domingo, 28 de maio de 2017

O que une Saddam Hussein e Trump: a política da arquitetura

Os membros do Parlamento britânico em breve se mudarão da famosa Câmara dos Comuns. Depois de ter sofrido durante anos o efeito dos excrementos filosóficos ali vertidos, o edifício se deteriorou e precisa de reparos urgentes. Os parlamentares ocuparão temporariamente um novo prédio e a dúvida é se isso melhorará a qualidade de seus discursos.

Desde 1840 esses representantes se reúnem em uma construção que é uma fantasia medieval retrô-kitsch projetada por A.W. N. Pugin, um louco sifilítico. Um lugar cheio de adornos, pináculos, tapetes, pintura dourada, pisos de aglomerados de pedras e vitrais. Sem falar nos intrincados elementos psicossexuais vitorianos das pinturas que decoram as paredes. As práticas políticas mudariam se suas senhorias debatessem em um edifício moderno e cheio de transparência, lógica e luz? Foi Churchill quem disse que damos forma aos edifícios e estes, depois, nos dão formas. Em nenhum outro lugar isso é tão verdadeiro como aqueles onde os políticos desempenham suas funções.

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Tribunal de Contas da União em Brasília
Em Londres, a densidade decorativa do Parlamento exige que os honoráveis comuns se adaptem à sua seriedade reflexiva. O Senado italiano se reúne no Palazzo Madama, de Roma, um prédio em estilo do Alto Renascentismo construído pelos Medici. Talvez por isso esses senadores sejam refinados e tenham estilo. Na França, os fantásticos conceitos neoclássicos de Boullée e Ledoux sugerem que, em uma cidade ideal, o desenho arquitetônico nobre e racional poderia inspirar os políticos (não se esqueçam de que a própria ideia de esquerda e direita política provém da distribuição das cadeiras na Assembleia Nacional de Paris).

É evidente que a arquitetura dos edifícios governamentais influi no estado de ânimo dos políticos que os ocupam. É difícil, por exemplo, imaginar sinistros pactos encobertos em um parlamento luminoso e cheio de luz, inspirado em, vejamos, a berlinense Neue Nationalgalerie, de Mies van der Rohe. Mas a conexão entre as edificações e a política é ainda mais profunda.

A partir do momento em que aspira a aperfeiçoar o comportamento das pessoas através da melhoria de suas condições de vida, a arquitetura é política. Le Corbusier escolheu seu próprio nome porque era o equivalente arquitetônico de um antigo nome de guerra, transformando-se em um artista beligerante que proclamava gritos de guerra como: “Arquitetura ou revolução! A revolução pode ser evitada”. Uma peroração inflamada de ambiguidade intencional. O criador se referia a que, em um entorno mais bem projetado, as pessoas não se sentiriam tentadas a se sublevar. Mas também queria dizer que a arquitetura é a mais inevitável e, portanto, a mais política das artes.
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Palácio do TSE
Os ditadores sempre entenderam o poder dos edifícios. Em Art Under a Dictatorship (1957), um estudo clássico sobre o tema, Hellmut E. Lehmann-Haupt mostra que soviéticos e nazistas tinham gostos semelhantes e ambos gostavam do mesmo musculoso neoclassicismo amplificado em escala monumental. O hotel Moskva, de Moscou, de Alexey Shchusev, e o estádio de Nuremberg, de Albert Speer, são claros exemplos de seus grandiloquentes excessos. Mais atípico do período ditatorial era o monumento à Terceira Internacional, de Vladimir Tatlin, uma nobre estrutura que, claro, nunca chegou a ser construída.

Fora da Europa, os ditadores tendem mais para o brilhante, o dourado e o barroco. Saddam Hussein é a referência, e é impressionante o quanto o gosto do iraquiano se parece com o de Donald Trump. Em sua primeira entrevista televisionada como presidente eleito, Trump apareceu com ares imperiais sentado em um trono dourado estilo Luiz XV, rodeado, no teto e paredes, por pinturas alegóricas de temas clássicos. Uma cena absurda, levando-se em conta que transcorria em um prédio construído nos anos oitenta, cercado de vidros espelhados e com 200 metros de altura na Quinta Avenida.

Nos Estados Unidos os arrivistas tendem a pensar que essa classe de versões superbrilhantes de Versalhes lhes dá legitimidade. E o mesmo ocorre com os novos ricos, que raramente optam pela sutileza. Mas tudo isso pode ser dito também do novo presidente. Trump, empreendedor do ramo imobiliário em sua origem (embora agora nossa tendência seja esquecer disso), tem seu trono afrancesado no alto de uma torre que leva seu nome, um ícone de Manhattan, de 1983, com a qual se promovia como árbitro do gosto do momento. Em seu cérebro pré-intelectual, as superfícies brilhantes e os materiais preciosos têm um valor especial. Não é de estranhar, por isso, que a Torre Trump esteja ao lado da Tiffany. Como se pretendesse se apropriar de algo

O arquiteto escolhido pelo magnata se fazia chamar Der Scutt, um seguidor do Movimento Moderno. Era medianamente cultivado, mas também acostumado a mimar os egos dos empreendedores. Se acreditássemos no determinismo, haveríamos de convir que um homem como Der Scutt é indício de problemas: soa como um vilão de um filme de espadachins de baixo orçamento. Mas ocorre que, na realidade, também se chamava Donald, Donald Clark Scutt. Isto prova que, no universo que cerca o magnata, ocultar o verdadeiro nome no momento certo é mais importante que algo tão insignificante como essa cantilena acadêmica de ser fiel aos materiais.

Para Trump, os edifícios são painéis publicitários. Do mesmo modo que o imperador Augusto fez com que Roma passasse do tijolo ao mármore, Scutt introduziu um reluzente vidro cor bronze em uma zona de Manhattan onde até então a moda era a pedra calcária, dignamente silenciosa. Para extrair o mármore rosa empregado no vestíbulo fez com que lhe trouxessem uma montanha inteira de Carrara. “Gosto das coisas novas e brilhantes”, afirmou então o futuro presidente. As coisas novas e brilhantes comunicavam sua riqueza.

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Banco Central, em Brasília
A Trump Tower se encontra onde antes estiveram as grandes lojas de departamentos Bonwit Teller. As esculturas art déco extraídas durante a demolição iriam ser doadas ao Met, mas quando viu que o custo da remoção para aproveitamento era alto demais, Trump descumpriu o trato.

Mais tarde, em 1985, prosseguindo com seu habitual ataque contra o decoro, Trump gastou 10 milhões de dólares (33 milhões de reais, em valores de hoje) em Mar-a-Lago, uma fazenda-hamburgueria de Palm Beach com mais de 100 quartos, construída em 1927 pela milionária Marjorie Merriweather Post como refúgio invernal para o presidente dos EUA. Os convidados à festa de inauguração receberam um comunicado gravado com letras de ouro. Como se a vulgaridade não lhe bastasse, Trump tem o costume de exagerar a altura de seus edifícios. A torre Trump World, por exemplo, mede 257 metros e tem 70 andares. Ele insiste em que mede 274 metros e tem 90 andares.

Esqueçam o que eu disse sobre a publicidade. Para Trump, os edifícios são propaganda. Os arquitetos e designers ilustres, porém, sempre aspiram à verdade e à moralidade. Paul Rand acreditava que “a motivação primordial do projetista é a arte: arte a serviço da empresa, arte que melhora a qualidade de vida e torna mais profundo o apreço à esfera familiar”.

Uma nobreza que agora se mostra isolada e antiquada. Aí está Philip Johnson, que costumava se vangloriar de como se prostituía e de como era fácil copiar seu professor, Mies van der Rohe. Ou Zaha Hadid, que a propósito das centenas de mortes de operários reportadas durante a construção do estádio Al-Wakra, do Catar, declarou: “Como arquiteta meu dever não consiste em prestar atenção a isso. Nada posso fazer a respeito”. O cinismo e a negligência também podem ser políticos.

Que esperança há no mundo quando os arquitetos célebres tentam comprazer os oligarcas e o homem mais poderoso do mundo é um filisteu vaidoso, ignorante e incompetente que acredita que o motivo pelo qual os Estados Unidos preferem os carros BMW aos Chevrolet tem algo a ver com as baixas tarifas pagas pelos veículos alemães enviados para esse país? Não é isso, senhor Presidente, é porque os cidadãos norte-americanos cultos estão cientes de que um veículo BMW é tecnológica e artisticamente muito superior a um Chevrolet.

Mas acho que certamente é possível projetar uma saída para esse desastre todo. A esperança, às vezes, surge nos lugares mais insuspeitos. Apesar do que diz o presidente Trump, nem todos os mexicanos são estupradores e ladrões. Alguns deles são arquitetos geniais. O Estúdio 3.4 da Cidade do México projetou um muro fronteiriço heroico, de um rosa transgressor, no estilo do grande arquiteto de Guadalajara Luis Barragán. Se chegar a se estender de Tijuana até Matamoros, será uma boa maneira de evitar que os gringos entrem. A arquitetura, diz o muro, é política.

Gente fora do mapa

Fernand Pelez.:
Fernand Pelez

A inércia do Brasil na podridão

Não há liderança partidária relevante que se arrisque a abandonar um sistema político que se chama de podre. Por outro lado, não há movimento ou organização social que se apresente como partido alternativo.

Quem está dentro não quer sair ou não tem força ou imaginação para se reagrupar em um partido reconectado a um interesse social qualquer de renovação. Quem está fora não quer entrar, não sabe como ou não tem força para fazê-lo.

É uma descrição estilizada do colapso da representatividade dos partidos gangrenados, exagerada por definição.

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Sendo menos abstrato e extremista, há exemplos de saídas desse beco? Não se trata de apontar modelos, mas o descrédito dos partidos maiores, entre outras crises, propiciou tentativas de mudança na Espanha e na França.

Uma coalizão variada de organizações sociais, coletivos e coisas parecidas a micropartidos constituiu o Podemos (um caso do "quem está fora quer entrar"), que logo se tornou a terceira força política da Espanha.

Um dissidente do moribundo Partido Socialista da França aglutinou integrantes insatisfeitos do establishment e os conectou a eleitorados e movimentos de classes médias desencantadas (um caso de "quem está dentro quer sair").

Oportunista no mau ou no bom sentido, ainda vai se ver, esse dissidente, Emmanuel Macron, elegeu-se presidente e planeja refundar um partido de centro com conexões sociais e ideias mais vivas.

