reagissem a mudanças. A fatura do atraso - a escalada permanente dos preços a níveis crônicos e depois hiperinflacionários - foi paga por todos, mas especialmente pelos pobres, de quem o chamado “imposto inflacionário” mais retira renda.

Crises econômicas costumam ser semeadas durante períodos de bonança, quando cidadãos e empresas perdem a noção do risco ao acreditar que o ciclo econômico em que estão jamais acabará. A explosão do preço do petróleo no início da década de 1970 elevou a níveis impensáveis a liquidez mundial. A derrama de “petrodólares” derrubou fortemente as taxas de juros cobradas pelos bancos internacionais. Ato contínuo, essas instituições ofereceram crédito a um custo muito baixo a países como o Brasil, que, sendo estruturalmente uma economia importadora de capitais, foi à banca buscar esses recursos.

O país terminara a década de 1960 com dívida externa em torno de US$ 6 bilhões. Dez anos depois, graças ao funding dos “petrodólares”, essa dívida saltou para algo próximo de US$ 100 bilhões. O Brasil precisava desse dinheiro? Não se tenha dúvida. Foi isso que permitiu promover um ambicioso investimento em infraestrutura, absolutamente necessário para uma economia que, naquele momento, crescia acima de 10% ao ano, o ritmo mais veloz do planeta.

Com o dinheiro da dívida externa, o país criou um sistema elétrico integrado nacionalmente, expandiu fortemente a capacidade geradora de energia, implantou um sistema de telefonia federal razoavelmente moderno, construiu rodovias federais cortando praticamente todo o território, inspiradas no modelo americano, ampliou aeroportos, ferrovias etc. A crença de que a dívida seria honrada se baseava na percepção, correta, de que, como a economia avançava num ritmo veloz, não faltariam receitas para pagar os débitos.

O problema é que as taxas de juros, embora baixas, eram flutuantes. Como a segunda crise do petróleo, em 1979, provocou nova escalada nos preços dos combustíveis, a inflação americana assanhou-se, chegando a atingir mais de 20% A reação do Federal Reserve (Fed) foi a que se espera de um banco central independente: elevar a taxa de juros para conter a demanda e, consequentemente, os preços. A pancada no custo do dinheiro bateu nos juros flutuantes das dívidas dos países do chamado Terceiro Mundo e então a quebradeira foi generalizada.

Na reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), o “pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos” - na célebre frase de um de seus ex-presidentes, Porfirio Díaz - foi o primeiro a se declarar incapaz de honrar os vencimentos das dívidas contraídas na década anterior. Na sequência, outras economias fizeram o mesmo, generalizando o calote e iniciando um período terrível de nossa história econômica, marcado pela falta de acesso a poupança externa para financiar nosso desenvolvimento.

Os calotes se sucederam, o país foi obrigado a promover maxidesvalorizações de sua moeda frente ao dólar para elevar a competitividade das exportações e, assim, gerar saldos positivos na balança comercial, suficientes para pagar os vencimentos da dívida externa. Numa decisão drástica, o Banco Central centralizou o câmbio - basicamente, passou a definir a quem pagaria a dívida lá fora, uma vez que não havia divisas para pagar a todos.

As consequências vieram em forma de mais inflação, arrocho salarial, imprevisibilidade dos principais indicadores econômicos, enfim, uma situação que apenas os brasileiros com mais de 40 anos hoje viveram na pele. E, a partir dali, sem acesso a poupança externa e com inflação fora de controle, a taxa média de crescimento caiu a níveis nunca vistos nas três décadas anteriores.

Olhemos os números: da primeira década do século XX até a década de 1970, o Brasil cresceu a uma taxa média anual de 4,6%; de 1971 a 1980, esse ritmo saltou para 8,8%; na década de 1980, a taxa média de expansão recuou para 3%; na década de 1990, caiu para 1,8%; nos primeiros dez anos deste século, aumentou para 3,4% ao ano; na última década, a década perdida do novo século, o crescimento anual médio da economia brasileira foi de apenas 1,4%, a menor das 12 décadas desde 1900.

“Muita gente continua falando da recessão que acabou, mas alguns ignoram que estamos ainda numa depressão e, mais ainda, que estamos numa estagnação que acaba de completar quatro décadas”, diz o economista Roberto Macedo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. “Essa grave estagnação não vem sendo pautada pela mídia e tampouco está na pauta dos políticos. Meu objetivo é fazer com que cresça a percepção dessa tragédia, com a esperança de que venham ações para saná-la. É humilhante o fato de que a década passada foi a de pior desempenho do PIB desde 1901.”

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Defeitos de fabricação do governo Bolsonaro são cada vez mais evidentes

Ao anunciar a saída do chefe do INSS, o governo disse esperar "que não haja descontinuidade" nas atividades do setor. Seria um sinal de autoconfiança se não fosse a fila de 1,3 milhão de pedidos de aposentadoria encalhados no órgão. A equipe de Jair Bolsonaro age como se pudesse trocar uma peça e deixar o calhambeque rodando ladeira abaixo.

Os burocratas alegam que uma falha no sistema da Previdência acabou represando a concessão de benefícios. É mais honesto afirmar que esse é mais um dos defeitos de fabricação deste governo. A falta de planejamento, comunicação e articulação já foi vendida como item de série.


O governo tratou a reforma das aposentadorias como prioridade, mas não preparou as agências do INSS para a aplicação das novas regras. Encomendou planos megalomaníacos para dar nova cara ao Bolsa Família enquanto deixava cidadãos miseráveis na fila de espera. Bateu bumbo para a realização do Enem, mas não conseguiu garantir uma correção precisa de todas as provas.

Dez dias depois de admitir falhas no exame, o Ministério da Educação ainda não convenceu os estudantes de que os erros foram reparados. Nem o presidente foi capaz de dar um voto de confiança total ao chefe da pasta. Bolsonaro não quis responsabilizar o boquirroto Abraham Weintraub, mas emendou que ele continua no cargo "por enquanto".

Com tanta desordem, ineficiência e falta de controle, não é surpresa que tantos integrantes do governo pareçam estar pendurados por um fio —de um secretário de Comunicação em flagrante conflito de interesses ao presidente do BNDES.

Foi o presidente, aliás, quem reafirmou as dúvidas sobre um contrato de auditoria ampliado pela cúpula do banco. "Parece que alguém quis raspar o tacho", disse, chamando o chefe da instituição de "o garoto lá".

Bolsonaro talvez tenha passado a reconhecer os problemas do governo depois de alguma revelação espiritual durante sua viagem à Índia. Algumas coisas simplesmente não têm como dar certo.

Brasil muy amigo


Ares, água e lugares

Florestas queimadas, contaminação da água e pessoas dormindo debaixo de marquises causam doenças que podem ser prevenidas. Desde o século V a.C., os escritos hipocráticos distinguiram ciência de religião e admitiram possibilidades de evitar elementos ambientais nocivos. O prognóstico, uma das principais conquistas da tradição hipocrática, baseia-se na compreensão dos encadeamentos e rupturas entre passado, presente e futuro, que também fundamentam os ideais da Pólis sem tirania. Uma compreensão abrangente da saúde permitiu prever, predizer e buscar alterar desfechos negativos.

Séculos depois, a experiência com a péssima qualidade da água no Rio de Janeiro dispensa o debate grego sobre as causas naturais ou religiosas das patologias. Qualquer pessoa de bom senso intui que as características predatórias das relações humanas e o extrativismo voraz dos recursos da natureza são responsáveis pela piora das condições de vida.


