quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Qualquer previsão sobre o resultado das eleições pode ser furado

Antigamente, leitor, mas não tão antigamente (no meu tempo, por exemplo), ninguém jamais aventurava sobre qual seria o sexo do filho (ou filha) que estava para nascer. Existiam crenças, provenientes das dedicadas parteiras. Às vezes, algumas delas acertavam – por sorte, experiência ou sabedoria. O médico nem sempre estava por perto, a não ser em algum parto crítico, que necessitasse de intervenção cirúrgica. Se a barriga tiver esse formato, será mulher; se tiver aquele, será homem – diziam avós entendidas do assunto. Você poderia preferir a vinda de um menino (ou de uma menina), mas todos eram sempre bem-vindos.

Lembrei-me dessa época porque o quadro eleitoral que velozmente se avizinha está totalmente imprevisível. Faz-nos recordar daquele outro dito: “De cabeça de juiz, barriga de mulher e urna eleitoral nunca se sabe o que virá”. E, também, porque li a crônica do jornalista Arthur Xexéo, “A falta da falta de assunto”, publicada no jornal “O Globo”, no último domingo. Xexéo despertou em mim, talvez mais do que nele, saudade de cronistas que conheci pessoalmente – como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, José Carlos de Oliveira (o Carlinhos) e Rubem Braga. Ao citá-los, Xexéo jamais imaginou que provocaria em mim doída saudade do meu irmão Otto Lara Resende.

“Hoje no Brasil, nenhum cronista sofre por falta de assunto. A gente sofre por excesso de assunto. É assunto demais para pouca crônica”. A inveja confessada por Xexéo não é só em consequência do reconhecido talento dos cronistas citados: “Invejo-os – frisou ele – por terem exercitado o gênero numa época em que o cronista podia se dar o luxo de não ter assunto. Invejo-os porque eles podiam chegar diante da máquina de escrever com nenhum tema em pauta”.

Bem que poderia, leitor, deixar de lado os inúmeros assuntos, e, afinal, escrever, mas só depois de pedir licença ao capixaba Rubem Braga (conterrâneo do Carlinhos) sobre, por exemplo, o beija-flor que fez ninho na minha varanda, mas me traiu, sumiu e nunca mais apareceu. Podia dizer algo sobre o tempo em que, para adiar o infarto, me dediquei aos cuidados de uma fazenda, mas submetido às leis da natureza. Quando chegava lá, os problemas, bem como os assuntos, sumiam de vista. Minha mente, às vezes atormentada, me impunha o silêncio. Lembrava-me somente do que era ser de fato mineiro, definido e eternizado por Fernando Sabino: “Ser mineiro é ver o nascer do sol e o brilhar da lua, é ouvir o cantar dos pássaros e o mugir do gado, é sentir o despertar do tempo e o amanhecer da vida”. E o tempo se dissipava!

Depois do incêndio de parte do maior e mais precioso acervo da nossa história, tratada, quase sempre, como lixo, o dilúvio! Segundo o Gênesis, dilúvio é a inundação cataclísmica de toda a superfície da terra. Vivemos um verdadeiro dilúvio político! Políticos e eleitores, em boa parte, conseguiram sujar a política – que é o meio ou a única ponte viável capaz de nos levar ao regime democrático, nosso porto seguro. E, agora, para onde vamos? Essa seria, com certeza, a pergunta que faria minha mãe. Sua única resposta? Só Deus sabe!

O país está arruinado! Foi possuído pelo ódio entre duas “facções”. Mesmo assim, nada intimidados, só estamos de olho na carceragem da PF em Curitiba (Lula dirá o nome do poste…) e na UTI do Hospital Albert Einstein (Jair Bolsonaro é a salvação do país…). Que se virem os 206 milhões de brasileiros! Afinal, só Deus é quem sabe!

O trágico é se Deus faltar, cansado de tanta burrice!

Brasil com novo presidente


O enfrentamento da corrupção transnacional na América Latina

A Transparência Internacional acaba de lançar seu relatório “Exportando Corrupção 2018: Avaliando a Aplicação da Convenção Anti-Suborno da OCDE”, que monitora o cumprimento deste que é atualmente o principal marco global para coibir a corrupção transnacional. A Convenção determina que os países investiguem e imponham sanções a suas empresas nacionais por corrupção em operações no exterior. Ela ataca o que é ainda uma enorme incoerência, principalmente entre os países ricos, que coíbem significativamente a corrupção em seu território nacional, mas fecham os olhos para o suborno que suas empresas pagam no exterior – afetando principalmente as nações mais pobres. Cada vez mais, no entanto, os países emergentes também estão sendo cobrados a assumir as mesmas responsabilidades, pois a participação de suas empresas no comércio internacional há muito deixou de ser insignificante. No caso da América Latina, as autoridades ainda têm falhado na tarefa de combater a corrupção transfronteiriça.


Entre os países latino-americanos avaliados, a Colômbia e o México figuram na categoria mais baixa (“pouca ou nenhuma aplicação”); a Argentina e o Chile na categoria logo acima (“aplicação limitada”); e o destaque do relatório foi o Brasil, que alcançou a segunda categoria mais alta (“aplicação moderada”).

Epicentro do mega-esquema criminoso revelado pela Operação Lava Jato, o Brasil viu sua reputação ser prejudicada severamente nos últimos anos pela atuação corrupta de suas empresas no exterior. A Odebrecht, principal empresa do esquema, relatou ter subornado autoridades (na maioria dos casos chegando ao nível presidencial) em 12 países – dois africanos e nove latino-americanos, além do Brasil.

No entanto, a resposta contundente das autoridades brasileiras vem revertendo esta imagem negativa para uma muito mais positiva: a de um país que começou a enfrentar verdadeiramente o problema da corrupção e da impunidade. O trabalho dos procuradores da Força-Tarefa Lava Jato tem inspirado ações semelhantes em diversos países latino-americanos, além de estar fornecendo evidências valiosas para aquelas nações que firmaram a extensão do acordo de cooperação com a Odebrecht. Se as investigações brasileiras revelaram o maior caso de grande corrupção da história da região, elas também deram início à maior onda de investigações simultâneas de corrupção transnacional na história do continente.

Apesar dos avanços, ainda há sérias limitações na resposta das autoridades brasileiras no que diz respeito à corrupção de suas empresas no exterior. Os procuradores brasileiros da Força-Tarefa da Lava Jato dizem abertamente que, com a enormidade dos casos revelados e a escassez de seus recursos, a dimensão internacional dos esquemas não está entre as prioridades de investigação. Além disso, existe desconhecimento da maioria destas autoridades sobre a criminalização do suborno transnacional, apesar de esta conduta estar tipificada penalmente no Brasil há anos.

Outro grande desafio vem com o novo fenômeno dos acordos de colaboração (“acordos de leniência” e “delação premiada” como se chamam no Brasil) envolvendo múltiplos países. Não existe entre os países da América Latina regulação, jurisprudência ou institucionalidade para lidar com esta novidade; ao contrário do espaço europeu, que conta com sistemas integrados como Europol (o Serviço Europeu de Polícia) e o Eurojust (serviço que integra os sistemas de Justiça e Ministério Público do continente).

O acordo da Odebrecht com as autoridades brasileiras está marcado por inovações e improvisos principalmente em sua dimensão internacional. Alguns destes arranjos relativos às limitações no compartilhamento de provas e ao sigilo das informações são justificáveis, mas a realidade é que, após quase dois anos da celebração do acordo e entrega aos procuradores brasileiros de toda a informação dos crimes internacionais, muito pouco se avançou na apuração dos delitos nos países afetados. Alguns países aceitaram as condições impostas pelas autoridades brasileiras (dar imunidade à Odebrecht e seus executivos ou fechar seus próprios acordos de colaboração) e receberam as provas, mas, na maioria deles, o avanço das investigações e processos tem sido lento ou seletivo. Em outros casos mais extremos, como a Venezuela, as autoridades mantêm-se absolutamente inertes e até perseguem os procuradores que se atrevem a investigar os casos. Se a impunidade impera nestes países, há de se perguntar se o Brasil tem o direito de manter indefinidamente o sigilo das informações ou tem a obrigação de torná-las públicas para que haja maior pressão sobre estas autoridades para agirem.

É nestas águas não cartografadas que as autoridades brasileiras e latino-americanas estão navegando para lidar com o novo desafio da grande corrupção transnacional, que vem se somar ao rol de crimes globalizados que nosso continente já enfrenta, como o tráfico de drogas, armas e pessoas.

