quinta-feira, 5 de março de 2015

Os sem-terra obedecem ao governo

A presidente Dilma Rousseff nunca se entusiasmou com a criação de novos assentamentos rurais para a reforma agrária. Adotou sempre a ideia de que é mais produtivo melhorar os assentamentos já existentes. O Movimento dos Sem Terra (MST) e outras organizações reagiram inicialmente e acusaram a presidente de abandonar a bandeira da reforma agrária. Com o tempo, porém, se alinharam à nova política. Hoje a luta pela terra não está mais no centro das suas preocupações.

Essa mudança de foco é o tema do artigo “Sem-terra: da centralidade da luta pela terra à luta por políticas públicas”, assinado pelo professor e pesquisador João Fabrini e publicado na mais recente edição do Boletim Dataluta – publicação mensal do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA), vinculado à Unesp. De acordo com as observações do especialista, os movimentos ”passaram priorizar a luta por políticas públicas, diferente do que ocorria no passado em que as ocupações de terra possuíam centralidade”.

As políticas públicas pelas quais esses movimentos lutam, segundo o autor, visam “dotar o meio rural de condições adequadas de educação, moradia, energia elétrica, internet, comunicação, crédito, agroindústria, inserção da produção camponesa no circuito comercial”.

Em outras palavras, passaram a fazer aquilo que o governo quer. Ou, como diz o autor, a ação deles “coaduna com o projeto atual do governo federal”.

Na prática, o MST concentra esforços para fazer acordos com o objetivo de estender aos assentamentos programas sociais já existentes. Entre eles podem ser citados Programa Luz Para Todos, Programa Nacional de Habitação Rural, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

O que teria levado os movimentos a redefinirem sua estratégia? O autor aponta fatores conjunturais e estruturais. Menciona, por exemplo, o avanço do capitalismo nas regiões rurais e a diminuição das áreas improdutivas que poderiam ser destinadas à reforma agrária.

Diz ele: “O capital interessou-se pela agricultura com o aumento de ganho de produtividade, pois a produção na terra estaria dando mais ‘lucro’ do que a especulação, minando o rentismo que sempre caracterizou o espaço agrário brasileiro. A elevação dos preços dos produtos de exportação fez os latifundiários dedicarem ou entregarem suas terras à produção, diminuindo a oferta de terras improdutivas que poderiam ser destinadas à reforma agrária.”

Ele também considera a mudança na política do governo, atribuindo-a a dois fatores: “Esse recuo está relacionado ao fato do governo não entender a realização da reforma agrária e a pequena agricultura como parte do projeto de desenvolvimento do Brasil, bem como à atuação política dos setores ruralistas fortemente representados no Congresso Nacional. A aliança pragmática do governo com o setor ruralista para garantir governabilidade da nação colocou um conjunto de obstáculos para as desapropriações.”

Na visão do autor, sem desapropriações os sem terra não se sentem animados a ocupar propriedades rurais.

O autor cita que “enquanto no período de governo Lula e FHC foram desapropriados 48 milhões de hectares e 21 milhões de hectares, respectivamente, no governo Dilma, foram desapropriados apenas 2,3 milhões de hectares”. Em 2013 ocorreram apenas 10 desapropriações de terras para reforma agrária.

Hoje os protestos promovidos pelo MST estão voltados para órgãos do governo, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e sedes de ministérios.

A exceção e a regra

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam
de que o abuso é sempre a regra.
Bertolt Brecht

Planalto divulga nome e se entrega


As manchetes informando que, segundo assessores do Planalto (grife-se), os presidentes Renan Calheiros, do Senado, e Eduardo Cunha, da Câmara, estariam no listão de Rodrigo Janot, revelam mais uma "brincadeirinha" na Republiqueta do Brasil. Enfim os mortais cidadãos sabem que tudo no governo petista não passa de jogo de cena.

Só foram "revelados" os dois que se tornaram as pedras no caminho cambaleante da doutora Dilma. Divulgar que estão lá seus nomes já foi o suficiente para mandar recado e desabonar os dois, que disseram não terem sido avisados.

Desvendado com as manchetes, o escandaloso (para não dizer cretino) encontro do procurador Rodrigo Janot com o ministro Cardosão como um passa cá o listão. Aquele que foi apelidado de arrombamento de casa do procurador, num condomínio de alto luxo, com muradas e seguranças, vigilância eletrônica, era mais uma brincadeira. Roubo de um controle de portão de garagem e o cronometrado arrombamento de 8 minutos, só débil mental engole.

Era preciso dar uma desculpa mesmo cretina para o encontro no qual seriam repassados os nomes do bando do Petrolão antes do ministro Teori Zavascki, que agora fica com cara de tacho. A maior autoridade jurídica do país recebe um Top Secret que não é segredo sequer entre a faxina no Planalto. Vão usar e abusar de Teori, juiz que já soltou por duas vezes Renato Duque, indicado pelo PT, das garras do Petrolão.

A grande "revelação" em que Cunha e Renan estão listados é joguinho político para enfraquecer, mais uma vez, a operação Lava-Jato e de quebra o Legislativo que se mostrar contrário. A tropa de choque do Planalto só sabe jogar pra quebrar, vai partir para pintar o diabo.

Se outros nomes estão no Top Secret nem tão secreto, porque não anunciaram, por exemplo, indiciados do PT e do PP? Preferiram os tais assessores planaltinos revelar apenas justamente os chefes do Legislativo para que, inibidos, baixem a cabeça para os desmandos que Dilma ainda pretende implementar na salvação do país, quer dizer, da própria cabeça e da de Lula.

Com o quebra-pau entre Executivo e Legislativo, a piada aqui muito reveladora foi daquele petista que com toda a gravidade se disse contra a quebra de sigilo dos políticos indiciados na Lava-Jato. Mas não foi o próprio PT de sua maior instância, o Planalto, quem já soltou dois nomes? Para bom entendedor, vê-se ainda mais clara a jogada.

O maior problema é a imobilidade de Dilma

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em campo para tentar resolver uma crise do governo que ganhou proporções imensas. O motivo do enorme tamanho é simples: o imobilismo da presidente Dilma Rousseff. Ela não conseguiu, até o momento, conversar com seus pares e apontar um caminho.

Presa entre as correntes do PT, partido que lhe abriga, mas nunca foi o dela, Dilma parece também estar perdida do ponto de vista administrativo. As denúncias de corrupção na Petrobras estão sendo tratadas como intrigas da oposição. É assim que o PT quer que elas sejam tratadas. Dilma pode até discordar desse posicionamento, mas não tem força política para fazer diferente. Ou, em outra hipótese, talvez não saiba o que fazer de diferente.

A saída, apresentada até aqui, de dizer que vai investigar e punir porque não concorda com o “malfeito” não convence mais ninguém. Mesmo porque, até este momento, ninguém sabe de um só resultado das investigações internas da empresa. O governo parou no caso Petrobras e vê, como se estivesse de longe, a inflação e o desemprego aumentarem. São dois lados da vida cotidiana muito importantes para a população. Quando o bolso não anda bem nada anda bem na vida do cidadão. E não há como o cidadão separar a sua dificuldade individual, provocada por uma conjuntura nacional, dos escândalos e denúncias que aparecem na mídia a todo momento.

Resultado dessa situação: a corrupção é motivo da indignação que cresce na mesma medida em que o dinheiro para o supermercado fica mais curto. E não é possível responsabilizar o cidadão por nada disso. Afinal de contas, o brasileiro fez tudo o que estava a seu alcance. Quando pediram para ele ir às compras e confiar na economia do país, ele foi. Quando disseram para ele, ainda no governo Lula, que as denúncias de corrupção (no caso do mensalão) eram algo pontual, ele acreditou e reelegeu o presidente petista.

Em outras palavras, o brasileiro quer é que alguém se responsabilize por tudo que está sendo denunciado e, mais do que isso, que apresente uma solução. Não é mais possível manter o jogo de empurra e fingir que está tudo bem.

Quando Lula entra no processo de gestão da crise na condição de ex-presidente e principal liderança do PT, ele também está permitindo que lideranças de outros partidos façam o mesmo. Seria um bom momento para deixar a polarização de lado e PT, PSDB e todas as outras siglas sentarem na busca de uma solução eficiente. Para isso, é preciso admitir que a corrupção é endêmica e já contaminou a todos. Na condição de doentes, os partidos precisam agora da cura. Será assim, ou cada uma das legendas vai sucumbir gradual e lentamente, como já acontece com o PT. A hora é de responsabilidade.