Água potável é um requisito para vida e fator-chave para a saúde. As crianças são particularmente vulneráveis aos efeitos da água insegura. Diarreias e exposição a poluentes inorgânicos, como arsênico, cobre, fluoreto, chumbo e nitrato, podem comprometer o desenvolvimento infantil. Existe algum consenso sobre o diagnóstico. O desafio é passar da constatação sobre o meio ambiente malsão e acusações entre governantes para o prognóstico. O que ocorrerá, caso essas tendências não sejam alteradas? Quais são as melhores estratégias para evitar mais danos à saúde? A geosmina tem mau cheiro, mas a causa da proliferação deste composto orgânico produzido por bactérias é a morte de rios pelo manejo inadequado de dejetos. Saber a origem do fedor da água e que o carvão ativado o atenua é importante, porém insuficiente para influenciar um prognóstico favorável sobre o acesso à água potável de boa qualidade.

Pesquisadores afirmam que a melhor solução seria a despoluição dos rios. Mas o governo estadual atacou, como se fosse um grande feito, apenas um dos sintomas do problema. Decidiu importar equipamento de São Paulo e carvão do Paraná para fornecer água inodora e anunciou a proposta de desviar o curso de rios. Não haverá mudança nos padrões de desigualdade do acesso à água e saneamento e na introdução de substâncias e resíduos em aquíferos, que tornam grandes quantidades de água inadequadas para vários usos.

Seria como se nos contentássemos em saber que o coronavírus do surto de Wuhan é novo e diferente do que causa SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), e não houvesse preocupação com a letalidade, velocidade de contágio, espalhamento dos novos casos e com as estratégias globais de prevenção e tratamento. Quando a atenção se desloca da população sob risco para os patógenos, para os microrganismos, o prognóstico é deixado para segundo plano.

Outra rota de fuga de soluções mais efetivas para os problemas ambientais se expressa na confusão entre fatos e valores. A água é considerada por instituições internacionais de distintos matizes ideológicos como um bem comum; deveria, portanto, ter uma distribuição equânime. Houve melhoria do acesso à água no Brasil e estagnação dos serviços básicos de saneamento. Sob a discussão sempre válida, a respeito da estatização ou privatização das empresas estaduais de água e saneamento, cresce a hiper apropriação privativa da água. O fato é que a água é comercializada por caminhões-pipa e empresas que a engarrafam.

O afastamento de atitudes hipocráticas, especialmente omissão de prognósticos, estimula previsões simplificadoras. As considerações sobre as mudanças dos fatores que determinam os problemas ao longo do tempo e seus resultados dinâmicos requerem o compartilhamento de informações preditivas e reavaliações periódicas. O famoso tratado hipocrático “Ares, águas e lugares” continua atual porque estimula a adoção de processos decisórios coletivos e democráticos e questiona a conversão da abundância de recursos naturais em escassez e doenças.

Sabotagem

O ano de 2020 na Educação começou marcado por uma palavra trazida à moda pelo ministro da pasta: balbúrdia. Confusão na correção do Enem e, consequentemente, na divulgação do resultado do Sisu, o sistema unificado que usa as notas do exame para direcionar os alunos para as universidades.

Ontem, com liminar concedida pelo Superior Tribunal de Justiça, estudantes conseguiram ter acesso aos resultados, mas muitas dúvidas ainda pairavam quanto aos critérios de atribuição das notas e escolha de vagas.

Diante de evidente falha técnica e administrativa do MEC, Jair Bolsonaro optou pela sua saída padrão quando as coisas vão mal por ineficiência dos assessores que ele considera leais, ideologicamente alinhados e suficientemente lacradores nas redes sociais: apontou sabotagem, provavelmente da esquerda infiltrada na pasta.

Isso, claro, sem ter qualquer dado ou evidência – uma sindicância, uma auditoria, alguma denúncia em canais oficiais – de que tenha havido algo do gênero. Diversionismo para enganar aquele exército bovino das redes sociais sempre disposto a amparar qualquer absurdo que venha do governo.


Acontece que numa pasta que lida com estatísticas, como a Educação, o sedimento formado pelo aparelhamento ideológico, pela inépcia administrativa e pelo desprezo à ciência vai deixar marcas que ficarão associadas ao governo Bolsonaro para a História. E neste caso não será possível apontar um complô alienígena para culpar.

Enquanto tudo isso acontecia em seu quintal, o ministro Abraham Weintraub ocupava os últimos dias com mais postagens nas redes sociais divulgando fake news contra jornalistas ou brandindo um vidro de água sanitária numa receita caseira para aplacar o suposto mau hálito de outro. Sim, isso mesmo. Dentro do gabinete do MEC. Está no Twitter, com orgulho indisfarçado da própria capacidade de fomentar a “guerra cultural”.

Também se dispôs a encaminhar “diretamente ao Inep” o caso da filha de um apoiador, uma das milhões de estudantes que apontaram erro na correção do Enem, sempre por meio da rede social favorita. Não é só. Nos últimos dias, decreto assinado por Bolsonaro abre uma brecha para que este MEC, assim aparelhado, em que o titular da Capes, responsável por pesquisas, se revela orgulhosamente defensor do criacionismo, produza livros didáticos.

Não foi por acaso o ataque de Bolsonaro aos livros adquiridos por meio do Programa Nacional do Livro Didático, aqueles que, no gosto presidencial, tinham muita coisa escrita.

O filão dos livros didáticos sempre foi uma espécie de galinha dos ovos de ouro dos pupilos de Olavo de Carvalho que foram encastelados no MEC na gestão de Ricardo Vélez Rodríguez, caíram por intervenção do general Santos Cruz, mas continuam orbitando em torno do poder. Vários desses olavetes inflamados têm participações em editoras e esperam só uma chance para abocanhar esse rentável mercado. E, de quebra, fazer aquela doutrinaçãozinha ideológica, porque ninguém é de ferro.

É esse estado de coisas que compromete de maneira séria a Educação brasileira. Exumar Paulo Freire e malhá-lo como um Judas diante de uma massa que não sabe nada a respeito da obra do educador é um jeito de criar uma cortina de fumaça para o verdadeiro plano de utilizar educação e cultura como correia de transmissão do reacionarismo (e nunca conservadorismo, porque os conservadores de fato se contorcem diante dessa marcha batida rumo às piores práticas autoritárias).

O Congresso, que tem em suas cadeiras alguns bons parlamentares com foco nessa área, precisa, no retorno do recesso, voltar os olhos para os desmandos no MEC, já que, pelo jeito, Bolsonaro continuará apontando inimigos imaginários enquanto seu ministro pinta e borda.

Bolsonaro, entre o ilegal, o imoral e o simplesmente humano

José Vicente Fantini, até ontem o número 2 da Casa Civil da presidência da República, nada fez de ilegal, mas fez de imoral, segundo Jair Bolsonaro, ao usar um jatinho da FAB para voar à Davos, na Suíça e, de lá, para a Índia. Poderia ter viajado em avião comercial. Foi demitido.

A preocupação de Bolsonaro com a moralidade, se não fosse recente, o teria poupado de protagonizar episódios que mancham sua biografia e envergonham o país. Obrigar o filho Carlos, com 17 anos, a ser candidato a vereador para impedir a mãe de se reeleger, foi imoral.

Depois disso, Carlos passou anos sem falar com o pai. Seus desvios de comportamento se devem em grande parte a isso. É o filho mais ligado a Bolsonaro e dependente de suas atenções. Vez por outra, contrariado, desliga o celular e o pai entra em pânico, sem conseguir despachar.