A última Cúpula das Américas, que se reuniu no Peru em abril, teve como tema a Governança Democrática contra a Corrupção. A Declaração de Lima que surgiu dali aponta caminhos que podem fortalecer a capacidade de nossos países e do sistema interamericano para enfrentar de forma coordenada a corrupção transfronteiriça.

É, portanto, fundamental que a sociedade esteja vigilante e pressionando para que marcos como a Declaração de Lima e a Convenção Anti-Suborno da OCDE sejam efetivamente implementados, pois a corrupção impacta profundamente as maiores mazelas da nossa região, como a desigualdade, a insegurança e instabilidade democrática.

Bruno Brandão (Transparência Internacional Brasil)

Como se arma a população

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Doctor Who

Tentativas de blindagem pioram as maracutaias

No Brasil, a corrupção sempre foi full time. A apuração, um feriadão hipertrofiado. Nunca deixe para amanhã o que pode ser deixado hoje, eis a máxima que norteava as investigações. Na era pós-Lava Jato, surgiram rachaduras no sistema de blindagem de malfeitores. Desde então, visitas dos rapazes da Polícia Federal e ações do Ministério Público provocam chiadeira. Em época eleitoral, investigados julgam-se seres inimputáveis. E investigadores são tratados como usurpadores.

É grande a gritaria provocada pelas ações praticadas por procuradores e promotores contra o petista Fernando Haddad e os tucanos Geraldo Alckmin e Beto Richa. O ministro Gilmar Mendes farejou nas iniciativas um “abuso do poder de litigar”. Avalia que é preciso “colocar freios”. O ministro parece desconsiderar a hipótese de que o abuso possa ter ocorrido na efetivação da eventual delinquência. Prefere, desde logo, frear a apuração.


O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) abriu procedimentos disciplinares para averiguar se promotores e procuradores agiram com motivação política. A iniciativa foi requerida pelo advogado Luiz Fernando Bandeira de Mello. Trata-se de um ex-subordinado dos senadores Renan Calheiros e Eunício Oliveira, ambos encrencados na Lava Jato. Ele representa o Senado no CNMP.

Bandeira de Mello escreveu o seguinte no seu requerimento: “Estou seguro (…) que essa verificação da Corregedoria Nacional confirmará minha percepção de que tais procedimentos refletirão a conduta correta, imparcial e não dirigida ao calendário eleitoral dos membros do Ministério Público. Mas entendo que a ausência de uma apuração mínima permitirá que desconfianças maldosas possam fermentar dúvidas…” Faltou informar de onde vem a fermentação.

Ouviu-se um lero-lero parecido no ano eleitoral de 2014. Candidata à reeleição, Dilma Rousseff chamou de ''golpe'' a divulgação dos depoimentos dos dois primeiros delatores da Lava Jato: Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e Alberto Youssef, doleiro e operador financeiro do petrolão. Sergio Moro interrogou-os entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial. Hoje, sabe-se que o golpe ocorrera no assalto às arcas da Petrobras, não na exposição dos resultados do trabalho do juiz.

Onde os incomodados enxergam vício costuma haver virtude. Em boa parte dos casos, os inquéritos invadem o cenário eleitoral porque os réus, com seus advogados caros e seus foros especiais, apostam no efeito-barriga. De resto, prisões e diligências requisitadas por promotores e procuradores são sindicadas pelo Judiciário, a quem cabe deferir ou arquivar os pedidos.

Se há eleições, aí mesmo é que deve ser assegurado ao eleitor o direito a uma campanha eticamente sustentável. A exposição dos indícios de sujeira não impede o eleitor de jogar o seu voto no lixo. Às vezes falta opção.

Em 2014, Dilma reelegeu-se apesar dos depoimentos de Paulo Roberto e de Youssef. Hoje, sabe-se que a lama estava dos dois lados. A Lava Jato corroeu a presidência de Dilma e prendeu Lula. Mas também carbonizou a pose de limpinho de Aécio Neves. A despeito de tudo, Lula carrega outro poste e as fotos de Dilma e Aécio estarão nas urnas de outubro.

Num ambiente assim, tão intoxicado, quando vê uma reação coordenada e suprapartidária de pessoas que desconhecem os inquéritos contra o avanço das apurações, o brasileiro fica tentado a desconfiar que há algo de muito estranho no ar. Se alguma coisa corre risco, certamente não é o processo eleitoral. A história mostra que as tentativas de blindagem sempre pioram as maracutaias.

O problema não é Bolsonaro, mas quem vota nele

O problema não é Jair Bolsonaro. O problema são os que se dispõem a votar nele e que constituem, segundo o mais recente Datafolha, um terço dos eleitores (no segundo turno). Ou, mais corretamente, o problema é o sinal enviado por essa parcela do eleitorado. Por que o problema não é Bolsonaro? Porque, conforme ensinam os especialistas em sociologia e política, a liquidação da democracia não se dá mais, hoje em dia, pelos tanques e canhões, mas pela erosão lenta, gradual e segura promovida por quem chega ao poder, de farda ou de terno, pelo voto popular.

Venezuela e Nicarágua são os dois exemplos do momento na América Latina. Há outros até na Europa ultracivilizada.

Parece altamente improvável, primeiro, que Bolsonaro se eleja, conforme mostraram as simulações de segundo turno no Datafolha. E, se ganhar, é mais improvável ainda que consiga levar adiante o trabalho de demolição da democracia.

Não digo que não queira. É, visivelmente, um autoritário empedernido. O problema é que não terá a colaboração da maioria do Congresso, da maioria dos governadores, da maioria dos partidos e, acima de tudo, enfrentará uma sociedade civil razoavelmente articulada.

Dividida, é verdade, mas naturalmente pouco inclinada a ceder os espaços de liberdade e de participação que foi conquistando. Democracia é oxigênio para a sociedade civil.

Mesmo os militares, salvo alguns alucinados, não têm em tese incentivo para estrangular a democracia. O fantasma do comunismo, usado como pretexto para o golpe de 1964, já foi exorcizado.

As elites, que conspiram contra a democracia sempre que sentem seus interesses ameaçados, não têm com que se preocupar. Até o PT deixou de ser aquele partido cuja vitória, em 1989, levaria 800 mil empresários a deixar o país, na famosa frase de Mario Amato, então presidente da Fiesp.

Lula acabou ganhando 13 anos depois e, em seu governo, os empresários nunca ganharam tanto dinheiro, segundo o próprio Lula diria mil e uma vezes. Os 13 anos e algo de governos petistas não tocaram em um só fio de cabelo das elites.

O problema, do meu ponto de vista de militante pela democracia, é que ela, nesses seus 33 anos de vigência no Brasil, não conseguiu convencer um terço do eleitorado de que é o pior dos regimes, fora todos os outros, para citar Winston Churchill.

Há uma parcela nada desprezível de brasileiros que prefere o pior dos regimes, uma ditadura, resgatada, pela primeira vez nas oito eleições democráticas, das catacumbas a que havia sido felizmente condenada.

Posso até ver algo de positivo nesse ressurgimento: é melhor que os viúvos e viúvas da ditadura trabalhem à luz do dia, no processo eleitoral, do que conspirem nas sombras, como fizeram nos anos 60, até derrubar o governo e impor 21 anos de trevas.

Mas é importante que os que rejeitam o autoritarismo que Bolsonaro simboliza tomem consciência de que a eleição de 2018 é uma demonstração de que a democracia está capengando. Uma muleta —rejeitar o autoritarismo— não vai bastar. É preciso restabelecer a confiança no modelo democrático, sob pena de que, em algum próximo assalto, ele vá a nocaute.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Vote em um, leve de quebra o interino

O Haddad vai governar junto com o Lula. Vai montar o ministério junto com o Lula
Lindbergh Farias

O Brasil vai ter que se encarar

Que semana!

O museu…

Bolsonaro…

Da intolerância à selvageria a partir do “nos” contra “eles”, taí a eleição mais crítica da história do Brasil com um pé na cadeia e outro na UTI. Taí o Brasil feito Estado Islâmico passivo, o que destrói patrimônio da humanidade não por ação mas por omissão.

O que assusta no nosso país não é o absurdo em si mesmo, é a dessensibilização para o absurdo a que chegamos.

