domingo, 17 de julho de 2016

A bolsa-banqueiro

Sabia-se que as centenas de bilhões de reais que, entre 2009 e 2015, o Tesouro repassou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar investimentos não estimularam o crescimento, mas beneficiaram muitas empresas escolhidas pelo governo do PT, daí o programa ter sido chamado de bolsa-empresário, uma ajuda financeira do poder público para grupos empresariais preferidos do Palácio do Planalto. O que pesquisas recentes demonstram é que não foram apenas as empresas selecionadas pela administração petista que ganharam com esse imenso desperdício de dinheiro público. Mesmo dispondo de condições bastante favoráveis para administrar os recursos do Tesouro (que assumiu os subsídios implícitos nas operações), o BNDES ficou com uma parcela reduzida dos resultados desses financiamentos. Os bancos comerciais que realizaram as operações em seu nome se apropriaram de mais de 80% dos rendimentos. O programa transformou-se, também, numa espécie de bolsa-banqueiro.

O Programa de Sustentação do Investimento (PSI), como essas operações eram chamadas oficialmente, simboliza o imenso fracasso da política econômica do PT. Não produziu os efeitos anunciados, que era a reativação da economia após o impacto negativo da crise internacional iniciada em 2008, e está na origem da profunda crise fiscal que hoje o governo interino de Michel Temer tenta conter.

Como mostrou reportagem do Estado, o Tesouro emitiu títulos de dívida pública para transferir R$ 520 bilhões ao BNDES. Esses recursos deveriam ser utilizados no financiamento de máquinas e equipamentos, de modo a estimular a produção e, assim, reativar a economia. O PSI deveria durar um ano, mas foi sendo renovado seguidamente até o fim do ano passado, quando o governo petista resolveu enterrá-lo.

Foi de grande valia para um grupo de empresas, mas, apesar de sua longa duração, de sete anos, e, sobretudo, do montante que envolveu, não teve resultados expressivos para o País. A economia não se recuperou e, desde meados de 2014, está em recessão. As contas públicas, cujo equilíbrio era mantido não por meio de política fiscal prudente, mas pelo crescimento antes impulsionado pelo bom desempenho da economia global, entraram em colapso já na segunda metade do primeiro mandato da presidente afastada Dilma Rousseff, forçando, afinal, o sepultamento do PSI.

Levantamento feito pelo economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, mostra que os bancos comerciais, responsáveis pelo repasse de R$ 327 bilhões de recursos do Tesouro para empresas privadas, se apropriaram de mais de R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões de spreads que as operações geraram. O BNDES, assim, ficou com menos de R$ 2 bilhões. “De certa forma, o PSI também foi uma bolsa-banqueiro”, diz o autor do estudo. A lista dos bancos comerciais credenciados para realizar as operações em nome do BNDES inclui cerca de 70 instituições de grande e médio portes.

O BNDES respondeu por cerca de 9% dos financiamentos totais do PSI em valor. Além de realizar diretamente pequena parcela das operações, o banco estatal cobrava juros de 1% em média, e de zero na linha destinada à inovação. Já os bancos comerciais cobravam taxas de 1,5% a 3%. Além disso, como o PSI oferecia taxas mais atraentes, o BNDES perdeu clientes de linhas tradicionais, que optaram pelas operações de menor custo.

Em nota, o banco estatal afirmou que as condições das operações indiretas obedecem a normas expedidas por ele, mas ressalvou que as instituições credenciadas têm autonomia para avaliar o cliente e as garantias. As distorções que agora vão sendo constatadas, porém, sugerem que não se tratou de um programa público de estímulo aos investimentos, mas “de banco privado negociando empréstimo com seu cliente privado”, como disse ao jornal a economista Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional.

sábado, 16 de julho de 2016

Charge (Foto: Miguel)

O terror interno e o externo

O tema do terror, que hoje assombra o mundo, é um velho conhecido nosso. Não se reveste de teor religioso-fundamentalista ou ideológico – como o que hoje abala o Ocidente.

É impulsionado pela indústria bilionária do narcotráfico, estimulado pela impunidade e pela insânia do politicamente correto. Banditismo mesmo. Os direitos humanos têm aqui mão invertida: direcionam-se aos que os violam – os bandidos -, não às vítimas.

A construção desse ambiente não se deu do dia para a noite. Foi uma lenta e paciente elaboração, que começou no discurso esquerdista, de associar violência à pobreza, serviu-se da crônica morosidade do Judiciário e encontrou ampla receptividade no âmbito legislativo, com a elaboração de leis que atenuam as penas e oferecem aos condenados meios de reduzi-las ainda mais, por meio do sistema progressivo de regime, sempre “aprimorado”.

Dificilmente alguém cumpre a totalidade de sua pena. Há ainda a resistência à redução da maioridade penal para 16 anos, o que leva a que o crime organizado (e o desorganizado) se sirva dessa abundante mão de obra.

Por fim, há a crescente hostilidade dos setores pensantes da sociedade à ação policial, em que seus profissionais, além de mal remunerados e desequipados, deparam-se com restrições operacionais que, por óbvio, não se aplicam à ação dos bandidos.

No topo da pirâmide social, o quadro é ainda mais grave, como o demonstram as operações da Lava Jato. A legislação processual admite um sem-número de recursos, que levam os crimes a prescrever antes que o processo transite em julgado.

E há o absurdo foro privilegiado, que transforma o STF em tribunal penal e enseja intermediações políticas que impulsionam a impunidade e o descrédito do Poder Judiciário.

Não bastasse, o Senado está prestes a votar, por iniciativa de seu presidente, Renan Calheiros, projeto de lei que, a pretexto de conter abusos de autoridade, dificulta as investigações, sobretudo no que diz respeito às delações premiadas.

O projeto, apresentado em caráter terminativo, foi encaminhado a uma comissão especial, criada pelo próprio Renan e presidida por Romero Jucá, ambos citados em delações premiadas da Lava Jato. O recurso ao “caráter terminativo” permite, caso não haja recurso, que o projeto seja aprovado na própria comissão especial, sem passar pelo plenário do Senado. Depois vai para a Câmara.

Não é casual que o projeto venha à tona quando a Lava Jato chega à cúpula da elite política e econômica do país. A Associação dos Juízes Federais (Ajufe) declarou, em nota, que o texto “parece uma tentativa de intimidação de juízes”. Não parece: é.

O que ocorre em cima, na cúpula do poder, estimula quem está embaixo. Há, no mínimo, uma sinalização moral nefasta. No frigir dos ovos, o país oficial construiu um ambiente de falência política e econômica – e, em decorrência, social -, enquanto o país real vive a tragédia de contabilizar o pornográfico número de 70 mil assassinatos por ano – índice de guerra civil, superior ao de países como a Síria ou o Iraque, que a vivem de maneira declarada.

Não bastasse, a proximidade das Olimpíadas, com sede na cidade-síntese do país, o Rio de Janeiro – e, por isso mesmo, o seu mais eloquente retrato -, agrega ao terror interno, ao qual já nos habituamos, o terror externo, que hoje apavora o mundo.

Já há registros, nas redes sociais – e a própria Abin o confirma - da presença de agentes do Estado Islâmico no país, agindo nas periferias, onde há farta mão de obra recrutável. Que diferença faz para quem nasceu em meio às ações do narcotráfico – e se acostumou ao crime como banalidade – revesti-lo de aura fundamentalista e semeá-lo junto a seus companheiros de infortúnio?

O Brasil oferece ao terror vasto manancial a ser explorado. E é espantoso que somente agora as autoridades estabelecidas tenham despertado para o problema. Nessa Olimpíada, já temos, há muito, medalha de ouro.

Para onde foi a esperança

Não sei se pela distância, vejo cada vez mais a esfera da política como um obstáculo à recuperação econômica sustentável. Temer ainda luta pela estabilidade. Prometeu não ser candidato em 2018. Ainda assim, a lógica política vai empurrando suas decisões para o sentido oposto de uma contenção de gastos necessária para superar a crise.

O socorro ao Rio e ajustes com os Estados já estavam inscritos como grandes problemas pós-impeachment. E ainda inseguro no cargo, Temer não tem condições de vetar o aumento para o funcionalismo.

O governo é frágil também porque a cúpula do PMDB está implicada na Lava Jato. Aliás, se estivesse só implicada, o problema seria menor. Mas ela mostrou ter como sonho de consumo esvaziar a Lava Jato, até pela via do jogo parlamentar.

A eleição na Câmara dos Deputados apresentou muitos nomes, nenhum com condições de conter o apetite dos grupos fisiológicos. A negociação com o Congresso tende a ser mais cara ainda em ano eleitoral.

Todos esses fatores reunidos me levam a esperar, na melhor das hipóteses, um ajuste fiscal meia-bomba, que nos conduza a 2018 sem que os problemas essenciais tenham sido atacados. A tendência é pensar: em 2018, aí, sim, as coisas podem melhorar. Um presidente eleito tem legitimidade para conduzir um processo de mudanças mais ásperas e profundas.

Charge O Tempo 15/07/2016

A grande incógnita, de novo, é o Congresso. Surgirá um tipo de governo de coalizão que escape do fracasso dos outros que o antecederam? Ulysses Guimarães quando se criticava o nível da Câmara, respondia: “Esperem a próxima, será pior ainda”.

Mas Ulysses dizia isso com base na experiência de outra fase da democracia. Ou pelo menos não ousou concluir que, de pior a pior, o Congresso acabaria numa crise profunda e o próprio sistema político se desprenderia da realidade do País.

Para realizar as esperanças de sucesso de um presidente legítimo as eleições teriam a enorme tarefa de renovar o Congresso.

A liderança de Eduardo Cunha lançou a Câmara no seu último estágio: a de um balcão de negócios. Ele produzia e distribuía recursos a seu grupo fisiológico nos períodos eleitorais. Era o maior criador de jabutis da história, com emendas inseridas nas medidas provisórias.