Carla Kreefft

quarta-feira, 4 de março de 2015

O homem que deu R$ 50 milhões para o PT


A Engevix se prepara para detonar o PT.

Gerson Almada, vice-presidente da empreiteira, pediu para marcar um interrogatório com Sergio Moro. Seus advogados já adiantaram o que ele pretende dizer:

"Faz mais de doze anos que um partido político passou a ocupar o poder no Brasil. No plano de manutenção desse partido no governo, […] distribuíram-se cargos […] a quem usou a Petrobras para obter vantagens indevidas para si e para outros bem mais importantes na República Federativa do Brasil”.

Gerson Almada é mais do que um simples executivo.

Na planilha que Pedro Barusco entregou à Lava Jato, ele é indicado como o pagador de propinas da Engevix. O PT recebeu de suas mãos mais de 50 milhões de reais. Só no contrato para o fornecimento de “8 cascos do pré-sal”, por exemplo, Gerson Almada é acusado de ter dado ao PT, através de seu operador Milton Pacovitch, 18,7 milhões de reais.

Se Gerson Almada contar o que sabe, José Dirceu terá de voltar para a cadeia.

Mas as pessoas “bem mais importantes” mencionadas por seus advogados são outras: Lula e Dilma.

O Antagonista

A aula nas escolas


O Brasil não tem medo do PT



Lula vai agir como sempre fez, sem nenhum princípio, sem ética, sem respeito a ordem e a coisa públicas
Em 2015, em meio a muita tensão política, a Constituição de 1988 terá sua prova de fogo. Não há qualquer paralelo com o episódio do impeachment de Fernando Collor. Este já tinha percorrido mais de dois anos de mandato quando foi apeado do poder. E o momento mais agônico da crise foi resolvido em quatro meses — entre julho e outubro de 1992.

Também deve ser recordado que o então presidente tinha um arremedo de partido político, sua conexão com a sociedade civil era frágil — e quase nula com os setores organizados, a relação com o Congresso Nacional era ruim, e com medidas heterodoxas descontentou amplos setores, do empresariado ao funcionalismo público. Sem contar que, em 1990, o país passou por uma severa recessão (-4,3%) e tudo indicava — como efetivamente ocorreu — que, em 1992, teria uma nova recessão.

O quadro atual é distinto — e causa muito mais preocupação. O governo tem um sólido partido de sustentação — que está em crise, é verdade, mas que consegue agir coletivamente e tem presença dominante em governos estaduais e dezenas de prefeituras.

A base congressual é volátil mas, aparentemente, ainda responde ao Palácio do Planalto. As divergências com o sócio principal do condomínio petista, o PMDB, são crescentes mas estão longe do rompimento.

Em 12 anos, o governo construiu — usando e abusando dos recursos públicos — uma estrutura de apoio social. E, diferentemente de Collor, Lula estabeleceu uma sólida relação com frações do grande capital — a “burguesia petista” — que é hoje dependente do governo.

O país está vivendo um impasse. O governo perdeu legitimidade logo ao nascer. Dilma não tem condições de governar, não tem respeitabilidade, não tem a confiança dos investidores, dos empresários e da elite política.

E, principalmente, não tem mais apoio dos brasileiros horrorizados com as denúncias de corrupção e a inépcia governamental em enfrentá-las, além do agravamento dos problemas econômicos, em especial da inflação.

Deve ser reconhecido que Fernando Collor aceitou o cerco político que sofreu sem utilizar da máquina de Estado para coagir os adversários. E foi apeado legalmente da Presidência sem nenhum gesto fora dos limites da Constituição.

Mas o mesmo não ocorrerá com Dilma. Na verdade, não com Dilma. Ela é um nada, é uma simples criatura, é um acidente da História. O embate vai ser travado com Lula, o seu criador, mentor e quem, neste momento, assumiu as rédeas da coordenação política do governo.

Foi Lula que venceu a eleição presidencial de 2014. E agora espera repetir a dose. Mas a conjuntura é distinta. As denúncias do petrolão e a piora na situação econômica não permitem mais meros jogos de cena. O momento do marketing eleitoral já passou.

E Lula vai agir como sempre fez, sem nenhum princípio, sem ética, sem respeito a ordem e a coisa públicas. O discurso que fez no Rio de Janeiro no dia 24 de fevereiro é apenas o início. Ele — um ex-presidente da República — incitou à desordem, ameaçou opositores e conclamou o MST a agir como um exército, ou seja, partir para o enfrentamento armado contra os adversários do projeto criminoso de poder, tão bem definido pelo ministro Celso de Mello, do STF.

Lula está desesperado. Sabe que a aristocracia petista vive o seu pior momento. E não vai sair do poder sem antes usar de todas as armas, legais ou não. Como um excelente leitor de conjuntura — e ele o é — sabe que os velhos truques utilizados na crise do mensalão já não dão resultado. E pouco resta para fazer — dentro da sua perspectiva.

Notou que, apesar de dezenas de partidos e entidades terem convocado o ato público do dia 24, o comparecimento foi pífio, inexpressivo. O clima no auditório da ABI estava mais para velório do que para um comício nos moldes tradicionais do petismo. Nos contatos mantidos em Brasília, sentiu que a recomposição do bloco político-empresarial que montou no início de 2006 — e que foi decisivo para a sua reeleição – é impossível.

A estratégia lulista para se manter a todo custo no poder é de buscar o confronto, de dividir o país, jogar classe contra classe, região contra região, partido contra partido, brasileiro contra brasileiro. Mesmo que isso custe cadáveres.

Para Lula, pouco importa que a crise política intensifique ainda mais a crise econômica e seus perversos efeitos sociais. A possibilidade de ele liderar um processo de radicalização política com conflitos de rua, greves, choques, ataques ao patrimônio público e privado, ameaças e agressões a opositores é muito grande. Especialmente porque não encontra no governo e no partido lideranças com capacidade de exercer este papel.

O Brasil caminha para uma grave crise institucional, sem qualquer paralelo na nossa história. Dilma é uma presidente zumbi, Por incrível que pareça, apesar dos 54 milhões de votos recebidos a pouco mais de quatro meses, é uma espectadora de tudo o que está ocorrendo.

Na área econômica tenta consertar estragos que produziu no seu primeiro mandato, sem que tenha resultados a apresentar no curto prazo. A corrupção escorre por todas as áreas do governo. Politicamente, é um fantoche. Serve a Lula fielmente, pois sequer tem condições de traí-lo. Nada faria sozinha.

Assistiremos à lenta agonia do petismo. O custo será alto. É agora que efetivamente testaremos se funciona o Estado Democrático de Direito. É agora que veremos se existe uma oposição parlamentar. É agora que devemos ocupar as ruas. É agora que teremos de enfrentar definitivamente o dilema: ou o Brasil acaba politicamente com o petismo, ou o petismo destrói o Brasil.

Marco Antonio Villa

Terreno fértil da corrupção


Restos à venda


Quem se lembra das privatizações de FHC? Foi há tanto tempo assim que até esqueceram todos, inclusive a turma do PT.

O presidente de então anunciava que privatizar era um bom negócio. Mas para isso precisaram sucatear as estatais até o esqueleto. Na época, uma antiga empresa que era um dos símbolos do desenvolvimento brasileiro na área das telecomunicações foi sistematicamente corroída. Entregaram os restos a preço de banana e acabou-se com a Embratel.

O PT, com Lula no comando das invectivas, disparava contra o descaso governamental. O partido engordava com as críticas e muitos daqueles funcionários vestiram a camisa da defesa do patrimônio nacional, se tornaram petistas roxos, como agora fazem os da Petrobras.

Mas Lula, Dilma e o PT fizeram outros planos bem mais nefastos para o país. Foram além da privatização que condenavam. Sugaram os cofres petrolíferos e hidroelétricos até a exaustão a ponto de a Petrobras se ver obrigada a vender mais de R$ 39 bilhões em ativos para saldar dívidas, o que talvez nem dê conta do prejuízo. 