Bolsonaro se elegeu como candidato contra a corrupção e prometendo combatê-la com todo rigor. Afastou-se do combate tão logo estourou o caso da rachadinha da dupla Flávio e Queiroz. Foi Bolsonaro quem pôs Queiroz para cuidar do filho. A imoralidade, agora, bate à sua porta.

O Secretário da Comunicação da presidência da República foi intimado para se defender da acusação de que se valeu do cargo para beneficiar clientes de suas empresas. Contudo, tão logo voltou da Índia, Bolsonaro disse que ele não fez “nada demais”. Não foi nem um pouco imoral?

O presidente há de concordar que pode não ter sido ilegal, mas imoral foi acreditar com base em intrigas familiares que o general Santos Cruz, ministro do seu governo, o criticara no WhatsApp. Demitiu-o por isso. Restou provado que tudo não passou de uma armação contra o general.

Fakenews! Como fake foi Bolsonaro dizer que o nazismo teve sua origem na esquerda. Fakenews é uma coisa imoral. Porque não passa de uma mentira para enganar o maior número possível de pessoas. Bolsonaro sabe disso, mas não desiste de recorrer a elas para extrair benefícios.

Manter no cargo o atual ministro da Educação nem é ilegal, nem imoral. O presidente tem o direito de cercar-se de auxiliares desastrados. Mas é burrice. Faz mal à sua reputação. Como fez mal quando ele afirmou outro dia que “índio cada vez mais é um ser humano igual a nós”.

Quanto a recusar-se a enviar um avião às Filipinas para trazer uma família de brasileiros infectados pelo coronavírus, nem é ilegal, nem imoral, nem burrice. É, apenas, desumano.

Copo mais para vazio que para cheio

Em sua avaliação da economia mundial divulgada este mês durante a conferência anual de Davos, o FMI (Fundo Monetário Internacional) apresentou uma expectativa mais positiva do crescimento do PIB brasileiro para 2020. Em vez do magro 1.0% registrado em 2019, poderemos crescer 2.2%, graças principalmente à Reforma da Previdência e a prospectos mais favoráveis no setor de mineração.

Uma boa notícia, e melhor ainda na comparação com a média da América Latina, que ficará em torno de 1.6%, ainda segundo o FMI. Evitemos, porém, um entusiasmo prematuro, pois, além de percalços internos, dos quais falarei adiante, nossos 2.2% ficam bem abaixo dos 3.4% de crescimento previstos para a economia mundial e correspondem exatamente à metade dos 4.4% esperados para os chamados países “emergentes”.


Permanecemos, portanto, presos no que o jargão dos economistas denomina “armadilha da renda média”, ou “armadilha do baixo crescimento”. Essa armadilha se configura quando, após diversas décadas de crescimento relativamente fácil, baseado na incorporação de mão de obra pouco qualificada e em empreendimentos pouco exigentes em tecnologia, o País empaca. Falta-lhe empuxo, econômico e político, para retomar o crescimento.

Para bem entender o quadro acima esboçado, é preciso desfazer um equívoco comum. Há quem pense que o tamanho de nossa economia, situada mais ou menos em oitavo lugar no ranking mundial, é por si só um indicador de riqueza. Os que sustentam esse ponto de vista se esquecem de fazer duas ressalvas essenciais. O tamanho da economia mantém relação direta com o tamanho da população, que em nosso caso anda pelos 210 milhões, e com a nossa ampla disponibilidade de recursos naturais (minérios, soja, alimentos) que nos asseguram uma posição relativamente forte no comércio internacional. Mas aí acabam as boas notícias. A reforma da Previdência foi um avanço importante, mas ainda não está se refletindo em grandes investimentos, domésticos ou internacionais.

Sem isso, as condições da infraestrutura e a produtividade do trabalho permanecerão num patamar muito aquém do necessário. Nosso nível educacional, e consequentemente o nível de capacitação da força de trabalho, são lastimáveis, contrastando dramaticamente com o quadro de acelerado avanço tecnológico que está emergindo por toda parte. Vamos, pois, com calma. O copo não está cheio como à primeira vista se possa imaginar.

Pensamento do Dia


'E agora, José?'

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas — ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: "E agora?" Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. "E agora, José?" Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente armar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.

Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: "E agora, José?"

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente — «E agora, José?»

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota — matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta — e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. "E agora, José?"
José Saramago

A queima da lavoura

Tudo que é público tem corrupção, e no setor privado não tem. Lá a governança funciona que é uma maravilha. Talvez a grande diferença seja o fato de que o privado olha para o consumidor e o público tem que olhar o cidadão. Essa é a diferença fundamental.

Para muitos no Brasil, o modelo ideal são os Estados Unidos. E lá existem sete mil estatais. Dados do ano passado do instituto Forbes, que é um instituto liberal, revela que das 10 maiores empresas em ativos do mundo, seis são estatais dos Estados Unidos, da China e da Europa
Maria Rita Serrano, membro do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal.

Gestão Bolsonaro tem fila de espera de demissões

Os ares da Índia fizeram bem a Jair Bolsonaro. De volta ao Brasil, o presidente mandou demitir, com a rapidez de um raio, o número dois da Casa Civil, Vicente Santini, que viajara ao exterior nas asas da Força Aérea Brasileira. O presidente tachou de "imoral" o uso de jato da FAB em deslocamentos que poderiam ter sido feitos em voos de carreira. Esse presidente de moralidade implacável se parece muito com o candidato da campanha eleitoral de 2018. Seria ótimo se o pavio curto virasse regra, não uma exceção.

O que incomoda na atual administração é a percepção que o governo não tem propriamente um princípio. O que Bolsonaro exibe é, no máximo, um ou outro tique moral. O mesmo presidente que manda demitir o auxiliar que confunde verba pública com dinheiro grátis, convive graciosamente com meia dúzia de ministros investigados, denunciados e até um condenado. Ele também age para proteger um filho encrencado com a lei.


Se o caso do demitido Vicente Santini revela alguma coisa é que o absurdo, quando não é enfrentado, pode ganhar uma doce, uma persuasiva, uma admirável naturalidade. O personagem esteve no Fórum Econômico Mundial de Davos. Depois, integrou-se à comitiva de Jair Bolsonaro, na Índia. Revelou uma intolerância a saguão de aeroporto incompatível com o comportamento de ministros que viajaram em aviões de carreira. Entre eles Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura).

Pilhado, Santini mandou divulgar uma nota na qual a Casa Civil informou que estava tudo normal, que o jato da FAB fora requisitado dentro da lei. Confundiu-se desfaçatez com normalidade. Trata-se de um velho hábito de pessoas que se julgam no direito de usufruir do delicioso privilégio de gastar o dinheiro alheio. A demissão foi uma boa resposta. O que se espera é que a água de Brasília não dissolva em Bolsonaro os efeitos positivos provocados pela atmosfera da Índia. Há no governo uma fila de novas demissões esperando para acontecer.

O ventre como instrumento de poder

Ao ouvir os planos do Governo federal para realizar uma campanha pela abstinência sexual entre adolescentes, imediatamente me veio à mente as reuniões em que estive presente em Genebra e em que vi o mesmo governo de Damares Alves, Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo defendendo que fossem retirados dos documentos na ONU e OMS qualquer tipo de referência sobre “educação sexual”.

Tampouco aceitaram qualquer menção à saúde e direitos reprodutivos, sempre sob o argumento de que tais termos poderiam abrir caminho para a promoção do aborto.

Se à primeira vista essa situação pode parecer contraditória, na agenda ultraconservadora-religiosa não há nada de paradoxal entre as duas ações. No fundo, elas se completam num sentido mais amplo: o esforço pelo controle sobre o corpo da mulheres.