Hoje, o agora ex-presidente da Câmara e o presidente do Senado são os alvos principais da Lava Jato no Congresso. Cunha tem conta na Suíça, faz viagens milionárias, incríveis manobras para não ser julgado. E aparece sempre dizendo que é inocente.

De nada adiantavam as evidências, apenas a sua narrativa. Outro dia, lendo um ensaio de Bruno Latour sobre a democracia, ele tomava como ponto de partida aquela ida do Colin Powell à ONU às vésperas da invasão do Iraque. Todo um espetáculo narrativo para demonstrar as armas de destruição em massa, com imagens, mapas. As armas não existiam.

O cinismo não é um traço só da política brasileira. Os franceses cunharam uma expressão para suas expressões vazias: langue de bois.

Mas o que aconteceu no Brasil nos últimos anos pode abalar a profecia de Ulysses. O choque entre as narrativas e as evidências se dá num momento em que o Brasil tem um fluxo mais abundante e rápido das informações. E são evidências inescapáveis, gravações, cheques, delações premiadas. Está tudo aí, disponível a um toque no smartphone.

Outro momento ainda não avaliado: o impacto da transmissão ao vivo do impeachment de Dilma Rousseff. Muitos observadores – estrangeiros inclusos – previram que aquele espetáculo, no mínimo, levaria a sociedade a refletir sobre seus representantes.

Jogar as esperanças para 2018 não significa uma fuga do áspero cotidiano da transição.

A Lava Jato tem um adversário mais sutil que o PT pela frente. E alguns movimentos da Justiça são ambíguos.

A história da prisão de Carlinhos Cachoeira e Cavendish foi uma dança em torno das tornozeleiras eletrônicas. Foram presos, estavam à espera de uma tornozeleira eletrônica, artigo raro num Rio falido.

Finalmente libertados sem tornozeleiras, a desembargadora quer uma escolta da Polícia Federal para vigiá-los em suas prisões domiciliares. O resultado é que se a proposta for aceita teremos pelo menos quatro policiais presos, no lugar de dois bandidos no xadrez. Ou com tornozeleiras.

Mesmo nas esferas mais altas os sinais são ambíguos. O ministro Celso de Mello negou a prisão de condenados após julgamento em segunda instância. Negou em nome de um principio, o de que ninguém deve ser considerado culpado antes de a sentença transitar em julgado.

O problema é ver como esse princípio abstrato se aplica no Brasil de hoje. O Supremo Tribunal está congestionado. Muitas pessoas, com base nesse dado, empurram seus processos, na esperança da prescrição, da impunidade.

A Lava Jato avança num terreno instável, com as surpresas e os vaivéns na Justiça, com a retirada da urgência nos processos de corrupção. A retirada partiu do governo Temer. É a tática mais suave, melíflua, da cúpula do PMDB.

Exceto Cunha, ela jamais vai bater de frente. Jamais um dos seus ideólogos, se é que os tem, vai dizer que o juiz Sergio Moro foi treinado pelo FBI para entregar o pré-sal às “Seis Irmãs”, empresas de petróleo norte-americanas. Mesmo com um pouco mais de sutileza, o PMDB não se aguenta: seus principais líderes não escaparão da Lava Jato, embora os ritmos e meandros do foro privilegiado possam dar-lhes uma sobrevida.

Se as eleições de 2018 não se fizerem já com uma reforma política, certamente seu resultado servirá para impulsioná-la. Acabou uma fase da democracia no País. Com seus líderes e partidos, na maioria esmagadora, rejeitados pela sociedade, as eleições de 2018 abrem o caminho da renovação ou da aventura.

Tudo vai depender uma sociedade que cada vez sabe mais sobre o universo político. Sabe o bastante para desprezá-lo de vez. Ou tentar algo novo.

Os (i)morais

Nossos carreiristas são mais hipócritas do que os carreiristas capitalistas, porque, para fazer carreira, são obrigados a fingir que são morais. (...) Os carreiristas são, entre todas as classes, os inimigos mais encarniçados do povo
Ievguêni Ievtuchenko

A ressurreição da política

Lula matou a política; Eduardo Cunha tratava de enterrá-la. Um era a exata contrapartida do outro e a remoção do último, na sequência da quase remoção do primeiro, completa a reversão do desvio mortal em que o Brasil entrou. Está reaberto o caminho para a volta da política sem a qual não se vai a lugar nenhum.

Essas mudanças são como as manobras dos grandes navios. O acionamento dos comandos não vence imediatamente a inércia. Está aí, ainda, o cirquinho “silogístico” de escárnio à inteligência nacional do PT sob a batuta de Jose Eduardo Cardoso, Gleisi Hoffmann e cia., par perfeito do “regimentismo” bandalho de Eduardo Cunha; está aí, ainda, aquele STF que solta e arrebenta legalizando para si mesmo, em plena Lava-Jato, o duto das “palestras” para partes nos litígios que julga, como as de Lula à Odebrecht, e garantia de segredo para o valor do mimo recebido. Mas tudo isso, depois da votação de quinta-feira, deslocou-se para mais perto da porta do passado.

Entrou ar. E onde entra ar qualquer infecção volta a ter chance de cura. Ha outro STF dentro daquele STF; ha outra política dentro dessa em que o lulismo transformou a nossa. O Brasil que não se alinha ao crime volta a ter no que se agarrar e isso faz muita diferença.


Sem ilusões, porém.

Ha uma dimensão percebida dos nossos vícios, e outra que já é cultura e nos move por baixo do nível da consciência. Para a primeira tornam-se mais favoráveis as perspectivas. Antes de mais nada porque não ha alternativa para o caminho certo. É agir ou morrer. E logo. Rodrigo Maia tem formação econômica. Sabe que a alternativa fácil não dobra a esquina. É o homem certo no lugar certo para reger esse debate. Michel Temer, que se apruma com essa vitória, também passa a poder, mais que antes, agir certo em vez de apenas falar certo. Assim alterado o clima, o comando da Comissão de Impeachment bem pode, também, passar a olhar antes para o Brasil que se esvai manietado e a resistir com alguma galhardia às manobras espúrias que vem engolindo sem engasgar pois até para o STF será mais complicado, agora, dançar fora da nova batida do bumbo. Se o Brasil deixar claro que é o que quer todo mundo se afina, ao menos no discurso. Ou não foi assim que o país inteiro virou “Lava-Jato desde criancinha” e a votação de quinta-feira deu no que deu?

A outra dimensão é que é mais difícil de lidar. O lulismo foi a chegada do primeiro produto P.O. (“puro de origem”) do peleguismo getulista ao posto mais alto da Nação. Ao fim de quase 80 anos de uso contínuo essa droga de tão potente efeito necrosante não ha brasileiro que, direta ou indiretamente, não tenha sido mutilado por ela. A maioria de nós – o próprio Lula notoriamente – sequer tem consciência de como foi afetado. Simplesmente não sabe como é viver de outro jeito.

É juntar três ou quatro amigos, fundar um “sindicato” que o Estado se encarregará de impor a um dos lotes do condomínio nacional do trabalho onde não se entra sem alvará e fincar na veia o cateter do imposto sindical. Para o resto da vida, tudo que ha a fazer depois disso é não permitir que algum aventureiro o arranque do seu braço, o que é fácil de garantir desde que as “eleições” se deem por “aclamação”, sempre arrancável pela intimidação, seja pela negação de trabalho, seja pela violência física. Daí para a política. É essa a escola.

Para esmagar resistências ao longo do caminho; para garantir esse “Eu sou, mas quem não é?” em que tudo se dissolve sempre no debate político nacional desde o “Mensalão”, acrescentou-se à receita a socialização da corrupção por essa “justiça trabalhista” que sustenta a legião de profissionais do achaque encarregada de moer a consciência da Nação soprando diuturnamente, de ouvido em ouvido, o mantra sinistro: “Minta, traia, falseie que o governo garante”…

p2
E lá se foi o Brasil dessensibilizando-se até admitir que o método fosse estendido a todos os níveis do seu sistema representativo – partidos políticos, associações de classe, ONGs, etc. – e parecesse nada mais que lógico e natural impô-lo, afinal, como o regime político mesmo da Nação à força de decretos presidenciais e remendos judicantes sob a égide do “excesso de democracia” à venezuelana.

É essa a feição “moderna” que assumiu o absolutismo monárquico à brasileira que a Republica nunca superou depois que entregou intactos os poderes do Imperador sem mandato aos novos imperadores com mandato. O abacaxi que Michel Temer e o Congresso de Rodrigo Maia têm de descascar é velho como o Brasil de d. João VI e os miasmas que dele emanam são fortes o bastante para levar até o “dream team”, em questão de semanas, a passar das juras de amor eterno ao controle dos gastos públicos ao namoro com mais um porre de impostos, só que sorvido aos “golinhos”. É que por baixo das diferenças manifestas nos extremos mais distorcidos do “Sistema” derrotados quinta-feira, eles continuam sendo, antes e acima de tudo, “A Côrte”; uma casta para a qual ha leis especiais, tribunais especiais, regimes de trabalho, salários e aposentadorias especiais e até juros bancários especiais extensíveis a quem quer que um de seus “excelentes” pares houver por bem resgatar deste vale de lágrimas. E, de cunhas a grazziotins, “A Côrte” reage sempre com unanimidade monolítica quando o que está em jogo é montar nas nossas costas para aliviar as próprias.

É disso que se trata mais uma vez agora. Tornar as suas prerrogativas um pouco menos “especiais” para que, explorados e exploradores, sigamos todos com os narizes 1 cm acima da linha d’água é o melhor que, em sã consciência, pode-se esperar desses brasileiros dispensados de viver no Brasil que eles próprios criam. Mais, só quando o Brasil se der conta de que é ele quem manda e adotar finalmente a democracia, obrigando-os a viver no mesmo país em que vivemos nós, sujeitos às mesmas leis, aos mesmos ventos e às mesmas tempestades. Aí sim, eles tratarão de consertá-lo.