Dizer que a comparação europeia é inútil porque a sociedade no Brasil é amorfa não seria uma resposta, mas apenas uma questão (além de ser um erro antigo).

O nosso assunto, enfim, é o que fazer e o que não tem sido feito da dissociação crescente, quase terminal, entre sistema político e eleitorado, escancarada em 2013 e cada vez mais descarada desde então.

Não se apresentam dissidências de lideranças partidárias significativas nem para reagrupamentos simplórios, tal como uma alternativa limpinha à comunhão de delinquentes ou desclassificados que domina a política.

Por sua vez, movimentos sociais ainda mais ativos, embora minoritários, têm esperanças de poder por meio de "partidos que estão aí" (tanto na esquerda petista como na nova direita, que embarca na podridão que criticava "nas ruas" até ontem).

Parte da inércia se explica pelo óbvio cálculo de sobrevivência, pelo temor de ficar no sereno sem máquina eleitoral ou cargo estatal, "business as usual".

Além do mais, o conluio amplo e histórico que alimentou esse sistema político e suas pestes e vírus não morreu. Talvez ainda pareça viável a aliança entre fidalgos políticos, estamento empresarial e corporações que floresce faz quase 70 anos por meio da corrupção do essencial das regras do jogo da competição política e econômica.

Mesmo cientistas políticos se alarmam, por prudência quase conservadora, com a "destruição dos partidos" pelo sentimento antipolítico ou pela Lava Jato etc. Ao se omitirem na sugestão de alternativas, arriscam-se a ficar ao lado de defensores de acordões que salvem políticos menos enrolados, por exemplo.

Há inércia, em suma. Como é difícil acreditar que a sociedade revoltada esteja delegando a mudança política a um sistema que chama de podre, parece que se está à espera de um salvador.

Um país inviável

O presidente Michel Temer, no fim das contas, não conseguiu atravessar nem mesmo a miserável pinguela que tinha pela frente para usar a faixa presidencial até o último dia oficial de seu mandato. Era o seu sonho, ou seu único objetivo real ─ cumprir o curtíssimo prazo que a lei lhe deu para despachar no Palácio do Planalto. Chegou até mesmo a montar um bom ministério, e não só na área econômica. Estava começando, enfim, a anotar bons resultados. Mas não deu, e nem poderia dar. Temer assumiu a Presidência da República em situação de D.O.A., como dizem os relatórios hospitalares e policiais nos Estados Unidos ─ dead on arrival, ou morto na chegada. Chegou morto porque só sabe fazer política, agir e pensar para um Brasil em processo de extinção, onde presidentes da República recebem em palácio indivíduos à beira do xadrez, discutem com eles coisas que jamais deveriam ouvir e não chamam a polícia para levar ninguém preso. Desde a semana passada, com uma colossal denúncia criminal nas costas de Michel Temer, as datas oficiais da sua certidão de óbito como presidente deixaram de fazer diferença. Seu governo não existe mais. A atual oposição (até ontem governo) do PT-esquerda não existe mais; eles estão rindo, mas riem no próprio velório. Os políticos, como classe, não existem mais. Querem viver de um jeito inviável e manter de pé um país inviável. Acabaram por tornar-se incompreensíveis.


Na verdade, como já ficou claro há um bom tempo, não se poderia mesmo esperar algo diferente do que está acontecendo. É simples. O Brasil de hoje é governado como uma usina de reprocessar lixo. Entra lixo de um lado, sai lixo do outro. O que mais poderia sair? Entre a porta de entrada, que é aberta nas eleições, e a porta de saída, quando se muda de governo, o produto fica com outra aparência, altera o nome, recebe nova embalagem ─ mas continua sendo lixo. Reprocessou-se o governo do ex-presidente Lula; deu no governo Dilma Rousseff; reprocessou-se o governo Dilma; deu no governo Michel Temer. Não houve, de 2003 para cá, troca no material processado pela usina. Não houve alternância de poder, e isso inclui o finado governo Temer. Continuou igual, nos três, a compostagem de políticos “do ramo”, empreiteiras de obras públicas, escroques de todas as especialidades, fornecedores do governo, parasitas ideológicos, empresários declarados “campeões nacionais” por Lula, por Dilma e pelos cofres do BNDES. É esse baixo mundo que governa o Brasil.

Michel Temer, na verdade, faz parte integral da herança que Lula deixou para os brasileiros. Tanto quanto Dilma Rousseff, é pura criação do ex-presidente ─ só chegou lá porque o PT o colocou na Vice-Presidência. Ou alguém acha que Temer foi incluído como vice na chapa petista contra a vontade de Lula? Ninguém votou nele, não se cansam de dizer desde que Temer assumiu o cargo, no impeachment de Dilma. Com certeza: quem fez a escolha foi Lula, ninguém mais. Foi dele o único voto que Temer teve ─ e o único de que precisava. É tudo parte, no fim das contas, da “política de alianças”. A respeito do assunto, ainda outro dia tivemos direito a uma aula de ciência política dada pelo próprio ex-­presidente da República, durante seu interrogatório pelo juiz Sérgio Moro. Lula explicou ao juiz, e a todos nós, que é impossível governar sem “aliados”. E o que isso tem a ver com a corrupção em massa durante seu governo? Tudo a ver, segundo o que deu para entender: você precisa dar cargos públicos aos partidos que apoiam o governo, e aí eles vão roubar tudo o que virem pela frente. No seu caso, o PMDB foi a principal aliança que fez ─ na verdade, o alicerce da coisa toda, uma obra-prima de “engenharia política” que seria depois completada com a aquisição do PP, do PR e de outras gangues partidárias.

Com o PMDB veio Michel Temer ─ mais Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney e família, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Eunício Oliveira, Geddel Vieira Lima, e daí para pior. Hoje são odiados nos discursos de Lula e do PT. Ontem eram os melhores amigos e, principalmente, sócios. A isso aí vieram juntar-se os empresários “nacionalistas” de Lula e Dilma: os Joesley e Wesley Batista, que ocupam agora o centro do palco, os Marcelo Odebrecht, os Eike Batista e tantos outros capitães de indústria que já foram, continuam sendo e em breve serão inquilinos do sistema penitenciário nacional. Juntos construíram a calamidade moral, econômica e administrativa que está aí. E com certeza vão tentar, de algum jeito, beneficiar-se da gosma constitucional hoje formada em torno do pós-Temer.

Essa gente toda, com Lula e o PT à frente e bilhões de reais atrás, nos deixou o seguinte país: um dos maiores empresários do Brasil, e também um dos mais investigados por crimes cometidos em suas empresas, entra na residência presidencial e, numa ação nos limites da bandidagem, grava pessoalmente uma conversa do pior nível com o presidente. Com isso, ao menos até agora, protege-se da cadeia, ganha uma soma não calculada de milhões e vira um herói da Rede Globo, no papel de “justiceiro”. O ex-presidente Lula oscila entre duas possibilidades: ir para o xadrez ou para o Palácio do Planalto. Sua sucessora é trazida, por denúncia de pessoas íntimas, para o centro do lodaçal. Seu adversário nas últimas eleições, Aécio Neves, recebe malas de dinheiro vivo desses Joesley e Wesley que atiram para todo lado. O governo do Brasil, e o conjunto da vida política, passou a depender inteiramente de delegados de polícia, procuradores públicos e juízes criminais. O voto popular nunca valeu tão pouco: o político eleito talvez esteja no próximo camburão da Polícia Federal. Os sucessores mais diretos de Temer podem estar em breve, eles próprios, a caminho do pelotão de fuzilamento; fazem parte da caçamba de detritos que há na política brasileira de hoje. Um país assim não pode funcionar ─ não o tempo inteiro, como tem sido nos últimos anos. Trata-se de uma realidade que está evidente há mais de três anos, quando a Operação Lava Jato passou a enterrar o Brasil Velho. Era um país que, enfim, começava a agonizar: pela primeira vez na história, seus donos tinham encontrado pela frente a aplicação da Justiça ─ ou, mais exatamente, o princípio de que a lei tem de valer por igual para todos. Não acreditaram, e tentam não acreditar até hoje, que aquilo tudo estava mesmo acontecendo. O único Brasil possível, para eles, é o Brasil que tem como única função colocar a máquina pública a serviço de seus bolsos. Gente como Lula, Odebrecht, Joesley, empresários campeões etc. simplesmente não entende a existência de pessoas como Sérgio Moro; eles têm certeza de que não há seres humanos que não possam ser comprados ou intimidados. O resultado está aí ─ um país que não consegue mais ser governado, porque os governantes não conseguem mais esconder o que fazem, nem controlar a Justiça e a Lava Jato, que a qualquer momento pode bater à sua porta.

Atalhos institucionais

Diante da crise generalizada e da falta de saídas fáceis, vários atores aos quais caberia a responsabilidade de conduzir o País para uma transição minimamente racional flertam perigosamente com saídas fáceis ou atalhos institucionais. É o ingrediente que falta para o Brasil descambar de vez para situações que assistimos num passado recente – ou mesmo hoje – nos nossos vizinhos de continente.

O mais “popular” desses puxadinhos legais atende pelo aparentemente libertário slogan de “diretas já!”, como se vivêssemos um período de hiato democrático e não tivéssemos um ciclo ininterrupto de eleições diretas a cada dois anos desde a década de 80. Como se a malfadada dupla Dilma Rousseff & Michel Temer não tivesse sido eleita e reeleita por voto popular.

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Diretas em 2017 significa, vejam só, o tal golpe que seus defensores adoram apontar no impeachment. Seja porque não é o caminho previsto pela Constituição – esta, vale lembrar, redigida e aprovada por uma Constituinte eleita diretamente –, seja porque servirá, no atual cenário, apenas de salvo-conduto para candidatos enrolados com a Justiça e/ou salvadores da pátria que flertam perigosamente com o desalento com a política.

Por pior que seja ter um presidente eleito por um Congresso sem respaldo popular e igualmente atingido pelas denúncias de corrupção, é o que nos resta para hoje. Qualquer um, independentemente da “fé ideológica” que professe, que tenha um mínimo de compromisso com a legalidade tem de aceitar este caminho caso Michel Temer caia, o que parece cada dia mais provável.

O segundo jeitinho brasileiro para problemas graves vem na forma da utilização do julgamento da chapa Dilma-Temer para abreviar o calvário do País com o presidente que se recusa a aceitar a hipótese de renúncia. Esta ação diz respeito à campanha de 2014. Deveria ser redundante dizer que as ilegalidades – e elas foram muitas – cometidas para reeleger a malfadada dupla não valem para retirar o ex-vice por eventuais crimes cometidos em março de 2017.

