quarta-feira, 24 de junho de 2015

Imperativo moral

Morrer de véspera não é saudável. Não serve a proposito algum. Não melhora a vida. Carece de benefícios. Aumenta a ansiedade. E não deve fazer bem ao coração. Viver no passado, entretanto, é pior.
Ficar aferrado a ideias, conceitos e experiências passadas puramente para revivera-los e reproduzi-los nunca fez lá muito sentido. No mais das vezes, é sinal de falta de ideias, originalidade ou simples cinismo para preservação de vantagens próprias.

Não reconhecer a influência do passado e do presente no futuro, é perigoso. Futuro é coisa escorregadia. Vai chegando sem avisar. O tempo vai escorrendo por entre os dedos até o momento em que o que estaria por vir já chegou. Futuro tem dessas coisas.

Seres humanos têm como uma de suas qualidades mais importantes à capacidade de reconhecer o impacto de suas ações no presente nos resultados a serem (ou não) colhidos no futuro. Sabe investir. E sabe colher.

Os mesmos seres humanos tem também a capacidade de sacrifícios pessoais para o bem das gerações futuras. Investem para outros, às vezes completos desconhecidos, colherem. Tem potencial para nobreza.

Este tipo de nobreza é coisa difícil de ser encontrada nestes tempos em que todos parecem querer o seu. Rápida e imediatamente. Faz tempo que a preocupação com as gerações futuras desapareceu da agenda.

Nobreza tem andado em falta. Infelizmente, no momento em que mais precisamos dela. Esta faltando grandeza, preocupação e respeito com gerações futuras. Talvez motivado por miopia egoísta que se vai subtraindo o futuro das gerações futuras. Condenando-os a vida difícil, dívidas impagáveis e perspectivas limitadas. 


Do jeito que esta, os jovens, presentes e futuros, viverão em meio ambiente destruído. Crescerão sem acesso a educação de qualidade. Competirão em desigualdade de condições com jovens de outros países. Não colherão qualquer beneficio do bônus populacional enquanto carrega nas costas o peso da nossa miopia egoísta.

Melhorar a vida das gerações futuras é obrigação dos adultos de hoje. Transcende ideologias, interesse, raça e fronteira. É parte do que diferencia os seres humanos. É principio que compele (ou deveria compelir) seres humanos a agir. É imperativo moral.

Por isso, talvez valha a pena debater que mundo será deixado para as gerações futuras. E, talvez, evitar pelo menos algumas das injustiças às quais elas estão sendo condenadas.

A nova direção de 'Brahma'

As críticas e os desabafos de Lula têm merecido muitas análises sobre a relação dele com o governo e o PT. Brahma não prega prego sem estopa. Está montando uma nova imagem para melhorar a decrépita que tem usado.

Quer fazer-se agora de um bom velhinho. Falta-lhe credibilidade, quanto lhe sobra de cretinice. Dizer-se velho aos 69 anos quando líderes mais idosos continuam na ativa é, no mínimo, outra mascarada. Quer voltar intensamente à mídia para ditar normas de conduta do PT segundo o seu evangelho apócrifo. E não para de almejar 2018.

Não é ele, o partido e os militantes que estão velhos. Envilecidos é que estão. fizeram, sob o comando de "Deus", o que queriam com o país, encheram as burras e ainda continuam a se locupletar com o dinheiro público. Dizer que "hoje, (o partido) só pensa em cargo, em emprego" é o mesmo que garantir que quando estava no comando isso não acontecia. Mentira! Foi o fundador, junto com os Zés Mensalão e Palloci, entre outros líderes da empulhação, na empreiteira Brasil S/A, a empregadora nunca antes vista no país.


Em plena crise, petistas municipais ainda engrossam o exército partidário com a farta distribuição de cargos nas prefeituras como subsidiárias da empregadora petista. Há cidades em que se alistam por dia de oito a dez novos comissionados. Está todo mundo atrás de emprego. Prefeituras são verdadeiras usinas empregatícias e maior polo empregador. Tudo sob a chancela do PT S/A que tem Lula como patrono.

O ex quer apenas parecer que mudou. Se tornou um redentor. Caso seja pego pela Lava-Jato, espera de mãos postas que sua nova imagem de bondade e caridade possa receber a indignação popular. Preso, conta com uma imagem de mártir e seu palavrório de agora faz parte dessa estopa.

Passar à história do Brasil como o maior pilantra que já ocupou a Presidência- até superou em muitas léguas Fernando Collor -, não quer como legado. Ainda mais se arriscando como está a deixar a família sem os milhões que amealhou como ex-operário e sindicalista.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Brasil precisa de sangue novo

Algo está murchando no Brasil. Sem esperança? Tudo dependerá de se o gigante, hoje cansado e mal-humorado, terá um final melancólico como o dos dinossauros, que ninguém até hoje sabe por que desapareceram para sempre, ou se tem à espera o final encantador da mitológica Ave Fênix.

Essa ave da mitologia egípcia que há cinco mil anos morria sem morrer de fato, já que acabava renascendo de suas cinzas fecundadas pelo sol, transformada em símbolo de recuperação. Claro que estou me referindo não ao Brasil como país, que continua sendo um gigante por natureza e precioso por seu povo, um calidoscópio rico de etnias, culturas, criatividade e crenças religiosas, mas me refiro a sua grave situação política, econômica e ética.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”, se diz quando uma situação política começa a se deteriorar, parafraseando Shakespeare em Hamlet. E algo não funciona na política brasileira se o mais otimista de seus cidadãos, o carismático ex-presidente Lula da Silva, que criou o mantra hiperbólico “nunca antes na história desse país” para propagar suas maravilhas, confessa a um grupo de religiosos que ele, a presidenta Dilma Rousseff e seu partido, o PT, estão “no volume morto”.

Antes de completar os seis meses de seu segundo governo, Dilma aparece, de fato, com 65% de rejeição popular, que atinge todas as regiões do país e todas as classes sociais.

Lula, em seu discurso para líderes religiosos, que deveria ter permanecido secreto, confessou todo o pessimismo que o aflige. Pergunta-se a Lula qual notícia boa o governo deu ao país depois da última vitória que consagrou Dilma. Ele diz que perguntou à presidenta e “ela não se lembrava”. Também não se lembravam os senadores, nem os deputados, nem os sindicalistas do PT.

Um governo, disse Lula aos religiosos, que “só sabe dar más notícias” e onde, talvez por isso, existe um grande “mal-humor no país”, em que, diz ele, “nunca vi tanto ódio”.


Criticou Dilma por ter prometido na campanha eleitoral algo que ele considera sagrado: “Nunca vou mexer nos direitos do trabalhadores”. E Dilma, diz Lula, está mexendo. “Disse que não faria cortes e está fazendo”. E por isso, segundo ele, “a oposição a acusa sabiamente de ter mentido”.

O ex-sindicalista reclamou que no Palácio do Planalto agora só entra “gente fina”, enquanto que ele recebia até os “catadores de papel”. E os religiosos presentes ao encontro acusaram o PT de ter abandonado os pobres.

Horas depois de seu discurso, Lula tomou conhecimento da nova pesquisa Datafolha que registrou não apenas a queda na popularidade de Dilma, mas também na dele. Se as eleições fossem realizadas hoje, o oposicionista Aécio Neves, do PSDB, que disputou a Presidência com Dilma no ano passado, ganharia, por exemplo, de Lula por 10 pontos. E isso nunca havia sido visto no país, onde Lula aparecia como ganhador indiscutível em qualquer das disputas e com todos os adversários.

E se o governo e o PT estão no fundo do poço, segundo Lula, também não estão melhores os outros partidos, nos quais não aparece no horizonte uma possibilidade de renovação geracional, com candidatos alternativos à atual política velha, gasta e corrupta. Hoje a sociedade brasileira está mais viva e com vontade de mudança do que o mundo político.

Todos os países passam por crises e ciclos históricos, de decadência ou de glória. O Brasil vive atualmente momentos de forte desencanto, que se traduzem em um aumento visível da violência e da intolerância racial e religiosa, algo inédito até pouco tempo atrás nesse país que, mesmo em seus piores momento, soube ser fiel a sua vocação de “povo cordial e tolerante”.

Muitos me perguntam aqui e na Espanha como e quando vai acabar esse momento difícil de definir, mas que dói na carne para os brasileiros. Nenhum profeta tem a resposta. Talvez, no entanto, não sirvam mais os remendos, os arranjos das crises do passado, os velhos truques de mudar para que tudo continue igual.

Se a crise chegou ou está chegando ao “volume morto”, segundo Lula, a resposta precisa ser radical, talvez dolorosa, mas indispensável: o Brasil precisa mudar, começando pela busca urgente pelos que hoje são conhecidos como “cidadãos globais”, líderes novos, possivelmente jovens, não contaminados com as práticas corruptas da política, capazes de olhar o Brasil e fora dele com o olhar novo de uma sociedade que já não é a de ontem, que cresceu, que pensa e analisa melhor as coisas. E que deseja contar e participar.

O Brasil precisa de mais do que remendos de reformas, iniciar um novo ciclo que ofereça confiança para todos: trabalhadores e empresário, cultos e analfabetos. E, por isso, cortar nove bilhões de reais da Educação parece um crime.

