quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Sabotagem

O ano de 2020 na Educação começou marcado por uma palavra trazida à moda pelo ministro da pasta: balbúrdia. Confusão na correção do Enem e, consequentemente, na divulgação do resultado do Sisu, o sistema unificado que usa as notas do exame para direcionar os alunos para as universidades.

Ontem, com liminar concedida pelo Superior Tribunal de Justiça, estudantes conseguiram ter acesso aos resultados, mas muitas dúvidas ainda pairavam quanto aos critérios de atribuição das notas e escolha de vagas.

Diante de evidente falha técnica e administrativa do MEC, Jair Bolsonaro optou pela sua saída padrão quando as coisas vão mal por ineficiência dos assessores que ele considera leais, ideologicamente alinhados e suficientemente lacradores nas redes sociais: apontou sabotagem, provavelmente da esquerda infiltrada na pasta.

Isso, claro, sem ter qualquer dado ou evidência – uma sindicância, uma auditoria, alguma denúncia em canais oficiais – de que tenha havido algo do gênero. Diversionismo para enganar aquele exército bovino das redes sociais sempre disposto a amparar qualquer absurdo que venha do governo.


Acontece que numa pasta que lida com estatísticas, como a Educação, o sedimento formado pelo aparelhamento ideológico, pela inépcia administrativa e pelo desprezo à ciência vai deixar marcas que ficarão associadas ao governo Bolsonaro para a História. E neste caso não será possível apontar um complô alienígena para culpar.

Enquanto tudo isso acontecia em seu quintal, o ministro Abraham Weintraub ocupava os últimos dias com mais postagens nas redes sociais divulgando fake news contra jornalistas ou brandindo um vidro de água sanitária numa receita caseira para aplacar o suposto mau hálito de outro. Sim, isso mesmo. Dentro do gabinete do MEC. Está no Twitter, com orgulho indisfarçado da própria capacidade de fomentar a “guerra cultural”.

Também se dispôs a encaminhar “diretamente ao Inep” o caso da filha de um apoiador, uma das milhões de estudantes que apontaram erro na correção do Enem, sempre por meio da rede social favorita. Não é só. Nos últimos dias, decreto assinado por Bolsonaro abre uma brecha para que este MEC, assim aparelhado, em que o titular da Capes, responsável por pesquisas, se revela orgulhosamente defensor do criacionismo, produza livros didáticos.

Não foi por acaso o ataque de Bolsonaro aos livros adquiridos por meio do Programa Nacional do Livro Didático, aqueles que, no gosto presidencial, tinham muita coisa escrita.

O filão dos livros didáticos sempre foi uma espécie de galinha dos ovos de ouro dos pupilos de Olavo de Carvalho que foram encastelados no MEC na gestão de Ricardo Vélez Rodríguez, caíram por intervenção do general Santos Cruz, mas continuam orbitando em torno do poder. Vários desses olavetes inflamados têm participações em editoras e esperam só uma chance para abocanhar esse rentável mercado. E, de quebra, fazer aquela doutrinaçãozinha ideológica, porque ninguém é de ferro.

É esse estado de coisas que compromete de maneira séria a Educação brasileira. Exumar Paulo Freire e malhá-lo como um Judas diante de uma massa que não sabe nada a respeito da obra do educador é um jeito de criar uma cortina de fumaça para o verdadeiro plano de utilizar educação e cultura como correia de transmissão do reacionarismo (e nunca conservadorismo, porque os conservadores de fato se contorcem diante dessa marcha batida rumo às piores práticas autoritárias).

O Congresso, que tem em suas cadeiras alguns bons parlamentares com foco nessa área, precisa, no retorno do recesso, voltar os olhos para os desmandos no MEC, já que, pelo jeito, Bolsonaro continuará apontando inimigos imaginários enquanto seu ministro pinta e borda.

Bolsonaro, entre o ilegal, o imoral e o simplesmente humano

José Vicente Fantini, até ontem o número 2 da Casa Civil da presidência da República, nada fez de ilegal, mas fez de imoral, segundo Jair Bolsonaro, ao usar um jatinho da FAB para voar à Davos, na Suíça e, de lá, para a Índia. Poderia ter viajado em avião comercial. Foi demitido.

A preocupação de Bolsonaro com a moralidade, se não fosse recente, o teria poupado de protagonizar episódios que mancham sua biografia e envergonham o país. Obrigar o filho Carlos, com 17 anos, a ser candidato a vereador para impedir a mãe de se reeleger, foi imoral.

Depois disso, Carlos passou anos sem falar com o pai. Seus desvios de comportamento se devem em grande parte a isso. É o filho mais ligado a Bolsonaro e dependente de suas atenções. Vez por outra, contrariado, desliga o celular e o pai entra em pânico, sem conseguir despachar.


Bolsonaro se elegeu como candidato contra a corrupção e prometendo combatê-la com todo rigor. Afastou-se do combate tão logo estourou o caso da rachadinha da dupla Flávio e Queiroz. Foi Bolsonaro quem pôs Queiroz para cuidar do filho. A imoralidade, agora, bate à sua porta.

O Secretário da Comunicação da presidência da República foi intimado para se defender da acusação de que se valeu do cargo para beneficiar clientes de suas empresas. Contudo, tão logo voltou da Índia, Bolsonaro disse que ele não fez “nada demais”. Não foi nem um pouco imoral?

O presidente há de concordar que pode não ter sido ilegal, mas imoral foi acreditar com base em intrigas familiares que o general Santos Cruz, ministro do seu governo, o criticara no WhatsApp. Demitiu-o por isso. Restou provado que tudo não passou de uma armação contra o general.

Fakenews! Como fake foi Bolsonaro dizer que o nazismo teve sua origem na esquerda. Fakenews é uma coisa imoral. Porque não passa de uma mentira para enganar o maior número possível de pessoas. Bolsonaro sabe disso, mas não desiste de recorrer a elas para extrair benefícios.

Manter no cargo o atual ministro da Educação nem é ilegal, nem imoral. O presidente tem o direito de cercar-se de auxiliares desastrados. Mas é burrice. Faz mal à sua reputação. Como fez mal quando ele afirmou outro dia que “índio cada vez mais é um ser humano igual a nós”.

Quanto a recusar-se a enviar um avião às Filipinas para trazer uma família de brasileiros infectados pelo coronavírus, nem é ilegal, nem imoral, nem burrice. É, apenas, desumano.

Copo mais para vazio que para cheio

Em sua avaliação da economia mundial divulgada este mês durante a conferência anual de Davos, o FMI (Fundo Monetário Internacional) apresentou uma expectativa mais positiva do crescimento do PIB brasileiro para 2020. Em vez do magro 1.0% registrado em 2019, poderemos crescer 2.2%, graças principalmente à Reforma da Previdência e a prospectos mais favoráveis no setor de mineração.

Uma boa notícia, e melhor ainda na comparação com a média da América Latina, que ficará em torno de 1.6%, ainda segundo o FMI. Evitemos, porém, um entusiasmo prematuro, pois, além de percalços internos, dos quais falarei adiante, nossos 2.2% ficam bem abaixo dos 3.4% de crescimento previstos para a economia mundial e correspondem exatamente à metade dos 4.4% esperados para os chamados países “emergentes”.


Permanecemos, portanto, presos no que o jargão dos economistas denomina “armadilha da renda média”, ou “armadilha do baixo crescimento”. Essa armadilha se configura quando, após diversas décadas de crescimento relativamente fácil, baseado na incorporação de mão de obra pouco qualificada e em empreendimentos pouco exigentes em tecnologia, o País empaca. Falta-lhe empuxo, econômico e político, para retomar o crescimento.

Para bem entender o quadro acima esboçado, é preciso desfazer um equívoco comum. Há quem pense que o tamanho de nossa economia, situada mais ou menos em oitavo lugar no ranking mundial, é por si só um indicador de riqueza. Os que sustentam esse ponto de vista se esquecem de fazer duas ressalvas essenciais. O tamanho da economia mantém relação direta com o tamanho da população, que em nosso caso anda pelos 210 milhões, e com a nossa ampla disponibilidade de recursos naturais (minérios, soja, alimentos) que nos asseguram uma posição relativamente forte no comércio internacional. Mas aí acabam as boas notícias. A reforma da Previdência foi um avanço importante, mas ainda não está se refletindo em grandes investimentos, domésticos ou internacionais.

Sem isso, as condições da infraestrutura e a produtividade do trabalho permanecerão num patamar muito aquém do necessário. Nosso nível educacional, e consequentemente o nível de capacitação da força de trabalho, são lastimáveis, contrastando dramaticamente com o quadro de acelerado avanço tecnológico que está emergindo por toda parte. Vamos, pois, com calma. O copo não está cheio como à primeira vista se possa imaginar.