O orgulho nacional foi assaltado pelos petistas, com a institucionalização do roubo em favor dos partidos, com máscara de governo e ainda querem ser indultados de qualquer crime.

Nunca antes na história deste país se roubou tanto e tão escandalosamente como sob a gestão quadrilheira do PT. Para esconder a roubalheira sistemática promovida por eles mesmos, querem uma passeata em defesa dos ossos que deixaram depois de um propinoduto que abasteceu todos esses anos o partido e seus asseclas políticos. Nada mais cafajeste, típico de ditaduras e de gangues da picaretagem.

A propalada passeata em defesa da Petrobras é mais uma brincadeirinha dos petistas. O objetivo mesmo é se esconder agora sob máscaras de patriotas, legítimos defensores dos brasileiros e seu patrimônio, para escapar da Justiça, onde já arrumam seus pauzinhos. Mas o rombo que deixarão no país não tem preço. Será uma dívida para se pagar em anos de muito suor do contribuinte.

Hora de decidir

Dilma vai precisar abandonar a letargia e resolver se privatiza alguns dos negócios da Petrobras ou se anuncia que a sociedade pagará o preço de reformatar a estatal
Dentro de 46 meses, Dilma Rousseff vai para casa. Sem perspectiva de poder ao final desse calendário, é uma presidente que não dispõe de muito mais tempo para resolver como deseja atravessar os próximos 1.300 dias.

Nas circunstâncias políticas de hoje, suas alternativas são muito restritas: faz um governo com um olho na História e outro na biografia, ou se conforma em passar os próximos quatro anos arrastando correntes pelos quatro quilômetros que separam a harmonia desértica da Praça dos Três Poderes dos belos jardins Palácio da Alvorada, onde as banhistas do escultor mineiro Alfredo Ceschiatti parecem flutuar sobre o espelho d'água.

Há meses Dilma insiste em transmitir uma única mensagem, a da imobilidade no atoleiro. Sua catedral de dogmas ruiu com o Muro de Berlim, mas ela permanece estática, talvez em secreto desejo de reescrever a própria história.

No inverno de 2005, a então chefe da Casa Civil de Lula detonou uma proposta de ajuste fiscal de longo prazo abençoada pelos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo. A ideia central era controlar a expansão dos gastos e avançar na direção do “déficit zero” nas contas públicas (em termos nominais) ao longo de uma década. Dilma sepultou a ideia, classificando-a de “rudimentar”.

Uma década depois, governa em desespero para controlar a inflação, aumentar a arrecadação e garantir substancial superávit nas contas públicas. O preço agora é recessão, desemprego e cortes na rede de amparo social, como a saúde e o sistema estatal de pensões.

A presidente entra em negação quando a vida real demonstra que, nem sempre, suas ideias correspondem aos fatos. Abre as comportas do ressentimento quando vê uma decisão ser decodificada nos seus rudimentos — por exemplo, uma “brincadeira” governamental de alto custo (R$ 25 bilhões anuais) aos cofres públicos, como foram as desonerações fiscais, segundo o coloquialismo fazendário.

A sucessão de críticas que Dilma emula ou faz em público ao Ministério tem efeito arseníaco. Sugere uma equipe sem afinação, competência e seriedade — requisitos primordiais para encontrar o fundo do poço, que em política é apenas uma etapa.

Nos próximos dias estará diante de inédito desafio, com a “lista Janot” de suspeitos de corrupção na Petrobras, o balanço da petroleira estatal e as sentenças ao condomínio político-empresarial beneficiário.

A Presidência tem flertado com a imagem de protetora de empreiteiras. É uma opção, não importam os motivos. O problema central permanece: o que vai fazer com a Petrobras, cujo programa de investimentos não se sustenta sem financiamento externo.

Agentes financeiros e empresas associadas à estatal começaram a avaliar consórcios para eventual compra de participações no pré-sal, assim como uma fatia da BR Distribuidora, com sua rede de seis mil postos de serviço.

Dilma vai precisar sair da letargia para decidir, por exemplo, se privatiza alguns dos negócios da Petrobras ou se anuncia à sociedade que ela vai pagar um alto preço, via Tesouro, para reformatar a empresa e concentrá-la na exploração e produção de petróleo.

É muito para realizar na biografia, e pouco tempo disponível para fazer diferença na História.

José Casado

'Eu quero um Lula pra tio!'

Meus tios são uns merdas. Estudaram a vida inteira, muito, trabalharam feito uns babacas, pagaram impostos feito uns otários e, pior, quando meu pai ficou doente, cuidaram de mim e dos meus irmãos. Hoje, babacas que foram, mal conseguem viver de suas aposentadorias. Tenho que ajudá-los na medida do impossível. Eu mereço. Meus tios me ensinaram a ser a ser um babaca também.
Eu queria ter um tio como o Lula. Ele me arrumaria obras com a Odebrecht e outras empreiteiras. Eu estaria comendo a Val Marchiori e fumando charutos cubanos que o Raul mandaria de presente. Se eu tivesse um tio como o Lula não estaria no sufoco de arrimo de família. Eu não quero ajudar meus tios!!! Eu quero mais que é que eles me ajudem! Mais, muito mais! Eu exijo que eles coloquem o "meu boi na sombra.
Meus tios são uns merdas, talvez por serem brancos, da elite burguesa e, pior ainda, judeus. Tios, vocês são uns merdas!"
Marcelo Madureira 

Sem ódio e sem medo

Manifestante (Foto: Arquivo Google)
Será pelo resgate daquilo que nos ensinaram os gregos sobre qual deve ser o objetivo mais nobre da política: resolver de forma civilizada os conflitos da sociedade

O Brasil vive seu momento mais dramático desde o fim do regime militar.

Pode-se contra-argumentar que o impeachment do Collor foi mais grave. Mas ali o grito das ruas e as instituições entraram em sintonia. A crise foi equacionada de forma democrática e pacífica, sem que uma só voz ameaçasse recorrer à beligerância.

A dramaticidade dos dias atuais está tanto no desmanche de um governo que mal começou como na existência de forças interessadas na radicalização, principalmente no interior do bloco governista.

Com o propósito de perpetuar o seu projeto de poder, nem que for na marra, Lula se diz preparado a ir à guerra e disposto a por nas ruas o “exército de (Pedro) Stedile”.

Está se formando um caldo de cultura da violência, do rancor, da intolerância, do confronto.

É neste campo que petistas querem travar a guerra para camuflar seu fracasso na economia, onde após seis anos de subsídios, desonerações, populismo tarifário e irresponsabilidade fiscal, o governo adota agora um pacotaço que pode matar o paciente de overdose.

Mas também para esconder suas impressões digitais no escândalo da corrupção na Petrobras. Nesse jogo sujo vale tudo. Vale acusar as elites e a oposição de conspiração contra os interesses nacionais, uma ladainha enfadonha e sem sentido.

Há o risco real de segmentos da sociedade caírem na armadilha, aderindo à lógica do confronto.

Até porque há um clamor nacional pela ética, ao qual o PT desdenha, desqualifica, taxando-o de udenismo. Sabemos aonde isto leva.

Leia mais o artigo de Hubert Alquéres 

terça-feira, 3 de março de 2015

O assunto é o autor do autor

01
Não aguento mais falar de política, de escândalos e de punições. Nossa política está tão despedaçada quanto a nossa cabeça cultural. São conceitos ralos em nossa rala realidade. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a revolução digital foi tão completa no mundo pós-industrial que dissolveu crenças e certezas. Caímos num vácuo de rotas.

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, artistas e pensadores vivem perplexos – não sabem o que filmar, escrever, formular. Em geral, recorrem às atitudes mais comuns nas turbulências: desqualificar os fatos novos e reinventar um “absoluto” qualquer, sem saber que, como escreveu Baudrillard, “não há mais universais; só o singular e o mundial.” Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. Agora, na falta das “grandes narrativas” do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, como se ali estivessem pistas para novas “verdades” a desvelar – a aura deslizou da obra para o próprio autor –, o único assunto é ele mesmo.

Hoje, as palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido, e ficamos à deriva. Por exemplo, “futuro”. Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo, solucionado, harmônico, que nos redimiria da angustia da falta de “sentido”. Agora, no lugar de “futuro”, temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, acabou aquela dimensão espiritual chamada antigamente de “cultura” que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando uma razão de ser para a existência. Mais ou menos isso Vargas Llosa escreveu no “El País”, num ensaio chamado “A civilização do espetáculo”.