Ardeu tudo como estava re-prometido e re-alertado que arderia? Ouçamos o diretor temerário do Museu Nacional. O que autorizou e conviveu com todas as gambiarras. O que se fez surdo a todas as súplicas e a todos os alertas. Mas não para cobrá-lo, veja lá! Não sai da televisão o homem que dirigiu o incêndio do nosso passado, mas para ditar-nos regras sobre como preservar o nosso futuro!

Mantenha-se lá atrás, na moita, intacta, a horda que não nos representa mas que se nos quer impor. A horda a quem entregaram a UFRJ como uma sesmaria particular, a ser explorada não só como trampolim para o proselitismo do ódio mas também para ser mamada. Deixem quietos os que comem os R$ 3,1 bi por ano que o favelão nacional a duras penas lhes entrega sem que mal-e-mal sobre 50 contos por mês para zelar pela parte que nos cabe do passado imemorial do Brasil e da humanidade.

Sim, o PSOL vive! Mas porque lhe é dado permanecer na sombra…

E o condenado? Tá ou não tá? Tribunais “superiores”? Tribunais “supremos”? Quanto vale a língua portuguesa no universo das nossas instituições? O Supremo Tribunal Federal não é onde as dúvidas acabam, é onde elas começam.

E então a facada…

Foi mesmo uma facada?

Nada a declarar! Chame-se os marqueteiros. Que coleção de palavras vamos por na boca do candidato tendo em vista os públicos junto aos quais ele não vai bem?

É um “lobo solitário”? Um miserável? Um debiloide? Mas e esses advogados todos desde o primeiro minuto? Foi deus ou foi o diabo?

Não interessa a resposta que possa haver. O que põe a desconfiança no ar é as perguntas não serem feitas.



Ó deus, os perigos são tão grandes e a democracia tão pequena. Jornalismo é importante demais para ficar nas mãos de quem tem medo de enfrentar ordens unidas…

Não, não é só aqui.

A internet deu a conhecer à humanidade o que ela é, e ela está detestando o que vê. O mundo sem edição está de ressaca de si mesmo. É por essa brecha que se esgueiram os 5as colunas. Não se aprendeu ainda a diferença entre o jornalismo, instituição da república se e quando é jogo jogado com regras, e a balburdia da rede, essa reprodução matemática da praça pública que como praça pública tem de ser ouvida. Na praça feita de bits as palavras declararam tecnologicamente a independência do seu contexto. Proporção, volumes, ênfases, tudo é “pós-produzível” como nunca. Todo xingamento-vírgula da linguagem chula de todas as línguas pode ser eternamente revisitado, amplificado, dissecado, monstrificado … e na viva voz do seu próprio autor. O disse-que-disse das marocas vem impresso, vem gravado, vem ao vivo. Até a cizânia hormonalmente dirigida é destilada com alcance global. Qualquer ouvido está ao alcance de qualquer sussurro. Qualquer impropério salva-se para todo o sempre do oblivion. A automatização da repetição customizada para cada ouvido é o triunfo dos goebels de todas as cores. O idiota de Nelson Rodrigues, cuja humildade ancorava-se na solidão da sua incapacidade de compreender, agora dispõe de ferramentas infalíveis de mútua identificação. Descobriu-se maioria, e esmagadora. O “grupo” unido, jamais será vencido!

A vitória parece para sempre liberta do convencimento. Os milênios de circuitos neurais estruturados pela repetição deixam passar como checado e selecionado tudo que aparece em letra impressa ou em imagem gravada mais depressa que os raciocínios que, um por um, têm de abrir as suas próprias picadas. Remar contra a maré passou de “elitismo” a “fascismo”. O máximo que se tolera de quem se depara com o absurdo é uma justaposição “plural”. De cretinices ou não, pouco importa, desde que mediada por uma expressão absolutamente lobotômica. O debate político, ensina-se nas escolas todas, e nas de jornalismo em particular, vem empacotado. Deve evitar qualquer tipo de participação do cérebro. Por isso tem hoje, no Brasil e fora do Brasil, a razoabilidade das discussões de casal.

Mas a realidade está aí fora, rugindo, e não admite meias-solas. Quanto tempo poderá durar esse esconde-esconde? Os humilhados e ofendidos estão sendo traídos na sua hora mais escura, escancaradamente. 16,38%! Não é o esgotamento do estado num país miserável que apavora, é ninguém encarar de frente a causa do esgotamento do estado que põe o mercado em pânico.

E o tiroteio? Como vencer a guerra do Brasil? A desesperança e o medo que se palpa no ar respondem menos à gravidade desse desafio que à recusa em reconhece-lo como o que é.

Mas agora que a “campanha negativa”, de destruição de pessoas, está temporariamente interditada, que tal experimentar o cotejamento de receitas? Bolsonaro, afinal, existe mais porque dá alguma resposta do que pelas respostas que dá; porque reconhece os problemas do tamanho que são mais que pelos remédios que propõe para eles.

A verdade está na cara. Não há funcionário intrinsecamente bom nem funcionário intrinsecamente ruim; há funcionário demissível e funcionário indemissível. Não há quem vote sempre errado nem quem vote sempre certo. Existe democracia, onde o eleitor vota antes, vota durante e vota depois do momento marcado para a eleição, e existe essa fraude que só gera sangue, suor e lágrimas que os usurpadores de mandatos impingem ao Brasil em nome dela.

Este país só vai ter cura se e quando se encarar como o que é. Vai ter de parar, desembarcar acusadores e acusados do “sistema” cujo comando todos disputam e extirpar, de comum acordo, a raiz torta que lhe produz todos os galhos tortos. Só então vai poder embarcar de novo numa navegação que tenha rumo.

Candidato tutelado

Terminou ontem o ato que todos sabiam como iria acabar. O ex-prefeito Fernando Haddad foi anunciado como candidato do PT à Presidência da República para, se vencer, exercer o poder em nome de Lula e com o Lula. O ex-presidente continua sendo a primeira pessoa, agora na chapa encabeçada por Haddad. Na carta, o próprio ex-presidente definiu: “Haddad é meu representante nessa batalha.” Ele fica assim numa situação inusitada, só comparável ao que aconteceu com Héctor Cámpora na Argentina.


Cámpora assumiu em maio de 1973, depois de ter vencido as eleições como representante de Juan Domingo Perón. Ficou dois meses no cargo, permitiu a volta do ex-presidente, renunciou e convocou novas eleições, que elegeram Perón. A diferença entre os dois casos é que Cámpora tentava contornar o veto militar ao ex-presidente. Aqui, o que impede Lula de ser candidato é uma lei que ele mesmo sancionou, e em cuja tramitação o PT teve papel central. A impugnação de Lula é decorrência de uma lei democrática e não uma conspiração das elites, como disse ontem o candidato Fernando Haddad.

Só havia pessoas brancas no campo de visão da imagem transmitida pelo PT, quando Haddad relacionou, entre os vários motivos pelos quais Lula estaria sendo impedido, o de ter permitido a ascensão dos negros. “Será que é porque eles tiveram que se sentar com um negro no avião?” perguntou. Outro motivo teria sido a reação da elite ao fato de o partido ter tirado o Brasil do mapa da fome.

Demagogias assim são comuns em período eleitoral. Normalmente, elas se chocam com os fatos. A Pnad de 2015 mostrou que, no último ano que o PT governou o Brasil, nos 12 meses, a renda dos 10% mais pobres caiu 7,1%. A recessão provocada pelo próprio PT levou à inflexão no movimento virtuoso de redução da pobreza, que havia começado com o Plano Real e se acentuado com os programas sociais da era Lula.

Haddad dirigiu-se a quem “está sentindo a dor de não poder votar em Lula” e ofereceu-se como interposta pessoa. Voltou a repetir o clichê de que “Lula fez o que eles não conseguiram fazer em 500 anos”. Esse “eles” inespecífico faz parte da estratégia política do PT. Assim o eleitor entende como quiser. “Nós temos um líder”, disse Haddad, mais uma vez subserviente. E disse que quer “olhar no olho do povo” para lembrá-lo dos bons tempos do Lula.

Do lado, séria e sem olhar na direção de Haddad, a ex-presidente Dilma foi citada rapidamente. A estratégia do partido é avivar a memória do período de crescimento no governo Lula e apagar a lembrança de que a recessão começou no período Dilma. A narrativa do PT é que ela cometeu erros pontuais, mas foi impedida de governar pelos que perderam a eleição de 2014. A verdade é bem mais complexa. Nos anos de crescimento do governo Lula, a política de ampliar o gasto público foi a semente da crise aprofundada pelos erros da gestão Dilma. Na última eleição, a economia já estava em forte desaceleração, na véspera de cair na recessão no começo de 2015.