Em sua confissão, Lula propõe como remédio a Dilma para sair de sua situação a antiga fórmula que ele usou para governar e criar consenso. Disse ele: “Política é olhar no olho da pessoa, passar a mão na cabeça, beijar”.

Li em um casamento da classe C, a nova classe média do Brasil, a dois trabalhadores, a frase de Lula, e me comentaram, mexendo a cabeça: “Não, não adianta mais só fazer carinho. Queremos que ofereçam a nossos filhos a possibilidade de serem mais do que nós fomos. E que roubem menos.”

O Brasil tem hoje líderes capazes de falar com linguagem nova à nova classe média oriunda da pobreza, para a qual já não basta mais os abraços e carinhos de Lula?

Juan Arias

Os dois tipos




Só existem dois tipos de ladrão: Os que roubam para viver uma experiência; ou os que roubam para se servir
Donald Sutherland, em Uma saída de mestre

Monólogo do comuna feliz

“Eu sou mais eu. A direita do latifúndio e do imperialismo norte-americano estão massacrando meus ideais, mas eu não ligo. Eu sou mais eu. Eu tenho a linha justa. Eu e meu partido sabemos que sempre houve esta divisão entre oprimidos e opressores, desde que um macaco mais forte explorou macaquinhos, roubando-lhes as bananas. Não me venham com enganações tipo sociedade global, nova era, direitos humanos, esse papo furado. A história é a história da luta de classes – ponto. Nós somos o bem. Nós defendemos os oprimidos, e eles, os opressores. Por isso somos assim: nós e eles.

Estou convencido de que sou superior a esta manada de babacas, burgueses, alienados, como, por exemplo, aquela marcha de 2013, inventada pela CIA e adotada pela ‘elite branca’ que não suporta que os pobres andem de avião.

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Eu sou superior, eu sou um agente da história que marchará com nossos militantes para um futuro cheio de delícias e harmonia, quando distribuiremos toda a produção como me disseram no cursinho do partido: ‘A cada um segundo suas habilidades, a cada um segundo suas necessidades.’ Nunca li Marx, mas sempre soube isso porque não precisei estudar – bastou-me o prefácio de um livro da Academia de Ciências da URRS. Os pobres são puros, e deles emana uma sabedoria que me basta. Por exemplo, pensei muito e digo: qual o problema de roubar, ou melhor, ‘desapropriar’ grana da Petrobras? Esse dinheiro todo servirá para financiar a marcha para o socialismo do século XXI, como batizou o grande Chavez.

Ah, que saudades da republica soviética, quando tudo marchava sob a batuta de Stalin com a produção industrial imensa. Claro que precisava mão de ferro para conseguir isso, e nosso guia o fez. É verdade que muitos reacionários resistiram, como os ‘kulaks’, os camponeses fascistas e sabotadores que queriam impedir a agricultura coletiva. Camponeses reacionários tinham de sumir. Teve de matar uns 20 milhões de ‘alienados’, mas era para o bem... E falam em massacre, violências e outras mumunhas, mas, como disse o traidor Trotsky: ‘Quem foi que disse que a vida humana é sagrada?’. Esta foi a sua única grande frase. O resto é lixo, que nosso Stalin raspou da terra, com a mão sagrada do vingador Ramon Mercader, no México onde Trotsky se gabava de comer a Frida Kahlo. Foi uma bela machadada naquele agente do fascismo.

Agora, vamos combinar que o grande culpado de toda essa provocação que vemos hoje é um nome só: Nikita Kruschev, canalha revisionista que denunciou o que ele chamou de ‘crimes de Stalin’. Foi ali que começou nossa desgraça, piorada pelo maior cão imperialista da CIA: o Gorbachov... Que ‘glasnost’ ou ‘perestroika’ porra nenhuma, aquilo foi uma missão da burguesia internacional. Ainda bem que o grande Putin da KGB está botando a Rússia nos eixos de sua antiga grandeza. Como me alegrei quando Mao Tse Tung proibiu Beethoven na ‘revolução cultural’, declarando: ‘Temos de raspar tudo que a burguesia inventou e começar de novo’.

Ainda bem que o companheiro Osama usou armas dos capitalistas contra eles mesmos... Ah, a beleza das torres caindo em Nova York! Inesquecível.
A única coisa que importa é o controle da sociedade. Temos de tutelá-la. O povo deve ser educado com o mesmo cuidado com que um jardineiro cultiva um pé de alface. Por isso, sabem os militantes como eu, que o Estado tem de ser o centro do amor ao povo que de nada sabe, por isso é belo ver como infiltramos nossos homens no Estado brasileiro. Dizem que são aparelhados, pois são, sim, deles depende nossa marcha para a vitória que almejamos. Muita vezes somos duros, sim, cruéis até, mas não ligamos, porque, como disse nosso grande líder: ‘Compaixão é um sentimento de enfermeiras, assim como a gratidão é uma doença de cachorros’. Aliás, este lero-lero de defender a democracia é só enganação. Democracia é o cacete! Usamos muito essa palavra para disfarçar e atingir nossos planos de, por exemplo, controlar essa mídia reacionária, encanar opositores, assim como nos ensina o grande sucessor de Chavez, dando uma porrada nos senadores de direita que outro dia quiseram invadir a Venezuela, vanguardeira da América Latina. E falam em direitos humanos... Idiotas. Não sabem que o homem novo que estamos forjando não sente falta da individualidade perdida. Eu conheço a beleza, o encanto infinito da servidão, a alegria de pertencer a um partido infalível. Dá um imenso alívio não ter que pensar, só obedecer.

O comunismo, camarada, é o substituto do sonho de ‘imortalidade’ dos cristãos. Comunista não morre; vira um conceito. O homem é um ser social, não é? Pois é – o ser social nunca morre. O indivíduo é uma ilusão que criou essa dor melodramática. Quem morre é pequeno-burguês. Aliás, esses sentimentos burgueses: angústia, medo, fobias, solidão, amor, paixão são bobagens psicológicas de direita que nada explicam dos homens. A verdade revolucionária está nos termos: sectarismo, alienação, aventureirismo, traição, massa atrasada e massa adiantada, revisionismo. Os operários não têm pátria. A nossa revolução é a locomotiva da história. Vamos beijar os seios nus da liberdade e tingir de sangue os lençóis dos traidores neoliberais.

Já antevejo nosso paraíso brasileiro no socialismo do século XXI:

Os grandes festivais de balalaikas russas e de pachangas cubanas, os lindos cantos de hinos sertanejos do MST, todos uniformizados em terninhos vermelhos e enxadas erguidas contra os fascistas da agro-indústria, a paz da ignorância, a visita ao campo dos refugiados burgueses obrigados a cantar a ‘Internacional’ na colheita da soja.

E há o grande, imponente monumento do Homem Novo, uma cópia do ‘David’ de Michelangelo com grande bandeira vermelha, hasteada em seu pênis revolucionário.

E finalmente a visita ao Museu Lula, onde está seu corpo embalsamado para toda a eternidade.”

Marcha a ré para 2022

Por que se preocupar com educação se temos o maior número de celulares por pessoa?

Será que é realmente ao Brasil que a presidente Dilma se refere quando fala em “Pátria educadora”? Vivo pensando nisso, nas noites em que desperto de um sonho que teima em se repetir e no qual, orgulhosos, ultrapassávamos a Finlândia em educação! Acordar entristece, porque a realidade me faz perceber que esse sonho é quase utopia: continuamos entre os últimos dentre os 68 países classificados pela OCDE, entidade que coordena a prova internacional trienal (Pisa), que visa a produzir dados para a melhoria do ensino básico no mundo. O que se busca é verificar até que ponto os países participantes estão preparando seus jovens para o exercício da cidadania.

O Brasil, que participa desde a primeira edição, em 2000, vem registrando resultados desoladores nas áreas avaliadas. Estamos lamentavelmente “entre os piores” em Leitura, Matemática e Ciências! Frente ao quadro, me atormento pensando se sou apenas eu que acha estranho a “Pátria educadora” colocar como meta alcançar a média mínima estabelecida pelo OCDE (6,0) em 2022! Essa média é o parâmetro para que um país figure entre as nações desenvolvidas em termos educacionais. Já foi alcançada pela Finlândia, Coreia, Israel e Alemanha, por exemplo. Mas aqui, na “Pátria educadora”, não temos pressa: 2022! Por quê? Simples. É quando completaremos 200 anos de independência! E, se temos uma data tão linda, ainda que distante, para que correr e tentar superar o passado de derrotas?

A impressão que fica é que as autoridades ou não sabem como fazer, ou não estão realmente interessadas em propiciar cidadania de fato. Para que — se figuramos entre os países cuja população se considera das mais felizes do mundo? Se ficamos em 58º lugar entre 68 países em termos de educação, qual o problema? Afinal, somos campeões em coisas mais importantes: o país com o maior número de celulares por habitante e também um dos mais alegres do mundo! Então, para que bem equipar escolas e qualificar docentes?