Fernão Lara Mesquita

Parece loucura, mas tem método

No Brasil, os intelectuais não se criticam mutuamente. Trata-se, ao que parece, de uma decorrência da exiguidade numérica: num grupo tão pequeno, questionamentos mútuos “não pegam bem”. Pode também ser um modus vivendi: como a maioria combina a atividade docente universitária com algum envolvimento político, cada um se sente no direito de fazer proselitismo partidário ou ideológico sem ser “incomodado” pelos demais.

Tal entendimento parece-me até certo ponto razoável, por duas razões: de um lado, nossa vida universitária nunca se pautou pelo estrito ascetismo outrora cultivado em algumas universidades do Primeiro Mundo; do outro, momentos cruciais da construção democrática brasileira exigiram uma defesa enfática da liberdade de cátedra, estreitamente associada à de expressão do pensamento. Fato, seja como for, é que entre nós o debate aberto e por vezes contundente que se observa nos países academicamente adiantados nunca se desenvolveu.

Ao contrário dos Estados Unidos, por exemplo, onde as revistas especializadas e mesmo alguns jornais, como The New York Review of Books, regularmente publicam resenhas sérias dos novos lançamentos editoriais, no Brasil resenhar é quase sinônimo de elogiar. Essa tradição, que remonta à época nada gloriosa dos catedráticos medalhões, afigura-se esdrúxula nos dias de hoje, com o regime democrático em pleno desenvolvimento, tendo os intelectuais um papel sabidamente importante na formação da opinião pública e cada cidadão querendo saber onde vai parar o dinheiro dos impostos que paga.


Fiz as observações acima instigado por declarações da doutora Marilena Chaui, professora titular de Filosofia da Universidade de São Paulo. Farei referência a três episódios: um, de dez anos atrás, associado ao “mensalão”; outro, de 2012, em que ela disse cobras e lagartos sobre a classe média brasileira; e um recente, a respeito da Operação Lava Jato e do juiz Sergio Moro.

Na primeira, contestando a veracidade das acusações referentes à compra de apoio no Congresso pelo PT, a professora Chaui interpretou-as, bem à maneira das chamadas “teorias conspiratórias”, como uma campanha difamatória urdida pela mídia, que se teria comportado como uma elite coesa. Em 2012, num evento organizado, se bem me lembro, por seu partido, num tom inusitadamente exaltado, ela declarou odiar a classe média. “Odeio-a”, especificou, “porque é ignorante e fascista”. Na mais recente, disse que os inquéritos em andamento nada têm que ver com combate à corrupção, tratar-se-ia de uma operação estrangeira (norte-americana, presumo) cujo real objetivo seria “tirar-nos o pré-sal”, hipótese ao ver dela comprovada pelo fato de o juiz Sergio Moro ter sido “treinado pelo FBI”.

A questão, como se vê, é como a comunidade intelectual – cuja segmentação ideológica tive o cuidado de ressaltar acima – reage a tais declarações. Podem elas ser aceitas como expressões normais de um determinado ponto de vista ideológico ou extrapolam tal âmbito, a ponto de merecerem alguma crítica? É óbvio que não tenho procuração para falar por outros integrantes de tal comunidade – e muito menos interesse em fazê-lo. Falo por mim.

Quanto a conspirações de elite, sou forçado a perguntar se a professora Chaui ponderou devidamente as companhias a que se reuniu ao abraçar esse tipo de teoria. Falo, naturalmente, dos Protocolos dos Sábios de Sião, cânone da virulência antissemita, da acusação, também falsa e antissemita, contra o capitão Dreyfus; e mesmo da peça também falsa e antissemita, denominada Plano Cohen, obra do então coronel Olímpio Mourão Filho, produzida na antevéspera do autogolpe getulista de 1937. Quem pensa dessa forma vê conspirações por todo lado, tramadas ora pela mídia, ora pelos judeus, ora pelo imperialismo. Karl Popper discute essa questão em seu celebrado livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos: “Não afirmo que conspirações nunca acontecem. Ao contrário, elas são fenômenos sociais comuns. (Mas) tornam-se importantes, por exemplo, quando pessoas que acreditam em teorias conspiratórias – principalmente pessoas que acreditam saber como criar um paraíso na terra – chegam ao poder e se engajam em contraconspirações contra inexistentes conspiradores. Porque precisam explicar seu fracasso em produzir o almejado paraíso”.

Provavelmente por não ter-se debruçado sobre os problemas acima mencionados, Marilena Chaui recai na teoria conspiratória ao falar da Lava Jato, apenas substituindo a elite oculta do mensalão pelo imperialismo e pelo juiz Sergio Moro; e o mais pitoresco é que, no petrolão, houve de fato uma elite conspiratória: um conluio de grandes empreiteiros com altos agentes dos governos Lula e Dilma.

Em sua invectiva contra a classe média, não é mais a uma elite oculta que Marilena Chauí se refere, mas há um elemento comum importante a ressaltar. A ilustre filósofa ter-se-ia expressado melhor, com mais atenção à diversidade do fenômeno de que tratou, se tivesse lido Who Voted for Hitler?, de Richard F. Hamilton, mas esse não é seu método de trabalho. Ela presume, simplesmente, a existência de uma “pequena burguesia”, uma camada social homogeneamente ignorante e fascista.

Apesar de sua brilhante trajetória como professora de Filosofia, ela não vê dificuldade em atribuir determinados traços a esse coletivo abstrato e hipostasiado que é sua “classe média”. O mais curioso é ela ter declarado isso justo quando o governo petista trombeteava a entrada do Brasil no seleto grupo dos países “de classe média”. Graças a suas políticas sociais, mais de 50% da população brasileira teria ascendido ao paraíso dos ignorantes e fascistas.

Ocaso do 'Rei' do Brasil

ENTREATOS - Lula com militantes sem-terra em Pernambuco, na semana passada: maior inclinação para reminiscências
Ele parece estar meio distante do povo, com um olhar desconfiado
Conceissão Pessoa, funcionária pública em Caruaru, na reportagem "O ocaso de Lula: desprestígio, abandono e suspeitas"

PT vai parar o Rio na abertura da Olimpíada em protesto contra o 'golpe'

Na certeza de que a presidente Dilma Rousseff não tem a menor chance de evitar a concretização do impeachment, o PT (leia-se: Lula e o partido) decidiu reforçar a estratégia de buscar apoio no exterior. A próxima iniciativa é a organização de um simulacro de Tribunal Internacional, que se reúne terça e quarta-feira, no Rio de Janeiro, em palco montado no Teatro Casagrande, a pretexto de julgar os golpistas que tentam cassar Dilma Rousseff. Escolhido a dedo entre os mais conhecidos esquerdistas do mundo, o júri terá sete integrantes e o presidente será o argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz em 1980, que esteve recentemente em Brasília, para denunciar ao Senado o golpe contra Dilma.

O objetivo dos petistas é fazer com que o veredito desse tribunal ideológico seja “oficialmente” encaminhado ao Supremo Tribunal Federal e aos senadores, como se fosse adiantar alguma coisa.


Com apoio do MST, da UNE, de algumas centrais, de sindicatos e de movimentos sociais, o PT já decidiu sair às ruas de São Paulo no próximo dia 31, para rivalizar com a grande manifestação que está sendo organizada para defender a Operação Lava Jato e o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff.

Mas a apoteose petista será o gigantesco ato público a ser realizado dia 5 de agosto no Rio de Janeiro, exatamente na data de abertura da Olimpíada, para que o protesto possa alcançar massiva repercussão internacional, porque já estarão na cidade cerca de 20 mil jornalistas estrangeiros. A ideia é realizar uma grande marcha, uma espécie de Maratona ideológica, que possa literalmente parar a região central da cidade, nas proximidades do Estádio do Maracanã, palco da cerimônia festiva que dará início aos jogos olímpicos.

Serão distribuídos pela cidade milhões de folhetos didáticos, impressos em vários idiomas, para denunciar que está sendo cometido um golpe de estado com objetivo de derrubar a presidente Dilma Rousseff.

Na sequência, a intenção do PT e de seus aliados é promover a maior greve geral da História do país, para sensibilizar os senadores que a essa altura já estarão prestes a votar o impeachment.

Se for confirmada a cassação do mandato da presidente Dilma no Senado, o PT então vai recorrer ao Supremo para arguir a nulidade da acusação de crime de responsabilidade, com base na perícia feita por funcionários do Senado e no parecer do procurador Ivan Cláudio Marx, que acaba de ser divulgado, opinando que a chefe do governo teria de ser processada por improbidade administrativa, ao invés de sofrer impeachment.

É claro que nada disso vai dar certo, Dilma Rousseff será cassada, e vida que segue, como dizia nosso amigo João Saldanha. Mas não há dúvida de que vai haver muito barulho e tumulto.

As duas justiças do Brasil: uma prende, a outra solta

Quando o contraventor “Carlinhos Cachoeira” (Carlos Augusto de Almeida Ramos) sentou-se ao lado dos policiais federais no camburão e fez aquela cara de deboche, abrindo um sorriso maroto, o Brasil inteiro desconfiou da prisão. Cachoeiro, que já foi condenado a mais de 30 anos e não se sabe porque diabo continua solto, parecia zombar dos policiais e da cara de todo mundo. E estava certo, dias depois a desembargadora Nizete Lobato, do Tribunal Regional da 2º Região, mandou soltar o criminoso. De lambuja ainda deu liberdade para Fernando Cavendish, o todo poderoso dono da Delta, e os empresários Adir Assad, Cláudio Abreu e Marcelo Abbu.