Mas no Brasil da gambiarra esta saída é vista como a mais “indolor”. Pode não doer agora, mas abre uma avenida para que se subvertam as leis para resolver nós que são antes de tudo políticos. É claro que, se o caminho acordado pelos caciques for este, vai-se tentar dar um verniz de normalidade e dizer que apenas foi cumprida a jurisprudência do TSE que manda responsabilizar a chapa toda em caso de irregularidade. Mas todo mundo que acompanhou esse tortuoso julgamento que se arrasta há dois anos, sabe que, há duas semanas, a tendência era justamente a oposta: responsabilizar Dilma.

Por fim, no Brasil das jabuticabas institucionais, tem-se evidências de sobra de que o Ministério Público Federal foi, no mínimo, condescendente ao oferecer um acordo de delação premiada nunca antes visto aos irmãos Batista e demais colaboradores da JBS. Nada, nem a tal ação controlada, justifica a benevolência.

Ademais, o fato de um dos braçosdireitos de Rodrigo Janot, que até outro dia estava à frente da condução das delações da Lava Jato, atuar no escritório de advocacia que negocia a leniência do grupo é outra dessas aberrações que só ocorrem no Brasil. Que não venham os representantes da banca e os antigos colegas de Marcelo Miller dizer que ele não atuou na delação. Só essa nítida incompatibilidade já seria razão para anular o acordo em um País sério.

Ou se excluem das graves decisões que o Brasil tem pela frente todos esses exotismos institucionais ou não haverá saída virtuosa, com ou sem Lava Jato. O caminho legal pode ser mais longo e tortuoso, mas é o único possível para um País que almeje a civilização e a democracia.

Paisagem brasileira

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Piranhas (AL)

A decadência

Quando entrei na Câmara dos Deputados pela primeira vez, em 1991, lá encontrei figuras que despertavam respeito e admiração pelo preparo, pela formação acadêmica, pela capacidade de enxergar o interesse nacional acima de qualquer outro.

Não era certamente um conclave de santos representando o povo do Brasil, mas havia erudição, discernimento, bagagem intelectual e, ainda, respeito com a coisa pública.

Havia corrupção em grau não perceptível e interesses velados, que na atualidade seriam considerados troco na conta do restaurante.

Quando saí de lá, em 2006, por decisão pessoal, o fiz deixando atrás um cenário que tinha-se degenerado assombrosamente. Ficaram mais raras as figuras de destaque ético e intelectual; já pululavam mensaleiros, aqueles movidos a vantagens e barganhas ilícitas.

Estive recentemente naquela Casa e notei que a inarredável decadência ultrapassou os limites imagináveis. As virtudes praticamente estão a um passo da extinção, enquanto os pecados e vícios são soberanos. Lá, mais que pessoas dispostas a servir a nação, encontram-se figuras que se servem da nação, tendência comum aos Poderes Executivos centrais e periféricos. Abusa-se de prerrogativas e pratica-se o patrimonialismo mais abjeto; a locupletação foi escancarada pela Lava Jato. A devassa em curso tirou as cortinas e os biombos do “poder”. Jogou nos lares do país as vantagens, os ganhos ilícitos e insaciáveis, incompatíveis, e criminosos considerando os amplos bolsões de pobreza e a falta de recursos para atender os serviços minimamente essenciais.

Lula queixava-se dos deputados em Brasília, que definiu como “300 picaretas” na década de 90. Os oito anos de governo dele coincidiram certamente com um aumento para 400 ou mais que merecem a definição imortalizada pelo ex-presidente. Salvam-se poucos, nitidamente insuficientes para garantir a eficiência da instituição representativa da “democracia”.


Lembro-me de que o salário, no período de Itamar Franco, quando os ministros, ao mínimo aceno de irregularidade, eram afastados para responder a sindicância e se defender, estava abaixo de R$ 9.000. A verba de assessores, despesas de gabinete e viagens não passava de R$ 25 mil por mês. Poucos parlamentares possuíam carro, raríssimos o motorista, eram atendidos por “Veraneios” da Câmara, que atuavam em regime de “lotação”. Hoje o custo da instituição subiu desmedidamente, provavelmente proporcionalmente à queda de qualidade do conjunto presente na “Casa”.

O aumento de remuneração, supostamente voltado a dar “autonomia financeira” aos parlamentares, na prática não serviu, e ocorreu com uma profunda decadência ética no Legislativo federal, atrelada à mesma decadência nas instâncias executivas estaduais e municipais.

O escritor escocês Robert Louis Balfour Stevenson anotou que “a política talvez seja a única profissão em relação à qual se considera que nenhuma formação prévia é necessária”. Aí está o causador do problema.

No Brasil quem trabalha não costuma ter tempo algum para dedicar ao meio político, dessa forma o ambiente ficou restrito, com raras exceções, a quem faz da política sua profissão e se esquece da missão, do sacerdócio, que “in tesi” é a finalidade de quem atua nessa seara.

Brasília é uma ilha da fantasia, surreal, cínica, afastada da realidade nacional, registra a maior renda per capita, 36,4% superior à de São Paulo e exatamente o dobro da de Minas Gerais, ainda seis vezes superior àquela do Estado de Maranhão, o mais atrasado do país, juntamente com Alagoas.

O Estado do Maranhão teve ministros, presidentes de estatais, presidentes do Senado e até presidente da República. Em vão. Com o poder nas mãos, continua o pior do ranking, enquanto seus representantes políticos ditam lei no Congresso.

Se fosse possível passar por um “espectrofotômetro político“ os elementos que formam o ambiente dominante em Brasília, se dariam as cores da ignorância e corrupção e do descaso com o sofrimento da população.

Depois do petrolão, aparecem agora os desvios do BNDES e a fórmula que os regia. Os pagamentos das propinas eram no exterior, e a maior fatia para os presidentes da República, que, segundo Joesley Batista, receberam da JBS R$ 500 milhões (US$ 150 milhões) em contas no exterior. E Obebrecht e demais grupos? Mais de R$ 10 bilhões?

Num ambiente tão perverso qualquer moralização drástica e urgente é bem-vinda.

Justiça de compadres

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Um país não pode ir mudando o Direito conforme o réu. Isso não é um Estado de direito, é um Estado de compadrio

O corrupto e o corruptor

 Agora que estávamos nos acostumando à figura do corrupto — afinal, há séculos convivemos com ele —, eis que surge um novo animal na floresta: o corruptor. E em alto estilo: enorme, viscoso, tentacular, falando de cifras com que nunca sonhamos e com uma naturalidade que escancara para nós, de repente, toda a nossa inocência.

Com que, então, os milhões e bilhões que só conhecíamos por ouvir falar existem de verdade e não como papéis simbólicos, trocados por bancos e governos. Apesar do volume, são moeda corrente entre pessoas reais e circulam em malas, mochilas, meias e depósitos no Exterior, ou na forma de barcos, joias, sítios, tríplexes, aeroportos. A cada denúncia, os montantes têm sido de tal ordem que nos arriscamos a ficar blasés: "Mas como, tanto barulho por R$ 5 milhões? Ainda se fossem dólares...".

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Enfim, se o corrupto não é novidade, nada mais fascinante nos últimos tempos do que nos defrontarmos com o corruptor —o que nos tem sido oferecido à larga pelas gravações da Lava Jato. Desse espetáculo, que supera qualquer reality show, pode-se inferir algo sobre a personalidade de ambos.

O corruptor tem desprezo pelo corrupto. Olha-o de cima para baixo, trata-o pelo primeiro nome ou pelo diminutivo, ignora a liturgia, marca local, dia e hora da visita ou chega sem avisar —claro, se é ele quem paga as contas, presta-se gostosamente aos achaques e compra políticos como se fossem bananas. O corruptor vai às compras com uma longa lista: transferências de fundos públicos, medidas provisórias, primazia em concorrências, isenção de impostos, empréstimos em bancos oficiais. O corrupto avia esses pedidos e, em troca, leva o seu. Mas o ganho do corrupto é pinto se comparado ao do corruptor.

Desprezado pelo corruptor, só resta ao corrupto, em troca, nos desprezar.

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 Aldeia histórica iraniana em Chahar Mahal-o-Bakhtiari, Mohammadreza Momeni 

Aquela musiquinha sinistra


Pã, papam, pã-pãm, papapapaaaam. Aconteceu comigo. Foi agora por esses dias. Mais precisamente já na madrugada do domingo, 21 de maio, o que piorou ainda mais. Madrugada. Meu coração quase saiu pela boca. Estava despreparada para qualquer notícia ruim naquele momento, tão ruim que não podia nem esperar? Estava relaxada, por algumas horas tinha esquecido esse tormento que virou o dia a dia nacional. Esse novo tormento.

Mas quando vi aquilo, aqueles microfones apontados como mísseis vindos em minha direção, como que saindo, pulando, da tela da tevê no meu colo, deu palpitação e naqueles segundos, vocês não acreditariam, tantos pensamentos passaram velozmente até surgir a apresentadora. Várias hipóteses que poderiam até ser concretas. Cada uma mais louca que a outra. Todas essas, as minhas, até valeriam um plantão àquela altura.

Mas não. Naquele, uma trêmula apresentadora que estava certamente de plantão na redação surgiu para dar um outro plantão- e que até ela me pareceu não estar convencida da importância. Ela apareceu ali para anunciar que uma reunião da Ordem dos Advogados do Brasil havia decidido pedir o impeachment do presidente Michel Temer. Ohhhh. Oi? Vê se isso é notícia para dar em plantão de madrugada num sábado? É? Mudou sua vida? Resolveu nossos problemas? Vale alguma coisa nesse país que desrespeitou e diminuiu nos últimos tempos as entidades da sociedade civil a pó de poeira? Responda rápido: qual o nome do atual presidente da OAB?


Vou ser sincera para vocês. Xinguei muito. Falando sozinha, mas xinguei, ô se xinguei. Eu tinha acabado de chegar em casa, do teatro; fui ver Roque Santeiro durante a Virada Cultural. Com fome tinha preparado um lanche maravilhoso (… tá, tá bom: um hambúrguer X-Salada-Tudo e mais um pouco) para comer na sala vendo tevê. Tinha dado a primeira mordida, sabe aquela quando a maionese se espalha e o queijo derretido cria uma união teimosa entre sua boca e o sanduíche?? Aí veio a musiquinha maldita, sinistra. Pã, papam, pã-pam, papapapaaaam

Não foi legal. Não me fez bem. Se eu, que acompanho essa trapalhada toda por dever até de profissão não gostei, imagino como foi nesse Brasilzão de Deus, nas tevês de beira de estrada, nos cafundós. Uma tal de OAB fez num-sei-o-quê.