Em todo caso, temos oito anos para chegar à meta, o que constitui quase todo o tempo de que uma criança necessita para concluir o ensino fundamental. Estaremos condenando ao fracasso mais uma geração de alunos? Temos a meta, mas e o plano para concretizá-la, onde estará? Deprimente constatar que a “Pátria educadora” se proponha a uma meta tão tímida, e ainda assim demonstre não saber como atingi-la! E, se afinal, lá chegarmos em 2022, onde estarão as nações que hoje estão nesse mítico patamar? Muito além. Esse 6,0 significa que o país terá atingido, até lá, um nível médio de proficiência e rendimento. Ainda que atrasados, teríamos progredido, porém.

No entanto, pelo andar da carruagem, indefinidos ainda em relação ao “que fazer” para sair do buraco em que a Educação está, é bem provável que nem lá cheguemos. Essa afirmativa nada tem de derrotismo. É fato: em 2012, o desempenho do Brasil em Leitura piorou! Fizemos 410 pontos, dois a menos que em 2009 — o que significa, pasmem, ficar 86 pontos abaixo da média dos países da OCDE. Resta saber em que direção estamos caminhando realmente...
Tania Zagury 

O grande sinal

(Num Estado corrupto) o sinal mais visível da corrupção é o medo àqueles a quem persegue e o ódio que lhes devotam
Bernard Mallamud

Terra entrou em novo período de extinção em massa


A Terra entrou em um novo período de extinção em massa, de acordo com um estudo feito por três universidades americanas. E os humanos podem estar entre as primeiras vítimas.

A pesquisa, feita por cientistas das universidade de Stanford, Princeton e Berkeley, diz que os vertebrados estão desaparecendo a uma taxa 114 vezes mais rápida que o normal.

A descoberta confirma os resultados de um estudo publicado pela Universidade de Duke no ano passado.

"Estamos entrando agora no sexto grande período de extinção em massa", disse um dos autores do novo estudo.

O último desses períodos ocorreu há 65 milhões de anos, quando os dinossauros foram extintos, provavelmente devido a um grande meteoro que atingiu a Terra.
"Se for permitido que isso continue, a vida vai levar milhões de anos para se recuperar e nossa própria espécie provavelmente desapareceria logo no início", disse o autor principal, Gerardo Cabellos.

Os pesquisadores analisaram, historicamente, as taxas de extinção de vertebrados - animais com espinha dorsal - por meio de dados de fósseis.

Eles descobriram que a taxa de extinção atual era mais que 100 vezes mais alta que em períodos em que a Terra não estava passando por um evento de extinção em massa.

Desde 1900, segundo o relatório, mais de 400 vertebrados desapareceram.

Uma perda desta magnitude normalmente seria vista em um período de até 10 mil anos, segundo os cientistas.

Lições de 50 anos atrás

“Chegamos à estranha situação de que, no governo, os que decidem não são votados, e os que são votados não decidem”.

Tome-se a presidente Dilma, reeleita em outubro passado. Entregou a economia a um banqueiro cujas iniciativas jamais foram referidas nos palanques onde Madame garantiu seu segundo mandato.

“O governo demonstra renitente e impenitente incapacidade para compreender os problemas políticos revelados pelos que se supõem capazes de resolvê-los”.

Nada se ajusta mais a essa sentença do que a aceitação, pela presidente Dilma, da redução de direitos trabalhistas adotada faz pouco, decisão rejeitada por todas as centrais sindicais e mais a torcida do Flamengo.

“Todos reconhecem em V. Excia uma liderança de qualidades excepcionais, que exerce extraordinária influência nas bases do partido, mas os processos dialéticos destrutivos que costuma empregar contra seus adversários não podem ser aplicados contra seus próprios companheiros”.

Essa análise serve, sem tirar nem pôr aos comentários do Lula em recente reunião com religiosos, quando demoliu a sucessora de forma inapelável. O ex-presidente utiliza sua óbvia liderança para destruir o governo atual.

“Jamais se viu tamanho libelo infamatório contra a representação do próprio partido”.

De novo o comentário aplica-se ao Lula, e também a Dilma, quando sufocaram a indignação dos companheiros frente à política econômica, na recente reunião do V congresso nacional do PT.

“O governo tornou-se impopular este ano. Será popular quando vierem as eleições?”

A indagação atinge a presidente e seu antecessor por conta das recentes pesquisas que só indicam queda vertiginosa em seus índices de aprovação.

Poderemos acrescentar a esse elenco de frases aspeadas muitas outras de igual atualidade, como : “Candidato invencível para uma eleição que não vai haver…”; “a ovelha negra não faz parte do rebanho”; “assistimos a um romance de amor e de ódio”; “o bom senso, que lhe falta, e a inteligência, que lhe sobra”; “entrega um passaporte para o desconhecido”; “vendo antes, dou a impressão errônea de ver demais”…

Fomos encontrar a autoria de todos esses vaticínios e críticas entre aspas, formulados há exatamente 50 anos, em 1965, na correspondência enviada por Carlos Lacerda ao presidente Castello Branco, quando o então governador da Guanabara tentava salvar sua candidatura presidencial, logo depois atropelada inexoravelmente pelo golpe militar. Aqui para nós, nada como o passado para nos orientar, porque se ele não nos diz o que fazer, aponta com rara precisão o que evitar…

Estamos bombando

Jornalismo amestrado

Sou do tempo em que pet era bicho de estimação e treinador pessoal de ginástica não era identificado pelo inculto neologismo “personal”, com acento incorreto na última sílaba. As duas designações são úteis para ilustrar a atividade que ainda atende pelo nome de jornalismo no Brasil. 

Um jornalista nova-iorquino decidiu passar este ano auscultando sua profissão. O resultado é uma série de três longos artigos na New York Review of Books, o último a ser publicado no segundo semestre. Li os dois primeiros como os frequentadores de igrejas de gospel afro-americano, que interrompem o sermão com interjeições. Para quem lê em inglês, recomendo enfaticamente a leitura.

Como aperitivo, ofereço algumas considerações feitas pelo excelente Michael Massing em sua série sobre jornalismo digital. É frequente, nos debates coalhados de clichês como “ruptura” e “viral”, discutir-se modelos de negócio, soluções técnicas mas, enquanto vemos o florescimento de uma segunda geração de publicações digitais, pouco se discute sobre o impacto real da tecnologia na forma de fazer jornalismo. Além disso, o jornalismo online, cada vez mais influente, não enfrenta avaliação de qualidade como a impropriamente chamada mídia tradicional. Até o termo inglês para designar organizações como o New York Times – legacy media – mídia de legado, sugere descompromisso dos novos concorrentes com a continuidade.


Depois de passar meses imerso nos websites do jornalismo americano, Massing saiu com uma conclusão que endosso: reina a caretice e a falta de imaginação. A tal da ruptura se reflete em publicações extintas, desemprego, redução gradual do papel mas não em ousadia para reinventar o jornalismo num novo ecossistema. Os exemplos apresentados são expressivos: O Huffington Post, que acaba de completar dez anos, já passou por várias encarnações, desde que decolou surrupiando conteúdo dos outros e empregando blogueiros não remunerados. Mesmo depois da venda para a AOL por inexplicáveis US$ 315 milhões em 2011, a publicação hoje multinacional batizada com o nome do ex-marido de Arianna Stassinopoulos, continua oscilando entre a boa reportagem tradicional e o besteirol de celebridades. 

O cenário muda de tom mas a falta de criatividade é a mesma em contemporâneos que resistem, como Slate, Salon e The Daily Beast, praticantes, como bem lembra Massing, de um jornalismo opinativo e do contra, do tipo “Saiba como o ajuste fiscal vai gerar empregos.” 

E a garotada da segunda geração digital? Igualmente careta. O queridinho das estatísticas, o jornalista Nate Silver, saiu do New York Times para criar seu próprio site FiveThirtyEight, o mais conhecido entre os que usam números para compor narrativas. Sua contribuição recente para resolver as mazelas da Fifa foi resumida pelo economista de uma universidade nova-iorquina como “uma peça que ilustra como boas estatísticas e desconhecimento da história produzem resultados inúteis.”


O campeão em viralidade Buzzfeed, responsável, em fevereiro, pelo desperdício planetário de tempo com o debate da cor do vestido, emprega cada vez mais jornalistas. Mas, para ler uma cobertura exclusiva sobre a guerra na Ucrânia, o leitor tem que atravessar um monte de lixo como “21 celebridades que confirmam que os canhotos são muito mais sensuais.” O Buzzfeed tem um “editor de animais”, sim, um curador de focas amestradas.

O que mais têm em comum a primeira e a segunda geração do jornalismo digital? Raramente dão furos, influenciam debates ou iniciam um novo diálogo sobre um tema.

Já o New York Times nos brindou no fim de semana com uma reportagem assinada por múltiplos jornalistas que é um primor de renovação de linguagem e uso de multimídia. O jornal contou a evolução e o impacto do Seal Team 6, a unidade secreta de elite celebrizada por matar Osama bin Laden. O provectoWashington Post, vitaminado pelo novo dono Jeff Bezos, hoje dá banho na turma da ruptura, incorporando nova mídia com criatividade e pregando sustos no establishment político em Washington.