A liberdade desses senhores do crime só evidencia uma coisa: no Brasil de hoje existem duas justiças: a que prende e a que solta. A de Curitiba, liderada pelo juiz Sérgio Moro, que continua tentando botar o país nos eixos, mesmo sob pressão dos políticos e dos empresários poderosos, prende. A outra justiça, que faz vista grossa para os ladrões do dinheiro público, solta. De acordo com a decisão do ministro Nefi Cordeiro, do Superior Tribunal de Justiça, os presos deveriam deixar o presídio de Bangu com tornozeleiras, mas um simples detalhe impediu que isso acontecesse: o Rio de Janeiro, falido, não tem dinheiro para comprar as peças eletrônicas. É o fim da picada.


Os cinco homens, que deixaram o presídio pela porta da frente, foram presos na operação Saqueador da Polícia Federal que investiga o esquema de lavagem de 320 milhões de reais. Isso mesmo, os caras desviaram 320 milhões dos cofres públicos! Com o alvará de soltura nas mãos, Cachoeiro foi deixado em um flat em Copacabana e Cavendish na Avenida Delfim Moreira, no Leblon, bairro nobre do Rio, onde é dono de um apartamento de andar inteiro com vista para o mar.

Na verdade, o prestígio de Cachoeira é que levou a liberdade dos outros presos. Condenado a mais de trinta anos, ele continua livre. Quando esteve preso em outros escândalos não fez por menos. Contratou o advogado Thomáz Bastos, ex-ministro da Justiça, por 30 milhões de reais para cuidar da sua causa. Demitiu-o depois que teve o primeiro habeas-corpus negado. O contraventor, no Brasil, ainda é o criminoso que mais goza da intimidade da Justiça. No Rio, por exemplo, eles vivem dentro e fora do presídio, na verdade, mais fora do que dentro. A jogatina continua solta pela cidade e os bicheiros trabalham em liberdade, muitos supervisionados pela própria polícia. Não é de se admirar, portanto, que ser preso com um contraventor é garantia de liberdade rápida.

A coragem do juiz Sergio Moro e de alguns abnegados procuradores do Ministério Público é um caso isolado na justiça brasileira, porque a prática é a justiça ser benevolente com os acusados de delitos. Lembra da cara que o Marcelo Odebrecht fez quando depôs em Curitiba para alguns deputados de uma CPI fajuta da Câmara dos Deputados? Foi a mesma do Cachoeira. Debochou dos parlamentares e ironizou alguns deles, quando disse que não era da sua índole fazer delações premiadas.

Soube-se depois que que a sua atitude estava respaldada na ajudinha que o ministro Ribeiro Dantas, do STJ, prometera, concedendo-lhe a liberdade em dezembro de 2015. Segundo Delcídio do Amaral, senador cassado, que participou da trama com a Dilma, o ministro foi nomeado para aquele tribunal pela presidente com a finalidade de soltar o empresário. Descoberta a conspiração, Marcelo foi condenado a 19 anos de cadeia e hoje trabalha na delação premiada para amenizar a sua pena. O ministro denunciado pelo senador perdeu apenas a relatoria do processo. Continua trabalhando sem ser incomodado. É o fim da picada.

Isso prova que a justiça do Sergio Moro não é a mesma justiça do resto do Brasil, normalmente submissa ao poder e a conchavos políticos. A do Moro prende e condena; a outra, solta.

Parabéns pra você

O ex- senador e minsitro Aloizio Mercadante é o mais novo aposentado do Brasil. Por seus exaustivos nove anos de trabalho para o país nas refrigeradas instalações do Congresso, vai receber proporcionalmente R$ 15.400 por mês, o que deve garantir a sobrevivência da família com um PF diário ad eternum.

Dado novo para a perícia técnica do sinistro petista

Quem poderia imaginar uma eleição para a presidência da Câmara dos Deputados em que PT e PSDB não apresentassem candidato e o PMDB colocasse o seu no freezer? Pois foi isso que aconteceu quarta-feira sob as vistas de todos. Os grandes partidos e as grandes bancadas fizeram olhar de paisagem impressionista, levemente turbada. Preferiram agir nos bastidores, com parelheiros previamente selecionados para cumprir o mandato tampão.

Alguém poderá dizer que esses partidos não se inscreveram na disputa porque uma vitória por seis meses não suscitou interesse. É uma explicação, mas não considero suficiente. Pouco tempo atrás, bastava alguém jogar no ar a pergunta "Quem quer ser...?" e as mãos petistas, tucanas e peemedebistas se ergueriam antes do fim da frase. Fosse para o que fosse.


Para mim, a leitura mais convincente desse curioso episódio tem muito a ver com o esgotamento das principais legendas e reflete mudança em curso no fragmentado caleidoscópio das siglas em nosso país. Ou, numa analogia talvez melhor: bem antes da eleição de 2018, a escassez de frutas boas nas árvores mais visíveis do pomar vai mostrando que a safra, ou virá de fora, ou virá lá do meio do arvoredo. No que se vê por fora, quase tudo é fruto mermado ou bichado, que não vai encontrar comprador naquela feira eleitoral. É provável que esse fenômeno já se faça sentir no pleito municipal de outubro vindouro, apesar das idiossincrasias desse tipo de eleição, movida fortemente por afeições e desafeições locais.

Será mesmo, isso que sentimos, um sinal de mudança na direção dos ventos? O que, exatamente, está mudando? Creio que ainda é prematuro dizer. Em meio a tantos malefícios, percebe-se porém que há coisas boas acontecendo. Foi bom para o jogo político, por exemplo, que as fichas do PT tenham sido postas em Marcelo Castro, um peemedebista mais fajuto do que sua legenda. Foi melhor ainda que, somados seus 70 votos aos 22 de Luiza Erundina (PSOL) e aos 16 de Orlando Silva (PCdoB), esse funesto pacote totalize apenas 108 parlamentares no conjunto de 494 votantes. O nome disso é insignificância, principalmente se lembrarmos que incluindo um ano de Aldo Rebelo (PCdoB), o petismo presidiu a Câmara dos Deputados em oito dos últimos 14 anos. E note-se que nos biênios de 2009 a 2011 (Michel Temer) e 2013 a 2014 (Henrique Eduardo Alves) o PMDB presidiu a Casa com apoio e em acordo de rodízio com o PT.

Sim, o PT amargou no último dia 13 - pura coincidência! - mais do que uma derrota previsível. Colheu mais conteúdos para a perícia técnica de seu sinistro. Que ela sirva à reflexão de todos os partidos e, especialmente, de Sua Excelência, o eleitor.
Percival Puggina

Mandatários, não provoqueis a ira de vossos mandantes!

A maior parte da nação não ignora o estado calamitoso em que esta se encontra após mais 12 anos de domínio lulopetista. Fizeram e desfizeram quanto quiseram. Uma maioria no Congresso, comprada frequentemente, garantiu-lhe o senhorio da nau estatal, que, nesse longo período, em dimensões jamais vistas no Brasil, navegou ao bel-prazer dos que se assenhoraram do poder.

A vigilância do governo, estabelecida pela Constituição do país e confiada ao Parlamento nacional, foi posta a pique, levando de roldão a obrigação de dar contas ao povo da inteireza ou não dos atos governamentais praticados na esfera do Poder Executivo, e naufragou até o afastamento da presidente da República. Daí, iniciativas de comissões parlamentares de inquéritos nunca lograrem resultados durante o reinado lulopetista. Quebraram-se, pois, no plano de fiscalização do Executivo, os elos da mais importante ferramenta constitucional colocada pelos constituintes, em países civilizados, à disposição dos mandantes, em cujas mãos repousa a soberania do próprio Estado democrático.

Daí decorre o ineditismo dos sucessos ocorridos, só há pouco tempo submetidos parcialmente à ação do Judiciário. De um lado, os agraciados com a responsabilidade de representar os titulares do poder delegado; de outro, uma miríade de assaltantes que me lembram os versos de Manuel Bandeira: “Corro à floresta: entre miríades/ De vagalumes, junto aos troncos,/ Gênios caprípedes e broncos/ Estupram virgens hamadríades”.

Quem são os “gênios caprípedes e broncos”? Decerto os que se articularam para estuprar as “virgens hamadríades”, ou seja, os brasileiros à mercê dos “gênios caprípedes e broncos”. Quem são “as miríades de vaga-lumes” operosos? Os investigadores do Ministério Público e da Polícia Federal que abastecem o Judiciário com abundância de elementos informativos para abertura das respectivas ações penais e a aplicação das penas, tudo estritamente conforme a legislação penal, ao contrário do que assacam certos agentes públicos e privados da mais ousada conspiração contra o patrimônio popular acontecida em nosso país.

A nação, quase em uníssono, está cansada, mas não segura a justificada ira. Também, em comunhão com o povo espoliado, se torna integrante e co- titular dessa gigantesca lide, confiando em que, por meio dela, voltará a ter o patrimônio de que foi audaciosamente privada, ao lado de merecida punição.

Enquanto isso, a população, igualmente em maioria, manifesta, com os meios de que possa dispor, a indignação nacional. Leio, a propósito, em “O Globo”, o artigo de José Casado, que se inicia com a narração de um fato sucedido com o presidente do Supremo Tribunal Federal, emblemático do que vai Brasil afora, num restaurante de São Paulo. Narra o autor que, quando atravessava o salão, Sua Excelência ouviu uma voz feminina que o saudou: “Ô, ministro!”. Ele parou, sorriu e estendeu-lhe a mão. “Olá, como vai?” Ela respondeu ao gesto: “Parabéns. A sociedade brasileira congratula Vossa Excelência pelo julgamento do mensalão e por aumentar os próprios benefícios agora, neste momento social tão importante”. Conclui Casado, acrescentando: “Lewandowski percebeu a ironia, manteve o sorriso, e seguiu”.