Sugere-se o que fazer com o corpo, enquanto recusa-se a aceitar a educação sexual como um direito básico. Retira-se o direito de saber para garantir autonomia sobre seu corpo e, ao mesmo tempo, uma campanha é promovida para dizer quando a mulher deve manter relações sexuais.


A abstinência pode eventualmente fazer parte de um programa de saúde e planejamento. De fato, a Sociedade para a Saúde e Medicina do Adolescente, nos EUA, admite que adiar o início de relações sexuais pode ter um impacto “saudável”. Mas jamais como uma solução recheada de carga moral ou religiosa. E muito menos sendo o carro-chefe da estratégia em que, ao mesmo tempo, a educação sexual é combatida em fóruns internacionais.

Neste caso, a abstinência se transforma num instrumento de poder. E não em uma opção de saúde pública. A escolha da idade não é do Estado, nem da família ou dos parceiros. Mas da mulher.

Pelo mundo, diferentes governos ultra-conservadores vêm promovendo políticas “pró-família”. Mas, em cada uma delas, a única que parece ser ignorada é a posição da mulher. Seu corpo, na maioria das vezes, se transforma em um meio para atingir outros objetivos políticos.

Na Hungria de Viktor Orban, por exemplo, o Governo passou a dar incentivos para garantir o nascimento de mais crianças húngaras. O país de fato vive uma redução de sua população. Mas, para evitar ter de aceitar imigrantes, Budapeste optou por pagar famílias para manter a “coesão nacional” e, de quebra, a cor da pele e a cruz.

Enquanto famílias são conduzidas a ter mais de três filhos, Budapeste insiste em atacar a lei de aborto que existe e ergue muros contra a “invasão” de imigrantes.

O ventre da mulher, neste caso, faz parte de uma estratégia nacional, supremacista e profundamente xenófoba.

Os húngaros não são os primeiros a adotar tal postura. Nos EUA, a tradicional ideia de nação ―branca e cristã― andou de mãos dadas com movimentos Pró-Vida. Sociólogos apontaram como, ao longo dos anos, a ansiedade da população branca americana cresceu, enquanto sua participação na demografia do país passou de 90% em 1950 para 60% no início deste século.

Com mais de 60% dos abortos sendo realizados por mulheres brancas, uma das teses é de que, com novas leis para impedi-las de interromper uma gravidez, se impediria que a população negra ou mestiça superasse a parcela branca dos EUA.

Na Polônia, em 2016, o Governo de extrema-direita propôs endurecer ainda mais as leis anti-aborto. Pelo projeto, mulheres poderiam ser presas se buscassem serviços para realizar um aborto. A proposta não vingou, diante dos protestos. Mas, nos bastidores, não são poucos os grupos que avaliam que a medida poderia voltar a ser apresentada, com uma nova roupagem. Também preocupa a ofensiva do Governo sobre os Judiciário.

No caso do Brasil, a recusa em aceitar a educação sexual em textos oficiais da ONU aproximou o Brasil da Arábia Saudita, um país “exemplar” no controle sobre o corpo da mulher. Riad, rapidamente, saiu a aplaudir o novo posicionamento do Governo de Bolsonaro.

Longe de dar uma solução para uma legítima e profunda crise de saúde pública, Brasil e outros governos optam por ignorar o que os dados científicos mostram. Em levantamentos realizados por alguns dos principais institutos de pesquisa, poucas são as evidências que mostram que a criminalização da autonomia do corpo da mulher tenha gerado resultados positivos.

De acordo com uma pesquisa publicado na revista The Lancet, 25 milhões de abortos inseguros foram realizados no mundo entre 2010 e 2014, a cada ano. Além desses, 7 milhões de mulheres foram hospitalizadas por conta de abortos ilegais. De acordo com a Anistia Internacional, 215 milhões de mulheres no mundo não tem acesso à métodos contraceptivos, ainda que não queiram ter filhos. Segundo dados da ONU, 22.000 mulheres morrem a cada ano como consequência de abortos inseguros.

Pelo mundo, ainda são dezenas as leis que mantêm um padrão inaceitável de controle do Estado ou dos homens sobre o corpo da mulher. Em alguns casos, quem comete o estupro pode evitar ser preso se casar com a vítima. Em outros lugares, clínicas apenas podem dar métodos contraceptivos a uma mulher se ela chegar acompanhada de seu marido.

Na Irlanda, o aborto é ilegal. Mas, entre 1980 e 2012, em média doze mulheres viajaram ao Reino Unido para interromper uma gravidez. E isso a cada dia.

Fora de seu útero, as barreiras não deixam de ser profundas. Em mais de 30 países, mulheres continuam precisando de autorização de seus maridos para ter um passaporte, enquanto na Nigéria o código penal mantém referências sobre “caráter imoral” de uma mulher. No ritmo que vamos, a igualdade entre homens e mulheres no mercado laboral será obtido em mais de cem anos.

Portanto, se o Governo brasileiro quer falar em abstinência, terá de falar primeiro em autonomia da mulher, educação sexual, direitos e saúde reprodutiva. E, enfim, não estaremos tratando do dilema do poder da mulher sobre seu marido ou sobre os objetivos do Estado. Mas estaremos promovendo uma política pública para que mulheres, parafraseando Mary Shelley, tenham o poder sobre elas mesmas.

E isso, provavelmente, seria a maior revolução na história da humanidade.
Jamil Chade

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Os anos 20

É tentador começar o ano, para não dizer a década, fazendo prognósticos e traçando cenários. Contudo, prognósticos e cenários são perigosos, sobretudo em tempos de tamanha incerteza. Se antes já era difícil olhar para a frente e enxergar com alguma nitidez, hoje essa tarefa está ainda mais complicada devido à rapidez com que grandes acontecimentos se dão, além da falta de referências para os temas que dominam a formulação de qualquer visão de longo prazo. Penso, por exemplo, na crise climática, no agravamento das tensões geopolíticas globais, na falta de margem de manobra para as políticas de estabilização nos países avançados em caso de desaceleração econômica, no deslocamento da força de trabalho proveniente da automação, na ascensão do populismo-nacionalista. Um tema que tem, contudo, algum tipo de referência histórica para balizar nosso juízo é a ascensão do nacionalismo.

Tenho lido sobre aqueles anos 20 por várias razões, mas a principal delas é traçar possíveis paralelos entre a ascensão das políticas econômicas de cunho nacionalista de então e o ressurgimento do nacionalismo que temos testemunhado mundo afora. Evidentemente, as origens são um pouco distintas. No século passado, o nacionalismo começou a renascer no período entre guerras e ganhou força total depois da crise de 1929.

Nos países avançados, ao menos, a motivação nacionalista teve origem na necessidade de buscar a autossuficiência econômica, sobretudo durante a Grande Depressão. No nacionalismo atual, não há tendência à autossuficiência como outrora. O que há é uma reação aos deslocamentos provocados pela automação, pela ascensão da China, pela perda de poder econômico e político das classes médias tradicionais dos países avançados. É claro que há guerras culturais de todo tipo no meio do caminho, além de uma tendência nefasta de se agarrar a ideias e pensamentos mal formulados ou francamente equivocados, falsos. Mas, apesar das origens diferentes marcadas por épocas muito distintas, o instinto nacionalista é, na essência, o mesmo: tratar de que seu país não só não perca status, mas, sobretudo, avance, ainda que isso possa prejudicar os demais. Esse modo de pensar — em si equivocado, pois o avanço em detrimento dos demais não é sustentável — esteve presente nos anos 1920 e está de volta entre nós em 2020.