Não se trata de saudosismo. Michael Massing argumenta que a mídia digital é território fértil para conteúdo investigativo e de profundidade, com seu poder de atualizar informação e interligar fontes. Mas mesmo novos sites de chamado jornalismo long form, de textos longos, não se firmam. É o Guardian britânico que muda a história ao revelar Edward Snowden para o mundo.
Nos anos 70, o Brasil tinha uma taxa de analfabetismo de 33% e era rapidamente unificado por uma televisão com padrões visuais norte-americanos. Gilberto Braga certa vez comentou comigo que, por causa da novela das 8, as domésticas brasileiras passaram a ter “uma relação” em vez de namorado. Sem que tenhamos nos tornado a pátria educadora de fato, o brasileiro hoje é o maior consumidor mundial de “notícias” via Facebook. Se o jornalismo americano pegou uma gripe, o brasileiro pegou pneumonia.

O preço do diabo

 No "Primeiro Livro de Leitura", que era adotado nos cursos fundamentais de antigamente, havia um texto em que o Diabo compraria a alma de um homem, desde que o cara fizesse uma das três opções que ofereceu: matar a mãe, violentar a irmã ou tornar-se bêbado permanente. Em troca, teria tudo o que desejasse. O cara aceitou a última opção: embriagou-se, matou a mãe, estuprou a irmã e foi parar no inferno.

Nos dias de hoje, a proposta do diabo seria atualizada: ele daria tudo a quem entrasse na política partidária. O sujeito perguntaria: "Serve o PT?". O Pai das Trevas rejubilou-se: "É o melhor". O sujeito fez todas as misérias pretendidas e o demônio levou a alma do desgraçado.


Evidente que a história foi inventada por alguém que queria acabar com as misérias do mundo e dos homens. Daí que continua atual. A vida política equivale a um vício que faz qualquer um fazer todas as misérias possíveis, desde que obtenha algum lucro político ou pessoal.

Bem verdade que qualquer partido serviria para negociar sua alma. No entanto, no panorama atual, e se o demônio estiver por dentro da realidade brasileira, qualquer partido, uns mais que os outros, serviria para a troca pretendida. Ao contrário de Fausto, que desejava a juventude eterna, e de quebra o amor de alguma Margarida disponível ou não, o profissional que se entrega incondicionalmente a um partido despreza a juventude eterna mas não despreza as Margaridas que lhe são oferecidas.

Na perturbadora realidade do nosso tempo, a solução que mais agradaria ao diabo seria o PT. Por várias e ostensivas razões, principalmente os últimos escândalos que envergonham o Brasil e cada um de nós. Material de troca não falta. Todos temos mães e irmãs, umas pelas outras, expostas a qualquer sacrifício pelo bem da pátria, ou ao menos, para o bem da família.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Presidenta trapalhona

Infancia de dilma crianca chuta avo zero matematica cai de bicicleta

Como sair desse buraco

O que assusta mais é a desproporção entre a quantidade e a qualidade do alarme e o tamanho do desastre. A unanimidade dessa alienação é inquietante. A fronteira hoje é o mundo e já passamos longe o limite a partir do qual não se cabe mais no mercado global. Os tempos dos verbos em uso em Brasília estão defasados. Não é que a conta vai estourar. A conta já estourou. A indústria nacional já está cataléptica. Ninguém – fora os barões do BNDES – consegue andar com as próprias pernas. Os empregos estão sumindo em velocidade vertiginosa. A inflação que se vê é só a primeira onda do tsunami que vem vindo.

O estado tende geneticamente ao absolutismo e democracia é a única barreira capaz de impedi-lo de ocupar todos os espaços. Nos períodos de imunodepressão institucional — quando a “razão de estado” impõe-se sobre os direitos individuais e os demais poderes são avassalados pelo Executivo – o estado incha, a segurança jurídica acaba, a produção e o emprego minguam e a inflação dispara.


Já vimos esse filme. O estado brasileiro saiu do regime militar maior que nunca e, como consequência, a desorganização da economia foi ao paroxismo, passando dos 80% de inflação ao mês. Mas havia, então – ao menos na imprensa – a consciência de que era disso que se tratava e nenhuma barreira auto-imposta à crítica do regime. Graças a isso, apesar da feroz oposição do PT à desmontagem da obra econômica da ditadura com as 540 estatais que o partido tratava de colonizar, foi possível fazer a estatização recuar até o ponto a que a trouxe o governo FHC.

Trinta anos de progressiva ocupação do sistema educacional e dos “meios de difusão ideológica da burguesia” por um discurso único eficiente o bastante para, na contramão do mundo, “criar mercado” para 30 e tantos partidos políticos, todos “de esquerda”, e ao fim de outros 12 de ódio ao mérito, truculência regulatória, agressões à aritmética e aparelhamento do estado e até da economia “privada” para “um projeto de poder hegemônico“, o fosso que se havia estreitado ganha as proporções de uma falha tectônica.


O efeito prático é essa combinação aberrante: apesar da renda per capita de Brasília, onde nada é produzido, ter passado a ser o dobro da do Brasil e 1/3 maior que a de São Paulo, síntese precisa do sistema de castas em que nos transformamos, os temas do tamanho do estado, da privatização, do privilégio e da desigualdade perante a lei estão quase completamente ausentes do debate; tudo que se discute é como o “ajuste” vai tomar mais do país para dar mais ao estado.

Para que a trajetória volte a ser ascendente é o contrário que tem de acontecer. Será preciso recuar até o ponto anterior àquele em que a economia parasitária passou a consumir mais do que a economia produtiva é capaz de repor. A questão é que o PT não é hoje muito mais que a representação política dos “servidores” do estado de modo que reduzir o tamanho do estado significa reduzir o tamanho do PT (e de todos os “caronas” que, até segunda ordem, ele admite carregar na boléia da “governabilidade”). O tema oficial do 5º Congresso Nacional do PT – “Um partido para tempos de guerra” – nos dizia do grau de mobilização dessa casta na defesa dos seus privilégios. O tom só abrandou porque ninguém está desafiando o status quo. Mas a impossibilidade matemática de mantê-lo e ao mesmo tempo evitar o desastre econômico e a conflagração social que vem com ele não é um bom presságio para a democracia no Brasil.


Mesmo assim, nem imprensa, nem “oposição” parecem se dar conta disso.

Nas votações da única parte do “ajuste” em que as propostas reuniam o legalmente possível ao justo e ao desejável, com ligeiro constrangimento do desperdício no setor público, o PSDB, fiel depositário de metade das esperanças da nação, simplesmente oficializou a sua condição de não existência. Renegou bandeiras históricas para assumir-se como nada mais que a imagem invertida do PT. Tudo que tem a propor como alternativa ao que está aí é que seja ele a presidir a festa.

A reforma política, sem a qual não há esperança de romper a blindagem que veda qualquer forma de redução do peso do estado, é outro atoleiro. Sempre que pressionados os políticos sentem-se confortáveis para jogar na arena as surradas “propostas do costume” pela simples razão de que nem os mais agressivos “cães bravios” do nosso “jornalismo watchdog” resistem a esses “biscoitinhos”. “Fim da reeleição” em pleno início de um quarto mandato por interposte pessoa? “Financiamento de campanha” em face de uma economia nacional inteira destruída para comprar votos? Mais leis anti-corrupção no país dos foros especiais? Enquanto os eruditos da irrelevância se distraem debatendo infindavelmente o que quer que se lhes atire, os “jabutis” que aumentam o tamanho do problema passam ao largo gargalhando.

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Ao fim de cinco séculos levando com a porta das reformas na cara sem conseguir iniciar uma que fosse, já era tempo de aprendermos que pouco importam as firulas e as beiradinhas conceituais desses preciosismos em que adoramos nos dividir e nos perder, o que é imprescindível é abrir finalmente essa porta e mantê-la aberta daí por diante.

É do mais elementar bom senso e da experiência pessoal de todos nós a noção de que, em qualquer estrutura hierárquica, manda quem tem o poder de contratar e demitir; manda quem tem a prerrogativa da última palavra nas discussões.

O Brasil terá de se reconstruir de alto a baixo para voltar a caber na arena global. E não há “pacote” de reformas que possa incluir tudo que é necessário para tanto. As mudanças terão de se dar num processo, ou seja, num movimento que começa e não se detém mais.

É exatamente isso que proporciona o sistema de voto distrital com recall, a reforma em que são os eleitores que mandam, que começa e não acaba nunca e que, sendo assim, inclui todas as outras.

Uber ódio


Jô Soares entrevistou a presidente. “Morra, Jô Soares”, pichou um anônimo em frente à casa do apresentador, materializando no asfalto o ódio que já derramavam virtualmente as redes sociais. Uber faz sucesso no Brasil. “Vai ter morte”, disse representante de taxistas – com a mesma cortesia usada no trânsito – a deputados que querem regular o serviço de transporte particular.

Menina de 11 anos caminhava por avenida em trajes de Candomblé. Desmaiou ao ser atingida na cabeça por pedra atirada por homens que gritavam: “Sai demônio, vão queimar no inferno, macumbeiros”. As três cenas ocorreram na mesma semana, em locais tão distintos quanto o centro rico de São Paulo, o Congresso Nacional em Brasília e a periferia pobre do Rio de Janeiro. Ilustram como a intolerância crescente no Brasil não é só política, mas econômica e – novidade – religiosa. Chocam tanto pela contundência quanto pela banalização e ubiquidade do ódio.