Pensamento do Dia


'E agora, José?'

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas — ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: "E agora?" Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. "E agora, José?" Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente armar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.

Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: "E agora, José?"

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente — «E agora, José?»

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota — matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta — e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. "E agora, José?"
José Saramago

A queima da lavoura

Tudo que é público tem corrupção, e no setor privado não tem. Lá a governança funciona que é uma maravilha. Talvez a grande diferença seja o fato de que o privado olha para o consumidor e o público tem que olhar o cidadão. Essa é a diferença fundamental.

Para muitos no Brasil, o modelo ideal são os Estados Unidos. E lá existem sete mil estatais. Dados do ano passado do instituto Forbes, que é um instituto liberal, revela que das 10 maiores empresas em ativos do mundo, seis são estatais dos Estados Unidos, da China e da Europa
Maria Rita Serrano, membro do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal.

Gestão Bolsonaro tem fila de espera de demissões

Os ares da Índia fizeram bem a Jair Bolsonaro. De volta ao Brasil, o presidente mandou demitir, com a rapidez de um raio, o número dois da Casa Civil, Vicente Santini, que viajara ao exterior nas asas da Força Aérea Brasileira. O presidente tachou de "imoral" o uso de jato da FAB em deslocamentos que poderiam ter sido feitos em voos de carreira. Esse presidente de moralidade implacável se parece muito com o candidato da campanha eleitoral de 2018. Seria ótimo se o pavio curto virasse regra, não uma exceção.

O que incomoda na atual administração é a percepção que o governo não tem propriamente um princípio. O que Bolsonaro exibe é, no máximo, um ou outro tique moral. O mesmo presidente que manda demitir o auxiliar que confunde verba pública com dinheiro grátis, convive graciosamente com meia dúzia de ministros investigados, denunciados e até um condenado. Ele também age para proteger um filho encrencado com a lei.


Se o caso do demitido Vicente Santini revela alguma coisa é que o absurdo, quando não é enfrentado, pode ganhar uma doce, uma persuasiva, uma admirável naturalidade. O personagem esteve no Fórum Econômico Mundial de Davos. Depois, integrou-se à comitiva de Jair Bolsonaro, na Índia. Revelou uma intolerância a saguão de aeroporto incompatível com o comportamento de ministros que viajaram em aviões de carreira. Entre eles Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura).

Pilhado, Santini mandou divulgar uma nota na qual a Casa Civil informou que estava tudo normal, que o jato da FAB fora requisitado dentro da lei. Confundiu-se desfaçatez com normalidade. Trata-se de um velho hábito de pessoas que se julgam no direito de usufruir do delicioso privilégio de gastar o dinheiro alheio. A demissão foi uma boa resposta. O que se espera é que a água de Brasília não dissolva em Bolsonaro os efeitos positivos provocados pela atmosfera da Índia. Há no governo uma fila de novas demissões esperando para acontecer.

O ventre como instrumento de poder

Ao ouvir os planos do Governo federal para realizar uma campanha pela abstinência sexual entre adolescentes, imediatamente me veio à mente as reuniões em que estive presente em Genebra e em que vi o mesmo governo de Damares Alves, Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo defendendo que fossem retirados dos documentos na ONU e OMS qualquer tipo de referência sobre “educação sexual”.

Tampouco aceitaram qualquer menção à saúde e direitos reprodutivos, sempre sob o argumento de que tais termos poderiam abrir caminho para a promoção do aborto.

Se à primeira vista essa situação pode parecer contraditória, na agenda ultraconservadora-religiosa não há nada de paradoxal entre as duas ações. No fundo, elas se completam num sentido mais amplo: o esforço pelo controle sobre o corpo da mulheres.

Sugere-se o que fazer com o corpo, enquanto recusa-se a aceitar a educação sexual como um direito básico. Retira-se o direito de saber para garantir autonomia sobre seu corpo e, ao mesmo tempo, uma campanha é promovida para dizer quando a mulher deve manter relações sexuais.


A abstinência pode eventualmente fazer parte de um programa de saúde e planejamento. De fato, a Sociedade para a Saúde e Medicina do Adolescente, nos EUA, admite que adiar o início de relações sexuais pode ter um impacto “saudável”. Mas jamais como uma solução recheada de carga moral ou religiosa. E muito menos sendo o carro-chefe da estratégia em que, ao mesmo tempo, a educação sexual é combatida em fóruns internacionais.

Neste caso, a abstinência se transforma num instrumento de poder. E não em uma opção de saúde pública. A escolha da idade não é do Estado, nem da família ou dos parceiros. Mas da mulher.

Pelo mundo, diferentes governos ultra-conservadores vêm promovendo políticas “pró-família”. Mas, em cada uma delas, a única que parece ser ignorada é a posição da mulher. Seu corpo, na maioria das vezes, se transforma em um meio para atingir outros objetivos políticos.

Na Hungria de Viktor Orban, por exemplo, o Governo passou a dar incentivos para garantir o nascimento de mais crianças húngaras. O país de fato vive uma redução de sua população. Mas, para evitar ter de aceitar imigrantes, Budapeste optou por pagar famílias para manter a “coesão nacional” e, de quebra, a cor da pele e a cruz.

Enquanto famílias são conduzidas a ter mais de três filhos, Budapeste insiste em atacar a lei de aborto que existe e ergue muros contra a “invasão” de imigrantes.

O ventre da mulher, neste caso, faz parte de uma estratégia nacional, supremacista e profundamente xenófoba.

Os húngaros não são os primeiros a adotar tal postura. Nos EUA, a tradicional ideia de nação ―branca e cristã― andou de mãos dadas com movimentos Pró-Vida. Sociólogos apontaram como, ao longo dos anos, a ansiedade da população branca americana cresceu, enquanto sua participação na demografia do país passou de 90% em 1950 para 60% no início deste século.

Com mais de 60% dos abortos sendo realizados por mulheres brancas, uma das teses é de que, com novas leis para impedi-las de interromper uma gravidez, se impediria que a população negra ou mestiça superasse a parcela branca dos EUA.

Na Polônia, em 2016, o Governo de extrema-direita propôs endurecer ainda mais as leis anti-aborto. Pelo projeto, mulheres poderiam ser presas se buscassem serviços para realizar um aborto. A proposta não vingou, diante dos protestos. Mas, nos bastidores, não são poucos os grupos que avaliam que a medida poderia voltar a ser apresentada, com uma nova roupagem. Também preocupa a ofensiva do Governo sobre os Judiciário.

No caso do Brasil, a recusa em aceitar a educação sexual em textos oficiais da ONU aproximou o Brasil da Arábia Saudita, um país “exemplar” no controle sobre o corpo da mulher. Riad, rapidamente, saiu a aplaudir o novo posicionamento do Governo de Bolsonaro.

Longe de dar uma solução para uma legítima e profunda crise de saúde pública, Brasil e outros governos optam por ignorar o que os dados científicos mostram. Em levantamentos realizados por alguns dos principais institutos de pesquisa, poucas são as evidências que mostram que a criminalização da autonomia do corpo da mulher tenha gerado resultados positivos.

De acordo com uma pesquisa publicado na revista The Lancet, 25 milhões de abortos inseguros foram realizados no mundo entre 2010 e 2014, a cada ano. Além desses, 7 milhões de mulheres foram hospitalizadas por conta de abortos ilegais. De acordo com a Anistia Internacional, 215 milhões de mulheres no mundo não tem acesso à métodos contraceptivos, ainda que não queiram ter filhos. Segundo dados da ONU, 22.000 mulheres morrem a cada ano como consequência de abortos inseguros.

Pelo mundo, ainda são dezenas as leis que mantêm um padrão inaceitável de controle do Estado ou dos homens sobre o corpo da mulher. Em alguns casos, quem comete o estupro pode evitar ser preso se casar com a vítima. Em outros lugares, clínicas apenas podem dar métodos contraceptivos a uma mulher se ela chegar acompanhada de seu marido.

Na Irlanda, o aborto é ilegal. Mas, entre 1980 e 2012, em média doze mulheres viajaram ao Reino Unido para interromper uma gravidez. E isso a cada dia.

Fora de seu útero, as barreiras não deixam de ser profundas. Em mais de 30 países, mulheres continuam precisando de autorização de seus maridos para ter um passaporte, enquanto na Nigéria o código penal mantém referências sobre “caráter imoral” de uma mulher. No ritmo que vamos, a igualdade entre homens e mulheres no mercado laboral será obtido em mais de cem anos.

Portanto, se o Governo brasileiro quer falar em abstinência, terá de falar primeiro em autonomia da mulher, educação sexual, direitos e saúde reprodutiva. E, enfim, não estaremos tratando do dilema do poder da mulher sobre seu marido ou sobre os objetivos do Estado. Mas estaremos promovendo uma política pública para que mulheres, parafraseando Mary Shelley, tenham o poder sobre elas mesmas.

