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| Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO), Márcio Cabral - Prêmio International Landscape Photographer of the Year 017. |
quinta-feira, 8 de março de 2018
Paisagem brasileira
Os escravos do tempo
A palavra “propaganda” tem mau nome. Difícil discordar. O século 20 não foi um passeio no parque. E o totalitarismo provocou milhões de cadáveres tendo na propaganda um aliado mortal. Verdade: se entendermos por propaganda o uso da arte para veicular ideias religiosas, políticas ou sociais, grande parte da história da arte é um exercício contínuo de propaganda. Mesmo a máxima “a arte pela arte” é uma posição política, ou então apolítica, que não atraiçoa o proselitismo original.
Mas a “propaganda” que conta é outra: o uso da arte, sim, para disseminar ideologias de dominação. E, nesse quesito, como esquecer a Alemanha nazista ou a União Soviética comunista?
Na Alemanha, a propaganda do Reich fez-se a dois tempos: por um lado, destruindo a “decadência” modernista e a sua mensagem de “degeneração” e “negritude”; por outro, promovendo uma arte capaz de exortar o valor da raça ariana –forte, sadia, superior– como se vê nas pinturas de Adolf Ziegler.
Na União Soviética, não foi diferente: o “realismo socialista” passou a dogma em 1934. A “função” da arte era indistinta da mensagem do Partido: o líder passou a figurar em público na sua monumentalidade esmagadora — e o povo, agente revolucionário por definição, era retratado como a força vital da nação rumo a um progresso glorioso.
O nazismo jaz no caixote do lixo da história. O comunismo, tirando dois ou três estados-zombies, também. Mas a propaganda está de volta: se o tribalismo político regressou ao mundo dos vivos, a sua estética preferida não poderia ser deixada de lado.
Semanas atrás, o historiador português Rui Ramos escreveu no site Observador que, nos prêmios das diferentes indústrias, ninguém discutia a “qualidade” dos produtos. O que interessava era saber se os filmes ou as músicas obedeciam a critérios de “representatividade”.
Por outras palavras: mais importante do que saber se o filme X valia como obra cinematográfica era saber qual o sexo do diretor Y ou a etnia do ator Z. Concordo com o meu ilustre compatriota. Basta olhar em volta para perceber que as preocupações estéticas deram lugar à retórica repugnante da ideologia.
No New York Times, Lindy West é apenas um exemplo da corrupção em curso: em texto que faria as delícias de um tirano, a sra. West proclamava que a queda dos “homens maus” na indústria de cinema já não era suficiente.
Agora, era preciso enterrar de vez os “filmes maus”. E o que são os “filmes maus”? Precisamente: obras que não se ajustam a ideias preconcebidas de raça, sexualidade ou justiça social. Joseph Goebbels não diria melhor. Mas Lindy West não é caso único. A revista The New Yorker, que está francamente insuportável, perguntava nas vésperas do Oscar quantos filmes seriam aprovados pelo “Teste Bechdel”.
Segundo esse teste, existem três questões fundamentais que devem ser formuladas sobre qualquer filme: a) existem duas (ou mais) personagens femininas com direito a nome próprio?; b) essas personagens falam uma com a outra?; c) em caso afirmativo, será que as personagens femininas falam sobre assuntos que não incluam “o homem”?
Para a revista, “Lady Bird”, “The Post” e “Corra!” passam no teste. “A Forma da Água”, “Dunkirk” e “O Destino de uma Nação” fracassam miseravelmente.
Grande parte da cultura popular é uma forma tosca de propaganda. O livro, o filme ou a peça de teatro já não obedecem a critérios estéticos ou intelectuais do criador. As obras ajustam-se a uma cartilha tão autoritária, atrasada e brega como as propagandas do passado.
Sim, não temos denúncias de “negritude”, “bolchevismo cultural” ou “decadência burguesa”. Mas, no seu lugar, surgem os pecados do “machismo”, da “heteronormatividade” ou da “misoginia”. O fim é o mesmo: a abolição da liberdade individual pelo fanatismo da tribo. Perante isto, a pergunta leninista: o que fazer?
Pessoalmente, tentar remar contra os novos bárbaros –ou, inversamente, pensar e criar como se eles não existissem. É a única forma de proteger a integridade da arte.
Até porque há uma lição consoladora na história da propaganda: os bárbaros acreditam que têm o “espírito do tempo” do seu lado. Fatalmente, quando lemos os seus nomes em livros esquecidos, nenhum deles legou uma obra que mereça dois segundos de atenção.
Faz sentido: quem é escravo do tempo morre com o tempo.
Mas a “propaganda” que conta é outra: o uso da arte, sim, para disseminar ideologias de dominação. E, nesse quesito, como esquecer a Alemanha nazista ou a União Soviética comunista?
Na Alemanha, a propaganda do Reich fez-se a dois tempos: por um lado, destruindo a “decadência” modernista e a sua mensagem de “degeneração” e “negritude”; por outro, promovendo uma arte capaz de exortar o valor da raça ariana –forte, sadia, superior– como se vê nas pinturas de Adolf Ziegler.
Na União Soviética, não foi diferente: o “realismo socialista” passou a dogma em 1934. A “função” da arte era indistinta da mensagem do Partido: o líder passou a figurar em público na sua monumentalidade esmagadora — e o povo, agente revolucionário por definição, era retratado como a força vital da nação rumo a um progresso glorioso.

Semanas atrás, o historiador português Rui Ramos escreveu no site Observador que, nos prêmios das diferentes indústrias, ninguém discutia a “qualidade” dos produtos. O que interessava era saber se os filmes ou as músicas obedeciam a critérios de “representatividade”.
Por outras palavras: mais importante do que saber se o filme X valia como obra cinematográfica era saber qual o sexo do diretor Y ou a etnia do ator Z. Concordo com o meu ilustre compatriota. Basta olhar em volta para perceber que as preocupações estéticas deram lugar à retórica repugnante da ideologia.
No New York Times, Lindy West é apenas um exemplo da corrupção em curso: em texto que faria as delícias de um tirano, a sra. West proclamava que a queda dos “homens maus” na indústria de cinema já não era suficiente.
Agora, era preciso enterrar de vez os “filmes maus”. E o que são os “filmes maus”? Precisamente: obras que não se ajustam a ideias preconcebidas de raça, sexualidade ou justiça social. Joseph Goebbels não diria melhor. Mas Lindy West não é caso único. A revista The New Yorker, que está francamente insuportável, perguntava nas vésperas do Oscar quantos filmes seriam aprovados pelo “Teste Bechdel”.
Segundo esse teste, existem três questões fundamentais que devem ser formuladas sobre qualquer filme: a) existem duas (ou mais) personagens femininas com direito a nome próprio?; b) essas personagens falam uma com a outra?; c) em caso afirmativo, será que as personagens femininas falam sobre assuntos que não incluam “o homem”?
Para a revista, “Lady Bird”, “The Post” e “Corra!” passam no teste. “A Forma da Água”, “Dunkirk” e “O Destino de uma Nação” fracassam miseravelmente.
Grande parte da cultura popular é uma forma tosca de propaganda. O livro, o filme ou a peça de teatro já não obedecem a critérios estéticos ou intelectuais do criador. As obras ajustam-se a uma cartilha tão autoritária, atrasada e brega como as propagandas do passado.
Sim, não temos denúncias de “negritude”, “bolchevismo cultural” ou “decadência burguesa”. Mas, no seu lugar, surgem os pecados do “machismo”, da “heteronormatividade” ou da “misoginia”. O fim é o mesmo: a abolição da liberdade individual pelo fanatismo da tribo. Perante isto, a pergunta leninista: o que fazer?
Pessoalmente, tentar remar contra os novos bárbaros –ou, inversamente, pensar e criar como se eles não existissem. É a única forma de proteger a integridade da arte.
Até porque há uma lição consoladora na história da propaganda: os bárbaros acreditam que têm o “espírito do tempo” do seu lado. Fatalmente, quando lemos os seus nomes em livros esquecidos, nenhum deles legou uma obra que mereça dois segundos de atenção.
Faz sentido: quem é escravo do tempo morre com o tempo.
Os ministérios mais cobiçados pelos políticos do Brasil
O loteamento de ministérios é visto como tradicional moeda de troca no Brasil. O presidente nomeia integrantes de partidos aliados e espera, em retorno, apoio para governar, especialmente em votações no Congresso Nacional. Em meio a processos de reforma ministerial, como o que Michel Temer enfrentará nas próximas semanas, as disputas pelas pastas ficam evidentes no tabuleiro político. Algumas têm mais "valor" que outras, e por elas é que a base aliada se engalfinha.
Uma pesquisa inédita de professores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Fundação Getulio Vargas (FGV) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), divulgada com exclusividade pela BBC Brasil, ouviu parlamentares e especialistas para identificar quais são os ministérios mais cobiçados da Esplanada. Em outras palavras, qual o "valor" de cada um deles. O resultado pode ajudar a esclarecer o que está por trás das barganhas políticas.
"A pesquisa ajuda a entender um processo que normalmente é feito a portas fechadas, identificando quais as preferências dos partidos com relação a cada ministério e quais são os atributos dos ministérios que influenciam essas preferências", explicou à BBC Brasil a cientista política Mariana Batista, da UFPE.
"É possível saber em que medida os parlamentares são movidos pelo orçamento dos ministérios, o orçamento de investimentos, o número de indicações políticas disponíveis ou ainda a capacidade de formular a agenda legislativa."
Timothy J. Power, diretor do Programa de Estudos Brasileiros de Oxford e um dos coordenadores da pesquisa, destaca que os estudos existentes até hoje no Brasil se concentravam em verificar se o número de ministérios entregues aos partidos da coligação era adequado à importância de cada legenda no Congresso.
Ou seja, quanto mais votos o partido pudesse "entregar" ao governo em votações, mais ministérios deveria receber. "Mas será que um partido que recebeu os ministérios da Fazenda e do Planejamento estaria tão satisfeito quanto outro que recebeu o Ministério da Cultura e o do Turismo?", questionou ele em entrevista à BBC Brasil.
Uma pesquisa inédita de professores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Fundação Getulio Vargas (FGV) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), divulgada com exclusividade pela BBC Brasil, ouviu parlamentares e especialistas para identificar quais são os ministérios mais cobiçados da Esplanada. Em outras palavras, qual o "valor" de cada um deles. O resultado pode ajudar a esclarecer o que está por trás das barganhas políticas.

"A pesquisa ajuda a entender um processo que normalmente é feito a portas fechadas, identificando quais as preferências dos partidos com relação a cada ministério e quais são os atributos dos ministérios que influenciam essas preferências", explicou à BBC Brasil a cientista política Mariana Batista, da UFPE.
"É possível saber em que medida os parlamentares são movidos pelo orçamento dos ministérios, o orçamento de investimentos, o número de indicações políticas disponíveis ou ainda a capacidade de formular a agenda legislativa."
Timothy J. Power, diretor do Programa de Estudos Brasileiros de Oxford e um dos coordenadores da pesquisa, destaca que os estudos existentes até hoje no Brasil se concentravam em verificar se o número de ministérios entregues aos partidos da coligação era adequado à importância de cada legenda no Congresso.
Ou seja, quanto mais votos o partido pudesse "entregar" ao governo em votações, mais ministérios deveria receber. "Mas será que um partido que recebeu os ministérios da Fazenda e do Planejamento estaria tão satisfeito quanto outro que recebeu o Ministério da Cultura e o do Turismo?", questionou ele em entrevista à BBC Brasil.
Mas como calcular o valor de cada pasta? Entre abril e setembro de 2017, já durante o governo Temer, os pesquisadores distribuíram um questionário a deputados e senadores. Quatro pares de ministérios foram apresentados com a seguinte pergunta:
"Imagine uma situação hipotética em que um(a) futuro(a) presidente(a) da República esteja sondando o interesse de seu partido num cargo de primeiro escalão do governo. Para cada um dos pares abaixo, indique qual cargo o (a) sr.(a) acha que o seu partido preferiria."
O estudo sobre as preferências de cargos no Executivo integra a oitava edição do Brazilian Legislative Survey (BLS), levantamento feito a cada quatro anos com parlamentares brasileiros sobre diferentes temas. O BLS existe desde a redemocratização, mas esta foi a primeira vez que o tema dos ministérios foi incorporado ao questionário.
Foram ouvidos 141 parlamentares. Por meio de um método estatístico, os pesquisadores conseguiram usar as mais de 500 combinações que surgiram das respostas para montar um "ranking" dos ministérios considerados mais valiosos pelos políticos.
"Como todos os ministérios foram citados, conseguimos encadear as respostas com o modelo matemático e montar um ranking completo com base nessas comparações, sem precisar entrevistar 100% do Congresso", explicou o professor Cesar Zucco, da FGV, um dos autores da pesquisa.
O resultado mostrou que as pastas mais cobiçadas são: Cidades, Planejamento, Fazenda, Casa Civil, Educação, Minas e Energia e Saúde.
Na outra ponta, como "rejeitados", estão Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e Secretaria Especial de Políticas para Mulheres - essas duas secretarias perderam status de ministério no governo Temer. Também despertam pouco interesse as pastas de Direitos Humanos, Esportes, Turismo e Cultura.
As diferenças acentuadas entre os ministérios com "valor" mais alto revelam uma série de fatores que podem influenciar o interesse dos partidos: grau de visibilidade, orçamento, capacidade de orientar políticas públicas, número de cargos no segundo escalão para empregar apadrinhados e capacidade regulatória em contratos e concessões.
"Dinheiro não é tudo. Empregos para distribuir não é tudo. Outras questões são incorporadas ao preço dos ministérios, como o poder de estabelecer a agenda política, proximidade com o presidente e capacidade de moldar o cenário eleitoral", afirma Power.
Leia mais
"Imagine uma situação hipotética em que um(a) futuro(a) presidente(a) da República esteja sondando o interesse de seu partido num cargo de primeiro escalão do governo. Para cada um dos pares abaixo, indique qual cargo o (a) sr.(a) acha que o seu partido preferiria."
O estudo sobre as preferências de cargos no Executivo integra a oitava edição do Brazilian Legislative Survey (BLS), levantamento feito a cada quatro anos com parlamentares brasileiros sobre diferentes temas. O BLS existe desde a redemocratização, mas esta foi a primeira vez que o tema dos ministérios foi incorporado ao questionário.