Qualquer estatística sobre mortos no trânsito, pela polícia, por criminosos e mesmo por companheiros de bar ou de lar desconstrói o mito de que o brasileiro é cordial. Só neste século, quase 700 mil habitantes do Patropi abençoado por Deus foram assassinados por conterrâneos. Meio milhão foi transportado involuntariamente ao cemitério por carros, motos, caminhões e ônibus. E, embora o Brasil não tenha declarado guerra oficialmente, 7 mil morreram em intervenções legais e operações bélicas (leia-se, pela PM).

Enquanto cultiva a autoimagem de nação sorridente e solidária, o Brasil é sinônimo de lugar violento na imprensa estrangeira. Após o assassinato de nove negros que rezavam em uma igreja nos EUA, um dublê de jornalista e estatístico gringo planilhou os dados de homicídios. Para provar que os afro-americanos vivem em constante perigo e enfatizar o tamanho do risco, tuitou que eles são vítimas de assassinato em taxa comparável à do Brasil.

Não é de hoje. A violência interpessoal antecedeu o desembarque dos portugueses. Canibalismo e guerras tribais foram erradicados porque os novos moradores dizimaram quem os praticava. Seguiram-se três séculos de escravidão oficial, quando açoitar, espancar ou mesmo matar alguém era prerrogativa do seu proprietário.

A violência foi e tem sido instrumento crucial para consolidar a regra do manda quem pode e obedece quem tem juízo. Da tortura de Estado disseminada na ditadura militar à lei do mais forte imposta pelo crime organizado nos presídios e comunidades pobres das metrópoles, a coerção e a intimidação são assíduos protagonistas da cultura de poder no Brasil. Por que, então, o choque com uma pichação, uma ameaça verbal ou mesmo uma pedrada?

Talvez porque os alvos desse uber ódio sejam tão inofensivos quanto um humorista, um aplicativo de celular ou uma criança. Se até eles ficaram à mercê dessa força irracional e imprevisível, ninguém mais está a salvo de ameaça ou de ter sua integridade física violada por motivos tão banais quanto a cor da sua roupa. A ubiquidade do ódio tomou o discurso político, fez de adversários inimigos e transformou sede de justiça em desejo de vingança. No caminho, desfez qualquer fio de cordialidade que ainda pudesse disfarçar a violência das relações sociais no Brasil. Fim da hipocrisia, saudarão alguns. A que preço?

Os EUA nem tinham velado os nove mortos na igreja de Charleston quando Barack Obama foi à TV dizer que algo precisava ser feito, que esse fenômeno não se repete tanto em outros países. Desde os 21 alvejados por um atirador dentro de um McDonald’s em San Isidro em 1984, passando pelos 13 estudantes abatidos a tiros por dois colegas em uma escola de Columbine em 1999, foram 40 assassinatos em massa em 30 anos. Deixaram 362 vítimas fatais Obama tem motivos para se preocupar com tanto ódio racial, religioso ou genericamente social. O Brasil também.

Confissão ou testamento de Lula


Lobistas de Brasília fazem a previsão do fim do mundo: o juiz Sérgio Moro não vai chamar Lula para prestar depoimento. Vai mandar prendê-lo. Neste caso, ou tem confissão de verdade, ou o testamento político de Lula vai acabar no lixo da História. Lula ainda poderá escolher. A não ser que prefira dar uma de Getúlio Vargas... Mas isto é improvável, pois depende de muita honra e coragem...

Morto politicamente Lula já está... Financeiramente, mais vivo que nunca... O problema é que dinheiro e diamantes africanos não resolvem tudo na hora do verdadeiro juízo final - que não é o do judiciário do Brasil da impunidade ampla, geral e irrestrita. O acerto de contas de Lula pode ser impagável. A tendência é que ele somatize o momento crítico, com alto risco para a saúde - que a marketagem afirma estar maravilhosa e perfeita para disputar a sucessão de 2018... Até lá, pau na Dilma!

Véspera de desgraça, para um sujeito hiper-muito-informadíssimo como Luiz Inácio Lula da Silva, parece ser um momento premonitório. Quinta-feira passada, com a voz mais rouca que nunca, como sequela do câncer de laringe que milagrosamente curou, o mito Lula cometeu uma confissão ou proferiu seu testamento em uma histórica reunião com uns 30 dirigentes de entidades religiosas. Deus que os perdoe... E nos livre e guarde...


Lá perto de onde um dia Dom Pedro I deu o famoso grito do Ipiranga, as paredes do auditório do Instituto Lula ouviram Lula cometer um verdadeiro sincericídio político em 50 minutos de conversa. Ou, então, já sabendo que a coisa ficaria preta para os amigos empreiteiros, Lula aproveitou para dar mandar um recadinho. O tom negativo do discurso ficou mais para funeral que para renascimento político. O papo de Lula vazou para O Globo. Ou foi vazado de propósito?

Foram apóstolos das confissões de Lula: seu fiel Gilberto Carvalho, o bispo dom Pedro Luiz Stringhini, o padre Julio Lancelotti, e tantos outros dirigentes de pastorais católicas e um pastor evangélico. Abram-se aspas para $talinácio, em ritmo de velório e detonação da companheira Dilma Rousseff (agora com 10% apenas de aprovação e 65% de reprovação, segundo o Datafolha). Lula também a reprova:

"Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto, e eu estou no volume morto. Todos estão numa situação muito ruim. E olha que o PT ainda é o melhor partido. Estamos perdendo para nós mesmos".

"O momento não está bom; o momento é difícil. Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo".



"Aquele gabinete (presidencial) é uma desgraça. Não entra ninguém para dar notícia boa. Os caras só entram para pedir alguma coisa. E como a maioria que vai lá é gente grã-fina... Só entrou hanseniano porque eu tava no governo, só entrou catador de papel porque eu tava no governo. Essa coisa se perdeu".

“Isso não é para você desanimar, não. Isso é para você saber que a gente tem de mudar, que a gente pode se recuperar. E entre o PT, entre eu e você, quem tem mais capacidade de se recuperar é o governo, porque tem iniciativa, tem recurso, tem uma máquina poderosa para poder falar, executar, inaugurar”.

"Os ministros têm de falar. Parece um governo de mudos. Os ministros que viajam são os que não são do PT. Kassab já visitou 23 estados, não sei quem já visitou 40 estados. Aí não dá. Kassab já tá criando outro partido e a gente não tá defendendo nem o da gente!"

"O governo parece um governo de mudos... Falar é uma arma sagrada. Estamos há seis meses discutindo ajuste. Ajuste não é programa de governo. Em vez de falar de ajuste... Depois de ajuste vem o quê? É preciso fazer as pessoas acreditarem que o que vem pela frente é muito bom. Agora parece que acabou o (assunto) do ajuste”.

"Gilberto sabe do sacrifício que é a gente pedir para a companheira Dilma viajar e falar. Porque na hora que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa. Política é isso, o olhar no olho, o passar a mão na cabeça, o beijo".

"Nós tivemos as eleições no dia 26 de outubro. De lá pra cá, Gilberto, nós temos que dizer para vocês, porque vocês são companheiros, depois de nossa vitória, qual é a noticia boa que nós demos para este país? Essa pergunta eu fiz para a companheira Dilma no dia 16 de março, na casa dela".

"Eu fiz essa pergunta para Dilma. Companheira, você lembra qual foi a última notícia boa que demos ao Brasil? E ela não lembrava. Como nenhum ministro lembrava. Como eu tinha estado com seis senadores, e eles não lembravam. Como eu tinha estado com 16 deputados federais, e eles não lembravam. Como eu estive com a CUT, e ninguém lembrava".

"Primeiro: inflação. Segundo: aumento da conta de água, que dobrou. Terceiro: aumento da conta de luz, que para algumas pessoas triplicou. Quarto: aumento da gasolina, do diesel, aumento do dólar, aumento das denúncias de corrupção da Lava-Jato, aquela confusão desgraçada que nós fizemos com o Fies (Financiamento Estudantil), que era uma coisa tranquila e que foram mexer e virou uma desgraceira que não tem precedente. E o anúncio do que ia mexer na pensão, na aposentadoria dos trabalhadores".

"Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa”. E mexeu. Tem outra frase, Gilberto, que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano. E fez. E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso (no programa de TV do partido) e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado".

"Não acredito que tenha havido mensalão. Não acredito. Pode ter havido qualquer outra coisa, mas eu duvido que tenha havido compra de voto — disse ele, mencionando que o ex-deputado Luizinho, do PT de Santo André, não poderia ter voto comprado no mensalão porque era, na época do escândalo, em 2005, líder do governo".

"Nós começamos a quebrar a cara ao tratar do mensalão juridicamente. Então, cada um contratou um advogado. Advogado muito sabido, esperto, famoso, desfilando por aí, falando que a gente ia ganhar na Justiça. E a imprensa condenando. Todo dia tinha uma sentença. Quando chegou o dia do julgamento, o pessoal já estava condenado".
"Jamais vi o ódio que está na sociedade. Família brigando dentro de família, companheiro do PT que não pode entrar em restaurante".

