terça-feira, 8 de março de 2016

Cassação e impeachment

O país está envolvido em intermináveis crises econômica, política e social

O governo acabou! Resta determinar como se dará o seu fim! A experiência petista está terminando na delegacia!

Lula foi conduzido coercitivamente à Policia Federal. Terminou a impunidade.

Não é possível governar com escândalos de corrupção produzidos em maior parte pelo PT, com seus dirigentes e líderes presos, condenados ou sob inquéritos e denúncias.

Não é possível governar com o ex-presidente Lula preocupado apenas com a sua própria sobrevivência.

Não é possível governar na mais profunda crise econômica, sem nenhuma ideia nem condições para dela sair.

Não é possível governar sem nenhum apoio partidário (nem do PT) e sem nenhuma popularidade.

Não é possível governar de costas para a sociedade, em meio a crises política, econômica e social, com o PIB despencando e o desemprego adquirindo grandes proporções.

Várias saídas são possíveis. O mais conveniente para o país seria a renúncia ou o afastamento da presidente para tratamento de saúde. Porém, tal posição esbarra em dois grandes problemas.

O primeiro deles consiste em que a própria presidente deveria tomar a iniciativa de tal ato. Porém, para isto, seria necessário um gesto de grandeza que não faz parte de suas qualidades. Nem seus erros consegue admitir. É dominada por uma espécie de autismo em relação à própria realidade por ela criada. Talvez, agora, possa ser pressionada a isto, considerando a nova situação política.

O segundo deles reside em que o ex-presidente Lula poderia tê-la convencido a tomar tal atitude, mas isto, aparentemente, não lhe interessava. Agora, perdeu qualquer condição de tal iniciativa. E a imagem que possui de si, desproporcional aos seus feitos, porém talvez equivalente aos seus malfeitos, não permitiria tal gesto.

Lula e o PT ficaram sem nenhuma narrativa. Logo, o impeachment ou a cassação poderiam lhes ser adequados, pois seriam incorporados ao discurso alicerçado em ideias do tipo “contra a direita”, “contra o golpe” e “contra a mídia golpista”. A nova: “preso político”. São, evidentemente, bobagens, mas é o que restou de um partido sem ideias.

Sobram duas alternativas: a cassação e o impeachment.

As provas de envolvimento da campanha da presidente Dilma em corrupção e em desvio de recursos públicos estão se avolumando. As novas delações, dentre as quais a do senador Delcídio Amaral, fazem crescer ainda mais a fervura. As chances de cassação aumentam em muito, pois o governo e o PT conseguem cada vez menos se defender. E a Lava-Jato não dá tréguas, passando o país a limpo.

Ocorre que um julgamento pelo TSE, por vias normais e sem protelações, demoraria em torno de um ano. Se houver impugnações, diligências e recursos dos mais diferentes tipos, pode se prolongar por dois anos. Estaríamos no final de 2017 ou no início de 2018.

Note-se, aqui, que há questões, pertinentes, quanto a se o TSE poderia cassar uma chapa presidencial sem passar pelo Congresso, pois não está prevista a cassação na Constituição, mas em lei complementar. Em todo caso, tal tipo de processo não deixaria de ensejar dúvidas.

O vice-presidente, por sua vez, teria fundadas justificativas para pleitear uma individualização da chapa, dentre outras razões por haver julgamentos distintos da presidente e do vice, prestações de contas apresentadas separadamente, com doadores diferentes, juramentos distintos, citações diferentes, estruturas jurídicas diferentes da Presidência e da Vice-Presidência, não transferência da culpa e assim por diante.

Considere-se, contudo, a título de hipótese, que haveria a cassação da chapa. Se ocorresse ainda neste ano, o deputado Eduardo Cunha assumiria a Presidência por um período de 90 dias, presidindo o processo eleitoral, com todos os seus problemas de legitimidade. Acrescente-se, ainda, o descrédito total da classe política, de tal maneira que poderíamos ter o seguinte cenário.

Nem Aécio nem Lula seriam provavelmente os vencedores. Um tertius qualquer poderia ganhar o pleito, mergulhando o país em uma nova incerteza e instabilidade. O país continuaria, sob outras roupagens, envolvido em intermináveis crises econômica, política e social.

Por esta razão, voltaria a ganhar força a tese do impeachment, abreviando o processo e assegurando uma tranquila transição do ponto de vista constitucional. O Brasil poderia resgatar-se a curto prazo, o que, hoje, parece impossível.

Nos meios políticos e na sociedade em geral, observa-se um clima muito mais favorável ao sucesso de um eventual impeachment da presidente da República. A percepção de que o barco está naufragando e de que o PMDB e outros partidos tudo podem perder acrescenta ainda mais força a esta alternativa.

Deputados, antes contrários ou indecisos, já se manifestam favoravelmente a esta opção. Estão sendo pressionados pela opinião pública, por suas bases eleitorais e estão cientes de que, com o atual governo, não há saída à vista. Temem cair com Dilma e o PT.

Os senadores, sobretudo do PMDB, já estão dando sinalizações de que poderão abandonar o barco de Dilma. O próprio senador Renan Calheiros já manifestou apoio ao vice-presidente à presidência do partido e o convidou a fazer campanha em Alagoas.

Note-se que o vice-presidente conseguiu reunificar e pacificar o PMDB em uma chapa consensual, algo em que poucos apostavam até algumas semanas atrás. E tal fato é da maior importância, porque é uma resposta política à desunião fomentada pela presidente Dilma e pelo próprio PT. Nesta perspectiva, poderia reunificar e pacificar o país.

Por último, devemos atentar ao fato de o impeachment ser uma solução prevista na própria Constituição, assegurando uma transição propriamente institucional. Ele é, neste sentido, menos traumático do que a cassação. As instituições republicanas seriam totalmente preservadas e um novo caminho poderia se vislumbrar para todo o país.

Em todo o caso, o país não aguenta mais três anos imerso em uma crise que parece não ter fundo!

Urge que o impeachment volte a ser prioritário. Para o bem do Brasil.

Denis Lerrer Rosenfield 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Lula nunca mais!

Lula (Foto: Arte: Antônio Lucena)
Arte: Antonio Lucena
Pensei: o cara pirou. Só pode ser. Tudo bem que tenha se sentido ofendido pela reportagem do The New York Times sobre seu gosto por bebidas alcoólicas. Pega mal para um governante ser citado assim.

Mas o presidente russo Boris Ieltsin também o fora. E na rede de televisão CNN protagonizara cena memorável dançando em um palco no centro de Moscou depois de ter bebido todas as vodcas possíveis.

Daí a Lula determinar a expulsão do país do correspondente do jornal, Larry Rother? Sinto muito, era exagero. E também um abominável ato de arbítrio.

Foi isso o que ele ouviu dos poucos assessores com alguma gota de coragem para enfrentar seus costumeiros ataques de cólera - “exagero”. Em público, ele vestia a fantasia do “Lulinha paz e amor” com a qual se elegera pela primeira vez.

Um dos assessores, em reunião no gabinete presidencial do Palácio do Planalto, sacara de um exemplar da Constituição e apontara o artigo que garantia ao jornalista o direito de permanecer no Brasil.

Então Lula cometeu a célebre frase que postei no meu blog no dia 12 de maio de 2004, poucas horas depois de ela ter sido pronunciada: “Foda-se a Constituição!”.

Naquele dia, mais de um deputado e senador discursou no Congresso a propósito do que Lula dissera a respeito da Constituição, embora nenhum, por pudor ou receio de ferir o decoro, tenha reproduzido a frase ofensiva e grosseira.

Diretores de jornais e revistas me telefonaram perguntando se eu estava seguro do que publicara. Nenhum ousou escrever sobre o episódio. Eram outros os tempos.

Nos tempos das redes sociais, a imprensa não é mais reverente com os poderosos até porque perdeu o monopólio da informação. Algo que não se dê, a internet dá.

Palavras e frases consideradas chulas antigamente foram assimiladas pela linguagem corrente. De resto, como ignorá-las quando saem da boca de homens públicos e têm a ver com fatos públicos relevantes? Foi o que aconteceu outra vez com Lula.

Um vídeo postado na internet deu conta do que ele disse em conversa com a presidente Dilma poucos minutos depois do fim do seu depoimento forçado à Lava-Jato na última sexta-feira.



Lula disse: “Eles que enfiem no cu todo o processo". Referia-se, certamente, aos procuradores que o haviam interrogado. E ao processo que apura a roubalheira da Petrobras e a sua eventual culpa por ela.

A saída encontrada por Lula para sobreviver foi se declarar desde já candidato a presidente da República em 2018, correr assustado para o colo do PT, anunciar seu retorno às ruas e reconciliar-se com o discurso incendiário da época em que era inimigo das elites e a elas não se associara ainda, adotando apenas o que elas têm de pior.

Dará certo? Difícil que dê. Seria preciso combinar antes com os adversários.

Com a Lava-Jato. Com a crise econômica que se anunciou no seu segundo governo. Com a sucessora eleita e reeleita, sem talento para administrar, sequer, uma loja de produtos baratos, quanto mais um país.

Com o PT devastado pela corrupção e em queda acelerada no ranking dos partidos mais admirados. E com a maioria dos brasileiros que diz rejeitar a hipótese de votar nele, Lula, novamente.

Só há um responsável pela tragédia política e pessoal que Lula enfrenta: ele mesmo. Lula está quase nu. E o que já se vê não é recomendável para eleitores com 16 anos ou mais.

Jararaca irrelevante

A jararaca parece ser a novidade. Todos dizem que ela apanhou. Alguns dizem que a pancada pegou na cabeça. Outros juram que foi no rabo. Mas todos concordam. A jararaca parece não ter saído incólume.

Confesso que não lembrava exatamente o que era uma jararaca. Fui pesquisar. A original, segundo a Wikipédia, é uma serpente muito venenosa e responsável por grande parte das picadas de cobra em sua região de origem. Na natureza, tem jararaca de todo tipo e atendendo por muitos e diferentes nomes... Jararaca-do-campo, jararaca-do-cerrado, jararaca-dormideira, jararaca-preguiçosa e jararaca-verdadeira... E que todas gostam de ratos.

Já em sua forma humana, jararaca, na gíria, é Pessoa fofoqueira, traiçoeira. Qualidades adequadas para descrever a jararaca em questão. Esta, sem duvida alguma, foi atingida pela paulada metafórica. E virou noticia. Apesar do golpe, sobreviveu. Meio tonta, fez barulhos, esperneou, reclamou. Tem o direito.

