quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Pedala, Lulinha

Enquanto essa imprensa golpista fica tramando o impeachment de Dilma Rousseff, Lula da Silva resolveu explicar o que aconteceu, para acabar com a conspiração: as pedaladas fiscais foram necessárias para que o governo pudesse honrar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Ou seja: todo esse barulho em torno do TCU, toda essa grita por causa do rombo no Orçamento, toda essa crise político-administrativa não passam de espuma. O único fato real é que o governo popular, mais uma vez, arranjou uma maneira de ajudar os pobres. Aliás, já são quase 13 anos ajudando os pobres (a ficar mais pobres), por maneiras que até Deus duvida.


No dia em que os pobres entenderem quanto seu sofrimento foi usado por Lula para ficar no poder, o ex-presidente precisará se mudar para um triplex no Irã. O PT prostituiu o uso do dinheiro público no Brasil, arrombando as metas fiscais e de inflação, tudo embalado numa meticulosa maquiagem contábil, para poder financiar seu banquete fisiológico – do qual o mensalão e o petrolão são os pratos mais visíveis. Lula e os companheiros jogaram o Brasil numa recessão genuinamente nacional, genuinamente petista, empobrecendo democraticamente o país inteiro. Se a moda pega, assaltante apanhado com bolsa roubada vai dizer que é bolsa família.

O delator Fernando Baiano, operador do esquema do petrolão preso na Lava Jato, afirmou à Justiça que deu R$ 2 milhões a Fabio Luis da Silva, o Lulinha. As investigações esclarecerão os detalhes do maior caso de corrupção da República, mas já está evidente que seu dinheiro, caro leitor, foi usado sem parcimônia para irrigar o partido governante e os heróis do povo que o integram. Eles sabem disso e estão dobrando a aposta: Dilma acusou os “moralistas sem moral” de tramar sua queda. É preciso sangue-frio para falar em moral no centro de tamanha rapinagem. Ou melhor, sangue de barata – e isso não lhes falta. Depois de depenar um país com a ajuda de cúmplices que estão presos, causando à sua nação a perda do selo de confiança perante o mundo, você só consegue olhar nos olhos de um filho se tiver sangue de barata. E moral de barata.

Dilma Rousseff tem de sofrer o impeachment porque é a representante legal de um projeto de assalto ao Estado. Está mais do que evidente que o PT, partido que desmoralizou a bondade, instalou-se no poder para viver dele – rasgando o contrato da democracia e do princípio da representação política. Nada mais fará no Palácio diferente do que já fez, não há como. O que mais é preciso ser demonstrado? A maior empresa do país jogada na lona para, entre outras causas nobres, garantir a reeleição da presidente – como apontam todas as evidências da Lava Jato. O que mais precisa aparecer? Como disse Fernando Gabeira, o Brasil parece ter desacreditado até a imagem popular do batom na cueca: a mancha sempre pode ter vindo da lavanderia. E eles têm diversos especialistas em lavagem para assumir a culpa. São os laranjas de batom. Na cueca, só dólar.

Joaquim Barbosa deu seu pitaco. Disse que o impeachment “é um mecanismo brutal que não pode ser usado de qualquer maneira”. Prezado Barbosa: o impeachment não é um mecanismo brutal, é um mecanismo legal. E ninguém com juízo quer fazer nada de qualquer maneira, como juízes que atiram adjetivos ao vento. A única vergonha nacional até o momento é a barreira venezuelana no STF, seu velho conhecido, impedindo a investigação de uma presidente que em qualquer país 100% democrático já estaria sendo investigada.

E a barreira chavista conta com a operativa patrulha dos inocentes úteis (nem sempre inocentes, mas sempre úteis), que alugam suas santas reputações à mulher sapiens para renovar seus crachás de bondade progressista. Esse estranho oba-oba petista é cada vez mais envergonhado, naturalmente, e achou uma saída genial: eleger Eduardo Cunha o inimigo público número um. Cunha é hoje praticamente o único vilão nacional, porque quem rouba com estrelinha no peito é herói.

O pequeno detalhe dessa história é que Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, tem a chave do impeachment nas mãos. E o PT desperta seus instintos mais primitivos. Enquanto o gigante dorme, alguém tem de trabalhar.

Cederam à tentação

A pergunta é dirigida tanto à pessoa quanto ao partido: até quando o Lula e o PT suportarão o bombardeio que os atinge de todos os lados? O ex-presidente se exaspera contra as oposições, a imprensa, os empresários, os aliados e o governo, acentuando que vai resistir diante de toda a pancadaria. Os companheiros voltam a frequentar os microfones parlamentares e adotam a tática retórica de exaltar as virtudes do chefe e da sucessora.

Só que não tem adiantado. Estão perdendo a batalha. As virtudes do Lula são superadas por seus defeitos e o PT cai nas pesquisas. Fica difícil para ele explicar sua evolução patrimonial e de sua família, assim como para os petistas, superar a incompetência do atual governo.

A pressão aumenta e nem será preciso argumentar com as eleições municipais do ano que vem para saber que a derrota será monumental. Pelas pesquisas, o Lula não conseguirá a reeleição de Fernando Haddad, muito menos o PT emplacará os prefeitos das grandes e até das pequenas capitais. Poupa-se o ex-presidente, não comparecendo a atividades públicas, preferindo refugiar-se nas reuniões do partido. Encolhe-se o PT quando se trata de aprovar projetos do interesse do palácio do Planalto.

Atravessam, ambos, período de amargura e desespero. Também, não haverá como desmentir, por culpa deles. A tentação foi grande demais.Um, por não resistir ao estilo de vida que nunca teve, mas invejava, entendendo que sua liderança e a sensação do dever cumprido permitiam o uso de mecanismos próprios das elites por ele beneficiadas. Outros, por abandonarem as raízes e os anseios populares em troca de benefícios inerentes ao poder.

O resultado aí está: um ex-presidente e um partido expostos ao bombardeio dos principais setores da vida nacional. Cederam à tentação. Agora aguentem..

2016 e o enfraquecimento da democracia brasileira

Falta menos de um ano para a campanha municipal de 2016.

Diante da crise política e econômica, surgem muitas indagações sobre quais serão os rumos, estratégias e ações a serem usadas no processo eleitoral.

A completa deterioração dos partidos, antecipa a pouca influencia das siglas na escolha final do eleitor.

O Datafolha registrou, em pesquisa recente, o maior índice histórico, desde a redemocratização, de desinteresse dos eleitores da cidade de São Paulo pelos partidos políticos.

71% do eleitorado afirma não ter qualquer preferência pelas 35 siglas que anunciam candidaturas.

O mesmo certamente ocorre em todo o país.

Sem partidos confiáveis, a opção do eleitor torna-se difícil, sobretudo considerando as pequenas alterações da “fajuta” reforma política que o Congresso alinhavou.

Tudo direciona para o fortalecimento daqueles que são os atuais “proprietários” dos partidos.

Para eles, nada mudou.

Ao contrário, fortaleceu as ditaduras partidárias, cujos representantes no Congresso resistem a qualquer tipo de mudança profunda e cirúrgica.

Em 2015, o dinheiro destinado ao Fundo Partidário triplicou, mesmo em momento de ajuste fiscal.

Para 2016, o propósito já anunciado é duplicar a verba destinada aos partidos políticos.

Terão acesso a esses recursos, os “protegidos” das cúpulas que se eternizam no comando partidário.

O “militante” em nada influi, em razão da abominável autonomia partidária consagrada na Constituição de 1988, que nada mais é do que chamar de atos “interna corporis”, todos os desmandos praticados pelos dirigentes e isentá-los de qualquer tipo de fiscalização, inclusive judicial.

Embora positiva a redução do tempo de campanha (de 90 para 45 dias), o candidato que não tenha mandato, nem influência na cúpula partidária, terá pouca chance de tornar-se conhecido e transmitir as suas ideias.

Os beneficiários serão os detentores atuais de mandatos, que manipularão as máquinas partidárias.

Até no rádio e TV, os “sem mandatos” serão prejudicados, pelos poucos acessos, diante da diminuição de 45 para 35 dias da propaganda gratuita.

Os dirigentes se auto protegeram ao isentarem-se de punição na rejeição de contas da campanha, ou não prestação de contas pelo candidato.

Torna-se impossível a arguição de privilégios na liberação de recursos para certos candidatos, tendo em vista que a lei se omitiu e regulou apenas o recebimento do dinheiro pelo candidato favorecido.

As alterações da vergonhosa legislação aprovada pelo Congresso, se restringem a coisas miúdas, sem profundidades, como por exemplo, proibir cavaletes, pinturas de muros, bonecos e faixas divulgando candidaturas em vias públicas.

O que se pode esperar em 2016?

A resposta é aquela célebre frase: “com certeza, não haverá perigo de melhorar, absolutamente nada”.

O país continuará a clamar por mudanças radicais nos partidos e nos processos eleitorais e políticos vigentes.

Se, pelo menos, o espaço disponível na propaganda no rádio e TV fosse usado para debates entre os candidatos, mediados pela justiça eleitoral, o eleitor poderia orientar-se melhor.

Nada evoluiu em matéria de canais que abrissem perspectivas de renovação nos métodos e práticas politico-eleitorais.

O voto será dado sem motivação.

Tudo poderá acontecer, até abstenção e nulidade generalizadas de sufrágios.

Pela omissão do Congresso (e do governo também), 2016 se transformará em mais um fator de enfraquecimento da já debilitada democracia brasileira.

Democracia abalada

O dia a dia da análise política muitas vezes deixa escapar a ligação entre fato, conjuntura e estrutura. O primeiro diz respeito a ações isoladas dos atores políticos. O segundo diz respeito a um período de curto e médio prazos, no qual o conjunto das ações politicas está condicionado por algumas circunstâncias. E o terceiro envolve o desdobramento de determinadas conjunturas em um processo de longo prazo. Neste sentido, e com esta perspectiva, discordo da maioria dos analistas políticos no que se refere à relação da crise atual (conjuntural) com o funcionamento da nossa democracia (estrutural) à luz de elementos factuais.