Não é uma tendência fácil de reverter, pois a retórica política é poderosa: quem não quer se sobrepor aos demais? Quem não aceita com facilidade a noção de que, se há problemas em determinado país, as causas só podem ser externas? Afinal, culpar os outros por suas deficiências e problemas é algo profundamente humano.

Na área econômica não é necessário ser estatizante para ser nacionalista. Mussolini elegeu-se democraticamente em 1922, com a plataforma: “Nosso sonho é uma Itália romana!”. O saudosismo e a busca pelo renascimento de um passado de glórias é a característica mais forte do nacionalismo. No entanto, entre 1922 e 1925, Mussolini adotou políticas econômicas para liberal nenhum botar defeito. Ajustou as contas públicas, permaneceu comprometido com o livre-comércio, implantou reformas para reduzir o tamanho do Estado e o grau de intervencionismo econômico.

Durante esses três anos, quem quisesse dizer que a Itália era um sucesso apesar do fascismo poderia fazê-lo sem susto. A economia cresceu, o comércio se expandiu, durante algum tempo a inflação ficou sob controle. Mas, nacionalista que é nacionalista não apenas quer se manter no poder — Mussolini largou as pretensões democráticas em 1925 —, como também não resiste à tentação de controlar a economia para seus próprios fins, a Itália romana. A partir de 1926, o regime fascista começou a flertar com o dirigismo estatal, o que se acentuou profundamente após a crise de 1929. Em 1935, todas as esferas da vida econômica eram controladas pelo Estado, inclusive os salários. Para conter a escalada inflacionária, o regime implantou não uma, mas três compressões salariais. Em cada uma delas reduziu os salários nominais entre 10% e 30%.

Não estou dizendo que a Itália dos anos 1920 seja o Brasil dos anos 2020, até porque esse não é um artigo sobre o Brasil. O que quero ressaltar é que, em um mundo em reviravoltas, o impensável pode acontecer. Em um mundo em reviravoltas, até um liberal exemplar é capaz de cortar todas as suas liberdades, a começar pela de ter um salário que garanta sua sobrevivência. Bem-vindos aos anos 20.
Monica de Bolle

O presidente cada vez menos humano

“O índio está evoluindo. Cada vez mais ele é um ser humano igual a nós”, disse Jair Bolsonaro, dias atrás. A frase é tão equivocada e ofensiva que, invertida, faria mais sentido: “Jair Bolsonaro está ‘involuindo’. Cada vez menos ele é um ser humano igual a nós”. 

A noção de que preservar, cultivar a harmonia com a natureza, excluir o extrativismo predatório, querer rios limpos e viver conforme costumes ancestrais fazem dos povos indígenas seres “menos humanos” foi expressa num contexto em que Bolsonaro defendia que é aspiração de todo indígena evoluído comercializar suas riquezas através do sistema de trocas branco. 

Em outras palavras, índio que licencia terra para a mineração, ou que vende seus princípios por um punhado de moedas, é índio evoluído. Índio que quer preservar a floresta é um ser pré-humano enjaulado num zoológico, analogia preferida de Jair. 



O presidente que, em meados do ano passado, abordado por um turista de ascendência asiática, perguntou se “está tudo pequenininho aí”, demonstra, mais uma vez, o quão pequenininha é sua autonomia de voo intelectual. Seus raciocínios revelam a ausência de qualquer contato inteligente com o campo da antropologia, essa coisa de esquerdopata, de acordo com o corolário dos apedeutas. 

Bolsonaro é daqueles que consideram “índio” uma coisa só, e não um conjunto de povos que agrega diversas etnias e dinâmicas socioculturais, práticas, visões de mundo, linguagens e conhecimentos. Que poderiam, inclusive, ser aproveitados numa perspectiva econômica sustentável, auspiciosa, bastante documentada pelo ambientalismo mais avançado.
De acordo com o presidente, um ser humano igual a “nós” (nós quem, cara pálida?) pensa e age de acordo com a lei do mais forte. Se alguém disser ao presidente que é possível ser diferente e, ao mesmo tempo, igualmente humano, sua cuca vai fundir com essa coisa de paradoxo aí e ele vai precisar de férias. 

É claro seu apego, provavelmente intuitivo ou de orelhada, ao darwinismo social, que provocava ânsias de vômito no próprio Darwin. Hitler era adepto dessa excrescência e adorava comparar gente com animais predadores. Considerava as minorias sempre fracas, destinadas a perecer. 

Bolsonaro já disse, mais de uma vez, com todas as palavras, que as minorias que não se adaptarem devem se curvar às maiorias... ou desaparecer. Ou seja, minoria boa é a que marcha com a maioria. Às minorias rebeldes, o extermínio. 

A democracia é o oposto disso: necessita que a maioria esteja sempre constrangida pelas minorias. O fascismo nasceu de alianças (atenção: “alianças”) que pregavam o uso da força pela maioria. Seu símbolo era um feixe (fascio), espécie de machado revestido de varas de madeira, de origem romana. 

Os atuais cartesianos propalam que o governo não tem nada a ver com isso mas é tão somente de extrema-direita. Não querem ver os paralelos orgânicos, não estatutários, que, de analogia em analogia, de ofensa em ofensa, de exclusão em exclusão, vão espraiando o fascismo pelos grotões da República.

Enquanto o Brasil esvazia BNDES, a China cria um BNDES dela aqui

O maior problema da discussão política são as aparências. Muitas vezes elas nos enganam. Aqui na Tribuna da Internet, é comum surgirem comentários propondo a privatização ou até extinção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Esse tipo de colocação resulta da ignorância reinante sobre a importância da atuação do banco nos diversos ciclos de crescimento socioeconômico que levaram o Brasil a se tornar uma das dez maiores economias do mundo.

Os defensores da extinção ou privatização do banco de fomento esquecem que o Brasil somente se industrializou porque o BNDES oferecia ao empresário brasileiro juros no padrão internacional. Criado através da Lei nº 1.628, em 20 de junho de 1952, durante o governo constitucional de Getúlio Vargas, o então BNDE (sem a rubrica Social) surgiu com a dupla incumbência de realizar planejamentos e implantar políticas consideradas fundamentais para o avanço da industrialização. Em síntese, o Banco seria o principal formulador e executor da política nacional de desenvolvimento econômico. E cuidou brilhantemente dessa atribuição.


No início da década de 90, o governo da China enviou uma delegação de economistas ao Brasil para estudar o funcionamento do BNDES, que era então o maior banco de desenvolvimento do mundo, com capital superior ao do grupo bancário KfW, o BNDES germânico, cuja atuação foi fundamental para a recuperação econômica da antiga Alemanha Oriental.

Com base na estrutura enxuta do BNDES, o governo chinês criou sua própria instituição de fomento – o Banco de Desenvolvimento da China, que hoje é o maior do mundo, e trabalha em conjunto com o Eximbank chinês, enquanto no Brasil o BNDES acumula as duas funções – apoio à indústria e às exportações.

Essa história nada tem de original. Parodiando o cineasta George Stevens, pode-se dizer que assim caminha a Humanidade, porque as iniciativas que dão certo num país são logo adotadas por outras nações.

O que se deve estranhar é que, enquanto no Brasil é defendida a privatização ou até extinção do BNDES, um dos maiores grupos industriais de China, a estatal XCMG, anuncia a criação de um banco no Brasil para competir com o BNDES no financiamento de equipamentos industriais e agrícolas.

Grupo XCMG pretende financiar por meio da instituição R$ 300 milhões em até cinco anos. Esse banco que está sendo criado no Brasil é o primeiro no mundo, porque mesmo na China, o grupo não atua no sistema financeiro

“O banco pretende ajudar muito a infraestrutura brasileira, oferecendo máquinas melhores a juros baixos”, afirmou o presidente da instituição, Wang Min, em entrevista à Folha de S.Paulo no último dia 6.