E isso, provavelmente, seria a maior revolução na história da humanidade.
Jamil Chade

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Os anos 20

É tentador começar o ano, para não dizer a década, fazendo prognósticos e traçando cenários. Contudo, prognósticos e cenários são perigosos, sobretudo em tempos de tamanha incerteza. Se antes já era difícil olhar para a frente e enxergar com alguma nitidez, hoje essa tarefa está ainda mais complicada devido à rapidez com que grandes acontecimentos se dão, além da falta de referências para os temas que dominam a formulação de qualquer visão de longo prazo. Penso, por exemplo, na crise climática, no agravamento das tensões geopolíticas globais, na falta de margem de manobra para as políticas de estabilização nos países avançados em caso de desaceleração econômica, no deslocamento da força de trabalho proveniente da automação, na ascensão do populismo-nacionalista. Um tema que tem, contudo, algum tipo de referência histórica para balizar nosso juízo é a ascensão do nacionalismo.

Tenho lido sobre aqueles anos 20 por várias razões, mas a principal delas é traçar possíveis paralelos entre a ascensão das políticas econômicas de cunho nacionalista de então e o ressurgimento do nacionalismo que temos testemunhado mundo afora. Evidentemente, as origens são um pouco distintas. No século passado, o nacionalismo começou a renascer no período entre guerras e ganhou força total depois da crise de 1929.

Nos países avançados, ao menos, a motivação nacionalista teve origem na necessidade de buscar a autossuficiência econômica, sobretudo durante a Grande Depressão. No nacionalismo atual, não há tendência à autossuficiência como outrora. O que há é uma reação aos deslocamentos provocados pela automação, pela ascensão da China, pela perda de poder econômico e político das classes médias tradicionais dos países avançados. É claro que há guerras culturais de todo tipo no meio do caminho, além de uma tendência nefasta de se agarrar a ideias e pensamentos mal formulados ou francamente equivocados, falsos. Mas, apesar das origens diferentes marcadas por épocas muito distintas, o instinto nacionalista é, na essência, o mesmo: tratar de que seu país não só não perca status, mas, sobretudo, avance, ainda que isso possa prejudicar os demais. Esse modo de pensar — em si equivocado, pois o avanço em detrimento dos demais não é sustentável — esteve presente nos anos 1920 e está de volta entre nós em 2020.


Não é uma tendência fácil de reverter, pois a retórica política é poderosa: quem não quer se sobrepor aos demais? Quem não aceita com facilidade a noção de que, se há problemas em determinado país, as causas só podem ser externas? Afinal, culpar os outros por suas deficiências e problemas é algo profundamente humano.

Na área econômica não é necessário ser estatizante para ser nacionalista. Mussolini elegeu-se democraticamente em 1922, com a plataforma: “Nosso sonho é uma Itália romana!”. O saudosismo e a busca pelo renascimento de um passado de glórias é a característica mais forte do nacionalismo. No entanto, entre 1922 e 1925, Mussolini adotou políticas econômicas para liberal nenhum botar defeito. Ajustou as contas públicas, permaneceu comprometido com o livre-comércio, implantou reformas para reduzir o tamanho do Estado e o grau de intervencionismo econômico.

Durante esses três anos, quem quisesse dizer que a Itália era um sucesso apesar do fascismo poderia fazê-lo sem susto. A economia cresceu, o comércio se expandiu, durante algum tempo a inflação ficou sob controle. Mas, nacionalista que é nacionalista não apenas quer se manter no poder — Mussolini largou as pretensões democráticas em 1925 —, como também não resiste à tentação de controlar a economia para seus próprios fins, a Itália romana. A partir de 1926, o regime fascista começou a flertar com o dirigismo estatal, o que se acentuou profundamente após a crise de 1929. Em 1935, todas as esferas da vida econômica eram controladas pelo Estado, inclusive os salários. Para conter a escalada inflacionária, o regime implantou não uma, mas três compressões salariais. Em cada uma delas reduziu os salários nominais entre 10% e 30%.

Não estou dizendo que a Itália dos anos 1920 seja o Brasil dos anos 2020, até porque esse não é um artigo sobre o Brasil. O que quero ressaltar é que, em um mundo em reviravoltas, o impensável pode acontecer. Em um mundo em reviravoltas, até um liberal exemplar é capaz de cortar todas as suas liberdades, a começar pela de ter um salário que garanta sua sobrevivência. Bem-vindos aos anos 20.
Monica de Bolle

O presidente cada vez menos humano

“O índio está evoluindo. Cada vez mais ele é um ser humano igual a nós”, disse Jair Bolsonaro, dias atrás. A frase é tão equivocada e ofensiva que, invertida, faria mais sentido: “Jair Bolsonaro está ‘involuindo’. Cada vez menos ele é um ser humano igual a nós”. 

A noção de que preservar, cultivar a harmonia com a natureza, excluir o extrativismo predatório, querer rios limpos e viver conforme costumes ancestrais fazem dos povos indígenas seres “menos humanos” foi expressa num contexto em que Bolsonaro defendia que é aspiração de todo indígena evoluído comercializar suas riquezas através do sistema de trocas branco. 

Em outras palavras, índio que licencia terra para a mineração, ou que vende seus princípios por um punhado de moedas, é índio evoluído. Índio que quer preservar a floresta é um ser pré-humano enjaulado num zoológico, analogia preferida de Jair. 



O presidente que, em meados do ano passado, abordado por um turista de ascendência asiática, perguntou se “está tudo pequenininho aí”, demonstra, mais uma vez, o quão pequenininha é sua autonomia de voo intelectual. Seus raciocínios revelam a ausência de qualquer contato inteligente com o campo da antropologia, essa coisa de esquerdopata, de acordo com o corolário dos apedeutas. 

Bolsonaro é daqueles que consideram “índio” uma coisa só, e não um conjunto de povos que agrega diversas etnias e dinâmicas socioculturais, práticas, visões de mundo, linguagens e conhecimentos. Que poderiam, inclusive, ser aproveitados numa perspectiva econômica sustentável, auspiciosa, bastante documentada pelo ambientalismo mais avançado.
De acordo com o presidente, um ser humano igual a “nós” (nós quem, cara pálida?) pensa e age de acordo com a lei do mais forte. Se alguém disser ao presidente que é possível ser diferente e, ao mesmo tempo, igualmente humano, sua cuca vai fundir com essa coisa de paradoxo aí e ele vai precisar de férias. 

É claro seu apego, provavelmente intuitivo ou de orelhada, ao darwinismo social, que provocava ânsias de vômito no próprio Darwin. Hitler era adepto dessa excrescência e adorava comparar gente com animais predadores. Considerava as minorias sempre fracas, destinadas a perecer. 

Bolsonaro já disse, mais de uma vez, com todas as palavras, que as minorias que não se adaptarem devem se curvar às maiorias... ou desaparecer. Ou seja, minoria boa é a que marcha com a maioria. Às minorias rebeldes, o extermínio. 

A democracia é o oposto disso: necessita que a maioria esteja sempre constrangida pelas minorias. O fascismo nasceu de alianças (atenção: “alianças”) que pregavam o uso da força pela maioria. Seu símbolo era um feixe (fascio), espécie de machado revestido de varas de madeira, de origem romana. 

Os atuais cartesianos propalam que o governo não tem nada a ver com isso mas é tão somente de extrema-direita. Não querem ver os paralelos orgânicos, não estatutários, que, de analogia em analogia, de ofensa em ofensa, de exclusão em exclusão, vão espraiando o fascismo pelos grotões da República.

Enquanto o Brasil esvazia BNDES, a China cria um BNDES dela aqui

O maior problema da discussão política são as aparências. Muitas vezes elas nos enganam. Aqui na Tribuna da Internet, é comum surgirem comentários propondo a privatização ou até extinção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Esse tipo de colocação resulta da ignorância reinante sobre a importância da atuação do banco nos diversos ciclos de crescimento socioeconômico que levaram o Brasil a se tornar uma das dez maiores economias do mundo.

Os defensores da extinção ou privatização do banco de fomento esquecem que o Brasil somente se industrializou porque o BNDES oferecia ao empresário brasileiro juros no padrão internacional. Criado através da Lei nº 1.628, em 20 de junho de 1952, durante o governo constitucional de Getúlio Vargas, o então BNDE (sem a rubrica Social) surgiu com a dupla incumbência de realizar planejamentos e implantar políticas consideradas fundamentais para o avanço da industrialização. Em síntese, o Banco seria o principal formulador e executor da política nacional de desenvolvimento econômico. E cuidou brilhantemente dessa atribuição.