O que diz a maioria dos analistas é que não estamos, ainda, diante de uma crise institucional e, por consequência, com as instituições em funcionamento, a democracia não está afetada. Como já argumentei neste espaço (“Estresse institucional”, 16/09/15 ) nossas instituições estão funcionando sim, mas dentro de um jogo de estica e puxa que, além de desmontar o que pode ser considerado como microinstituições, põe a todo instante em xeque a interpretação dos princípios abstratos macroinstitucionais.

A chegada de Lula ao poder representava o grande teste para a democracia brasileira, e como houvera sido sinalizado em 2002, esperava-se que o governo de esquerda proporcionasse avanços sociais para os menos favorecidos, mas que mantivesse o compromisso com a estabilidade e a modernização da economia, e sequer suspeitava-se que o aparelhamento do Estado para fins escusos fosse levado a tal ponto. Muito menos que a resultante fosse o desmantelamento da representação partidária, o retrocesso econômico que ora ameaça os justos avanços sociais obtidos e um quadro de completa ausência de liderança.

A lista dos fatos que corroboraram para que se chegasse a esta situação é imensa. No rol da corrupção temos desde Waldomiro Diniz até o escândalo da Petrobras. Na economia, o escamoteamento do rombo fiscal, no campo político, a proliferação de siglas que nada representam a não ser a acomodação de interesses a uma estratégia de sobrevivência eleitoral.

O resultado de tudo isso é que o sistema jurídico precisou inovar para dar resposta a situações não previstas em seu ordenamento, o quadro econômico exige medidas que fatalmente causarão algum prejuízo aos menos favorecidos, e o futuro presidente terá que contar com a imprevisível recomposição do quadro partidário, para que mecanismos do presidencialismo de coalizão voltem a funcionar.

Por estes motivos, acredito que o grande teste da democracia brasileira foi um relativo fracasso. Relativo porque, embora não se tenha chegado ao ponto em chegaram muitos de nossos vizinhos, houve uma tentativa de submeter as instituições à logica de um partido que não convive bem com o pluralismo.

A importância do 'não'


Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não
Manuel Alegre

Brasil desigual

Apesar das políticas de distribuição de renda vigentes no Brasil, sobretudo a partir dos governos FHC, Lula e Dilma, a desigualdade segue gritante no país.

De acordo com levantamento do grupo Credit Suisse, 0,1% dos brasileiros (pouco mais de 2 milhões de pessoas entre cerca de 205 milhões, de acordo com o IBGE) possuem mais de US$ 1 milhão em suas contas bancárias. Enquanto isso, a grande massa – 75,9% da população (mais de 155,5 milhões de pessoas) – precisa se virar com menos de US$ 10 mil de patrimônio privado.

O levantamento aponta que, apesar de a riqueza mediana brasileira ter mais que dobrado entre 2000 e 2015 (saltou de US$ 8.027 para US$ 17.597), a riqueza por adulto caiu 25% apenas entre 2014 e 2015. A principal causa seria a desvalorização do real.


Apesar do empenho do governo para manter os programas sociais – como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida – diante do ajuste fiscal, fica claro que as políticas adotadas até aqui ainda não surtiram o efeito desejado de redução da desigualdade. A tendência, inclusive, é de piora, já que o relator do projeto do Orçamento da União para 2016, deputado Ricardo Barros (PP-PR), recomendou o corte de R$ 10 bilhões no Bolsa Família.

A presidente é categórica ao afirmar que o governo não admitirá cortes no Bolsa Família, mas, como o rombo previsto é de, no mínimo, R$ 30 bilhões, segundo a proposta apresentada pelo próprio Executivo, fica difícil garantir a estrutura atual do programa para 2017.

No capitalismo, todos são livres para acumular ilimitadamente as riquezas possíveis de maneira lícita. No entanto, cabe aos governos, em todas as esferas, garantir que, independentemente do saldo no banco ou do número de carros na garagem, todos os cidadãos tenham acesso a serviços públicos dignos.

No Brasil, com sua exorbitante carga tributária, esse é um fator de desigualdade social.

Como esforço da Suíça para limpar imagem ajuda a Lava Jato

Após vários escândalos de evasão ilegal de dinheiro e forte pressão internacional, a Suíça tenta mudar sua imagem de maior paraíso fiscal do planeta.

O país está reformando suas práticas bancárias e passou a cooperar de maneira mais espontânea em investigações sobre contas secretas de estrangeiros no país, como vem ocorrendo atualmente no caso da Lava Jato.

O maior passo nesse sentido foi dado recentemente pelo Conselho Nacional (a câmara baixa do Parlamento) do país, que aprovou, em setembro, a troca automática de informações tributárias com administrações fiscais internacionais a partir de janeiro 2018.

Na prática, isso porá fim ao famoso sigilo bancário suíço, praticado desde o século 19 e regulamentado por uma lei de 1934.

As instituições financeiras do país serão obrigadas a comunicar ao Fisco suíço os dados bancários de estrangeiros, que serão repassados às autoridades fiscais dos países dos titulares das contas.

Em maio, a Suíça já havia firmado com a União Europeia (da qual o país não faz parte) um acordo sobre a troca automática de informações fiscais de cidadãos europeus não residentes na Suíça.

Para analistas, o fim do sigilo bancário suíço é uma etapa importante para a "normalização" do país, criticado durante décadas por sua falta de transparência e sua recusa em cooperar com as administrações tributárias ou a Justiça de países estrangeiros em casos de investigações fiscais.

"A Suíça tem sofrido forte pressão internacional. A transparência fiscal está no foco da comunidade internacional nos últimos dois anos", disse à BBC Brasil Monica Bhatia, chefe do secretariado do Fórum Mundial para a Transparência e Troca de Informações Tributárias, integrado por 129 membros, entre eles a Suíça e o Brasil.

"Há cada vez menos lugares para esconder dinheiro no mundo. Estamos avançando fortemente nesta direção", assegura Bhatia.

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Inclusão social perde brilho com crise no Brasil e América Latina

O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, resumia a princípios deste mês de outubro de 2015 os avanços sociais da América Latina no último meio século: “A esperança de vida aumentou de 59 anos a 75 anos, a mortalidade infantil reduziu-se de 96 por 1.000 a 16 por 1.000, a pobreza extrema caiu pela metade e pela primeira vez na história, há mais latino-americanos na classe média do que na pobreza”.

No Brasil, a queda da renda é muito pior que a queda do PIB. O prognóstico é bem negativo para o futuro, principalmente nas zonas metropolitanas

A síntese de Kim não detalhava que esses avanços se interromperam quase por completo na década perdida dos anos oitenta. E que devem muito ao que Eduardo Gudynas, do Centro Latino-americano de Ecologia Social, chama da “conjugação inesperada”na década vencida (2004-2013): “Os altos preços de matérias-primas geraram maiores excedente e reforçou-se o papel do Estado no combate à pobreza”.

Gudynas sublinha que se privilegiaram as compensações em dinheiro, em referência a programas de transferência de renda como o brasileiro Bolsa Família. Houve também avanços na redistribuição dos rendimentos, embora a América Latina continua sendo, de longe, a área mais desigual do mundo. Guillermo Calvo, da Universidade Columbia, teme que os lucros sociais não consigam se manter: “O déficit fiscal leva a um ajuste. Pode ser que as transferências aos pobres se mantenham, mas vai se tirar do investimento, o continente crescerá menos e serão criados menos empregos”, prognostica. “Muitos dos que ingressaram nas classes médias vão cair de nariz.”

No caso do Brasil, a desaceleração da economia já cobra fatura na área social, segundo o economista Marcelo Neri, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Dilma. "A desigualdade parou de cair no país e agora ela está andando de lado. O que me preocupa nessa era de desajustes de contas públicas é que a desigualdade não vai voltar a cair nos próximos anos e estagnamos em um nível alto", afirma Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ e ex-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

O especialista explica que nos últimos anos, a melhora na distribuição de renda brasileira não se deu apenas pela implementação de programas sociais, como o Bolsa Família. Segundo Neri, o fator que mais contribuiu para melhorar a vida dos 40% de brasileiros mais pobres foi o aumento da renda média do trabalhador. Durante a última década, a parcela mais pobre do Brasil viu seus ingressos crescerem 5,8% ao ano. "Ou seja, avançava muito mais que o PIB brasileiro, sendo que, desse valor, 3,9% vinham da renda do trabalho. Eles subiram na vida porque trabalharam, pois o mercado estava aquecido e algumas questões estruturais avançaram, como a educação. Claro que os programas sociais deram um empurrão, mas a maior parte veio do esforço do trabalhador", explica.

Governo pedala, pedala e não vai a lugar algum


O que prova que temos governo, e um governo que funciona – não importa se bem ou mal? As notícias que a mídia divulga diariamente a respeito dele.

O ministro tal disse isso. O outro ministro disse aquilo.

O ministro Joaquim Levy, da Fazenda, participou de um seminário em Londres. Ou em Nova Iorque. Ou em Genebra.

A presidente Dilma voou a algum Estado para entregar novas unidades do programa Minha Casa Minha Vida. Na volta, se reunirá com Lula em Brasília para receber novas orientações.


Coisas assim indicam que o governo não está paralisado. Mas é quase como se estivesse. Porque o que de fato importa não anda.

A aprovação do ajuste fiscal não anda. Está parado no Congresso, mais exatamente na Câmara dos Deputados. E o motivo é simples: o governo não reúne votos suficientes para aprová-lo.

Segue a distribuição de cargos para os políticos que prometerem votar como quer o governo. Aboliu-se qualquer critério para o preenchimento dos cargos. Vale tudo, de preferência gente sem atributos técnicos.

Mesmo assim, o governo não se sente seguro para enfrentar a votação de assuntos delicados.

Aumentou o grau de independência dos deputados federais em relação ao governo. E a explicação é só uma: por que identificar-se com um governo rejeitado pela maioria esmagadora da população?

O que ganho se fizer as vontades de uma presidente condenada por oito em cada dez brasileiros?

Aqui mora a explicação para a inércia do governo. Poucos têm coragem para defendê-lo. Mesmo se contemplados com sinecuras.

Outra razão para a inércia: Dilma não sabe para aonde ir e o que fazer. Espera que a crise econômica se resolva mediante o arrocho que levou. Só tem hoje uma ideia fixa: escapar do impeachment.