Já houve um tempo em que a literatura era importante. As escolas literárias se digladiavam sobre estilos e temas, em busca de um sentido maior que nos definisse como país, dentro de um mundo ainda analógico.

Antes havia debates para ver quem tinha razão. Hoje, todos têm razão, e ai daquele que criticar tendências, em nome de critérios e paradigmas seculares da arte. A inteligência foi substituída pela sacralização da irrelevância massificada; a própria ideia de “estética” é considerada por muitos como um individualismo neoconservador, autoritário, produzindo regras repressivas. A libertação da tutela dos chamados “maîtres à penser”, dos seres que nos guiavam orgulhosamente para algum sentido foi uma coisa boa, mas abriu as portas para um vale-tudo formal que desqualifica tentativas de crítica literária.

Claro que é bem-vinda a esfuziante aparição de milhares de criadores, dos blogueiros, dos tuiteiros, dos hipertextos da época pós- pós; claro que algum dia isso vai dar em novos valores de “qualidade”, de “importância”, destilados dos alambiques da internet. Estamos numa fase da exaltação da “quantidade”, como se a profusão de temas e criações substituíssem a velha categoria da “qualidade”. Essa nova era nos ensinou que não chegaremos a algum destino definitivo, mas alguns parâmetros de valor estético terão de ser recolocados na literatura. Em geral, as diagnoses sobre as mutações a que assistimos hoje em dia se dividem ou em lamentos por um passado de ilusões perdidas, ou em euforia por um admirável mundo novo em que todos sejam autores e leitores. Em teoria, tudo bem, mas “ideias” em poesia e literatura só se expressam na forma. Outro dia, achei um livro de Agripino Grieco, um dos grandes polemistas do início do século XX e demolidor dos burros e farsantes. E ele diz, numa entrevista de 1944: “A obra dos escritores vale pela forma em que está vazada, pela ironia, pela irreverência, pelo que possa representar de negação dos valores oficiais. O que vale é a forma.”

E ele acrescenta: “Ai do romance em que o enredo interessa mais que o estilo.”

Ou seja, os mistérios do mundo revelado pela grande arte literária são florações da forma; e é isso que lhes fornece durabilidade, relevância na observação da vida, sua razão de ser.

Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal “futuro” chegou; grosso, mas chegou. Talvez esse excesso de “irrelevâncias” esteja produzindo um acervo de conceitos “relevantes”, ainda despercebidos. Podemos nos dedicar ao micro, ao parcial, podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas isso não pode justificar um desprezo pela excelência. E o pior é que as tentativas de “grande arte” são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Ou seja, os mistérios do mundo revelados pela grande arte literária são florações da forma; e é isso que lhes fornece durabilidade, relevância na observação da vida, sua razão de ser. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo, mesmo no túnel sem luz.

Se olharmos as grandes obras do passado, como as de Van Eyck, por exemplo, vemos que ali estavam as imagens mais profundas sobre a Idade Média.

Isso me lembra o tempo em que achávamos que o “fluxo da consciência”, “the stream of consciousness” ou até o discurso psicótico encerravam uma sabedoria insuspeitada. Será que houve a morte da “importância”? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O “importante” seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é “importante”, nada o é.

Quem paga a conta

Dilma aponta dedo Petrobras fraudadores e cumpa vuivas e aposentados mp 664 665 Beneficios seguro desemprego pensao

Corpo estranho à língua portuguesa

Guiné Equatorial já havia feito algo espantoso: entrou para a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, com o apoio do Brasil. Mas lá não se fala português
Não basta ficar boquiaberto com o fato de que a Guiné Equatorial financiou a Beija-Flor. Nem basta discutir (veladamente) a relação entre samba e ética. Discussão, aliás, complicada. Pois os donos do jogo do bicho financiam várias escolas, inclusive a vencedora de 2015, a Beija-Flor.

Essa discussão pode, no entanto, iluminar nosso comportamento sociocultural a partir de duas observações. A primeira: haveria alguma relação entre esse financiamento e os escândalos do mensalão e do petrolão? Haveria alguma consonância entre dar propinas, a existência das milícias, o ato de ultrapassar pelo acostamento e esse financiamento?

Para tornar a coisa mais complexa, adianto uma segunda informação perturbadora. A Guiné Equatorial apenas descobriu que o samba estava à venda. Antes, já havia feito algo espantoso: entrou para Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP), com o apoio do Brasil. No país não se fala português. Mas o ditador que está lá há 35 anos pode ter pensando: se não é necessário falar o português para pertencer à CPLP, por que não chegar ao Sambódromo?

“Com a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, consumou-se a despudorada violação dos seus princípios e de valores constitutivos”, diz José Carlos Vasconcelos num editoral no “Jornal de Letras” (do grupo Visão, de Portugal).

O ensaísta Eduardo Lourenço (Prêmio Camões, 1996), num artigo intitulado “No que a CPLP se transformou”, publicado há quatro anos, quando a Guiné Equatorial, pela primeira vez, quis ser admitida como membro na CPLP, disse que a organização não poderia sucumbir aos interesses econômicos e estava se transformando “numa versão africana do tonel das Danaides, preciosa água escorrendo em vão para lado nenhum”.

O Brasil faz parte da CPLP e na reunião em que isso foi aprovado o representante brasileiro era João Augusto Medicis.

A imprensa portuguesa tem dado destaque ao assunto. No Brasil não se fala disto.

Leia mais o artigo de Affonso Romano de Sant’Anna

Lula, de esperança a forte ameaça à democracia


O que leva Dilma, aos 67 anos de idade, a ser tão rude com seus subordinados? A pedido de quem me contou, não revelarei a fonte da história que segue.

No ano passado, ao ouvir do presidente de uma entidade financeira estatal algo que a contrariou, Dilma elevou o tom da voz e disse:

- Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos? Eu tenho. Quando você tiver poderá ocupar o meu lugar.

Dilma goza da fama de mal educada. Lula, da fama de amoroso. Não é bem assim. Lula é tão grosseiro quanto ela. Tão arrogante quanto.

Eleito presidente pela primeira vez, reunido em um hotel de São Paulo com os futuros ministros José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken, entre outros, Lula os advertiu:

- Só quem teve voto aqui fui eu e José Alencar, meu vice. Não se esqueçam disso.

Em meados de junho de 2011, quando Dilma sequer completara seis meses como presidente da República, ouvi de Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, um diagnóstico que se revelou certeiro.

“Dilma tem ideias, cultura política. Mas seu temperamento é seu principal problema”, disse ele. “Outro problema: a falta de experiência. E mais um: tem horror à pequena política. Horror”.

Na época, Eduardo era aliado de Dilma. Nem por isso deixava de enxergar seus defeitos.

“Dilma montou um governo onde a maioria dos ministros é fraca”, observou. “Todos morrem de medo dela. No governo de Lula, não. Ministro era ministro. Agora, é serviçal obediente e temeroso. Lula não pode fingir que nada tem a ver com isso. Afinal, foi ele que inventou Dilma”.

Lula não perdoa Dilma por ela não ter cedido a vez a ele como candidato no ano passado. Mas não é por isso que opera para enfraquecê-la sempre que pode.

Procede assim por defeito de caráter. Com Dilma e com qualquer um que possa causar-lhe embaraço.

Leia mais o artigo de icardo Noblat

A coisa certa


A desconstrução de um projeto para a nação

Será que vamos, mais uma vez, frustrar as novas gerações do nosso país?
Os primeiros dias do governo mostram que o tema "Pátria Educadora", colocado pela Presidente da República, está sendo literalmente demolido pelas medidas recentemente noticiadas, e que poderão trazer prejuízos incalculáveis para as novas gerações, que não estarão preparadas para as oportunidades de emprego que inexoravelmente surgirão com os avanços da ciência, com a geração de novas tecnologias e com a própria inserção do país no fluxo de comércio internacional, resultado da crescente globalização.