No início da década de 90, o governo da China enviou uma delegação de economistas ao Brasil para estudar o funcionamento do BNDES, que era então o maior banco de desenvolvimento do mundo, com capital superior ao do grupo bancário KfW, o BNDES germânico, cuja atuação foi fundamental para a recuperação econômica da antiga Alemanha Oriental.

Com base na estrutura enxuta do BNDES, o governo chinês criou sua própria instituição de fomento – o Banco de Desenvolvimento da China, que hoje é o maior do mundo, e trabalha em conjunto com o Eximbank chinês, enquanto no Brasil o BNDES acumula as duas funções – apoio à indústria e às exportações.

Essa história nada tem de original. Parodiando o cineasta George Stevens, pode-se dizer que assim caminha a Humanidade, porque as iniciativas que dão certo num país são logo adotadas por outras nações.

O que se deve estranhar é que, enquanto no Brasil é defendida a privatização ou até extinção do BNDES, um dos maiores grupos industriais de China, a estatal XCMG, anuncia a criação de um banco no Brasil para competir com o BNDES no financiamento de equipamentos industriais e agrícolas.

Grupo XCMG pretende financiar por meio da instituição R$ 300 milhões em até cinco anos. Esse banco que está sendo criado no Brasil é o primeiro no mundo, porque mesmo na China, o grupo não atua no sistema financeiro

“O banco pretende ajudar muito a infraestrutura brasileira, oferecendo máquinas melhores a juros baixos”, afirmou o presidente da instituição, Wang Min, em entrevista à Folha de S.Paulo no último dia 6.

O grupo XCMG pretende financiar por meio da instituição R$ 300 milhões em até cinco anos. A criação do banco foi autorizada pela equipe econômica (leia-se: Banco Central) em outubro de 2019 e o início da operação está previsto para o primeiro trimestre deste ano.

Em novembro, a China direcionou mais de US$ 100 bilhões de pelo menos cinco fundos estatais para uma nova rodada de investimentos no Brasil. Pequim também sinalizou com uma expansão do crédito por meio de seus bancos no Brasil para competir principalmente por clientes do agronegócio e da indústria.

Em tradução simultânea, o banco chinês deve competir diretamente com o BNDES, servindo como linha auxiliar para a China dominar o crescente mercado brasileiro das máquinas agrícolas, em prejuízo da indústria nacional, cada vez mais sucateada.

Pensamento do Dia


Davos verde e o Brasil

Em 1971, Klaus Schwab organizou o Simpósio Europeu de Gestão. A partir de 1987, passou a ser conhecido como o Fórum Econômico de Davos, Genebra. Desde então, o Fórum se reúne, congregando chefes de Estado, cientistas, lideranças empresariais, acadêmicos, líderes políticos, jornalistas, um público eclético para discutir as questões estratégicas para o futuro da humanidade.

Segundo Schawb, os dois modelos de capitalismo – “o capitalismo de acionistas” e “o capitalismo de estado” – se esgotaram. Urge, segundo ele, dar um significado concreto ao que denomina de “capitalismo das partes interessadas” (stakeholders capitalism). A rigor, é um reconhecimento tardio de que a noção de progresso, gestada no industrialismo, revelou-se insustentável diante dos limites ambientais e do imperativo ético de maior equidade social.

Neste novo desenho, estão estabelecidas premissas que jamais deveriam ser ignoradas e novas premissas, completando um amplo compromisso entre as “partes interessadas”: pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético de informações privadas na era digital (sobre o assunto é imperdível o documentário “Privacidade Hackeada”), vigilância dos direitos humanos em toda cadeia de fornecedores, remuneração responsável dos executivos, proteção ao meio ambiente para as futuras gerações (empresários e banqueiros receberam uma carta assinada por Schwab e pelos presidentes do BanK of America, da gigante holandesa Royal DSM com o compromisso de zerar emissões líquidas de gases do efeito estufa de suas companhias, tornando-se neutras até 2050).

Pela dimensão ambiental, o encontro está sendo chamado de “Davos verde”: 51 painéis abordam ecologia, 50, geopolítica e 27, economia, enquanto que o painel “Assegurando o futuro sustentável para Amazônia” não tem representante do governo brasileiro.

Mais uma vez, nosso país ratifica as sábias palavras de Mario Henrique Simonsen: “O Brasil é o país das oportunidades perdidas”. Para nós, a questão ambiental não é um limite, mas uma oportunidade singular para consolidar a economia de baixo carbono e dela aproveitar as vantagens competitivas no mercado internacional. É ocioso mencionar nossas potencialidades; limitar o debate a conflitos pontuais com foco na eficácia dos instrumentos de controle e de comando.

Eis o grave equívoco do governo: o olhar periférico sobre o tema em prejuízo da percepção conceitual do fenômeno. Não há caminho fora do diálogo eco-eco. Foi-se o tempo em que custo ambiental era uma “externalidade” à função de produção. Hoje tem preço mensurável e valor ético. O Brasil vem perdendo suas cores. Resta o cinza.

Corra!

Toda dia na África um leão acorda.
Ele sabe que deve correr
mais do que a gazela ou morrer de fome.
Todo dia na África uma gazela acorda.
Ela sabe que deve correr mais que o leão ou morrer.
Quando o sol surge no horizonte
não importa se você é leão ou gazela.
Corra!
Anônimo

As lives e os tuítes de Bolsonaro importam para julgar seu governo?

Não há nada de errado numa fala informal e espontânea. Quando Bolsonaro faz uma piada improvisada sobre o preço da carne, isso não suscita críticas. A piadinha aí é uma marca de autenticidade que o aproxima do cidadão comum. Mas e quando a fala é uma arma de ataque? Ou quando ela mente?

Deveríamos nos preocupar ou nos ater apenas aos atos do governo e ignorar as falas como um ruído mais ou menos inócuo?

Não raro, o presidente, seus ministros ou seus filhos acusam pessoas ou instituições ou ofendem valores importantes de nossa sociedade.

Alguns exemplos de acusações falsas: o presidente acusou Ricardo Galvão, então diretor do Inpe, de estar a serviço de ONGs. Acusou os ambientalistas de Alter do Chão de serem responsáveis por queimadas. Acusou um ex-assessor seu de participar do complô para matá-lo. O ministro da Educação acusou as universidades federais de cultivarem plantações extensivas de maconha. O ministro do Meio Ambiente insinuou que o Greenpeace estaria ligado ao vazamento de óleo no Nordeste.

A fala de um líder se presta a diversos fins: um deles é mover os sentimentos de quem os ouve, transmitindo medo ou esperança, ódio ou conciliação; agregar ou dividir. As paixões das massas guardam um enorme poder, e por isso também enormes perigos. O dia do Holocausto, lembrado nesta segunda-feira (27), nos mostra o poder de destruição de um povo tomado pelo medo paranoico e pelo ódio. Buscar levar as paixões do povo ao extremo é a marca de um líder que busca o poder tirânico.

A fala também revela os valores e o caráter de quem a profere. No passado, seria um motivo de vergonha para um presidente se ele xingasse uma deputada federal de gorda e fizesse desse humor seu motivo para desmerecê-la publicamente. Hoje, não. Essa conduta do presidente Bolsonaro é motivo de orgulho para seus seguidores, que celebram a cada “mitada”.

Por fim, a linguagem costumava ter uma outra finalidade: comunicar a verdade. Regra que, se sistematicamente quebrada, acabaria com a razão de ser da fala. Em outros tempos, ser pego numa mentira flagrante —especialmente se dirigida contra alguém— era um motivo de desonra.

Hoje em dia, não. Mente-se e acusa-se impunemente, sabendo que na cacofonia ininterrupta de tuítes e gritos tudo isso será esquecido. Ficamos anestesiados à verdade, que aliás é impossível de ser devidamente averiguada se cada um fala uma coisa diferente e quem mente não responde por seus atos.

Conforme a linguagem vai sendo desgastada, seu conteúdo deixa de importar. É tudo uma questão de ser pró ou contra o governo, numa luta de paixões cada vez mais violentas porque incapaz de ser resolvida com palavras, isto é, com a razão. A dualidade radical e inegociável entre amigo e inimigo, que, num momento de crise terminal ou estado de exceção é realmente o fator determinante da política, se transforma no estado de espírito normal do cotidiano.

As tais “instituições” que garantem a democracia existem apenas em nossas mentes; existem na medida em que pessoas limitam algumas ações em nome do respeito a certas regras que, mesmo que não as beneficiem naquele momento, são importantes para o funcionamento justo do sistema.