Para jantar no mesmo restaurante do ministro, devia ser uma senhora de posses. Não obstante, mostrou que, como milhares de outras, ela sabe da disparidade entre a remuneração de outros servidores do setor público e a do Judiciário. E demonstrou que são sabidas e comentadas as gritantes diferenças.

Coronel Saruê vestido de vaqueiro: Lula, de Juazeiro (BA) a Carpina (PE)

Na simbólica cidade de Carpina, na Zona da Mata pernambucana, a 45 quilômetros da capital , mas região de histórica pobreza nordestina, desde os poemas de João Cabral de Melo Neto, apareceu praticamente do nada, nesta singular semana de julho, o ex-presidente da República e fundador do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.

De repente, não mais que de repente: trajando camisa vermelha e, na cabeça, um típico chapéu de couro dos vaqueiros do sertão. Estampa demodê e extemporânea que mal consegue disfarçar o ar cansado e o discurso esvaziado de um Quixote que perdeu o rumo, um Brancaleone à frente de exército roto e sem destino certo (salvo um encontro provável com o juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, em Curitiba) ou do velho personagem de romance em busca do tempo perdido.

Mais constrangedor e patético impossível.

O cansaço e o abatimento se justificam, talvez, em razão das condições claramente adversas do ex-líder e senhor, quase absoluto, da política e do governo no Brasil, dos últimos 14 anos, nesta mais recente peregrinação ao Nordeste. Quase penúria, se comparada ao conforto, fartura e aconchego que antes recebia, dos grandes da política e dos negócios, onde pisava os pés. E dos afagos no ego que vinham dos pobres e pequenos nas ruas, nos comícios ou nas inaugurações.

Escrevo este artigo da Bahia, quando o viajante petista acaba de passar por Juazeiro, cidade baiana das minhas melhores lembranças de adolescente, à beira do Rio São Francisco. Onde o ex-presidente foi receber o título de cidadão honorário, proposto por um vereador do PT, e entregue sob as expensas da atual administração municipal do PC do B. O governador do Estado, Rui Costa (PT) o acompanha, a título de "inaugurar obras e assinar ordens de serviço". Ainda assim, a visita não passa "de um notável fiasco", na definição de um veterano radialista local, já aposentado da profissão, mas ainda experiente e antenado nas repentinas oscilações dos jogos de poder local, estadual e federal.

Provavelmente movido pela ilusão nostálgica de reviver momentos apoteóticos de outras passagens pelo lugar – por exemplo quando, na manifestação, um garoto carregado nos braços do pai agricultor é levado, por cima da multidão, para abraçar o visitante ilustre no palanque. Imagem que virou peça de propaganda crucial, no Nordeste, na campanha de reeleição ao Palácio do Planalto - o PT, Lula e seus aliados e propagandistas, que restaram, escolheram Juazeiro para abrir o roteiro desta nova viagem ao antigo celeiro seguro de votos.

Ledo e triste engano. Desta vez, os fatos e as imagens da visita, mais parecem o cenário do samba "Notícias de Jornal", de Chico Buarque, ainda fiel seguidor do viajante. "O lar não mais existe/ Ninguém volta ao que acabou/ Joana é mais uma mula triste que errou”. O cerco agora parece se fechar cada vez mais. Amigos ricos, antigos aliados poderosos e fundamentais da política e da propaganda estão na cadeia ou em palpos de aranha, com a polícia e a justiça no encalço. A afilhada Dilma Rousseff, o poste que Lula e o PT colocaram no Palálacio do Planalto, para facilitar o retorno do , está afastada do mando e se perde cada dia mais no labirinto em que se meteu e nas armadilhas que segue construindo para si mesma.

O poder se esfacela e se esvai como a areia fina da praia da Ilha do Fogo, na divisa da ponte entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), no Velho Chico da novela do coronel Saruê, escorrendo entre os dedos. Para culminar, na madrugada desta quinta-feira, 14, o deputado Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro, foi eleito para o lugar de Eduardo Cunha no comando da Câmara. Portanto, um adversário mais jovem, mais inteligente, mais hábil, com mais jogo de cintura político, inesperado e, provavelmente, mais devastador ainda para os planos futuros de Lula, Dilma e do PT. A conferir.

A notícia apanhou Lula no encerramento do périplo nordestino: Juazeiro, na Bahia, Petrolina, Carpina, Caruaru e Recife, em Pernambuco. "Foram essas as cidades escolhidas pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva para retomar seu caminho de volta ao Palácio do Planalto, em 2018 ou até antes disso, caso a crise política desemboque em eleições antecipadas”, diz um site porta-voz do lulismo e do PT (investigado pela Lava Jato) na reportagem sobre a viagem, ilustrada com a imagem de Lula de camisa vermelha e chapéu de vaqueiro na cabeça. Em Carpina, voz trôpega e ar visível de cansaço, o petista ameaça e manda recado com as forças que lhe restam: "Se eles não sabem governar sem privatizar, eu sei”. Ou: “Se eles quis erem reduzir os direitos do povo brasileiro a pó, afastando de vez a companheira Dilma, eu digo: ”não me provoquem, porque eu posso voltar”.

Inevitável a comparação com o estágio atual da novela “Velho Chico”. O poderoso coronel Saruê, antigo senhor do poder, da política, das coisas e das pessoas, bradeja às tontas e em desespero, à medida que vai ficando cada vez mais só: sem poder mandar como antes nos velhos parceirose antigos aliados, no delegado, no juiz, no prefeito, abandonado pelo filho, pelo neto, atraiçoado pelo genro deputado e sem voz altiva nem mesmo com o jagunço, cão fiel de todas as horas. O desfecho se aproxima e não parece prenunciar boas coisas: para o Saruê e para Lula, a deduzir pelos sinais desta semana, incluindo a viagem do fundador do PT ao Nordeste, a eleição de Rodrigo Maia na Câmara, e a conferência do juiz Sérgio Moro, condutor da Lava Jato, em Washington. Mas isso é outra história, a conferir com o tempo, senhor da razão.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Realeza de delinquentes

Nunca vi truta que quisesse comer um cacto, nem um cacto que quisesse devorar uma truta. E, no entanto, os homens destroem as trutas, os cactos, as montanhas, e se destroem a si mesmos
Ievguêni Evtuchenko
Cecil, Harambe e Juma, não apenas nomes, mas respeitáveis e dignos integrantes do planeta foram assassinados pelo imbecil Rei das Selvas nos últimos meses. Não cometeram qualquer crime além da perigosa proximidade com as feras denominadas homo sapiens.

Harambe, gorila de 17 anos e 200 quilos de uma espécie ameaçada de extinção, foi abatido no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos. Em sua ficha criminal constava que segurava uma criança que, pela desatenção da mãe e falta de segurança do parque, caíra no fosso do animal. Pagou com a vida o erro humano.

O dentista americano Walter James Palmer, de Minnesota, pagou mais de R$ 150 mil para caçar e matar o leão Cecil, considerado símbolo do Zimbábue. O assassinato promovido pelo matador de aluguel é impagável e ainda mais criminosa a indústria da caça na África, que só os "civilizados" aprovam. 

De uma espécie ameaçada de extinção, a onça Juma foi abatida depois de participar da cerimônia com a tocha olímpica, na Amazônia. Mais um crime da longa lista de matança animal por mera bestialidade humana. O Rei das Selvas se digna senhor do corpo e alma dos súditos animais e deles se serve para exibição, prova de valentia e espetáculo. Tudo banhado a sangue e morte.

O anônimo jacaré de um lago artificial em resort da Disney matou (depois foi morto) o menino Lane Graves. Dois inocentes que só estavam ali para viver. Um os sonhos, o outro sua natureza.

Implacável essa animalidade humana que usa e abusa dos animais e da própria carne para satisfazer suas necessidades mais desumanas seja exibicionismo, valentia, dominação, poder. Nem mesmo o próprio homem escapa das suas garras de se achar o dono do mundo na natureza ou na denominada civilização.

Falem aí os políticos brasileiros que não nos deixam mentir. Da delinquência deles, em nome da democracia (?), não sobra bicho, criança nem aposentado. É o poder em ação de extermínio para continuar reinando soberano.

A responsabilidade pela omissão política e parlamentar

Importa menos se a omissão foi de Eduardo Cunha, de Waldir Maranhão, dos líderes dos partidos ou, agora, de Rodrigo Maia. A verdade é que nenhum presidente da Câmara ousou propor a mais obvia e natural medida para enfrentar os atuais tempos bicudos que nos assolam. Ninguém cogitou de suspender o recesso remunerado que hoje se inicia. Responsabilidade também para Renan Calheiros, presidente do Senado. Suas Excelências viajam hoje para seus estados e só retornam em agosto.

São inúmeros os obstáculos a superar em termos políticos, desde a formação de uma base sólida, honesta e eficiente no Congresso, seja para respaldar o palácio do Planalto, seja para transformar o Legislativo num pilar de sustentação da democracia.

O que ocorreu nas últimas semanas envergonha o país inteiro, entre choques, manobras, agressões e chicanas verificadas na Câmara e no Senado. As reformas necessárias à retomada na normalidade econômica dormem nas gavetas parlamentares. Deputados e senadores negam presença cinco dias por semana e agora preparam-se para quinze ou vinte dias de ócio.
A principal iniciativa do novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deveria ser acabar com o recesso e até, se houvesse boa vontade, realizar sessões às segundas e sextas-feiras. Comporta-se o Congresso como se estivéssemos na normalidade.

Não demora muito para que permaneçam todos em suas bases, por conta das eleições municipais de outubro. Enquanto isso, instituições e partidos não se entendem, digladiam-se e oferecem à nação um espetáculo de desentendimento e omissão.