A crise política não sumirá do mapa porque a econômica começará a esfriar a partir do segundo semestre de 2016, se tudo der certo.

Há sinais no horizonte de que a crise política escalará mais alguns degraus por causa da Lava-Jato e do que possa acontecer com Lula e seus parentes.

Oposição e governo estão cada vez mais distantes e sem canais de diálogo. A oposição ganha com isso, o país não necessariamente.

As próximas eleições municipais farão o PT sangrar mais do que ele pode admitir.

Sem que o governo Dilma se recupere, nada salvará o PT do desastre desenhado para 2018.

Dilma afronta o país com luxo e riqueza

As viagens da Dilma para o exterior são infrutíferas, não trazem benefícios ao país. Servem apenas para ela fugir da crise e gastar R$ 2 milhões por ano apenas com comida a bordo do avião presidencial, dinheiro do contribuinte que, como idiota, continua sustentando o luxo dela e bancando suas despesas em bons e sofisticados restaurantes lá fora. O jornalista José Casado, do Globo, fez um levantamento minucioso dos gastos da estrutura presidencial e chegou a números espantosos. Foram R$ 9,3 bilhões no ano passado para sustentar a entourage que gira em torno dela com alimentação, vestuário, viagens aéreas, servidores, jardinagem, deslocamentos internos e externos, carros, combustíveis, cartões corporativos, vigilância privada e órgãos à sua disposição.

Essa despesa astronômica em um país em crise, mostra que a reforma ministerial da Dilma é pura balela. Como foi também para inglês ver o corte de 10% nos salários dos ministros. Não se conhece até hoje nenhum resultado positivo para a economia do país advinda das viagens da Dilma. O custo benefício é praticamente zero, danoso para a nação. Na verdade, o que se conhece muito bem são as suas gafes quando fala com a imprensa internacional. A mais recente delas é a da falta de tecnologia para “estocar ventos”. Esse folclore gerado por uma presidente tonta e descoordenada tem sido motivo de pilhérias e a descredencia a falar em nome do Brasil.

A falta de preparo para enfrentar os problemas da economia, aliada a incompetência para colocar novamente o país nos trilhos do desenvolvimento, é fruto de erros sucessivos que se acumulam nos últimos cinco anos desse desgoverno, que tem na chefia uma presidente que caiu de paraquedas no maior cargo público da nação.

A última pesquisa mostra que os brasileiros não querem mais sustentar um governo incapaz e inepto como esse. Os números indicam que de dez brasileiros, sete não a querem mais no cargo, índice jamais alcançado por outro presidente no poder. Além da notória incompreensão dos problemas sociais e econômicos do país, a Dilma tem dificuldades para dialogar com os políticos e empresários, hoje órfãos de uma interlocução consistente. É desse vazio de comando que muitos petistas se prevalecem para assaltar os cofres públicos.

Veja aqui apenas um aperitivo do que apurou José Casado para sustentar a sua matéria no Globo: “Ano passado, as despesas do núcleo administrativo diretamente vinculado a Dilma somaram R$ 747,6 milhões. Pouco mais da metade disso (R$ 390,3 milhões) foi usado para pagar assessoria e serviços prestados à presidente nos palácios onde trabalha e reside e durante as viagens. Dilma já custa para os brasileiros praticamente o dobro do que a rainha Elizabeth II e a família real para os súditos britânicos.
O luxo anual:
R$ 3 bilhões com serviço de vigilância privada pagos às empresas Confederal, TBI, Albatroz e Santa Helena Vigilância;
R$ 220 milhões com serviço de manutenção do Palácio do Planalto;
R$ 302 milhões gastou com festas e comemorações o ano passado;
R$ 16 milhões com alimentação no Planalto. Desse total, uma fatia de R$ 1,3 milhão fica reservada para prover a despensa, os cardápios sob encomenda e a adega da presidente, com capacidade para 2.000 garrafas;
R$ 7,4 milhões para manter 28 copas, por onde transitam 88 garçons e 58 copeiras impecavelmente vestidos;
R$ 4 milhões anuais com jardinagem e irrigação do Palácio da Alvorada.

“Em viagens ao exterior”, segundo José Casado, “Dilma prefere hotéis às residências oficiais nas embaixadas brasileiras. Em junho, passou três dias numa suíte do St. Regis, em Nova York, decorada por joalheiros da Tiffany. Depois, passou um dia em São Francisco, Califórnia, no hotel Fairmont, cuja suíte principal tem um mapa estelar em folhas de ouro contra um céu de safira. O custo médio das diárias nos EUA foi de R$ 36 mil. Para servi-la e à comitiva foram contratados 19 limusines, 15 motoristas, dois ônibus e um caminhão para transportar bagagens. Custou R$ 360 mil. Em Atenas, na Grécia, em 2011, a presidente gastou R$ 244 mil numa “escala técnica” de 24 horas — mais de R$ 10 mil por hora”.

Pois é, é pura demagogia o corte de 10% que ela determinou nos seus salários (R$ 26,7 mensais) e dos seus 31 ministros. E o brasileiro, coitado!, mesmo desempregado, continua sustentando essa orgia de gastos da presidência.

O ano político terminou?

Prevista para hoje, uma reunião do Conselho de Ética da Câmara deverá examinar o pedido de deputados da oposição para abertura de processo contra Eduardo Cunha, por quebra do decoro parlamentar. A acusação é dupla: manter contas bancárias na Suíça sem participação à Receita Federal e haver mentido numa CPI, dizendo não possuir dinheiro fora do país.

No Conselho de Ética as opiniões se dividem. Metade de seus integrantes entende haver motivo para a cassação do mandato de Cunha. A outra metade rejeitará o pedido. Até que os trabalhos se iniciem, à tarde, mudanças na composição do colegiado poderão acontecer. O presidente da Câmara tenta formar maioria em seu favor, para livrar-se liminarmente da acusação. Como são os partidos que indicam seus representantes, pressões vêm sendo feitas sobre suas bancadas e seus líderes.

Parece certo que, se o processo for iniciado, jamais se terá algum resultado antes do segundo semestre do próximo ano. A tramitação é demorada, com prazos para o relator a ser escolhido e a defesa.

Eduardo Cunha controla a maior parte do plenário, instância decisória final para a sorte de seu mandato. A impressão é de que escapará, caso não surjam fatos novos, como as manifestações do Procurador-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal. O provável é que nenhuma solução venha a ser adotada antes do final de 2016, quando vence o período do deputado na presidência da Câmara. Seu mandato parlamentar encerra-se em fevereiro de 2019.

Inegável tem sido seu desgaste, mas daí até à cassação a distância surge razoável. Atuando como verdadeiro líder da oposição, responsável pela defecção de boa parte da bancada do PMDB, o deputado fluminense tem na manga carta de reconhecido valor, o pedido de impeachment da presidente Dilma. Vem protelando sua decisão de aceitar e dar seguimento ao processo, ou arquivá-lo. Corre no Congresso a existência de um acordo de preservação mútua entre o palácio do Planalto e o presidente da Câmara. O governo influenciaria deputados da base oficial para posicionarem-se contra a cassação de Cunha, enquanto este congelaria o pedido de afastamento de Dilma. Um conluio à margem do conteúdo das acusações de um lado e de outro, muito comum entre nós, apesar de podre.

Em suma, salvo inusitados, o ano político parece haver terminado. A menos, é claro, que a crise econômica se torne pior do que já está, transformando-se em crise social. Nessa hipótese, poderia não sobrar ninguém. Nem Dilma nem Cunha. E nem nós…

A greve é um direito do trabalhador. Mas tudo tem limite. Em Brasília, professores, funcionários públicos, bancários – parou todo mundo. Existem, porém, categorias que a ética e a lógica impedem de fazer greve, mas fazem. Os médicos, por exemplo, deixando doentes graves sem atendimento. Pior ainda: os funcionários do necrotério e dos cemitérios. Ontem foi dia dos mortos, que nem direito a ser enterrados tiveram…

Filhos de Lula, netos do Brasil

Faz parte da pior cinematografia brasileira a obra em que Flávio Barreto tentou filtrar e tornar cristalinas as águas turvas em que mergulha a figura de seu "Lula, o filho do Brasil". O filme conta a história de um menino de origem miserável, cujo caráter teria sido marcado pela figura amorosa de dona Lindu, mulher de grande valor, que criou sozinha a numerosa prole. Em meio às dificuldades do sertão e da cidade grande, ela impôs a todos uma firme determinação moral: "Nesta família ninguém vai ser ladrão nem prostituta".


O filme e a frase me vieram à lembrança ao ler que o presidente nacional do PT, Rui Falcão, informado da busca e apreensão de documentos na empresa de Luís Claudio Lula da Silva, filho do filho do Brasil, exclamou indignado: "Tem tubarão e vão atrás de peixinho!". Referia-se a quem? Não sabia que Rui Falcão fosse dado a sutilezas e ironias. Sobre o mesmo episódio, o noticiário do dia 27 relatou que Lula se queixou amargamente da presidente e do ministro José Eduardo Cardozo, que não teriam intervindo para estancar as investigações. "A situação passou dos limites", haveria dito Lula.

De fato, passou dos limites. Os filhos de Luiz Inácio - Luís Cláudio e Fábio Luís - incorporaram Lula ao próprio nome e, em poucos anos, a exemplo do pai, se tornaram empresários muito bem sucedidos. Receita, não única, mas segura, para o sucesso no mundo dos negócios brasileiros: acrescente Lula ao nome ou seja parente do homem. Rapidamente, milhões cairão do céu em suas contas bancárias.

Não sei se o leitor destas enojadas linhas já reparou que a megalomania de Lula, a mesma que o leva a afirmar que acabou com a pobreza no país, tem a melhor representação precisamente no entorno do presidente e de seu partido. Companheiros que, em 2003, desembarcaram em Brasília viajando de ônibus e calçando chinelo de dedo, hoje vestem Armani e voam em jatinhos públicos ou privados. Nada mais acelerado (nem celerado!), em matéria de desenvolvimento social.

O filho do Brasil, pai dos pobres e padrinho dos ricos sem caráter, lida com tanta grana que se expôs a uma investigação da COAF. Enquanto isso, os netos do Brasil, os filhos do "filho", proporcionam lições de sucesso empresarial que deveriam ilustrar manuais em cursos de Administração. Fabio Barreto está devendo à nação um segundo filme, atualizando a biografia do filho de dona Lindu.