A educação básica, alardeada pelos governantes nos últimos anos como uma prioridade nacional, está a exigir ações concretas e efetivas no plano federal e nos estados e municípios, já que não ainda foi possível definir um rumo que possibilite uma preparação adequada dos nossos jovens para o enfrentamento dos desafios trazidos por um "mercado de trabalho" cada vez mais competitivo, com empregos que exigem novas habilidades e competências.

Embora algumas ações possam ser listadas, das quais destaco a iniciativa do Rio de Janeiro em reformular o seu ensino médio, ainda estamos muito longe dos níveis admissíveis para a nossa economia, que ainda é uma das 8 maiores do mundo.
Leia mais o artigo de Paulo Alcantara Gomes

'Estou me guardando para quando o Carnaval passar'

Os governantes de todos os Estados brasileiros, exceto aqueles que disputaram a própria reeleição, estão ocupados em justificar a inércia de suas administrações, já na entrada do terceiro mês de seus governos, com as mais diversificadas explicações. Alega a maioria deles que seus antecessores deixaram propostos orçamentos não exequíveis, que encontraram caixas vazios, quadros de pessoal inchados, empenhos cancelados, além de amplo leque de mutretas políticas e administrativas destinadas a dificultar as novas gestões. Disso muito é ou poderia ser verdadeiro. O que não é aceitável são as desculpas, quando já entramos no mês de março.

Todos os governadores hoje no poder sabiam com precisão matemática o que iriam encontrar quando chegassem à cadeira que hoje ocupam. Todos. Nem poderia ser diferente porque as campanhas que os levaram aos palácios foram estruturadas na crítica aos modelos, nas medidas e nas opções dos governos sucedidos. Houve em todos eles uma mensagem de renovação, de mudança e de transformação que o eleitor pedia e apoiou nas urnas, com seu voto.

Diferentemente disso, o que se sente em todo país, e Minas infelizmente não é uma exceção, é um paradeiro incômodo, uma falta absoluta de perspectivas, um achatamento brutal de toda esperança de que se serviram os novos governantes para convocar seus eleitores a assistirem a geração de um novo momento.

Dizerem que não há dinheiro para nada, sobretudo para investir em projetos estruturantes e transformadores, é uma incúria e frustra a expectativa que o eleitor lhes confiou com seu voto. Recursos já não existiam, e todos sabiam disso. Esperava-se que tivessem imaginação, prestígio para buscar tais recursos onde estivessem e melhor pudessem ser alcançados. Não se esperava desculpas.

O Brasil está parado e não é apenas por falta de recursos públicos. É por falta de credibilidade, de propostas sérias, de coragem para enfrentar a indigência de caráter de nossas lideranças políticas que hoje formam os Legislativos – municipais, estaduais e em Brasília. Que fazem as câmaras Municipais, as assembleias legislativas e o Congresso Nacional a não ser discutirem se aproveitam ou não das concessões mais espúrias, de verbas disponibilizadas para custear suas fantasias, das passagens aéreas para suas esposas, ou suas amantes, ou seus assessores de nada? Para que um vereador de qualquer cidade brasileira; um deputado de qualquer assembleia legislativa de todo Brasil, qualquer deputado federal ou senador precisa de tanto assessor, de tantas regalias, de tanta verba?

Estamos carentes de trabalho, de programas, de políticos que saibam tirar o país desse buraco que eles mesmos – uns com sua inércia, muitos com sua corrupção, todos com seu desinteresse – colocaram. Ao trabalho, senhores! O Carnaval já passou.

Luiz Tito

O império da idiotice


Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
Nelson Rodrigues

O 'fantasma' do impeachment

Apesar de o eminente democrata socialista, Zé Mensalão, cumprindo prisão domiciliar, declarar em 1999, que “dizer que impeachment é golpe é falta de assunto”, ainda assim a palavra continua um terror para uns e outros. Os próprios petistas, que já idolatraram o excelentíssimo ex-ministro, conferem à palavra o sentido de golpe da Direita; grande parte da população pede o afastamento da presidente, mesmo sem saber que isso está na Constituição. E fica-se no blá-blá-blá discutindo-se o direito constitucional, o que convém muito ao estado de beligerância no país e, em particular, ao governo e seus asseclas. Não se deve esquecer a antológica frase de quem brigou para derrubar Collor e hoje avisa com a profecia dos sem caráter como Rui Falcão: “Fiquemos alertas, companheiros, pois o imperialismo tanto se vale da força bruta como recorre às instituições republicanas para depor governos populares”. É discurso rançoso com mais de 50 anos de usado e usurpado.

O que há de tão terrível no impeachment? O Brasil já não passou por um e saudou como um avanço democrático? Agora seria antidemocrático? Mudaram a Constituição e não disseram nada? Ou querem dar um golpe de João Sem Braço?

O Paraguai, em 2012, decretou o impedimento de Fernando Lupo num rápido processo que durou ao infinito de dois dias. O processo foi iniciado a pedido de um deputado do Partido Colorado, motivado por um confronto entre policiais e camponeses, durante a reintegração de posse de uma fazenda em Curugauty, que deixou 17 mortos e 80 feridos. O Paraguai vai bem, obrigado, sem guerra civil, sem nós contra eles e outros lemas marqueteiros. E o Brasil continua matando 50 mil por ano.

Quem não gostou nada do cumprimento da Constituição paraguaia pelos paraguaios foram os companheiros, entre eles, a Venezuela, de Chávez, e o Brasil, de Dilma, sempre muy amigos e leais defensores da tal legalidade à moda da casa. Foram contra a saída, constitucional, do presidente e puniram o país que cumpriu sua Constituição com o afastamento do Mercosul para dar vez à legal Venezuela, que rola na desgraceira.

O que dá em ser contra ou a favor do impeachment? Está na lei e, dentro da lei, cumpra-se. Tanto falatório só dá vez mesmo ao acobertamento das falcatruas que assolam o país. Se tiver que ser feito, faça-se como manda a Constituição e bola pra frente. O que não se pode é gastar tanto palavrório, que joga uma cortina de fumaça sobre a roubalheira e só favorece a turma da corrupção. Vamos acabar embaralhando os conceitos e enfiando os pés pelas mãos sujas.

O que não se pode, nem pensar, é arrumar artifícios novos ou mais do que vetustos para driblar a Justiça, no Brasil, tão maltratada em favor dos poderosos, dos empreiteiros, dos políticos, dos canalhas de toda a espécie. Neste imbróglio, o povo apenas quer Justiça com todas as letras para acabar com as “brincadeirinhas” que só levam ainda mais o país para o poço.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Um pombo: a tormenta

Num buraco da pedra refugiou-se
um pombo, só, sem companhia alguma.
A tarde, até então tranquila e doce,
vestiu-se de relâmpagos e bruma,

e a chuva esvoaçou, como se fosse
feita de voo mas também de pluma,
e na explosão que a trovoada trouxe
desfizeram-se as nuvens, uma a uma,

e caíram nas calhas feitas águas
e a água em saudade se mudou de bica...
Água da infância nos lavou a cara...

E como o estouro de uma grande mágoa
que atrás dos olhos quer ficar, não fica,
vi que o pombo nas águas revoara.

E enfrentava a tormenta cara a cara.

Odylo Costa Filho (1914-1979)

Impeachment, intervenção militar ou deixamos como está?


Um grupo de brasileiros, já há alguns meses, cobra das Forças Armadas, o cumprimento da Constituição Federal. De imediato, são acusados de golpistas por aqueles que assaltam a nação. Sem esclarecer melhor suas intenções, este grupo passa à sociedade em geral a idéia de estar propondo a implantação de nova ditadura. Seus argumentos, no entanto, são de que há necessidade de cumprimento de preceito constitucional, pois a intervenção das Forças Armadas é prevista se houver falência das instituições do país.

Os detentores e exploradores do poder reagem proclamando estar sendo proposto um golpe contra a democracia. Dizem que é tramada a volta de 1964. E para completar, Lula, ex-presidente por dois mandatos, também ajuda a aumentar a confusão, ao conclamar que o “exército de Stédille” saia às ruas para o enfrentamento.

As razões e questões que levam brasileiros a pensar não apenas no impeachment de Dilma Rousseff, mas em ato mais profundo, estão expostas em vários textos escritos nos últimos meses pelos defensores da intervenção militar. Para eles, os substitutos de Dilma não são confiáveis e não possuem mínimas condições de exercer o poder, por estarem tão contaminados quanto ela.