O grupo XCMG pretende financiar por meio da instituição R$ 300 milhões em até cinco anos. A criação do banco foi autorizada pela equipe econômica (leia-se: Banco Central) em outubro de 2019 e o início da operação está previsto para o primeiro trimestre deste ano.

Em novembro, a China direcionou mais de US$ 100 bilhões de pelo menos cinco fundos estatais para uma nova rodada de investimentos no Brasil. Pequim também sinalizou com uma expansão do crédito por meio de seus bancos no Brasil para competir principalmente por clientes do agronegócio e da indústria.

Em tradução simultânea, o banco chinês deve competir diretamente com o BNDES, servindo como linha auxiliar para a China dominar o crescente mercado brasileiro das máquinas agrícolas, em prejuízo da indústria nacional, cada vez mais sucateada.

Pensamento do Dia


Davos verde e o Brasil

Em 1971, Klaus Schwab organizou o Simpósio Europeu de Gestão. A partir de 1987, passou a ser conhecido como o Fórum Econômico de Davos, Genebra. Desde então, o Fórum se reúne, congregando chefes de Estado, cientistas, lideranças empresariais, acadêmicos, líderes políticos, jornalistas, um público eclético para discutir as questões estratégicas para o futuro da humanidade.

Segundo Schawb, os dois modelos de capitalismo – “o capitalismo de acionistas” e “o capitalismo de estado” – se esgotaram. Urge, segundo ele, dar um significado concreto ao que denomina de “capitalismo das partes interessadas” (stakeholders capitalism). A rigor, é um reconhecimento tardio de que a noção de progresso, gestada no industrialismo, revelou-se insustentável diante dos limites ambientais e do imperativo ético de maior equidade social.

Neste novo desenho, estão estabelecidas premissas que jamais deveriam ser ignoradas e novas premissas, completando um amplo compromisso entre as “partes interessadas”: pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético de informações privadas na era digital (sobre o assunto é imperdível o documentário “Privacidade Hackeada”), vigilância dos direitos humanos em toda cadeia de fornecedores, remuneração responsável dos executivos, proteção ao meio ambiente para as futuras gerações (empresários e banqueiros receberam uma carta assinada por Schwab e pelos presidentes do BanK of America, da gigante holandesa Royal DSM com o compromisso de zerar emissões líquidas de gases do efeito estufa de suas companhias, tornando-se neutras até 2050).

Pela dimensão ambiental, o encontro está sendo chamado de “Davos verde”: 51 painéis abordam ecologia, 50, geopolítica e 27, economia, enquanto que o painel “Assegurando o futuro sustentável para Amazônia” não tem representante do governo brasileiro.

Mais uma vez, nosso país ratifica as sábias palavras de Mario Henrique Simonsen: “O Brasil é o país das oportunidades perdidas”. Para nós, a questão ambiental não é um limite, mas uma oportunidade singular para consolidar a economia de baixo carbono e dela aproveitar as vantagens competitivas no mercado internacional. É ocioso mencionar nossas potencialidades; limitar o debate a conflitos pontuais com foco na eficácia dos instrumentos de controle e de comando.

Eis o grave equívoco do governo: o olhar periférico sobre o tema em prejuízo da percepção conceitual do fenômeno. Não há caminho fora do diálogo eco-eco. Foi-se o tempo em que custo ambiental era uma “externalidade” à função de produção. Hoje tem preço mensurável e valor ético. O Brasil vem perdendo suas cores. Resta o cinza.

Corra!

Toda dia na África um leão acorda.
Ele sabe que deve correr
mais do que a gazela ou morrer de fome.
Todo dia na África uma gazela acorda.
Ela sabe que deve correr mais que o leão ou morrer.
Quando o sol surge no horizonte
não importa se você é leão ou gazela.
Corra!
Anônimo

As lives e os tuítes de Bolsonaro importam para julgar seu governo?

Não há nada de errado numa fala informal e espontânea. Quando Bolsonaro faz uma piada improvisada sobre o preço da carne, isso não suscita críticas. A piadinha aí é uma marca de autenticidade que o aproxima do cidadão comum. Mas e quando a fala é uma arma de ataque? Ou quando ela mente?

Deveríamos nos preocupar ou nos ater apenas aos atos do governo e ignorar as falas como um ruído mais ou menos inócuo?

Não raro, o presidente, seus ministros ou seus filhos acusam pessoas ou instituições ou ofendem valores importantes de nossa sociedade.

Alguns exemplos de acusações falsas: o presidente acusou Ricardo Galvão, então diretor do Inpe, de estar a serviço de ONGs. Acusou os ambientalistas de Alter do Chão de serem responsáveis por queimadas. Acusou um ex-assessor seu de participar do complô para matá-lo. O ministro da Educação acusou as universidades federais de cultivarem plantações extensivas de maconha. O ministro do Meio Ambiente insinuou que o Greenpeace estaria ligado ao vazamento de óleo no Nordeste.

A fala de um líder se presta a diversos fins: um deles é mover os sentimentos de quem os ouve, transmitindo medo ou esperança, ódio ou conciliação; agregar ou dividir. As paixões das massas guardam um enorme poder, e por isso também enormes perigos. O dia do Holocausto, lembrado nesta segunda-feira (27), nos mostra o poder de destruição de um povo tomado pelo medo paranoico e pelo ódio. Buscar levar as paixões do povo ao extremo é a marca de um líder que busca o poder tirânico.

A fala também revela os valores e o caráter de quem a profere. No passado, seria um motivo de vergonha para um presidente se ele xingasse uma deputada federal de gorda e fizesse desse humor seu motivo para desmerecê-la publicamente. Hoje, não. Essa conduta do presidente Bolsonaro é motivo de orgulho para seus seguidores, que celebram a cada “mitada”.

Por fim, a linguagem costumava ter uma outra finalidade: comunicar a verdade. Regra que, se sistematicamente quebrada, acabaria com a razão de ser da fala. Em outros tempos, ser pego numa mentira flagrante —especialmente se dirigida contra alguém— era um motivo de desonra.

Hoje em dia, não. Mente-se e acusa-se impunemente, sabendo que na cacofonia ininterrupta de tuítes e gritos tudo isso será esquecido. Ficamos anestesiados à verdade, que aliás é impossível de ser devidamente averiguada se cada um fala uma coisa diferente e quem mente não responde por seus atos.

Conforme a linguagem vai sendo desgastada, seu conteúdo deixa de importar. É tudo uma questão de ser pró ou contra o governo, numa luta de paixões cada vez mais violentas porque incapaz de ser resolvida com palavras, isto é, com a razão. A dualidade radical e inegociável entre amigo e inimigo, que, num momento de crise terminal ou estado de exceção é realmente o fator determinante da política, se transforma no estado de espírito normal do cotidiano.

As tais “instituições” que garantem a democracia existem apenas em nossas mentes; existem na medida em que pessoas limitam algumas ações em nome do respeito a certas regras que, mesmo que não as beneficiem naquele momento, são importantes para o funcionamento justo do sistema.

Se, à custa de calúnias e teorias da conspiração, uma parcela relevante da população passar a odiá-las, a democracia estará em risco. Neste momento, ela resiste. Mas será possível cravar que o trabalho presidencial de corroê-la gradativamente por meio das palavras não terá efeito nenhum? Eu não iria tão longe.
Joel Pinheiro da Fonseca

Minha triste lembrança de Auschwitz

Há 41 anos entrei pela primeira vez na memória do campo de concentração de Auschwitz como enviado especial deste jornal por ocasião da primeira visita de um Papa, a do polonês João Paulo II, a um campo de concentração nazista.