Percival Puggina

A volta da paranoia

Eu fui ver a “Ponte dos Espiões”, de Spielberg. O filme é sensacional. Trata daquele celebre caso do U2, o avião de reconhecimento que foi derrubado pelos soviéticos em 1960.

E mais importante do que o enredo é o contexto em que ele se passa: a loucura anticomunista dos norte-americanos daquela época. A paranoia estava estampada nos rostos dos militares e agentes da CIA durante a Guerra Fria. Vemos ali os rostos trincados, os olhos fuzilando ódio, as queixadas intolerantes, as beiçolas mussolínicas e implacáveis, todos os traços da estupidez competente que marca os defensores do ‘sonho americano, depois da Segunda Guerra Mundial.

Ali vemos os séculos da ideologia religiosa que começou com humildade bíblica e descambou para o rancor e a boçalidade fanática de hoje.

Eles acham que os democratas são “cães infiéis”, exatamente como pensam os muçulmanos. Os fundamentalistas que nos deram “tea parties” são um detergente. Querem limpar a América dominada pelos “esquerdistas” como o Obama, e encarnam o pensamento dos milhões de idiotas que jazem entre o hambúrguer e o sofá diante da TV, que acham que os problemas do mundo podem ser ‘raspados’, que dissidências se esmagam, que as complexidades devem ser achatadas, que o múltiplo tem de virar uno e que tudo tem um princípio (desde quando Deus criou o mundo há 6.000 anos...) e um fim que deve ser igual ao início. Eles ostentam uma certeza que nunca nos premia com um olhar compassivo, como aquele casal puritano no célebre quadro de Grant Wood, “American Gothic”.

Com a euforia multilateral dos anos 90, tínhamos esquecido o que era a boa e velha direita mesmo. Agora, ressurge no mundo uma grande busca de chefes, de líderes com bandeiras do “futuro”, um autoritarismo que renega a moleza inoperante e lenta da democracia.

A razão fracassa e instala-se o reino da estupidez. E o que é o fascismo senão a estupidez no poder?

Eu já estive lá, pouco antes da queda do U2. Eu vi a Guerra Fria de perto, vi seus efeitos na cabeça dos norte-americanos quando morei na Flórida em 1957, ainda “teenager”.

A cidadezinha era igual aquela do “Truman Show”. As ruas, pessoas, rituais, sorrisos e lágrimas, tudo parecia programado por uma máquina social obsessiva. A vida e a morte eram padronizadas, previstas: abraços gritados, roupas iguais, torcidas histéricas no baseball, alegrias obrigatórias, formando uma missão cheia de fé, como um carrossel de certezas girando para um futuro garantido. Os ídolos da época eram Elvis Presley rebolando na TV e James Dean, cadáver presente nos gestos e roupas da “juventude transviada”.



Não havia espaço para dúvidas naquela cidade, mas percebia-se que a solidez de certezas, se rompida, provocaria um grave desastre. Pairava um clima de intolerância entre os próprios brancos; eram os fortes contra os fracos, as meninas bonitas contra as feias, as sérias contra as “galinhas”. Eu, turista tropical, era um tipo misterioso; tímido mas, como era estrangeiro, os colegas da “high school” me poupavam por minha habilidade em dar-lhes “cola” em “spelling”, soletrando palavras de raiz latina que, para eles, eram enigmas.

A violência dos alunos me assustava. Eu me chocava com as botas de cowboy marchetadas de estrelas de prata, as facas de mola de onde a lâmina pulava, os casacos de couro negro, uma rebeldia reacionária e “republicana” dos anos de Eisenhower. Havia nos rostos um orgulho de cowboys.

Mas, desde 1949, com a explosão da bomba H pelos soviéticos, destronando a liderança dos destruidores de Hiroshima, os norte-americanos temiam outra humilhação.

Até que um dia chegou a noticia devastadora. Tinha subido aos céus o satélite russo, o Sputnik, girando como uma bola de basquete em órbita da Terra. Pânico na cidade. Em minutos, a cidade parecia um campo de refugiados, com cabeças inchadas, com pavor dos comunistas invasores.
No colégio, começaram “fire drills” incessantes, alarmes evacuando os alunos para porões e abrigos atômicos. O então senador Lyndon Jonhson berrou: “Brevemente estarão jogando bombas atômicas sobre nós, como pedras caindo do céu...”

No alto, o satélite Sputnik humilhava os norte-americanos, com seus “bip bips” como gargalhadas de extraterrestre.

A partir desse dia, lá em baixo, na cidadezinha da Flórida, eu mudei. Não para mim, mas para os outros. Os colegas “transviados” me investigaram com perguntas: “O que você acha? Teu país gosta dos russos?”. Eu tremia e escondia minha vaga admiração juvenil pelo socialismo. Eles me olhavam desconfiados – brasileiro, latino, sabe-se lá? Depois disso, não me pediam mais cola de palavras, mal me olhavam. Melinda ficou mais pálida e nosso namoro definhou.

Eu estava vendo o “choque e pavor” da América profunda. Essa era a época da chamada “silent generation”, passiva e ignorante. Sua reação era a mesma dos fundamentalistas do “Tea Party” hoje. São mais perigosos que os islamitas guerreiros, que explodem trens e aviões, mas não devastam o Ocidente, por rancor, vingança e onipotência, como fez o Bush.

Depois, quase acabou o mundo em 1962, quando os cubanos instalaram mísseis soviéticos na ilha.
Hoje, a paranoia da direita é mais difusa, disfarçada num mundo onde a polaridade Rússia x América acabou, apesar de que o Putin, o cover de Stalin, quer restaurar o tempo da KGB. Cresce a vontade de irracionalismo, diante da falta de soluções.

O caos é hoje uma trágica novela sem fim, como vemos na TV: islã virado em barbárie, Oriente Médio enterrado no lixo da primavera árabe, a miséria se afogando em barquinhos de borracha na costa da Itália, a insolúvel guerra do nazista Bibi Netaniahu contra os palestinos.

A chamada “direita” – mesmo fingindo de “esquerda” como no Brasil do PT – renasce em toda parte sem barreiras de contenção. Já pensaram se o Mitt Romney tivesse sido eleito? E se Hillary não ganhar? Virá um tempo de desprezo pela “sensatez” dos “fracos e covardes” democratas. A paranoia está de volta.

O tumulto

A fila do cartório estancou. No balcão, uma jovem senhora de cabelos prateados arriscava a serenidade diante do indecifrável. Para conceder um documento, exigiam-lhe o CPF da mãe.

Ela argumentava: — Mas a minha mãe morreu há trinta anos e nunca teve um CPF...

— Só com o CPF dela — repetia a cartorária.

Ao perceber que a fila a conduzira à fronteira de uma dimensão irreal, onde o absurdo é a regra, aventurou-se num quase patético pedido de ajuda: — Por favor, então me explique: como é que eu tiro o CPF de alguém que não é mais uma pessoa?

A escrevente mirou-a com firmeza, e retrucou: — Eu não sei, mas sem o CPF não faço.

Cármen Lúcia Antunes Rocha agradeceu e foi embora mastigando seus versos prediletos de Carlos Drummond de Andrade: “As leis não bastam/Os lírios não nascem da lei/ Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra...”

Três décadas atrás, nas aulas de Direito Constitucional na PUC de Minas, aprendera que o Estado existe para servir às pessoas. Hoje, na vice-presidência do Supremo Tribunal Federal, continua acreditando que o Estado não existe para infernizar a vida dos outros.

A vida real, porém, insiste em discordar. Milhares de brasileiros atravessaram o feriado prolongado em luta com a Receita Federal para pagar tributos. O governo juntou uma sopa de siglas (GFIP, FGTS, Caged, Rais, CAT, PPP, Dirf e TRSD, entre outros) num portal eletrônico, eSocial, que não funciona. Os prazos se esgotam e a Receita avisa: a multa será automática.

A burocracia permite colher impostos e plantar funcionários, especialmente num governo à caça de alianças com o baixo clero da política, para garantir aquilo que chama de governabilidade, traduzível em novos tributos para alimentar a máquina de 31 ministérios com 49,5 mil áreas administrativas, que se dividem em 53 mil núcleos devotados, aparentemente, a azucrinar a vida das pessoas.

A sociedade resiste. Sexta-feira, por exemplo, uma comissão consultiva do Senado deve anunciar um pacote de iniciativas com o objetivo de acabar com parte do papelório inútil do Estado que tumultua a vida nacional.

O primeiro projeto é simbólico da confusão burocrática brasileira: pretende-se reeditar norma instituída 47 anos atrás, no interminável ano de 1968, quando as tropas soviéticas esmagaram a Primavera de Praga e o regime militar brasileiro decidiu invadir a Universidade de Brasília. Trata-se da extinção do instituto da firma reconhecida.

Outra ação prevista é o fim das licenças conhecidas como alvarás, herança do absolutismo estatal. O emaranhado desse tipo de papelório oficial criou situações esdrúxulas como a do Leblon, bairro da Zona Sul do Rio, onde oficialmente não existem restaurantes. Todos os locais onde há comida para venda são classificados como “lanchonetes”.

É assim porque uma antiga norma municipal de 49 páginas, com 102 artigos e inúmeros derivativos em resoluções e decretos, determina que o Leblon só pode abrigar comércio de refeições ligeiras e frias.

É outro desses casos em que a burocracia persiste na defesa do status quo, muito tempo depois que o quo perdeu o status.

Ninguém pode garantir que a crise esteja superada em 2018

O Brasil sempre foi roubado pelas elites dirigentes, desde o Império até a República atual. Quantificar o total de cada fase histórica e de governos em particular, me parece uma tarefa inglória fadada ao insucesso. A tendência humana é crer que a crise do momento seja a pior possível. Mas, esquecem que já tivemos inflação de 80% ao mês, quando Maílson da Nobrega era ministro da Fazenda.

Nenhum de nós pode afirmar que “estaremos melhores” no longo prazo, quer dizer, em 2018. A crise atual é um pouco a crise do capitalismo. A decadência começou em 2008 e atingiu o conjunto das nações. Europa e EUA ainda capengam por conta da bolha imobiliária americana, o estopim da crise no mundo ocidental, que vem atingindo todos os continentes.