Alguns podem achar que esta jararaca luta contra a extinção. É improvável. Ela provavelmente sobreviverá para ver o futuro, viver nele, testemunha-lo. Para esta jararaca, o futuro, especialmente o imediato, é importante. Para o futuro, é possível que a jararaca não tenha importância alguma.

Futuros são assim. Relegam a (no máximo) notas de rodapé personagens menores da trama. Lembram somente daquilo que vale a pena preservar. E, convenhamos, muita coisa e muita gente nos dias de hoje merecem ser esquecidos. Ou ignorados. A jararaca, inclusive.

Com sorte, em alguns anos, os ratos, as jararacas, o veneno, o bote, os ataques, enfim, estes tempo com muito calor e nenhuma luz talvez façam parte de passado distante que a gente possa ignorar. E dele levar somente o aprendizado para que nada disso se repita.

No meio tempo, a gente vai ter que ouvir e presenciar o estrebucho e barulho da jararaca. E entender que ela luta não pela sua sobrevivência. A jararaca (ou pelo menos esta jararaca) não está nem corre o risco de ser, extinta. Ela apenas perdeu a importância.

A gente já cansou dela. E prefere que ela continue sua caminhada relutante em direção ao ostracismo, enquanto, infelizmente, abusa da paciência, dos ouvidos e da boa educação. Continua viva. Mas cada vez mais esquecida. E irremediavelmente irrelevante.

Investigação sobre Lula faz Brasil flertar com crise institucional

AUTO_sinfronio
Uma república não prospera sem o funcionamento pleno de suas instituições, ensina a literatura política e econômica mais moderna. Na sexta-feira, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi coagido a depor à Polícia Federal por conta da Operação Lava Jato houve sinais de que a convivência entre os Poderes no Brasil estava prestes a cruzar uma linha perigosa.

A presidenta Dilma Rousseff manifestou "integral inconformismo" após ver seu mentor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ser coagido a depor à Polícia Federal por conta da Operação Lava Jato. Lula, por sua vez, reivindicando seu legado enquanto presidente, dirigiu as baterias contra os procuradores e juízes que investigam sua relação com os maiores empreiteiros do país. O problema, segundo o ex-presidente, não é a oposição ao Governo, mas “uma parcela do Judiciário brasileiro que está trabalhando com certos setores da imprensa”.

O mundo judiciário de fato não reagiu bem à condução coercitiva de Lula para o posto avançado da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas. Juristas ouvidos pelo EL PAÍS questionaram o procedimento, classificado como exagerado e até inconstitucional por alguns deles. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse à Folha de S.Paulo que a coerção de Lula foi "um ato de força" e questionou as justificativas utilizadas pelo juiz Sergio Moro para embasar a decisão: "Será que ele [Lula] queria essa proteção? Eu acredito que na verdade esse argumento foi dado para justificar um ato de força. Isso implica em retrocesso, e não em avanço".

A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) reagiu, dizendo em nota que a força-tarefa da Lava Jato atua "de acordo com a mais rígida e cuidadosa observância dos preceitos legais, sem violência ou desrespeito aos investigados". Os procuradores argumentam ainda que "a condução coercitiva é instrumento de investigação previsto no ordenamento e foi autorizada no caso do ex-presidente Lula de forma justificada e absolutamente proporcional, para ser aplicada apenas se o investigado eventualmente se recusasse a acompanhar a autoridade policial para depoimento penal".

Exagerada ou não, a condução coercitiva foi autorizada pela Justiça outras 117 vezes ao longo das 24 fases da Operação Lava Jato. A utilização do procedimento para ouvir Lula, portanto, mostra que, apesar do desconforto e dos tumultos que isso possa causar, não foi uma exceção entre os investigados. Em entrevista à BBC Brasil, o presidente da ONG Transparência Internacional, José Ugaz, disse que a investigação contra Lula "mostra que o combate à corrupção não deve levar em conta a importância política ou econômica de ninguém".

A Operação Lava Jato parece ter sentido o impacto das reações. Neste sábado e de maneira inusual, o juiz Sergio Moro divulgou nota para dizer que a condução coercitiva de Lula "não significa antecipação de culpa do ex-presidente" e para "lamentar que as diligências tenham levado a pontuais confrontos em manifestação políticas inflamadas, com agressões a inocentes, exatamente o que se pretendia evitar". O juiz ainda repudiou "atos de violência de qualquer natureza, origem e direcionamento, bem como a incitação à prática de violência, ofensas ou ameaças a quem quer que seja, a investigados, a partidos políticos, a instituições constituídas ou a qualquer pessoa". Mais tarde foi a vez do time de procuradores da Lava Jato se defender também em nota.

Comedido ao comentar a crise e ao mesmo tempo um personagem importante dela, o vice-presidente da República, Michel Temer, disse durante evento com juízes no Mato Grosso do Sul na sexta-feira que o país passa por um "refluxo institucional". "A cada 25, 30 anos, há um refluxo, quase um fatalismo histórico, um fluxo e refluxo institucional, começam a aparecer crises que demandam novas providências do povo brasileiro", registra O Estado de S.Paulo. Fazendo menção ao golpe militar de 1964, Temer disse que o poder Executivo tem uma "vocação centralizadora muito forte" e que, para evitar o rompimento de ciclos históricos, é preciso "mudar as instituições" periodicamente.

Os sintomas de uma crise institucional já vinham sendo sentidos desde que a Lava Jato começou a tocar os altos escalões da República — gerando troca de farpas entre membros do Judiciário, do Executivo e do Legislativo —, e se acirrou quando o Governo perdeu o controle da Câmara, com a eleição de Eduardo Cunha, em fevereiro de 2015. Sem base no Congresso Nacional, Dilma se vê forçada a optar entre fazer as reformas para equilibrar as contas públicas — com os ônus políticos que as acompanharão — e ser fiel à sua base social.

A presidenta talvez estivesse na melhor posição para liderar um processo de estabilização, mas, já abalada pelo turbilhão político, foi diretamente envolvida pela primeira vez nesta semana no enredo da Lava Jato, graças ao vazamento do princípio de um acordo de delação premiada do senador Delcício do Amaral (PT). Não bastasse, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), que já é tratado pelo STF como réu por conta da mesma operação, foi denunciado mais uma vez pelo Ministério Público por irregularidades cometidas no âmbito da Petrobras — a denúncia contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), ainda aguarda parecer dos ministros, após ter sido retirado da pauta de julgamentos.

Além disso, o ministro da Justiça deixou o cargo por conta de pressões do partido da presidenta, insatisfeito com os rumos da Lava Jato — no final do ano passado, Joaquim Levy já havia deixado o Ministério da Fazenda por atritos com o PT. Tudo isso ocorre em meio à maior recessão desde os anos 1990 e a perspectiva de um segundo ano seguido com encolhimento da economia. De todo esse caos, pode surgir boa notícia se o Brasil conseguir enfrentar e atravessar todos seus problemas políticos e os Poderes passarem por esse "teste de estresse" sem derrapagens. Se a Operação Lava Jato for um sucesso, o país dificilmente estará em pior condição do que quando ela começou, há dois anos — e isso não será pouco.

Reservada a bacanas

Foi-se o tempo em que ser corrupto no Brasil estava ao alcance de qualquer um.

Numa das fabulosas boates do Rio nos anos 50, um boêmio sentado ao lado da mesa de um assessor do ministro da Agricultura, por exemplo, ouvia-o dizer que o governo iria fazer uma importação de tratores. O sujeito puxava conversa e convencia o assessor de que, se essa importação incluísse discretamente 50 Cadillacs rabo-de-peixe, eles poderiam ganhar um bom dinheiro revendendo-os na praça e dividindo a féria. Era assim nos governos Dutra, Getúlio, Juscelino.

No tempo da ditadura, muitos generais trocaram a agrestia dos quartéis, com seu perfume de estrebaria, pela presidência de órgãos públicos, com salários que lhes permitiam pedir reforma do Exército e trocar a casinha no Maracanã pelo apartamento em Copacabana. As obras do "Brasil grande" também podiam não sair das pranchetas, mas, enquanto estavam em estudos, socorriam muitos coronéis desamparados.

Nos governos Sarney, Collor e FHC, foi preciso ser mais criativo para ser corrupto.

Políticos e empresários desenvolveram afinidades jamais sonhadas, donde surgiram as concorrências com cartas marcadas, o loteamento dos cargos públicos e as privatizações marotas. Ali a corrupção começou a encarecer.

Sob Lula e Dilma, explodiu. Nunca neste país foi preciso pagar tanta propina, superfaturar transações, investir em refinarias falidas, subornar políticos, nomear ministros, lubrificar tribunais, silenciar aliados, socorrer amigos, comprar medidas provisórias, pagar por palestras fantasmas e bancar a tomada do Estado por um partido. Para não falar nas boquinhas -é um filho aqui, outro ali, um instituto, um sítio, um tríplex, um pedalinho. E tudo em milhões, nada abaixo de sete dígitos.

Haja dinheiro. Hoje, só bacana pode ser corrupto.

Ruy Castro

Quem é Lula?


A Polícia Federal avança em busca da verdade disparando Aletheia, a mais nova e politicamente complexa fase da Operação Lava-Jato. Lubrificadas pela delação premiada de Delcídio Amaral, as investigações exigiam o depoimento do ex-presidente Lula, o que foi previamente assegurado por eventual condução coercitiva autorizada pelo juiz federal Sergio Moro. A delação de Delcídio embola os governos Lula e Dilma em uma engrenagem única em sinistra associação com piratas privados e criaturas do pântano político para a apropriação indébita de recursos públicos e para a permanência no poder. O mensalão e o petrolão seriam duas faces do mesmo fenômeno. E a autorização da condução coercitiva por Sergio Moro irritou o ex-presidente e inflamou a militância que o esperava na sede do PT após o depoimento.

Olívio Dutra, um dos fundadores do PT, diz que quem mudou foi o partido, e não seus adversários, atribuindo práticas degeneradas à política do pragmatismo, o “enorme guarda-chuva aberto por Lula”. O líder maior de seus adversários, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parece concordar com essa avaliação: “É preciso abrir o jogo: não se trata só de Dilma ou do PT, mas da exaustão do atual arranjo político brasileiro.” Compreendem os leitores o profundo silêncio das oposições? Entendem por que a defesa da República depende agora da Polícia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário?