Foram ouvidos 141 parlamentares. Por meio de um método estatístico, os pesquisadores conseguiram usar as mais de 500 combinações que surgiram das respostas para montar um "ranking" dos ministérios considerados mais valiosos pelos políticos.
"Como todos os ministérios foram citados, conseguimos encadear as respostas com o modelo matemático e montar um ranking completo com base nessas comparações, sem precisar entrevistar 100% do Congresso", explicou o professor Cesar Zucco, da FGV, um dos autores da pesquisa.
O resultado mostrou que as pastas mais cobiçadas são: Cidades, Planejamento, Fazenda, Casa Civil, Educação, Minas e Energia e Saúde.
Na outra ponta, como "rejeitados", estão Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e Secretaria Especial de Políticas para Mulheres - essas duas secretarias perderam status de ministério no governo Temer. Também despertam pouco interesse as pastas de Direitos Humanos, Esportes, Turismo e Cultura.
As diferenças acentuadas entre os ministérios com "valor" mais alto revelam uma série de fatores que podem influenciar o interesse dos partidos: grau de visibilidade, orçamento, capacidade de orientar políticas públicas, número de cargos no segundo escalão para empregar apadrinhados e capacidade regulatória em contratos e concessões.
"Dinheiro não é tudo. Empregos para distribuir não é tudo. Outras questões são incorporadas ao preço dos ministérios, como o poder de estabelecer a agenda política, proximidade com o presidente e capacidade de moldar o cenário eleitoral", afirma Power.
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quarta-feira, 7 de março de 2018
Acadêmicos da Destruição
No que somos bons? Somos excepcionais em destruir. Sabemos destruir planos, heranças, promessas, personalidades, fatos, governos, empresas, investimentos, impostos e o futuro.
O Brasil e um dos países mais avançados do mundo no quesito destruição. Possuímos a cidade mais linda do mundo, que foi destruída. Tínhamos o presidente mais popular do mundo, (auto)destruído. Tínhamos superávits mensais e nível de investimento que a rainha da bateria dos Acadêmicos da Destruição, Dilma Rousseff, destruiu.
Nossa relação com a Democracia e o Presidencialismo são superficiais e mal compreendidas. Tratamos a democracia apenas como um fim e não como um processo. Para muitos, a democracia é apenas o ato de votar, não de monitorar, pressionar, e buscar o aprimoramento. As regras não são compreendidas e o Congresso (a alma de uma democracia), é tratado como a lixeira da nossa. Temos instituições, temos leis, temos processos, temos imprensa livre, mas temos duas pontas desencapadas deste longo fio, as quais geram todo o curto-circuito no nosso funcionamento: o eleitor e o eleito. O eleitor vota por vingança, por paixão, por deboche ou por provocação. A convicção é leve, é superficial e baseada, muitas vezes, no instinto.
Nosso Presidencialismo também é demonizado. Alguns dos importantes líderes políticos de nossa historia, muitos, diga-se de passagem, não queriam o Presidencialismo que criaram. Buscavam o parlamentarismo, mas não havia narrativa suficiente para explicar que o debate coletivo das ideias poderia ser mais importante para o eleitor do que o messianismo de um salvador.
Destruir é fácil e traz um prazer quase proibido para quem participou da arquitetura da mesma. No ambiente político e econômico de hoje, temos a Reforma da Previdência destruída pela enésima vez. Esta, corre o risco de voltar apenas quando algo ainda mais importante for destruído: o futuro do aposentado. A reforma politica é a oportunidade de nos livrarmos de um sistema político indutor da corrupção, viciado e injusto na forma de eleger seus representantes. A reforma tributaria é a chance de simplificarmos o pagamento de impostos e facilitar a abertura de empresas e dar estímulo ao investimento privado.
No entanto, nada disso avança. A torcida, de grande parte é que não dê certo e que essas mudanças não avancem. Vários preferem destruir a Previdência a ter que arcar com os custos políticos de construir algo novo partir de agora. Outros, preferem destruir a credibilidade política a ter que modificar as regras que os elegem. O fetiche pela destruição sempre passa pela estrada da arrogância. Por isso, certamente, não estão percebendo que os próximos a serem destruídos são eles próprios!
Thiago de Aragão
O Brasil e um dos países mais avançados do mundo no quesito destruição. Possuímos a cidade mais linda do mundo, que foi destruída. Tínhamos o presidente mais popular do mundo, (auto)destruído. Tínhamos superávits mensais e nível de investimento que a rainha da bateria dos Acadêmicos da Destruição, Dilma Rousseff, destruiu.

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Congresso, JBS, Petrobras, CBF, Oi, Odebrecht, Olimpíada, Estádios da Copa, educação, SUS, universidades federais, a lista é infinita. Alguns mostram recuperação (Petrobras, Oi, CBF, talvez outros mais já esteja em processo ou vão conseguir), mas, em geral, nossa ânsia pela destruição de tudo de bom que possuímos é enorme. Por que somos assim?Nossa relação com a Democracia e o Presidencialismo são superficiais e mal compreendidas. Tratamos a democracia apenas como um fim e não como um processo. Para muitos, a democracia é apenas o ato de votar, não de monitorar, pressionar, e buscar o aprimoramento. As regras não são compreendidas e o Congresso (a alma de uma democracia), é tratado como a lixeira da nossa. Temos instituições, temos leis, temos processos, temos imprensa livre, mas temos duas pontas desencapadas deste longo fio, as quais geram todo o curto-circuito no nosso funcionamento: o eleitor e o eleito. O eleitor vota por vingança, por paixão, por deboche ou por provocação. A convicção é leve, é superficial e baseada, muitas vezes, no instinto.
Nosso Presidencialismo também é demonizado. Alguns dos importantes líderes políticos de nossa historia, muitos, diga-se de passagem, não queriam o Presidencialismo que criaram. Buscavam o parlamentarismo, mas não havia narrativa suficiente para explicar que o debate coletivo das ideias poderia ser mais importante para o eleitor do que o messianismo de um salvador.
Destruir é fácil e traz um prazer quase proibido para quem participou da arquitetura da mesma. No ambiente político e econômico de hoje, temos a Reforma da Previdência destruída pela enésima vez. Esta, corre o risco de voltar apenas quando algo ainda mais importante for destruído: o futuro do aposentado. A reforma politica é a oportunidade de nos livrarmos de um sistema político indutor da corrupção, viciado e injusto na forma de eleger seus representantes. A reforma tributaria é a chance de simplificarmos o pagamento de impostos e facilitar a abertura de empresas e dar estímulo ao investimento privado.
No entanto, nada disso avança. A torcida, de grande parte é que não dê certo e que essas mudanças não avancem. Vários preferem destruir a Previdência a ter que arcar com os custos políticos de construir algo novo partir de agora. Outros, preferem destruir a credibilidade política a ter que modificar as regras que os elegem. O fetiche pela destruição sempre passa pela estrada da arrogância. Por isso, certamente, não estão percebendo que os próximos a serem destruídos são eles próprios!
Thiago de Aragão
Por que os mosquitos picam mais os mais pobres
Para ir de uma residência de Matamoros, no norte do México, a outra de Brownsville, no sul dos Estados Unidos, podem bastar menos de cinco minutos caminhando. São duas cidades tão coladas que quase poderiam ser uma só. E, claro, compartilham o mesmo clima e entre elas está tão somente o rio Bravo. Em um estudo sobre dengue feito nas duas, o município texano tinha uma incidência de 4%; o mexicano tinha sete vezes mais.
Os mosquitos não são racistas, mas parece que entendem de classes sociais. As baixas levam a pior com suas picadas e as doenças que transmitem. A forma de armazenar a água, de tratar (ou não) os resíduos, o uso de ar-condicionado são determinantes para que se criem, vivam, reproduzam e alimentem em um ou outro lugar.
“O comportamento e os fatores socioeconômicos influem mais que nenhum outro na propagação de doenças causadas por vetores”, afirmou Jaime Torres, diretor do departamento de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela, na XVIII Conferência Internacional de Doenças Infecciosas, que se realizou nos primeiros dias de março em Buenos Aires.
Em seu país, por exemplo, observou que as pessoas que vivem em barracos, ou ranchos, como lá são chamados esses tipos de assentamentos informais, têm 13 vezes mais probabilidade de serem infectadas por dengue do que alguém que more em um apartamento ou casa. Várias pesquisas de Torres mostram como a incidência dessa doença está diretamente relacionada com os níveis de renda.
O aedes aegypti, a espécie de mosquito que, além da dengue, transmite zika, febre amarela e chikungunya, vive comodamente quando as temperaturas beiram os 25 graus. E deixa suas larvas na água, por isso, os lugares onde fica parada depois das chuvas, seja em baldes que muitas comunidades de poucos recursos usam para armazená-la ou em pneus, plásticos e demais objetos descartados, são ideais para ele.
A forma de armazenar a água, de tratar (ou não) os resíduos, o uso do ar-condicionado são determinantes para que esses insetos criem, vivam, se reproduzam e alimentem em um ou outro lugar
Em condições iguais, evidentemente, não diferencia entre classes sociais. Mas faz isso em função de outros padrões. Existem pesquisas nas quais gêmeos idênticos eram expostos ao inseto e recebiam em média o mesmo número de picadas. No entanto, se isso se fazia com gêmeos fraternos, a coisa variava. As diferenças genéticas entre pessoas podem fazer com que algumas sejam mais picadas que outras. “Por alguma razão que desconhecemos preferem as que têm mais colesterol ou esteroides na pele. Também se inclinam para aquelas que emitem mais dióxido de carbono, o que inclui as grávidas; as que fazem exercícios, as que transpiram mais; as que produzem mais calor corporal; as do grupo sanguíneo O; e as que bebem álcool, especialmente cerveja”, relatou Torres. Também é preciso levar em conta que há indivíduos cuja reação à saliva do inseto é maior, por isso são mais conscientes das picadas, embora não necessariamente sejam mais picados que os outros.
Em sua palestra explicou que essa espécie de mosquito não costuma se deslocar mais de 50 ou 100 metros. Portanto, utiliza os veículos do ser humano para se locomover. A febre amarela, por exemplo, chegou da África para a América, com o tráfico de escravos. E foi se espalhando pela região no mesmo ritmo em que as pessoas se deslocavam. Porque esses insetos são “muito leais ao ser humano”, nas palavras de Torres; “Andam sempre com a gente”.
A globalização e os deslocamentos em massa de pessoas por todo o mundo estão fazendo com que essa espécie, e também as doenças que transmite, esteja se expandindo. Isso pode incrementar-se ainda mais com as mudanças climáticas, já que as variações de temperatura provavelmente os levarão a se adaptar melhor a lugares que agora são frios demais para eles. Também fugirão daqueles que se tornaram extremamente quentes, já que não suporta muito mais que 30 graus.
Todos esses fenômenos estiveram presentes nos recentes surtos de zika, chikungunya, dengue e febre amarela em vários países da América Latina nos últimos anos.

Os mosquitos não são racistas, mas parece que entendem de classes sociais. As baixas levam a pior com suas picadas e as doenças que transmitem. A forma de armazenar a água, de tratar (ou não) os resíduos, o uso de ar-condicionado são determinantes para que se criem, vivam, reproduzam e alimentem em um ou outro lugar.
“O comportamento e os fatores socioeconômicos influem mais que nenhum outro na propagação de doenças causadas por vetores”, afirmou Jaime Torres, diretor do departamento de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela, na XVIII Conferência Internacional de Doenças Infecciosas, que se realizou nos primeiros dias de março em Buenos Aires.
Em seu país, por exemplo, observou que as pessoas que vivem em barracos, ou ranchos, como lá são chamados esses tipos de assentamentos informais, têm 13 vezes mais probabilidade de serem infectadas por dengue do que alguém que more em um apartamento ou casa. Várias pesquisas de Torres mostram como a incidência dessa doença está diretamente relacionada com os níveis de renda.
O aedes aegypti, a espécie de mosquito que, além da dengue, transmite zika, febre amarela e chikungunya, vive comodamente quando as temperaturas beiram os 25 graus. E deixa suas larvas na água, por isso, os lugares onde fica parada depois das chuvas, seja em baldes que muitas comunidades de poucos recursos usam para armazená-la ou em pneus, plásticos e demais objetos descartados, são ideais para ele.
A forma de armazenar a água, de tratar (ou não) os resíduos, o uso do ar-condicionado são determinantes para que esses insetos criem, vivam, se reproduzam e alimentem em um ou outro lugar
Em condições iguais, evidentemente, não diferencia entre classes sociais. Mas faz isso em função de outros padrões. Existem pesquisas nas quais gêmeos idênticos eram expostos ao inseto e recebiam em média o mesmo número de picadas. No entanto, se isso se fazia com gêmeos fraternos, a coisa variava. As diferenças genéticas entre pessoas podem fazer com que algumas sejam mais picadas que outras. “Por alguma razão que desconhecemos preferem as que têm mais colesterol ou esteroides na pele. Também se inclinam para aquelas que emitem mais dióxido de carbono, o que inclui as grávidas; as que fazem exercícios, as que transpiram mais; as que produzem mais calor corporal; as do grupo sanguíneo O; e as que bebem álcool, especialmente cerveja”, relatou Torres. Também é preciso levar em conta que há indivíduos cuja reação à saliva do inseto é maior, por isso são mais conscientes das picadas, embora não necessariamente sejam mais picados que os outros.
Em sua palestra explicou que essa espécie de mosquito não costuma se deslocar mais de 50 ou 100 metros. Portanto, utiliza os veículos do ser humano para se locomover. A febre amarela, por exemplo, chegou da África para a América, com o tráfico de escravos. E foi se espalhando pela região no mesmo ritmo em que as pessoas se deslocavam. Porque esses insetos são “muito leais ao ser humano”, nas palavras de Torres; “Andam sempre com a gente”.
A globalização e os deslocamentos em massa de pessoas por todo o mundo estão fazendo com que essa espécie, e também as doenças que transmite, esteja se expandindo. Isso pode incrementar-se ainda mais com as mudanças climáticas, já que as variações de temperatura provavelmente os levarão a se adaptar melhor a lugares que agora são frios demais para eles. Também fugirão daqueles que se tornaram extremamente quentes, já que não suporta muito mais que 30 graus.