Se, à custa de calúnias e teorias da conspiração, uma parcela relevante da população passar a odiá-las, a democracia estará em risco. Neste momento, ela resiste. Mas será possível cravar que o trabalho presidencial de corroê-la gradativamente por meio das palavras não terá efeito nenhum? Eu não iria tão longe.
Joel Pinheiro da Fonseca

Minha triste lembrança de Auschwitz

Há 41 anos entrei pela primeira vez na memória do campo de concentração de Auschwitz como enviado especial deste jornal por ocasião da primeira visita de um Papa, a do polonês João Paulo II, a um campo de concentração nazista.

Perguntam-me hoje o que senti há 41 anos ao pisar naquele lugar de tragédia e morte onde mais de um milhão de pessoas perderam a vida. Se for verdade que um jornalista, assim como um cirurgião, deve deixar seus sentimentos pessoais em casa na hora de recolher os fatos da vida para contar aos outros, também é verdade que às vezes isso é impossível. Assim foi para mim aquela visita a Auschwitz, que convulsionou meus sentimentos e ainda não foi apagada da memória.

No portal, "o trabalho liberta"
Também tive o privilégio de ser o único jornalista que conseguiu entrar com o Papa polonês na câmara da morte, onde deixavam os prisioneiros morrerem de fome e sede. O Papa estava acompanhado por um senhor idoso que carregava um maço de flores vermelhas nos braços. Era um dos prisioneiros que tinha se salvado de entrar naquela câmara da morte porque um companheiro, que era padre, o hoje canonizado por aquele Papa como São Kolbe.

Naquele dia tive a intuição de ir antes do resto dos jornalistas ao campo para ter uma experiência pessoal da visita. Ainda me lembro do calafrio que senti percorrendo aquele lugar de morte. Só não me atrevi a entrar nos fornos crematórios onde crianças e mulheres foram queimadas.

O Papa estava acompanhado, entre as autoridades do Vaticano, do substituto da Secretaria de Estado, o monsenhor espanhol Eduardo Martínez Somalo, um progressista que me conhecia e me acenou para que eu pudesse entrar com as quatro ou cinco pessoas que acompanhavam o Papa. Contaram-nos que quando colocaram naquela câmara da morte o prisioneiro Maximiliano Kolbe, que havia se oferecido para morrer no lugar de seu companheiro de campo que tinha família e vários filhos, todos iam morrendo, exceto ele, que continuava vivo e rezando. Como precisavam de espaço para colocar outros condenados à morte, acabaram lhe dando uma injeção letal.

De Auschwitz, o Papa foi visitar o campo de Brzezinka, a três quilômetros de distância, onde havia túmulos escritos em todas as línguas. O que mais impressionou foi a visita do Papa ao túmulo escrito em hebraico e ao escrito em russo. Diante daquele escrito em hebraico, lembrando a tragédia do Holocausto sofrido pelo povo judeu, o Papa disse que estava “diante de um novo Gólgota” e que ninguém podia passar indiferente por aquele túmulo. Diante do túmulo escrito em russo, improvisando algumas palavras que não estavam no discurso oficial, faz uma apologia do que a Rússia havia feito para libertar a Europa da tragédia da Segunda Guerra Mundial.

As boas relações entre o Papa polonês e o povo judeu eram conhecidas, a ponto de que se chegou a escrever que Wojtyla era viúvo quando decidiu se tornar sacerdote. Parece que tinha como noiva uma jovem judia com quem, antes de ter sido levada para um campo de concentração para morrer, havia feito um casamento de consciência.

O que surpreendeu em suas palavras a favor do papel da Rússia foi a ênfase em defender o papel de libertadora, uma vez que era conhecida a oposição radical que o Papa tinha com os comunistas na Polônia. Lá, porém, João Paulo II esqueceu sua ideologia para fazer um apelo ao mundo sobre a defesa dos valores da liberdade.

De Auschwitz, permiti-me levar naquele dia uma flor minúscula, uma espécie de cíclame que brotara entre duas pedras ao lado da cerca do campo. Aquela flor ficou na minha carteira durante muito tempo, junto da minha carteira de identidade. Um dia, caiu nas mãos de alguns policiais. Tinham me parado em uma estrada na Itália. Aparentemente, um dos faróis do meu carro não estava funcionando. Pediram-me a carteira de identidade e com ela veio a pequena flor já seca. Um dos policiais a viu e, muito à italiana, me disse que não me multaria porque eu “era muito romântico”. Nunca imaginou que aquela flor era qualquer coisa menos romântica. Carregava todo o peso da memória do inferno do Holocausto.

Teólogos da Igreja luterana escreveram que depois de Auschwitz “não seria mais possível acreditar em Deus”. O que se pode perguntar, 75 anos depois daquela loucura de morte, é se ainda é possível continuar acreditando no homem e nos valores da civilização. E se o mundo não está dando motivos hoje, com suas tentações de retorno à barbárie, para desconfiar que tenha aprendido e para sempre com aquela que foi uma das experiências mais trágicas perpetradas pelo Homo sapiens.
Juan Arias

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Pensamento do Dia


O que está nos afundando não é pobreza, e sim a irresponsabilidade e ganância dos ricos

Injusta, a sociedade brasileira tornou-se politicamente disfuncional. Em termos de procedimentos democráticos, a partir de um certo grau de desigualdade, a sociedade apenas multiplica conflitos, tensões e ódios. No brasil, já temos quase um milhão de pessoas nas prisões, 40% delas sem julgamento; e matamos anualmente 60 mil pessoas, majoritariamente jovens homens negros. Em 2018, a polícia matou uma média de 14 pessoas por dia. E temos palhaços explicando que não matamos o suficiente.

O clima generalizado de insegurança criado no país gera precisamente comportamentos sociais patológicos, busca desesperada de bodes expiatórios, de “culpados” sobre os quais possam ser descarregados os medos e os ódios. Campo fértil para oportunistas.

Os processos sociais colaborativos, únicos portadores efetivos de progresso, são substituídos por divisões que nos polarizam. Isso se dá com Macri, com Piñera, com Bolsonaro, com Trump, com Erdogan, com Duterte, com Boris Johnson, com Orbán e tantos outros.


O problema não está na boçalidade desses líderes, sempre haverá boçais ambiciosos, mas sim no fato das massas desesperadas votarem em qualquer candidato que se apresente “contra tudo isso aí”; e, em particular, na disposição das elites em entregar o país a esses boçais, conquanto possam manter ou ampliar seus privilégios.

Na raiz do problema está a desigualdade, a acumulação de privilégios absurdos frente a uma população cada vez mais indignada. Os mais ricos, para assegurarem o futuro das suas famílias – justificativa tão frequente para as fortunas que acumulam – fariam melhor em contribuir com a construção de uma sociedade equilibrada, que funcione para todos.

Politicamente, no sentido de fazer a sociedade funcionar no seu conjunto, o sistema está falido. Em termos econômicos, o sistema é literalmente burro. O que é particularmente chocante, e vem sendo objeto dos meus trabalhos, como o livro “A Era do Capital Improdutivo”, mas também de inúmeros pesquisadores de primeira linha, como Joseph Stiglitz, Thomas Piketty, Paul Krugman, Amartya Sen, Michael Hudson, além de um conjunto de núcleos de pesquisa econômica e social na Unicamp, na PUC-SP, na UFRJ e em outros centros, é que manter a renda e a riqueza concentradas em poucas mãos paralisa as nossas economias.

Lembremos que o problema é mundial. Atualmente 26 pessoas no mundo acumularam mais riqueza do que possuem 3,9 bilhões de pessoas, metade mais pobre do planeta. A América Latina apenas apresenta uma deformação mais grotesca do processo global de financeirização.

Particularmente importante é entender o mecanismo. Stiglitz mostra que acumular riqueza aumentando a produção é diferente de enriquecer se apropriando da riqueza dos outros. O imenso sucesso de “O Capital no Século XXI”, de Piketty, se deve, essencialmente, do fato dele conseguir demonstrar que o PIB mundial vem crescendo numa faixa de 2,5% com a produção concreta de bens e serviços, enquanto as aplicações financeiras, constituídas essencialmente por especulação improdutiva, rendem entre 7% e 9%. Ou seja: o capitalismo que investia e produzia foi substituído por um capitalismo que literalmente vive de especulação, o “capitalismo extrativo” nas palavras de Marjorie Kelly e Ted Howard.

A financeirização generalizada criou um capitalismo que funciona para o 1%, mas não para o resto do mundo. Os autores mencionados trazem todas as demonstrações científicas necessárias.

Mas particularmente útil, além dos cientistas, é olhar o que funciona na China, no Canadá, na Coreia do Sul, nos países nórdicos. O sistema que funciona foi igualmente aplicado no New Deal dos Estados Unidos nos anos 1930; na Europa do pós-guerra no chamado Welfare State; no Brasil, na década de 2003 a 2013, chamada pelo Banco Mundial de “a década dourada da economia brasileira”. Todas essas experiências consistiram na utilização do Estado para melhorar a situação das famílias, assegurando o bem comum. A fórmula é simples: com mais recursos para gastar, as famílias passam a consumir mais estimulando as empresas, que expandem empregos e investimentos produtivos. Tanto a demanda das famílias gera impostos sobre o consumo, receita para o Estado, como a atividade ampliada das empresas gera impostos sobre a produção, mais receitas para o Estado. E a conta fecha.