Seremos testados nos próximos meses. Não apenas nossas instituições mas também o próprio Lula. Sua biografia não é a de Chávez, e o Brasil não é a Venezuela. Lula prestará um desserviço ao país, desmerecendo sua luta pela redemocratização, se incitar militantes à violência, em vez de enfrentar serenamente uma avaliação de suas responsabilidades perante a Justiça. Seria desesperada e temerária qualquer ameaça de convocar camisas negras, pardas ou vermelhas, “o exército de Stédile” e militantes de organizações sociais para brigar nas ruas. Seria uma provocação ao Exército de Caxias. Nossa democracia dispensa tanto a violência de milícias partidárias quanto as práticas transgressoras de bandos políticos, em que a cumplicidade e o silêncio solidário com os malfeitos colidem com a transparência e a integridade exigidas no trato da coisa pública.

Velho infrator

AUTO_alecrim
Septuagenário, Lula, após ter sido convidado a prestar depoimento na Polícia Federal, foi levado ao aeroporto de Congonhas , e lá ficou por três horas. Ao sair, parecia um desses jovens infratores que, encaminhados às delegacias especializadas e, na certeza de que serão libertados , surgem nas televisões, com imagem distorcidas e vozes digitais, falando besteiras, afrontando policiais, xingando repórteres e proclamando que são "dimenor".

O líder dos enfurecidos companheiros, comportando-se como incentivador de badernas e violência, usando a sua emissora privada, prometeu colocar seus ilegais guerreiros nas ruas para exigir respeito e privilégios.

Sendo "dimaior", o ex-presidente, com a colaboração de vídeo postado nas redes sociais pela "aliada Jandira Feghali", fala ao telefone com a ameaçada sucessora, e diz que podem enfiar, no orifício anal - para não ser chulo como o ex-presidente - os processos contra ele. Lula, que já havia feito discurso midiático, debochando da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça e da maioria do povo brasileiro, com a divulgação do vídeo de Jandira confirmou a sua fama de debochado e desbocado.

É inacreditável que tenhamos sido governado, por tantos anos, por uma pessoa que incita a violência, destrata interlocutores, desafia a mídia, além de preferir bebidas fortes a vinhos refinados, apesar de possuir adega climatizada em um sítio emprestado de um amigo.

A fama de apreciador contumaz de cachaça, Lula deve ter tomado uns tragos antes de proferir o seu discurso. Olhos empapuçados, cabelos ralos e desgrenhados, voz rouca vinda da garganta sofrida, o ex-presidente encontrou o palanque que ,a tempos, buscava e vociferou ameaças aos ventos.

Em um momento terrível para o Brasil, Lula deveria se espelhar no africano Nélson Mandela que, após vinte e sete anos de injusta prisão, pregou a paz e o perdão aos seus concidadãos. A preferência do assustado conduzido depoente pela África, governada por ditadores, aclara o interesse de investir fortunas naquelas paragens. Deve ser este o ideal do político decadente: governar o país sem oposição, sem democracia e sem justiça para todos.

Lula sabe que os seus dias de liberdade estão por um fio e, desesperadamente, retoma as rédeas do seu séquito e pretende sair às ruas do país, cobrando dos mais pobres a dívida por ter proporcionado a eles melhores condições de vida. Esses cidadãos não devem nada ao ex-presidente, ao contrário, todos governantes devem proteger os carentes, desde que não coloquem uma parte dos recursos em seus bolsos através de artifícios.

A derrocada da maioria dos nossos políticos é a verdadeira prova dos desmandos causados por corruptos e incompetentes. As investigações que desmancham as maravilhas do Brasil líder mundial já levaram à condenação e prisão homens de confiança de Lula e, agora, se aproximam, implacavelmente, ao governo da presidente Dilma.

Deve ser duro para uma menina que sonhava, erroneamente, implantar uma sociedade mais justa, estar atolada no lamaçal arrasador que destruiu não uma represa, mas, uma nação.

Dilma, que também é "dimaior", mas não tem os privilégios dos septuagenários, deveria se afastar das más companhias para não ser convidada, ao amanhecer, antes sair nas constantes pedaladas, a depor no processo da Lava-Jato perante ministros do Supremo Tribunal Federal.

A Igreja contra ofídios

A Igreja já não é mais aquela apoiando a luta dos petistas em favor dos pobres e oprimidos. Com a sutileza que lhe é conferida, inspirou a missa celebrada por Dom Darci José Nicioli, bispo auxiliar da Arquidiocese de Aparecida.

Lula consegue enterrar ainda mais a sua biografia

Em sua defesa na sexta-feira, o ex-presidente Lula cavou um pouco mais o buraco onde vai sendo enterrada sua biografia. O ex-presidente afirmou que os avanços sociais no país levaram as “elites” a persegui-lo, assim como à caça ao PT. O trabalho e o recolhimento de provas na Lava Jato e no Ministério Público seriam, em última análise, destinados a interromper o processo de melhora de vida dos mais pobres. Isso seria contrário ao desejo das elites.

Em 13 anos de poder, o PT promoveu a maior distribuição de renda da história brasileira. A renda dos 10% mais pobres aumentou, em termos reais (acima da inflação), cerca de 130% no período. A dos 10% mais ricos, 30%. Todos ganharam.

Ao final de seu governo, entregue com uma taxa de crescimento de 7,5%, a maior em 25 anos, Lula foi coroado como o presidente mais popular da história. Era apoiado pela grande maioria da população (83%), elogiado por empresários e reconhecido amplamente no exterior.

Além de distribuir renda, Lula conseguiu dobrar a taxa de crescimento do PIB em relação a FHC. Fez o Brasil acumular bilhões de dólares em reservas e ampliou como nunca o mercado consumidor, com mais acesso a bens e serviços.

No Nordeste, garantidor das últimas vitórias do PT, o ex-presidente virou rei. E a “mulher de Lula”, a “Vilma”, foi a escolha natural para a sua sucessão. Lula chegaria assim a presidente “tribom”, com disse nesta sexta. Eleito, reeleito e fazedor de sucessor.

Dilma depois arruinou a economia e pôs os pobres no caminho de volta. É jogo jogado. Ela foi eleita democraticamente e tinha o direito de governar como julgasse necessário. Se mentiu e o povo engoliu na conquista de um segundo mandato, problema do país. Donald Trump também está aí.

Ao mesmo tempo que tenta dividir o país entre “nós” e “eles”, Lula demonstra todo o seu isolamento ao voltar a se abraçar em Dilma. O naufrágio econômico também seria culpa das mesmas investigações contra ele, que teriam paralisado o governo.

Apesar dos prováveis imprevistos, a Lava Jato e a atual recessão parecem ter definido a sua dinâmica. O grau de degradação na ação e discurso de seus envolvidos passa agora à grande incógnita

Ou lava ou racha

mario-5
Agora, não há mais como escapar do julgamento da História, com letra maiúscula. A explosão de dois homens-bomba deixou o país perplexo e espalhou estilhaços no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto. Os homens-bomba não são meros doleiros, ou diretores de estatal, ou empreiteiros, mas líderes de nossa República, investigados pela Lava Jato no exercício de seus mandatos. O ex-líder do governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio do Amaral, (ainda) do PT, e o (ainda) presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, se tornaram reféns e protagonistas explícitos do grande esquema de corrupção e guerra suja de poder que apequenou a política brasileira e desacreditou seus maiores representantes.

Primeiro, como aperitivo, caiu em desgraça Eduardo Cunha, depois de um ano de manobras irritantes. Cunha foi, enfim, para felicidade geral da nação, transformado em réu pelo Supremo Tribunal Federal e por unanimidade: 10 votos a 0. É acusado de receber ao menos US$ 5 milhões desviados da Petrobras. Pouco mais de uma hora após ser proclamado réu, cinco partidos pediam seu afastamento da presidência da Câmara: PT, PSDB, PSOL, PPS e Rede. Cunha parecia o único capaz de reunificar o país – contra ele.

Ele perde o mandato se pelo menos 257 de seus 512 colegas quiserem, em votação aberta. Não há mais clima para Cunha se manter presidente da Câmara e driblar a cassação, a não ser que faça comoRenan Calheiros, que renunciou para não perder o mandato – e voltou, como o afilhado favorito de José Sarney, à presidência do Senado. Sobre o correligionário Cunha, Renan já se pronunciou: “Me inclua fora dessa. Não me ponha nessa confusão”.

O maior homem-bomba explodiria logo depois, deixando a presidente Dilma Rousseff anestesiada, sem capacidade de reação imediata. A explosão veio em forma de palavras, trechos devastadores de um depoimento de 400 páginas que o senador petista Delcídio do Amaral teria dado ao procurador-geral da República, como parte do acordo para ser solto no dia 19 de fevereiro. Foram quase três meses de prisão, acusado de atrapalhar as investigações da Lava Jato e desmascarado em vídeo gravado num quarto de hotel pelo filho de Nestor Cerveró.

A revista IstoÉ antecipou sua edição para publicar com exclusividade o depoimento de Delcídio, ainda não formalizado pelo STF como delação. Collor e Nixon caíram por muito menos. Em vez de afirmar que as declarações publicadas são uma fraude e não passam de mentiras, Delcídio disse apenas “não reconhecer o teor, a origem e a autenticidade”, em nota assinada com seu advogado. Não confirmou o conteúdo, mas não o desmentiu.

O que veio à tona com o homem-bomba e ex-braço forte de Dilma e Lula no Congresso é um conjunto de crimes contra a democracia, que vão muito além da corrupção passiva ou compra de votos. Articulação para barrar a Lava Jato e sabotar a Justiça, nomear desembargadores simpáticos ao PT, influenciar o voto do Supremo Tribunal Federal, soltar presos como Marcelo Odebrecht. Complôs tendo Lula como mentor das mesadas para Cerveró calar a boca – mesadas que teriam saído do bolso do amigo pecuarista José Carlos Bumlai.

Se um terço desse depoimento ficar comprovado, o governo implodirá, por renúncia ou impeachment. Antes disso, cabeças rolarão – espero que essa expressão não passe de uma metáfora. Tem muita gente preocupada com a sobrevivência física e política. O filho de Cerveró deixou o país. O senador Delcídio tornou-se, para o PT, réu confesso, inimigo declarado do partido e do governo e forte candidato a ser cassado rapidamente.