Já estamos tomando muitos sustos. Quer cena mais para assustar criancinha do que aquele vídeo do Aécio com cara de medo, olhar de medo, e sem nenhuma “convincência”, na frente de uma parede lisa de cor horrível, dizendo-se enganado, ingênuo, desfalcado de recursos? Patético. A expressão do Rodrigo Maia girando o pescoço na quarta-feira do terror em Brasília, e que saiu pedindo reforço da segurança, que acabou chegando o Exército para acudir?

E as duas vezes que apareceu rede oficial no púlpito, para a fala do presidente que toda hora é fotografado engolindo bocejo – não repararam? Ele engole o bocejo de uma forma bem engraçada. Põe para dentro, fica bochechudo. Não deve estar dormindo nada bem. Nas duas vezes falou, falou e não resolveu nada, quase não disse coisa com coisa, como diria meu pai. E a entrevista exclusiva que ele resolveu dar? E que não tinha um assessor que preste para corrigi-lo quando citou a operação Carne Fraca que só aconteceria dez dias depois e que ele usava como argumento para explicar ter recebido no porão de casa o malaco da carne na calada da noite?

Está confuso demais. É mala monitorada que não estava monitorada em nada e justamente ela some, reaparece com uma mordida enorme de bufunfa; é gravação que brota de tudo quanto é canto, até as que não têm nada a ver com o peixe, mas expôs um jornalista que andou arranjando inimigos até debaixo da água.

Por favor, mais comedimento em usar a música maldita e sinistra que nunca traz boas notícias, e que nos ameaça com aqueles microfones na piracema.

Essa musiquinha de agora, mais invocada, tem pouco mais que 14 anos. Mas o plantão se iniciou em 1982, anunciando a eclosão da Guerra das Malvinas. De lá para cá, 35 anos, não foram muito mais de quinhentas vezes a sua utilização. Mas esta, a primeira, já chegou me apavorando e afetando muito. Naqueles dias, sob o comando do admirável Fernando Portela, completávamos, no Jornal da Tarde, uma das maiores reportagens de todos os tempos – de fôlego, três meses de batalha. Chamava-se Viver em Prédios e reportava todos os fatos ligados a isso, de todos os ângulos. Principalmente o do difícil convívio entre os seres, carros, portas, goteiras e vazamentos, portarias e garagens.

A matéria acabou decepada para dar espaço ao noticiário da guerra aqui de nossos vizinhos argentinos, que não cumprimentam ninguém no elevador. A propósito, está de novo uma barulhada e tanto nesse Edifício América Latina.

Que futuro é esse?

Zhang Lin Hai

Quando se considera que o produto do trabalho e das luzes de trinta ou quarenta séculos foi entregar trezentos milhões de homens espalhados pelo globo a cerca de trinta déspotas, a maioria ignorante e imbecil, cada um dos quais é governado por três ou quatro celerados às vezes estúpidos, o que pensar da humanidade e o que dela esperar no futuro?
Sébastien-Roch Chamfort (1740 - 1794)

Aula de cinismo

Dia desses pensava eu sobre o quanto é querida a educação. Todo mundo é a favor dela. Nunca encontrei quem fosse contra.

No entanto, li que a cada sete minutos um professor é agredido lá no Reino Unido. Cataloguei casos de mestres mordidos, arranhados, chutados, socados, linchados pelos alunos e até assassinados. Na Europa, a cada ano, 1,5 milhão de professores enfrentam esta dura realidade. E ninguém resolve o problema. O Estado, tão poderoso, não consegue impor a ordem nem nas salas de aula - muitas das quais só abrem quando os traficantes locais permitem.

Nunca falta dinheiro para a educação. E assim pesquisadores ingleses gastaram milhões para descobrir se um pinguim olha para o céu quando passa algum avião. Nos EUA outra fortuna foi gasta para apurar a relação entre a música sertaneja e os índices de suicídio. Enquanto isso, 25% das crianças norte-americanas passam fome. Na Europa, são em média uma a cada sete crianças. Dizem alguns que não estamos muito longe disso.

PROF. FÁBIO MADRUGA: Sonegar imposto é errado? Nem sempre. No Brasil, é...:

Os recursos para a educação devem ser tratados com total seriedade e honestidade. E lá está a Controladoria Geral da União denunciando irregularidades em 73% dos municípios brasileiros. Mas segue firme pelo país afora a frequente compra de equipamentos caríssimos que quase nunca serão usados porque falta nas salas de aula a estrutura mais básica necessária.

Trombeteia-se que uma escola não forma apenas estudantes - forma cidadãos. Apregoa-se que quem abre uma escola fecha uma prisão. Paradoxalmente, no entanto, noções as mais básicas da vida real passam ao largo das salas de aula. Será mais fácil uma criança nelas aprender qual o nome do navio que conduziu José Bonifácio ao exílio do que receber uma mínima noção sobre, por exemplo, o funcionamento das leis. As consequências são terríveis: 67% das empresas brasileiras enfrentam dificuldades na contratação de trabalhadores qualificados.

Berra-se, pelas esquinas afora, que aos estudantes deve se proporcionar a saúde necessária ao bom desempenho escolar. Para nossa surpresa, porém, 6,8 milhões de alunos brasileiros assistem aulas em escolas desprovidas de abastecimento de água, e 5,2 milhões não tem sequer água potável para beber.

Cheguei a uma dura conclusão: o problema da educação é que tem muitos maiores vivendo às custas dos menores.

Pedro Valls Feu Rosa

'Brazil of cards'

Um deputado de grande influência, líder da maioria parlamentar, se torna vice-presidente. Uma vez no cargo, aproveita-se da impopularidade de um dígito do mandatário maior da nação — suspeito de conluio com o alto capital privado — e de um ambiente constitucional favorável, para cooptar Congresso e Senado numa grande campanha pró-impeachment. Ele assume a Presidência, num processo político permeado de esquemas, traições, mentiras, vazamentos e oportunismo.

O Congresso em questão se parece com um balcão de venda de votos, onde todos têm um preço para mudar suas convicções, e depois voltar atrás, se necessário, não importando programas, filiação partidária, plataformas ou o interesse público: só o interesse pessoal, ou, eventualmente, o de um cônjuge ambicioso e ávido por ascensão.

No país onde ocorrem esses fatos, o capital privado é capaz de dar as cartas no Executivo e no Legislativo, dominar bancadas, constranger secretariados, através de doações tanto legítimas quanto oriundas de lavagem de dinheiro, e ainda receber, em troca, favorecimentos regulatórios e contratos em solo pátrio e no exterior.

Ah, só pode ser o Brasil!


Não, não é o Brasil. Os parágrafos acima são um resumo livre das duas primeiras temporadas da série americana “House of cards”, consumidas pelo cronista com a voracidade de 26 episódios em quatro dias. A série é ótima, Kevin Spacey dá o show de sempre, embora não alcance o grau de excelência de texto, arte e fotografia, nem de sofisticação dramática, de um “Mad men” ou um “Breaking bad”. O motivo da recaída no vício após um ano sem mergulhar numa caixa de séries (no caso, uma caixa virtual) foi, sem dúvida, a mórbida semelhança com o que se passa aqui.

Não tanto no que toca à história. Apesar das coincidências situacionais, as circunstâncias são bem diferentes, o país é outro, e há várias subtramas que têm muito mais a ver com a cultura local do que com a nossa. O que pega fundo, mesmo, são os valores envolvidos. Em “House of cards”, trava-se uma discussão de conceitos que estão no centro de nosso dia a dia, na política e na maneira com que esta se reflete na vida de quem está a léguas de distância do andar de cima: a sociedade civil.

O foco dessa discussão está no binômio poder/dinheiro, como proposto pelo protagonista, o deputado Frank Underwood, que, entre uma sequência e outra, dirige-se em segunda pessoa ao público para debater seus dilemas. A tese de Frank: o poder, para quem sabe das coisas e está com a faca e o queijo na mão, vale muito mais que o dinheiro. O dinheiro, uma vez adquirido, é intangível, fugaz, frívolo. Já o poder, se adequadamente cultivado, é como uma madeira nobre, que resiste ao tempo.

Daí uma questão resultante, mas fundamental: para que serve o poder? Se falamos de política, é uma capacidade que deveria estar a serviço da construção de um futuro melhor, tendo-se em vista o interesse coletivo e o bem comum. A outra opção: o poder exclusivamente a serviço do interesse individual. O interesse do outro só entra no jogo de forma submissa e passível de imediata aniquilação em caso de interferência. Se o animal no topo da cadeia se vê ameaçado, o outro tem que sucumbir, ainda que se sujem as mãos de sangue.

Em “House of cards”, há dois universos: uma sociedade vigilante e construtiva, formada pela Justiça e pelos meios de comunicação; e uma esfera que une a política ao capital privado numa dinâmica perversa de interdependência. Neste segundo grupo, prevalece, contudo, o gosto pela “madeira nobre”. São personagens para os quais só o dinheiro é um meio de exercitar a sensualidade do controle manipulativo, de mover o vapor inebriante da autossatisfação.

Para isso, não há limites, não há risco que não valha a pena correr. Submeter o outro, impor-se, mover-se verticalmente, destruir o oponente, num jogo em que as ideias são moldadas pela de sede de poder, e não o contrário (o poder a serviço das ideias). A tese seria a de que, quando dinheiro e política se encontram, por mais que se defendam interesses desta ou daquela corporação, o alvo é o acúmulo de força, e não aquilo que se embolsa.

O quão distorcida é esta visão, ou o quanto ela é específica daqueles personagens, instrumentalizados num microcosmo, é assunto para um estudo mais “macro” ou uma análise de roteiro. Instigante é pensar em como, no Brasil, a lógica parece radicalmente inversa: aqui é o poder que está a serviço do dinheiro, num cenário em que a política perdeu até a aparência, se não o caráter, de uma atividade em si. No Brasil, o poder, mesmo em sua conformação mais egoísta, virou um valor subalterno. Não há “madeira nobre” que resista ao incêndio que lambeu as ideias, o pensamento e a própria noção de civilidade. Numa sinopse radicalmente resumida, ficaria assim: “A política morreu, e o capital assumiu o poder”.

Arnaldo Bloch 

sábado, 27 de maio de 2017

 O Tempo 26.5.2017

Afronta e indignação

Estamos perplexos, chocados, estarrecidos diante de tanta desfaçatez. Um acinte, uma afronta ao cidadão. Faltam palavras para descrever como nos sentimos.