No caso brasileiro, principalmente a queda do crescimento da China nos atingiu em cheio. Basta citar a Vale do Rio Doce, privatizada por FHC, experimentou um prejuízo – contabilizado agora em outubro – da ordem de 3 bilhões de dólares. E olhe que estamos falando de uma empresa privada, vendida na bacia das almas pelo governo de FHC, por apenas 3 bilhões de reais.

Vamos aguardar se essa antes próspera Vale do Rio Doce possa superar o momento crítico sem demitir trabalhadores, os primeiros que perdem ao menor sinal de crise.

Os políticos do século passado eram melhores do que os atuais. Reconheço que houve um retrocesso na qualidade da atividade parlamentar e na capacidade intelectual de suas excelências. Ouso afirmar que o Congresso atual é o mais conservador dos últimos tempos e o fato se reflete no ânimo do povo, que tem demonstrado desprezo por seus representantes.

E para falar a verdade, o povo não tem nada a ver com a crise econômica e política. O povo tem feito a sua parte, conforme se constata na primavera junina e nas passeatas pedindo o fim da corrupção e melhores condições para todos. Então, o que esse povo pode fazer mais?

“A esquerda acabou”. Muito bem, então só sobrou a direita para governar os povos! A natureza é sábia, basta olhar as flores do campo e ver que nenhuma é igual a outra. Entendo que deva haver várias tendências políticas.

Lula roubou do povo a crença nos homens públicos

Não é minha intenção lavar sujeira de ninguém. Acho que Lula tem se mostrado um pilantrão. E é essa ideia nova a seu respeito o motivo maior do que se tem falado, mais importante do que o fato de seus filhos envolvidos estarem envolvidos na corrupção. O povo tinha em Lula uma esperança. Essa esperança está se diluindo a cada dia. Lula era visto como o pobre que chegou à Presidência. Lula era visto como o estereótipo da superação na vida. Tanto que os escândalos não o abalavam em nada. Mas com essas provas do envolvimento dos filhos a coisa muda. Passa-se a por uma dúvida onde antes era certeza. Todas as acusações contra ele anteriormente refutadas passam a fazer sentido no imaginário popular. E isto pode ser a desgraça do nome do Lula.

O povo está aturdido, porque assim se perde uma referência importantíssima. Está se revelando um Lula que não é o Lula do povão. Está se revelando pro povão um Lula bandido, peralta, calculista. Isso choca a opinião das pessoas, que estão sendo obrigadas a reformularem seus conceitos. Exatamente por isso, têm a maior relevância esses fatos envolvendo os filhos do ex-presidente. Mais do que uma quantia em dinheiro, foi roubada do povo a crença nos homens públicos.

Bem, o problema todo é que o Lula vendeu a imagem de um santo e tem entregado ao povo a realidade de ser apenas mais um corrupto. As pessoas não perdoam os “deuses” que falham. O que os filhos do Lula fazem de errado não é exagero nenhum comparado aos filhos dos outros políticos poderosos e influentes. O problema do Lula é exatamente o fato de querer ser o santo imaculado. Isso irrita mais do o próprio fato de roubar. Eu acredito que todo mundo tira uma casquinha de um pai presidente. Ora, se você tem um primo de segundo grau delegado você se acha muitas vezes o rei da cidade, quanto mais se você for filho do presidente…

Não sejamos levianos. O que os filhos do Lula fazem é mais normal que o que a gente imagina. Não tenho nada contra eles; o problema mesmo é o pai deles continuar bancando o honesto, o pai dos pobres, o incomum, o deus da política. Isso é imperdoável.

Má partilha

À medida que o tempo passa, muita gente boa começa a fazer o inventário da trajetória do PT pelo governo, primeiro com o ex-presidente Lula e depois com a atual presidente Dilma Rousseff. Que herança vão deixar, no fim das contas, para a vida real do Brasil quando forem embora? Fora os próprios Lula, Dilma e seus admiradores, que pelas pesquisas de opinião somam hoje menos de 10% do público em geral, vai ficando cada vez mais difícil encontrar herdeiros satisfeitos, ou conformados, com a porção que lhes caberá na partilha. Não poderia ser diferente, com anos seguidos de governos dedicados a selecionar, o tempo todo, as piores opções disponíveis para lidar com qualquer problema — e, chegando aí, escolher sempre a pior de todas. Resultado: a menos que aconteça de repente algum fenômeno sobrenatural, a parte que cada um terá a receber nesse testamento vai ser uma perfeita miséria — salvo, é claro, para aqueles que de 2003 para cá souberam ficar no lado certo do guichê de pagamento do Tesouro Nacional e já receberam antecipadamente a sua parte. Mas nem tudo é prejuízo. Tirando casos puramente patológicos de lugares como a Venezuela, por exemplo, ficou claro a esta altura que Lula, Dilma, o PT e a "esquerda" brasileira têm hoje o que é possivelmente o melhor programa do mundo para governar mal qualquer coisa que tenha de ser governada. Junto com a herança, deixam um roteiro valioso para o futuro: se for feito o contrário do que fizeram, nada poderá dar realmente errado neste país.


Onde o governo petista foi à falência? A primeira resposta possível a essa pergunta é fácil: o PT tomou a decisão de governar o Brasil através do uso intensivo da corrupção. Não foi um acidente. Foi uma estratégia: os comandantes do partido e das forças a seu serviço se convenceram de que a maneira mais eficaz de ocupar a máquina do governo e não sair mais dali era encher de dinheiro público a si próprios, os amigos e os amigos dos amigos. A melhor prova de que agiram de caso pensado foi sua reação quando a ladroagem começou a ser descoberta — em vez de se corrigirem, procurando uma clínica de desintoxicação, partiram para a mais agressiva campanha pública em defesa da corrupção já registrada na história da República. É bem simples entender isso quando se considera que o maior feito do PT neste ano, em seu congresso nacional, em junho, foi aplaudir de pé o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, a mais graduada estrela petista nos processos de corrupção em massa na Petrobras, recém-condenado a quinze anos de cadeia pela 13- Vara da Justiça Federal de Curitiba.

A entrega da alma à roubalheira é o fruto inevitável do pecado original que envenenou os governos de Lula e Dilma — sua opção de viver em incesto com o Brasil velho, velhíssimo, cujo mandamento número 1 é transformar o patrimônio público em propriedade privada de quem está mandando nas engrenagens do Estado e do Erário. O PT é hoje um grande especialista em virar páginas da história para trás — ficou mais parecido do que nunca com a "direita", que tanto ataca nos palanques e tanto copia nos atos da vida real. Investiu tudo para deixar as questões essenciais do país exatamente onde sempre estiveram e, obviamente, só poderia obter os mesmos resultados. A prova desse casamento com o atraso está nos fatos. O Brasil de 2015 continua sendo, como era em 2003, um dos países campeões do mundo em desigualdade social. Os sindicatos de trabalhadores jamais foram tão fracos; são apenas repartições públicas que obedecem ao governo, vivem de dinheiro tirado dos impostos e têm como principal função fornecer sustento e prosperidade a seus próprios dirigentes. A maior despesa do poder público está no pagamento de juros.

A matriz dos erros do PT e de seus governos pode ser encontrada, basicamente, numa prodigiosa preguiça mental que os faz viver em pleno século passado. Suas lideranças são proibidas de pensar. Continuam dependentes de ideias mortas, repetindo o palavrório usado pela esquerda nos anos 80, ou 50, ou até 30; recusam-se a entender que o "socialismo" é uma fé extinta, como o esperanto ou a crença na Terra plana, e recusam-se a fazer o mínimo esforço para conviver com as realidades de um mundo regido pela liberdade econômica, pelo império do conhecimento e pela democracia. A consequência é que o PT não consegue funcionar como fonte geradora de nenhuma proposta coerente para o Brasil; tem um método, mas é incapaz de ter um programa. Não reage mais a estímulo algum. É como se estivesse em estado de morte cerebral, respirando artificialmente por aparelhos — no caso, os cargos que ocupa na máquina pública, e apenas isso. Os "movimentos sociais" que apresenta como sua grande base de apoio não podem mais sobreviver sem dinheiro público. Mais que tudo, talvez, o PT e a esquerda nacional não existem sem Lula. A recusa em pensar os condenou a viver como um bando de passarinhos pendurados no fio elétrico — pousam e levantam voo sem nunca saber por quê, preocupados unicamente em ir para onde Lula está indo. Pagam, agora, um preço alto por sua opção: quando não houver mais Lula, não haverá mais PT.


Após treze anos no poder, o PT e a esquerda se tornaram a mais agressiva de todas as forças que hoje atuam contra as mudanças indispensáveis para o avanço social do Brasil. São defensores intransigentes de aberrações como o "ensino superior gratuito" — um prodígio de injustiça pelo qual a empregada doméstica paga a universidade pública dos filhos da patroa. Não admitem a mínima reforma no mais selvagem sistema de concentração de renda hoje em vigor no mundo — a Previdência Social brasileira, que gasta mais dinheiro com 950 000 aposentados do funcionalismo público do que com 27 milhões de cidadãos que passaram a vida trabalhando fora do governo. Chamam de "conquista social" o que é privilégio. Confundem pleno emprego com emprego a qualquer custo — e se tornam, com isso, os grandes incentivadores do barateamento do trabalho neste país. Vivem em guerra contra o lucro das empresas, incapazes de entender que empresas sem lucro não contratam nem aumentam salários. Ignoram que a única hora em que o trabalhador fica em posição de vantagem é quando as empresas estão indo bem, pois só aí investem; só quando investem, aumentam a oferta de emprego — e só aí precisam pagar mais pela mão de obra. Lula, Dilma e o PT acham que "o governo" tem dinheiro para "distribuir", quando a sua única fonte de recursos é o dinheiro dos outros — é inevitável que um dia falte, pois não pode ser reproduzido por vontade divina, e nessas horas os que menos receberam são os primeiros chamados a devolver o pouco que lhes foi dado, como se vê na recessão de hoje. Não admitem que só o bom funcionamento da economia de mercado é capaz de criar e aumentar renda. São os inimigos número 1 do mérito individual como gerador de progresso. Não aceitam a ideia de que a desigualdade tem de ser combatida com a garantia de oportunidades iguais para todos, e não com a distribuição automática dos mesmos resultados — que têm, obrigatoriamente, de variar segundo o talento e o esforço de cada um.