Seja qual for o desfecho desse drama, Lula – que na sexta-feira começou a ser investigado oficialmente pela Lava Jato – e Dilma devem estar arrependidos ao menos de um detalhe: não ter escutado o conselho de Delcídio. “Presidente, é perigoso deixar os feridos pelo caminho.” O senador disse isso aos dois, Lula e Dilma, ao longo de anos, antes de ser preso e experimentar o veneno do PT. “Coisa de imbecil” e “burrada” – foi a reação de Lula ao vídeo que derrubou Delcídio. O PT ficou dividido entre a expulsão sumária e a suspensão do senador. Delcídio ficou desesperado com a traição e o isolamento.

O panorama, aliado a uma crise econômica quase sem precedentes, é sombrio, mas pode ser o início real de uma depuração nunca antes vista no país. Militantes apaixonados que sonham com “O Regresso” podem se tornar dissidentes, também passionais, caso a verdade seja assim tão suja. Agora, é lava ou racha.

'Guerra' à legalidade

AUTO_gilson
O ex-presidente trava, sim, uma batalha. Guerra, no entanto, perdida para a legalidade, a impessoalidade, a probidade e a transparência de um grupo de policiais argutos e de procuradores muito bem preparados para fazer frente a uma gente que só tem em mente as conveniências e o bem estar da própria gente

Cuidado com a jararaca

Passei a última sexta-feira avaliando as manifestações sobre a “prisão” do ex-presidente Lula em seu apê, aquele que ele reconhece como “compro e pago” por ele, lá em São Bernardo do Campo. Na verdade um lixo de apart, uma espelunca, se comparado àquele que ele estava ajudando o proprietário amigo a reformar, com sugestões de decoração de ambientes. Lula é um homem exemplar sob todos os aspectos de análise. Operário de importante indústria automecânica, na região do ABC, ele ascendeu à condição de maior líder popular da América Latina dos últimos 40 anos. Uma trajetória invejável, especialmente porque foi o centro da fundação de um partido, o PT, em cuja história se abrigou relevante participação nos atos mais representativos e marcantes da vida política e social brasileira.

Como líder sindical e depois como dirigente partidário, enfrentou a ditadura militar, lutou pela reconquista das liberdades, foi preso e torturado nos porões da repressão. Lutou pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária, pela valorização dos salários, pelo acesso das classes mais pobres aos benefícios do desenvolvimento. No seu governo, negros se beneficiaram da política de cotas que, se reconhecidamente tem erros de concepção, que prejudicam seu caráter reformador, também é certo que fez abrigarem-se nas universidades públicas parcelas da população universitária antes excluídas. Na verdade, muito mais do que pela sua condição racial, pelo seu perfil socioeconômico.

genildo

Nos governos Lula também, segundo ele próprio, (o Lula), pobres passaram a andar de avião, a ter carro próprio, a fazer curso superior, a comer, a comprar cueca e lingerie de renda, a ir para a praia, ao baile funk, a não ter vergonha de torcer pro Curintiãs, pro Mengo e em Minas, porque sou cruzeirense, não falo.

Concordo com Lula em tudo, para não polemizar. Ele está correto. O que eu não entendo é porque um cara tão bom, tão criativo, tão sensibilizado com o drama vivido pela expressiva maioria dessa sociedade pobre, fu..., desassistida, desamparada, sofrida, faminta, consequência de uma histórica falta de políticas públicas concebidas com instrumentos claros e eficazes no seu objetivo; um cara reconhecido pelos eleitores que o levaram à Presidência da República e depois o reconduziram ao mesmo cargo; e que depois de oito anos de mandato, ele ainda elegeu “uma poste” como sucessora. Como que esse cara permite que um bando de corruptos, ratos profissionais, invada as licitações públicas, o erário e as reservas nacionais; assalte as empresas estatais e saque dessas, moeda-a-moeda, o seu patrimônio material e moral, como aconteceu com a Petrobrás e várias outras, menos expressivas e menos estratégicas? Não sabia? Alzaimou?

Querido: você perdeu o bonde. Junte o que ainda lhe sobra, se é que lhe sobra, e ajude a pensar um outro Brasil. Senão o Moro, (que realmente errou em mandar conduzi-lo coercitivamente, em invadir sua casa e a de seus filhos), vai pisar no rabo da jararaca e ela vai morder sua bunda.

Bombicídio e Aletheia

Duas bombas de forte impacto e alto grau de precisão acabam de explodir sobre as cadeiras onde se sentam a presidente Dilma, no Palácio do Planalto, e o ex-presidente Lula, no Instituto que leva seu nome.

O primeiro artefato foi a divulgação, pela revista Isto É, de trechos da delação premiada que o senador Delcídio Amaral negocia com a justiça, onde relata a participação de dois maiores protagonistas do PT nos casos da compra da refinaria Pasadena, pagamentos à família de Cerveró e compra do silêncio de Marcos Valério, operador do mensalão.

O segundo explosivo é esta 24ª. fase da Operação Lava Jato, de nome Aletheia ( Busca da Verdade), que tira Lula de sua casa para prestar depoimentos sobre os negócios envolvendo sua empresa, LILS Palestras, o Instituto Lula, o tríplex do Guarujá, o sítio em Atibaia e eventuais conexões com cinco empreiteiras.

O bombicídio, a bomba de Delcídio, terá um efeito devastador, eis que puxa Dilma e Lula para o centro da fogueira aberta pela Operação que apura desvios e propinas nas cercanias da Petrobras.

O senador pinça, ainda, a Ação Penal 470, para dizer que o ex-presidente manobrou para comprar o silêncio do ex-operador do mensalão, o publicitário Marcos Valério, que teria pedido de R$ 220 milhões para ficar de bico calado. (Diz-se que se conformou com menos no arranjo financeiro feito pelo ex-ministro da Fazenda, Antonio Palloci).

Como se pode aduzir, a delação do senador Delcídio, que aguarda homologação pelo ministro Teori Zavascki, do STF, mesmo sob a forma de roteiro, mostra potencial para ser o fato de maior impacto da Operação Lava Jato.

Afável e respeitado, o senador sul mato-grossense goza de prestígio junto aos pares, a ponto de ter sido escolhido pela presidente Dilma para ser líder do Governo no Senado. Nos últimos tempos, comandava a poderosa Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Amigo de Lula, com quem conversava frequentemente, Delcídio é uma das maiores fontes de informações e segredos sobre as veredas do Planalto. Pois este “sabe tudo” decidiu entrar no jogo da delação premiada para aliviar o peso de eventual condenação pelo Supremo.

Não se trata de pessoa que perdeu a credibilidade, conforme a desconstrução de seu perfil que governistas tentam fazer. A nota em que o senador e seu advogado dizem não reconhecer trechos pinçados pela revista Isto É deve ser entendida como uma carta de seguro, na medida em que ainda não foi oficializada.

A Aletheia, abrigando 44 mandados judiciais, sendo 33 de busca e apreensão e outros 11 de condução coercitiva, incluindo Lula e seu filho Fábio Luis Lula da Silva, mesmo não tendo relação com a delação de Delcídio, se soma ao repertório de eventos negativos que se abatem sobre as principais figuras do governo e do PT, fornecendo munição para acirrar a luta política e o ânimo social. Analisemos alternativas que poderão advir a partir destas duas explosões.

O impeachment, como se sabe, iniciara uma descida no terreno das probabilidades. A delação de Delcídio puxa a ideia para o centro do debate político. Ele terá de comprovar o que disser, até para se apurar a extensão de eventuais sinais de vingança por se sentir abandonado pelos próceres petistas.

Mesmo considerando as idas e vindas que ocorrem num processo de impeachment (oitivas, recursos de apelação etc) trata-se de alternativa que ganha força. Mas o caminho da decisão passa pelo clamor das turbas. O dia 13 de março será um termômetro importante para aferirmos a temperatura social. Já a renúncia é hipótese descartada, tendo em vista a índole de auto-suficiência da presidente Dilma.

Já a busca de verdade no entorno do ex-presidente, com depoimentos e mandados de apreensão que ganharão ampla visibilidade, corroerá ainda mais os costados de Lula. Se houver prisão (dele ou de filhos), o incêndio chegará às alturas. Os eventos dessa fase da Lava Jato mancharão a imagem da presidente, contribuindo para desgastar a imagem da pupila.

O impedimento da presidente, decisão de cunho político, correria mais rápido que o percurso da análise de contas no âmbito do TSE. Nesse Tribunal, o affaire entraria no próximo ano, com a possibilidade de se ter a separação de contas entre as campanhas da titular e do vice.

A permanência de Dilma se apresenta também como hipótese viável, com o agravante de que seu governo seria um dândi na escuridão. Perdido e sem rumo. Jorrando sangue por todos os lados, perderia todas as forças. Cenário devastador na economia, paisagem caótica na seara social, guerra de guerrilhas na arena política, onde o lema seria: salve-se quem puder. Some-se a essas visões catastróficas a moldura da Câmara sem o comando de Eduardo Cunha, afastado da presidência pelo STF.

O pedido de afastamento, feito pelo Procurador Geral, Rodrigo Janot, deverá ser analisado pelo plenário da Corte. Mas o STF não tem tanta certeza de que este pode ser o rumo. Teme entrar no terreno do Legislativo. Enquanto isso, o Conselho de Ética dará encaminhamento ao pedido de cassação de Cunha. Se aprová-la, a decisão irá ao plenário, onde o deputado conserva grande parcela de aliados.

A equação do impeachment dependerá sempre do volume das ruas. Os números das multidões, por sua vez, inflarão ou murcharão nas ondas das marés alta e baixa, a primeira apontando para o bolso cheio, a segunda para o bolso vazio. Ora, a economia não melhorará nos próximos meses. Ou melhor, pode haver recuperação sob a égide de outro governante. Basta ver o movimento das bolsas nesses últimos dias.

Cresceu quase 10% com o perigo se aproximando de Dilma e Lula. Por último, resta acompanhar a estratégia traçada pelo PT para defender Luiz Inácio: mobilização da militância, enxurrada vermelha, slogans e palavras de ordem (“não vai haver golpe”), confrontos físicos, grupinhos de professores expressando “defesa da democracia” etc. Tudo sob o olhar aparvalhado do novo ministro da Justiça, Wellington César, que teria sido escolhido para “administrar a independência” da Polícia Federal.