Indignação, raiva, vergonha, desalento, tristeza, nojo, descrença. Também faltam palavras para dar conta do nosso estado de espírito. Não dá para passar por cima dos horrores acumulados. Nem minimizar ou relevar coisa alguma. Já chega estarmos sendo forçados a mudar de assunto e tirar o foco de Odebrecht, OAS, Bumlai, Guarujá, Atibaia, e da expectativa do que diria Palocci, como se tudo isso tivesse deixado de existir de uma hora para outra.

Essa gente está querendo demais.

Estão há um tempão querendo que acreditemos que presidentes e seus cúmplices são honestos, não sabem de nada — e mesmo com essa incapacidade e incompetência, estão aptos a governar. Também seus auxiliares e apoiadores em todos os níveis. E mais seus opositores e adversários, como se constata nesse pântano onde estão todos atolados e com cujo fedor nos estão obrigando a conviver.

Esperam que aceitemos que não há nada de reprovável em que um presidente receba favores de empresários, com os mais variados pretextos, e em troca esses “amigos” tenham privilégios especiais.

Esperam que possamos engolir que não há nada condenável em receber dinheiro, a qualquer pretexto, com cuidados para não declarar nem pagar imposto. Até em espécie, em malas e mochilas cheias. Ou travestidos de tríplex, sítios, terrenos, guarda de bens, joias, obras de arte. E ainda querem nos empurrar goela abaixo a noção de que não faz mal algum obsequiar altas figuras da República para conseguir se isentar das leis que valem para todos os outros.

Esperam que, quando isso vem à tona subitamente, aproveitemos para tirar do cargo o bandido da vez, afastar o possível bandido de amanhã e nos deixemos manipular para lá recolocar o bandido de ontem ou anteontem, fingindo que a manobra para lhe garantir impunidade é um ato patriótico para salvar o país.

Esperam distrair a pátria mãe com discursos veementes, slogans e firulas de todo tipo, para que, mais uma vez, as tenebrosas transações possam continuar a nos subtrair sob qualquer forma.

Esperam que desviemos o olhar ou fiquemos cegos às variadas tentativas de criar obstáculos para obstruir a Justiça, atrapalhar investigações, fazer sangrar a Lava-Jato, desmoralizar o Ministério Público.

Os exemplos vêm a público diante de um país estupefato. Não dá para esquecer. Já ouvimos as manobras mais escandalosas, na própria voz dos envolvidos. A começar pela nomeação de Lula por Dilma para a Casa Civil, publicada em edição especial do Diário Oficial na madrugada, com termo de posse sem assinatura levado em mãos pelo “Bessias” para ficar como salvo-conduto e lhe garantir foro privilegiado. Em seguida, veio a revelação captada no áudio feito pelo filho de Nestor Cerveró — em que Delcídio transmitia a preocupação de Lula com eventual colaboração e incluía oferta de fuga em jatinho. Ouvimos ainda, com riqueza de detalhes, as conversas gravadas por Sérgio Machado dando conta do complô de parlamentares de alto coturno para deter a investigação. Acompanhamos diferentes tentativas no Congresso para driblar a legislação — como anistia a caixa 2, ou projetos até eventualmente necessários, mas inoportunos, contra abuso de autoridade, abrangentes a ponto de pretender criminalizar juiz que interprete a lei. E chegamos agora às fanfarronices e confissões do Joesley Safadão, gabando-se de controlar juízes e infiltrar procurador — ouvidas sem reação pelo presidente da República, da boca de alguém que o procurara conforme combinado, no porão, na calada da noite, com o cuidado de não deixar rastros, sob nome falso e sem ser revistado.

Meninos, ouvimos!

Esperam também que a nação, estupefata, faça como eles e se disponha a ignorar as leis que nos regem. Apostam na escalada de violência e confronto, como se a depredação fosse um direito democrático irreprimível. Fala-se em PEC para mudar rapidinho a Constituição e permitir diretas-já sem levar em conta que, para evitar casuísmo, a Carta Magna impõe, em seu artigo 16: “A lei que alterar o processo eleitoral só entrará em vigor um ano após sua promulgação”.

E mais: advogados isentos têm opinado que a Lei 12.850/13, que possibilita colaborações premiadas, limita sua aplicação no caso de quem chefie a organização criminosa. Portanto, não admitiria que para pegar os líderes políticos se passasse uma borracha prévia tão radical em líderes criminosos, como a que permitiu que os irmãos Batista se mudem incólumes para os EUA, a gastar o nosso dinheiro, obtido graças a favores especiais do BNDES e outras fontes públicas. Ainda mais agora, depois de especularem com os efeitos de sua delação sobre ações e câmbio. Leves e soltos. Fica no ar a irreverente pergunta de um motorista de táxi carioca, a encarnar com expressividade a reação do comum dos mortais:

— E no tornozelinho? Nada?

Ana Maria Machado

Brasil gosta tanto de piada que o TSE virou uma

A relação incestuosa de Michel Temer com um pedaço do plenário do Tribunal Superior Eleitoral transformou a apreciação das contas da campanha vitoriosa em 2014 numa casa da Mãe Joana. A pretexto de contribuir para a salvação do PIB, a veneranda senhora vinha usando as provas que incriminam a chapa Dilma—Temer como gordura na fritura do próprio TSE. Subitamente, a conjuntura virou. E a Corte Eleitoral promote para o dia 6 de junho um espetáculo inédito: vai desfritar um ovo.

As páginas do processo expõem uma inacreditável realidade. Nela, um mar de dinheiro roubado da Petrobras escorreu para o caixa do comitê eleitoral de Dilma. Mas quando o processo ganhou corpo uma outra realidade se apresentou, mais inacreditável do que a anterior. Magistrados tarimbados, de aparência respeitável, aceitaram a tese de que a lama era de responsabilidade de Dilma. E Temer não tinha nada a explicar. Como Dilma já fora deposta, o assunto estava encerrado.

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A lama escorreu pelos escaninhos do TSE por um ano. Algumas togas conviveram com as provas fingindo que elas não se avolumavam no processo e no site do tribunal. Os julgadores pisavam nas evidências distraídos quando a delação da JBS transformou Temer num morto-vivo investigado no Supremo Tribunal Federal por corrupção, obstrução da Justiça e formação de organização criminosa.

Nada a ver com crimes eleitorais demonstrados nos autos do TSE. Mas o governo que prometia recolocar a economia nos trilhos descarrilou. E tudo o que o TSE fingia que não aconteceu passou a merecer explicação. Temer ainda não sabe o que dizer. Mas já esboçou uma rota de fuga. Sonha com um pedido de vistra que adie o julgamento indefinidamente. Se um dos sete ministros do TSE se prestar a desempenhar esse papel não restará dúvida: o Brasil gosta tanto de piadas que o Tribunal Superior Eleitoral se transformou em uma.

O desmonte da Lava Jato

A parcela da classe política mais diretamente envolvida nas denúncias da Lava Jato – a cúpula dos três principais partidos, PT, PMDB e PSDB - movimenta-se, com o apoio do presidente Michel Temer, para nova investida contra a Força Tarefa de Curitiba.

Se bem-sucedida, poderá ser letal.

Além de providências de ordem operacional, já adotadas, como a redução de nove para quatro do número de delegados na investigação e redução do respectivo orçamento, providências que emanam do Ministério da Justiça, cogita de outras iniciativas, no âmbito do Judiciário, que atingem o coração da Lava Jato.

A principal: a tentativa de nova mudança na jurisprudência do STF, hoje em favor da prisão em segundo grau – isto é, na imediata sequência da sentença inicial, fazendo com que o condenado recorra aos tribunais superiores de dentro da cadeia.

Antes, era o contrário: recorria em liberdade, explorando os infindáveis recursos que a lei processual brasileira oferece, beneficiando-se da prescrição da pena. Acaba de acontecer com Paulo Maluf, que jamais foi condenado por jamais ter sido julgado.

Um bom escritório de advocacia garante as acrobacias processualísticas – e são avaliados (e orçados) por essa habilidade.

A prisão em segundo grau, prática vigente nas principais nações democráticas do planeta (nos EUA é já no primeiro grau), foi levada ao exame do STF em fevereiro do ano passado.

E foi aprovada. Voltou a ser apreciada em outubro – e voltou a ser aprovada, ainda que por estreita margem, 6 a 5. E pode voltar a ser revista pela terceira vez, com outro placar.

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Se já era estranho que, num prazo de poucos meses (entre fevereiro e outubro de 2016), uma mesma Corte, sem nenhuma mudança em sua composição - e sem que nenhum fato novo o determinasse -, tenha voltado a examinar uma decisão dela própria, que dizer de uma terceira retomada, sete meses depois?

A dedução inevitável, pelos efeitos práticos que daí advirão, é de que se trata de mais uma manobra contra a Lava Jato. Pois é ali que efeitos profundos e imediatos ocorrerão.

Um dos fatores que mais estimulam a opção dos réus pela delação premiada é exatamente a perspectiva de cumprimento imediato da sentença, tão logo confirmada em segunda instância. E as sentenças do juiz Sérgio Moro têm sido rapidamente confirmadas em segundo grau, no Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre.

Esse rito objetivo, sem prejuízo do devido processo legal, , mas poupado do longo e tortuoso trajeto nos tribunais superiores – STJ e STF -, estimulou o recurso ao instituto da delação premiada, permitindo que as investigações fisgassem mais e mais gatunos, numa dimensão sem precedentes na História do país.

No entanto, se houver agora um recuo nessa jurisprudência, é possível (e provável) que as coisas mudem. Alguns figurões, já na fila das delações – como Antonio Palocci, Eike Batista, Sérgio Cabral -, podem (e devem) mudar de ideia. Os processos em Brasília obedecem a ritos que não se atêm à ortodoxia jurídica.

Quem propôs a re-re-revisão do tema foi o ministro Gilmar Mendes. Ele foi favorável à prisão em segundo grau nas duas votações anteriores, mas disse, esta semana, que mudou de opinião.

Ao analisar, na terça-feira, um caso concreto, no âmbito da Segunda Turma do STF, disse estar sensibilizado pelos argumentos de seu colega Dias Toffoli, que mudara também de opinião entre a primeira e a segunda votação do tema: na primeira, apoiara a prisão em segundo grau; na segunda, a condenara.