O Brasil que o PT quer é esse. Não pode dar certo.

Ideias fúnebres no Brasil zumbi

1. "Conquistas sociais" de quase uma década vão se perder em um triênio de recessão, 2014-16, se diz. Se foi tão pouco e tão breve, eram "conquistas" e "sociais"?

2. Este curto século 21 foi de reparações diminutas dos danos da nossa guerra social sempiterna: Bolsas diversas, cotas, subsídios para a educação superior ruim, subsídios para novas "Cohabs". Etc.

3. O trabalho se manteve precário. Não se trata aqui dos bicos. Trata-se de um sistema social e econômico de produzir empregos de escasso sentido humano e produtivo. De precariedade sistêmica.
4. Dos 92 milhões de ocupados no país, 6 milhões são domésticos. Um em quinze. Ganham em média um terço do rendimento médio do restante dos trabalhos. Se estes já não são grande coisa, meça-se o tamanho do trabalho doméstico pelas reações selvagens à mera tentativa de equiparação legal aos demais.

5. Há 1,42 milhão de domésticos no Estado de São Paulo, também 1 em 15 trabalhadores. Ganham em média pouco mais de R$ 900, menos que o piso de porteiros ou ascensoristas.

Há uns 125 mil porteiros na cidade de São Paulo, dizem sindicatos; 30 mil ascensoristas; 30 mil zeladores. Há 15 mil cobradores de ônibus. No Estado, há cerca de 290 mil seguranças privados legalizados; cerca de 100 mil frentistas.

6. Algo deu muito errado para que se sujeitasse tamanha massa de pessoas a ganhar tão pouco por trabalhos tão pouco produtivos, pois. Que faltam educação e infraestrutura é obvio. Por que faltam é a pergunta complicada.

7. O número de domésticos voltou a aumentar em 2014.

8. Nestes anos de reparações diminutas da guerra social e do ativismo reformista simbólico, identitário ou similar, a esquerda e suas lideranças pouco ou nada trataram de educação popular e, menos ainda, de SUS.

9. O governo da esquerda entrou em colapso a partir de 2013. Junho de 2013 parece ter acelerado ainda mais a marcha forçada da inépcia e da falta de sentido da política econômica de comprar paliativos sociais e empregos incertos com aumento de dívida pública, que também financiava o outro lado do balcão, empresas grandes e oligopólios, com subsídios muito maiores, um resumo rápido da "Pax Luliana", a grande conciliação.

Junho de 2013, o tombo do prestígio do governo e as necessidades eleitoreiras a seguir levaram o erro catastrófico ao paroxismo. Mas "erro" é explicação simplória para esta caminhada à beira do abismo.

10. O ódio contribuiu para o impasse dilacerado a que chegamos. A intensidade do ódio não é fácil de explicar: as rendas de todos subiam, não houve imposição de perdas econômicas decisivas a grupo nenhum.

Sim, houve fricção de status, ameaça simbólica da ordem, para pincelar numa frase um assunto imenso. O ódio começou bem antes do ressentimento nas derrotas eleitorais e da exposição inédita de um sistema de fraude (corrupção imensa e estelionato eleitoral).

11. Por que foi assim (anos de analgésicos sociais, anabolizantes econômicos, corrupção essencial do sistema, pública e privada, reacionarismo parlamentar)? Que política produziu isso? Este impasse apático vai acabar apenas quando ou se a recessão produzir conflito generalizado?

Mortos sem sepultura

Lula privilegiou a conexão eleitoral que o consagrou e não descansou um só dia até contaminar todas as instituições com sua visão utilitária da política

Quando percebeu que a perseverança e a conversão ao centro ajudavam a vencer o preconceito, Lula vislumbrou sua trajetória em direção ao topo. Embora tenha chegado lá, no lugar a que tantos aspiram, não conseguiu pacificar as tensões da sua personalidade e o estilo informal de sua influência. Fez-se vitorioso sem abrir mão da sensação de vítima, como se seu lugar na sociedade fosse insuficiente.

Do arsenal de habilidades que lançou mão, além do frisson de devorador de rivais e de usufruir todos como coadjuvantes, compreendeu sua responsabilidade como se o protagonista de uma peça fosse o mais livre de restrições no desempenho do papel. Sentindo-se abençoado pela religiosidade cristã e a esquerda disponível, imaginou que Deus e Trotski abririam uma exceção para ele, diante da grandiosidade do pecado dos outros. Imaginou-se o único capaz de fazer um milagre em favor dos oprimidos. E assim, combinando improvisadas afeições que chamou “programa de governo”, conduziu sua vida pública nos últimos 30 anos.

Privilegiou a conexão eleitoral que o consagrou e não descansou um só dia até contaminar todas as instituições com sua visão utilitária da política. Ainda assim, impulsionou um país constituído pela falta e a injustiça. Mas misturou de tal maneira a lua de mel da vitória com a idolatria da lealdade que deu a quem o derrotou o bem que o acusavam de pedir. Recém-chegado, e já vendo seu poder se estender por todo o reino, nem se deu conta de que fosse possível amar alguém ou alguma coisa desejando inteiramente sua posse. Agora, sentindo o indomável poder seguir sua rotina, intimida a Justiça, enquanto tenta absorver a sensação de sentir-se igual a tudo que condena.

A paixão por pessoas indiferenciadas, sem voz nem vez, virtude original que reuniu antigamente tantos sonhadores, passou a competir com o “sempre já aqui” das coisas imutáveis que estão nas raízes do Brasil.

O que esgotou o humanismo que deu origem às Caravanas da Cidadania e fazia um homem perdido no interior elevar-se ao grau de cavaleiro por ser reconhecido como igual por um líder autêntico? A corrente de esperança secou subterraneamente, desmistificando a aparência progressista de um discurso irritado que sempre deixa a sensação de oportunidade para outros interesses. Milhares de fundadores que viram na bondade e na mudança a fonte do prazer para entrar em um partido não o fizeram por este arrebatamento autodestrutivo da política. No mundo dos vivos que é o poder, os idealistas são sempre os mortos sem sepultura.

Dedicado a somente usufruir as forças econômicas sem lhes dar alento e desenvolvimento material, o período petista não estimulou nem requereu novos materiais, nova cultura, uma economia renovada e vital. Lançado à especulação, contentou-se com a apropriação improdutiva da herança política e material. E, mesmo assim, escolheu mal: preferiu o seu refugo. Sem se interessar pelo destino para o qual parecia ter nascido, confundiu a melodia do passado com o futuro. E, elogiado pelos novos sócios, fez-se surdo às críticas dos velhos amigos: “Para o que serve quem chora/ Se estou tão bem assim?”

Paulo Delgado

Impunidade encoraja ataques contra jornalistas no Brasil

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O 2 de novembro foi eleito pela Unesco como o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas. Mas profissionais como Lúcio Flávio Pinto, que há 49 anos trabalha como repórter no Pará, têm pouco a celebrar. Suas reportagens denunciando corrupção, fraudes e esquemas de grilagem – uso de documentos falsos para a apropriação de terras públicas – na região amazônica já lhe renderam prêmios. E também dezenas de ações na Justiça, agressões físicas e ameaças de morte. Todas impunes.

"A ironia é que durante o regime militar fui processado só uma vez, e o caso foi arquivado. Desde 1992, num regime democrático, fui alvo de 33 processos com cinco condenações. O objetivo é me calar. Isso prova que vivemos numa democracia formal, mas não numa democracia real, já que os interesses de grandes grupos predominam sobre o interesse público", diz Pinto, que há 28 anos edita quinzenalmente o Jornal Pessoal em Belém.

Ano eleitoral, 2014 foi violento para os jornalistas brasileiros. Perseguições, ameaças, assédio, intimidações e até assassinatos, sobretudo no Norte e no Nordeste, são rotina. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 2014, três jornalistas foram assassinados e mais de uma centena sofreu algum tipo de agressão. Ao todo, foram 129 episódios de violência — menos que os 181 de 2013, mas os números enganam: foram assassinados, ainda, três radialistas e um blogueiro, crimes que não constam do número geral da violência contra jornalistas, já que tais profissionais não pertencem oficialmente à categoria.

E a impunidade predomina. Nove entre cada dez assassinatos de jornalistas no mundo não são esclarecidos, indica o relatório "Tendências Mundiais do Desenvolvimento da Mídia e da Liberdade de Expressão: foco digital especial 2015", divulgado nesta segunda-feira (02/11), pela Unesco. Os números apontam que, entre 2014 e 2015, ao menos 40 jornalistas ou profissionais de comunicação foram assassinados somente nas Américas, segundo a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Brasil e México são os únicos representantes da América Latina numa lista de 14 países, elaborada pelo Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), onde os responsáveis por assassinatos de profissionais de imprensa permanecem livres. Somália, Iraque e Síria figuram no topo do Índice Global de Impunidade 2015.

Segundo o CPJ, o México aparece em oitavo lugar do ranking, com 19 homicídios não esclarecidos. E o Brasil manteve a 11ª posição, com 11 casos não elucidados. "Apesar de uma crescente melhora no histórico de condenações, a violência letal contra jornalistas segue superando a velocidade da justiça no Brasil”, pontua o relatório.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Quase 2016

Chegou de mansinho. Como quem não quer nada. Assim, sorrateiro, silencioso, discreto. Não há mesmo nada como o tempo para passar. Mas Novembro chega sem novidades. Sem notícias. Apenas repetição de cantilenas e explicações que já deveriam ser apenas parte do passado.

Já com 2016 a nos olhar na cara, parece que nada mudou, nada muda, ou nunca mudará. Esta parece ser uma nação que vive do passado. Ou melhor, dos erros passados. Feita de gente muito competente em reclamar dos problemas. Em justificar sua existência. E em eximir-se da responsabilidade de corrigi-los.