Todos esses fenômenos estiveram presentes nos recentes surtos de zika, chikungunya, dengue e febre amarela em vários países da América Latina nos últimos anos.
Imagem do Dia
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| . Southern Highlands (Islândia), Alex Nail, vencedor na categoria Montanhas do International Landscape Photographer of the Year 2017. |
Lula afunda sem a solidariedade das multidões
O Superior Tribunal de Justiça injetou uma nova dose de realidade na fábula construída por Lula. Ao negar o pedido para livrar o condenado antecipadamente de uma ordem de prisão, o tribunal deu de ombros para a ofensiva política do petismo. Lula e seus devotos imaginavam que, criando uma atmosfera de conflagração, conseguiriam amedrontar o Judiciário. Já não havia colado no TRF-4. Deu errado também no STJ. Resta agora saber que papel fará o Supremo Tribunal Federal.
Inelegível, Lula frequenta as manchetes como um corrupto de segunda instância. Esperava contar com a solidariedade de multidões. Mas não há vestígio de agitação nas ruas. A vida cotidiana do brasileiro que trabalha para encher a geladeira não se alterou. O “exército do Stédile” também não saiu às ruas. Nem sinal da militância sindical da CUT. Todos dormem sem remorso e acordam sem culpa.
Às vésperas do julgamento em que o TRF-4 confirmou a sentença de Sergio Moro no caso do tríplex do Guaruja, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, dizia que, “para prender o Lula, vai ter de prender muita gente, mais do que isso, vai ter de matar gente.” O STJ abriu um pouco mãos a porta da cela. E o único cadáver que surgiu em cena até agora foi o da candidatura presidencial de Lula. O jogo passa a ser jogado no STF. Se salvar Lula da cadeia, a Suprema Corte pula dentro da cova.

Às vésperas do julgamento em que o TRF-4 confirmou a sentença de Sergio Moro no caso do tríplex do Guaruja, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, dizia que, “para prender o Lula, vai ter de prender muita gente, mais do que isso, vai ter de matar gente.” O STJ abriu um pouco mãos a porta da cela. E o único cadáver que surgiu em cena até agora foi o da candidatura presidencial de Lula. O jogo passa a ser jogado no STF. Se salvar Lula da cadeia, a Suprema Corte pula dentro da cova.
Crônica do autoritarismo anunciado
O geógrafo David Harvey, o sociólogo Wolfgang Streeck e o jornalista Raúl Zibechi, entre outros, têm escrito, com maestria, sobre a intensificação do controle militarizado e da democracia totalitária, que, mundo afora, já estamos vivendo há algum tempo. É a marca registrada do capitalismo contemporâneo. No Brasil, território periférico dessas tramas, essa realidade é lamentavelmente mais aguda. Podemos fixar, simbolicamente, nas penumbras do tempo, um termo inicial para a aceleração da repressão consentida que caracteriza o período que estamos atravessando: 18 de outubro de 1985. Naquela data, consolidou-se, como dizia Francisco Weffort, a “transição pactuada” do regime autocrático de 1964 para a Nova República. Estabeleceu-se uma concertação conservadora, segundo a qual as Forças Armadas recuariam de seu protagonismo e passariam a assumir o papel de tutela das instituições ditas democráticas, como garantidoras da lei e da ordem interna. As elites acreditavam, com reservas, na convivência entre o regime democrático e a economia de mercado. Daí a necessidade de medidas cautelares a conferir, em última instância, aos militares um poder moderador.
Precisamente naquele dia, sob os auspícios de Ulysses Guimarães, uma comissão mista do Congresso Nacional derrotou o substitutivo do deputado Flávio Bierrenbach (PMDB-SP) à proposta de emenda constitucional oferecida pelo então presidente José Sarney, pela qual a legislatura ordinária que seria instalada em 1987 estaria investida de poderes constituintes. Deputados e senadores que viessem a ser eleitos em novembro de 1986, aos quais se somariam os membros do Senado Federal já sufragados em 1982, reunidos em Assembleia unicameral e pelo voto da maioria absoluta desse colegiado, elaborariam um novo texto constitucional para o país. Bierrenbach foi derrotado ao propor, antes disso, a convocação de um plebiscito a fim de que o povo, soberanamente, decidisse se queria uma Assembleia Constituinte exclusiva – que se dissolveria após concluir seus trabalhos – ou se conferiria poderes constituintes ao futuro Congresso Nacional ordinário. Com isso, tivemos um arremedo de Constituinte “soberana”, cujos trabalhos teriam culminado na promulgação de uma Constituição “dogmática”, como, via de regra, exaltam os mais corriqueiros manuais de direito constitucional. Só para lembrar: os “constituintes” de 1986 foram eleitos sem praticamente tocar no tema da nova Constituição durante a propaganda eleitoral. O que importava era elogiar o Plano Cruzado de Sarney – que, aliás, foi revogado logo após passadas as eleições –, e não a Constituição que deveriam escrever.
Bierrenbach ousou desafiar a máxima de Lampedusa: “É preciso mudar para que tudo continue como está”. Foi trucidado. Excelente parlamentar, não conseguiu reeleger-se. Por ironia do destino, foi nomeado, em 1999, por FHC, ministro do Superior Tribunal Militar. Hoje, dedica-se a pregar a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte livre, soberana e democrática.
O tempo lhe deu razão.
Bierrenbach ousou desafiar a máxima de Lampedusa: “É preciso mudar para que tudo continue como está”. Foi trucidado. Excelente parlamentar, não conseguiu reeleger-se. Por ironia do destino, foi nomeado, em 1999, por FHC, ministro do Superior Tribunal Militar. Hoje, dedica-se a pregar a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte livre, soberana e democrática.
O tempo lhe deu razão.
terça-feira, 6 de março de 2018
Se foi 'jogada de mestre', o Rio está frito
"Jogada de mestre", as três palavras ditas por Temer ecoam as outras cinco ("tem que manter isso, viu?") que descarrilaram seu governo. O doutor nomeou um general para pacificar o Rio e criou um Ministério da Segurança. Braga Netto deu uma entrevista coletiva com perguntas previamente selecionadas, e quando os jornalistas fizeram um burburinho, ele informou: "Senhores, no grito não funciona". Verdade, mas, com perguntas selecionadas, também não. Ninguém deve esperar que o general seja obrigado a responder o que não quer, mas, todo dia, quando acorda, tem o sacrossanto direito de ficar calado ou de falar apenas por notas oficiais.
Se a intervenção no Rio foi uma "jogada de mestre", Temer pode ter entregue ao general a tropa da cavalaria ligeira da batalha de Balaclava, na guerra da Crimeia, em 1854. Jogada de mestre foi imortalizada num poema heroico de Lord Tennyson. Noves fora a marquetagem da época que era feita por poetas, aquela carga de cavalaria foi um desastre, mas durante algum tempo valeu a emoção do poema.
No mesmo palácio de Temer está o ex-governador do Rio Moreira Franco. Numa jogada de mestre, em 1987, ele também anunciou o império da lei e da ordem.
Temer pagou o vexame de dispensar o diretor da Polícia Federal, um fabricante de trapalhadas, que ficou no cargo menos de cem dias. Todas as suas encrencas atrapalhavam o combate à corrupção.
Poucas vezes se torceu tanto para que uma jogada de mestre dê certo. Até agora houve um teatro medíocre.
Temer pagou o vexame de dispensar o diretor da Polícia Federal, um fabricante de trapalhadas, que ficou no cargo menos de cem dias. Todas as suas encrencas atrapalhavam o combate à corrupção.
Poucas vezes se torceu tanto para que uma jogada de mestre dê certo. Até agora houve um teatro medíocre.
Bala perdida
Uma dessas coisas que só existem no Brasil, como a mula sem cabeça e o adicional de moradia que os juízes recebem para morar na sua própria casa, é a “bala perdida”. No resto do mundo as armas de fogo nunca disparam sozinhas; se uma bala acerta alguém, é porque um ser humano deu um tiro, de propósito ou por acidente. Aqui não. Toda hora uma pistola ou fuzil abrem fogo, mas ninguém atira. O fato é que nas favelas do Rio de Janeiro e suas vizinhanças a bala perdida tornou-se hoje a principal culpada por homicídios de autoria desconhecida. Mas não seriam os criminosos locais que estariam dando esses tiros que matam cada vez mais gente, sobretudo crianças? É uma hipótese que parece não ocorrer nunca no noticiário, e muito menos em qualquer avaliação da Ordem dos Advogados do Brasil, da Anistia Internacional, dos partidos de “esquerda” e outras entidades que se empenham em defender os direitos da população pobre dos morros ─ no momento ameaçada, segundo elas, pela presença de tropas do Exército nas ruas da cidade. Pelo que dá para entender daquilo que dizem, não há realmente bandidos matando gente nas favelas. Quem mata é “a polícia” ou, então, a bala perdida.
Eis aí uma maneira muito eficaz de esconder quem são os verdadeiros responsáveis pelo massacre em câmera lenta que os moradores mais pobres do Rio de Janeiro estão sofrendo há anos. Se eles são assassinados pela bala perdida, então ninguém é culpado, certo? Afinal das contas, não dá para dizer que a PM mata todo mundo; também ficaria chato dizer que há quadrilhas em guerra, pois isso poderia “criminalizar a pobreza” e reforçar “preconceitos” contra as “comunidades” que cobrem os morros cariocas. Assim, quando os bandidos trocam tiros de AK-47, que podem acertar uma pessoa a 1,5 quilômetro de distância, e acabam matando alguém que não conseguiu se esconder, como é comum acontecer com bebês e crianças pequenas, o assassino é a bala perdida. Pronto, problema resolvido. Todo mundo já pode voltar ao palanque para continuar pregando que o inimigo do pobre é a polícia, agora também o Exército e, se bobear, o juiz Sérgio Moro e os desembargadores do TRF-4 de Porto Alegre. Pensar desse jeito parece loucura ─ e é mesmo loucura. Mas quando se vê as coisas com um pouco mais de atenção, dá para perceber muito bem que existe um método nessa loucura.
A “bala perdida” vem da mesma matriz onde se fabrica a linguagem politicamente correta, no Brasil de hoje, para tratar da questão do crime. Tome cuidado: utilizar um vocabulário diferente pode fazer de você um “fascista”, “direitista”, “golpista”, a favor da “ditadura militar” e sabe lá quantos pecados mais. Nessa linguagem o criminoso é sempre descrito como “suspeito”, mesmo que seja pego em flagrante assaltando alguém no meio da rua. Quando a polícia atira contra quem está de arma na mão em público, ou atirando contra ela, os delinquentes nunca são chamados de bandidos ─ são “rapazes”, “moradores” ou “pessoas”. Por exemplo: “A PM atirou ontem contra um grupo de rapazes no Complexo da Maré”. Nunca acontecem tiroteios entre quadrilhas de marginais; são “disputas entre facções”. Estão em vigor, também, regras bem claras para estabelecer diferenças morais entre militares e criminosos quando ambos praticam um mesmo ato; basicamente, para quem não quer correr o risco de parecer um extremista de direita, o mais seguro é dizer que a conduta dos militares é do mal e a dos bandidos é do bem, ou neutra.
Quando delinquentes armados invadem uma casa da favela, obrigando seus moradores a escondê-los da polícia durante tanto tempo quanto quiserem, os defensores dos direitos da “comunidade” não abrem a boca. Também não dizem nada quando cidadãos inocentes são forçados a ocultar armas ou drogas em suas residências. Quando o Exército faz uma revista domiciliar a coisa muda: aí é uma violência contra a privacidade da população. Há grande preocupação da Ordem os Advogados, etc., com o fato de que os militares pedem e fotografam documentos de identidade, na tentativa de localizar foragidos da Justiça. Os bandidos sabem mais sobre os moradores dos morros do que o Exército, a polícia e a Justiça jamais saberão; sabem seus nomes e sobrenomes, endereço, ocupação, família, quanto dinheiro têm, quando devem pagar pela eletricidade, gás ou televisão a cabo, e mais tudo o que queiram saber. Não há lembrança de que isso tenha causado algum dia qual quer protesto por parte dos seus protetores nas classes intelectuais.
É “assim mesmo”, dizem eles ─ como a bala perdida.
A conta infinita da orgia

Esta é uma política de andar às cegas, considerando que a região virgem do capitalismo já está esgotada. Quem pudesse endividar-se, já endividou-se! Até, inclusive, os netos de vocês já estão endividados, não resta dúvida nenhuma. Eles – seus netos – continuarão pagando os 30 anos da orgia consumistaZygmunt Bauman
Como qualquer cidadão
Num teatro de sombras e interesses, Lula reconheceu as habilidades Michel Temer. Para o ex-presidente, o atual soube se proteger de um golpe — como se estivesse acima de qualquer suspeita (entrevista que concedeu à Mônica Bergamo está aqui). Talvez, Lula meça Temer com sua régua, mas o fato é que ninguém está isento de ser investigado, se houver indícios para isto.
Nos últimos dias, porém, dois fatos sincronizados complicaram a situação do presidente, retirando-lhe a aura de exímio equilibrista que lhe é atribuída. Primeiro, frustrou-se a operação em que o ex-diretor-geral da PF, Fernando Segovia, insinuava arquivar os processos contra o presidente. Depois, os efeitos da intervenção barra forçada no RJ parecem, até aqui, pouco significativos para a diminuição de sua rejeição. Temer voltou a estar vulnerável.
Sem manobras e sem perspectiva de continuidade no poder, haverá inevitavelmente um amanhã; o dia seguinte, que, sem blindagem, sem mandato e sem foro especial, Michel Temer terá mesmo que se submeter à Justiça de primeira instância, muito menos tolerante do que têm sido alguns dos ministros dos Tribunais Superiores. Sua cama, ao que parece, está sendo preparada.
No interior do processo de frustração aos planos de Temer, encontra-se Luís Roberto Barroso. O ministro do STF tem sido implacável nos embates com seus colegas refratários a investigar autoridades com foro privilegiado. Mas, também na condução, como juiz, de processos que envolvam essas autoridades.