A aposta petista é que a memória brasileira é curta e o eleitor, ferido pela recessão e pelo desemprego, verá Haddad como o novo rosto de Lula. O ex-ministro precisou da autorização expressa de Lula para dar cada passo que deu. E será, até o fim, um candidato tutelado a partir de uma cela da Polícia Federal em Curitiba. Até agora, conseguiu um feito importante que foi vencer as muitas correntes internas do PT. Tem apenas 26 dias para convencer o eleitorado a levá-lo ao segundo turno.

As duas principais campanhas continuarão sem seus titulares. O candidato do PSL permanecerá no hospital ou em recuperação. O PT deixou claro ontem, mais uma vez, por atos e palavras, que é Lula quem decide e manda. Nesta estranha campanha, tanto Lula quanto Bolsonaro conseguiram transformar seus dramas em alavancas. O PT apresenta a prisão de Lula como uma punição injusta que ele recebe por ter distribuído bondades ao povo. Bolsonaro, depois de meses de defesa de um projeto belicoso, subiu na esteira de um ataque a faca que sofreu. O Ibope de ontem mostrou que Bolsonaro subiu quatro pontos, desde a última pesquisa, e está com seis pontos a mais na espontânea. Sua rejeição caiu pouco, apenas 3 pontos, e ainda é a mais alta, 41%. Nada está cristalizado, contudo. O voto ainda é volátil e vai se mover em várias direções nos próximos dias.

Brasil de amanhã


Os problemas que se escondem por trás do pleno emprego nos países ricos

“O desemprego é o menor em mais de 48 anos. Grande notícia para os empregados, e EMPREGOS, EMPREGOS, EMPREGOS!”, tuitava Donald Trump, eufórico, em março deste ano.

À primeira vista, o presidente dos EUA tem mesmo motivos para estourar o champanhe. A taxa de desemprego em seu país, inferior a 4%, faz história ao cair pelas tabelas: nos últimos 60 anos só houve um período, no final dos anos sessenta, em que o percentual se manteve tão baixo por um período prolongado. Não é um caso isolado. Theresa May pode se vangloriar de que, apesar das incertezas do Brexit, a desocupação no Reino Unido está agora no menor nível desde 1975. A Alemanha, com a menor taxa desde a reunificação e em dificuldades para encontrar mão de obra qualificada, exibe cifras de sonho. E o Japão, com um percentual de desempregados que em maio caiu a 2,2%, também atinge mínimos inexplorados em mais de um quarto de século.

Seriam esses indicadores excepcionais a prova de que a crise iniciada há uma década passou de vez, ao menos nas grandes economias ocidentais? E, talvez mais importante, podem os trabalhadores comemorar a conquista de um mercado trabalhista próximo ao pleno emprego? Não exatamente.

Porque a exuberância destas cifras – na zona do euro, o desemprego também caiu: é de 8% na média dos 19 países, menor índice desde 2008 – esconde uma realidade com muitos matizes. Os dados sobre remuneração, trabalho temporário, empregados pobres e população sob risco de exclusão não melhoraram no mesmo ritmo. E muitos economistas se perguntam se a taxa de desemprego perdeu força como o principal indicador da saúde do mercado de trabalho.


“Faz tempo que somos muito críticos com a taxa de desemprego, porque não reflete variáveis como os desanimados que pararam de procurar emprego por causa das más condições”, diz Florentino Felgueroso, pesquisador da FEDEA(Fundação de Estudos de Economia Aplicada, com sede em Madri). Na hora de desentranhar as cicatrizes da crise, esse doutor em Economia insiste sobretudo na menor duração dos contratos – de um mês, uma semana ou mesmo de algumas horas – criados durante a recuperação da Grande Recessão, um fator que influi diretamente na redução da renda dos empregados. “A menor duração dos contratos é um fenômeno global que veio para ficar. Tem a ver com as novas tecnologias, que possibilitam a existência desses contratos. E os sistemas produtivos estão se adaptando, com fenômenos como a uberização da economia”, prossegue Felgueroso.

Uma fatia cada vez menor do bolo vai para os empregados, e isso não é de hoje. Segundo o FMI, a participação dos trabalhadores na renda caiu de mais de 50% da renda total, no começo deste século, para menos de 40% em 2015. Essa tendência decrescente começou já em meados da década de 1970.

A frágil ascensão dos salários esteve na semana passada entre os principais temas da reunião que executivos de bancos centrais e demais mandarins das finanças promovem anualmente em Jackson Hole (EUA). Por que nem salários nem preços crescem mais se o desemprego está tão baixo, conforme preveria a teoria econômica tradicional?
Menos poder negociador

Disso falou Alan Krueger, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Obama, segundo quem o atual Governo limita o cada vez menor poder de negociação de trabalhadores e sindicatos, ao mesmo tempo em que aumenta o das grandes corporações. Como exemplo, Krueger disse que um em cada quatro assalariados norte-americanos assinou restrições que o impede de trabalhar para a concorrência, dificultando sua capacidade para procurar salários maiores. E destacou que o salário mínimo nos EUA há 10 anos se mantém invariável em 7,25 dólares por hora (30 reais), e que, descontada a inflação, caiu 20% desde 1979.

O percentual de trabalhadores pobres duplicou na Alemanha desde 2005. Ao falar das feridas de desigualdade deixadas pela crise, Sara de la Rica, catedrática da Universidade do País Basco (Espanha), distingue três tipos de países: Espanha, Alemanha e os anglo-saxões. No primeiro, o golpe foi especialmente duro para quem perdeu seu emprego. “Muitos não puderam encontrar outro, e as condições dos que conseguiram costumam ser muito piores. Aqui, a desigualdade se acentuou entre os que mantêm seu emprego e os que não”, explica.

Na Alemanha, por outro lado, o ajuste se centrou no número de horas trabalhadas: demite-se pouco, mas as empresas que mais sofrem negociam cortes de horas (e salário). “Portanto, também cresceu a desigualdade, mas não o desemprego”, acrescenta De la Rica. Finalmente, nos EUA e Reino Unido, as condições do mercado de trabalho se ajustam muito mais rapidamente, tanto em períodos recessivos como nos de crescimento. “Lá, o desemprego subiu muito, mas se recuperou rapidamente. A desigualdade é gerada sobretudo pelos trabalhadores que não perdem o trem do progresso e da inovação”, conclui.

Trump comemora agora o feito de um desemprego que não para de cair. Mas ele mesmo criticava esse indicador em 2012, quando era apenas um bilionário que apresentava reality shows e fazia críticas furiosas ao presidente Obama. “A taxa de desemprego só cai porque mais gente que está fora do mercado de trabalho parou de procurar emprego. Não é uma recuperação real. Cifras mentirosas”, escrevia no Twitter à época.

Pobre só cresce em número

O próximo presidente assumirá um país com 22,83 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza – contingente 470 mil menor que o registrado no fim do ano passado e equivalente a 10,95% da população do país

A sociedade líquida

A ideia de modernidade ou sociedade “líquida” deve-se, como todos sabem, a Zygmunt Bauman. Para quem quiser entender as várias implicações do conceito, a leitura de Estado de crise (Zahar, 2016), onde Bauman e Carlo Bordoni discutem este e outros problemas, pode ser útil. A sociedade líquida começou a delinear-se com a corrente conhecida como pós-moderno (aliás, um termo “guarda-chuva” sobre o qual se amontoam diversos fenômenos, da arquitetura à filosofia e à literatura, e nem sempre de modo coerente). O pós-modernismo assinalava a crise das “grandes narrativas” que se consideravam capazes de impor ao mundo um modelo de ordem e fazia uma revisitação lúdica e irônica do passado, entrecruzando-se em várias situações com pulsões niilistas. Mas para Bordoni, o pós-modernismo também conheceu uma fase de declínio. Era um movimento de caráter temporário, pelo qual passamos quase sem perceber, e que um dia será estudado, assim como o pré-romantismo. Servia para assinalar um acontecimento em andamento e representou uma espécie de balsa que levava da modernidade a um presente ainda sem nome.