Gilmar procura um meio termo: não exclui a possibilidade desse tipo de prisão, mas não a quer compulsória. Como a composição do STF mudou, com a morte de Teori Zavaski, que apoiou a prisão em segundo grau, e sua substituição por Alexandre de Moraes (único ministro indicado por Temer), a simples mudança de voto de Mendes inverte o resultado anterior.

Nesses termos, volta-se ao Brasil de sempre: condena-se, mas não se prende – e inocenta-se por decurso de prazo. Essa providência, em plena articulação, forneceria a saída “honrosa” por que clamam Temer, Lula, Dilma, Aécio e quantos mais, nesse patamar da hierarquia política, dela necessitem.

O “Fora, Temer” é também o “fora” a seus fictícios adversários petistas, que põem a militância a urrar contra o presidente, mas com ele buscam animadamente um destino comum. Longe de Sérgio Moro – e fora, isto sim, da cadeia.

Para onde vamos?

Os brasileiros se sentem no momento sem chão. Perplexos. Dias atrás viviam tempos de retomada. A inflação refluía. Bem como os juros. A atividade econômica ensaiava uma volta, ainda que tímida. O desemprego caía. As reformas, trabalhista e da previdência, estavam encaminhadas.

As expectativas de mercado eram as melhores possíveis. A Nação começava finalmente a entrar nos trilhos após um longo e tenebroso período nas mãos petistas. Como que por uma hecatombe, tudo mudou. Ou quase. A delação dos irmãos Batista impôs uma nova agenda de crise. Parou o ciclo virtuoso. Embalados pela ideia do quanto pior, melhor, tubarões da ladroagem, oportunistas da pior espécie e arruaceiros de plantão aproveitaram para sabotar o País. Nas ruas, a baderna tomou conta.

Os agitadores promoveram quebra-quebra, tocaram fogo em ministérios, invadiram prédios públicos, impuseram o caos, numa selvageria espantosa. Movimentos ditos de esquerda, como CUT e MST, braços radicais vinculados ao Partido dos Trabalhadores, financiados durante anos por subvenções federais nas gestões Dilma e Lula, empunharam suas bandeirolas vermelhas e palavras de ordem inflamadas para reclamarem, indignados, dos erros de Temer.

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Indignação que faltou quando seus próprios líderes deixaram jorrar bilhões em desvios da Petrobrás, em esquemas de Mensalão e para a corrupção institucionalizada. No Congresso, protagonizando espetáculos ainda mais deprimentes, parlamentares de oposição tentaram impor na marra a tese de só votar projetos de interesse nacional após a retirada de cena do presidente.

Como se a discussão de mudanças vitais e urgentes para todos os cidadãos pudesse ser usada como moeda de troca, na base da chantagem. Estavam se lixando para o melhor em prol do Brasil. Os espertalhões planejaram travar a pauta de qualquer maneira até a obtenção do intento almejado. A retaliação como forma de gerar mais incerteza política, econômica e administrativa movia a patota.

Ao fim e ao cabo a minoria ruidosa e ensandecida dos petistas pretende impor – em afronta aberta à Constituição – eleições diretas antecipadas para, se possível, recolocar seu timoneiro Lula de volta no Planalto, mudando o curso dos julgamentos que devem levá-lo à cadeia. Suprema desfaçatez, mesmo a deposta Dilma, denunciada por caixa dois, entre outros crimes, e acusada de receber milhões dos irmãos Batista, apelou à Justiça para reassumir o cargo. Diz o provérbio que quando o caldo entorna, os ratos são os primeiros a aparecer.

No Senado, o congressista Randolfe Rodrigues deu chiliques. Queria ir às vias de fato com os demais, evitar a leitura de um relatório da comissão que propunha mudanças na Lei Trabalhista. Seus colegas de parlamento, os petistas Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann, investigados por improbidade e comprometidos até o pescoço na Lava-Jato, usaram do mesmo expediente e aos berros, provocando e sem senso de responsabilidade, tumultuaram o quanto podiam. Hoje são esses mesmos aloprados que querem, a qualquer custo, assumir o poder para manter funcionando as maracutaias de outros carnavais.

A forma como o sistema político fará uma reciclagem é a grande discussão que se segue. O presidente Temer prevaricou. Recebeu na calada da noite um empresário e escutou dele relatos absurdos de práticas de gatunagem. Deve ser investigado e, se comprovado seu envolvimento, punido na letra da lei. Isso não necessariamente significa condená-lo antecipadamente.

Apeá-lo do posto na marra e colocar na vaga um aventureiro, pretenso “salvador da pátria”, como muitos arvoram o papel, pode, ao invés de sanar a crise, agravá-la. Não devemos ser indulgentes com o malfeito, mas também não podemos ser alheios aos interesses ocultos. E eles são muitos. Dizem que Temer perdeu as condições de governabilidade. E é bem possível que sim.

Mas a dúvida maior é quem hoje, nesse carcomido cenário político que aí está, reúne as condições para tamanha tarefa? A conversa gravada em áudio está decerto repleta de trucagens. Na denúncia, a principal prova não foi sequer periciada. A frase que induziria ao entendimento de uma anuência do presidente para com um crime não está no contexto. As chances de adulteração não estão descartadas. E nesse caldeirão de incertezas, o presidente recusou renunciar.

Sabe que um processo de impeachment se alongaria por meses e mesmo a alternativa de cassação de sua chapa (ao lado de Dilma), por questões alheias a essas que estão pesando contra si, poderia ser contestada no Supremo, arrastando o assunto por anos – enquanto a Nação sangra sem trégua. Temer ainda tenta convencer os compatriotas, mesmo aliados, que possui condições de seguir no cargo.

Foi de fato o fiador das reformas, como hábil negociador e conhecido traquejo político. Seus eventuais substitutos, boa parte deles cogitados a varejo nas rodas de Brasília, ou descartam a possibilidade ou estão com algum nó para desatar. Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, e natural sucessor, responde a três inquéritos e seria, como Temer, um presidente no cargo submetido a investigações.

O jurista Nelson Jobim, que também disse não, já foi conselheiro de empresas flagradas na Lava-Jato e é visto como preposto de Lula, o que gera ressalvas a seu nome. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, teve passagem como funcionário da J&F e muitos poderão levantar a suspeita de que os irmãos Batista fizeram a delação para derrubar um governo e colocar no lugar alguém de sua confiança. E por aí vai a novela que celebra mais um triste capítulo de nossa história. Nesse momento delicado o Congresso tem que fazer sua parte e os brasileiros precisam estar atentos ao risco de virarem massa de manobra, seguindo como cordeiros para o curral de criminosos contumazes.

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Minh Dam                                                                                                                                                                                 Mais:
Aquarela, Minh Dam 

A falácia das 'diretas já'

Os defensores da antecipação da eleição direta para presidente querem fazer acreditar que somente assim teremos um governo com legitimidade e, portanto, capaz de tirar o País da crise. Essa concepção do voto direto como panaceia dos problemas nacionais se presta a vários propósitos, a maioria inconfessáveis, e nenhum deles efetivamente democrático. Quem apregoa a eleição direta para presidente agora, de afogadilho, ou defende interesses turvos ou é apenas oportunista.

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Em primeiro lugar, basta observar quais partidos lideram o esforço para colocar o tema na pauta do Congresso. São em sua maioria siglas que desde sempre se dedicam a questionar a legitimidade e a sabotar qualquer governo democraticamente eleito que não seja integrado por um dos seus. Os notórios PT, PSOL, Rede e PCdoB, entre outros, informaram que vão se reunir na semana que vem para discutir a formação de uma “frente nacional” para defender a antecipação da eleição presidencial direta. A memória nacional está repleta de exemplos de como os petistas e seus filhotes mais radicais jamais aceitaram o resultado das eleições presidenciais que perderam, e provavelmente continuarão a não aceitar caso o vencedor do próximo pleito não seja Lula da Silva ou alguém da patota.

Com Michel Temer na Presidência, a estratégia antidemocrática consiste em infernizar a vida do presidente para que ele renuncie e, ato contínuo, sejam convocadas eleições diretas. Para tanto, apostam na aprovação de alguma das propostas que estão no Congresso com vista a alterar o artigo 81 da Constituição, que determina que, em caso de vacância da Presidência e da Vice-Presidência nos últimos dois anos do mandato, haverá eleição para ambos os cargos “trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei”. Na proposta que está no Senado, torna-se direta a eleição quando ocorrer a vacância nos três primeiros anos.

O casuísmo é tão evidente que custa acreditar que esse tipo de proposta esteja sendo levado a sério e eventualmente avance. Os parlamentares envolvidos nesse esforço usam o especioso argumento, expresso no projeto, de que é preciso “devolver à população brasileira o direito de escolher o presidente da República, por meio de eleições diretas”. Para eles, o atual Congresso, engolfado em escândalos de corrupção, não tem “legitimidade” para fazer essa escolha.

Ora, os atuais congressistas foram eleitos pelo voto direto, o mesmo voto direto que os defensores da antecipação da eleição presidencial direta consideram essencial para conferir legitimidade ao eleito. Michel Temer também foi escolhido em eleições diretas. Estava, como vice, na chapa de Dilma Rousseff à Presidência em 2010 e em 2014. Por quatro vezes – os dois turnos de cada eleição –, cada um de seus eleitores visualizou sua foto e seu nome na urna eletrônica e confirmou o voto. Hoje se encontra no exercício da Presidência em decorrência do estrito cumprimento dos preceitos constitucionais. E, se tiver de deixar o cargo, a Constituição diz claramente como substituí-lo.

Mas os inimigos da democracia só apreciam a Constituição quando esta lhes dá alguma vantagem. Se for um entrave para suas pretensões políticas, então que seja rasgada, sob a alegação aparentemente democrática de que a antecipação da eleição direta “atende aos anseios da sociedade brasileira, sob o eco do histórico grito das ruas a clamar ‘Diretas Já’, nos idos da década de 1980”, como diz o texto da PEC no Senado. A justificativa omite, marotamente, que aquele era um dos componentes do processo de restabelecimento da democracia, na saída do regime militar, ao passo que hoje a democracia está em pleno vigor.

Finalmente, não são apenas eleições diretas que definem um regime democrático, muito menos conferem legitimidade automática aos eleitos. A democracia, em primeiro lugar, se realiza pelo respeito à Constituição, expressão máxima do pacto entre os cidadãos. Aproveitar-se da convulsão política para promover alterações constitucionais com vista a favorecer um grupo político viola escandalosamente esse pacto e, portanto, a própria democracia.