Perguntam-me hoje o que senti há 41 anos ao pisar naquele lugar de tragédia e morte onde mais de um milhão de pessoas perderam a vida. Se for verdade que um jornalista, assim como um cirurgião, deve deixar seus sentimentos pessoais em casa na hora de recolher os fatos da vida para contar aos outros, também é verdade que às vezes isso é impossível. Assim foi para mim aquela visita a Auschwitz, que convulsionou meus sentimentos e ainda não foi apagada da memória.

No portal, "o trabalho liberta"
Também tive o privilégio de ser o único jornalista que conseguiu entrar com o Papa polonês na câmara da morte, onde deixavam os prisioneiros morrerem de fome e sede. O Papa estava acompanhado por um senhor idoso que carregava um maço de flores vermelhas nos braços. Era um dos prisioneiros que tinha se salvado de entrar naquela câmara da morte porque um companheiro, que era padre, o hoje canonizado por aquele Papa como São Kolbe.

Naquele dia tive a intuição de ir antes do resto dos jornalistas ao campo para ter uma experiência pessoal da visita. Ainda me lembro do calafrio que senti percorrendo aquele lugar de morte. Só não me atrevi a entrar nos fornos crematórios onde crianças e mulheres foram queimadas.

O Papa estava acompanhado, entre as autoridades do Vaticano, do substituto da Secretaria de Estado, o monsenhor espanhol Eduardo Martínez Somalo, um progressista que me conhecia e me acenou para que eu pudesse entrar com as quatro ou cinco pessoas que acompanhavam o Papa. Contaram-nos que quando colocaram naquela câmara da morte o prisioneiro Maximiliano Kolbe, que havia se oferecido para morrer no lugar de seu companheiro de campo que tinha família e vários filhos, todos iam morrendo, exceto ele, que continuava vivo e rezando. Como precisavam de espaço para colocar outros condenados à morte, acabaram lhe dando uma injeção letal.

De Auschwitz, o Papa foi visitar o campo de Brzezinka, a três quilômetros de distância, onde havia túmulos escritos em todas as línguas. O que mais impressionou foi a visita do Papa ao túmulo escrito em hebraico e ao escrito em russo. Diante daquele escrito em hebraico, lembrando a tragédia do Holocausto sofrido pelo povo judeu, o Papa disse que estava “diante de um novo Gólgota” e que ninguém podia passar indiferente por aquele túmulo. Diante do túmulo escrito em russo, improvisando algumas palavras que não estavam no discurso oficial, faz uma apologia do que a Rússia havia feito para libertar a Europa da tragédia da Segunda Guerra Mundial.

As boas relações entre o Papa polonês e o povo judeu eram conhecidas, a ponto de que se chegou a escrever que Wojtyla era viúvo quando decidiu se tornar sacerdote. Parece que tinha como noiva uma jovem judia com quem, antes de ter sido levada para um campo de concentração para morrer, havia feito um casamento de consciência.

O que surpreendeu em suas palavras a favor do papel da Rússia foi a ênfase em defender o papel de libertadora, uma vez que era conhecida a oposição radical que o Papa tinha com os comunistas na Polônia. Lá, porém, João Paulo II esqueceu sua ideologia para fazer um apelo ao mundo sobre a defesa dos valores da liberdade.

De Auschwitz, permiti-me levar naquele dia uma flor minúscula, uma espécie de cíclame que brotara entre duas pedras ao lado da cerca do campo. Aquela flor ficou na minha carteira durante muito tempo, junto da minha carteira de identidade. Um dia, caiu nas mãos de alguns policiais. Tinham me parado em uma estrada na Itália. Aparentemente, um dos faróis do meu carro não estava funcionando. Pediram-me a carteira de identidade e com ela veio a pequena flor já seca. Um dos policiais a viu e, muito à italiana, me disse que não me multaria porque eu “era muito romântico”. Nunca imaginou que aquela flor era qualquer coisa menos romântica. Carregava todo o peso da memória do inferno do Holocausto.

Teólogos da Igreja luterana escreveram que depois de Auschwitz “não seria mais possível acreditar em Deus”. O que se pode perguntar, 75 anos depois daquela loucura de morte, é se ainda é possível continuar acreditando no homem e nos valores da civilização. E se o mundo não está dando motivos hoje, com suas tentações de retorno à barbárie, para desconfiar que tenha aprendido e para sempre com aquela que foi uma das experiências mais trágicas perpetradas pelo Homo sapiens.
Juan Arias

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Pensamento do Dia


O que está nos afundando não é pobreza, e sim a irresponsabilidade e ganância dos ricos

Injusta, a sociedade brasileira tornou-se politicamente disfuncional. Em termos de procedimentos democráticos, a partir de um certo grau de desigualdade, a sociedade apenas multiplica conflitos, tensões e ódios. No brasil, já temos quase um milhão de pessoas nas prisões, 40% delas sem julgamento; e matamos anualmente 60 mil pessoas, majoritariamente jovens homens negros. Em 2018, a polícia matou uma média de 14 pessoas por dia. E temos palhaços explicando que não matamos o suficiente.

O clima generalizado de insegurança criado no país gera precisamente comportamentos sociais patológicos, busca desesperada de bodes expiatórios, de “culpados” sobre os quais possam ser descarregados os medos e os ódios. Campo fértil para oportunistas.

Os processos sociais colaborativos, únicos portadores efetivos de progresso, são substituídos por divisões que nos polarizam. Isso se dá com Macri, com Piñera, com Bolsonaro, com Trump, com Erdogan, com Duterte, com Boris Johnson, com Orbán e tantos outros.


O problema não está na boçalidade desses líderes, sempre haverá boçais ambiciosos, mas sim no fato das massas desesperadas votarem em qualquer candidato que se apresente “contra tudo isso aí”; e, em particular, na disposição das elites em entregar o país a esses boçais, conquanto possam manter ou ampliar seus privilégios.

Na raiz do problema está a desigualdade, a acumulação de privilégios absurdos frente a uma população cada vez mais indignada. Os mais ricos, para assegurarem o futuro das suas famílias – justificativa tão frequente para as fortunas que acumulam – fariam melhor em contribuir com a construção de uma sociedade equilibrada, que funcione para todos.

Politicamente, no sentido de fazer a sociedade funcionar no seu conjunto, o sistema está falido. Em termos econômicos, o sistema é literalmente burro. O que é particularmente chocante, e vem sendo objeto dos meus trabalhos, como o livro “A Era do Capital Improdutivo”, mas também de inúmeros pesquisadores de primeira linha, como Joseph Stiglitz, Thomas Piketty, Paul Krugman, Amartya Sen, Michael Hudson, além de um conjunto de núcleos de pesquisa econômica e social na Unicamp, na PUC-SP, na UFRJ e em outros centros, é que manter a renda e a riqueza concentradas em poucas mãos paralisa as nossas economias.

Lembremos que o problema é mundial. Atualmente 26 pessoas no mundo acumularam mais riqueza do que possuem 3,9 bilhões de pessoas, metade mais pobre do planeta. A América Latina apenas apresenta uma deformação mais grotesca do processo global de financeirização.

Particularmente importante é entender o mecanismo. Stiglitz mostra que acumular riqueza aumentando a produção é diferente de enriquecer se apropriando da riqueza dos outros. O imenso sucesso de “O Capital no Século XXI”, de Piketty, se deve, essencialmente, do fato dele conseguir demonstrar que o PIB mundial vem crescendo numa faixa de 2,5% com a produção concreta de bens e serviços, enquanto as aplicações financeiras, constituídas essencialmente por especulação improdutiva, rendem entre 7% e 9%. Ou seja: o capitalismo que investia e produzia foi substituído por um capitalismo que literalmente vive de especulação, o “capitalismo extrativo” nas palavras de Marjorie Kelly e Ted Howard.