O Estado dispondo de mais recursos pode, por um lado, ampliar o bem-estar das famílias (que não se resolve apenas com gastos individuais), assegurando o acesso aos serviços de saúde, educação, segurança, rios limpos e semelhantes. Essa é a dimensão pública do bem-estar, com acesso gratuito e universal por parte da população.

Por outro lado, o Estado passa a ter recursos para investir em infraestruturas, como transporte, energia, telecomunicações e sistemas de água e saneamento, investimentos que melhoram a produtividade de todos, e em particular das empresas. Este duplo circuito, em que o ponto de partida, o “motor de arranque” por assim dizer, é orientar os recursos para o bem-estar das famílias, constitui o denominador comum das economias que funcionam, tanto no Canadá quanto na China, ainda que sejam países politicamente tão diferentes. É o chamado círculo virtuoso da economia.

O resto é narrativa. Dizer que temos de dar mais dinheiro aos ricos, para que eles tenham “confiança” e invistam, é uma tremenda enganação. Um empresário no Brasil, depois de seis anos de redução de direitos sociais e trabalhistas, constata desolado: realmente, está mais barato eu contratar mão de obra, mas para que vou contratar se não tenho para quem vender?

As empresas efetivamente produtivas não precisam de discursos ideológicos nem de narrativas, precisam da população com dinheiro para que tenham para quem vender; e precisam de crédito barato para poder investir. No Brasil, com os retrocessos gerados a partir de 2014, as empresas não têm nem um, nem outro.

Com diversos formatos e variações locais, este sistema mantém a América Latina travada nos planos ético, político e econômico. É o tecido social no seu conjunto que se desarticula. Mas os bilionários que pouco produzem, e drenam a economia por meio de sistemas de intermediação financeira e de acordos escandalosos com grupos internacionais, esses sim estão otimistas, compram mais papéis financeiros, acumulam mais dinheiro em paraísos fiscais, e se congratulam quando a bolsa ganha alguns pontos, como se se tratasse da economia real. Esta farsa está quebrando grande parte do planeta, mas em particular a América Latina. É hora de inverter os rumos.

Hoje olhamos com desolação a repressão e as mortes que se multiplicam. Acusados de serem desordeiros, o que os manifestantes querem é justamente a ordem, uma ordem que funcione. Hoje está cada vez mais evidente: a massa de jovens herdará um sistema que lhes tolhe o futuro e liquida suas oportunidades, e que vai acabar não funcionando para ninguém. O que está nos afundando não é pobreza, e sim a irresponsabilidade e ganância dos ricos.

O Brasil abaixo de todos

Difícil achar quem não goste das listas de melhores e piores. Os filmes vencedores, livros e músicas imperdíveis, lugares para conhecer ou viver. Há rankings para tudo, bem feitos, fajutos, engraçados. E os muito sérios. Nesses, o Brasil perde feio. Neles - Pisa/OCDE, IDH/ONU, OMS/Violência, Transparência Internacional, Human Rights Watch -, os países líderes concentram energia na educação, e, na maioria deles (a única exceção é a China), em justiça e democracia. Um tripé cada vez mais distante do Brasil de hoje.

A 106ª posição no ranking da corrupção entre os 180 países analisados pela Transparência Internacional, anunciada na semana passada, não pode ser atribuída ao presidente Jair Bolsonaro. Tampouco se pode dizer que seu governo, eleito com o mote anticorrupção, tenha feito algo positivo.
Ao contrário.

Como no ditado popular, no combate à corrupção o governo Bolsonaro tem sido o cão que não morde. Late muito. E só.

O presidente cria confusão ou arruma escaninhos novos para proteger sua prole. Se inocente fosse, não precisaria de puxadinhos como a mudança do antigo Coaf para o Banco Central, a suspensão de investigações e o meio ano de trapalhadas do presidente do STF, Dias Toffoli, para protelar entendimentos em benefício do filho 01. O “herói” Sérgio Moro, ex-juiz da Lava-Jato que virou ministro da Justiça, convive mudo com o laranjal do colega do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, indiciado pela PF, e com a rachadinha do filho do chefe.

Nada que contribua para reduzir a percepção de país corrupto captada pela Transparência Internacional.

Na educação, responsável número 1 pelo sucesso dos países com melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), melhor distribuição de renda (PINI) e pouquíssimos homicídios (OMS), a performance brasileira é um completo desastre.

Não só pelas baixíssimas notas do Pisa, mas pela barafunda que Bolsonaro patrocina na pasta, com um ministro performático, que, além de se preocupar mais em interpretar esquetes como o vexaminoso “cantando na chuva”, não domina nem mesmo o básico da língua pátria. E que tem o desplante de, em pleno rolo com o Enem, que espalhou injustiça e insegurança para milhões de jovens, indicar um criacionista convicto para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Os absurdos são de tal ordem que o ministro astronauta Marcos Pontes foi escorraçado nas redes por postar uma imagem da NASA para “provar” que a Terra não é plana. Isso na segunda década do século 21, em que jovens sul-coreanos de 15 anos estão discutindo física quântica e inteligência artificial. Os daqui, condenados ao terraplanismo.

Criacionista, terraplanista e adepto da abstinência sexual, transformada em política pública pela ministra pregadora Damares Silva. Esse é o jovem brasileiro que Bolsonaro prepara para o mundo, preferencialmente formado em uma escola militar.

Sétima economia mundial, posição que deveria se reverter em pelo menos um mínimo de dignidade para quem vive no país, o Brasil amarga - e vai continuar cada vez mais azedo se insistir na contramão - índices indecentes em todas as áreas. Quase metade da população não tem rede de esgoto e só 38% do coletado recebe tratamento. E está entre os líderes de desigualdade, com números de arrepiar até o capeta: 1% concentra 28,3% da renda nacional, 52,5 milhões (25,3%) vivem na miséria e outros 13,5 milhões (6,5%) na extrema pobreza.-

Um verdadeiro inferno.

Enquanto isso o líder maior da República dedica seu tempo em colher likes nas redes sociais, em alucinações e conspirações, na guerrilha contra um comunismo que não tem mais sobreviventes. Em enxovalhar jornalistas e outros desafetos. Cria uma crise por dia para esconder a do dia anterior.

Fala de Brasil grande e o faz menor, condenando o país a continuar na lanterna de todas as listas.

Deu ruim na humanidade

Eu sei que a humanidade está num momento difícil. Você sabe que a humanidade está num momento difícil. Afinal, não teríamos Jair Bolsonaro e Donald Trump no poder, entre outros espécimes nocivos à sobrevivência da espécie, não estivesse a humanidade num momento muito confuso sobre suas prioridades. No sábado, 25 de janeiro, porém, eu tive certeza sobre o fim do mundo como o conhecemos. Nesta data, não observei pinguins nem baleias nem focas. A espécie sob minha observação era o homo sapiens em estado de absoluta negação.

Estávamos prontos para desembarcar do Arctic Sunrise e embarcar num bote que nos deixaria em Hannah Point. Era início da manhã e seguiríamos os cientistas de pinguins em sua pesquisa nesta nova ilha. E então Nacho, o argentino que é o segundo em comando no navio, informou que não seria possível. Teríamos que esperar até o início da tarde. Parem e tentem adivinhar o porquê.

Previsão de tempestade? Uma dobra no espaço-tempo? O abominável homem das neves?

Não, meus amigos. Os mais de cem turistas de um navio de cruzeiro queriam estar sozinhos na ilha. Sim, meus amigos. A visão dos cientistas pesquisando o impacto da crise climática sobre as colônias de pinguins arruinaria a ilusão da Antártida isolada, da aventura num lugar que ninguém alcança exceto se tiver muito dinheiro, a fantasia de serem uma espécie de Shackleton ou Scott do século 21.

Turismo dos endinheirados invade a Antártida
A discussão pelo rádio, entre os navios do Greenpeace e o cruzeiro rolava desde as 6h30 da manhã. O business venceu a queda de braço. Não é bom fazer inimigos em águas profundas. Esta é a lógica dominante no nosso mundo: o turismo é mais importante do que a ciência. Os seis cientistas atrapalhariam os mais de cem turistas – e não o contrário. Para os seis cientistas não havia problema em conviver com mais de cem turistas. Mas os cem turistas não queriam conviver com os seis cientistas. A falsificação da realidade é a melhor realidade. E também a mais bem paga.