Para Bauman, entre as características deste presente nascente podemos incluir a crise do Estado (que liberdade de decisão ainda têm os Estados nacionais diante dos poderes das entidades supranacionais?). Desaparece assim uma entidade que garantia aos indivíduos a possibilidade de resolver de modo homogêneo os vários problemas do nosso tempo, e com sua crise, despontaram a crise das ideologias, portanto, dos partidos e, em geral, de qualquer apelo a uma comunidade de valores que permita que o indivíduo se sinta parte de algo capaz de interpretar suas necessidades. Com a crise do conceito de comunidade, emerge um individualismo desenfreado, onde ninguém mais é companheiro de viagem de ninguém, e sim seu antagonista, alguém contra quem é melhor se proteger. Este “subjetivismo” solapou as bases da modernidade, que se fragilizaram dando origem a uma situação em que, na falta de qualquer ponto de referência, tudo se dissolve numa espécie de liquidez. Perde-se a certeza do direito (a justiça é percebida como inimiga) e as únicas soluções para o indivíduo sem pontos de referência são o aparecer a qualquer custo, aparecer como valor (fenômenos que abordei com frequência nas Bustinas), e o consumismo. Trata-se, porém, de um consumismo que não visa a posse de objetos de desejo capazes de produzir satisfação, mas que torna estes mesmos objetos imediatamente obsoletos, levando o indivíduo de um consumo a outro numa espécie de bulimia sem escopo (o novo celular nos oferece pouquíssimo a mais em relação ao velho, mas descarta-se o velho apenas para participar desta orgia do desejo). Crise das ideologias e dos partidos: alguém já disse que estes últimos se transformaram em táxis que transportam caciques políticos ou chefes mafiosos que controlam votos, que escolhem em qual embarcarão com desenvoltura, segundo as oportunidades que oferecem — o que até torna compreensíveis e não mais escandalosos os vira-casacas. Não somente os indivíduos, mas a própria sociedade vive em um contínuo processo de precarização.

O que poderá substituir esta liquefação? Ainda não sabemos e este intervalo ainda vai durar muito. Bauman observa que (com o fim da fé numa salvação proveniente do alto, do Estado ou da revolução) os movimentos de indignação são típicos de períodos de intervalo. Estes movimentos sabem o que não querem, mas não o que querem. E recordo aqui que um dos problemas levantados pelos responsáveis pela ordem pública a propósito dos black blocs é a impossibilidade de rotulá-los, como se fazia antes com os anarquistas, os fascistas, as Brigadas Vermelhas. Eles agem, mas ninguém sabe mais quando e em que direção. Nem mesmo eles.

Existe um modo de sobreviver à liquidez? Existe e é justamente perceber que vivemos numa sociedade líquida que, para ser compreendida e talvez superada, exige novos instrumentos. Mas o problema é que a política e grande parte da intelligentsia ainda não entenderam o alcance do fenômeno.

Por ora, Bauman continua a ser uma “vox clamantis in deserto”.
Umberto Eco, "Pape Satan Aleppe - Crônicas de uma sociedade líquida" 

Paisagem brasileira

Estrada, Alfredo Vieira

De pai para filho: por que sobrenome ainda deve contar nestas eleições

Danielle Dytz Cunha, Flávio Bolsonaro, Marcelo Crivella Filho, João Campos, Fernando James Collor... Em comum, eles têm sobrenomes conhecidos no mundo político e a ambição de seguir os passos dos pais. Contam, além disso, com a "sorte" de poder sonhar alto - dão seus primeiros passos nas urnas já tentando vagas na Câmara e no Senado.

Centenas de filhos, maridos, esposas e netos de políticos registraram suas candidaturas na Justiça Eleitoral até o dia 15 de agosto - a data limite.
Só com avanço econômico, social e cultural é que se passa para uma situação de voto esclarecido

São muitos os estreantes. João Campos (PSB), 24 anos, filho do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto em um desastre aéreo quando concorria à Presidência em 2014, vai encarar sua primeira eleição já como candidato a deputado federal.

Danielle Dytz Cunha, filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, que está preso, também não pensou "pequeno" e estreia na política disputando vaga na Câmara dos Deputados pelo MDB do Rio de Janeiro.

Já Marcelo Crivella Filho conta com o apoio do pai, que é prefeito do Rio de Janeiro, para alcançar uma vaga de deputado federal. É a primeira eleição dele.

Eduardo Bolsonaro, filho do candidato à Presidência Jair Bolsonaro, tenta se reeleger como deputado federal.

O irmão mais velho dele, Flávio Bolsonaro, está no grupo dos que tentam alçar voos maiores que em 2014: quer saltar direto de deputado estadual no Rio de Janeiro para senador.

Irajá Abreu, filho da senadora Kátia Abreu, que é vice na chapa de Ciro Gomes à Presidência, vive situação parecida e tenta trocar a Câmara dos Deputados pelo Senado.


Enquanto tenta se eleger governador de Alagoas, o senador Fernando Collor quer garantir um sucessor no Congresso, seu filho Fernando James Collor, candidato a deputado federal.

Os dois vão percorrer o Estado nordestino juntos para tentar derrotar outra dupla de pai e filho com tradição na política: Renan Calheiros (MDB), que tenta a reeleição ao Senado, e Renan Filho, que quer se reeleger governador de Alagoas.

No Pará, outro político tradicional do MDB, Jader Barbalho, candidato ao Senado, percorre o Estado em campanha com o filho Helder Barbalho, que tenta se eleger governador. Os dois lideram as intenções de voto.

E, enquanto o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral segue preso, acusado de comandar um esquema de corrupção, o filho dele, Marco Antônio Cabral, faz campanha para se reeleger deputado federal.

O professor de ciência política Claudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), faz um paralelo do fenômeno do "mandato de pai para filho" com famílias que há gerações seguem a mesma profissão.

"A política é uma atividade profissional que precisa ser desempenhada em tempo integral. Assim como em outras profissões em que a gente vê médico filho de médico, advogado filho de advogado, não é diferente na atividade política", diz.

"E, assim como em outras profissões, há uma vantagem em seguir a profissão dos pais: você tem uma rede formada que facilita do ponto de vista de ter aliados, apoiadores, financiadores e um aprendizado que vem desde a infância."

Mas será que, em meio ao clamor por "renovação", o parentesco com políticos tradicionais vai contar a favor nas urnas em outubro?
Sistema político que favorece eleição de parentes

Dados referentes à última eleição indicam que, para a Câmara, o sobrenome contou, e muito, na última disputa. Levantamento feito pelo Transparência Brasil, instituto voltado ao monitoramento de órgãos públicos, revelou que 49% dos deputados eleitos em 2014 eram filhos, netos, esposas ou maridos de políticos com mandato - um aumento de cinco pontos percentuais em relação aos eleitos em 2010.

Entre os deputados federais com até 35 anos, 85% dos eleitos em 2014 são herdeiros de famílias políticas.

Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o sistema político-eleitoral brasileiro continuará a favorecer candidatos que tenham fortes ligações com lideranças partidárias, ainda que haja uma rejeição popular à política e a políticos tradicionais.

Três fatores contam particularmente a favor das candidaturas de parentes de políticos influentes: o fato de o nome ser mais facilmente lembrado pelos eleitores, acesso a financiamento para a campanha e o controle da máquina partidária nos redutos eleitorais, com a mobilização de cabos eleitorais e da militância.

"Da mesma forma que para um parlamentar que já está no poder é mais fácil se reeleger, quem tem um parente na estrutura de poder consegue se eleger mais facilmente", afirmou à BBC News Brasil Juliana Sakai, diretora de operações do Transparência Brasil.

"Além do próprio nome, que torna a pessoa mais conhecida do eleitorado, tem a questão de que o voto é totalmente ligado ao financiamento da campanha."
Um nome para lembrar

Em outubro, a população terá que optar por um candidato a deputado federal, a deputado distrital ou estadual, senador, governador e presidente da República. Só para deputado federal são mais de 8 mil candidatos em todo o Brasil.

Em São Paulo, o eleitor escolherá dentre 1.675 concorrentes. Ou seja, uma das principais tarefas de quem disputa uma eleição é simplesmente conseguir ter o nome lembrado. Os candidatos que têm sobrenomes conhecidos largam com vantagem na corrida eleitoral.

"Para a Câmara, são muitos os candidatos e muitas as vagas para cada Estado para preencher as 513 cadeiras. Portanto, serão mais votados os candidatos mais lembrados. Existe um eleitorado que vai rejeitar políticos com sobrenomes de pessoas investigadas, mas esses políticos acabam, mesmo assim, sendo mais escolhidos que outros mais desconhecidos", avalia Sakai.