Talvez porque nossas utopias sejam poucas, nossas ambições, pequenas. Faz tempo (se é que um dia isso aconteceu) que a gente não sonha grande. Refiro-me a sonhos, não delírios. Delírios são, por natureza, inatingíveis. Apenas pigmentos da imaginação sem nexo com realidade passada ou futura. Apegar-se a delírio é, na melhor das hipóteses, insano. Na pior, apenas arrogante.

Sonho é aquilo passível de ser atingido. É o objetivo pelo qual vale a pena dedicar a existência, total ou parcialmente. É inevitável perceber que faz tempo que este país não projeta. Não planeja. Não olha para o futuro. Não sonha. Não constrói.

Em pouco menos de 2 meses, o país vai virar mais um ano. Queimar um punhado de fogos. Receber com alegria falsa ou verdadeira, a mudança de ano. Neste momento, será possível olhar para trás e contemplar mais um ano desperdiçado.

2015 tem sido, de fato, tempo do nada. Onde gente capaz de tudo contribuiu com absolutamente nada. Uma nação inteira passou o ano imobilizada. Paralisada por dúvidas sobre suas certezas. Exaustivamente discutindo o inútil. Presenciando o incrível. Tolerando o inaceitável.

Não será um ano que não terminou. Será ano que sequer começou. E que talvez não tenha nem acontecido. Em janeiro último, 2015 poderia ter sido tudo. Em novembro, já dá para perceber que nada foi tudo o que o que 2015 deu.

Sonhos frustrados

Quando o ex-presidente Lula repetia à exaustão aquele discurso do "nunca antes na história deste país", seguido de bravatas e autoelogios à sua gestão, ele tinha um propósito bem arquitetado: marcar a diferença entre tudo o que se passou no Brasil, desde que Pedro Álvares Cabral por aqui aportou, e um novo tempo, uma nova era, do PT no governo, que viraria o País pelo avesso, uma espécie de revolução social sem armas, em que miseráveis virariam pobres, pobres seriam promovidos à classe média, ricos perderiam privilégios e a estrutura social e econômica do País mudaria gradativa e radicalmente. Sempre para melhor. Muitos brasileiros acreditaram nisso e expressaram sua confiança no voto, elegendo o PT por quatro mandatos e 16 anos de poder.


Mas Lula e sua seguidora Dilma Rousseff se esqueceram de um imprescindível detalhe: para dar certo, seria necessário recriar o Estado, tirá-lo das garras de privilegiados que avançam sobre seus cofres sem nenhuma cerimônia, de empresários que bajulam e corrompem o poder para obter vantagens, de grupos corporativos que ganham verbas e favores no grito, de uma classe política que está no governo mais para enriquecer e fazer caixa para a próxima eleição do que melhorar a vida da população. Enfim, preparar o Estado (e 36% da renda do País que vai parar nos seus cofres) para ampliar e qualificar serviços públicos, prover saúde e educação para quem não pode pagar, reforçar programas sociais eficazes do tipo Bolsa Família,investir e estimular investimentos privados em infraestrutura. Enfim, construir um Estado moderno e prepará-lo para servir ao cidadão, sem distinção de classe ou cor, em vez de usar a receita de impostos pagos por 200 milhões para distribuir privilégios para poucos.

Lula e Dilma até poderiam ter a intenção, no início, mas erraram muito nestes 13 anos, não souberam promover igualdade social nem distribuir a renda simplesmente porque usaram tal intenção não como um fim a ser perseguido, mas um meio, um instrumento para conseguir outro objetivo muito diferente: alongar a permanência do PT no poder (para que, nem eles mesmos sabem responder). Para isso tudo valeu: deixaram a corrupção se espalhar pelo aparelho do Estado (até a estimularam ao distribuir cargos a políticos), quase destruíram a Petrobras,a Eletrobrás e outras estatais, desmoralizaram a gestão pública e incharam o governo de companheiros apadrinhados.

Deu tudo errado. A estrutura do Estado continua intacta, os privilégios e mordomias permaneceram e alguns foram até ampliados. Sobrou incompetência e faltou planejamento na gestão do dinheiro público. E aí veio o previsível, que só os petistas, na ambição de vencer eleição, não enxergavam: o cofre do governo foi se esvaziando, a dívida pública cresceu, vieram as pedaladas fiscais e como ganhar eleição virou um fim em si mesmo. A mentira predominou na campanha de 2014, a população flagrou e sentiu-se manipulada, traída. Hoje, a popularidade de Dilma e de Lula desaba, refletindo a degradação econômica e social do País.

Ainda assim, Lula, Dilma e a propaganda televisiva do PT seguem estufando o peito e bradando que "nunca antes na história deste país" um governo fez tanto pelos pobres. É uma meia verdade. Antes, com o Plano Real, FHC acabou com a inflação, um imposto tirano para os pobres, e abriu caminhos para fomentar investimentos e crescimento econômico, além de plantar as raízes para o Bolsa Família. Depois, Lula e Dilma ampliaram os programas sociais, reduziram a pobreza e geraram uma nova classe média voltada para consumir o que a vida antes lhe negou.

Só que o custo financeiro da ambição de sempre ganhar eleição foi alto demais, acabou por devorar os ganhos sociais, que vêm desaparecendo e ameaçando até a Previdência e o Bolsa Família. A mais recente pá de cal, que não é a última, foi divulgada na quinta-feira pelo IBGE: a taxa de desemprego saltou para 8,7%, mais de 1 milhão de empregos com carteira assinada foram perdidos em apenas um ano e a recessão vai continuar piorando o desemprego e a vida do trabalhador.

Orgulho e teimosia

Nas primeiras cenas do filme Rocky I, chama a atenção a humildade do personagem interpretado por Silvester Stalone, ao confessar para a namorada porque um pugilista fracassado como ele aceitara competir com o campeão do mundo: para aguentar alguns rounds antes de ser fulminado, demonstrando ainda possuir amor próprio. Como se tratava de uma fantasia de Hollywood, o Rocky I quase ganha o primeiro embate e, depois, quando já encena o Rocky 34, não perdeu mais nenhum.

Indaga-se por que a presidente Dilma insiste em continuar no ringue, sendo permanentemente nocauteada pela economia. Por humildade não é, muito pelo contrário. Para demonstrar que poderá virar o jogo e tornar-se campeã pela força de seus punhos, também não, porque essas coisas só acontecem no cinema. Não há recuperação para a incapacidade de seu governo, isto é, a falta de um projeto nacional de vulto, coisa porque todos clamam. Sua renúncia poderia resolver a questão e melhorar o nível do campeonato, mas a humildade revela-se falsa, pois é o orgulho que mantém a presidente de pé. Pouco importa se a assistência protesta por haver pagado caro pelas entradas e estar presenciando um lamentável espetáculo.

Madame também não joga a toalha por teimosia. Por julgar nada dever às arquibancadas nem a seus desesperados treinadores. Parece sustentar que sua missão é de apanhar até o gongo final, importando menos as consequências de seu governo ser posto na lona, junto com ela.

Em suma, orgulho e teimosia geram o impasse atual. PMDB e PT não são os únicos a apresentar alternativas, por sinal conflitantes. Da mesma forma os tucanos e outros partidos sugerem mecanismos capazes de mudar a sorte da luta. Só que a lutadora prefere continuar apanhando, sem mudar de estratégia nem abandonar o tablado...

A semana começa sob a ameaça de mais demissões. Agora será na construção civil e nas obras de infraestrutura antes anunciadas pelos governos Lula e Dilma como a redenção nacional. Até o fim do ano a indústria prevê que mais 100 mil operários perderão o emprego. A primeira iniciativa das empresas em dificuldade é mandar os trabalhadores embora. Não importa quanto tenham faturado nos tempos felizes do lançamento do PAC. Depois das greves que se sucedem em cascata, acontecerá o quê, diante da inoperância do poder público? Sem dúvida, a crise social, porque o desemprego, na realidade, já atinge bem mais do que 10 milhões de assalariados.

Carlos Chagas

Na terra de Vlad

Os jovens romenos sabem que o socialismo é uma mentira, coisa que os nossos não sabem.

Vou embora para a Romênia. Que dá vontade, dá. O país é lindo, os bárbaros da indústria do turismo ainda não chegaram lá (é assim que o filósofo romeno Emil Cioran, radicado em Paris, referia-se ao turismo), a comida é maravilhosa e as mulheres, um encanto. Carregam aquele sorriso doce e generoso que a maioria esmagadora de nossas mulheres perdeu, porque o rosto foi tragado pelo "rancor biopolítico".


A terra de Vlad Tepes (pronuncia-se "tzepesh" e significa "empalador") tem o gosto de terras ainda não "civilizadas". Por exemplo: lá, nossa paranoia com tabaco é quase inexistente. Para um apreciador de charutos cubanos como eu, é um paraíso poder fumar em paz, tomando um aperitivo à mesa.

Aliás, um parêntese. Pousando no Brasil, tomo conhecimento da mais nova moda ridícula em saúde: bacon e salame causam câncer? Daqui a pouco algum prefeito autoritário vai nos proibir de comer bacon e salame, e vão espancar nas ruas pessoas com bacon e salame nas mãos.

O grande Chesterton, intelectual inglês do começo do século 20, bem tinha razão quando dizia que parar de crer em Deus podia deixar as pessoas meio idiotas, porque iriam passar a crer em qualquer bobagem como história, ciência, natureza e política. A capacidade contemporânea de "crendices científicas" ultrapassa de longe a crença muito mais saudável em "las brujas".

Minha avó, uma das primeiras "suffragettes" do Brasil (protocolou seu primeiro pedido de direito ao voto feminino em 1927), sábia e discreta como as avós "antigas" eram, dizia que boato causava câncer. Sei que as chatinhas de plantão devem estar chocadas com a ideia de que corre sangue nobre (o sangue de uma das primeiras suffragettes do Brasil) em minhas veias. Mas a vida é mesmo cheia de surpresas, não? Só espíritos grosseiros acham que "entendem" o mundo.

Vlad, que viveu no século 15, é um herói nacional romeno, por isso, apesar de os romenos ganharem dólares com o Conde Drácula, criado por Bram Stoker no final do século 19, eles odeiam o que fizeram com seu "empalador" de turcos e bandidos comuns. Na história da Romênia, Vlad é conhecido pela sua crueldade na resistência às invasões turcas otomanas. Para muitos, ele deveria ser visto como um defensor medieval da cristandade.