Falou grosso, o Pato!

Agora, a política federal de Michel Temer não venha aqui querer fazer politicagem em véspera de eleição usando uma gambiarra de extração de pedra. Não vamos admitir que esse estado policial brasileiro venha ditatorialmente querer nos intimidar e interferir na política local
Honorável prefeito e presidente estadual do PT, Washington Quaquá, que contratava a Hope e a Delta, investigadas na Lava Jato, além de outras empresas sob suspeita, para trabalhos em Maricá

Menos judicio, mais juízo

No primeiro grau (na escola, não na instância), ensinaram que, logo após o descobrimento, caravelas portuguesas se alternavam para extrair e transportar da Terra de Santa Cruz uma madeira de uma árvore de tronco avermelhado (em “brasa”), cuja resina vermelha era muito apreciada como corante para a fabricação de roupas de alta qualidade na Europa. Criou-se uma demanda enorme no mercado europeu, o que forçou uma rápida e devastadora "caça" ao pau-brasil nas matas brasileiras. Em pouco menos de um século, já não havia mais árvores suficientes para suprir a demanda, e a atividade econômica foi deixada de lado.

O espírito descobridor português, tão logo chegado à nova terra, fora sucedido por um modo aproveitador e extrativista. Logo após a extração do Pau-Brasil, as atividades econômicas subsequentes e desordenadas, como o cultivo da cana-de-açúcar e do café, além do crescimento populacional, causaram grande desmatamento da faixa litorânea brasileira. Era tudo do tipo pegar e levar, sem qualquer preocupação com a formação de um novo país, uma nova e virtuosa nação nas terras d’além mar.

Até hoje convivemos com um enorme contingente que continua pensando e agindo da mesma forma que a turma de Cabral, extraindo sem se preocupar com plantios e replantios, abusando do ambiente como se ele fosse sem importância, menosprezando valores sociais vitais à uma nação jovem que, já não tão jovem, mostra jeito moribundo precocemente. Todos os dias, ouvimos falar de “grandes líderes” que roubam dinheiro de impostos, surrupiam merendas e remédios da boca de famintos, de ilustres “gestores” que amontoam cadáveres ainda respirando em corredores de hospitais. São muitos os brasileiros que, tal qual Cabral e seus mercadores, continuam a tratar o país, seus recursos e pessoas da mesma forma que nos tempos do descobrimento. Tratam a Terra Brasilis como se tivessem outra, como se nela não morassem, como se dela não dependessem.

Os políticos são o grupo mais atual e destacado de “corsários” sociais e econômicos que pilham o estado como parasitas inclementes e insaciáveis. São navegantes autorizados a tomar para si o que não lhes pertence. Nesta senda extrativista, insensível e cruel, um outro grupo promove seus interesses, cobrindo-os e a si próprios com mantos negros de escuridão. Deram a este grupo, que opera muito frequentemente com os políticos, de “poder judiciário”. Este poder, que deveria cuidar para que tivéssemos um país de verdade, locupleta-se, sozinho ou em bandos, quando não de gordos vencimentos, da tolerância, do desaviso e da ingenuidade de seus pares cidadãos.

Eis o grande problema do Brasil, motivo pelo qual temos um hino, um selo, uma bandeira e um brasão – mas não temos um país de verdade.

Enquanto políticos e juízes (e seus genéricos ou congêneres) não cessarem seu furor por fama e riqueza, enquanto governantes e magistrados não assumirem seus verdadeiros papéis, teremos um território, um espaço aéreo, um subsolo e um mar territorial, mas não seremos um país de verdade, uma nação de fato. Continuaremos todos a falar um mesmo idioma, a moeda será única em todo o território, mas ainda assim, pela conduta imprópria, inadequada e repulsiva de líderes políticos e judiciais, não conseguiremos, de verdade, nos tornar um país digno de respeito.

Quando a corrupção se tornar uma exceção e for punida com justiça e celeridade, quando a classe política, juízes e advogados começarem a dar mais valor à justiça verdadeira do que às delícias e prazeres de chicanas e processos, seremos convidados a sentar mais próximos de países de verdade. Parece tudo tão simples, mas é deveras distante, quase utópico.

Precisamos de um país com políticos e magistrados que honrem a seu povo com probidade, seriedade e a responsabilidade. Queremos justiça e respeito, apesar de ainda sermos tão tolos e inertes. Chega de políticos sujos e de juízes mais sujos ainda. Chega de corsários, piratas e saqueadores. O quanto antes melhor. De preferência antes que nossa paciência termine.

Não se pode mandar contrariando a Opinião Pública

A verdade é que não se manda com os janízaros. Assim, dizia Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas". E mandar não é atitude de arrebatar o poder, mas tranquilo exercício dele. Em suma, mandar é sentar-se. Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial, sede. Contra o que uma óptica inocente e folhetinesca supõe, o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. O Estado é, em definitivo, o estado da opinião: uma situação de equilíbrio, de estática.
O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja força de opinião fica reciprocamente anulada, não dá lugar a que se constitua um mando. E como a Natureza tem horror ao vácuo, esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. Em suma, pois, avança esta como substituta daquela.

Por isso, se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica, convém ter em conta esses casos de ausência, e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido, venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública.

Ortega y Gasset

Cunha fora, fora Dilma!

Quando Eduardo Cunha renunciou, o PT começou a despedir-se do poder de manobra que ainda lhe restava na Câmara dos Deputados provisoriamente entregue ao bizarro vice eventual, Waldir Maranhão. Afinal, este é teleguiado pela excrescência chamada PCdoB, partido de ativistas contra o impeachment mais por chicanas advocatícias do que por votações parlamentares, pois seus causídicos são imaginosos, mas seu eleitorado é escasso, do tamanho da fidelidade às determinações de Enver Hoxxa, o último tirano da Europa, que comandou de Tirana, que não se perca pelo nome, a paupérrima e cruel Albânia. Maranhão não sabe, mas em sua gestão Hoxxa é Deus e Flávio Dino, seu chefinho maranhense, o profeta. Só que ele próprio teria de ser substituído em pouco tempo por um presidente de verdade, eleito pelos votos dos pares.

A renúncia e o fogo cruzado amigo e inimigo do ex-presidente da Casa abateram o fanfarrão Cara de Cunha e a eleição do chefe da Mesa desta passou a assemelhar-se a um arrumadinho, servido nas festas juninas de Campina Grande, tantos passaram a ser os ingredientes de sua receita complexa. Ao meio dia de quarta 13, inscreveram-se para a disputa 17 puxadores do samba-enredo da Escola de Samba Desunidos do Eu Sozinho.


Chegado de Pernambuco, onde anunciara que é candidato a presidente da República em 2018 e que Dilma voltará do ostracismo (nem tanto) do afastamento, Pai Lulinha viu uma tábua de salvação nas pretensões de Rodrigo Maia (DEM-RJ), filho do ex-brizolista e ex-prefeito do Rio César Maia, além de figura de proa de um partido desmanchado nos anos sob égide petralha. Sem coragem de lançar candidato do próprio PT desfigurado, Lula prometeu descarregar no antigo adversário preferencial os votos da bancada, que lhe presta vassalagem, suficientes para esmigalhar o centrão, guindado ao poder na Câmara e dele expelido por Cunha.

Só que, numa demonstração de que hoje a criatura de fato impõe-se sobre o criador, Dilma o desautorizou decidindo com o fígado, órgão de seu corpo que ainda funciona, que o venturoso aliado de última hora foi feroz defensor do impeachment dela. E desautorizou o apoio. A ideia de lançar Marcelo Castro candidato dos anti-impeachment teve a mesma inteligência inspiradora dos imbecis que convenceram a “presidenta” a apoiar Arlindo Chinaglia na disputa inglória que Eduardo Cunha levou de letra, esmagando no primeiro turno e de uma vez só esse liliputiano petista o anticandidato tucano sem vez nem voto.

Depois de uma passagem pelo Ministério da Saúde em que disse torcer para que as mulheres férteis do Brasil contraíssem a zika antes de engravidar, Marcelo Castro cumpriu a sina de bobo de corte deposta. Beneficiado pelo espírito contemporizador do chefão do PMDB que assumiu o Planalto, Michel Temer, que não o expulsou do partido por grave traição, como devia ter feito, o psiquiatra piauiense deixou claro que marcar uma consulta com ele não avalia o bom juízo de psicopata nenhum. E, com o mesmo ânimo com que só deixou a pasta do desgoverno que desabou para votar contra o impeachment, partiu encapuzado para o sacrifício como um boi magro migra para o cutelo do marchante cruento.

E lá foi Lula junto para o previsível abate com a inglória armada de Brancaleone contra o impeachment de madama. No primeiro turno, Castro teve 70 votos. Somados aos 22 de Luiza Erundina (PSOL-SP), e 16 de Orlando Silva (PCdoB-SP), foram 108, apenas 2 a mais do que os 106 obtidos pelo ex-cunhista Rogério Rosso (PSD-DF) para ir à disputa no turno decisivo. Rodrigo Maia, primeiro candidato que Lula tentou apoiar, teve 120 no primeiro turno. No segundo, 285, que, somados aos 120 de Rosso, tido como candidato do cunhismo zumbi, somam 405, 38 mais do que os 367, mais de dois terços dos 513 deputados, que garantiram a continuidade do processo contra Dilma e seu encaminhamento ao julgamento final do Senado. Esta aritmética primária mostra que a situação de Dilma no julgamento final não está melhor agora, como o patrono dela acaba de jurar em Pernambuco.