Fecha aspas... Parece que a comilança está acabando... Tudo verdade, $talinácio... O líder do DEM, senador José Agripino Maia, interpretou o discurso de Lula aos religiosos com pura e mortal ironia: "A fala dele, com a respeitabilidade que ele tem no PT, significa a decretação da falência do partido e do governo. É um atestado de óbito. Ele mesmo disse que a Dilma não recebe ninguém, não recebe os pobres. Ele qualificou Dilma como elitista, que se aproveita do poder. Na hora em que diz isso, reconhece a falência do projeto do PT e das principais figuras do partido que estão no governo".

Por tudo isso que esbravejou Lula em seu confessionário ou testemunho de despedida, sendo devidamente sacaneado pela "oposição", é preciso perguntar, novamente, sem a menor maldade: Como o Instituto Lula vai conseguir custear sua despesa média mensal elevadíssima sem a ajuda dos grandes doadores - agora presos e cada vez mais enrolados nos processos da Lava Jato?

Antes de ser preso, Marcelo Odebrecht teria feito uma ligação e dito: "É pra resolver essa lambança ou não haverá República na segunda-feira"... Por isso, outra perguntinha, agora bem idiota: Será que o mundo acaba assim que o domingão encerrar? Erga Omnes!
Jorge Serrão

Em vez do ajuste fiscal, um ajuste social


Divulgada ontem, mais uma pesquisa do Datafolha surgiu desastrosa para o governo, o PT, Dilma e Lula. Eles perderam a credibilidade, depois de terem perdido a popularidade. Em termos da próxima sucessão presidencial, o Lula perde para Aécio Neves por 10 pontos, um alento para o tucano que vinha sofrendo erosão no ninho, por conta dos paulistas empenhados em Geraldo Alckmin.

Junte-se aos números o recente desabafo do primeiro companheiro a um grupo de religiosos e se terá a receita do naufrágio dos detentores do poder. Será o fim, caso não consigam dar a volta por cima, recuperando-se e fornecendo as boas notícias que Madame não conseguiu dar desde que reeleita, conforme diagnóstico do Lula.

Qual poderia ser essa boa notícia entre as dez más, elencadas pelo ex-presidente? Seria possível estancar a inflação, reverter o aumento do desemprego, das tarifas de luz, água, do preço dos combustíveis, dos alimentos e dos impostos? Pelo menos a atualização dos salários, bem como a preservação do seguro desemprego, do abono salarial e das pensões das viúvas. Que tal o reconhecimento de que é possível sair da recessão crescendo, jamais impondo mais sacrifícios ao trabalhador e às categorias menos favorecidas?

Só que não será, nunca, com Joaquim Levy e sua turma. Nem com o PT esquecido de sua pregação inicial, dos tempos da fundação, hoje empenhado no futuro financeiro de seus líderes. Boa notícia realmente seria o segundo governo Dilma começar a reconhecer que vai mal, que não se apresenta à opinião pública nem dialoga com o trabalhador. Madame precisaria aposentar a bicicleta, por alguns meses, dedicando-se a viajar pelo país e sentir, ao vivo, as causas do fracasso de seu governo.

Em suma, a pergunta que não quer calar limita-se a saber por quanto tempo mais a presidente da República se manterá sem discurso e sem iniciativas sociais, fechada em torno das propostas de uma equipe econômica retrógrada e aferrada aos postulados do neoliberalismo. Essa fórmula é letal para países como o nosso. Em vez de ajuste fiscal, por que não ajuste social?

O festival de roubalheira que assola o poder público e as elites financeiras oferece a cada dia um novo episódio mostrando como faz falta o retorno do PT às suas origens. Ou, pelo menos, um novo ministro da Fazenda…

Chega ao fim o período do PT no poder

Começar por onde? Pelo aumento do desemprego? Ou da rejeição à Dilma, agora na casa dos 65%?

Pela decisão do Tribunal de Contas da União de pedir explicações ao governo sobre manobras fiscais? A decisão pode dar vez a um processo de impeachment contra Dilma.

Ou começar pelo desabafo de Lula detonando Dilma, o PT e ele próprio? Ou ainda pela prisão surpreendente dos dois maiores empreiteiros do país?

A prisão dos empreiteiros remete à Queda da Bastilha. Só havia por lá sete presos quando o povo de Paris tomou-a de assalto. Os presos foram libertados.


A cabeça do diretor da prisão desfilou pela cidade espetada na ponta de uma lança.

A Bastilha era um símbolo do poder absolutista dos reis. Sua queda virou um marco da Revolução de 1789 que mudou a França e repercutiu no mundo todo.

Rei Lula (Foto: Arte Antonio Lucena )
Até que a Bastilha fosse destruída, tinha-se como inconcebível que a ralé pegasse em armas para varrer o regime. Os reis eram figuras divinas.

Por aqui, parecia inconcebível que Marcelo Odebrecht, herdeiro de um império que faturou R$ 107 bilhões no ano passado, fosse parar na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, obrigado a comer quentinhas. Ele e o presidente da Andrade Gutierrez .

E não só pela fortuna que Marcelo amealhou, capaz de realizar todos os seus desejos de consumo, e também os desejos das próximas gerações dos Odebrechts.

Mas principalmente pelas conexões políticas e econômicas que Marcelo estabeleceu com políticos e governantes daqui e de uma dezena de países. Lula virou seu empregado. E, junto com Dilma, refém do que Marcelo sabe.

Se o mais poderoso empresário brasileiro decidisse colaborar com a Justiça, a República literalmente cairia.

Imagine se viessem à luz detalhes de um dos encontros de Marcelo com Dilma no ano passado, quando ele fez um circunstanciado relatório sobre os bastidores dos negócios entre as empreiteiras e a Petrobras? Por essa e outras, ele jamais imaginou que seria preso.

Em novembro último, durante encontro com os executivos do Grupo Odebrecht em Costa do Sauipe, na Bahia, Marcelo se sentia tão inatingível que os aconselhou: “Se algum de vocês for preso, conte tudo. Que eu me apresentarei e contarei tudo”.

Não se animem! O maior patrimônio de Marcelo, a essa altura, não é a Odebrecht. É sua memória. E os documentos que guarda. Não falará.

Lula está furioso com a companheira Dilma. Ele a acusa de não ter usado o poder do cargo para impedir que a Operação Lava-Jato, comandada pelo juiz Sérgio Moro, chegasse até onde chegou.

Mas como Dilma poderia atender à vontade de Lula se ela se reelegeu com base em mentiras, lidera um governo cada vez mais fraco, e seu desempenho só é aprovado por 10% dos brasileiros?

O fato é que Lula cobra de Dilma o que ela não pode dar. Ou talvez não queira dar.

Poucas coisas boas ficarão do período Dilma. Uma delas, a justa fama de não ter atrapalhado o combate à corrupção. Ela quer ser lembrada como a "faxineira ética".

As críticas de Lula a Dilma, compartilhadas com os religiosos que o visitaram no Instituto Lula, deixam nu um político que não entende a real dimensão da crise do PT e da esquerda.

A crise deriva dos erros cometidos por Lula e Dilma. O pai da crise é ele. A mãe, ela.

De nada adianta Lula sugerir a Dilma que vá para a rua falar com o povo. Ela não tem o que dizer. O PT, tampouco.

Envelheceram o discurso e os métodos do Sr. Brahma, como Lula foi chamado por alguns empreiteiros.

É um ciclo político que se esgotou. Apenas isso, e nada mais.

Há de vir

Será que a liberdade é uma bobagem?...
Será que o direito é uma bobagem?...
A vida humana é alguma coisa a mais que ciências, artes e profissões.
E é nessa vida que a liberdade tem um sentido, e o direito dos homens.
A liberdade não é um prêmio, é uma sanção. Que há de vir .

Mário de Andrade

Nem que a vaca tussa


Por incrível que pareça, a presidente Dilma Rousseff anunciou, na semana passada, um programa de concessões no valor de cerca de R$ 190 bilhões para investir em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e telecomunicações.

Digo que parece incrível porque toda a história do PT –e particularmente de Lula e Dilma– sempre foi a de considerar a privatização um ato de traição nacional.

Lembram-se do aranzel que o PT armou em todo o país para protestar contra a privatização da Telebrás, pelo governo Fernando Henrique Cardoso?

No Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, no Recife, em Porto Alegre, enfim, em todas as grandes e pequenas cidades do país, os militantes petistas denunciavam a ignomínia que era entregar os serviços telefônicos do país a empresas privadas.

Naquela época, em que possuir um telefone era um privilégio, comprei um pelo equivalente a quase R$ 5.000 hoje.

Telefone era um bem tão raro e precioso que se punha na declaração do imposto de renda. Pois bem, a privatização foi feita e hoje todo o mundo tem telefone, do porteiro do meu prédio ao faxineiro que limpa a rua aqui da frente. O PT nunca mais tocou nesse assunto.

Mas continuou antiprivatista para mostrar que se mantém um partido de esquerda, mesmo quando o regime comunista já desabou no mundo inteiro. É o que eu chamo de "populismo de esquerda", que já não opõe o operariado à burguesia e, sim, o pobre contra o que Lula chama de "elite branca".


Tudo de araque, porque, enquanto enganava o povão com os programas assistencialistas, emprestava o dinheiro público a empresas capitalistas, com juros abaixo do mercado. Arvorava-se como defensor da Petrobras como empresa estatal e, de fato, a privatizou extorquindo propinas das empreiteiras.