Foi nessa condição que, ao puxar as orelhas de Segovia, impediu a trama carnavalesca do arquivamento. É assim, agora, ao definir a quebra de sigilo bancário do presidente e indicar que não haverá condescendência na instrução de um processo que deve seguir para além do mandato.
Não entro em e nem cabem a mim questões jurídicas que não domino. Não sei se Barroso age nos limites da lei e do direito. Deixo aos especialistas verdadeiros ou aos pretensos que façam essa discussão. O fato é que Barroso é hoje, o maior antagonista de Temer e dos ''com foro''. É ainda pedra no sapato que mais incomoda e não permite a grande pizza ''com Supremo, com tudo'', que Romero Jucá proclamou certa feita.
É da lavra Barroso uma das frases que, politicamente, melhor cabem à crônica destes dias: “eu via as malas, eu vi os dinheiros, eu vi a corridinha”, disse no plenário do STF. Ficará para a história, citada ao longo do tempo. E todo viram: são imagens que refutam argumentos que buscam impedir, pelo menos, a investigação dos maleiros e de suas conexões políticas e pessoais.
Imagens que aconselham apurar indícios, dúvidas e suspeitas. Claro, sem prejulgar. Como qualquer cidadão, Michel Temer merece investigação criteriosa, julgamento justo — se a ele for levado. Se é fato que não se pode afirmar que o presidente está envolvido com lambanças atribuídas a pessoas de seu grupo e confiança, tampouco se pode afirmar que não esteja.
Qualquer sujeito intelectualmente honesto sabe disto: ao presidente, não cabem privilégios que desmoralizem a política e a democracia. Como a qualquer cidadão. Até por questão de Justiça e igualdade — uniformidade de critérios, pelo menos —, considerações a respeito da governabilidade não cabem agora, como não couberam para o caso de Dilma Rousseff.
Ao embrenhar-se na defesa de Temer, talvez em causa própria, Lula se precipita como seu advogado político. Elevando-o à condição de vítima de um golpe, vislumbra o quê, um pacto? Ora, também viu ''as malas, os dinheiros, a corridinha”, embora pareça ter-se esquecido, por conveniência.
Analistas políticos dominam umas poucas ferramentas de análise: compreensão lógica de fatos e personagens; uns conceitos. Contudo, a coerência é matéria que vem do caráter: o que se exigiu em relação a Dilma, o que se defende em relação a Lula, deve servir, do mesmo modo, a Michel Temer. Como a qualquer cidadão, mesmo para quem não seja um cidadão qualquer.
Carlos Melo
Nos últimos dias, porém, dois fatos sincronizados complicaram a situação do presidente, retirando-lhe a aura de exímio equilibrista que lhe é atribuída. Primeiro, frustrou-se a operação em que o ex-diretor-geral da PF, Fernando Segovia, insinuava arquivar os processos contra o presidente. Depois, os efeitos da intervenção barra forçada no RJ parecem, até aqui, pouco significativos para a diminuição de sua rejeição. Temer voltou a estar vulnerável.

No interior do processo de frustração aos planos de Temer, encontra-se Luís Roberto Barroso. O ministro do STF tem sido implacável nos embates com seus colegas refratários a investigar autoridades com foro privilegiado. Mas, também na condução, como juiz, de processos que envolvam essas autoridades.
Foi nessa condição que, ao puxar as orelhas de Segovia, impediu a trama carnavalesca do arquivamento. É assim, agora, ao definir a quebra de sigilo bancário do presidente e indicar que não haverá condescendência na instrução de um processo que deve seguir para além do mandato.
Não entro em e nem cabem a mim questões jurídicas que não domino. Não sei se Barroso age nos limites da lei e do direito. Deixo aos especialistas verdadeiros ou aos pretensos que façam essa discussão. O fato é que Barroso é hoje, o maior antagonista de Temer e dos ''com foro''. É ainda pedra no sapato que mais incomoda e não permite a grande pizza ''com Supremo, com tudo'', que Romero Jucá proclamou certa feita.
É da lavra Barroso uma das frases que, politicamente, melhor cabem à crônica destes dias: “eu via as malas, eu vi os dinheiros, eu vi a corridinha”, disse no plenário do STF. Ficará para a história, citada ao longo do tempo. E todo viram: são imagens que refutam argumentos que buscam impedir, pelo menos, a investigação dos maleiros e de suas conexões políticas e pessoais.
Imagens que aconselham apurar indícios, dúvidas e suspeitas. Claro, sem prejulgar. Como qualquer cidadão, Michel Temer merece investigação criteriosa, julgamento justo — se a ele for levado. Se é fato que não se pode afirmar que o presidente está envolvido com lambanças atribuídas a pessoas de seu grupo e confiança, tampouco se pode afirmar que não esteja.
Qualquer sujeito intelectualmente honesto sabe disto: ao presidente, não cabem privilégios que desmoralizem a política e a democracia. Como a qualquer cidadão. Até por questão de Justiça e igualdade — uniformidade de critérios, pelo menos —, considerações a respeito da governabilidade não cabem agora, como não couberam para o caso de Dilma Rousseff.
Ao embrenhar-se na defesa de Temer, talvez em causa própria, Lula se precipita como seu advogado político. Elevando-o à condição de vítima de um golpe, vislumbra o quê, um pacto? Ora, também viu ''as malas, os dinheiros, a corridinha”, embora pareça ter-se esquecido, por conveniência.
Analistas políticos dominam umas poucas ferramentas de análise: compreensão lógica de fatos e personagens; uns conceitos. Contudo, a coerência é matéria que vem do caráter: o que se exigiu em relação a Dilma, o que se defende em relação a Lula, deve servir, do mesmo modo, a Michel Temer. Como a qualquer cidadão, mesmo para quem não seja um cidadão qualquer.
Carlos Melo
A vitimização de Lula
A taxa de racionalidade no processo decisório da sociedade tem se expandido na esteira da contrariedade contra os políticos. Pesquisas mostram uma expressão dura – chegando ao baixo calão – por parte de grupos de todas as idades e classes. Impressiona o alto índice de votos em “nenhum” candidato nos pleitos estaduais. A indignação até pode indicar “emoção” nas respostas, mas o fato é que o voto sai cada vez mais do coração para subir à cabeça. O eleitor quer decidir de maneira autônoma, livre de ondas emotivas.
Vejamos o caso de Lula. Em entrevista ao jornal FSP (01/03/2017), diz que sua condenação pelo juiz Sérgio Moro e pela 2ª Instância produzirá uma vítima “desnecessária”. Lula vai vestir por inteiro a fantasia de perseguido por um juiz que, para ele, deveria “ser exonerado a bem do serviço público”. O cenário com o petista condenado está desenhado. O povo não foi chamado a ir às ruas, disse, mas poderá fazê-lo, o que criaria imensa balbúrdia pelo fato de que pode “ganhar até no primeiro turno”.
Luiz Inácio é, sem dúvida, um líder carismático. Escolhe o discurso adequado aos momentos, usa o timbre rouco de voz, movimenta-se no palanque como nenhum outro para gerar empatia com plateias. Essa é a síntese do que se tem dito sobre as qualidades de Lula, também conhecido por “esponja” e “teflon”, pois absorve tudo (números, informações, contexto) sem deixar que nada negativo cole nele. Há, porém, uma dúvida a ser respondida ao longo do ano: essa é a moldura atual ou uma fotografia antiga?
A verdade é que o PT e seus líderes não são mais pregoeiros da verdade. Desde o mensalão, descem a ladeira do precipício. José Dirceu, preso, vê seus bens indo a leilão; João Vaccari, ex-tesoureiro, continua preso; o ex-poderoso ministro Palocci está preso e, segundo Lula, “quem faz delação quer ficar com uma parte daquilo que se apoderou” (sobre seu ex-braço direito). O próprio ex-presidente tem seu nome envolvido diariamente na fogueira da Lava Jato. Será que nada cola nele? Ou será que o petismo ainda acredita ser o partido ético, revolucionário e distante da roubalheira na Petrobrás? Seria uma conspiração norte-americana para se apropriar do nosso petróleo? É o que garante Lula, quando diz que interessa a eles “o fim da lei que regula o petróleo”.
É fato que o ex-metalúrgico é líder nas pesquisas. A campanha nem começou, mas ele e Bolsonaro já iniciaram sua perambulação eleitoral. Pouco provável que mantenham os bons índices ante o bombardeio que virá. Mas as ruas poderão ser inundadas com bandeiras vermelhas se houver barreira à candidatura de seu ícone. Que poderá tentar acender o pavio de fogueiras nos Estados. Atenção: o carisma não é uma fonte inesgotável. Pode ser corroído pela rotina de escândalos.
O Brasil está mudando.
Gaudêncio Torquato
Santa ira
Se Deus é bom, por que sua ira recai sobre os homens e não apenas o seu amor? Essa é uma pergunta que teólogos responderam dizendo que Deus não era mau e que a Sua ira santa era o caminho que levaria os cristãos pecadores à redenção e ao paraíso. Afinal, o contrário da bondade e do amor não seria a ira, mas sim a indiferença – essa a atitude a ser temida, pois significaria que Deus não acreditava no poder de regeneração das almas pecadoras.
A ira santa de Deus popularizou-se como a santa ira dos homens ou a ira do bem. Ela aparece na explosão indignada de quem não consegue assistir passivamente ao que é injusto, incorreto ou amoral. A santa ira vem de dentro e invoca a razão e a ética em defesa do que é certo. Sem ela, não há transformação, só apatia. Mantém-se o status quo e vai-se adiante, mas sempre um pouco pior.
Mais ou menos como estamos hoje no Brasil. Somos diariamente bombardeados por notícias e fatos absurdos e vamos nos acostumando, numa condição de normalidade surreal.
Somos o País que concede, com dinheiro público, auxílios moradia, educação, alimentação, livros, etc., para aqueles que têm estabilidade de renda, enquanto não conseguimos prover saúde ou educação de qualidade, gratuitas, para quem não pode pagar. Convivemos com uma associação de juízes que promove greve em favor do desrespeito à lei ao mesmo tempo em que defende o cumprimento das leis pelos outros. Temos o sistema de Previdência mais injusto do mundo, que transfere recursos públicos para os que estão no topo da distribuição de renda, que permite aposentadorias precoces e generosas para alguns e que faz multiplicar o número de filhas de militares solteiras-casadas. Afinal, aqui o direito se adquire mesmo que a condição não esteja presente e apesar do risco concreto de deixarmos todos ao relento.
Concedemos incentivos fiscais e desonerações sem avaliar seus resultados e nos convencemos de que não são renúncia de receita, e sim subvenção a investimento. Fomentamos uma indústria nascente há mais de 60 anos e tributamos de forma regressiva, fazendo aqueles que ganham menos pagarem mais. Convivemos com um sistema tributário caótico e combatemos a falta de uma política de desenvolvimento regional com uma guerra fiscal que incentiva a alocação ineficiente de recursos. Mas preferimos não atentar para os caminhões trançando o País em estradas esburacadas, consequência da falta de capacidade de investimento do setor público.
Promovemos anistias fiscais anuais, premiando quem não paga imposto em detrimento dos que encaram a alta carga tributária como obrigação cívica. O que arrecadamos financia uma máquina pública enorme. Ao mesmo tempo, garantimos aumentos salariais descolados dos aumentos de produtividade e desconectados da qualidade do serviço que o cidadão recebe. Contratamos via concurso público sem planejamento, mas convivemos com escolas caindo aos pedaços e hospitais sem remédios. A Lei de Responsabilidade Fiscal virou “lei para inglês ver”, pois fazemos de conta que o que se paga de salário não é salário, mas a cada mês valores maiores são transferidos à conta de despesa de pessoal e menos sobra para investimento. Nesse desbalanço, o servidor também paga a conta. Basta ver os atrasos de salários e aposentadorias Brasil afora, as condições de trabalho e, muito mais trágico, o recorde de assassinatos de policiais no Rio de Janeiro.
Ah, o Rio... esse foi tomado de assalto. Afundado no caos, ainda assiste à resistência dos poderes locais a uma completa revisão institucional, como se a saída do fundo do poço fosse cavar mais fundo.
Diante de tantos absurdos, está nos faltando a santa ira, a ira do bem. Aquela indignação cívica que não admite a injustiça e motiva as necessárias transformações. Aquela força difusa, a única que pode recolocar o eixo de leis e políticas públicas de volta no cidadão. É hora de resgatar a razão. Somente a santa ira nos levará a um outro Brasil. O Brasil em que queremos viver.

Mais ou menos como estamos hoje no Brasil. Somos diariamente bombardeados por notícias e fatos absurdos e vamos nos acostumando, numa condição de normalidade surreal.
Somos o País que concede, com dinheiro público, auxílios moradia, educação, alimentação, livros, etc., para aqueles que têm estabilidade de renda, enquanto não conseguimos prover saúde ou educação de qualidade, gratuitas, para quem não pode pagar. Convivemos com uma associação de juízes que promove greve em favor do desrespeito à lei ao mesmo tempo em que defende o cumprimento das leis pelos outros. Temos o sistema de Previdência mais injusto do mundo, que transfere recursos públicos para os que estão no topo da distribuição de renda, que permite aposentadorias precoces e generosas para alguns e que faz multiplicar o número de filhas de militares solteiras-casadas. Afinal, aqui o direito se adquire mesmo que a condição não esteja presente e apesar do risco concreto de deixarmos todos ao relento.
Concedemos incentivos fiscais e desonerações sem avaliar seus resultados e nos convencemos de que não são renúncia de receita, e sim subvenção a investimento. Fomentamos uma indústria nascente há mais de 60 anos e tributamos de forma regressiva, fazendo aqueles que ganham menos pagarem mais. Convivemos com um sistema tributário caótico e combatemos a falta de uma política de desenvolvimento regional com uma guerra fiscal que incentiva a alocação ineficiente de recursos. Mas preferimos não atentar para os caminhões trançando o País em estradas esburacadas, consequência da falta de capacidade de investimento do setor público.