Quem cala...

Um fato preocupa: o PT jamais julgou a conduta ética de seus militantes acusados pela Lava-Jato. Nem os absolveu, nem os condenou. Calou-se. E quem cala consente
Frei Betto

'Pato' bancou pavão e saiu depenado

'Pato' louco na porta da Globo quer aparecer
A solidariedade a Lula foi um grande sucesso pirotécnico apenas por dois dias. O ex ganhou a mídia, com aplausos espaço na televisão, não pela magnitude de gesto, mas por prestar esclarecimentos na Justiça.

A festa de confete acabou no domingo, mas os sempre prestativos militantes, com boquinha garantida, resolveram ampliar as manifestações. Sob a liderança do prefeito de Maricá e presidente regional do PT, Washington Quaquá, e a maricaense honorária Lurian Lula da Silva (filha de Lula), foram procurar os holofotes na porta da Rede Globo. Atacaram a empresa que nada tem a ver com a roubalheira petista no país com os velhos e surrados refrões partidários, que não incentivam nem defunto a sair da tumba.

Deram mais um espetáculo de cretinice como todos os demais liderados por Quaquá, há anos alcunhado de "Pato", que encontrou assim uma fórmula de apagar uma semana de derrotas consecutivas no próprio município .

O prefeito não foi sequer uma vez ao inundado conjunto do Minha Casa Minha Vida, em Maricá, durante as últimas chuvas. Os louros da luta em defesa dos desabrigados e desalojados ficou com o hoje arquiinimigo Marcelo Delaroli, secretário estadual, que se meteu até o joelho nas águas sujas e písou na lama, coordenando a ajuda que o governo petista negou, escondido atrás de câmeras e holofotes.

Defensor raivoso de Lula, de quem é fiel seguidor inclusive nas mentiras, Quaquá passou a semana desfilando na praia de Maricá defendendo uma abertura do canal da Barra, que seria, segundo ele, a salvação do povo sofredor com as enchentes. Mas por duas vezes foi obrigado a fechar rapidamente a abetura devido a entrada das águas do mar. Seria uma catástrofe pior e com assinatura do criminoso. O canal foi aberto apenas na taqrde de sábado quando todas as águas já haviam baixado.

Sem ter mais o que fazer para aparecer, o prefeito que não pisou na lama no conjunto habitacional dos pobres foi liderar marcha no Jardim Botânico para ganhar exposição na mídia. Ganhou a mandioca e saiu com o rabinho entre as pernas, ganindo para seus sustentados colaboradores a vitória popular. Fez vista apenas na imprensa companheira, na qual viceja sua insignificância.

Lula, Freud e o futuro da esquerda

Se um paciente inteligente rejeita uma sugestão de forma irracional, então a sua lógica imperfeita é evidência da existência de um forte motivo para a sua rejeição
Sigmund Freud

Não resta a menor dúvida, para qualquer pessoa minimamente razoável, de que o Partido dos Trabalhadores e seus principais dirigentes — entre eles José Dirceu, Antônio Palocci, João Vaccari e Luiz Inácio Lula da Silva — estruturaram uma organização criminosa com o apoio de outras facções da política brasileira (facção se aplica melhor à nossa realidade do que partido) com o objetivo precípuo de se perpetuar no poder. Para tal, desviaram recursos de empresas estatais, de bancos públicos e de fundos de pensão, se associaram a grupos de empreiteiros mafiosos, utilizaram laranjas, marqueteiros e doleiros em larga escala, fraudaram o processo eleitoral com recursos provenientes de corrupção e fizeram políticas públicas totalmente irresponsáveis, levando o Brasil à bancarrota. Não resta dúvida também, como disse o capitão Nascimento em Tropa de Elite, que “quem rouba para o sistema também rouba para família”. Isto está claro e transparente — como a luz que incide na cobertura 164 A do único edifício pronto no condomínio Solaris.

No entanto, ainda há quem tente negar a realidade revelada no processo do mensalão e nas provas e testemunhos das operações Lava-Jato e Zelotes. O que nos leva de volta a Sigmund Freud: por qual motivo há tanta relutância por parte da esquerda em encarar a realidade que lhes foi exposta ao longo dos últimos anos? A explicação é dupla. No caso da militância profissional, da UNE, da CUT e do MST, se aplica a máxima de Upton Sinclair, famoso escritor americano: “É difícil fazer com que alguém entenda algo quando o seu salário depende do não entendimento deste algo.”

Mas o que dizer dos intelectuais e artistas que não recebem salários por sua “militância”? No caso deles, não se trata de grana, mas de uma questão psicoanalítica. Investiram as suas vidas e reputações em posições pró Lula e pró PT. Agora, não suportam reconhecer o erro que cometeram por uma questão de autoimagem. Freud e sua filha Anna chamaram este fenômeno de negação. Trata-se de uma defesa contra realidades externas que ameaçam o ego. Saber lidar com a negação me parece ser a questão básica para a sobrevivência da esquerda brasileira hoje. Se os pensadores de esquerda não tiverem a grandeza de reconhecer o erro que cometeram com Lula e com o PT, se comprarem a tentativa de Lula e do PT de incendiar o país para criar um ambiente irracional posto na vigência da razão não há saída, a esquerda brasileira vai afundar com eles. Lula e o PT se tornarão os arautos da destruição do pensamento marxista no Brasil. 

domingo, 6 de março de 2016

00rs0305crs

'Caso Lula' põe democracia brasileira à prova

A entrada do ex-presidente Lula e sua família nas investigações da operação Lava Jato, que apura o maior escândalo de corrupção política da história do país, não poderia deixar de produzir um choque nacional e internacional.

Lula é mais do que um ex-presidente da República e seu partido e governos já foram referência da esquerda trabalhadora e sindical latino-americana.

Foi durante seus dois mandatos que o Brasil ocupou as páginas da imprensa internacional como exemplo de um país em superação, no qual dezenas de milhões de pessoas saíram da pobreza para recuperar a sua identidade e dignidade de cidadãos.

Esse choque, que chega num momento em que o país está fortemente dividido e polarizado no contra ou a favor do Governo Dilma Rousseff, poderá ser um teste importante para analisar a força das instituições democráticas e a capacidade da sociedade para metabolizar o trauma.

Lula é a alma e o todo do Partido dos Trabalhadores (PT), que está há 14 anos no poder, e se preparava para voltar a disputar a presidência em 2018.

Não é de estranhar, então, que a operação lançada pela Polícia Federal para recolher supostas provas de sua culpa nos escândalos de corrupção tenha sido duramente criticada pelo PT, que a considera “ilegal e um golpe para a democracia” e que lembra até os tempos da ditadura. O partido convocou seus militantes e os movimentos sociais a tomar as ruas para defender Lula.

Volta assim a ressoar o fantasma do golpe, desta vez não infligido pelos quarteis, mas pelas operações policiais e judiciais e pela pressão dos conservadores que apostam na queda do Governo.

A maior responsabilidade, neste momento, –à margem das naturais declarações oficiais de indignação do PT–, está nas mãos, entretanto, de todas as instituições do Estado e dos partidos do Governo e da oposição. Para eles, o maior imperativo deveria ser manter, a todo custo, a paz social hoje ameaçada.

O terremoto dos interrogatórios forçados de Lula junto à polícia no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, chegam, de fato, num momento de grande fragilidade do Executivo de Dilma Roussef, cada vez mais acuada e sozinha, e de uma recessão econômica considerada a maior do último quarto de século, junto com a ameaça de um aumento do desemprego e da inflação.

Portanto, é mais urgente do que nunca colocar, à frente dos cálculos políticos, a consolidação de uma democracia que o Brasil conquistou com sangue e dor, e que foi aplaudida pelo mundo.

O Brasil não é a Venezuela. Pode parecer um paradoxo, mas talvez o teste pelo qual passam Lula e o PT aconteça porque foi nestes anos, os de seu Governo e os de Dilma Rousseff, que os três poderes do Estado mais se fortaleceram e consolidaram sua autonomia.

Por mais difícil que possa ser para um personagem mítico como Lula ter que passar pelo infortúnio de ser levado à força para ser interrogado pela polícia, também poderia ser uma oportunidade para ele se defender em público de todas as acusações que rejeita energicamente.

Cabe também a ele agora colocar todo seu carisma e seus inegáveis dotes de comunicador de massas, especialmente com os mais pobres do país, para tentar unir a todos em uma nova esperança de renovação política e econômica, evitando que, como muitos desejariam, seu caso sirva para aprofundar as divisões e a violência.

O Brasil vive um delicado momento histórico, que precisa mais de bombeiros que de incendiários e no qual deve prevalecer a responsabilidade de todos.

Os governos e os líderes – mesmo aqueles aos quais o país mais deve a construção de sua democracia e de seu progresso econômico e social– passam, como tudo na história. O que deve permanecer, sem perder sua força, é a riqueza de um povo, que foi emblema de coesão como país, de convivência pacífica de suas culturas e religiões. Como me explicou a grande atriz brasileira Fernanda Montenegro, esta é uma sociedade que “não se envergonha, como vocês, europeus, de dizer que é feliz”.

Guerras e violência não se conjugam com este Brasil que tanto cresceu democraticamente. É uma sociedade que não jogou a toalha nem renunciou aos seus sonhos de superação, hoje ofuscados pela crise econômica e política.

Daí essa irritação e desespero das pessoas. Irritação e desespero que os responsáveis devem prestar atenção para não degenerar em ódio e violência que só ajudariam a agravar a crise, em vez de resolvê-la.

O mundo hoje volta a olhar para o Brasil.

Esperemos que ele nos surpreenda positivamente de novo.

Pimenta nos outros, pode. Em Lula, não. É isso?

Na última sexta-feira, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, foi a primeira voz de respeito a censurar a decisão do juiz Sérgio Moro favorável ao emprego da condução coercitiva para que Lula fosse depor aos procuradores da Lava-Jato.

"Condução coercitiva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão que resiste e não comparece para depor. E o Lula não foi intimado", afirmou o ministro.

Condução coercitiva quer dizer condução obrigatória. De fato, Lula não fora intimado. Agentes federais amanheceram no seu apartamento de São Bernardo do Campo e o lavaram para depor em uma delegacia da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas. Ele ficou ali por três horas.