Cinquenta anos após o golpe de 1964, maus brasileiros, falsos democratas, antinacionalistas, indivíduos sem caráter, sem ética, sem princípios, ávidos pelo poder, por riqueza pessoal e acúmulo de bens que não poderão levar ao além-túmulo, tudo fizeram para que aqui chegássemos e continuam empurrando para o lixo o país que deveriam amar e defender.

Minha geração nasceu e viveu em plena revolução de 1964. Atravessamos duas décadas medindo nossas ações, palavras e pensamentos, esperando a oportunidade de retomarmos a plena e responsável democracia.

Agora, passadas apenas três décadas, assistimos ao horror que faz a corrupção a um país e a seu povo. E tudo patrocinado por alguns daqueles que, como eu e você, viveram momentos que gostaríamos tivessem ficado na história, no passado, para servir de exemplo e mostrar que não se deve cometer os mesmos erros.

Quando uma nação é comandada por alguém sem qualidades morais, que desperdiça os recursos produzidos pelo povo, aplicando-os de forma errada, e permite sejam surrupiados; quando um poder legislativo a todo momento comete atos que beiram o deboche, não enxergando e entendendo o que se passa em seu entorno; e, quando o judiciário perde a linha da justiça, da seriedade e não se preocupa mais em defender o estado de direito, o que resta aos cidadãos comuns?

Que Deus não permita, mas tudo indica estarem se avizinhando tempos escuros, sombras e mais perdas para quem já perdeu quase tudo. É duro imaginar que deixaremos este legado às futuras gerações.

Antonio Fallavena

Tenho lido cada uma!


Numa ponta da meada do Petrolão, lideranças de um governo que afunda de nariz empinado falam como se a Petrobras fosse tesouro de quem o encontrou ao pé de promissor arco-íris. E o dia, durante 12 anos, nasceu feliz. Na outra ponta, até quem manteve as mãos distantes do óleo grosso quer transferir culpas. O sujeito cumprimentou cordialmente um jornalista da praça - "Como vai, fulano?", e este revidou: "E o efeagacê? E o efeagacê?". Calma, rapaz, um simples bom-dia basta.

Não lembro de período com tanta sandice no noticiário. Li que o Ministro da Justiça aferrolhou a porta e conversou com o advogado de uma empreiteira que entrou nervoso e saiu tranquilo. Li exaustiva lista relacionando, com ufania, quatro (!) petistas que teriam desentranhado sua contrariedade com a corrupção em curso. A virtude é assim, tão contagiante? Quatro gotinhas tornam potável a água mais impura? Li que na versão marota do "regime de partilha", na qual 3% dos contratos abasteciam os partidos da base (2% para o PT e 1% para o PMDB e o PP) tudo era feito "em nome da governabilidade". Bom, para o país, não? Li que um grupo de 50 "intelectuais" partiu para o ataque afirmando que: 1) a operação Lava Jato põe em risco nossa soberania e a democracia; 2) seus alvos são a Petrobras e o pré-sal; 3) as investigações estão "dizimando" empresas de alta tecnologia; 4) desenha-se um projeto golpista no país. Com intelectuais assim, quem precisa de tolos?

Ouvi Lula em ato para salvar a Petrobras. Falou como quem mata e vai discursar no velório. Disse que os achados da Lava Jato nas águas profundas do governo são tema de quem quer criminalizar a política. Ensinou História, afirmando que tais ações acabam em ditadura (certamente lembrou de seus amigos do Foro de São Paulo prendendo opositores). Ameaçou com o "exército do Stédile" (MST) quem atacasse o governo nas ruas. E ao final, surtou: "O que nós estamos vendo é a criminalização da ascensão social de uma parte do povo brasileiro". Mas o que é isso, Lula?

Li sobre a campanha por Eleições Limpas. E pergunto à CNBB, que mantém união estável com o PT há 35 anos: por que não começou a limpeza dentro de casa, fazendo com que suas Análises de Conjuntura não propagassem as mentiras desse partido sobre a situação nacional? Li no hino da Campanha da Fraternidade: "Os grandes oprimem, exploram o povo". Marxismo de boteco, em pentagrama. E um velho comunista me escreve: por culpa da direita, a Venezuela era um país rico de povo pobre onde o chavismo veio redimir os pobres. Agora, a Venezuela é um país pobre, de povo pobre. Mas a culpa, insiste ele, continua sendo da direita. Vai entender!

Percival Puggina

A coisa mais importante do mundo


Tratar de que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas
Entrevista relâmpago com Pablo Neruda feita por Clarice Lispector (1969)

A miséria da política

Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e do seu partido?
Por que a presidente Dilma deu-se ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobras (espero que passageiramente) é o PT que, no afã de manter o poder, criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria?

Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?

Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular, serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas das quais nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.

Leia mais o artigo de Fernando Henrique Cardoso

Para onde vamos, Dilma: fundo do poço ou poço sem fundo?

Um clima de fim de feira varre o país de ponta a ponta apenas dois meses após a posse da presidente Dilma Rousseff para o seu segundo mandato. Feirantes e fregueses estão igualmente insatisfeitos e cabisbaixos, alternando sentimentos de revolta e desesperança.

Esta é a realidade. Não adianta desligar a televisão e deixar de ler jornais nem ficar blasfemando pelas redes sociais. Estamos todos no mesmo barco e temos que continuar remando para pagar nossas contas e botar comida na mesa.

Nunca antes na história da humanidade um governo se desmanchou tão rápido antes mesmo de ter começado. Para onde vamos, Dilma? Cada vez mais gente acha que já chegamos ao fundo do poço, mas tenho minhas dúvidas se este poço tem fundo.

"O que já está ruim sempre pode piorar", escrevi aqui mesmo no dia 5 de fevereiro, uma quinta-feira, às 10 horas da manhã, na abertura do texto "Governo Dilma-2 caminha para a autodestruição".

"Pelo ranger da carruagem desgovernada, a oposição nem precisa perder muito tempo com CPIs e pareceres para detonar o impeachment da presidente da República, que continua recolhida e calada em seus palácios, sem mostrar qualquer reação. O governo Dilma-2 está se acabando sozinho num inimaginável processo de autodestruição".

Pelas bobagens que tem falado nas suas raras aparições públicas, completamente sem noção do que se passa no país, melhor faria a presidente se continuasse em silêncio, já que não tem mais nada para dizer.

Três semanas somente se passaram e os fatos, infelizmente, confirmaram minhas piores previsões. Profetas de boteco ou sabichões acadêmicos, qualquer um poderia prever que a tendência era tudo só piorar ainda mais.

Basta ver algumas manchetes deste último dia de fevereiro para constatar o descalabro econômico em que nos metemos. Cada uma delas já seria preocupante, mas o conjunto da obra chega a ser assustador:

"Dilma sobe tributo em 150% e empresas preveem demissões".

"País elimina 82 mil empregos em janeiro, pior resultado desde 2009".

"Conta da Eletropaulo sobe 40% em março".

"Bloqueio de caminheiros deixa animais sem ração _ Na região sul, aves são sacrificadas em granjas, porcos ficam sem alimento e preço do leite deve subir".

"Indicadores do ano apontam todos para a recessão".

"Estudo da indústria calcula impacto de racionamento no PIB _ Queda de 10% no abastecimento de gás, energia e água levaria a perda de R$ 28,8 bi".

As imagens mostram estradas que continuam bloqueadas por caminheiros, depois de mais de uma semana de protestos, agentes da Força Nacional armados até os dentes avançando sobre os manifestantes, produtores despejando nas ruas toneladas de latões de leite que ficaram sem transporte. O que ainda falta?

Enquanto isso, parece que as principais lideranças políticas do país ainda não se deram conta da gravidade do momento que vivemos, com a ameaça de uma ruptura institucional.

De um lado, o ex-presidente Lula, convoca o "exército do Stédile" e é atacado pelo Clube Militar por "incitar o confronto"; de outro, os principais caciques tucanos, FHC à frente, fazem gracinhas e se divertem no Facebook. Estão todos brincando com fogo sentados sobre um barril de pólvora. É difícil saber o que é pior: o governo ou a oposição. Não temos para onde correr.