Promovemos anistias fiscais anuais, premiando quem não paga imposto em detrimento dos que encaram a alta carga tributária como obrigação cívica. O que arrecadamos financia uma máquina pública enorme. Ao mesmo tempo, garantimos aumentos salariais descolados dos aumentos de produtividade e desconectados da qualidade do serviço que o cidadão recebe. Contratamos via concurso público sem planejamento, mas convivemos com escolas caindo aos pedaços e hospitais sem remédios. A Lei de Responsabilidade Fiscal virou “lei para inglês ver”, pois fazemos de conta que o que se paga de salário não é salário, mas a cada mês valores maiores são transferidos à conta de despesa de pessoal e menos sobra para investimento. Nesse desbalanço, o servidor também paga a conta. Basta ver os atrasos de salários e aposentadorias Brasil afora, as condições de trabalho e, muito mais trágico, o recorde de assassinatos de policiais no Rio de Janeiro.
Ah, o Rio... esse foi tomado de assalto. Afundado no caos, ainda assiste à resistência dos poderes locais a uma completa revisão institucional, como se a saída do fundo do poço fosse cavar mais fundo.
Diante de tantos absurdos, está nos faltando a santa ira, a ira do bem. Aquela indignação cívica que não admite a injustiça e motiva as necessárias transformações. Aquela força difusa, a única que pode recolocar o eixo de leis e políticas públicas de volta no cidadão. É hora de resgatar a razão. Somente a santa ira nos levará a um outro Brasil. O Brasil em que queremos viver.
Desligada da realidade a bem próprio
A elite vive apartada da sociedade brasileira desde a escola. E aparentemente, como se nada estivesse acontecendoCao Hamburger
Supremo decreta intervenção na ficção de Temer
Num instante em que o governo prepara o lançamento de uma campanha publicitária para trombetear as realizações de Michel Temer, o Supremo Tribunal Federal joga lama no chope do presidente. Em apenas quatro dias, Temer foi empurrado para dentro de um inquérito sobre propina da Odebrecht e teve o sigilo bancário quebrado em investigação sobre a troca de favores portuários por mais propina. As novidades enferrujam a pretensão do Planalto de influir na sucessão.
Há na praça uma espécie de presidente dois em um. O Temer denunciado duas vezes e varejado num par de inquéritos é assustador. O Temer “reformista” e “corajoso” é um homem realizado, com o qual muitos gostariam de trocar um dedo de prosa sobre tudo o que hove depois que ele deixasse a Presidência —de preferência na semana que vem. Mas é impossível não tratar os dois como um só, pois a falta de ética do primeiro anula a boa intenção do segundo.
Após decretar intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, Temer assiste à intervenção judicial em sua biografia. As iniciativas dos ministros Edson Fachin (caso Odebrecht) e Luís Roberto Barroso (quebra do sigilo bancário) são pedagógicas. Ajudam o brasileiro a entender que está lidando com dois tipos de criminosos: os absolutamente sujos, que operam nas cadeias e nas favelas, e os supostamente limpos, que atuam nos gabinetes.
O criminoso sujo é matéria-prima para que o criminoso limpo tente manter intacta a anormalidade de sua vida normal. Ao decretar guerra ao crime organizado do Rio, Temer manteve viva a realidade paralela que construiu para viver com seus amigos. Ao intervir nas contas do presidente e do seu séquito de amigos, o Supremo retira de Temer e Cia. a proteção de habitarem numa ficção.

Após decretar intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, Temer assiste à intervenção judicial em sua biografia. As iniciativas dos ministros Edson Fachin (caso Odebrecht) e Luís Roberto Barroso (quebra do sigilo bancário) são pedagógicas. Ajudam o brasileiro a entender que está lidando com dois tipos de criminosos: os absolutamente sujos, que operam nas cadeias e nas favelas, e os supostamente limpos, que atuam nos gabinetes.
O criminoso sujo é matéria-prima para que o criminoso limpo tente manter intacta a anormalidade de sua vida normal. Ao decretar guerra ao crime organizado do Rio, Temer manteve viva a realidade paralela que construiu para viver com seus amigos. Ao intervir nas contas do presidente e do seu séquito de amigos, o Supremo retira de Temer e Cia. a proteção de habitarem numa ficção.
A Era do algoritmo chegou e seus dados são um tesouro
O que têm em comum as menções nas redes sociais ao turismo de Moçambique, a coleta de resíduos na cidade espanhola de Haro e a eficiência energética dos edifícios registrados no cadastro? Em princípio, nada. Mas uma visita à sala de monitorização de eventos da Indra basta para encontrar o nexo entre elementos tão díspares.
Aqui, nessa sala repleta de telas com luzes piscantes, um grupo de engenheiros controla 24 horas por dia, sete dias por semana, a informação que recebem de uma infinidade de processadores. Eles observam a evolução desses indicadores, e enviam suas conclusões aos clientes que contrataram seus serviços, sejam empresas privadas e administrações públicas. Esse é um excelente lugar para compreender por que os algoritmos se transformaram no segredo do sucesso de muitas grandes empresas: um segredo que lhes permite canalizar um fluxo ingente de informação para tomar decisões fundamentais para sua atividade.
Dessa sala-observatório da Indra na cidade espanhola de San Fernando de Henares, José Antonio Rubio explica que é aqui onde gigantescas quantidades de dados são transformadas em conhecimento suscetível de ser monetizado. “Os algoritmos não têm só a capacidade de explicar a realidade, mas também de antecipar comportamentos. É uma vantagem para evitar e minimizar riscos e para aproveitar oportunidades”, afirma Rubio, diretor de Soluções Digitais da Minsait, a unidade de negócio criada pela Indra para encarar a transformação digital.
Não é novidade que as empresas obtenham dados da analítica avançada para estudar características do produto que planejam lançar no mercado; o preço que se quer colocar e até decisões internas tão sensíveis como a política de retribuições aos seus funcionários. O surpreendente é a dimensão. Não é só o fato de que recentemente o número de dados em circulação tenha se multiplicado a volumes difíceis de se imaginar — calcula-se que a humanidade gerou nos últimos cinco anos 90% da informação de toda a história. Também cresceram vertiginosamente as possibilidades de interconectá-los. A palavra revolução corre de boca em boca entre acadêmicos e gestores empresariais em contato com o florescente negócio dos algoritmos e o chamado big data.
“A primeira revolução chegou há alguns anos, com o armazenamento de imensas quantidades de dados procedentes das pegadas eletrônicas que todos nós deixamos. A segunda, na qual estamos imersos, vem da capacidade que tanto os empresários como os usuários e pesquisadores têm de analisar esses dados. Essa segunda revolução procede dos algoritmos supercapazes e do que alguns chamam de inteligência artificial — mas que eu prefiro denominar de superespecialistas”, explica Esteban Moro, professor da Universidade Carlos III de Madri e do MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de Boston.
Essa segunda revolução conta com a ajuda de cada uma das milhões de pessoas que todo dia entregam seus dados de forma gratuita e contínua, seja publicando uma foto no Facebook, comprando com cartão de crédito ou passando pelas roletas do metrô com um cartão magnético.
Na esteira de gigantes como Facebook e Google, que baseiam seu enorme poder na combinação de dados e algoritmos, cada vez mais empresas investem quantidades crescentes de dinheiro em tudo o que se relaciona com big data. É o caso do BBVA, que aposta tanto em projetos invisíveis para clientes — como os motores que permitem processar mais informações para analisar as necessidades dos usuários — como em iniciativas facilmente identificáveis, entre elas a que permite que os clientes do banco possam prever a situação de suas finanças no final do mês.
“Faz décadas que o setor financeiro usa modelos matemáticos. Nos anos setenta, o cliente de um banco vinha definido por muito poucos atributos, como lugar de residência, idade, profissão e renda. Hoje, contudo, ele deixa uma pegada digital muito profunda que nos ajuda a conhecê-lo para personalizar nossa oferta de serviços e minimizar os riscos. A novidade é a profundidade dos dados e a capacidade analítica”, afirma Juan Murillo, responsável pela divulgação analítica do BBVA. “O grande desafio agora é ver como todos esses dados se transformam em valor, não só para a empresa, mas também para os nossos clientes e a sociedade.”
As amplíssimas possibilidades oferecidas pelos algoritmos não estão livres de risco. Os perigos são muitos: vão da segurança cibernética — para fazer frente aos hackers e ao roubo de fórmulas — até a privacidade dos usuários, passando pelos possíveis vieses das máquinas.
De fato, um recente estudo da Universidade Carlos III concluiu que o Facebook controla, para uso publicitário, dados sensíveis de 25% dos cidadãos europeus, que são categorizados na rede social em função de assuntos tão privados quanto sua ideologia política, orientação sexual, religião, etnia e saúde. A Agência Espanhola de Proteção de Dados já impôs em setembro uma multa de 1,2 milhão de euros (4,8 milhões de reais) à rede social de Mark Zuckerberg por usar informações sem autorização.
A segurança cibernética, por sua vez, transformou-se na principal preocupação dos investidores do mundo todo: 41% se disseram “extremamente preocupados” com esse assunto, segundo a pesquisa Global Investors Survey de 2018, publicada nesta semana pela PwC. “Um problema dos algoritmos é que carecem de contexto. Podem fazer maravilhosamente bem uma tarefa, mas, se você os tirar dessa atividade, vão falhar de maneira estrepitosa. Uma empresa que realizar uma fusão com outra terá que aprender a treinar de novo os algoritmos da companhia que absorver. Para isso, é preciso saber como eles foram criados”, afirma Moro, o especialista do MIT.
De volta à sala de monitorização da Indra, Rubio destaca as diversas utilidades que oferece aos clientes. Por motivos de confidencialidade, ele não pode falar das dezenas de empresas às quais fornece informação. Por isso, cita exemplos um tanto exóticos, como o turismo em Moçambique e os resíduos de Haro. Quando termina, a pergunta gira em torno da possibilidade de que os algoritmos tenham se transformado no tesouro mais valioso das empresas. “Definitivamente, sim”, responde, sem hesitar.
E os riscos? As máquinas assumirão o lugar dos humanos? “Isso é algo que preocupa. Tudo o que não conhecemos gera desconfiança. Mas a tecnologia nos permite limitar os riscos e aproximar as indústrias digitais das pessoas. O risco é inerente ao ser humano, não às tecnologias”, conclui Rubio.

Dessa sala-observatório da Indra na cidade espanhola de San Fernando de Henares, José Antonio Rubio explica que é aqui onde gigantescas quantidades de dados são transformadas em conhecimento suscetível de ser monetizado. “Os algoritmos não têm só a capacidade de explicar a realidade, mas também de antecipar comportamentos. É uma vantagem para evitar e minimizar riscos e para aproveitar oportunidades”, afirma Rubio, diretor de Soluções Digitais da Minsait, a unidade de negócio criada pela Indra para encarar a transformação digital.
Não é novidade que as empresas obtenham dados da analítica avançada para estudar características do produto que planejam lançar no mercado; o preço que se quer colocar e até decisões internas tão sensíveis como a política de retribuições aos seus funcionários. O surpreendente é a dimensão. Não é só o fato de que recentemente o número de dados em circulação tenha se multiplicado a volumes difíceis de se imaginar — calcula-se que a humanidade gerou nos últimos cinco anos 90% da informação de toda a história. Também cresceram vertiginosamente as possibilidades de interconectá-los. A palavra revolução corre de boca em boca entre acadêmicos e gestores empresariais em contato com o florescente negócio dos algoritmos e o chamado big data.
“A primeira revolução chegou há alguns anos, com o armazenamento de imensas quantidades de dados procedentes das pegadas eletrônicas que todos nós deixamos. A segunda, na qual estamos imersos, vem da capacidade que tanto os empresários como os usuários e pesquisadores têm de analisar esses dados. Essa segunda revolução procede dos algoritmos supercapazes e do que alguns chamam de inteligência artificial — mas que eu prefiro denominar de superespecialistas”, explica Esteban Moro, professor da Universidade Carlos III de Madri e do MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de Boston.
Essa segunda revolução conta com a ajuda de cada uma das milhões de pessoas que todo dia entregam seus dados de forma gratuita e contínua, seja publicando uma foto no Facebook, comprando com cartão de crédito ou passando pelas roletas do metrô com um cartão magnético.
Na esteira de gigantes como Facebook e Google, que baseiam seu enorme poder na combinação de dados e algoritmos, cada vez mais empresas investem quantidades crescentes de dinheiro em tudo o que se relaciona com big data. É o caso do BBVA, que aposta tanto em projetos invisíveis para clientes — como os motores que permitem processar mais informações para analisar as necessidades dos usuários — como em iniciativas facilmente identificáveis, entre elas a que permite que os clientes do banco possam prever a situação de suas finanças no final do mês.
“Faz décadas que o setor financeiro usa modelos matemáticos. Nos anos setenta, o cliente de um banco vinha definido por muito poucos atributos, como lugar de residência, idade, profissão e renda. Hoje, contudo, ele deixa uma pegada digital muito profunda que nos ajuda a conhecê-lo para personalizar nossa oferta de serviços e minimizar os riscos. A novidade é a profundidade dos dados e a capacidade analítica”, afirma Juan Murillo, responsável pela divulgação analítica do BBVA. “O grande desafio agora é ver como todos esses dados se transformam em valor, não só para a empresa, mas também para os nossos clientes e a sociedade.”
As amplíssimas possibilidades oferecidas pelos algoritmos não estão livres de risco. Os perigos são muitos: vão da segurança cibernética — para fazer frente aos hackers e ao roubo de fórmulas — até a privacidade dos usuários, passando pelos possíveis vieses das máquinas.
De fato, um recente estudo da Universidade Carlos III concluiu que o Facebook controla, para uso publicitário, dados sensíveis de 25% dos cidadãos europeus, que são categorizados na rede social em função de assuntos tão privados quanto sua ideologia política, orientação sexual, religião, etnia e saúde. A Agência Espanhola de Proteção de Dados já impôs em setembro uma multa de 1,2 milhão de euros (4,8 milhões de reais) à rede social de Mark Zuckerberg por usar informações sem autorização.
A segurança cibernética, por sua vez, transformou-se na principal preocupação dos investidores do mundo todo: 41% se disseram “extremamente preocupados” com esse assunto, segundo a pesquisa Global Investors Survey de 2018, publicada nesta semana pela PwC. “Um problema dos algoritmos é que carecem de contexto. Podem fazer maravilhosamente bem uma tarefa, mas, se você os tirar dessa atividade, vão falhar de maneira estrepitosa. Uma empresa que realizar uma fusão com outra terá que aprender a treinar de novo os algoritmos da companhia que absorver. Para isso, é preciso saber como eles foram criados”, afirma Moro, o especialista do MIT.