A presidência da Câmara é muito importante. O vencedor ocupa o cargo do vice-presidente em exercício, Michel Temer, em mais uma jabuticaba azeda: essa tolice de presidente brasileiro não governar fora do território nacional, a exemplo do que o fazem governantes de outros países mais relevantes na geopolítica internacional. Mas a contabilidade do impeachment é ainda mais reveladora: a tentativa de protelar seu julgamento final no Senado para as calendas de agosto, quem sabe novembro, com todo o esforço que o inspirador do boneco Petralhóvski, do grupo Nas Ruas, tem feito, de nada adianta. A lição está aí: é duvidoso que Dilma, Lula e a PT o tenham compreendido. Mas os componentes do Senado, com assento abaixo da cumbuca oposta têm obrigação de ver, entender e imitar.

Afinal, Cunha está fora do caminho e o povo sem mandato provou que tem força para impor sua vontade de mais de 100 milhões de cidadãos: Cunha fora, fora Dilma! Esta é a palavra de ordem neste veranico seco, mas fértil em lições politicas.

José Nêumanne Pinto

quinta-feira, 14 de julho de 2016


Dilma na nuvem

Vamos sentir saudades dela. Onde encontraremos outra tão deliciosamente inepta, magnificamente irresponsável e esplendidamente à vontade no seu sesquipedal despreparo? Ninguém se lhe compara na firmeza com que exerce seu desconhecimento sobre a lógica ou a aritmética mais simples. Ninguém a supera na arte de dizer sandices e, ao corrigir-se, dobrar a meta e dizer mais sandices. E ninguém faz isto num português tão tosco, singelo e de quinta. Refiro-me, claro, à ex-presidente Dilma Rousseff.

Depois de nos brindar com enunciados inesquecíveis sobre a mandioca, o vento estocado, a mulher sapiens, as pastas de dente que insistem em escapar do dentifrício e o meio ambiente como uma ameaça ao desenvolvimento sustentável, temia-se que seu afastamento nos privasse de novas contribuições ao nonsense. Mas Dilma não falha — é só colocar-se ao alcance de um microfone.

Sua última façanha está na internet e é facilmente acessível basta digitar "Dilma" e "nuvem". Ao saber outro dia que as acusações contra ela estão na "nuvem" — uma nova forma de armazenamento incorpóreo e universal de arquivos –, soltou os cachorros em entrevista a um canal de televisão.

"Pois bem", rugiu. "Inventam uma história fantástica. Que tá na nuvem. É. Tá na nuvem. Sei lá que nuvem. Sabe, eu não entendi muito bem essa história de nuvem. Tô aqui tentando apurar direitinho. Como é que uma coisa pode estar na nuvem? É muito simples estar na nuvem, não tem de provar. Que nuvem? Onde está a prova?"

A Dilma tá certa. Essa história de nuvem é mais uma tentativa de golpe contra uma mulher honesta, que fez o diabo para se eleger, digo, sofreu o diabo na ditadura. Quero ver provar. Mas o José Eduardo Cardozo [seu ministro de estimação, advogado e porta-voz] já está vendo isso. Ele vai desmoralizar essa nuvem.

Boulos quer esquerdas nas ruas em 31 de julho, mesmo dia de protesto pró-impeachment

Na condição de defensor do impeachment de Dilma, de critico severo das esquerdas, de apoiador de uma agenda liberal, de entusiasta das privatizações, quero aqui fazer um agradecimento público a Guilherme Boulos, o chefão do MTST.

Mais do que isso! Anuncio: “Estamos juntos, companheiro! Conto com você para levar às ruas milhares de pessoas que pensam como eu. Sem a inestimável colaboração das esquerdas e sua contribuição milionária — ou melhor: bilionária — para todos os erros, não teríamos ido tão longe. Não fossem vocês, é pouco provável que conseguíssemos nos livrar de Eduardo Cunha e Dilma Rousseff a um só tempo”.

Por que isso tudo? Já explico. Antes, algumas considerações.

Grupos que fizeram a defesa do impeachment de Dilma — como MBL (Movimento Brasil Livre), Vem Pra Rua e Nas Ruas — marcaram um protesto, que eu diria propositivo, para o dia 31 de julho, que é, como de hábito com gente ocupada, um domingo.

Chamo de protesto propositivo porque, com efeito, estarão nas ruas para reforçar o seu apoio ao impeachment, mas também para apresentar reivindicações ao governo Temer. O MBL quer, entre outras coisas, que o Planalto encampe a defesa do fim do foro especial por prerrogativa de função — tese que não aprovo, diga-se —, a privatização dos Correios e da Petrobras e a expulsão da Venezuela do Mercosul. Apoio e aplaudo.

O Vem Pra Rua vai marchar em defesa da Lava-Jato e em apoio às 10 Medidas Contra a Corrupção propostas pelo Ministério Público — noto: algumas são boas; outras são fascistoides. Mas não entro agora no mérito das minhas divergências com os movimentos.

O fato é que eles são, sim, defensores do impeachment e de sua legalidade e legitimidade. Vão às ruas para deixar claro ao Senado que estão vigilantes — afinal, sabem que não é tarefa trivial conquistar ali pelos menos 54 votos —, mas também cobrar avanços na agenda que saiu vitoriosa nas ruas — já que Dilma destruiu aquela que venceu nas urnas.

É claro que as ruas estão um tantinho frias, não é? Vivemos um mês de férias escolares. Poucos acreditam que Dilma possa voltar, e o governo Temer, dada a sua natureza, não é do tipo estridente, que convoca manifestações passionais — nem contrárias, é bom notar.

Eu estava até um pouco temeroso, sabem?, de que a manifestação pudesse ser meio acanhada, a despeito do esforço valoroso desses grupos. Mas tudo mudou.

Fico sabendo que Gilherme Boulos e seus amiguinhos de esquerda decidiram, ora vejam!, do alto de sua conhecida irresponsabilidade, convocar uma manifestação para o mesmo dia 31. Lembrando seus tempos de burguesinho birrento, preferido das tias, Boulos raciocina: “Ninguém é dono da rua. Nós temos direito de manifestação e vamos exercê-lo. Espero que a polícia nos trate da mesma forma que trata a turma de verde e amarelo na Paulista”.

É uma provocação barata. A manifestação dos movimentos pró-impeachment está marcada há mais de um mês. O Senado julgará Dilma no fim de agosto. Se Boulos agora decidiu dar tarefa a seus desocupados também num domingo — as esquerdas costumam protestar só em dias úteis, para infernizar a vida de terceiros —, há outros a escolher no calendário.

É claro que coisas assim são desaconselháveis. O protesto contra Dilma e em favor de uma pauta para o governo Temer está marcado para a Paulista. As esquerdas pretendem se encontrar no Largo da Batata, subir a Rebouças e descer a Consolação, passando a poucos metros de distância de sus antípodas. Mais: é grande a chance de grupos de um lado e de outro cruzarem suas bandeiras em ônibus e metrôs.

Esquerdistas são treinados em arruaça e em confronto. A conversa mole de Lula de que se deve abordar um “coxinha”, como ele disse, com carinho é pura ironia troglodita. Ele sabe que as coisas não funcionam desse modo. Se os militantes de Boulos não obtiverem autorização para subir a Rebouças e descer a Consolação, as forças de Segurança do Estado estarão apenas cumprindo o seu dever. São Paulo não é o gramado do Congresso.

Mas esperem: este era e continua a ser um texto de agradecimento a Boulos. Faltava um elemento a mais que pudesse dar ânimo aos militantes pró-impeachment. Agora já temos. Esse rapaz vem nos lembrar de que “os urubus continuam passeando entre os girassóis”. E que é mais necessário do que nunca combatê-los e vencê-los.

Dentro da lei e em ordem. Uma defesa que eles, obviamente, não podem fazer porque isso é coisa de coxinha. Felizmente!

Ah, sim: Kim Kataguiri, um dos coordenadores do MBL, explica à Folha a natureza do dia 31: “Nossas manifestações, de nenhuma maneira, foram uma espécie de ‘Vai lá, Temer, tome o poder’. O Temer é uma consequência constitucional [do processo de impeachment]. O ato será para pressionar por reforma”.

É isso. Sem pressão, amiguinhos, não acontece nada!

Marxismo no direito e a nossa insegurança

Você provavelmente se criou assumindo como verdadeiras algumas premissas, entre as quais a de que pagamos impostos para que o Estado nos proporcione serviços, ou a de que os poderes de Estado priorizam o interesse público.

O tempo e a vida lhe ensinaram, contudo, que há grande distância entre tais premissas e a realidade. No mundo dos fatos, é para manter o Estado que pagamos impostos. A prioridade número um dele é cuidar de si mesmo. E a preocupação maior dos poderes de Estado é com sua manutenção e com a qualidade de vida de seus membros.

Desnecessário provar o que afirmo. Prefiro dar um passo além e desnudar outro mal que se instalou no Estado brasileiro e mais intensamente no nosso Direito. Refiro-me a uma visão marxista da criminologia, dita criminologia crítica. Ela vê o ato criminoso como consequência da estrutura de dominação e como reflexo de uma luta de classes da qual a própria lei penal é instrumento. A criminalização de condutas seria, então, a forma pela qual o grupo social superior sanciona e reprime certas ações do grupo social inferior. Dito isso, você começa a entender, por exemplo, a origem do uso permanente que as esquerdas fazem do verbo "criminalizar" quando se referem aos repúdios à invasão e à destruição de bens públicos e privados: "Vocês estão criminalizando os movimentos sociais!". Confere?

Pode não parecer muito (quando o bem agredido não nos pertence), mas se trata de algo com seriíssimos reflexos na criminalidade, na ordem pública e na nossa segurança pessoal. Quando estas ideias saem dos livros, descem com canudo na mão as escadarias das universidades e ganham vida nos tribunais e nos parlamentos, nossa segurança pessoal começa a perder a tutela do Estado e de suas instituições. Perde-a, pela convicção ideológica dos mais altos níveis institucionais. E perde-a, nos níveis inferiores, pela total incapacidade de corresponder à demanda social. Faltam vagas nos estabelecimentos penais e são insuficientíssimos os contingentes policiais. A estes, falta verba, viatura, armamento e munição. E ainda caem impiedosas sobre seus ombros acusações de brutalidade, preconceito, despreparo e cobranças incompatíveis com o cotidiano de quem ganha o pão com o sangue, a saúde, o medo e a vida.