Naquele dia, a prefeitos que se reuniram com ela no Palácio do Planalto, a presidente Dilma havia manifestado seu "absoluto inconformismo" com a "desnecessária" condução coercitiva de Lula, que "por várias vezes compareceu de forma voluntária para prestar esclarecimentos".

Dito assim, parece que Lula saiu por aí batendo em portas de delegados e de procuradores se oferecendo para esclarecer isso ou aquilo. Não foi assim. Intimado a depor várias vezes, ele atendeu a algumas intimações. E conseguiu driblar outras.

Das dezenas de vozes que protestaram contra a condução coercitiva de Lula, entre elas as de juristas, a voz de Rui Falcão, presidente do PT, foi a mais inflamada, a ponto de provocar tensão entre generais do Alto Comando do Exército, em Brasília. Rui disse:

- A condução coercitiva de Lula representa um ataque à democracia e à Constituição. Trata-se de novo e indigno capítulo na escalada golpista que busca desestabilizar o governo da presidente Dilma Rousseff, criminalizar o PT e combater o principal líder do povo brasileiro.

Tudo é golpe para o PT. Quando o escândalo do mensalão ameaçou encurtar o mandato de Lula, o PT falou em golpe. O pedido de impeachment de Dilma foi e é tratado como golpe. A humilhação de Lula foi mais um capítulo do golpe que está em marcha.

Está tudo bem, tudo muito bem, só não dá para entender uma coisinha: por que nenhuma das vozes que se revelaram inconformadas com a condução coercitiva de Lula se fez ouvir quando outros envolvidos com a Lava-Jato foram conduzidos coercitivamente para depor? Não repararam? Não se tocaram?

Só vale para os outros a condução coercitiva, para Lula, não? É capaz de valer para importantes empresários, alguns deles presos; ultimamente para políticos; e para gente comum. Aliás, para esse tipo de gente sempre valeu. Quem se incomoda com ela? Mas para Lula, não? Por quê?

Ex-presidente da República não tem direito a fórum privilegiado. Está sujeito à Justiça de primeira instância. Como os demais cidadãos, pode apelar de decisões da primeira instância às instâncias superiores da Justiça. E é só. Não tem direito a nenhum tratamento especial.

O mais espantoso é que Lula não foi o primeiro, nem o segundo, nem será o último suspeito da roubalheira na Petrobras a ser conduzido para depor “sob vara”, como prefere o ministro Marco Aurélio. Antes dele, 116 suspeitos foram alvo de condução coercitiva. Lula foi o 117º.

É como observa com razão a nota oficial distribuída, ontem, pela força-tarefa do Ministério Público encarregada da Lava-Jato:

"Houve no âmbito da Lava Jato 117 mandados de condução coercitiva. Apenas em relação à do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva houve manifestação de opiniões contrárias. Conclui-se que esses críticos insurgem-se não contra o instituto da condução coercitiva em si, mas sim pela condução coercitiva de um ex-presidente da República".

Os procuradores reconhecem que Lula merece respeito, mas apenas "na exata medida do respeito que se deve a qualquer outro cidadão brasileiro".

Estão certos.

Lula, somente ele, é o responsável pela situação em que se encontra. Não foram seus adversários que o levaram a prevaricar. Não foram as elites que o forçaram a se corromper. Ninguém o obrigou a jogar na lama sua fama de homem decente.

Lula é vítima de Lula, da sua ambição desmedida pelo poder, do seu encantamento por um mundo ao qual sempre quis pertencer, da falta de solidez dos seus compromissos com valores e princípios que dizia cultivar. É triste que termine assim.

Não mandaremos Lula e Dilma tomar no c*. Vamos asfixiá-los com o oxigênio da democracia

A política se exercita segundo duas lógicas principais: a da publicidade e a do bunker. A primeira é própria dos regimes democráticos, que, segundo seus críticos, produz o milagre às avessas de equiparar os melhores aos piores. Em parte, a objeção é mesmo procedente.

É por isso que as democracias mais avançadas preservam alguns domínios do escrutínio da maioria. É o caso da ciência, por exemplo. Ainda que a sua dimensão ética possa e deva ser submetida ao debate público, não convém pedir que as maiorias decidam qual deve ser a estrutura do DNA. Sobre o dito-cujo, só uma postura é correta: a procura do “em si” da coisa. Nem o regime democrático é capaz de fabricar um para cada gosto.

Se a democracia não é o regime perfeito porque tanto os Schopenhauers como os idiotas valem um voto, ainda assim, já inferiu aquele, é o melhor de todos os regimes ruins. Seu oposto é a opacidade do “bunker”, que é típica das ditaduras, sim, mas que pode se manifestar mesmo num regime democrático.

Um vídeo espetacular circula na Internet. Jandira Feghali (RJ), deputada do PCdoB, conhecida por “Jandirão” em razão de seu estilo, da fineza da retórica e da delicadeza do pensamento, resolveu se comportar como cineasta de interiores. Depois do depoimento de Lula, ela flagra o ex-presidente da intimidade, numa conversa, segundo ela própria, com Dilma Rousseff.


O homem que, segundo o Instituto Lula, não tem nem usa celular se mostrava muito à vontade falando com a chefe da nação. Aos berros, expressou a importância que confere à Justiça: “Eles que enfiem o processo no c…”. E usou aquele monossílabo tônico de duas letras, que começa com “c” e termina com “u” — com assento e sem acento, na melhor fisiologia gramatical —, revelando, uma vez mais, as cavernas do pensamento onde se produz o autêntico petismo.

Como se nota, Lula gritava, como fazem os chefes mal-educados em seus ataques de assédio moral contra subordinados incompetentes ou, ainda que competentes, submissos. Submissa, Dilma é. Competente, sabe-se que não. Logo, suponho que, do outro lado da linha, ouvia-se apenas um muxoxo, uma fala presa na garganta, que não se voltava para o mundo; antes, ficava retornava ao diafragma, esmagada. Também a fala, na lógica do bunker, se exercita para dentro, não para fora.

No dia em que esse espetáculo grotesco veio a público, a presidente se desloca de Brasília para São Bernardo — com o nosso dinheiro, como tudo o mais — e vai visitar Lula em seu apartamento. Emprestava, assim, a solidariedade da presidente da República, não da amiga — já que tal dimensão deixa de existir quando se ocupa tal cargo —, àquele que é alvo de investigação, numa clara afronta à Justiça.

É a lógica do bunker se manifestando em plena democracia. Dilma sabe que, a exemplo de Lula, perdeu as ruas. E isso ficará bem claro no próximo dia 13. Os milicianos que saem em defesa do PT, do Poderoso Chefão e, secundariamente, da presidente são militantes ligados ao partido e a seus aparelhos. São a periferia da nova “classe social” que o PT representa no Brasil, para usar a expressão cravada por Milovan Djilas em 1957, título de seu livro, ao se referir ao sistema comunista (não só o iugoslavo), ao qual havia servido como presidente da Assembleia e vice-presidente. Mas sempre lutando por democracia, diga-se.

Djilas percebeu a impossibilidade de conciliar um regime de liberdades com o socialismo. Não estou atrás de medalhas, claro!, mas fui o primeiro no Brasil — tenho as provas, rsss — a associar as teses de Djilas ao PT. E era ainda o PT que disputava o poder. O livro é encontrável em inglês. Já teve tradução no Brasil. Acha-se em algum bom sebo, talvez.

A desnecessária condução coercitiva de Lula inflamou a nova classe, e quase nada de útil pode advir disso. Traz, no entanto, um efeito associado que pode ser positivo: levou Dilma para o bunker de Lula. Já não é possível distinguir, e é bom que não, o governo dela das artimanhas dele. É evidente que não existe “dilmismo”. Ela é mera funcionária da máquina de assalto ao estado em que se transformou o PT.

Mas existe o lulismo, ao qual intelectuais pés-rapados conferiram o estatuto de uma teoria do poder, que o Babalorixá de Banânia expôs ligeiramente na sua entrevista-pronunciamento. Ela consiste, como ele mesmo deixou claro, em garantir lucros formidáveis aos muito ricos e distribuir caraminguás aos pobres, silenciando-os com benesses mesquinhas, roubando-lhes cidadania em troca de alguns reais.

O vídeo feito por Jandirão e a visita de Dilma ao apartamento de Lula restarão para a história como aberrações que antecederam a queda da presidente e do lulismo.

Lula não estava mandando a Justiça enfiar o processo no monossílabo tônico sem acento terminado em “u”. Lá do bunker, ele mandava a democracia tomar no c…

Respeitado o devido processo legal, sem atropelo, sem afronta a nenhuma das garantias, há elementos que indicam que o lugar da dupla é a cadeia. Não os mandaremos tomar no c… Vamos asfixiá-los com o oxigênio da democracia.

PS: Desde que se lançou na política, Jandirão prestou seu primeiro serviço à democracia.

Agonia moral

O ex-presidente Lula perdeu a batalha mais importante de sua vida. Tem pela frente, ainda, um demorado tiroteio nas altas, médias e baixas cortes da Justiça Penal brasileira. Mas não tem mais esperanças de sobreviver a uma doença para a qual não existe cura conhecida: a destruição de sua força moral. Trata-se do conjunto de atributos que realmente separa os homens, e mesmo as nações, em matéria de sucesso ou fracasso, e ao qual se costuma dar o nome genérico de caráter. Sabe-se desde sempre o que entra nesse conjunto. Entram aí o valor da palavra dada, a reputação, o respeito aos outros e a si próprio, a capacidade de transmitir confiança. É a força que faz uma pessoa falar e ser naturalmente acreditada. É a coragem para assumir responsabilidades, enfrentar momentos adversos, não abandonar os amigos em dificuldade. É o exercício da honestidade e da integridade comuns. Em suma, é o que na linguagem do dia a dia se chama de “vergonha na cara” ─ ou honra pessoal. Muito mais que fama, força ou riqueza, é o que realmente faz a diferença. Fará toda a diferença para Lula. Sua batalha está perdida porque ele perdeu o bem mais precioso que poderia ter ─ a força moral decisiva para tornar-se alguém que valha a pena como pessoa e como homem público.