Algumas dessas falcatruas vieram à tona agora, mas, apesar disso, Lula e Dilma continuam a posar de esquerdistas, inimigos do capitalismo e, logicamente, de contrários à privatização. Sucede que, se é fácil enganar o povão desinformado, é impossível enganar a realidade.

A situação crítica de nossos aeroportos, por exemplo, levou o governo petista a apelar para o capital privado. Como não podia usar a palavra privatização, usou concessão e, para não ser acusado de favorecer aos capitalistas, impôs tais condições às concessões que ninguém aceitou investir nos aeroportos.

Os anos se passaram, e a situação não apenas dos aeroportos, como dos portos e ferrovias, agravou-se a cada dia, sem que nenhum investimento fosse feito para resolver o problema.

Isso aumentava o custo de nossas exportações, contribuindo para o agravamento da situação econômica do país. Enquanto isso, o governo continuava investindo em programa eleitoreiros, que lhe garantiu o poder por 14 anos já.

Mas, como a realidade não se engana, a verdadeira situação econômica se impôs e obrigou a presidente Dilma a fazer o contrário de tudo o que dissera durante a última campanha eleitoral.

De fato, essa necessidade de fingir que é de esquerda foi um dos fatores decisivos –além da corrupção, é claro– para o desastre econômico a que o petismo conduziu o país. Dentro dessa mesma atitude ambígua, Lula deixou deliberadamente que se deteriorasse o intercâmbio comercial com os Estados Unidos, que sempre foram nosso maior parceiro comercial.


O desastre só não foi maior porque, mal assumiu o governo, a China se tornou o grande comprador de cereais e minérios brasileiros, enquanto nossa produção industrial perdia mercado. Nossos principais parceiros comerciais deixaram de ser as nações desenvolvidas, substituídas por Venezuela, Bolívia e Cuba, aos quais o governo petista (de esquerda) decidiu ajudar.

O resumo da ópera é que, neste ano de 2015, não dá mais para posar de inimigo do capitalismo, muito menos para insistir nas medidas populistas, porque o resultado delas foi onerar os cofres públicos e as empresas estatais.

Dilma agora teve de aumentar os preços do diesel, da gasolina, da energia elétrica e, com o ajuste fiscal, onerar a classe trabalhadora.

Mas isso ainda não basta para tapar o buraco em que o país afundou. Há que recorrer à mal afamada privatização.
Ferreira Gullar

Nunca antes neste país um presidente foi convocado a justificar contas


Não se assuste nem comemore, você que é petista, tucano ou militante evangélico do neo-PMDB. Um mês não é prazo para Dilma pedir para sair. É apenas um tempo para a presidente explicar as contas do ano passado, aquelas que desabaram sobre nossas cabeças em 2015. Excesso de maquiagem, cosmética dos números para ganhar a reeleição, gastos não autorizados durante a campanha. Nada conhecido apenas pelo PT. Mas usado e abusado em 2014.

O Tribunal de Contas da União (TCU) deu um mês para Dilma. São 13 as irregularidades nas contas. Número de azar ou de sorte, dependendo da numeróloga que atende o Planalto. Nunca antes na História do Brasil um presidente da República foi convocado pelo Tribunal a justificar as contas. É inédito. Ficará escrito na História.

A primeira mulher presidente também é a primeira a ter de explicar por que pedalou o orçamento da União. O porquê a gente já sabia: para melhorar as contas de maneira artificial, camuflar a má gestão e se manter no Poder. A extensão das pedaladas talvez só fique clara com a abertura das contas e explicações.

O assunto é duro, mas não estéril: produz filhotes em nosso dia a dia, no aumento do desemprego e da inflação e em todas as contas que recebemos em casa e que pagamos nos mercados, nos médicos, nos planos de saúde, nas escolas dos filhos. Pedaladas, só aceitamos, e mesmo assim com ressalvas, as de Neymar 100% Jesus. Dilma corre, portanto, um risco. Se as explicações da presidente não convencerem os ministros do Tribunal, suas contas serão rejeitadas.

Talvez tudo não passe de teatro. Dilma conta com o apoio da maioria entre os oito ministros do TCU – mas foi unânime o voto para convocar a presidente a se explicar, por escrito, em documento assinado por ela. Uma eventual rejeição das contas seria um golpe inimaginável para a presidente, que até hoje nunca soube de nada da Petrobras. “As contas são dela. Tudo foi prestado por ela. Por isso, é a presidenta (sic) que precisa ser ouvida”, afirmou o ministro do TCU Augusto Nardes, relator das contas do ano passado. Até hoje, foram aprovadas “com ressalvas” as contas mais esquisitas do primeiro governo Dilma. Percebam que o total da “manobra fiscal” investigada agora pelo TCU envolve R$ 40 bilhões entre 2009 e 2014. Segundo o Tribunal, R$ 7 bilhões só no ano passado, o Ano D, de Dilma.

Por que o governo não foi pressionado mais duramente pelo TCU antes, quando estava em marcha a construção de um país da fantasia, com refinarias-fantasmas, estatais borbulhantes, “parcerias entre Estado e empreiteiras” hoje rebatizadas como conluios? Por que o Congresso não analisa as contas do governo desde 2002, embora seja sua prerrogativa? Por que mesmo, hein, Sarney?

Não precisa ser nenhum Sherlock para adivinhar como Dilma reagirá. Ela poderá se fazer de vítima, protestando contra “a politização do TCU”, num momento em que o governo está fraco, sob pressão da dobradinha Cunha-Renan. Ela dirá que “a transparência” de seu governo permitiu, pela primeira vez na História do país, que um presidente seja encostado na parede pelo TCU. E finalmente empurrará a culpa das contas malfeitas para conselheiros e assessores, alguns já afastados. Ai, Mantega, suportarás o peso “hasta cuando”?

É inacreditável a cara de pau do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. Ele disse que o TCU na verdade questiona o governo, e não Dilma. Caramba, então Dilma responde por que coisas da vida, exatamente? Pela decoração, pela dieta, pelo figurino, pelo blush? Em 28 de novembro de 2014, a presidente assinou um decreto, desbloqueando R$ 10,1 bilhões para os ministérios gastarem, sem autorização do Congresso. Quem acompanha lembra. Dilma mandou às favas a meta fiscal de seu governo. Ou foi o governo que mandou Dilma às favas? Quanta acrobacia mental. As dívidas do governo com bancos e fornecedores, em 2014, superam R$ 256 bilhões. Foram ocultas.


Entre as 13 irregularidades, há de tudo. Omissão de dívidas com Banco do Brasil, Caixa e FGTS. Uso de recursos da Caixa para custear Bolsa Família, seguro-desemprego e abono salarial. Uso do FGTS para pagar Minha Casa Minha Vida. Gastos de oito estatais acima dos aprovados. E por aí vai. Para dar uma cara confiável às contabilidades criativas do governo, haja maquiador. Não convém ao PT deixar borrar o delineador e o nome de Dilma.

A presidente ganhou do TCU um tempo para defesa. Para, de cara limpa, explicar a matemática que assombrou o ministro Levy – nem ele esperava, ao assumir o posto, a barafunda de números que encontrou. Uma matemática que custa muito caro à população, à economia, às indústrias e à imagem do país. Dilma tem um mês para convencer.

domingo, 21 de junho de 2015

Que legado grandes eventos trazem para os direitos humanos?


Fiscal e guardas na Vila Autódromo, no Rio
Moradores pobres sendo vítimas da gentrifricação e de remoção forçada sem consultas adequadas, canteiros de obras sem condições adequadas à saúde e à segurança de trabalhadores, manifestantes violentamente detidos por forças de segurança. Cenas como essas têm sido comuns no Brasil.

Uma das maiores dificuldades quando se discute os impactos das empresas sobre direitos humanos é prevenir e proteger contra abusos dos direitos decorrentes de suas operações. O desafio é ainda maior quando megaprojetos são necessários para sediar Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, os quais infelizmente foram e têm sido acompanhados de abusos e violações de direitos humanos.

Recentemente, Moradores da Vila Autódromo denunciaram que a prefeitura do Rio teria negociado com empresas privadas a construção de prédios para classe média no bairro onde vivem, causando a remoção de ao menos mil famílias pobres. Segundo os moradores, nas obras de renovação, a prefeitura e empresas privadas têm excluído os pobres do que chamam de “progresso”.

Outro problema é a poluição da Baía da Guanabara, que em parte decorre da atuação irresponsável de empresas, principalmenteindústrias e refinarias de petróleo, que contribuem com vazamento de óleo e não cuidam adequadamente do lançamento de resíduos.

A poluição da Baía da Guanabara, em parte, decorre da atuação irresponsável de empresas

Qual a resposta de empresas e governos para prevenir e remediar abusos de direitos humanos decorrentes de operações empresariais?

O governo brasileiro, em resposta à pesquisa Plataformas de Ação de governos e empresas sobre empresas e direitos humanos que desenvolvemos, demonstra interesse no tema de empresas e direitos humanos. Apontou iniciativas relevantes como o combate ao trabalho escravo, por meio da Lista Suja. Contudo, afirma que um dos entraves mais importantes às ações no tema é a “falta de entendimento ou conscientização sobre questões envolvendo empresas e direitos humanos no governo”. É inaceitável que isso impeça o país de cumprir e implementar leis voltadas à prevenção e proteção dos direitos.