Funciona assim. Há um acerto entre os cruzeiros para que, quando um deles está numa ilha, os outros saem da linha de visão. Os turistas pagam caro pela promessa de se sentirem únicos: neste caso, quase 60 mil reais por 14 dias (perto de 14 mil dólares). Pode ser muito mais, a depender do percurso, do tipo de cabine, do número de dias. A mercadoria é a Antártida inalcançável, exceto para poucos. “Só eu estou aqui, me chamem de Amundsen”, pode ser a legenda da selfie. Só que não. Virando a esquina uma fila de navios espera a sua vez de ficar “isolado” no continente gelado.

Para que eles tivessem essa “experiência”, seis cientistas tiveram que interromper sua pesquisa e esperar até a tarde, quando o tempo piorou e a permanência em campo foi encolhida. Os cientistas precisaram desembarcar nas pedras para alcançar o coração da ilha porque, com as más condições meterorológicas, o bote era muito leve para aportar num lugar de melhor acesso. “Que estranho”, comentou um perplexo Noah Stryker, o nerdbird que apresentei a vocês no capítulo anterior. “Os turistas costumavam gostar de conversar com a gente, achavam que era mais uma história para contar quando voltassem para casa.” Com tristeza expliquei a ele que, num momento em que a verdade se tornou uma escolha pessoal, a ciência e os cientistas estão se tornando párias. Mesmo que, para afirmar que a terra é plana ou fingir estarem isolados, tantos os mercadores de ilusões quanto os compradores de ilusões precisem do melhor da ciência.

Esta não é uma curiosidade. É um desacontecimento que revela o quadro maior de acontecimentos em cadeia que nos traz à dramática realidade que vivemos. É também por essa inversão das prioridades que vivemos hoje um colapso climático. E é também a dificuldade de mudar nossas prioridades que torna a meta de limitar o superaquecimento global a 1,5 graus cada vez mais distante, para não dizer impossível.

É o “terraplanismo”, como chamamos o fenômeno maior de negar as evidências científicas mais consolidadas, como o próprio formato do planeta. O número crescente de adeptos sugere que, no momento em que os humanos mais precisam de lucidez é justamente quando entram em estado de negação. Quem acompanha minhas colunas de opinião sabe que uma de minhas hipóteses para a eleição de déspotas é o sentimento de insegurança diante do futuro. Mas não pela indeterminação do futuro. Exatamente pelo contrário.

O futuro, como o conhecíamos antes, era um território de possibilidades. “No futuro será melhor” ou “no futuro atingiremos esse objetivo” ou mesmo “no futuro conseguiremos nossa casa própria”. Agora não. A crise climática conferiu determinação ao futuro. Ele será ruim, do ponto de vista do impacto da mudança do clima. Toda a nossa luta pelo futuro se dá em torno de um planeta pior ou um planeta hostil. E, acreditem, a diferença é enorme. Tão enorme que deveríamos todos estar lutando por ela neste exato momento. Me parece que também por isso, parte da população global prefere votar em negacionistas do clima que também prometem uma volta a um passado que nunca existiu. Trump e Bolsonaro, assim como outros de seus coleguinhas, são vendedores de passados. Passados falsos.

Não tive chance de entrevistar os turistas do navio de cruzeiro que pagam tão caro pela fantasia de estarem isolados na Antártida das lendas. Eles nos queriam longe da vista, como ficou explícito. Não me parece, porém, que devam ser más pessoas ou declaradamente anti-ciência. Me parece mais possível que sejam típicos adultos mimados desta época. Pagamos por uma mercadoria e temos “o direito” de recebê-la. “A verdade é a que eu vou contar”, a prova é o enquadramento da câmera do celular. E assim por diante. A verdade é autoverdade, como já escrevi ao analisar a eleição de Bolsonaro.

Aqui, também os navios de cruzeiro estão literalmente vendendo um passado, o da Antártida inacessível. Em algumas ofertas de viagem pela Antártida, os potenciais clientes não são chamados de turistas, mas de “exploradores”. É curioso como tantos preferem pagar mais caro pela fantasia. Tantos deixam o conforto de suas casas para empreenderem um percurso real e pago com dinheiro real, mas para alcançar uma realidade falsificada. Na ilha que os turistas ocuparam como os únicos humanos, os pinguins de barbicha (chinstraps) vivem uma dramática redução de sua população. Esta é a história que os cientistas poderiam contar. Mas essa história não interessa. Quem, afinal, precisa de fatos?

Num planeta em que tudo já virou imagem, em que a marca de nosso pé está em todos os lugares, acabo por sentir compaixão por esses animais humanos que seguem comprando fantasias de exclusividade. É uma compaixão misturada à raiva, porque essa negação enfraquece a luta que deveríamos estar travando por políticas públicas para conter o superaquecimento global e nos adaptar ao mundo que está vindo. Antes de amaldiçoarmos os turistas antárticos, o que sempre é fácil e também cômodo, porém, devemos olhar para dentro de nós e descobrir que também temos dificuldade de abandonar velhos hábitos em nome do bem comum. Acreditem, há quem sequer é capaz de reciclar seu lixo ou reduzir o consumo de carne.

Hoje, os cientistas se tornaram a verdade inconveniente. Então, precisam ser tirados da vista. E não apenas na Antártida.
Eliane Brum, sétimo relato do diário de bordo no navio Arctic Sunrise, na Antátida

domingo, 26 de janeiro de 2020

Os despreparados

“Despreparados” era como parte da população, em especial os industrialistas, se referia aos nazistas em 1933 quando Hitler foi nomeado chanceler. Como não tinha o partido qualquer proposta econômica que articulasse uma agenda de medidas para resolver os problemas da Alemanha em meio aos diversos entraves internos e à Grande Depressão, a “visão convencional” era a de que os nazistas não seriam capazes de se manter no poder. As críticas de Hitler ao capitalismo, centradas em seus excessos e no suposto domínio do sistema por forças estrangeiras, não formavam uma base coesa a partir da qual se pudesse elaborar políticas econômicas para a Alemanha no período entreguerras.

Foi assim que muitos sucumbiram facilmente à ideia de que mais cedo ou mais tarde os nazistas perderiam o apoio daqueles que haviam sido responsáveis por sua ascensão. A economia, entretanto, haveria de crescer 10,5% entre 1933 e 1935, o que acabou por consolidar as bases políticas do nazismo, formadas por camadas diversas da população, notavelmente os industrialistas e detentores do poder econômico, antes árduos críticos de Hitler.


Por que escrevo sobre o nazismo? Porque a Alemanha nazista foi o exemplo mais extremo do nacionalismo econômico posto em prática. Como já comentei, estou escrevendo um livro sobre esse tema. Parte do livro trata de uma metodologia para “medir” o grau, ou a intensidade, de motivações nacionalistas nas diversas esferas da política econômica — da política macroeconômica à política comercial, da política industrial ao tratamento conferido aos investidores estrangeiros. Para medir a intensidade do nacionalismo pontuações de 1 a 5 foram estabelecidas, em que 5 é o grau mais extremo possível — as referências históricas para elaborar a pontuação mais alta da escala são a Itália de Mussolini e a Alemanha nazista.

A recuperação econômica entre 1933 e 1935 conferiu a Hitler a legitimidade e o poder de que necessitava para levar a cabo seus planos. Planos que resultaram em crimes hediondos contra a humanidade, para não falar da completa destruição das instituições democráticas da Alemanha.

Diante dos horrores inomináveis do nazismo, é espantoso o sucesso econômico do regime antes da guerra. Após a consolidação do poder de Hitler, a Alemanha cresceu quase 13% entre 1936 e 1939, a fase áurea do Terceiro Reich. A inflação foi de apenas 1,8%, e o desemprego caiu de 44% no início dos anos 1930 para 1% às vésperas da Segunda Guerra Mundial. O triunfo do nazismo na economia se deu pelo nacionalismo mais extremista e escancarado. Não é exagero dizer que todas as esferas econômicas eram de alguma forma controladas pelo Estado, ainda que os industrialistas e os “mercados” de então fossem agentes privados. Agentes privados cooptados pelo Estado, dado o sucesso incomparável das medidas de cunho nacionalista.

O nazismo se escorou na expansão fiscal, nos controles cambiais, na eliminação das práticas de livre-comércio e na cartelização da economia para promover o crescimento. A cartelização foi muito bem recebida pelas grandes empresas industriais ao lhes conferir vultosas margens de lucro. Tais margens de lucro foram ainda beneficiadas pela total eliminação dos movimentos trabalhistas e dos sindicatos.