Lula cumpre o que prometeu: tocar fogo no país

Quando se trata de vandalismo e baderna, o Lula é um cara de palavra. Ele prometeu e está cumprindo fielmente o que já declarou para alguns de seus fanáticos: tocar fogo no Brasil. Os episódios lamentáveis de Brasília são os primeiros ensaios dos petistas – muitos pagos pelas centrais sindicais com o dinheiro do contribuinte – para as próximas cenas que vão aterrorizar o país, caso o juiz Sérgio Moro condene Luiz Inácio no início do próximo mês, quando prometeu proferir a sentença. O ex-presidente pretende, com essas arruaças, intimidar os procuradores e o juiz da Lava Jato para evitar uma condenação que o tornaria inelegível, e, portanto, fora do páreo das eleições de 2018, o que ele não admite.

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Os vândalos que atacaram os prédios públicos de Brasília são convocados pelas centrais sindicais e pelos dirigentes de movimentos sociais. Em troca, eles normalmente recebem uns trocados e uma marmita. São socados dentro dos ônibus a caminho dos protestos que podem ocorrer em qualquer lugar do Brasil. Os que têm mais sorte ganham uma camiseta vermelha, uma bandeira e, nos intervalos dos protestos, um sanduíche de mortadela. Antes de viajarem são doutrinados e estimulados a quebrar e incendiar o patrimônio público.

Quando perguntado o que fazem ali normalmente não sabem. E quem os levou até o local, não dizem. São buchas de canhão que os pelegos usam para levar porrada da polícia, enquanto eles, os falsos líderes, escondem-se para não mostrar a cara. Até a queda da Dilma, eram esses pelegos que davam as cartas, que pressionavam os políticos e que se sentiam protegidos pelo seu principal guru, Lula, o ex-operário, que já responde a vários processos por corrupção. Luis Inácio transformou o país numa república sindical e estimulou que seus militantes e seus políticos saqueassem e assaltassem o patrimônio brasileiro.

Agora, com o imbróglio de Temer, ameaçado de perder o cargo, Luis Inácio começou a incentivar seus asseclas no Congresso Nacional apara exigir eleição direta. Claro, ele precisa urgentemente se submeter ao voto popular enquanto ainda não foi condenado, porque está prestes a ir para a cadeia. É tão pretensioso que acha que teria chances de ser eleito com uma rejeição que já se aproxima dos 60%.

É impossível imaginar o Brasil sendo governado novamente por essa corja que dilapidou as empresas públicas e espalhou a corrupção em todos os setores do estado. Que entregaram aos irmãos Batista a bagatela de 8,1 bilhões de reais do BNDES para que eles comprassem empresas no exterior e gerassem renda e emprego lá fora sob o pretexto de que o Brasil precisava criar multinacionais. Os “caipiras” foram embora, vivem em palacete com o dinheiro do nosso banco, deixaram um rastro de escândalo no país e ainda foram premiados pelo Ministério Público que não viu crimes nos atos deles, perdoando-os de qualquer castigo penal.

Toda essa bagunça – não se engane – é fruto do governo do PT. A Dilma também é produto deles. Uma burocrata que até hoje não sabe que foi presidente do Brasil, a sétima economia do mundo. No governo a única coisa que fazia era receber ordem do seu guru Lula. E quando ensaiou administrar foi interrompida pelo parceiro que exigiu a cabeça de ministros e outros auxiliares mais próximos dela. Uma presidente de papel, fantoche, que não teve autonomia para exercer o cargo que o povo brasileiro destinou a ela pelo voto.

Ora, a crise ainda é petista. Ou a gente esqueceu que o Temer foi o vice da Dilma em dois mandatos? Ele foi indicado por Lula depois de sucessivas reuniões com os caciques do PMDB. Era paparicado pelos petistas porque dominava o maior partido e o mais bem estruturado do país. Como vice, foi fiel a presidente até perceber que poderia ocupar o lugar dela com manobras escusas.

Diante da crise que se agrava, a petezada, que ainda grita por aí afora o “golpe” e o “Fora Temer”, agora se prepara para outra façanha: derrubar o Temer para tentar eleger o Lula em eleição direta. O nome disso qual é se não golpe.

A voz da rua

 
A estabilização do país e a retomada do crescimento não podem servir de escudo para a manutenção da corrupção e o desmonte da Operação Lava Jato. Os fins não justificam qualquer meio, principalmente os espúrios
Movimento Vem Pra Rua

Náufrago...

Perdidos em alto-mar, procuramos boia e bússola. No Brasil, a tradicional boia da boa colocação era “dada” de favor e pelos amigos. Ela garantia um emprego no “governo” pelo resto da vida com aposentadoria herdada pela esposa, tal como as fazendas de café dos barões que viraram ministros republicanos. Era inadmissível trabalhar com as mãos tanto quanto seria um contrassenso fazer política sem mentir ou tirar vantagem de recursos que, num mundo personalizado, sendo de todos, não era de ninguém. Esse estilo está afundando.

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O enriquecimento assombroso por meio da política, a confusão entre ideologia e obséquio num mundo digital, tem separado o trabalhador do malandro bem como a verdade da mentira. Mas o pior é descobrir que os malandros são os eleitos.

Numa reforma política, o primeiro ponto a ser mudado seria o tamanho dos privilégios embutidos nos cargos. Seria transformar proxenetas da sociedade em servidores do povo. Isso sim, faria o povo ganhar personalidade.

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A tragédia do governo Temer sinaliza que verdade e mentira, oposição e situação, têm um papel indispensável na política democrática. Sem essa divisão, implodimos o Brasil num imenso e criminoso incesto.

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Supomos que o Brasil é tocado por luta de classe, quando basta um noticiário para estampar que ele também é um teatro de ações entre amigos ideologicamente fantasiados.

E como a amizade não foi tema de Marx e Engels (embora eles tenham sido amigos!), nossos teóricos jamais a tomaram como problema digno de estudo - exceto por alguns alienados, como tem sido o meu caso. Machado de Assis que, para alguns, foi um beletrista reacionário, mas que para esse vosso cronista é - ao lado de Manuel Antônio de Almeida e Jorge Amado - um dos nossos melhores sociólogos, tocou nesse tema em toda a sua obra. E, em Dom Casmurro, ele o desnuda, quando revela a transfiguração de um Bentinho inocente num Casmurro paranoico por meio de uma questão que até hoje afeta o nosso sistema: como viver a formalidade que divide e individualiza em paralelo com a informalidade da amizade, que promove simpatias e intimidades? Quem deve ter prioridade? As relações ou os indivíduos por ela envolvidos? Somos donos de nossas vidas ou são nossas vidas (e nossos elos) que nos governam?

Em Memórias de Um Sargento de Milícias, essa questão é aprofundada quando o Major Vidigal, responsável pela ordem pública, desmancha-se quando é visto por meio de suas intimidades. A desmontagem do poderoso pelos amigos é, penso eu, um dos temas centrais da democracia.

No caso do Brasil, porém, os limites e as responsabilidades dos papéis públicos como subordinados aos interesses coletivos só agora têm sido politizados. A construção e a desconstrução de presidentes, governadores, ministros e outras figuras públicas é o problema central do Brasil que precisa descolar atores de papéis. E papéis públicos de amigos pessoais.

Como um presidente, num palácio, esquece o papel que lá o colocou?

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Como é possível a Michel Temer redefinir seus laços com os brothers Wesley e Joesley? Que amizade é essa que ele recebe o sujeito na calada da noite como amigo, mas ele o detona como presidente, num encontro que hoje o faz desenhar como um Drácula? Ou melhor, como um amigo da onça?
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Muito pouco sabemos do significado da amizade em nosso sistema. Os que jamais estudaram Weber dizem que amizade não é assunto para sociólogos sérios. Antropólogos, como Mauss, Lévi-Strauss e Wolf, porém, distinguem a amizade como a dimensão básica do humano.
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No Brasil, foi e tem sido a amizade que, como uma mola, faz alguém subir ou cair, honrar ou roubar. É também a amizade que permite não entrar em fila e esperar - esse elemento trivial da vida democrática. Como Alberto Junqueira e eu indicamos num livro recém-publicado - Fila e Democracia -, as filas só têm legitimidade quando há consciência de igualdade. Mas, como mostra o drama do momento, relações; amizades, compadrios e as simpatias estão na base do elo espúrio e malandro entre a economia, as finanças, a política e os poderes da República.

Esquecemos as coerções impostas pelos cargos públicos em nome das amizades. Promessas ideológicas irrefutáveis e generosas são rompidas pelos deveres implícitos das amizades. No Brasil, a amizade tanto pode libertar quanto condenar. Ela, até hoje - daí a dramaticidade da crise -, permitiu confundir verdade com mentira. Até hoje, o caudilho e eventual tirano é, antes de mais nada, um amigo e um pai.

Sem nenhum controle, a amizade transformou a vida partidária numa farsa ideológica e o sistema político num descarado balcão de negociatas. Ela é o rabo que prende todo mundo...
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É impossível não ter amigos e a sombra abençoada da amizade, mas sem discutir os seus limites é - como estamos vendo, vivendo e adoecendo - impossível construir um país decente. 

Paisagem brasileira

Fontes de água natural brotando das falésias
Praia das Fontes (CE), Alex Uchôa

Cem anos de perdão para Temer e Kassab

O presidente Michel Temer disse que seu aliado Rodrigo Rocha Loures é uma pessoa “de muito boa índole”. Imagine se não fosse. Flagrado recebendo R$ 500 mil de um lobista, ele foi convidado a devolver a propina à Polícia Federal. Ao abrir a mala, os agentes tiveram uma surpresa: faltavam R$ 35 mil.

Nesta quinta, o deputado depositou o resto do dinheiro numa conta judicial. Ele não explicou se o desfalque foi causado por esquecimento, distração ou falta de talento para a matemática. Mesmo sem uma desculpa esfarrapada, o caso já garantiu lugar no anedotário da Lava Jato.


No início do mês, a Folha contou outros episódios de desvio do desvio. O delator André Santana, que trabalhava com os marqueteiros do PT, disse ter sido assaltado num táxi quando carregava dinheiro entregue pela Odebrecht. Ele não soube dizer se carregava R$ 1 milhão ou R$ 1,5 milhão para o caixa dois da chapa Dilma-Temer. De acordo com o relato, a história ficou por isso mesmo.

Em outro depoimento, um executivo narrou o sumiço de propina escondida numa cocheira. É isso mesmo: a maior empreiteira do país teria perdido R$ 8 milhões surrupiados de uma baia do aristocrático Jockey Club Brasileiro, na zona sul do Rio. Até onde se sabe, nenhum cavalo foi intimado a depor sobre o assunto.