"Um dos desafios que os políticos têm é se tornarem conhecidos do eleitorado. Quem já tem o nome conhecido já resolveu esse problema de antemão", reforça Claudio Couto, da FGV.

Supremo dá a Bolsonaro imunidade para ofender

Tomado por suas declarações, Jair Bolsonaro produz preconceito como a bananeira produz bananas. Mas a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal concedeu ao capitão, por 3 votos a 2, imunidade para manter sua produção de ofensas e incitações contra negros, refugiados, gays e mulheres.

A Procuradoria-Geral da República denunciara Bolsonaro por conta de uma palestra no Clube Hebraica do Rio de Janeiro. Coisa de abril de 2017. Durante o envento, o presidenciável contou que visitara um quilombo. “Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais.”

Lero vai, lero vem, afirmou que, se viesse dois homens se beijando na rua, bateria em ambos. Mais: “Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim, ele vai ter morrido mesmo''. Sobre estrangeiros, disse que o Brasil não pode acolher todo mundo, pois não é “casa da mãe Joana”.

Os ministros Luiz Fux, Marco Aurélio Mello e Alexandre Moraes encaixaram as declarações de Bolsonaro sob o guarda-cheva da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar. Vencidos, Luis Roberto Barroso e Rosa Weber votaram a favor da conversão do palestrante em réu.

O indeferimento da denúncia vale por um atestado de idoneidade moral. Doravante, quando alguém tentar grudar em Bolsonaro a pecha de preconceituoso, o capitão invocará em seu benefício a imunidade do Supremo.


Há mais: com base nas mesmas declarações, a Justiça do Rio de Janeiro condenou Bolsonaro a pagar indenização de R$ 50 mil por danos morais coletivos a comunidades quilombolas. A decisão do Supremo servirá de matéria-prima para que Bolsonaro recorra.

Há pior: Bolsonaro já responde a ação penal na Suprema Corte por ter afirmado que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque a colega é “muito feia.” Invocou em sua defesa o escudo da imunidade parlamentar. Já pode requerer ao Supremo que, por coerência, envie a ação para o arquivo. Instituiu-se uma espécie de vale-tudo comportamental.

Os jovens, esses infelizes

Os jovens estão sofrendo. Não confio muito no povo das humanas para pensar nisso: muita ideologia e pouca abertura para pensar a realidade. Trabalho com jovens há 22 anos. Eles estão cada vez mais sofridos: mais inseguros, ansiosos, medicados. Pesquisas de comportamento apontam para o mesmo diagnóstico.

Acho que alguns elementos dificultam a abordagem do tema. Cito um: a eterna indagação metodológica --há de fato uma piora na condição psicológica dos mais jovens (mais depressão, mais ansiedade, mais suicídios) ou o que temos são mais dados e mais acesso a medicamentos?

Mesmo tipo de dúvida: existem mais gays ou os gays se mostram mais? Tem mais mulher apanhando ou mais mulher denunciando que apanha?


O fato é que os jovens —principalmente os de classe social mais alta, mas não somente— têm ao seu dispor uma maior quantidade de ferramentas e profissionais especializados neles. Com isso, um maior "discurso do mestre", como diria Lacan, sobre a "condição jovem".

Mas o fato é que, muitas vezes, parece que esse aumento de discurso especializado apenas piora a questão: uma tagarelice gigantesca enche os nossos ouvidos sobre, por exemplo, se os pais devem ou não dizer X aos filhos. Quais as consequências de mandar o filho calar a boca? Você precisa ser PhD para educar os filhos.

A especialização nos jovens parece ter criado um sintoma novo na humanidade: ser jovem é um sintoma em si. À medida que cresce o mercado de especialistas em jovens, aumenta a geração e a circulação de dinheiro "graças" ao sintoma que ser jovem implica em si mesmo. Com isso, não assumo que haja má-fé nesses profissionais, apenas descrevo um circuito de discurso e dinheiro que se auto-alimenta.

Nelson Rodrigues apontava, nos anos 1960, o surgimento da "razão do jovem" como sendo o fato de que um jovem teria razão sobre qualquer absurdo (tipo, devemos abandonar tudo e ir para a então guerra do Vietnã) apenas porque era jovem. A juventude fazia dele um oráculo a priori.

Essa lembrança nos remete diretamente a algo hoje plenamente instalado em nossa cultura que é a ideia de que jovens de 15 anos têm a capacidade de emitir opiniões críticas sobre temas complexos como amor, justiça, política, família, economia, ética e afins.

Jovens, pela própria condição (com algumas exceções), pouco entendem dessas coisas pelo simples fato de que não tiveram tempo de acumular experiências de vida.

Outra questão é a diminuição do número de filhos, logo, de jovens. Os pais, neuróticos e ansiosos, afogados no que o sociólogo Zygmunt Bauman (1925 - 2017) chamava de "medo líquido", vigiam esses infelizes todo o tempo. Atormentam os coitados, com demandas de "evolução" por parte desses mesmos infelizes. Vigiados o tempo todo, esses infelizes devem dar conta de tudo que a humanidade não deu até hoje: salvar o mundo, ser ético todo o tempo, ter afetos corretos e limpos, profissões sustentáveis ecologicamente, opiniões certas sobre temas incertos.

Tendo um ou dois filhos no máximo, esses pais inseguros e infantis (o amadurecimento é recurso escasso no mundo parque temático em que vivemos) concentram todas as suas taras e projeções narcísicas sobre os ombros desses infelizes.

As escolas em geral, por sua vez, cedem ao marketing escondendo a miséria contemporânea dos jovens.

Prometendo jovens cada vez melhores, fazem uma mistura grotesca de preparação para uma vida futura sem preconceitos, com a inteligência artificial como parceira, ao lado do ato de abraçar árvores como ética espiritual superior.

Arriscaria dizer que as escolas estão hoje entre as instituições mais perdidas na face da Terra. Não avançam um milímetro além da autoajuda e da pedagogia positiva (nome diferente para a miséria motivacional praticada em palestras no mundo corporativo).

O mundo "em rede" só piora a demanda de ser aceito. Se, antes, a ansiedade do reconhecimento e do afeto era uma "obrigação" que os ligava a um máximo de 30 pessoas a sua volta, hoje, com todos os "likes", esses jovens viram um poço de ansiedade por reconhecimento, relevância e afeto. Até a pizza que comem deve ser reconhecida como uma "pizza que vale no Instagram" ("instagramworthy").

Enfim: talvez a primeira coisa a ser feita é reconhecer que nunca existiram tantos jovens infelizes caminhando sobre a Terra. Engraçado: justamente quando o mundo se transformou num parque temático de "inteligência", riqueza, direitos, tolerância e esbanjando gente bacana.

Luiz Felipe Pondé

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Brasil do futuro?


Mais da metade dos brasileiros não tem diploma do ensino médio

O Brasil é um dos países com o maior número de pessoas sem diploma do ensino médio: mais da metade dos adultos (52%) com idade entre 25 e 64 anos não atingiram esse nível de formação, segundo o estudo Um Olhar sobre a Educação, divulgado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A organização, com sede em Paris, destaca que o menor nível de escolaridade tende a ser associado com a maior desigualdade de renda.

No caso do Brasil, o país registra o segundo maior nível de desigualdade de renda entre os 46 países do estudo, ficando atrás apenas da Costa Rica.

O índice de pessoas que não cursaram o ensino médio no Brasil representa mais do que o dobro da média da OCDE. Na Costa Rica e no México, o percentual é ainda maior que o do Brasil: 60% e 62%, respectivamente, os mais elevados do estudo.

Outros países latinoamericanos, contudo, têm melhor desempenho que o Brasil. Na Argentina, 39% dos adultos na faixa de 25 a 64 anos não concluíram o ensino médio, no Chile, o percentual é de 35% e, na Colômbia, de 46%.

O estudo abrange as 36 economias da OCDE, a maioria desenvolvidas, e dez países parceiros da organização, como África do Sul, Argentina, China, Colômbia, Índia, Rússia e Brasil.

"Na maioria dos países da OCDE, a ampla maioria dos jovens adultos, com idade entre 25 e 34, tem pelo menos a qualificação do ensino médio. Em poucas décadas, o ensino médio passou de um veículo de ascensão social ao mínimo exigido para a vida em uma sociedade moderna", afirma o relatório.