A financeirização generalizada criou um capitalismo que funciona para o 1%, mas não para o resto do mundo. Os autores mencionados trazem todas as demonstrações científicas necessárias.

Mas particularmente útil, além dos cientistas, é olhar o que funciona na China, no Canadá, na Coreia do Sul, nos países nórdicos. O sistema que funciona foi igualmente aplicado no New Deal dos Estados Unidos nos anos 1930; na Europa do pós-guerra no chamado Welfare State; no Brasil, na década de 2003 a 2013, chamada pelo Banco Mundial de “a década dourada da economia brasileira”. Todas essas experiências consistiram na utilização do Estado para melhorar a situação das famílias, assegurando o bem comum. A fórmula é simples: com mais recursos para gastar, as famílias passam a consumir mais estimulando as empresas, que expandem empregos e investimentos produtivos. Tanto a demanda das famílias gera impostos sobre o consumo, receita para o Estado, como a atividade ampliada das empresas gera impostos sobre a produção, mais receitas para o Estado. E a conta fecha.

O Estado dispondo de mais recursos pode, por um lado, ampliar o bem-estar das famílias (que não se resolve apenas com gastos individuais), assegurando o acesso aos serviços de saúde, educação, segurança, rios limpos e semelhantes. Essa é a dimensão pública do bem-estar, com acesso gratuito e universal por parte da população.

Por outro lado, o Estado passa a ter recursos para investir em infraestruturas, como transporte, energia, telecomunicações e sistemas de água e saneamento, investimentos que melhoram a produtividade de todos, e em particular das empresas. Este duplo circuito, em que o ponto de partida, o “motor de arranque” por assim dizer, é orientar os recursos para o bem-estar das famílias, constitui o denominador comum das economias que funcionam, tanto no Canadá quanto na China, ainda que sejam países politicamente tão diferentes. É o chamado círculo virtuoso da economia.

O resto é narrativa. Dizer que temos de dar mais dinheiro aos ricos, para que eles tenham “confiança” e invistam, é uma tremenda enganação. Um empresário no Brasil, depois de seis anos de redução de direitos sociais e trabalhistas, constata desolado: realmente, está mais barato eu contratar mão de obra, mas para que vou contratar se não tenho para quem vender?

As empresas efetivamente produtivas não precisam de discursos ideológicos nem de narrativas, precisam da população com dinheiro para que tenham para quem vender; e precisam de crédito barato para poder investir. No Brasil, com os retrocessos gerados a partir de 2014, as empresas não têm nem um, nem outro.

Com diversos formatos e variações locais, este sistema mantém a América Latina travada nos planos ético, político e econômico. É o tecido social no seu conjunto que se desarticula. Mas os bilionários que pouco produzem, e drenam a economia por meio de sistemas de intermediação financeira e de acordos escandalosos com grupos internacionais, esses sim estão otimistas, compram mais papéis financeiros, acumulam mais dinheiro em paraísos fiscais, e se congratulam quando a bolsa ganha alguns pontos, como se se tratasse da economia real. Esta farsa está quebrando grande parte do planeta, mas em particular a América Latina. É hora de inverter os rumos.

Hoje olhamos com desolação a repressão e as mortes que se multiplicam. Acusados de serem desordeiros, o que os manifestantes querem é justamente a ordem, uma ordem que funcione. Hoje está cada vez mais evidente: a massa de jovens herdará um sistema que lhes tolhe o futuro e liquida suas oportunidades, e que vai acabar não funcionando para ninguém. O que está nos afundando não é pobreza, e sim a irresponsabilidade e ganância dos ricos.

O Brasil abaixo de todos

Difícil achar quem não goste das listas de melhores e piores. Os filmes vencedores, livros e músicas imperdíveis, lugares para conhecer ou viver. Há rankings para tudo, bem feitos, fajutos, engraçados. E os muito sérios. Nesses, o Brasil perde feio. Neles - Pisa/OCDE, IDH/ONU, OMS/Violência, Transparência Internacional, Human Rights Watch -, os países líderes concentram energia na educação, e, na maioria deles (a única exceção é a China), em justiça e democracia. Um tripé cada vez mais distante do Brasil de hoje.

A 106ª posição no ranking da corrupção entre os 180 países analisados pela Transparência Internacional, anunciada na semana passada, não pode ser atribuída ao presidente Jair Bolsonaro. Tampouco se pode dizer que seu governo, eleito com o mote anticorrupção, tenha feito algo positivo.
Ao contrário.

Como no ditado popular, no combate à corrupção o governo Bolsonaro tem sido o cão que não morde. Late muito. E só.

O presidente cria confusão ou arruma escaninhos novos para proteger sua prole. Se inocente fosse, não precisaria de puxadinhos como a mudança do antigo Coaf para o Banco Central, a suspensão de investigações e o meio ano de trapalhadas do presidente do STF, Dias Toffoli, para protelar entendimentos em benefício do filho 01. O “herói” Sérgio Moro, ex-juiz da Lava-Jato que virou ministro da Justiça, convive mudo com o laranjal do colega do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, indiciado pela PF, e com a rachadinha do filho do chefe.

Nada que contribua para reduzir a percepção de país corrupto captada pela Transparência Internacional.

Na educação, responsável número 1 pelo sucesso dos países com melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), melhor distribuição de renda (PINI) e pouquíssimos homicídios (OMS), a performance brasileira é um completo desastre.

Não só pelas baixíssimas notas do Pisa, mas pela barafunda que Bolsonaro patrocina na pasta, com um ministro performático, que, além de se preocupar mais em interpretar esquetes como o vexaminoso “cantando na chuva”, não domina nem mesmo o básico da língua pátria. E que tem o desplante de, em pleno rolo com o Enem, que espalhou injustiça e insegurança para milhões de jovens, indicar um criacionista convicto para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Os absurdos são de tal ordem que o ministro astronauta Marcos Pontes foi escorraçado nas redes por postar uma imagem da NASA para “provar” que a Terra não é plana. Isso na segunda década do século 21, em que jovens sul-coreanos de 15 anos estão discutindo física quântica e inteligência artificial. Os daqui, condenados ao terraplanismo.

Criacionista, terraplanista e adepto da abstinência sexual, transformada em política pública pela ministra pregadora Damares Silva. Esse é o jovem brasileiro que Bolsonaro prepara para o mundo, preferencialmente formado em uma escola militar.

Sétima economia mundial, posição que deveria se reverter em pelo menos um mínimo de dignidade para quem vive no país, o Brasil amarga - e vai continuar cada vez mais azedo se insistir na contramão - índices indecentes em todas as áreas. Quase metade da população não tem rede de esgoto e só 38% do coletado recebe tratamento. E está entre os líderes de desigualdade, com números de arrepiar até o capeta: 1% concentra 28,3% da renda nacional, 52,5 milhões (25,3%) vivem na miséria e outros 13,5 milhões (6,5%) na extrema pobreza.-

Um verdadeiro inferno.

Enquanto isso o líder maior da República dedica seu tempo em colher likes nas redes sociais, em alucinações e conspirações, na guerrilha contra um comunismo que não tem mais sobreviventes. Em enxovalhar jornalistas e outros desafetos. Cria uma crise por dia para esconder a do dia anterior.

Fala de Brasil grande e o faz menor, condenando o país a continuar na lanterna de todas as listas.