Hoje, vivendo acuado num prédio de escritórios do bairro paulistano do Ipiranga, com suas despesas pagas por magnatas, cercado não pela massa dos pobres que diz ter salvado, mas por negociantes de “marketing”, burocratas do PT, parasitas variados e uma armada de advogados que pouquíssimos brasileiros poderiam pagar, Lula está só. Do povo, nem sinal. O homem que tanto menosprezou os adversários falando de sua popularidade de 100% não pode ir a um campo de futebol ─ nem ao estádio do Corinthians, em Itaquera, cuja construção impôs para a Copa do Mundo de 2014, da qual não conseguiu assistir a um único jogo. Não pode ir jantar um frango com polenta em São Bernardo. Não pode ir a uma loja, comer um pastel de feira ou andar sem a proteção de um regimento de seguranças. Não pode ir ao infeliz sítio de Atibaia que tanto frequentou até faz pouco, e no qual empreiteiros amigos socaram uma fortuna em reformas ─ nem, menos ainda, a esse amaldiçoado tríplex do Guarujá. Não pode, no fim das contas, sair à rua ─ e, como se fosse um castigo, não pode gastar livremente no próprio país os milhões de reais que ganhou fazendo palestras para construtoras de obras públicas e outros colossos da elite empresarial brasileira. Que líder de massas é esse? Aos 70 anos de idade, Lula veio acabar metido na situação contrária à que Guimarães Rosa descreve num conto particularmente genial de sua vasta coleção de contos geniais, o Burrinho Pedrês. Como se lembram os leitores da história, o modesto burrinho sabia uma coisa mais importante que todas as outras, para quem, como ele, tinha sido sorteado com uma vida difícil ─ jamais entrava em lugar algum de onde não soubesse como sair depois. O ex-presidente entrou com tudo. Agora precisa sair, mas não sabe onde está a saída.

É certo que Lula não será ajudado, nessa procura por um caminho capaz de tirá-lo do buraco, por nenhuma das manobras que vem utilizando há trinta anos para dar a volta em seus problemas. A causa verdadeira do colapso que vive hoje é o fato de ter entrado em estado de coma moral ─ e isso não se resolve chamando um gerente de propaganda para bolar comerciais de TV, da mesma forma que “imagem”, por mais esperteza que se empregue em sua criação, não substitui caráter. Também não adianta gastar dinheiro com advogados que passam o tempo armando chicanas processuais e outros truques destinados a impedir que se julgue o mérito real dos fatos alegados contra ele; isso pode funcionar como estratégia de fuga, mas não cria valores em cima dos quais se consiga construir uma reputação. Não é possível sair do lugar em que o ex-presidente se enfiou distribuindo camisetas vermelhas, fretando ônibus e pagando diárias, sempre com dinheiro público, a milícias que se apresentam como “movimentos sociais”. Dá errado, cada vez mais, continuar atirando em Fernando Henrique Cardoso ─ isso para ficar apenas no alvo que se tornou sua ideia fixa ─ na esperança de provar que “todo mundo é igual”; quanto mais tentam fazer a comparação, mais chocantes ficam as diferenças de conduta entre os dois. Enfim: tem-se tentado de tudo, e nada dá certo. Continuará assim, pois nada altera a pane central que existe nessa história: Lula não é o homem que diz ser. Também não é o que seus admiradores, de boa-fé ou por interesse, acham que seja.

A desmontagem da estrutura ética do ex-presidente está sendo feita unicamente através de fatos, não de alegações; e são fatos que não precisam mais ser provados, pois todas as provas já foram exibidas e confirmadas. Mais: nenhum deles, até agora, foi apresentado ao público brasileiro pela oposição, que se limita a acompanhar sua divulgação na imprensa e fazer o mínimo possível de comentários.

A derrota, enfim, não veio por causa de nenhuma batalha dessas que fazem tremer a terra ─ nada de Waterloo, ou de invasão da Normandia no Dia D. Tudo veio acabar em mesquinharia e pequenez, nas miudezas miseráveis da reforma de um sítio de segunda linha, nas 200 caixas de mudança da “transportadora Cinco Estrelas”, nos desvãos de uma arapuca imobiliária que lesou 3 000 famílias com um golpe na praça. Não houve a discutir, nessa demolição, uma única questão de princípio, filosofia política ou consciência ─ ficou tudo exclusivamente numa conversa de fim de feira sobre quem é o dono do tríplex na cooperativa falida, quem pagou a cozinha Kitchens, quem mora de graça na casa de quem. Mais que qualquer outra coisa, ficou uma palavra-guia, a palavra que não pode mais calar na biografia de Lula: empreiteira, empreiteira, empreiteira. É aí, na hora da verdade, que ele encontrou de fato sua perdição.

Nada destruiu tanto a autoridade moral de Lula quanto seu convívio com as empreiteiras de obras brasileiras, durante e depois de seus dois mandatos. Nunca antes, em toda a história do Brasil, houve um presidente da República com tantos e tão íntimos amigos entre os empreiteiros. Alguém é capaz de citar outro? Em apenas quatro anos, de 2011 a 2014, momento em que a casa começou enfim a cair, Lula recebeu 27 milhões de reais para fazer palestras encomendadas pelos gigantes da construção pesada no país. Foi presenteado, também, com contribuições milionárias para sustentar as despesas do seu Instituto Lula ─ isso e mais viagens de jatinho, uma antena de celular a 100 metros do sítio que utiliza em Atibaia, e as obras de reforma nesse mesmo e malfadado sítio, que agora atormentam sua vida. Os presentes não vieram apenas das empreiteiras, certo, mas isso não melhora sua situação em nada ─ vieram de fontes mais sombrias ainda, como um consórcio de estaleiros que vivem de contratos com a Petrobras, o Banco BTG Pactual, um “centro de estudos” de Angola. Através da francesa GDF Suez, há traços até da inesquecível Astra Oil, que vendeu à Petrobras o ferro-velho da refinaria americana de Pasadena, algo tão parecido com uma negociata em estado puro, mas tão parecido, que até hoje não foi possível descobrir a diferença. Ganhar dinheiro fazendo palestras para essa gente está dentro da lei? Está. Está dentro da moral comum? Não está, e é aí que começa e acaba o problema. Um ex-presidente da República não pode, simplesmente não pode, aceitar dinheiro de empresas que dependem do Tesouro para sobreviver. É isso, e ponto final.

Como seria possível confiar na imparcialidade, na palavra e na integridade de valores de alguém que anda em tais companhias, ainda mais quando se sabe da influência que exerce no governo que está aí? Lula recebeu dinheiro das empreiteiras porque foi presidente do Brasil por oito anos, e não por seus conhecimentos em matéria de viadutos, ferrovias e usinas hidrelétricas; ninguém lhe daria um tostão furado se tivesse sido apenas presidente de sindicato. Lula diz o tempo todo que só chegou ao comando da nação porque os pobres votaram nele. Mas não vê nenhum problema no ato de transformar em dinheiro vivo, agora, o apoio que recebeu dos humildes ─ a quem deve tudo, inclusive sua transformação em milionário. O ex-presidente, de tempos em tempos, diz que tem o direito de ser rico. Tem, mas não tem. Não pode botar no bolso, sem se desmoralizar, 27 milhões de reais de empreiteiros ─ nem ser seu amigo íntimo, prestar-lhes serviços, permitir que lhe paguem despesas, aceitar que sejam sócios de um dos seus filhos e sabe-se lá ainda o que mais. Um homem público como ele não pode, nessas coisas, ser igual aos demais cidadãos. Tem de abrir mão de uma porção de confortos; é o preço a pagar para manter inteira a sua moral. Se achar injusto, bastará deixar a vida pública; ninguém é obrigado a ser presidente da República.

Lula acostumou-se a achar que tem direito a tudo, e não está sujeito a nada. Imaginou que pudesse ser o mais querido entre as empreiteiras ─ e que isso não iria lhe trazer problema algum. Achou que seus dois filhos pudessem ganhar milhões fazendo negócios com empresas que dependem do governo. Não viu nada de mais em meter-se com uma quadrilha que vendeu apartamentos na planta a bancários, roubou o dinheiro que recebeu deles e foi à falência sem entregar os prédios. Com exceção, claro, de um ou outro que foi concluído por uma empreiteira, mais uma, e reservado aos amigos ─ entre eles o que abriga o tríplex do Guarujá. O que Lula, que nem bancário é, estava fazendo no meio dessa gente? As histórias vão adiante e adiante; o que apareceu escrito aqui está muito longe de ser tudo. Mas é o suficiente. Este é um combate que claramente chegou ao fim.

Lula propõe anarquia que pode explodir o governo de Dilma

Ao lançar, como fez na entrevista coletiva de sexta-feira, a ideia de um movimento popular no país para defendê-lo das acusações que pesam sobre ele, o ex-presidente Lula na realidade está propondo as bases de uma anarquia, a qual, além de não lhe adiantar nada, pode explodir o governo Dilma Rousseff.

O que deseja Lula? Na realidade um confronto de parte da população que o inocenta e apoia contra o Poder Judiciário e o Ministério Público. A contradição é evidente, a colisão inevitável, cujos estilhaços serão remetidos contra o Palácio do Planalto e, portanto, contra a presidente Dilma Rousseff. Isso porque tal perspectiva não pode interessá-la para exercer seu mandato, cujo caminho já se encontra cheio de obstáculos. O maior deles construído pelo próprio Lula ao aceitar que Odebrecht e OAS pagassem por palestras e pelo acabamento do Guarujá e Atibaia, bens que sustenta não lhe pertencerem.

As contradições de Lula não terminam aí. Na, entrevista afirmou-se indignado contra sua condução ao depoimento à Polícia Federal, determinada pelo juiz Sérgio Moro. Porém, na realidade o ex-presidente não estava disposto a depor, pois se assim fosse não teria recorrido ao Supremo em busca de uma liminar que pudesse afastá-lo dessa obrigação. Tanto recorreu que a relatora do processo, Ministra Rosa Weber, negou-lhe a medida. Verifica-se então o seguinte: o ex-presidente diz uma coisa e na realidade age para obter o efeito contrário. Este aspecto da questão é o que mais o compromete e retira a força da realidade de suas afirmações.

De fato, o ex-presidente não deseja discutir ou esclarecer as acusações contra ele. Apenas tenta evaporá-las, o que revela um sentimento de culpa evidente. Afinal de contas, qual o motivo que o leva a tentar escapar das explicações? Ora, é a inconsistência de suas próprias declarações possíveis.