De volta à sala de monitorização da Indra, Rubio destaca as diversas utilidades que oferece aos clientes. Por motivos de confidencialidade, ele não pode falar das dezenas de empresas às quais fornece informação. Por isso, cita exemplos um tanto exóticos, como o turismo em Moçambique e os resíduos de Haro. Quando termina, a pergunta gira em torno da possibilidade de que os algoritmos tenham se transformado no tesouro mais valioso das empresas. “Definitivamente, sim”, responde, sem hesitar.
E os riscos? As máquinas assumirão o lugar dos humanos? “Isso é algo que preocupa. Tudo o que não conhecemos gera desconfiança. Mas a tecnologia nos permite limitar os riscos e aproximar as indústrias digitais das pessoas. O risco é inerente ao ser humano, não às tecnologias”, conclui Rubio.
As 'luléculas' de vocês
Lula nunca foi modesto. Já se comparou a Jesus Cristo, Tiradentes, Nelson Mandela e tantos outros quantos lhe convenham à hora e ao tempo. O ex-presidente mais popular do Brasil tem muitos defeitos, mas nunca fez ou disse algo que não seja para se exaltar e engrandecer. Apequenar-se, nunca!
Dia destes, falando a seus prosélitos, aludiu aos juízes que ousam julgá-lo, condená-lo – e até aí ele é capaz de chegar ao paroxismo de seu espanto e de sua revolta – afirmando peremptoriamente: “Estão lutando com um ser humano diferente. Eu não sou eu. Sou a encarnação de um pedaço de células de cada um de vocês”. E acrescentou, no melhor estilo evangélico: “Prendam minha carne, mas minhas ideias continuarão livres”. Não se assuste. O petista pode até exagerar na sua imodéstia, mas a verdade é que ele nunca precisou tanto dela quanto precisa agora.

À espera de um veredicto benevolente do Supremo Tribunal Federal (STF), o conjunto imaginário das “luléculas” de todos os brasileiros não se contenta com a liberdade da qual se acha merecedor pelo simples fato de ter sido parido por dona Lindu, com a graça de Deus, Nosso Senhor, seu parceiro de buraco no sítio Los Fubangos, não aquele de Atibaia, que ele jura não ser dele. Ele quer que a suprema graça de poder tomar cachaça com Cambuci, herdada da “Nonna”, avó de dona Marisa, de saudosas memórias, venha acompanhada de outro benefício: a prisão dos inimigos. Em entrevista exclusiva à colega Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, ele não fez por menos e exigiu: “A Justiça tem o tempo necessário para fazer a investigação correta e punir quem está errado. E quem deveria ser punido era o Moro, o MPF, a PF e os três juízes que fizeram a sentença lá. Essas pessoas mereciam ser exoneradas a bem do serviço público”. Execração, prisão, desonra pública e demissão para os inimigos. É pouco?
Trata-se de um desejo de difícil realização. Por enquanto, não tem mais como ser absolvido no primeiro dos sete processos judiciais a que responde e tudo o que ele poderia almejar seria adiar a chamada “execução da pena”, já decidida em segunda e definitiva instância, para Deus sabe até quando, se ele aceitar, quem sabe ao atingir a idade atual do ex-inimigo e ex-aliado Paulo Maluf. Uma hora, a julgar pela tradição, chegará o dia de cumprir a pena. Pode ser na cela comum, por falta de diploma universitário, ou em outra em que caibam seus seguranças e assessores pagos pelos contribuintes. Estes também são “luléculas”, aliás, filhos de Deus. Ou no conforto do apartamento em São Bernardo com tornozeleira e sem poder receber amigos, como, por exemplo, o compadre Roberto Teixeira.
Os amigos do peito da alta Justiça já providenciaram alguns confortos para seu futuro. Há pouco, o Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1) transferiu processos em que é réu na 10.ª Vara Criminal Federal de Brasília, apesar das testemunhas ouvidas, das provas colhidas e tudo o mais pelo rigoroso juiz Vallisney de Souza Oliveira, para a recém-criada 12.ª. Todavia, como seu parceiro de cartas é misericordioso, mas também tem de cuidar de ser justo, por enquanto, a péssima repercussão da medida levou o TRF-1 a devolver os processos ao juiz que o tornou réu.
E impôs-lhe outro obstáculo irremovível. O principal deles é o juiz federal do Paraná Sergio Moro, da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba. Pois não é que um dos tais “três juízes que fizeram a sentença lá”, justamente o relator Gebran Neto, ousou indeferir o pedido de sua diligente defesa para afastar esse magistrado do processo da Lava Jato que o acusa de ter recebido propinas das empreiteiras baianas OAS e Odebrecht na reforma de um sítio em Atibaia, que membros do MPF, também execrado por ele, afirmam que lhe pertence? O pedido foi baseado na lógica, não a de Aristóteles, Santo Tomás ou Santo Agostinho, mas na de Djalma Bom, o companheiro orador dos tempos das greves de metalúrgicos no ABC de Luiz Marinho. Acompanhe o raciocínio: Sergio Moro fez uma palestra numa reunião que tratava decompliance nas dependências da Petrobrás. Já seria suspeito pelo fato de o encontro tratar dessa mania de gringo, além do mais definida em inglês, compliance. Mas mais suspeito ainda seria o fato de a estatal contratar advogado para auxiliar da acusação do processo do tal do sítio. É o caso de exclamar: valei-me, Santa Bárbara! Pois então, o relator rasgou o tomo da suma do compadre Djalma dizendo que o tema da conferência do julgador nada tinha que ver com o objeto do tal processo em que Lula é réu e, pelo visto, está para ser apenado. Ora, ora,compliance não quer dizer boa prática de gestão, o contrário de corrupção? E não é de corrupção que o processo trata?
Outro episódio noticiado no mesmo dia em que a Folha publicou que ele jura que não se matará nem fugirá do Brasil, mas brigará até o fim, o Estado contou que o antigo parceiro e hoje abjeto delator premiado – e logo ele, que dizia condenar delação – Marcelo Odebrecht entregou à turma da Operação Lava Jato e a Moro e-mails de seu computador pessoal relacionando-o com as obras da reforma do sítio. E daí? Compadre Djalma Bom diria, pela lógica dele, que um bom amigo faz o que pode pelos amigos e pelos filhos deles. Como compadre Jacó Bittar está dodói na Ilha Porchat, caberia a Lula providenciar facilidades burocráticas para seu filho Fernando e o sócio dele, Jonas Suassuna, “verdadeiros” donos do sítio.
Já que é mais fácil nevar em Cuiabá do que Moro e os meninos do PowerPoint de Curitiba aceitarem o pedido da defesa de Lula de jogar no lixo da História os e-mails do filho do “amigo” Emílio, a batata do ex está assando e deverá torrar completamente em breve. Seja qual for a decisão dos amigos Dias Toffoli, Lewandowski e Rosa Weber e do ex-desafeto Gilmar Mendes no STF, mais uma condenação na primeira instância, com boa chance de ser corroborada na segunda, não será a melhor notícia para quem disse à entrevistadora amiga que só vai aventar a possibilidade de outra candidatura (do PT) “quando for confirmado definitivamente” que ele não é candidato. Afinal, o STF poderá até, como parece que vai fazê-lo, apesar do vergonhoso casuísmo que isso significará, adiar para as calendas gregas o momento da execução de sua (ou suas) pena (ou penas). Mas jamais impedir que um dia, que não seja o 31 de novembro dos recibos do aluguel do compadre Glaucos, ele seja proibido de circular por aí.
Em Brasília, até se comenta à boca pequena que ele não será preso agora, mas também não será candidato, e obterá de seus amigos dos altos escalões judiciários vista grossa para poder fazer campanha e participar de pelo menos quatro debates eleitorais apresentando um vice. Este, na hora H, receberá os votos que lhe forem destinados nas urnas eletrônicas em outubro e novembro. No reino da condescendência que permite a Dilma ser merendeira de escola por um rabisco na Constituição, tudo é possível. Só que isso nada significa para quem se acredita a soma “lulecular” de todos os brasileiros – ele só não definiu se seriam vivos e mortos ou apenas os atuais 200 e poucos milhões presentes na luta terrível de sobreviver a uma crise de 12,7 milhões de desempregados que os desgovernos seus e da afilhada Dilminha aqui implantaram. Para geral desgraça nacional.
José Nêumanne Pinto
O conturbado histórico de Temer na Segurança Pública
Ao decretar uma intervenção no Rio de Janeiro e criar o Ministério da Segurança Pública, o presidente Michel Temer colocou o combate ao crime no topo da agenda do seu último ano de governo. O assunto não é novo para o político veterano, que foi secretário de Segurança Pública de São Paulo em duas ocasiões, nos anos 1980 e 1990.
Em maio de 2016, logo após assumir interinamente a Presidência, Temer fez questão de lembrar sua experiência na área: "Fui secretário de Segurança duas vezes e tratava com bandidos. Então, eu sei o que fazer no governo."
No entanto, suas duas gestões na área foram marcadas pela explosão nos índices de homicídios, conflitos com delegados e promessas não cumpridas. Elas também evidenciaram um padrão da sua futura carreira na política: o papel de substituto. Temer nunca foi a primeira opção, mas acabou herdando o cargo de secretário quando seus antecessores pediram demissão ou não tinham mais condições de permanecer à frente da pasta.
Em janeiro de 1984, o governador de São Paulo, Franco Montoro (PMDB), havia perdido o segundo secretário de Segurança desde o início da sua gestão, iniciada apenas dez meses antes. O mais recente titular do cargo, Miguel Reale Jr. – que 30 anos depois seria um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff –, abandonou o posto alegando problemas pessoais.
Para o cargo, Montoro transferiu Temer, então procurador do Estado – e sem nenhuma experiência em segurança pública. Ao assumir, Temer fez declarações de efeito. Disse que iria ter tolerância zero com a corrupção policial: "Se eu tiver conhecimento dela, haverá punição imediata."
Ele também prometeu ser duro: "A polícia responderá com energia à violência do marginal. Ninguém desejará que no eventual confronto com a delinquência a polícia não responda com as mesmas armas e com firmeza. É violento o confronto."
Ao mesmo tempo, declarou que sonhava com o dia em que a polícia não precisasse mais usar armas e propôs a legalização do jogo do bicho.
Temer ficou no posto por dois anos. Colecionou algumas iniciativas que ainda são propagandeadas em suas biografias oficiais em sites do governo, como a criação da primeira delegacia da mulher do Brasil e a implementação de uma delegacia de direitos autorais. Forçou ainda mudanças na aposentadoria dos delegados com o objetivo de renovar a Polícia Civil.
Mas pouco fez para frear a tendência de crescimento da violência no Estado. Em 1983, São Paulo registrou uma taxa de 21,9 homicídios por 100 mil habitantes. No final de 1985, seu segundo ano no cargo, a taxa havia saltado para 25,1 – um total de 8.213 assassinatos. Na região metropolitana da capital paulista, o crescimento também foi dramático, de 30,4 em 1983 para 35,3 por cada grupo de 100 mil habitantes em 1985.
Temer chegou a culpar a pornografia pelos números alarmantes. "A divulgação do chamado sexo explícito, tanto no cinema quanto em meios escritos, atua como elemento de incentivo ao crime, já que essas mensagens atingem, sobretudo, as pessoas carentes, econômica e emocionalmente", disse Temer em 1985, segundo o jornal Folha de S.Paulo.
No período, o então secretário ainda enfrentou o que provavelmente foi o primeiro movimento "Fora Temer", conduzido por um sindicato de delegados, insatisfeito com a falta de aumento salarial e com mudanças na estrutura das polícias.
Em 1985, durante uma assembleia da categoria, chegou a ser chamado de "secretário sinistro". Uma carta oficial assinada por centenas de delegados exigiu sua demissão, mas Montoro se manteve firme e defendeu seu secretário. Temer só viria a deixar o posto no ano seguinte para lançar sua pré-candidatura como deputado constituinte.
Em outubro de 1992, Temer voltou a seguir o roteiro de oito anos antes: foi deslocado da procuradoria do Estado para a Secretária de Segurança Pública. Desta vez, em meio a um quadro mais dramático. Seis dias antes de reassumir o posto, policiais mataram 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo. Era o massacre do Carandiru. O então governador Luiz Antonio Fleury Filho (PMDB) demitiu o secretário Pedro Franco de Campos e pediu que Temer ajudasse a recuperar a imagem da polícia.
Ao assumir o posto, Temer falou da importância de se investigar o episódio, mas suas energias foram mesmo canalizadas para acalmar os oficiais da PM, que temiam que o massacre prejudicasse a corporação. O secretário manteve o comandante-geral da PM no cargo e disse em um encontro com oficiais que a PM não seria "julgada por nenhum episódio isolado". O secretário não tomou nenhuma iniciativa para punir os envolvidos. O caso permaneceu nas mãos da Justiça Militar, que conduziu vagarosamente um inquérito até 1996, quando os autos foram remetidos para a Justiça comum.
Um ano depois do massacre, Temer ordenou que a Rota, uma das unidades que participou do massacre, voltasse às ruas com mais vigor. "Os bandidos parecem estar pensando que podem agir sem serem molestados", disse.
Leia mais
Em maio de 2016, logo após assumir interinamente a Presidência, Temer fez questão de lembrar sua experiência na área: "Fui secretário de Segurança duas vezes e tratava com bandidos. Então, eu sei o que fazer no governo."
No entanto, suas duas gestões na área foram marcadas pela explosão nos índices de homicídios, conflitos com delegados e promessas não cumpridas. Elas também evidenciaram um padrão da sua futura carreira na política: o papel de substituto. Temer nunca foi a primeira opção, mas acabou herdando o cargo de secretário quando seus antecessores pediram demissão ou não tinham mais condições de permanecer à frente da pasta.
Se eu tiver conhecimento dela (corrupção), haverá punição imediata
Michel Temer, secretário de Segurança em 1984
Em janeiro de 1984, o governador de São Paulo, Franco Montoro (PMDB), havia perdido o segundo secretário de Segurança desde o início da sua gestão, iniciada apenas dez meses antes. O mais recente titular do cargo, Miguel Reale Jr. – que 30 anos depois seria um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff –, abandonou o posto alegando problemas pessoais.