Segundo a organização, os que deixam a escola antes de completar o ensino médio enfrentam não apenas dificuldades no mercado de trabalho, com menores salários, mas também têm competências cognitivas - memória, habilidades motoras, atenção, entre outras - bem inferiores aos das pessoas que possuem essa formação.

A organização também ressalta o número relativamente baixo de alunos com mais de 14 anos de idade inscritos em instituições de ensino no Brasil.

Apenas 69% daqueles entre 15 e 19 anos e somente 29% dos jovens de 20 a 24 anos estão matriculados, de acordo com a OCDE. A média nos países da organização é, respectivamente, de 85% e 42%.

O Brasil enfrenta ainda "desigualdades regionais significativas" em relação ao ensino superior, diz o relatório.

No Distrito Federal, 33% dos jovens adultos chegam à universidade. No Maranhão, o Estado com o menor PIB per capita, esse número é de apenas 8%.

Essa disparidade regional entre alunos que conseguem atingir o ensino superior no Brasil "é, de longe, a maior na comparação com toda a OCDE e países parceiros", incluindo grandes países como os Estados Unidos e a Rússia, que também possuem várias áreas de diferentes tamanhos e populações.

"Assegurar que as pessoas tenham oportunidade de atingir níveis adequados de educação é um desafio crítico. O acesso ao ensino superior vem crescendo no Brasil, mas ainda é uma das taxas mais baixas entre a OCDE e países parceiros, e está abaixo de todos os outros países da América Latina com dados disponíveis", ressalta o estudo, citando a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica e México.

No Brasil, 17% dos jovens adultos com idade entre 24 e 34 anos atingem o ensino superior. Em 2007, o índice era de 10%. Apesar da melhora, o desempenho ainda está cerca de 27 pontos percentuais abaixo da média da OCDE.

"Para melhorar a transição entre o ensino e o mercado de trabalho, independentemente do cenário econômico, os sistemas de educação têm de se assegurar que as pessoas tenham as competências exigidas na vida profissional", diz a organização.

Segundo a OCDE, apesar do Brasil investir uma fatia importante de seu PIB na Educação, os gastos por aluno, sobretudo no ensino básico, são baixos.

O Brasil destina cerca de 5% do PIB à rubrica (dados de 2015), acima da média de 4,5% do PIB dos países da OCDE, diz o relatório.

O governo brasileiro gasta, porém, cerca de US$ 3,8 mil por estudante no ensino fundamental e médio, menos da metade dos países da OCDE.

A despesa com os estudantes de instituições públicas de ensino superior, no entanto, é quatro vezes maior, US$ 14, 3 mil, pouco abaixo da média da OCDE, que é de US$ 15,7 mil.

A diferença de gastos por estudante entre o ensino superior e o básico no Brasil é o maior entre todos os países da OCDE e economias parceiras analisadas no estudo da organização.

Cuidado Veneno

A bula dos principais agrotóxicos vendidos no Brasil recomenda aos usuários a instalação de uma placa, nos locais de armazenagem, com o alerta: "cuidado, veneno". A advertência clara, feita pelos próprios fabricantes, não foi levada à sério durante os debates sobre o projeto que flexibiliza as regras para registro e controle dos agrotóxicos. O Projeto de Lei 6299/2002, conhecido como “Pacote do Veneno” foi aprovado em comissão especial da Câmara e avança perigosamente, na contramão de manifestações de protesto dos mais importantes representantes da comunidade científica nacional e internacional - e de pesquisadores independentes.


Já se posicionaram contra o projeto o Ministério Público do Trabalho, o Ministério Público Federal, o Instituto Nacional do Câncer, a Fundação Oswaldo Cruz, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva e outras duas dezenas de entidades científicas. Em carta enviada ao governo brasileiro, a Organização das Nações Unidas apontou preocupações quanto à possível aprovação do projeto. A organização Human Rights Watch recomendou que o Brasil rejeite a reforma legislativa e estude com urgência um plano de redução no uso de produtos altamente perigosos. E a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência alertou a “sociedade brasileira para os efeitos potencialmente catastróficos da aprovação deste PL para a saúde pública”.

Entre as mudanças propostas no projeto, está a substituição do termo “agrotóxico”. A justificativa apresentada no relatório do projeto é que o termo gera preconceito contra o agronegócio. Ou seja, há o reconhecimento de que o modo como se nomeia algo importa – e muito.

É intuitiva a ideia de que o nome de um produto deve expressar, tanto quanto possível, o entendimento que se tem dele e de seus efeitos. Indiscutivelmente, a expressão “agrotóxico” foi assimilada em nossa cultura e expressa a relação do nome como produto, que é destinado à agricultura e é tóxico. Agrotóxicos são desenvolvidos para exterminar formas de vida. São biocidas capazes de afetar o meio ambiente e a saúde humana. Não distinguem alvos. O ser humano e o meio em que vive são gravemente afetados pelo uso exagerado de substâncias cujos reais efeitos, muitas vezes, só serão conhecidos décadas após a exposição. Autoridades responsáveis pela saúde e pelo trabalho reconhecem que há subnotificação nos registros oficiais sobre intoxicados. A Organização Mundial da Saúde estima que apenas 2% dos casos são notificados.

Vejamos esse alerta na bula de um herbicida: "Evidências indicam que a exposição ao paraquate pode ser um dos fatores de risco para a doença de Parkinson em trabalhadores rurais. Evidências demonstram a existência de risco da exposição ao paraquate causar mutações genéticas em trabalhadores rurais". Qual seria a nomenclatura mais apropriada para denominar o produto? “Defensivo vegetal”? “Remédio para plantas”? “Produto fitossanitário”? A inadequação dos termos salta aos olhos, diante do exemplo porque, claramente, não expressam o potencial ofensivo aos seres humanos.

A Constituição Federal, que completa 30 anos em setembro, defende a promoção da educação ambiental e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente (art. 225). A mesma Constituição refere-se expressamente aos “agrotóxicos”, ao determinar que a sua propaganda contenha “advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso” (art. 220). A Carta de 1988 também enfatiza o direito à saúde e ao meio ambiente, inclusive no trabalho, e destaca que todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, que é bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. Às vésperas do aniversário da Constituição, vemos direitos fundamentais ameaçados por um projeto de lei baseado em eufemismos que servem apenas aos que pretendem alterar a percepção sobre produtos que podem causar danos severos aos seres humanos e ao meio ambiente.
Leomar Daroncho, procurador do MPT/Marco Antonio Delfino de Almeida, procurador da República

Luta pelo poder em plena ruína

Há um país em ruína nas margens do enredo da luta pelo poder — cada dia mais dependente das sub-tramas desenvolvidas numa Unidade de Terapia Intensiva, em São Paulo, e na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba.

Entretidos no embate personalista, os candidatos à Presidência passeiam cegos à dimensão e à celeridade do desmoronamento da paisagem a que pertencem. Driblam a realidade, onde a renda de sete em cada dez famílias mal alcança dois salários-mínimos (R$ 1,9 mil).

Voluntaristas, abstraem o aumento de 50% na velocidade da regressão social desde 2014, depois de um quinquênio de profunda recessão.


A magnitude desse retrocesso social está na preservação de 23,3 milhões de pessoas na pobreza, com renda inferior a R$ 233 por mês

Significa que o número de brasileiros na miséria já supera a população de Minas Gerais (21 milhões). Num mapa equivale à soma dos habitantes do Paraná e Rio Grande do Sul.

O quadro se deteriora rápido: 6,3 milhões de novos pobres surgiram do governo do PT até o do MDB.

Vai-se completar três anos de aumento na desigualdade de renda, demonstra um estudo sobre a vida como ela é por trás do Produto Interno Bruto (PIB), do pesquisador Marcelo Neri, da FGV.

Isso não acontecia desde a eleição de 1989 , a primeira depois da ditadura. Para se avaliar o impacto dessa regressão social, é necessário lembrar que ela ocorre num período de moeda estável. Três décadas atrás, aconteceu sob o desastre legado pelo regime militar: do golpe de 1964 até o Plano Real de 1994 o aumento acumulado dos preços ultrapassou a marca do quatrilhão (1.302.442.989.947.180,00%, pelo IGP-DI), conta Míriam Leitão no excelente livro “Saga brasileira”.