O título "Drácula", dado por Bram Stoker, tem raiz na sua história verdadeira: seu pai fora membro de uma ordem de místicos guerreiros cujo símbolo era um dragão ("drak" em romeno). Seu filho Vlad, então, recebeu o título de "filho do dragão", Drácula. Interessante observar que a palavra "drak" em romeno evoluiu ao longo dos anos e agora significa "satanás". Bram Stoker não estava de todo enganado...

Os romenos são mesmo um povo místico. A crença nos "strigoi" (o vampiro sendo um deles), uma espécie de alma penada, produz um sentimento de que o mundo é habitado por forças invisíveis, passionais e inteligentes, sempre meio incontroláveis. Cioran dizia que seu povo era fatalista, corajoso e cético para com as "invenções modernas".

O senso de humor romeno é marcante. Você pode, por exemplo, topar com fotos enormes de mulheres lindas em banheiros masculinos em meio aos Cárpatos. Detalhe delicado que lembra aos homens a beleza da vida mesmo em momentos improváveis.

Mas falemos de coisas mais "sérias" (não na minha opinião). Outra coisa que encanta nos romenos (em particular nos jovens) é sua saúde mental: sabem que o socialismo é coisa de mentiroso, corrupto e autoritário, coisa que nossos jovens, coitados, submetidos a tortura mental já no ensino médio e no Enem, ainda não descobriram.

Às vezes penso que teria sido melhor se os falsos guerrilheiros da democracia da "luta armada" durante a ditadura tivessem vencido (a "luta armada" nunca foi uma luta pela liberdade, mas sim uma luta por outra forma de ditadura, a soviética). Se nossos comunistas tivessem vencido, teríamos virado uma ditadura como Cuba, mas, hoje, talvez, estivéssemos curados, como os jovens romenos estão.

Você consegue imaginar uma aula de história em que se ensine história, e não alguma bobagem marxista?

Números não mentem: a situação do país é assustadora

Os mais recentes números divulgados por diversas instituições do governo podem ser vistos como um resumo do desastre da administração Dilma Rousseff. Qualquer que seja o indicador analisado, a constatação é assustadora. Vamos começar pelo desemprego.

Nos últimos anos, o que mais se ouviu do PT, o partido de Dilma, foi que a prioridade de qualquer governo deveria ser a proteção ao trabalhador. No período em que o país cresceu de forma contínua com a inflação sob controle, realmente o mercado de trabalho se expandiu de forma espetacular. Com taxas abaixo de 5%, o Brasil flertou com o pleno emprego.

Diante da decisão de Dilma de romper com a estabilidade e flertar com a inflação, o quadro começou a mudar — e para pior. Com a recessão batendo às portas do país, as empresas passaram a demitir. A cada mês que a economia afundava, o desemprego se mostrava mais presente.

No trimestre terminado em agosto, constatou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de desocupação atingiu 8,7%, o nível mais elevado da série histórica da Pnad Contínua. Em 12 meses, 2 milhões de trabalhadores foram mandados embora. Somente entre junho e agosto, o mercado de trabalho se fechou para 647 mil pessoas. No total, 8,8 milhões de brasileiros estão sem qualquer fonte de renda.

O salário médio dos trabalhadores também não resistiu. Nos cálculos do IBGE, recuou 1,1% entre junho e agosto ante os três meses anteriores. Quem ainda está conseguindo uma vaga no mercado formal está sendo obrigado a aceitar rendimentos menores, mesmo que a qualificação seja elevada. Ou é isso, ou é o desemprego.

Boa parte desse quadro desapontador tem a ver com a situação das contas públicas. Na avaliação dos agentes econômicos, enquanto o governo não arrumar as finanças do país, não haverá perspectiva de melhora. Semana passada, o secretário do Tesouro Nacional, Marcelo Saintive, afirmou que, somente neste ano, o rombo do Tesouro Nacional será de R$ 110 bilhões.

Nem bem esse número foi divulgado, outras previsões surgiram, como a do deputado Hugo Leal, relator, no Congresso, do projeto de revisão da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano. Ele já fala em um buraco de R$ 117,9 bilhões. Essas divergências nos números só confirmam o quando as finanças do país então em frangalhos.

A falta de um ajuste fiscal consistente, que permita a volta da confiança no país, levou o Banco Central a engrossar a estatística do desastre de Dilma. A instituição admitiu, na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que não sabe quando a inflação voltará para o centro da meta, de 4,5%. Por isso, os brasileiros devem se preparar: os juros de 14,25% ao ano, que já são os maiores do mundo, podem subir mais.

Tal possibilidade foi reforçada pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, em conversa com deputados da Comissão de Finanças e Tributação. Segundo ele, quanto mais o governo demorar para ajustar suas contas, mais caro o país pagará. A autoridade monetária deu outro recado importante: na média, a energia elétrica subirá 51% neste ano e a gasolina, 15%.

Não se pode esquecer que, para iludir os eleitores e garantir a reeleição, Dilma prometeu que as tarifas de energia do Brasil estariam entre as mais baratas do mundo. O que se vê, porém, é exatamente o inverso. No caso da gasolina, o governo represou o preço o quanto pôde para evitar que a inflação estourasse o teto da meta, de 6,5%. Bastaram os reajustes acontecerem para que a inflação disparasse para 10%
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A natureza humana contra a mãe natureza

A mãe natureza está mandando sinais. O ano de 2015 caminha para ser o mais quente da história. Há algumas semanas, o furacão Patrícia, o mais forte já registrado pelos meteorologistas, gerou ventos de 320 quilômetros por hora, um recorde.

Segundo a ONU, o número de tempestades, inundações e ondas de calor está cinco vezes maior que em 1970. Apesar de este aumento certamente se dar porque agora temos mais informações do que naquela época, todos os estudos evidenciam como os fenômenos climáticos extremos estão mais frequentes: temperaturas extraordinariamente altas ou baixas, chuvas torrenciais, secas, incêndios, etc. O número de pessoas desabrigadas por causa de desastres climáticos não tem precedentes e supera a quantidade de desabrigados por conflitos armados.

Um recente estudo concluiu que até o final do século alguns centros de população do golfo pérsico “experimentarão níveis de calor e umidade intoleráveis para os humanos”. O sudeste asiático também está exposto a esse tipo de ameaça. Nessas análises, “intolerável” não significa muito incômodo; significa que ficar ao ar livre por algumas horas implicará risco mortal.


Depois de décadas de debates, os cientistas concluíram que essas mudanças climáticas se devem ao aumento das emissões de gases produzidos pela atividade humana. Ainda existem céticos que duvidam disso, mas são cada vez menos. E em alguns casos, o ceticismo é nutrido por “estudos científicos” tendenciosos financiados por atores que seriam prejudicados caso o mundo decida mudar a maneira como produz e consome energia. E sabemos que, até agora, o mundo não se mostrou capaz de atuar com eficácia para modificar sua desastrosa trajetória em relação ao aquecimento global.

Mas essa inação diante de uma crise cada vez mais óbvia não se deve, em essência, às manipulações de empresas e países que querem proteger seus interesses às custas do bem de todos.

Deve-se à natureza humana.

É muito difícil alterar hábitos e costumes. Todas as investigações mostram que a grande maioria dos que começam uma dieta para baixar o peso a abandonam antes de alcançar seu objetivo. Quem já tentou deixar de fumar sabe o quanto isso é difícil, devido ao vício que é a nicotina. Também sabemos que não há nada mais eficiente para modificar hábitos, dietas e estilos de vida pouco saudáveis do que um infarto que não nos mata. Em muitos, esse susto produz mudanças positivas que pareciam impossíveis. Será que necessitamos de um grande susto coletivo para mudar a forma com a qual nos relacionamos com nosso planeta?

Os sinais que a natureza está nos enviando não são suficientes? Até agora, não. Mas tudo indica que chegará um infarto climático que obrigará a humanidade a fazer uma dieta para a qual não está preparada.

O vício que o mundo tem hoje em dia pelo consumo de carbono é tão difícil de romper quanto o vício com o tabaco, o açúcar ou o álcool que algumas pessoas têm. A maneira como iluminamos, aquecemos ou esfriamos nossas casas e escritórios, nossos meios de transporte ou os produtos que consumimos — de plásticos a hambúrgueres — implicam um alto consumo de carbono que, uma vez emitido à atmosfera como CO2, contribui para aquecer o planeta e enlouquecer o clima. E isso tem que mudar.

Se é difícil uma pessoa manter uma dieta, é ainda mais que muitos países façam isso coletivamente. É complicado para todos. Por isso, alguns países trapaceiam. Outros pedem que a dieta dos mais gordos seja mais severa que a dos mais magros. E outros exigem que os países que desde a revolução industrial estão contaminando o planeta e sua atmosfera sejam os responsáveis pela dieta, e não aqueles que ainda estão se industrializando.

A primeira conferência mundial sobre o meio ambiente aconteceu no Brasil, em 1992. A próxima terá lugar em Paris, daqui a algumas semanas. Entre elas, houve muitas outras reuniões e muito pouco progresso. A reunião de Paris promete ser a que mais conseguirá avanços e é provável que seja assim mesmo.

No entanto, mesmo que seja bem-sucedida, as metas planejadas para a redução de emissões estão abaixo das necessárias para evitar que a temperatura aumente a níveis perigosos. Dessa forma, a inércia da natureza humana continuará desafiando a mãe natureza. E não importa que saibamos que, no final, a mãe natureza sempre vence.

Lula, o milionário conferencista


Em quatro anos, apenas como conferencista, segundo a revista ÉPOCA, Lula declarou à Receita Federal que recebeu 27 milhões de reais.

Ao dólar no valor médio de 2,20 reais, que vigorou no mesmo período, ele ganhou o equivalente a 12 milhões e 272 mil dólares em números redondos.

Ou 3 milhões e 68 mil dólares por ano. Ou 255 mil, 681 dólares por mês.
Hoje, com o dólar a 3.85 reais, Lula teria recebido 984.374 reais por mês. Ou 32.812 reais por dia. 

Ou ainda 1.367 reais por hora, acordado e dormindo.