A esta altura, só os mais celerados oposicionistas defendem o impeachment de Dilma e pregam abertamente o golpe paraguaio, ainda defendido por alguns dos seus aliados na mídia, que teria um final imprevisível.

O governo Dilma-2 está cavando a sua própria cova desde que resolveu esnobar o PMDB, e não adianta Lula ficar pensando em 2018 porque, do jeito que vamos, o país não aguenta até 2018.

Nem Dilma, em seus piores pesadelos, poderia imaginar este cenário de terra arrasada _ ou não teria se candidatado à reeleição, da qual já deve estar profundamente arrependida.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

Cada vez mais difícil

newtonsilva

A liderança do atraso

Gente que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, em busca de saber tudo sobre absolutamente nada. Gente que não pensa coisa alguma, e por isso fala qualquer coisa

Desastres podem ter causas acidentais, furtuitas, fora do controle, imprevisíveis. Podem, enfim, acontecer com qualquer um. Fatalidades acontecem.

Desastres fabricados, entretanto, requerem esforço, persistência, quase planejamento. Não acontecem repentinamente. São simplesmente o resultado obvio, previsível e esperado de sequencia de ações. que, combinadas, produzem o efeito que, quando ruim o suficiente, recebe o apelido de desastre.

É injusto dizer que fabricar desastre não requer qualquer coisa de especial. Ao contrario. A tarefa de eficientemente conduzir o bovino ao lamaçal pressupõe grande dose de comprometimento pessoal em fazer o errado no pior momento possível. Bovino que se preza não quer adentrar o brejo. Vai reclamando, engasgando, resistindo, tossindo. Sempre e muito.

Liderar o fracasso requer qualidades especiais. Dificuldades de comunicação ajudam. Descontadas as contribuições ao folclore, tropeçar no idioma esconde o pensamento ou talvez denuncie sua falta. De uma maneira ou de outra, gera confusão.

Liderar atraso é quase ciência. Implica cultuar a ignorância. Promover o desacerto. Festejar a mediocridade. Resistir às evidencia. Mentir. Enganar. E, acima de tudo, pensar exclusivamente no curto prazo. Tudo com persistência. Tudo sem aprender nem esquecer coisa alguma. Sempre comemorando o triunfo de nulidades.

O atraso, afinal de contas, exige lideres descompromissados. Gente que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, em busca de saber tudo sobre absolutamente nada. Gente que não pensa coisa alguma, e por isso fala qualquer coisa.

E, na liderança do atraso, carece sempre dominar a arte de perder. Arte que talvez, para os verdadeiros lideres da mediocridade, não seja difícil de aprender. Requer pouca coisa. A arte de perder pede somente a aceitação de que o dia seguinte seja sempre pior que a véspera.

É assim que, hora após hora, dia após dia, o líder do atraso vai ajudando o tempo e a oportunidade a escorrer por entre os dedos. Com a prática, vem à perfeição. E com ela, se aprende a perder mais, mais rápido, mais coisas. Sem, em nenhum momento, notar ou pensar na perda acumulada que vai se somando. E que, um dia, forma as bases de um novo desastre.

WhatsApp e Brasil

O clima de suspeitas instaurado na sociedade brasileira chega até o aplicativo de mensagens. Grito de ‘impeachment’ volta a assombrar a política brasileira
Por causa das manifestações anunciadas para o dia 15 de março contra o Governo da presidenta Dilma Rousseff e contra os escândalos de corrupção da Petrobras, está se criando no Brasil um perigoso clima de suspeitas e caça às bruxas que afeta todos os partidos e instituições.

Um juiz do estado do Rio de Janeiro declarou, sob anonimato, que existe a suspeita, até em ambientes judiciais, de que, sob a decisão de paralisar por um tempo o WhatsApp em todo o Brasil (tomada por seu colega do Piauí, Luiz Moura) possa estar a mão negra do Governo, que pretendia calar a voz desse poderoso instrumento de comunicação cidadã na véspera do protesto. É difícil imaginar tal manobra, mas o caso é um exemplo emblemático da temperatura a que está chegando o mundo das intrigas e que ameaça obscurecer manifestações que já aconteceram em meio mundo: na já mítica Primavera Árabe, para lutar contra velhas e violentas ditaduras, e em outros lugares, como no movimento dos indignados de Madri, para exigir uma democracia mais madura e participativa – da qual nasceu Podemos, que colocou em crise os dois grandes partidos tradicionais (o socialista PSOE e o conservador PP) que estão governando, alternativamente, desde o final da ditadura militar franquista.

O que preocupa vários democratas, sejam do Governo ou da oposição, é que o Brasil ainda está pouco acostumado a que a cidadania tome as ruas para exigir mais democracia e melhor qualidade de vida, sem a tutela de partidos ou sindicatos. Só existiu o parêntese das manifestações de junho de 2013, que a violência acabou desbaratando.

Hoje, o temor é que qualquer tipo de reivindicação popular possa acabar tingida de gestos antidemocráticos e do ambiente das torcidas violentas às quais estamos tristemente acostumados por algumas equipes esportivas.
Leia mais o artigo de Juan Arias

domingo, 1 de março de 2015

'Petrolão vai abalar a consciência do Brasil por anos'


O que está ocorrendo é algo impressionante. Minou-se o campo moral da Petrobras, é uma profunda tristeza. Isso vai abalar a consciência do Brasil durante muito tempo. Como é possível que não se saiba, que saqueiem uma casa como a Petrobras e ninguém saiba nem diga nada. Não é possível. É uma falha moral e do poder presidencial.”

Quanto vai custar recuperar a credibilidade?
Estava acontecendo e estava camuflado, o que nos leva a pensar que sabemos pouco, que só nos deixam saber pedacinhos, partes. É por isso que a imprensa é extraordinária; o Estado mente de forma inconsequente, só deixa que saibamos o que lhe convém.
Nélida Piñon 

Esperando Janot

A estatal brasileira não está ameaçada pelos trustes internacionais nem pelo imperialismo ianque, seus algozes são gente nossa, partidos e prepostos brasileiros que “tascaram” (para usar a linguagem de João Pedro Stédile), um patrimônio nacional que conseguiu sobreviver e prosperar ao longo de 63 anos a despeito das drásticas mudanças de governo.
Esperando Godot é uma vivência pessimista sobre impasses, dolorosas expectativas, desesperança, filha dos horrores da 2ª Guerra Mundial e da pérfida Guerra Fria que a sucedeu.
Esperando Janot pode ser uma aposta no aperfeiçoamento das instituições democráticas. Sobretudo, na nossa capacidade de julgar e punir com isenção.
Alberto Dines

Levy põe PT e oposição no divã

 
Levy não tem compromisso com o projeto de poder de Lula. E, ao que tudo indica, não está disposto ao jogo do vale tudo
Com apenas uma frase - “essa brincadeira da desoneração custa R$ 25 bilhões por ano, não tem criado e nem sequer protegido empregos” –, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiu fazer o que a oposição nem tentou ousar. Lavrou, de forma inconteste, a incompetência de Dilma Rousseff, e enterrou todos os argumentos que ela e o PT insistem em usar para transferir a outros a responsabilidade dos estragos que fizeram.

Levy tem dito verdades. Algo raro, que não costuma ser tolerado pelo governo.

Mas, ao contrário de qualquer outro auxiliar, ele não toma pito por discordar da presidente. Nem mesmo quando a critica publicamente.

Dilma apenas finge que não é com ela e, devidamente instruída pela propaganda palaciana a manter as cores do discurso de campanha, repete a cantilena de que tudo que faz é em nome dos pobres, em favor do emprego e de “mais crescimento”.

Dane-se se a conta de luz vai ficar três vezes mais alta do que era antes da redução da tarifa que ela inventou em 2013. Se a inflação alcançou 1,33% em fevereiro, 7,36% em 12 meses, quase 1% acima do teto da meta, ou se o crescimento da população desocupada foi de 22,5% no mês passado. Que a indústria tem crescimento negativo e a economia estagnou.

Na fala de Dilma e do PT, todos os males são externos – culpa de FHC ou da mídia. Sem tergiversar, para Levy o problema vem de dentro mesmo. Cordial, chama de “derrapadas” ou de alternativas “grosseiras” o que foi feito no mandato anterior.