Como o leitor destas linhas deve ter percebido, a questão que aqui abordo tem tudo a ver com seu dia a dia! Parte significativa da insegurança em que todos vivemos decorre dessa insidiosa penetração do marxismo no nosso Direito e na nossa Política. E ainda temos que assistir os defensores dessa ideologia em orgulhosa contemplação de si mesmos e de sua virtuosa benignidade para com os malfeitores que nos atacam...

Não haverá policiamento suficiente enquanto os mesmos criminosos, ainda que presos incontáveis vezes, continuarem retornando às ruas pelas mãos gentis do Estado. Nem enquanto a regra for a de prender pelo menor tempo possível. Quem disse que o sistema penal deve que ser um carrossel sem fim, com mais gente fora do que dentro? A mesma mão que nos escorcha nos tributos estende a sua para quem nos toma a vida e o patrimônio. Por quê? Porque escolheram inverter os polos, fazendo de cada um de nós os verdadeiros autores do suposto ato criminal, culposo ou doloso, de não vivermos e não querermos viver numa sociedade socialista. Como se não nos bastassem os exemplos bem próximos da Venezuela e de Cuba!

Pequenas mentiras

A deputada inglesa Andrea Leadsom abandonou a disputa pela chefia do governo do Reino Unido porque foi desmascarada ao apresentar um currículo “exagerado”. Não foi só por isso, claro, mas a imprensa e seus colegas do Partido Conservador bateram nesse ponto: como uma candidata a primeira-ministra pode tentar alterar sua biografia para se valorizar? O ato foi considerado uma falha moral e um erro de estratégia política.

Se estivesse disputando algum cargo no Brasil, não teria que se preocupar com isso. Dilma Rousseff fez pior. Foi apanhada pela imprensa em 2009 com um currículo falso, apresentou umas desculpas esfarrapadas e seguiu em frente. Nem seus adversários bateram nesse ponto.

Na política brasileira, desvios de conduta e falhas morais não são consideradas. Os políticos não renunciam nem quando apanhados com contas secretas, por que iriam se preocupar com “mentirinhas”?

Reparem na diferença: Andrea Leadsom, que concorria com Theresa May pelo cargo de primeira-ministra, disse em entrevistas que havia dirigido negócios financeiros por 25 anos. Seu currículo oficial a apresentava como diretora de duas instituições financeiras.

Os jornalistas checaram e, bem, era diferente. Ela havia trabalhado em instituições financeiras, mas em funções secundárias e não ligadas diretamente à gestão dos investimentos. Também não havia sido diretora, mas vice-diretora, como admitiu — e numa área não financeira, entre muitas outras vices, como descobriu a imprensa.

Sua capacidade de liderar o país já estava em xeque — e ela certamente perderia a disputa para Theresa May se fosse bater voto. Mas aquela falha liquidou sua candidatura. E mais outra declaração: que seria melhor primeira-ministra porque era mãe. Depois pediu desculpas a May, mas já era fim de caminho.

Pensaram nas declarações sem sentido da presidente Dilma? Pois tem mais: em 2009, então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, já escolhida candidata pelo presidente Lula, ainda mantinha no seu currículo oficial, registrado no site do governo, que era mestre em Teoria Econômica e doutoranda em Economia Monetária pela Unicamp. Na Plataforma Lattes, base oficial de dados de currículos na área acadêmica, constava até o nome da tese de mestrado, a data de obtenção do título (1979) e o nome do orientador.

Tudo falso, como apurou primeiramente a revista “Piauí” e depois O GLOBO. Não havia tese nenhuma, nem curso de mestrado ou doutorado concluídos. Dilma apenas frequentara aulas no doutorado.

Como se explicou?

Disse que não fazia a menor ideia de quem havia colocado os dados na Plataforma Lattes. Desculpa esfarrapada: só a própria pessoa tem os documentos e senhas para mexer no seu currículo. Pode passá-los para alguém, mas aí sabe ou tem a obrigação de saber o que a outra pessoa está fazendo.

E no site da Casa Civil? Outro pequeno equívoco que mandou corrigir.

Como não percebeu os “erros” durante tanto tempo? Estava trabalhando pelo Brasil — aliás, Dilma disse que não pôde apresentar teses justamente porque estava trabalhando. Mas quando, em entrevistas, era apresentada como mestre, ela não corrigia.

E ficou por isso mesmo. Parece que estava dizendo algo do tipo: Qual é? Vão criar caso por uma bobagem?

O deputado Eduardo Cunha vai perder o mandato — quer dizer, pode perder o mandato, nunca se sabe — por uma mentira. Ele disse, oficialmente, em comissão da Câmara, que não tinha contas no exterior. Quando apareceram as contas, veio com essa desculpa de que as contas não estavam em nome dele, mas de trusts, um tipo de operação financeira. Que fosse ele o beneficiário do trust, portanto, o “beneficiário” do dinheiro, não quer dizer nada, diz o deputado até hoje.

Não faz o menor sentido, mas virou um caso complicado, muitos políticos concordam com Cunha, dizem que não se pode cassar um mandato por um deslize menor — e a Câmara e o Supremo Tribunal Federal gastam tempo, energia e dinheiro com essa história.

Dizem por aqui que política é a mesma farra em qualquer país. Não é.

Na Inglaterra, não se diz que a deputada Leadsom cometeu um pequeno deslize. Diz-se que se ela mente no currículo, o quanto não mentiria no governo? Se ela apresenta um currículo falso — algo de sua inteira responsabilidade — o que mais pode fazer?

E por falar em casos acadêmicos: em 2011, o ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg, renunciou ao cargo porque foi apanhado em um plágio na sua tese de doutorado. Ele tinha 39 anos, era o mais promissor político do momento. O tal “erro”, como ele admitiu, havia sido cometido 15 anos antes, quando ele nem pensava em política.

Pediu desculpas e saiu. A universidade cassou o seu título.

Pois é, pensaram assim: se o cara começa roubando no doutorado, imaginem o que mais pode fazer.

Carlos Alberto Sardenberg

Por trás da sombra dos postes

Pode a muitos parecer trivial, sem lá qualquer importância, mas a nova ciclovia do Recreio, na Zona Oeste do Rio, nem inaugurada, contar com quatro postes seguidos ocupando quase uma faixa inteira da pista destinada aos ciclistas não é coisa de amador. Nem muito menos o "conserto" de refazer a obra para desviar a pistas dos postes que estavam onde não deveriam estar.

A obra e o jeitinho da Prefeitura são dessas aberrações brasileiras do descaso com a população e com o dinheiro público. A colocação de postes onde não deveriam estar também não é caso recente nem muito menos descuido de empreiteira. É delito administrativo como inúmeros que diariamente são perpetrados por governos mais interessados no visual e no resultado eleitoreiro.

Governo sério põe os postes em local certo e há legislação até mesmo para sua instalação. Quando há "descuidos" como esse no Rio há que se penalizar os culpados. E incrícel, lá fora, é que são punidos. País que se deseja sério, principalmente governos e administradores, deve se dar o respeito às normas.

As anomalias de obras no Brasil é bem o reflexo do descaso com a coisa pública. Se foram postes mal instalados, amanhã serão hospitais sem condições, escolas de lata e em prédios inadequados, "postes" governamentais incapazes, como os de triste memória no Planalto e em São Paulo, e de cambulhada irá o país descendo a ladeira sempre pagando caro pelos "consertos". E há uma lista infindável de acertos caríssimos por fazer.

É bom prestar atenção nos postes. Se no passado muitos batiam, descuidados, com a cabeça no poste; hoje são os postes com que nos batem na cabeça.

Criminologia

A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.
A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.
A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.
 
Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.
Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.
Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:
"Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?"
Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filé mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume.Eduardo Galeano 

Nada além da pasmaceira

Outubro está chegando, em especial o seu primeiro domingo. Nesse dia, o país escolherá seus prefeitos e vereadores para os próximos quatro anos. Com ênfase especial para as prefeituras das capitais. Alguns concorrerão a um segundo mandato, por conta da reeleição. Outros, em nome da renovação.

A dois meses e meio da decisão referente à mais importante iniciativa política de todo cidadão – manifestar-se sobre sua vida diária – não se vê uma participação sequer. É bom não esquecer o que dizia o dr. Ulysses: “Ninguém mora na nação, nem no estado. Mora-se no município.”


Em função da crise atual e seus desdobramentos, desde a falência das instituições até o festival de roubalheira que assola o país, não se vê uma só referência ou preocupação do eleitor para com as eleições municipais. Nem no interior, nos grotões, nem nas capitais maiores ou menores.

Os partidos, postos em confusão, sequer tentam sensibilizar suas bases. Desde o escândalo das empreiteiras que a fonte secou, dinheiro não sairá para amealhar votos em troca de favores. A lei de doações ficou mais rígida e a distribuição desenfreada de recursos tornou-se tão cara quanto perigosa. Pode dar cadeia.

Entre os mais de 5.600 prefeitos que serão eleitos ou permanecerão nos postos, haverá gente nova. Líderes capazes de surpreender pelas performances ou de frustrar, como rotina. O diabo é que até agora parecem inexistir. Não se fala de nenhum. Muito menos movimentos políticos em condições de despertar entusiasmo ou ânimo.

Se é assim que se inicia a renovação tão ansiada, começamos mal, sem nenhuma evidência de recuperação. Nem o cidadão comum acorda para sua participação nos próprios destinos, nem os candidatos se animam a prometer nada além da pasmaceira.