Para o cargo, Montoro transferiu Temer, então procurador do Estado – e sem nenhuma experiência em segurança pública. Ao assumir, Temer fez declarações de efeito. Disse que iria ter tolerância zero com a corrupção policial: "Se eu tiver conhecimento dela, haverá punição imediata."
Ele também prometeu ser duro: "A polícia responderá com energia à violência do marginal. Ninguém desejará que no eventual confronto com a delinquência a polícia não responda com as mesmas armas e com firmeza. É violento o confronto."
Ao mesmo tempo, declarou que sonhava com o dia em que a polícia não precisasse mais usar armas e propôs a legalização do jogo do bicho.
Temer ficou no posto por dois anos. Colecionou algumas iniciativas que ainda são propagandeadas em suas biografias oficiais em sites do governo, como a criação da primeira delegacia da mulher do Brasil e a implementação de uma delegacia de direitos autorais. Forçou ainda mudanças na aposentadoria dos delegados com o objetivo de renovar a Polícia Civil.
Mas pouco fez para frear a tendência de crescimento da violência no Estado. Em 1983, São Paulo registrou uma taxa de 21,9 homicídios por 100 mil habitantes. No final de 1985, seu segundo ano no cargo, a taxa havia saltado para 25,1 – um total de 8.213 assassinatos. Na região metropolitana da capital paulista, o crescimento também foi dramático, de 30,4 em 1983 para 35,3 por cada grupo de 100 mil habitantes em 1985.
Temer chegou a culpar a pornografia pelos números alarmantes. "A divulgação do chamado sexo explícito, tanto no cinema quanto em meios escritos, atua como elemento de incentivo ao crime, já que essas mensagens atingem, sobretudo, as pessoas carentes, econômica e emocionalmente", disse Temer em 1985, segundo o jornal Folha de S.Paulo.
No período, o então secretário ainda enfrentou o que provavelmente foi o primeiro movimento "Fora Temer", conduzido por um sindicato de delegados, insatisfeito com a falta de aumento salarial e com mudanças na estrutura das polícias.
Em 1985, durante uma assembleia da categoria, chegou a ser chamado de "secretário sinistro". Uma carta oficial assinada por centenas de delegados exigiu sua demissão, mas Montoro se manteve firme e defendeu seu secretário. Temer só viria a deixar o posto no ano seguinte para lançar sua pré-candidatura como deputado constituinte.
Em outubro de 1992, Temer voltou a seguir o roteiro de oito anos antes: foi deslocado da procuradoria do Estado para a Secretária de Segurança Pública. Desta vez, em meio a um quadro mais dramático. Seis dias antes de reassumir o posto, policiais mataram 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo. Era o massacre do Carandiru. O então governador Luiz Antonio Fleury Filho (PMDB) demitiu o secretário Pedro Franco de Campos e pediu que Temer ajudasse a recuperar a imagem da polícia.
Ao assumir o posto, Temer falou da importância de se investigar o episódio, mas suas energias foram mesmo canalizadas para acalmar os oficiais da PM, que temiam que o massacre prejudicasse a corporação. O secretário manteve o comandante-geral da PM no cargo e disse em um encontro com oficiais que a PM não seria "julgada por nenhum episódio isolado". O secretário não tomou nenhuma iniciativa para punir os envolvidos. O caso permaneceu nas mãos da Justiça Militar, que conduziu vagarosamente um inquérito até 1996, quando os autos foram remetidos para a Justiça comum.
Um ano depois do massacre, Temer ordenou que a Rota, uma das unidades que participou do massacre, voltasse às ruas com mais vigor. "Os bandidos parecem estar pensando que podem agir sem serem molestados", disse.
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domingo, 4 de março de 2018
Poucos noticiam
Yemen, 2017. O flagelo da guerra abate-se sobre esta região miserável do planeta. Vamos a alguns números, levantados após cerca de um ano de conflito: 130 crianças mortas por dia, ou uma a cada 18 minutos, e 400.000 em necessidade de tratamento urgente por conta de doenças causadas pelas vicissitudes da guerra - fome, falta de medicamentos etc. Estima-se que 30% delas morrerão. Curiosamente, um quadro tão dramático recebeu da esmagadora maioria da imprensa ocidental um tratamento meramente burocrático.
Congo, década de 1990. Inicia-se um violento conflito em torno da exploração de coltan, um minério raro sem o qual não teríamos a maioria dos aparelhos eletrônicos modernos. Nos últimos 20 anos, esta guerra já ceifou seis milhões de vidas - o mais sangrento conflito desde a Segunda Guerra Mundial. Uma investigação identificou 157 empresas ocidentais envolvidas com a exploração deste mineral - e calculou-se o custo de um telefone celular produzido com coltan extraído daquele país: a vida de duas crianças. É interessante: no mundo ocidental praticamente não se noticia este tão grave conflito!
Fallujah, 2015. Pela pena do jornalista Larry Everest, alguns poucos jornais noticiaram que "os EUA usaram bombas de fragmentação, fósforo branco e urânio empobrecido contra o povo iraquiano, todas elas consideradas armas de destruição em massa, suspeitas de induzirem câncer e deformações em fetos. Presencia-se uma taxa de deformações congênitas na cidade de Fallujah que supera até as verificadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em seguida aos bombardeios nucleares".
Colômbia, 2014. Um chocante relatório da Anistia Internacional, que praticamente não encontrou repercussão, expôs que a guerra civil que assola aquele país desde 1956 já produziu nada menos que 7 milhões de mortes - a maioria delas após o ano 2000. Somente para que se tenha uma ideia, em 2002 aquele conflito ceifou a vida de 744.799 seres humanos.
É intrigante: nenhuma das informações acima recebeu ampla divulgação! Conflitos de muito menor relevância, ou mesmo divórcios escandalosos de algumas celebridades, encontraram repercussão muito maior.
É quando a humanidade deveria lançar-se ao seu talvez mais importante e premente desafio: resolver a crise do acesso à informação em plena… era da informação!
Pedro Valls Feu Rosa
Fallujah, 2015. Pela pena do jornalista Larry Everest, alguns poucos jornais noticiaram que "os EUA usaram bombas de fragmentação, fósforo branco e urânio empobrecido contra o povo iraquiano, todas elas consideradas armas de destruição em massa, suspeitas de induzirem câncer e deformações em fetos. Presencia-se uma taxa de deformações congênitas na cidade de Fallujah que supera até as verificadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em seguida aos bombardeios nucleares".
Colômbia, 2014. Um chocante relatório da Anistia Internacional, que praticamente não encontrou repercussão, expôs que a guerra civil que assola aquele país desde 1956 já produziu nada menos que 7 milhões de mortes - a maioria delas após o ano 2000. Somente para que se tenha uma ideia, em 2002 aquele conflito ceifou a vida de 744.799 seres humanos.
É intrigante: nenhuma das informações acima recebeu ampla divulgação! Conflitos de muito menor relevância, ou mesmo divórcios escandalosos de algumas celebridades, encontraram repercussão muito maior.
É quando a humanidade deveria lançar-se ao seu talvez mais importante e premente desafio: resolver a crise do acesso à informação em plena… era da informação!
Pedro Valls Feu Rosa
Formatados pela sociedade
Idealmente, o que deveria ser dito a todas as crianças, repetidamente, ao longo da sua vida escolar, seria algo como isto: "Estás no processo de ser doutrinado. Nós ainda não fomos capazes de desenvolver um sistema de educação que não seja um processo de doutrinação. Lamentamos, mas é o melhor que podemos fazer.
O que te estamos a ensinar é uma amálgama dos preconceitos atuais e das escolhas desta cultura em particular. Uma pequena olhada na História vai-te mostrar o quanto estes são temporários. Estás a ser ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a um regime de pensamento que foi desenhado pelos seus antecessores. É um sistema de auto-perpetuação. Aqueles de vocês que forem mais robustos e individuais que os outros serão encorajados a sair e a encontrar formas de se educarem a si próprios – a educarem os seus próprios julgamentos. Aqueles que ficarem têm que se lembrar, sempre, e para sempre, que estão a ser moldados e modelados para se encaixarem nas necessidades estreitas e particulares desta sociedade"Doris Lessing
A intervenção meia-sola
Há um recado subjacente às restrições que a esquerda e as organizações a ela ligadas emitem em relação à intervenção federal no Rio: confiam menos nos militares que nos bandidos.
Isso explica o largo espectro de entidades – nacionais e locais – que, em tom hostil, avisam que irão monitorar minuciosamente a ação das Forças Armadas no combate ao crime organizado.
Entre outras, OAB, ABI, Ministério Público, Associações de Magistrados, de Moradores das Comunidades, sem esquecer parlamentares, artistas, intelectuais, acadêmicos e sindicalistas.
Vídeos com advertências prévias, em tom intimidatório, viralizam na internet, em contraste com o clamor popular, saudando os interventores, na expectativa de um enfrentamento eficaz.
Até o Tribunal de Contas da União – já que o do Estado está na cadeia – avisou que irá designar comissão para acompanhar os gastos dos militares durante as operações.
Nada contra a vigilância cívica, que deve mesmo estar presente, sempre e em horário integral. O que se questiona é onde essa vigilância estava quando o narcotráfico, ao longo das três últimas décadas (começou com Brizola, nos anos 80), se instalou nos morros e periferias da cidade, submetendo à tirania do crime a população pobre, exatamente a que a esquerda diz agora defender.
Desde que passaram o poder aos civis, há 33 anos, os militares jamais voltaram a intervir na cena política, ocupada gradualmente por ONGs, sindicatos e partidos de esquerda.
O crime organizado estabeleceu-se à sombra dessas organizações, em conluio com os sucessivos governos, estimulado por uma blindagem legal que, desde Brasília, o tornou mais seguro que qualquer outro segmento da sociedade brasileira.
Quando o general Hamilton Mourão chamou a intervenção de “meia-sola” e comparou o interventor, general Braga Neto, a “um cachorro acuado”, referia-se a esse quadro.
Quem o vê de fora imagina que o Exército invadiu a cidade, à revelia de seus habitantes – e não que está sendo chamado, mais uma vez, para gerir uma catástrofe, que não ocasionou. Foi assim em eventos de repercussão internacional, como os jogos Pan-americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os jogos Olímpicos de 2016.
Por fim, as operações de garantia da lei e da ordem (GLO). Agora, a missão é mais espinhosa ainda: assumir a segurança pública do Estado, que é um dos fatores da insegurança.
O crime é monitorado de dentro do próprio Estado. Nas palavras do agora ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no Rio, o Estado foi “capturado pelo crime organizado”. Como combatê-lo, pois, à sombra do governador Pezão e da Assembleia Legislativa?
Sérgio Cabral chegou ao Palácio Guanabara tendo como cabos eleitorais Lula e Dilma. Lula (e isso está no Youtube) chegou a dizer que votar em Cabral era “um dever moral do carioca”. Cabral foi eleito, reeleito e fez seu sucessor, Pezão. Ontem, recebeu mais uma condenação, inteirando mais de um século de cadeia.
Lula está prestes a segui-lo. Não se ouviu dessas organizações que dizem temer o Exército nenhuma manifestação crítica a nenhum desses personagens. O crime organizado age sem as ressalvas que se impõem à polícia: não está submetido a coisas tais como “excesso de legítima defesa” ou à audiência de custódia ou a direitos humanos.
Rouba, mata e faz da população escudo humano. Se falhar, será socorrido por diversas ONGs, que defenderão seus “direitos”.
O general Mourão foi até moderado. O general Braga Neto é um maestro algemado, chamado a reger uma orquestra cujos instrumentos estão quebrados e as partituras se misturaram.
Ruy Fabiano
Isso explica o largo espectro de entidades – nacionais e locais – que, em tom hostil, avisam que irão monitorar minuciosamente a ação das Forças Armadas no combate ao crime organizado.
Entre outras, OAB, ABI, Ministério Público, Associações de Magistrados, de Moradores das Comunidades, sem esquecer parlamentares, artistas, intelectuais, acadêmicos e sindicalistas.
Vídeos com advertências prévias, em tom intimidatório, viralizam na internet, em contraste com o clamor popular, saudando os interventores, na expectativa de um enfrentamento eficaz.
Até o Tribunal de Contas da União – já que o do Estado está na cadeia – avisou que irá designar comissão para acompanhar os gastos dos militares durante as operações.

Desde que passaram o poder aos civis, há 33 anos, os militares jamais voltaram a intervir na cena política, ocupada gradualmente por ONGs, sindicatos e partidos de esquerda.
O crime organizado estabeleceu-se à sombra dessas organizações, em conluio com os sucessivos governos, estimulado por uma blindagem legal que, desde Brasília, o tornou mais seguro que qualquer outro segmento da sociedade brasileira.
Quando o general Hamilton Mourão chamou a intervenção de “meia-sola” e comparou o interventor, general Braga Neto, a “um cachorro acuado”, referia-se a esse quadro.
Quem o vê de fora imagina que o Exército invadiu a cidade, à revelia de seus habitantes – e não que está sendo chamado, mais uma vez, para gerir uma catástrofe, que não ocasionou. Foi assim em eventos de repercussão internacional, como os jogos Pan-americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os jogos Olímpicos de 2016.
Por fim, as operações de garantia da lei e da ordem (GLO). Agora, a missão é mais espinhosa ainda: assumir a segurança pública do Estado, que é um dos fatores da insegurança.
O crime é monitorado de dentro do próprio Estado. Nas palavras do agora ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no Rio, o Estado foi “capturado pelo crime organizado”. Como combatê-lo, pois, à sombra do governador Pezão e da Assembleia Legislativa?
Sérgio Cabral chegou ao Palácio Guanabara tendo como cabos eleitorais Lula e Dilma. Lula (e isso está no Youtube) chegou a dizer que votar em Cabral era “um dever moral do carioca”. Cabral foi eleito, reeleito e fez seu sucessor, Pezão. Ontem, recebeu mais uma condenação, inteirando mais de um século de cadeia.