Vê-se no governo a bipolaridade cultivada pelo petismo. Diante dos percalços que cria para si, o PT ora se deprime, com o mea-culpa de alguns, ora se excita e chama todos para a batalha nas ruas, como fez o ex Lula ao convocar o “exército do Stédile”.

Ainda que doentia, a lógica bipolar tem funcionado para o PT. Talvez porque, acima de qualquer outra coisa, Lula sempre se beneficiou dela.

Agora não há consenso. Aguentar o neoliberal Levy e defender ajustes que privilegiam o equilíbrio das contas, cortam privilégios e benefícios, é preço alto demais para o petismo. Difícil de defender nas centrais sindicais, nas frentes de batalha. E em nome de quê? De Dilma?

O PT sabe que é preciso salvar o mandato depauperado da presidente. A pupila de Lula não pode atrapalhar a campanha de 2018.

O eldorado da pegadinha do Lula virou pó

O Brasil acreditou na propaganda do PT. Milhares de incautos caíram na pegadinha do ex-presidente Lula. Nove anos depois do anúncio de que Itaboraí seria a terra prometida, escolhida para sediar o Comperj, maior polo petroquímico do país, assistimos estarrecidos ao sonho virar pesadelo.


De polo petroquímico, o Comperj virou refinaria. O que inicialmente deveria terminar em 2013, agora só em 2017. Vieram as greves dos trabalhadores, primeiro sinal de que alguma coisa ia mal. Na sequência, o escândalo do petrolão e a queda do preço do barril de petróleo para menos da metade do que valia há dez anos, ameaçando seriamente inviabilizar o pré-sal e a própria Petrobras.

Não será surpresa se a nossa refinaria virar em breve um posto de gasolina.

Desde que foi feito o anúncio, em 2006, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o melhor vendedor de ilusões que a história recente já produziu, de que Itaboraí era a terra prometida, escolhida para sediar o empreendimento da Petrobras, a cidade nunca mais foi a mesma.

Até então, éramos um município de pouco mais de 180 mil habitantes, onde as pessoas se cumprimentavam pelo nome e dormiam de janelas abertas. Uma cidade dormitório, mais conhecida por suas laranjas, cerâmica e quebra- molas do que pelo fato de ter abrigado um dos portos mais importantes do Império, o Porto das Caixas. Sim, o IDH era baixo, mas as expectativas também.

A partir daquele dia, o Fusca virou Ferrari. A cidade acelerou de zero para 200 km. A população cresceu rapidamente, com a chegada de trabalhadores e suas famílias, pressionando por serviços públicos que já não eram lá um modelo de eficiência. Juntos, vieram a inflação e a especulação imobiliária que deixaram os aluguéis cobrados em Itaboraí em meados de 2012 comparáveis aos do Leblon, Zona Sul do Rio.

Os moradores mais antigos se assustaram com tamanha confusão e com tantas caras novas que chegaram à cidade; já os mais jovens se encheram de esperança. Era mesmo excitante viver numa cidade tão próspera que assistia à chegada de hotéis de grandes redes, centros comerciais, prédios de luxo e shopping centers, entre outras novidades.

Hoje, a realidade é outra. O cenário é de desolação: os trabalhadores que vieram atrás do Eldorado agora estão desempregados, e vagam sem rumo pelas ruas da cidade sem poder retornar para casa; os aluguéis reduzem e a violência grassa na mesma velocidade em que a economia despenca. Recentemente, uma grande rede hoteleira anunciou a suspensão da construção da segunda unidade no município. Há investidores que sequer vieram buscar as chaves dos imóveis que compraram.

Os cofres públicos sofrem o impacto. A arrecadação de ISS, que já foi de R$ 30 milhões/mês, está em R$ 18 milhões e deverá cair em breve para menos da metade. Como atender à demanda por serviços públicos de uma população que cresceu, segundo o IBGE, mais de 20% em tão pouco tempo? A matemática não fecha. O Brasil acreditou na propaganda do PT. Milhares de incautos caíram na pegadinha do ex-presidente Lula. Agora é preciso responder: quem arca com tamanho prejuízo?

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade

Apenas humor

O esforço do PT para liquidar o socialismo

Já houve um tempo em que se julgava que o PT fosse socialista, que seu programa realmente objetivasse a justiça social, a melhoria da qualidade de vida e a busca do oferecimento de oportunidades iguais aos jovens. Quando chegou ao Poder, porém, essa imagem socialista acabou se diluindo e o Partido dos Trabalhadores se transformou num representante dele próprio, na busca desenfreada de seus dirigentes pelo enriquecimento ilícito.

A justificativa para mergulhar na corrupção era de que o PT precisava de um forte esquema de sustentação financeira para conseguir continuar no Poder e acabar com a exploração dos trabalhadores brasileiros. Foi assim que surgiu a criminosa arrecadação de recursos públicos por via da corrupção, inicialmente comprovada pelo Mensalão, agora pelo Petrolão e mais tarde pelos esquemas a ser desbaratados nos Fundos de Pensão, na Eletrobrás e outras estatais, no BNDES e no chamado Sistema S, integrado por Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai); Serviço Social do Comércio (Sesc); Serviço Social da Indústria (Sesi); e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio (Senac), entre outras instituições.

O Sistema S faz a festa de petistas, como o sindicalista Jair Meneguelli, que recebe mais de R$ 60 mil mensais no Sesi, onde deu guarita e belo salário a uma das noras de Lula, Marlene Araújo Lula da Silva, e também a Márcia Regina Cunha, mulher do mensaleiro João Paulo Cunha, que ganha R$ 25 mensais. E tanto Márcia como Marlene não costumam comparecer aos supostos locais de trabalho: uma em São Bernardo; a outra, em Brasília.

Julgava-se que o PT faria uma revolução social no Brasil, impondo um modelo político humano e despojado, como os exercidos por Nelson Mandela na África do Sul e por Pepe Mujica no Uruguai. Mas foi apenas um sonho. Está mais do que demonstrado que não há socialismo no PT, cuja principal ideologia tem sido o alpinismo social, movido por uma corrupção desenfreada, do tipo ampla, geral e irrestrita, como se dizia na época da anistia.


Lula, Dirceu, Palocci, Meneguelli, Genoino, Delubio, Vaccari e praticamente todos os expoentes petistas hoje são novos ricos e se comportam como tal, com poucas exceções, como o deputado mineiro Nilmário Miranda e outros raros idealistas, que ainda não debandaram, procuram se manter íntegros e, por isso mesmo, não mais ocupam cargos de destaque no partido.

Muito falam que o socialismo morreu, mas é um engano. O socialismo evoluiu muito, passou a conviver com o capitalismo. Hoje, o socialismo democrático está cada vez mais vivo e mostra sua absoluta viabilidade como modelo político nos países nórdicos, que já conseguiram chegar a índices satisfatórios de justiça social, qualidade de vida e oportunidades de ascensão para as camadas menos privilegiadas. Esta é uma realidade que ninguém pode contestar.

No Brasil, o mínimo que se esperava do PT seria o básico – uma educação pública que possibilitasse a formação adequada às novas gerações, uma saúde pública que pudesse garantir o direito à vida e uma segurança pública que assegurasse o direito de ir e vir.

Na verdade, o desenvolvimento do país necessita apenas do fortalecimento deste tripé que representa as bases do socialismo moderno – educação, saúde e segurança. Apenas isso. O capitalismo não precisa ser abolido. Pelo contrário, é fundamental para o fortalecimento da economia no socialismo democrático.

Quando houver esta base sólida de educação, saúde e segurança, tudo se resolverá. Mas o PT não se interessa mais por isso. Não tem projeto político, nunca teve programa de governo e hoje abriga hoje apenas projetos pessoais e familiares.

Ao invés de lutar pela evolução da saúde pública, Lula prefere apoiar o empresário José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, que controla os planos de saúde no Brasil. Foi na mansão de Seripieri em Angra dos Reis que a família de novos ricos Lula da Silva passou os dois últimos réveillons, não é preciso dizer mais nada.

O PT desprezou o socialismo democrático, transformou-se num pastiche de si mesmo, um partido sem honra e sem destino. Está caminhando para ter o fim que merece. Mas o socialismo democrático não morrerá por causa dos erros do PT. Como dizem os árabes, “mactub” (assim está escrito).

Carlos Newton