A massa pobre do eleitorado está um terço mais empobrecida do que na eleição de 2014. Aumento da desigualdade na sociedade é sinônimo de instabilidade. Nessa paisagem, a cegueira eleitoral pode ser prelúdio de um governo em crise permanente.
José Casado

Pensamento do Dia

Igor Morski

É encontro, não domínio

O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.

Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma.

Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.
Hélio Pellegrino

Orgulho nacional

Agora a História transformou-se em números, como sempre aconteceu na História, estatísticas, e nas estatísticas tem-se orgulho 
Antonio Tabucchi

Brasil encarcera em ritmo cada vez maior

Há pouco mais de um ano e meio, em janeiro de 2017, a guerra de facções criminosas em prisões brasileiras expôs a fragilidade do sistema prisional e chamou a atenção mais uma vez para um dos principais problemas dos presídios brasileiros: a superlotação. Naquele mês, mais de cem presidiários foram mortos durante rebeliões em Manaus (AM), Roraima (RO) e Alcaçuz (RN).

Segundo um estudo divulgado nesta segunda-feira (10/09) pela Pastoral Carcerária, o Brasil possui mais de 725 mil pessoas presas, ficando atrás apenas da China (1,6 milhão) e dos EUA (2,1 milhão) em população carcerária. As prisões do país têm uma taxa de ocupação de 200% – ou seja, elas têm capacidade para receber somente a metade do número de presos.

"Mesmo a construção massiva e presídios desde os anos 1990 não foi capaz de dar conta dos enormes contingentes de pessoas presas no país no período", diz Rodolfo Valente, pesquisador da Pastoral Carcerária e responsável pelo relatório. "O aumento da taxa de encarceramento é tão intensa que o quadro de superlotação, na verdade, tende a se agravar, a despeito dos muitos presídios inaugurados regularmente e que, na realidade, só fazem fomentar ainda mais a banalização das prisões e de suas barbáries."


Intitulado de Luta antiprisional no mundo contemporâneo: um estudo sobre experiências de redução da população carcerária em outras nações, o relatório afirma ainda que o país é o único, entre as seis nações que mais encarceram no mundo (EUA, China, Brasil, Rússia, Índia e Tailândia), que mantém um ritmo intenso e constante de crescimento das taxas de encarceramento desde os anos 1980.

De acordo com o estudo, existe a estimativa de que exista mais de 11 milhões de pessoas presas em todo o mundo. E a soma da população prisional dos dez países que mais aprisionam (EUA, China, Brasil, Rússia, Tailândia, Indonésia, Turquia, Irã e México) corresponde a mais do que 60% desse total.

Dos anos 1990 até o período entre 2000 e 2010, muitos países decidiram expandir exponencialmente o número da população presa. Para cada 100 mil habitantes, os EUA aumentaram sua população carcerária de 457 para 755; a China, de 105 para 121; a Rússia, de 473 para 729; a Inglaterra, de 90 para 153; a França, de 76 para 114; a Alemanha, de 74 para 96; a Argentina, de 62 para 168; o Chile, de 153 para 320; entre outros.

Porém, nos últimos 15 anos, alguns países têm se movimentado para frear o crescimento do número de presos e promover ações para reduzi-la. Os EUA, por exemplo, reduziram os 2,3 milhões em 2008 para os atuais 2,1 milhões – somente o estado da Califórnia foi responsável por cerca de um quarto desta redução.

Na Europa, entre 2000 e 2015, a população carcerária foi reduzida em 21%, em um processo parcialmente ligado à crescente influência de inúmeras decisões do Tribunal Europeu de Direitos Humanos contra tratamentos desumanos e degradantes e pela redução do número de presos como medida imediata de enfrentamento à superlotação.

No mesmo período, porém, nas Américas, houve um aumento de 40% dos presos – um crescimento influenciado pelo alto ritmo de crescimento da população carcerária no Brasil: entre 2000 e 2015, enquanto os EUA aumentaram em 14% sua população carcerária, no Brasil houve uma alta de aproximadamente 170%.

O fogo de nossas lembranças

O Brasil é um país onde as coisas acontecem, para o bem ou para o mal, de um modo inusitado e quase sempre esquisito. É como se precisássemos disfarçar nossa história, contá-la de um jeito difícil de entender, rebuscado e criptografado, como se evitássemos seguir rumo racional e coerente para narrar o que nos sucede ao longo do tempo. Parece que não queremos mesmo que nos conheçam e nos entendam, preferimos a incredulidade e a dúvida, um surrealismo artificial montado para não permitir comparações com a regra do jogo no resto do mundo. O que nos acontece, contado por nós mesmos, parece, de tão absurdo, narrativa organizada para enganar os trouxas, mesmo que às vezes resulte numa piada de mau gosto. Mas é tudo verdade.


O herói de nossa Independência foi um príncipe português, filho do rei de Portugal, a metrópole que nos havia colonizado. Mas quem assinou o decreto que formalizou a Independência foi a mulher do príncipe, dona Maria Leopoldina, princesa austríaca. Sessenta e sete anos depois, a República foi proclamada por um dos mais íntimos amigos do Imperador, um general que se arrependeu do que fez. A República, um golpe de Estado contra o desejo da maioria da população, foi uma desforra dos senhores de terras contra a Abolição, a libertação dos escravos assinada pela princesa Isabel, a filha do imperador, na ausência deste.

Os primeiros 40 anos de República serviram para dar continuidade ao poder imperial dos latifundiários, através de sucessivas eleições fraudulentas e subestimação permanente do que era popular e nacional. A revolução liberal de 1930, feita para encerrar esses tempos oligárquicos, acabou produzindo a primeira expressiva ditadura no país, o Estado Novo, que durou oito anos. Em 1945, o ditador foi deposto, e o povo elegeu o ministro da Guerra da ditadura como primeiro presidente da nova República. E este, por sua vez, seria sucedido pelo próprio ditador deposto que, assim, voltava ao poder pela vontade do povo, através de uma eleição consagradoramente democrática. Uma nova ditadura imposta por civis e militares, a partir de 1964, só terminaria 21 anos depois, sob a presidência de um político que fora dirigente máximo do partido do regime autoritário.

Nossa surpreendente insanidade segue por aí afora. É como se estivéssemos sempre corrigindo o excesso ou o próprio sentido das revoluções que tentamos fazer. Nunca, em nenhum outro lugar do planeta, se é ou se foi tão fiel ao mote do lorde do “Gattopardo”: mudar para não ter que mudar. Enquanto essa estranha política finge ser um projeto em desenvolvimento, uma atração curiosa e simpática para nossa inserção no mundo civilizado, um amadurecimento charmoso e coquete da nação em direção a seu equilíbrio social e a uma economia cheia de trejeitos que nos transformará em um dos países mais importantes do universo, os pequenos desastres se sucedem, traindo de fato tudo aquilo que pensamos e dizemos sobre o Brasil.

Para que nossa memória não se contagie com nada de bom, assistimos impávidos à destruição de toda lembrança de grandeza e verdade originais, de incêndios históricos, como os do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, da Cinemateca Brasileira (onde o fogo destruiu 270 títulos de filmes aos quais nunca demos bola), à recente tragédia devastadora do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Por ironia, diretores de museus, especialistas e curadores estão marcando um encontro para discutir o assunto nas dependências do Museu do Amanhã, bela criação rocambolesca para que nos aliviemos com os sonhos do futuro, onde sempre podemos mentir à vontade.

Há poucos anos, o Banco Mundial ofereceu 80 milhões de dólares para recuperar o Museu Nacional que acaba de ser destruído pelo fogo. Os responsáveis hierarcas não aceitaram a proposta, para não perdermos o controle do Estado sobre o museu, o controle sobre nossos fracassos. Pior do que lembrar nossos fracassos, o Museu Nacional, com seu meteorito Bendegó, suas múmias egípcias, seus insetos e borboletas, sua mulher mais antiga da história americana, nos dizia de onde viemos e porque somos assim — o que não queremos, nem suportamos saber. Luiz Antonio Simas escreveu outro dia, sobre o incêndio, que “não é o passado que assistimos consumido pelas chamas; é o futuro dos herdeiros de Luzia que queimou ali”.
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Devido ao feriado da Independência, enviei este meu artigo, e o jornal o recebeu antes do atentado a Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora. A insensatez desse evento lamentável corresponde a tudo o que escrevi acima. Há mais de cinco séculos, procuramos um rumo de nação decente para o Brasil, mas somos constantemente traídos pela insanidade de nossos acontecimentos históricos. Como acabar com essa maldição?
Cacá Diegues