A marca do nazismo na economia — assim como do nacionalismo totalitário de Mussolini — foi a capacidade de reprimir salários e de instituir reduções dos rendimentos nominais. Por essas razões, pôde a economia crescer a taxas exorbitantes com inflação ineditamente baixa, a despeito dos excessos fiscais — entre 1932 e 1938, o déficit público aumentou de 1,1% do PIB para 7,9%. O resultado da compressão salarial foi uma forte redução do consumo como proporção do PIB e uma alta expressiva do investimento, tanto público quanto privado — as empresas, afinal, estavam esbanjando recursos com a opressão dos trabalhadores e a tolerância do regime com a concentração do mercado.

Para quem ainda confunde nazismo com socialismo, ou com comunismo, ou com políticas ditas “de esquerda”, é importante sublinhar que a compressão salarial na Alemanha nazista foi única. Até hoje, nenhum país foi capaz de replicá-la.

Quando deslanchou, olhos se fecharam e relativizações do totalitarismo em curso viraram regra. O nazismo não é o único exemplo de erro histórico cometido por aqueles que optaram por separar a economia do restante do governo devido à contradição em termos de uma moral privada dos mercados. É, entretanto, o exemplo mais assustador de como o despreparo se transforma em absoluto horror com a conivência daqueles que detêm o poder econômico.
Monica de Bolle

Brasil lá fora

Cartaz de protesto na Índia (Francis Mascarenhas -Reuters)

Um governo que apequena o Brasil

O governo cria suas próprias crises e é autofágico. Não haveria problema com esta inclinação de se consumir, exceto pelo fato de que isso atinge o próprio país. Nos últimos dias, ele criou problemas em dose excessiva até para os seus padrões. O presidente anunciou que poderia criar o Ministério da Segurança e 24 horas depois disse que isso tem chance zero. O ministro Paulo Guedes falou em criar o “imposto do pecado” e o presidente desmentiu. Mas isto é o governo andando em círculos e se consumindo em seus improvisos e brigas de facções. O que realmente importa é o que atinge o Brasil.

A cúpula financeira se reuniu em Davos, durante a semana, e deu um recado claro de que o rumo mudou e que o dinheiro irá para investimentos e países que tenham compromissos com o combate às causas da mudança climática. O Brasil foi para a reunião despreparado, o ministro da Economia fez um improviso infeliz e o presidente, na sexta, aqui no Brasil, deu uma declaração sobre os indígenas brasileiros que revela preconceito.


O Brasil errou muito, ao longo da sua história, na relação com os povos originais desta terra. Durante a ditadura, o governo seguiu a orientação de que era preciso “integrar”, forçar o contato, transformá-los em soldados, em moradores de áreas próximas às cidades. Foram muitos os absurdos e todos eles provocaram mortes e destruição cultural de várias etnias. Ao fim do regime militar, o país enfim formulou uma política indigenista de respeito às profundas diferenças entre os diversos povos, seja em estágio de contato com os não indígenas, seja em ritos de suas culturas. Estabeleceu que jamais forçaria o contato com os que se isolassem, a não ser que fosse para protegê-los, e intensificou o esforço de demarcação. Ficou escrito na Constituição que a terra é da União, mas nela os índios vivem. Os povos indígenas que estão na Amazônia são parte da estrutura de proteção das florestas, como se pode ver pelas imagens de satélites e se pode conferir em visitas às aldeias.

O presidente demonstrou em uma única fala toda a carga de preconceito que tem em relação aos indígenas. “O índio está evoluindo e cada vez mais ele é um ser humano igual nós”. A frase é tão ruim que dispensa críticas. Essa mesma ideia da sub-humanidade dos índios está contida em outras declarações do presidente. Revela preconceito e também desconhecimento do assunto. Se fosse só uma frase. Mas há toda uma política que ameaça repetir erros velhos e trágicos que resultaram em muitas mortes.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entendeu o que está contido nos muitos documentos dos gestores de fundos e dos administradores de bancos durante a reunião do Fórum Econômico Mundial e disse ao “Valor” que “o tema ambiental afeta o fluxo financeiro”. Exato. Foi o recado de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), foi o que disse o BIS, orientador dos bancos centrais. Foi o que disse Larry Fink, do BlackRock, o gestor do maior fundo do mundo em carta aos presidentes de empresas. O TCI, fundo de hedge conhecido por práticas agressivas, avisou que a mudança climática será critério para os seus investimentos. George Soros vai investir US$ 1 bilhão em uma universidade com o objetivo de combater o que ele chama de “desafios gêmeos”: a mudança climática e os governos autoritários. O Goldman Sachs não vai trabalhar na abertura de capital de empresas nas quais não haja diversidade em seus conselhos de administração. Até o capital veio mudando nos últimos anos, só o governo não viu. Esse encontro de Davos parece ter sido o ponto da virada.

O Brasil tem 60% da maior floresta tropical do mundo, a parte mais significativa da maior bacia hidrográfica e 300 povos indígenas. Poderia ter chegado a essa conversa com todo o amadurecimento que o tema já teve no país nos últimos anos. Mas o governo apequenou o Brasil. E, com o seu discurso ultrapassado, põe em risco a nossa inserção no mundo.

A criação do Conselho da Amazônia foi anunciada sem ter conteúdo. Por enquanto é só um nome. Para que este conselho funcione na direção certa será necessário que o governo abandone os preconceitos e os equívocos nas políticas ambiental, climática e indigenista. O governo precisaria entender, afinal, o tesouro imenso que é a diversidade ambiental e humana do Brasil.

Sem escola, fecha-se

No Brasil, podemos agregar milhões ao mercado do livro. Basta ter escola decente. É necessária uma rede escolar
Luciana Villas-Boas

O mercado não se importa com a democracia?

Um medidor da qualidade da água de um rio mede apenas a água que passa por ele e, se o faz com precisão, cumpre bem sua função. Ninguém esperaria que seus números refletissem também o nível de desemprego no país, a desnutrição infantil ou a chance de o país entrar em guerra.

Indicadores econômicos e números do mercado financeiro seguem a mesma lógica: nos informam acerca de um recorte da realidade, e só. Se a bolsa bate novos recordes, significa que os investidores estão otimistas com o desempenho futuro das empresas ali negociadas, não da seleção de futebol ou da democracia brasileira.

Em última análise, o desempenho das empresas depende do comportamento dos consumidores e outros participantes do mercado. Você vai mudar seu consumo, deixar de comprar leite ou carne, por causa do discurso nazista do ex-secretário da Cultura? Vai pedir demissão do seu emprego?

O governo também não mudará seus gastos e nem sua arrecadação. Assim, por mais que a agenda cultural aponte para um retrocesso das artes, não há motivo evidente para que isso devesse gerar queda na bolsa ou alta da taxa de câmbio.

Quando Bolsonaro desferia ataques gratuitos a Rodrigo Maia durante as negociações da reforma da Previdência, suas falas podiam ter impacto na reforma e, portanto, no futuro das contas públicas. Foi pelo potencial de impacto econômico, e não pelo absurdo político, que as falas de Bolsonaro tiveram impacto no câmbio naquele caso.

Não faz sentido criticar indicadores econômicos em termos éticos, porque eles não têm como medir a ética. O que faz sentido, aí sim, é criticá-los em termos econômicos. O profissional do mercado financeiro é tão irracional quanto o restante da espécie humana, e dado aos mesmos vieses intelectuais. E não é segredo para ninguém que muitos (não todos) são fãs do governo Bolsonaro e de Paulo Guedes.

Talvez a torcida exagerada explique por que, em janeiro de 2019, o boletim Focus previa crescimento próximo de 2,5%. Ao fim do ano, as projeções haviam se reajustado para 1,1%. A simpatia pelo governo pode levar a desconsiderar os riscos do flerte autoritário para a estabilidade econômica do país (assim como antipatia pode levar a superestimá-los).

“O mercado” —substantivo enganoso, pois se refere a milhares de agentes independentes e que muitas vezes discordam entre si— já errou muitas vezes e pode errar agora. Para os críticos, é uma oportunidade de ouro: se o mercado está erroneamente otimista, é o momento de apostar contra e faturar alto.

Não existe incoerência nenhuma entre PIB em crescimento e repressão em alta. É só ver a China. Isso não significa que investidores não se importam com a democracia ou com o social. Significa que, seja qual for o regime, as pessoas continuarão consumindo e buscando emprego.

O crescimento do PIB —ou os índices da Bolsa— nada nos diz sobre diversos fatores essenciais de uma boa sociedade: distribuição de renda, preservação ambiental, felicidade, qualidade da democracia. É possível a economia crescer enquanto a Amazônia queima? Sim. E enquanto o presidente flerta com a ditadura? Também.

Se um governo nazista limpasse um rio, o medidor da qualidade da água registraria melhora, e isso não diria nada sobre todas as outras coisas que importam. Não adianta se indignar com indicadores por fazerem seu trabalho. Só tenha em mente que a realidade é muito mais ampla do que qualquer um deles.