Lula está prestes a segui-lo. Não se ouviu dessas organizações que dizem temer o Exército nenhuma manifestação crítica a nenhum desses personagens. O crime organizado age sem as ressalvas que se impõem à polícia: não está submetido a coisas tais como “excesso de legítima defesa” ou à audiência de custódia ou a direitos humanos.
Rouba, mata e faz da população escudo humano. Se falhar, será socorrido por diversas ONGs, que defenderão seus “direitos”.
O general Mourão foi até moderado. O general Braga Neto é um maestro algemado, chamado a reger uma orquestra cujos instrumentos estão quebrados e as partituras se misturaram.
Ruy Fabiano
As crianças alemãs e as bicicletas
Na Alemanha, a impressão que se tem é que as crianças já nascem sabendo andar de bicicleta. Elas sempre acompanham os pais nos passeios ciclísticos pelas cidades e parques. O treinamento começa bem cedo.
Quando pequenas, as crianças começam a praticar com uma bicicleta sem pedal, impulsionando o movimento com os pés. Assim, quando passam a usar as bicicletas infantis convencionais, não precisam depender das rodinhas.
Mas aprender em casa não é suficiente. Na terceira classe do ensino fundamental (Grundschule), por volta dos sete anos de idade, as crianças passam por uma formação de ciclistas, a Radfahrausbildung.
O tempo varia de estado para estado alemão, mas em geral dura dois anos com práticas espaçadas por um período de seis meses.
Além de receber um curso teórico, as crianças praticam com cones e figuras no chão e fazem exercícios de subida e descida, respeitando todas as leis de trânsito da Alemanha.
As crianças usam coletes fosforescentes com número de identificação e capacete. As bicicletas devem ser adequadas ao peso e altura da criança, além de equipadas com luzes dianteira e traseira e campainha.
Os pais podem participar de algumas aulas e também da visita ao departamento de trânsito, onde as crianças aprendem a dirigir de bicicleta com simuladores de trânsito, como rotatórias, preferenciais, semáforos e faixa de pedestres.
A formação termina com uma prova prática. Se aprovada, a criança recebe uma espécie “carteira de motorista”. Elas não precisam portar o documento quando circulam nas cidades, mas a carteira tem uma simbologia importante: representa a formação de futuros adultos responsáveis no trânsito.
Karina Gomes
Quando pequenas, as crianças começam a praticar com uma bicicleta sem pedal, impulsionando o movimento com os pés. Assim, quando passam a usar as bicicletas infantis convencionais, não precisam depender das rodinhas.
Mas aprender em casa não é suficiente. Na terceira classe do ensino fundamental (Grundschule), por volta dos sete anos de idade, as crianças passam por uma formação de ciclistas, a Radfahrausbildung.

O tempo varia de estado para estado alemão, mas em geral dura dois anos com práticas espaçadas por um período de seis meses.
Além de receber um curso teórico, as crianças praticam com cones e figuras no chão e fazem exercícios de subida e descida, respeitando todas as leis de trânsito da Alemanha.
As crianças usam coletes fosforescentes com número de identificação e capacete. As bicicletas devem ser adequadas ao peso e altura da criança, além de equipadas com luzes dianteira e traseira e campainha.
Os pais podem participar de algumas aulas e também da visita ao departamento de trânsito, onde as crianças aprendem a dirigir de bicicleta com simuladores de trânsito, como rotatórias, preferenciais, semáforos e faixa de pedestres.
A formação termina com uma prova prática. Se aprovada, a criança recebe uma espécie “carteira de motorista”. Elas não precisam portar o documento quando circulam nas cidades, mas a carteira tem uma simbologia importante: representa a formação de futuros adultos responsáveis no trânsito.
Karina Gomes
sábado, 3 de março de 2018
Improvisos seculares
Ainda no século XIX, um dos maiores brasileiros de nossa história, Joaquim Nabuco, disse que a Abolição ficaria incompleta se os escravos não recebessem terra para trabalhar, e seus filhos não recebessem escolas para estudar. Não lhe deram atenção. Cem anos depois, outro dos maiores brasileiros da história, Darcy Ribeiro, disse que se o Brasil não construísse escolas naquele momento, teria de construir cadeias no futuro.
Junto com o então governador Leonel Brizola, Darcy iniciou a construção de um sistema estadual de escolas públicas com máxima qualidade: os Cieps. Os governadores seguintes não deram continuidade a esse sistema em horário integral. Em 1990, o ex-presidente Collor tentou levar a ideia para o resto do Brasil com os Ciacs, mas, com o impeachment, a tentativa de federalização foi abortada.
A sociedade brasileira continuou sua marcha de pobreza, violência, desigualdade, ineficiência, improvisando soluções parciais para cada problema. Eleitos e eleitores não percebem que o berço de nossos problemas está na falta de um sistema nacional de educação com máxima qualidade; que o futuro de um povo tem a cara de sua escola no presente (83% dos jovens infratores abandonaram a escola ainda na educação de base). A população vê a ameaça de uma pessoa portando fuzil, mas não vê a esperança em um professor segurando um lápis, um livro, um computador dentro de uma boa escola. No momento, quase todo carioca apoia, e os demais brasileiros invejam, a decisão de federalizar a segurança do Rio de Janeiro, mas nem imaginam que a maior parte se opõe a uma federalização da educação de base. Preferimos continuar nas improvisações seculares: “Abolição”, “República”, “desenvolvimento”, “democracia” e “segurança” sem educação. A urgência de cuidar do fuzil nos faz desprezar a importância do lápis, mas guiar-se apenas pelo desespero com a violência não leva à construção da paz.
Em sete meses, teremos eleições gerais, mas nenhum candidato a presidente parece consciente da dimensão de nossos problemas, nem interessado em oferecer uma resposta que não da improvisação pontual. Ainda menos, enfrentar os problemas imediatos considerando que a solução de longo prazo está na construção de um sistema nacional de educação com máxima qualidade.
Querendo apenas agradar ao eleitor assustado com o presente, ficam presos às improvisadas trapalhadas seculares dos discursos demagógicos. Os partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação como solução, porque isso não atrai votos. Por mais consistência lógica que eles tenham, a urgência destrói os mais sólidos argumentos. Quem está com sede não aceita o aviso de que a água do poço em frente está contaminada e devemos cavar um novo poço em outro lugar. Poucos votam em quem propõe enfrentar fuzil também com lápis.
Por isso, não há ouvidos para a fala de Nabuco, nem de Darcy, nem para a ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, disse: “Se adotássemos uma geração de brasileiros, ela depois adotaria o Brasil”.
Cristovam Buarque
Junto com o então governador Leonel Brizola, Darcy iniciou a construção de um sistema estadual de escolas públicas com máxima qualidade: os Cieps. Os governadores seguintes não deram continuidade a esse sistema em horário integral. Em 1990, o ex-presidente Collor tentou levar a ideia para o resto do Brasil com os Ciacs, mas, com o impeachment, a tentativa de federalização foi abortada.

A sociedade brasileira continuou sua marcha de pobreza, violência, desigualdade, ineficiência, improvisando soluções parciais para cada problema. Eleitos e eleitores não percebem que o berço de nossos problemas está na falta de um sistema nacional de educação com máxima qualidade; que o futuro de um povo tem a cara de sua escola no presente (83% dos jovens infratores abandonaram a escola ainda na educação de base). A população vê a ameaça de uma pessoa portando fuzil, mas não vê a esperança em um professor segurando um lápis, um livro, um computador dentro de uma boa escola. No momento, quase todo carioca apoia, e os demais brasileiros invejam, a decisão de federalizar a segurança do Rio de Janeiro, mas nem imaginam que a maior parte se opõe a uma federalização da educação de base. Preferimos continuar nas improvisações seculares: “Abolição”, “República”, “desenvolvimento”, “democracia” e “segurança” sem educação. A urgência de cuidar do fuzil nos faz desprezar a importância do lápis, mas guiar-se apenas pelo desespero com a violência não leva à construção da paz.
Em sete meses, teremos eleições gerais, mas nenhum candidato a presidente parece consciente da dimensão de nossos problemas, nem interessado em oferecer uma resposta que não da improvisação pontual. Ainda menos, enfrentar os problemas imediatos considerando que a solução de longo prazo está na construção de um sistema nacional de educação com máxima qualidade.
Querendo apenas agradar ao eleitor assustado com o presente, ficam presos às improvisadas trapalhadas seculares dos discursos demagógicos. Os partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação como solução, porque isso não atrai votos. Por mais consistência lógica que eles tenham, a urgência destrói os mais sólidos argumentos. Quem está com sede não aceita o aviso de que a água do poço em frente está contaminada e devemos cavar um novo poço em outro lugar. Poucos votam em quem propõe enfrentar fuzil também com lápis.
Por isso, não há ouvidos para a fala de Nabuco, nem de Darcy, nem para a ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, disse: “Se adotássemos uma geração de brasileiros, ela depois adotaria o Brasil”.
Cristovam Buarque
As duas fases do governo
Pode ser qualificado como populista, oportunista ou qualquer outro adjetivo que se queira mencionar, mas é fato que o governo do presidente Michel Temer é um, antes do Carnaval, e outro, depois da folia de Momo. Assim, mutante, o presidente que até a quarta-feira de cinzas parecia ser um fardo para os aliados no jogo eleitoral que se aproxima, pode, agora, vir a ser um importante agente político de sua própria sucessão. Sabemos que há um longo caminho até a eleição, mas o País dará um grande salto se as forças políticas se mostrarem capazes de abandonar um pouco o Fla-Flu dos últimos anos e convergirem em torno de uma agenda mínima proposta por essa espécie de segunda gestão Temer.
No primeiro governo tinha-se um Poder Executivo que, aparentemente, estava em estado letárgico. Refém de um Legislativo ganancioso, radicalmente fisiológico e sem nenhum pudor ético. Uma gestão fragilizada com parte de sua equipe citada em falcatruas, diante de um Ministério Público travestido de super-herói. Uma administração dependente de uma agenda econômica extremamente impopular e reformista, mas necessária para tirar o País de uma recessão sem precedentes na nossa história republicana. Com alguma habilidade, muita verba pública e estratosférico índice de impopularidade, esse primeiro governo Temer construiu uma base de apoio no Congresso para manter o presidente no Palácio do Planalto e aprovar parcialmente as amargas reformas, o suficiente para agora começar a colher bons resultados econômicos, que se espera, nos próximos meses, possam refletir no dia a dia do cidadão.
O segundo governo Temer parece revigorado. Praticamente abdicou da reforma da Previdência e assim cortou as amarras que o deixavam refém da Câmara e do Senado. Trocou a pauta negativa por uma agenda conectada com os anseios populares e empunhou a bandeira da segurança pública. Reduzir a violência é o desafio. Em pouco mais de dez dias, o governo, antes letárgico, decretou intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, criou o Ministério da Segurança e começa a construir uma força de elite nacional, que reúne os serviços de inteligência das Forças Armadas, amplia o contingente da Polícia Federal e tira os militares dos quartéis para que efetivamente patrulhem as fronteiras. Nessa batalha extremamente popular, o presidente passou os últimos dias a reunir governadores de diversos partidos para que se unam em torno de um plano de ação de comum. Só na quinta-feira 1, anunciou crédito de R$ 42 bilhões para que os estados invistam em planos contra a violência.
Não é pouco para um País que há décadas procura um projeto nacional de segurança pública, visto que os estados não dão conta de enfrentar um crime que não respeita as fronteiras, sejam elas nacionais ou internacionais. O segundo governo Temer entendeu que para enfrentar as organizações criminosas não basta comprar viaturas e armas, ou ampliar os contingentes policiais. Com as medidas anunciadas nos últimos dias, o governo pôs fim ao discurso de que segurança não é tarefa federal e inaugurou, assim, uma nova dinâmica para tratar do assunto. O Congresso logo reagiu e os presidentes da Câmara e do Senado correram para tirar das prateleiras os inúmeros projetos que tratam do tema e que havia anos estavam paralisados. Animais políticos que são, deputados e senadores sabem que, se o governo conseguir reduzir a violência e fizer frente ao crime organizado, o presidente se firmará como um importante eleitor e a eleição de alguma forma passará por ele. Interesses políticos à parte, para os brasileiros é importante que o projeto dê resultados e que o governo a ser eleito possa estar comprometido com as reformas que o primeiro governo de Temer não conseguiu realizar.
O segundo governo Temer parece revigorado. Praticamente abdicou da reforma da Previdência e assim cortou as amarras que o deixavam refém da Câmara e do Senado. Trocou a pauta negativa por uma agenda conectada com os anseios populares e empunhou a bandeira da segurança pública. Reduzir a violência é o desafio. Em pouco mais de dez dias, o governo, antes letárgico, decretou intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, criou o Ministério da Segurança e começa a construir uma força de elite nacional, que reúne os serviços de inteligência das Forças Armadas, amplia o contingente da Polícia Federal e tira os militares dos quartéis para que efetivamente patrulhem as fronteiras. Nessa batalha extremamente popular, o presidente passou os últimos dias a reunir governadores de diversos partidos para que se unam em torno de um plano de ação de comum. Só na quinta-feira 1, anunciou crédito de R$ 42 bilhões para que os estados invistam em planos contra a violência.
Não é pouco para um País que há décadas procura um projeto nacional de segurança pública, visto que os estados não dão conta de enfrentar um crime que não respeita as fronteiras, sejam elas nacionais ou internacionais. O segundo governo Temer entendeu que para enfrentar as organizações criminosas não basta comprar viaturas e armas, ou ampliar os contingentes policiais. Com as medidas anunciadas nos últimos dias, o governo pôs fim ao discurso de que segurança não é tarefa federal e inaugurou, assim, uma nova dinâmica para tratar do assunto. O Congresso logo reagiu e os presidentes da Câmara e do Senado correram para tirar das prateleiras os inúmeros projetos que tratam do tema e que havia anos estavam paralisados. Animais políticos que são, deputados e senadores sabem que, se o governo conseguir reduzir a violência e fizer frente ao crime organizado, o presidente se firmará como um importante eleitor e a eleição de alguma forma passará por ele. Interesses políticos à parte, para os brasileiros é importante que o projeto dê resultados e que o governo a ser eleito possa estar comprometido com as reformas que o primeiro governo de Temer não conseguiu realizar.
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