O delator João Antônio Bernardi contou uma história menos rocambolesca. Disse ter sido assaltado no Largo da Carioca, perto da sede da Petrobras. Quem conhece a região corre o risco de acreditar, exceto por um detalhe: o batedor de carteira teria levado nada menos que R$ 100 mil.

Na semana passada, o lobista Ricardo Saud fez mais um relato intrigante. Acostumado a distribuir propina em nome da JBS, ele se disse espantado com políticos que teriam embolsado dinheiro destinado às próprias campanhas. “O Michel Temer fez uma coisa até muito deselegante. Nessa eleição, eu só vi dois caras roubar [sic] deles mesmos. Foi o Kassab e o Temer”, afirmou.

Temer, o presidente que uniu o Brasil

Quando assumiu o cargo da presidente afastada Dilma Rousseff, no começo de maio de 2016, Temer prometeu unir o país. Mas nem ele mesmo deveria saber o quão sério falava e quanto estava disposto a mobilizar nesse esforço. Certo é que ele não tinha em mente um inquérito contra si por suspeita de corrupção.

E foi justamente isso que uniu nada menos que 95% dos brasileiros contra ele. Os 5% restantes provavelmente devem se manter ao seu lado por razões de Estado, pelo desejo de continuidade política ou por outros motivos menos ideológicos – e não por alguma lealdade genuína.

Vale lembrar que o presidente do Brasil já era recordista de impopularidade quando, na segunda quinzena de maio, um jornal o acusou de corrupção. Segundo a reportagem, ele concordou com os donos do maior conglomerado de carne do mundo, Joesley e Wesley Batista, sobre o pagamento de um valor de seis dígitos para comprar o silêncio do seu colega de partido Eduardo Cunha, condenado por corrupção.

A denúncia partiu dos próprios empresários, que entregaram à Procuradoria-Geral da República uma gravação do diálogo em questão. O fato de que o presidente precisou de vários dias para afirmar que a gravação da conversa era falsa não ajudou a tornar seu discurso de defesa mais crível. E os brasileiros passaram a ver a questão assim: o presidente precisa deixar o cargo – e, mais especificamente, ir direto para a cadeia.


Isso seria uma bênção para o Brasil. Isso porque provaria mais uma vez o que tem se tornado mais e mais evidente nos últimos tempos: nem influentes criminosos conseguem mais escapar da Justiça. Atualmente, parece que todo mundo está tentando salvar a própria pele. Isso é evidenciado pelo próprio caso do presidente: por que os barões da carne teriam entregado Temer para a Justiça?

Temer acusa os irmãos Batista de terem embolsado alguns milhões com as turbulências cambiais que vieram na esteira da denúncia – algo que eles podiam antecipar. Mas essa não foi a principal motivação deles. Afinal, o testemunho deles também provocou desgaste para eles próprios. É mais provável que em meio a essa grande faxina da Justiça e devido ao passado deles, eles tenham decidido que era melhor fazer um bom negócio antes de ir para o banco dos réus. Tudo seguindo lema: quem dedurar primeiro, se sai melhor. É o que no Brasil se chama de delação premiada.

Um requisito para que Temer se torne o primeiro ex-presidente a ir parar na cadeia deve ser, é claro, um processo íntegro. Sua culpa deve ser impecavelmente determinada – correndo o risco de que, no final, Temer saia impune.

Isso porque mais um caso em que a Constituição é violada para derrubar um chefe de Estado indesejado – como aconteceu na deposição de Dilma –, na melhor das hipóteses só faria com que o Estado brasileiro se tornasse mais popular entre a população no curto prazo.

No entanto, se se quiser que, pela primeira vez em muito tempo, a maioria dos brasileiros tenha confiança nas instituições, é preciso um limpo e, talvez ainda mais importante, transparente processo.

Porque, independentemente do veredito, não se pode deixar espaço para ideólogos que se aproveitem do caso para seus objetivos políticos e que poderiam fazer com que os brasileiros voltem à estaca zero. Se a Justiça brasileira for bem-sucedida nisso, o caso de Temer pode unir os brasileiros para valer.

Terra dos fogos: do lixo de 'Gomorra' ao incêndio de Brasília

Sob o céu de Brasília, na tarde tenebrosa de quarta-feira, 24 de maio, sigo as imagens da cobertura veloz e nervosa da Globo News, canal fechado de TV que sintonizo em Salvador (também em reboliço tenso para os lados da histórica Praça do Campo Grande).

Observo as línguas de fumaça escura que sobem de vários prédios, na Esplanada dos Ministérios, e se espalham pelo espaço sem fim da cidade de marcante “traço do arquiteto”, da poética canção de Djavan, em sua “Linha do Equador”.

Mesmo de longe sente-se, virtualmente, aquela angustiosa e incômoda sensação de travo na boca, causado pelas cenas perversas de desordem predatória e o forte odor de lixo e pólvora misturados no ar.


Aqui e ali, focos de labaredas de fogo riscam o carregado ambiente pré - junino na capital do Brasil. São os sanitários químicos instalados pelo poder público, “para dar conforto e condições dignas” aos participantes da manifestação, convocada pelas centrais sindicais, ao lado de barulhentos e agressivos grupos partidários e estudantis, “de esquerda”.

Mobilizados, segundo afirmam seus dirigentes na rua e no Congresso, para protestar contra a reforma das leis trabalhistas e gritar pelo fim do governo de Michel Temer, metido em seu maior e mais vergonhoso escândalo.
Desde a divulgação de deslavada conversa, pontilhada de malfeitos, gravada pelo dono da JBS (Friboi), Joesley Batista, durante encontro clandestino com o mandatário maior da na& ccedil;ão, altas horas da noite, no palácio presidencial do Jaburu. Tudo (ou quase), revelado à sociedade em furo jornalístico de O Globo, através da coluna de Lauro Jardim, que fez a bola de neve rolar montanha abaixo e alcançar em cheio as terras de fogo do Planalto Central.

O espetáculo horroriza e impressiona: depois de servirem de barricadas para o confronto violento com forças da PM e outras especializadas, em segurança restrita do Congresso e órgãos do poder federal – visivelmente atarantadas e fora de controle, a exemplo de boa parte dos truculentos e estranhos manifestantes - os sanitários foram depredados e queimados, juntamente com a madeira dos tapumes de proteção de ministérios (Agricultura, Fazenda, Integração Nacional, Turismo, Saúde...) e outros prédios públicos.

Daí em diante, decorreu uma das mais temerárias e preocupantes jornadas de vandalismo predatório e irresponsável de que se tem notícia na história de Brasília, que terminou o "dia de cão" sob guarda das Forças Armadas, resultante de ato de convocação sugerido pelo apavorado presidente da Câmara, Rodrigo Maia, imediatamente acatado pelo trôpego mandatário da vez no Palácio do Planalto, que determinou “providências” de seu ministro da Defesa, Raul Jungman. De equívoco em equívoco, de trapalhada em trapalhada, o resultado é o que se viu e o que se vê.

A primeira impressão do jornalista, à distância, é a de uma reedição com impressionantes toques de modernidade, de descrições literárias do romance “Macunaíma – o herói sem caráter” (de Mário de Andrade, publicado nos anos 20), somada a cenas de imagens emblemáticas do filme fundamental do cinema novo, de Joaquim Pedro de Andrade, lançado no final dos anos 60.

Por exemplo, a cena antológica daquele enganador de trabalhadores, (que com falsas promessas arrebanha pessoas desempregadas e desesperançadas), que estaciona um caminhão pau-de-arara, lotado de passageiros recrutados sabe-se lá onde e a que preço.Em local ermo, próximo à entrada de uma grande cidade, cobra a passagem de cada um dos miseráveis e depois avisa: “Pronto, chegamos, agora é cada um por si, e Deus contra”.

Da Cidade da Bahia, penso e sigo tudo com atenção, incredulidade, e alguma desconfiança, não nego: as chamas, o fumaceiro, o lixo e os detritos espalhados pelos amplos espaços da esplendorosa cidade construída, por Oscar Niemeyer, para ser um modelo para o mundo.

Mas, principalmente reparo aquelas espantosas figuras vestidas em coletes da CUT e os seus seguidores (alguns brutamontes, outros garotos quase adolescentes com camisas ou máscaras cobrindo o rosto, que espalham a desordem e o caos, implacavelmente, aos gritos de “Fora Temer” e palavras de ordem sindicais de séculos passados, que falam de realidades sociais, políticas e ideológicas já mortas em seus próprios nascedouros internacionais, mas ainda insepultas nesta parte de baixo da imaginária linha do equador.

A eocupação com princípios, ética, anti-corrupção e corruptores, parecem passar ao largo de suas preocupações e das palavras de ordem gritadas ou escritas nas faixas e cartazes.

Diante do quadro quase surreal, a memória voa, também, para as páginas de outro livro demolidor, igualmente transformado em filme fundamental para os dias que atravessamos, neste mês de maio de arrepiar: “Gomorra”, a extraordinária reportagem do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano, sobre as máfias que agem em Nápoles e em todo misterioso, perverso e depredado ambiente moral de toda a região da Campânia, no sul da Itália.

Ao tempo em que recomendo vivamente, mais uma vez, a leitura (ou releitura) atenta deste livro crucial, pulo páginas e vou direto ao último capítulo de “Gomorra”, antes do ponto final deste artigo semanal de informação e opinião. Que me perdoem os muitos adversários e críticos atuais dos textos jornalísticos opinativos, uma inegável marca histórica de imprensa brasileira desde a sua origem.

Sob o título “Terra dos Fogos”, o jornalista encerra seu livro com descrições impressionantes sobre a política, a economia e a moral nos territórios de domínio da máfia:

“As imagens de um aterro, de um precipício, de uma mina, se tornam cada vez mais sinônimos concretos e visíveis de perigo mortal para quem mora nas redondezas. Quando os aterros estão no limite, toca-se fogo no lixo. Há um lugar na região de Nápoles, que já é chamado de terra dos fogos... Os mais hábeis para organizar o fogo são os garotos ciganos, geralmente romenos, contratados a 50 euros para fazer o trabalho sujo, conta Saviano.

Na terra dos fogos do planalto central do País, depois dos estragos de quarta-feira, restou a pergunta que não quer calar: quem são, de onde vieram e quanto se pagou aos incendiários de Brasília? Responda quem souber , e puna-se todos os responsáveis, antes do próximo incêndio.