Em geral, instrumentos de direitos humanos disponibilizados por empresas são interessantes, mas ainda não conseguem ser eficazes para prevenir, mitigar e reparar os abusos decorrentes de suas atividades.

Ideologia é só desculpa

Com truques, mentiras e hostilidade, o governo da Venezuela impediu que senadores brasileiros entrassem em Caracas. Uma besteira sem igual para Nicolás Maduro, um déspota despreparado, cada dia mais agonizante e aflito frente à profunda crise em que seu padrinho Hugo Chávez e ele próprio meteram o país.

Não bastasse, o governo brasileiro aumentou a lambança: o embaixador Rui Pereira recebeu, mas não acompanhou a comitiva; o Itamaraty tardou a se pronunciar e o fez de forma tímida, meramente protocolar. E a presidente Dilma Rousseff não deu um pio.


Em uma visita que poderia ser corriqueira, desprovida de charme, os dois governos ficaram na berlinda.

Mas por que raios ambos se expuseram tanto?

Não há como negar os laços do PT com o bolivarianismo e tudo que essa corrente autodeclarada de esquerda representa. Uma estranha identidade que associa a redenção dos pobres a práticas nada dignificantes: partidarização e ocupação do Estado, corrupção, enriquecimento ilícito, mutretas. Gente disposta a fazer o diabo para se manter no poder.

Fora o público cativo, os militantes cegos que a tudo dizem amém, é difícil crer que o ideário seja o principal elo.

As recentes descobertas da Polícia Federal apontando o envolvimento da petroleira estatal venezuelana com lavagem de dinheiro no Brasil que o digam.

Tudo indica que há muita linha para se desembaraçar no novelo. E que os nós são mais mundanos, monetários e pragmáticos do que ideológicos.

No auge de sua popularidade, o todo-poderoso Lula fazia mesuras a Chávez, cedendo-lhe mais do que o máximo. Celebrou com fogos de artifício a parceria da Petrobras com a PDVSA para a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Mas Chávez não colocou um tostão. Orçada em US$ 2 bilhões, a obra bateu na casa dos US$ 20 bilhões, 100% bancada pela estatal brasileira, que hoje amarga o prejuízo.

Sabe-se pouco ainda das transações de Lula-Chávez-Odebrecht, empreiteira que na última sexta-feira teve seu presidente preso na Operação Lava Jato, suspeito de envolvimento direto na roubalheira que correu solta na Petrobrás.

Reportagem da revista Época, publicada em abril, informa que em um encontro com Chávez em Salvador, em 2009, Lula acertou, pessoalmente, o financiamento de US$ 747 milhões do BNDES para que a Odebrecht tocasse as obras do metrô de Caracas. Hoje, o valor do financiamento teria ultrapassado a casa de US$ 1,6 bilhão.

Já era muito, mas não parou por aí. À Venezuela ceder tudo virou mantra.


Durante o primeiro mandato de Dilma, Chávez conseguiu entrar no Mercosul depois de o Brasil apoiar e convencer seus pares a suspender temporariamente o Paraguai, único país que ameaçava a presença da Venezuela no bloco.

E João Santana, marqueteiro responsável pela vitória da pupila de Lula, desembarcou em Caracas para coordenar a campanha de Maduro. Com vídeos do metalúrgico que chegou à Presidência do Brasil e a repetição da fórmula de críticas às elites, Santana venceu apertado. Mas chegou lá.

Difícil apostar que a proximidade ideológica tenha orientado toda essa cooperação nada convencional entre os dois governos e provocado o clima de barata tonta na visita frustrada dos senadores a Caracas.

Na política não há espaço para ingênuos. E é ingenuidade crer no inverso.

Vou dizer a verdade


Senhor Juiz, sobre essa Bíblia Sagrada, vou dizer a verdade, nada mais que a verdade. O Brasil é a terra da ética, do respeito aos valores morais que dignificam o Homem. Aqui, nenhum cidadão deixa de cumprir a lei.

O caráter do povo é imaculado, fruto de uma herança cultural profundamente alicerçada no civismo, na solidariedade, no culto às tradições, na religiosidade, no respeito aos mais velhos, no carinho e proteção às crianças e na repartição justa dos bens produzidos.


Somos uma Nação onde a justiça não tarda, onde os juízes decidem sob o véu que cobre os olhos de Themis, a deusa da Justiça. Neste território, atingir a honra de um cidadão equivale a ferir a alma da Pátria. Preservamos o abençoado lema: "todos por um e um por todos". Longe daqui o bárbaro costume de “tirar vantagem em tudo”.

Os representantes do povo cumprem religiosamente suas promessas. São exemplos de civilidade, magnanimidade, correção e desinteresse pessoal. Estão todo tempo próximos dos eleitores, não aparecendo em suas regiões apenas no período de campanhas eleitorais.

Nosso sistema federativo vive em harmonia e equilíbrio. Estados e Municípios repartem equitativamente com a União suas partes do bolo federativo. Os recursos recebidos são suficientes para prover as necessidades fundamentais da população, principalmente nas áreas da saúde, onde os equipamentos são de última geração e o corpo médico propicia atendimento rápido, sem filas.

Nossas escolas são de primeiro mundo, desde as do ensino básico às Universidades. Professores dão aulas magníficas, não faltam às suas obrigações, nunca fazem greve porque ganham salários dignos.

Não se vêem assaltos nem criminosos nas ruas.

Nosso povo é pacífico e a igualdade entre as camadas da população é responsável por inserir o Brasil nos primeiros lugares mundiais do PNBF – Produto Nacional Bruto da Felicidade.

Os potenciais das regiões se somam e a racionalidade administrativa gera bolsões de riquezas, que se repartem pelas comunidades. O excedente é exportado e acarreta bilhões de divisas que, da mesma forma, são distribuídos pelas áreas exportadoras.

Os estoques reguladores suprem todas as carências, não havendo crise hídrica e nenhuma ameaça de crise energética. Fornecemos energia aos nossos vizinhos mais necessitados.

E até abrimos os cofres do nosso Tesouro para a consolidação de projetos de infra-estrutura em Nações mais distantes.

Nossas Casas congressuais votam apenas leis fundamentais. E fazem reformas necessárias ao aprimoramento e moralização dos costumes políticos. Agora mesmo, uma reforma política está em tramitação, podendo-se garantir que acentuará a modernização dos costumes, por meio de uma revolução de métodos comprometidos com a ética e com a moral. Em nossas plagas, não se produzem coisas desnecessárias.

Quase não se fazem emendas a projetos de lei, do Legislativo ou do Executivo, porque eles são tão bem feitos, que dispensam reparos.

Temos uma Constituição concisa, precisa e clara. Por isso, não há necessidade de interpretações da Letra Constitucional por parte da Corte Maior, o Supremo Tribunal Federal. Não se perde tempo com discussões inócuas.
Gasta-se dinheiro com parcimônia e cada tostão é comprovado. Os credos evangélicos cobram dinheiro também com parcimônia, sem prometer o paraíso como troco ao dízimo. Não há ficção orçamentária, razão pela qual o Tribunal de Contas da União não encontra um real fora do lugar.

Nas CPIs, tudo é muito rápido e objetivo. Os convocados aparecem nas sessões e respondem a todas as perguntas, sem fazer pressão sobre os componentes.

Os políticos de maior renome recebem o mesmo tratamento emprestado aos mais simples e modestos. Temos uma representação regrada pela solidariedade, amizade, companheirismo, modéstia e simplicidade. Graças à modéstia do caráter, nossos parlamentares preferem se refugiar nos espaços do trabalho a encenar no palco do Estado-Espetáculo.

Os fatos estão sempre acima das pessoas. Afinal de contas, não se cultiva no Brasil aquele sentimento exibicionista e sensacionalista de países do Hemisfério Norte. Aqui o sim é sim, o não é não. Nunca se emprega o talvez, o mais ou menos ou o “depende”.

Nas campanhas políticas, não se gasta acima das posses de um candidato. Tudo às claras. Mesmo os mais ricos se impõem um compromisso ético de não usar o poder financeiro. Mandato é missão, não profissão.

Empreiteiras, bancos, grupos econômicos estão longe de campanhas; isso é uma vergonha de países bárbaros. Os lucros dos bancos são repartidos em obras sociais. Por isso, o povo brasileiro exibe um dos mais altos índices de qualidade de vida do mundo.

Quando um partido chega ao poder, executa fielmente seu programa. A honestidade é comum a todas as siglas. As entidades da sociedade civil se alimentam do pão cívico, que é, aliás, o grande alimento da Pátria.

Por aqui, a vaidade passa longe. Nosso Poder Judiciário não se corrompe como em Nações retrógradas. Não se conhece o caso de um juiz sequer que tenha sido flagrado cometendo um desvio.

Adotamos uma linguagem de decência, de pureza e de respeito. Aboliu-se o palavrão. As mídias sociais são o espaço de respeito, compreensão e diálogo entre interlocutores. A cordialidade irmana a todos e não existe desamor. As mães são o símbolo da virtude e não geram imprecações desastradas na boca de ímpios.

Sobre a capa desta Bíblia Sagrada, juro que sei a verdade!