Falei no título na perspectiva de uma incursão para desencadear uma anarquia no país. É isso mesmo. Pois este aspecto, aliás bem analisado pela repórter Fernanda Mona, Folha de São Paulo de sábado, destaca bem a hipótese mais que viável de a campanha de Lula contra o Ministério Público e o Poder Judiciário desencadear uma série de conflitos em massa no Brasil. Anarquia evidente, porque não existe lógica alguma na tentativa de alguém contrapor-se à Justiça com base em manifestações populares.

Os confrontos que vão decorrer das manifestações podem detonar uma crise colossal no país, causando explosões seguidas com as quais Dilma Rousseff não poderá concordar ou se omitir.

Implantada a anarquia não estará em jogo apenas o destino de Lula. Estará em jogo principalmente o futuro do governo Dilma Rousseff.

O xeque-mate da Justiça e a aula magna de cinismo

Lindo dia este em que o país indignado assistiu eufórico à aula prática de civilidade a que o rei da era da canalhice foi submetido. Num xeque-mate, o juiz Sergio Moro aplicou uma lição simples: a de que ninguém está acima da lei. O jeca e respectivos devotos, refratários a essa luz civilizatória mínima para qualquer país se viabilizar, reagiram como sempre: reafirmando a mentira como um modo de estar no mundo e, para ser escuridão em manhã plena de luz, Lula responde ao xeque-mate da Justiça ministrando uma aula magna de cinismo.

AUTO_edra
Insistindo em deformar a realidade, o jeca amputou a verdade mediante o vitimismo de drama de circo; a clivagem já ineficaz entre “nós” e “eles”, excetuado o bando devoto; a tentativa inútil de fazer o juiz Sergio Moro, a pessoa mais admirada no país atualmente, parecer detestável. Um metalúrgico não pode ter um sítio? Claro que sim: ao milionário Lula, assim como a qualquer cidadão, basta adquiri-lo honestamente e declarar o bem. Onde guardar 11 contêineres da mudança? Um bazar beneficente com os presentes cedidos pelo amigão dos pobres teria sido uma boa maneira de aliviar essa carga. Necessária a condução coercitiva? Pergunte-se ao procurador Cássio Conserino que não pôde colher o depoimento do casal fujão que debocha da lei.

A fala expelida das profundezas da pilantragem profissional germina naquilo em que é mestre: falsidade, truculência e arrogância que têm, no coração do caudilho, ninho indevassável. Do que mais precisa para triunfar um homem primitivo com esse talento insuperável para a farsa? Gerado no peleguismo sindical, amamentado no colo da ditadura, amadurecido nos braços das esquerdas na redemocratização, a Lula só faltava a chave do cofre e, de lambuja, um ambiente semicivilizado, inóspito à dissidência, ao cumprimento das leis e ao confronto político.

Dono da chave do cofre eleito presidente, tratou de degradar ainda mais o ambiente, o que o eternizaria na posse da chave, uma coisa garantindo a outra. Muito simples: cooptação de capitalistas selvagens, colonização ideológica, demagogia, sabotagem da democracia, compra de consciências. Até a manhã luzidia desta sexta-feira a que a Lava Jato e a conduta serena e segura de Sergio Moro nos trouxeram, acelerando o desmanche da farsa iniciado há algum tempo com a nação exangue que tenta se reerguer como pode, apoiada nas instituições falhas e tardias, no jornalismo independente que resiste e abandonada pela oposição.

Depois do depoimento, a fala de Lula traduziu um líder – para os devotos incuráveis – que, atingido, se fortalece e se apresenta para liderar, precisamente, os devotos incuráveis. Mas também mostra que, cego pela luz da manhã radiosa, não vê que ela vai raiar ainda outras vezes em desdobramentos saneadores do primitivismo que a súcia quis eternizar e que esse xeque-mate é apenas parte disso. O jeca que se vê como herói de dramas falsos ignora a verdadeira tragédia pessoal da farsa que se crê mito: como disse Isaac Asimov, na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate.

'Genocídio' dos vulneráveis

A corrupção afeta mais agudamente os brasileiros mais pobres. Quando o corrupto rouba dinheiro para benefício próprio, saúde, educação, alimentação, saneamento e outros direitos humanos básicos são negados aos setores mais vulneráveis da sociedade. A corrupção é um imposto pago pelos mais pobres de nossos países
José Ugaz, presidente da Transparência Internacional

Acima da lei e fora da lei


Enquanto um punhado de militantes petistas protestava contra a ação da Polícia Federal que conduzira Lula ao aeroporto de Congonhas, veio-me à mente imagem com a qual me deparei ontem no Google. Retrata um evento da campanha eleitoral de 2002. Lula, Genoíno, Mercadante, Berzoini e Alencar formam um abre-alas e marcham portando faixa, devidamente estrelada, com os dizeres "Quero um Brasil decente". Fácil compreender a decepção de quantos creram que a faixa expressasse um sentimento real.

Os fundadores do PT viam-se como agentes de um processo revolucionário. Frei Betto, em artigo de 2007, assim descreve os anseios dos vitoriosos de 2002: "A lua seria o nosso troféu. Haveríamos de escalar suas montanhas e, lá em cima, desfraldar as bandeiras da socialização compulsória". O nome disso é revolução. E nenhuma causa revolucionária consegue ser compatível com o Estado de Direito. A revolução por dentro do regime democrático, sem sangue, como sonhou o PT, é uma lavoura que, entre outros requisitos, precisa ser irrigada com dinheiro. Dinheiro para as campanhas eleitorais, para a militância e para os movimentos sociais controlados pelo partido, para manter operante um exército de jornalistas e formadores de opinião. É preciso ter e manter multidão de agentes que começam no sanduíche de mortadela, mas miram o topo da cadeia alimentar revolucionária, onde estão a lagosta ao thermidor e o Romanée-Conti. O sanduíche é meio e não fim de toda jornada socialista. Não conheço um só revolucionário que queira o comunismo para continuar batendo cartão e operando a mesma máquina.

Numa democracia, o poder é buscado dentro da regra do jogo, dentro da lei. No entanto, se o objetivo é revolucionário, pertence à própria natureza do processo que seus agentes se considerem acima da lei. A causa vem antes e lhe é superior. A lei que não convém à causa é iníqua e não merece respeito. Na primeira etapa, então, se instala esse sentimento de superioridade em relação à ordem jurídica. Face bem visível do que descrevo pode ser observada nos assim chamados "movimentos sociais". Quem se opõe às suas ações é acusado de criminalizá-los. Por quê? Porque quem está acima da lei não comete crimes.

É aí que se começa a explicar o incomparável desastre moral que acometeu o PT. A mentira vira argumento. Calúnia, difamação e injúria ganham utilidade política. Fatos são substituídos por versões. A verdade perde interesse e utilidade. E por aí vai a decência para o brejo.

As reações que surgem nestas horas às ações da PF, do MPF e do juiz Sérgio Moro são motivadas pelo mesmo fenômeno. Ou seja, o petismo ainda não caiu em si. Na fala do presidente Rui Falcão, na gritaria dos militantes no aeroporto de Guarulhos, no posterior discurso de Lula à claque petista, percebe-se a mesma convicção: todos supõem ser devida a seus líderes e ao partido uma reverência que os tornaria inatingíveis pela Justiça. E à sombra dessa reverência deveriam ficar resguardadas as condutas mais suspeitas e a vertiginosa prosperidade pessoal e familiar de tantos. A infinita sucessão de escândalos não é entendida como conduta fora da lei, mas situação normal para quem está acima dela.

Percival Puggina

Os arquivos de 'Judas'

Uma certeza prevalece sobre a torrente de dúvidas lançada nas últimas 48 horas na cena brasileira: como está, não vai ficar.

Dissipam-se as possibilidades de Dilma Rousseff se manter ilesa até o fim do mandato. O depoimento do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral (PT-MS) expôs a presidente a novas e múltiplas iniciativas jurídicas por crime de responsabilidade.

A consequência imediata, previsível, é uma decisão mais rápida do Supremo Tribunal Federal na liberação do rito do processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

Dilma tem pela frente, além da ação para impedimento, um processo de cassação do mandato no Tribunal Superior Eleitoral. A previsão dos juízes é que o desfecho ocorra, no máximo, até setembro.

A corrosão do governo ocorre sob as piores condições. Perdeu a base e a principal frente oposicionista se consolida dentro do próprio partido, capitaneada por Lula, que há tempos deixou-se seduzir pelo jogo simulado de conduzir a própria oposição, e governar na divisão. São de Lula as digitais na derrubada dos ministros da Fazenda (Guido Mantega e Joaquim Levy) e da Justiça (José Eduardo Cardozo).

Com o seu aval, também, o PT atravessou os últimos 14 meses sabotando todas as iniciativas do governo Dilma na economia, cujas dificuldades estruturais mais evidentes são herança da era Lula, agravadas pela soberba da presidente na condução da político-econômica. Resultou em recordes como o declínio de 14% nos investimentos em 2015 — o mais significativo em um quarto de século, desde o impeachment de Collor.


Astuto, Lula viu ontem uma chance na ordem assinada pelo juiz Sérgio Moro na última segunda-feira, 29, recheada de cautelas: “NÃO deve ser utilizada algema e NÃO deve, em hipótese alguma, ser filmado... O mandado SÓ DEVE SER UTILIZADO E CUMPRIDO, caso o ex-Presidente, convidado a acompanhar a autoridade policial para depoimento, recuse-se a fazê-lo”.

O ex-presidente anunciou que vai viajar pelo país fazendo aquilo que mais gosta: subir em palanques para demonstrar a certeza granítica de que todo o mal deve ser atribuído aos outros.

Dilma, ao contrário, mostrou-se nervosa. Em reuniões, xingava seu ex-líder no Senado. Nem teve o privilégio da primazia: em abril de 2006, no governo Lula, o então deputado Jorge Bittar (PT-RJ) chamou-o de “Judas”, no mais suave dos impropérios. A CPI dos Correios terminava com um acordo de Delcídio com o presidente: o relatório final isentava Lula e omitia o nome de um de seus filhos, Fábio.

Quando inconformados, como Bittar, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo, ameaçaram expulsá-lo do PT, ele anunciou um livro: “Registrei tudo, com parlamentares, executivos, empresários e pessoas do governo”, repetia pelos corredores do Senado.

Se livro e gravações existem, não se sabe, mas desde então Delcídio ascendeu no partido, com o apoio de Lula e Dilma. As poucas páginas já divulgadas da sua delação contêm detalhes suficientes para sugerir que o senador andou espanando a poeira dos arquivos.