sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Mais Médicos é versão dos 'feldshers' soviéticos


Na antiga União Soviética (URSS) existia uma figura no serviço público de saúde denominada “Feldsher”, ou Feldscher em alemão, cujo significado literal era “aparador do campo”. Os feldsher soviéticos eram profissionais da saúde, formados em “saúde básica”, que intermediavam o acesso do povo à medicina oficial, em especial nas áreas remotas, rurais e periferias soviéticas, sendo uma espécie de práticos de saúde, ou paramédicos como são chamados hoje em dia, e exerciam cuidados básicos em clínica, obstetrícia e cirurgia às populações dessas regiões.

Sua inspiração e nome derivavam dos feldscher alemães que surgiram no século XV como operadores de saúde (cirurgiões barbeiros) e com o tempo se espalharam ao longo do que foi o império prussiano e territórios eslavos, compondo a linha de frente também nas forças militares, sendo uma espécie de força militar médica nesses exércitos eslavos e saxões. Em vários países foram adotados como profissionais da linha de frente, atuando sempre nos cuidados básicos e em alguns casos chegando a se especializar em alguma prática específica, como optometria, dentista e otorrinolaringologia. Na Rússia começaram a se popularizar a partir do século XVIII.

Diferentemente dos médicos, os feldsher possuíam uma formação mais curta e limitada. A duração do curso era em 4 anos e envolvia basicamente treinamento em ciências básicas e treinamento simples em ciências médicas clínicas, em especial medicina interna, serviço de ambulância e emergência pré-hospitalar e sempre tinha um espaço para treinamento militar, em campo de treinamento do exército, pois os feldsher estavam na linha de frente da nação, nas fronteiras. Eram 8 anos de colégio mais 4 em treinamento prático, considerados, portanto de nível técnico. Era um treinamento um pouco melhor que a de enfermeira, cujo foco era mais os cuidados básicos de saúde e técnicas/procedimentos de enfermagem.

Os médicos soviéticos, ao contrário, levavam pelo menos 10 anos de colégio mais 7 anos de faculdade com carga horária total pelo menos duas vezes maior (estudavam todos os sábados). Apesar do tamanho valor de formação, seus salários eram ridículos, pois o regime socialista os considerava “servos do povo”.

O sistema cubano de ensino médico reproduziu, a partir do encampamento da Revolução Cubana pela URSS em 1961, esse sistema de formação em saúde. Os médicos cubanos, de verdade, ficam lá em Cuba, em sua maioria. O que Cuba “fabrica” aos milhares, todos os anos, com projetos como a ELAM e demais faculdades, em cursos de 4 anos, não são nada além da versão cubana dos “feldsher” soviéticos. São paramédicos treinados para atuar em linha de guerra, campos remotos e áreas desprovidas em geral.

A diferença é que Cuba “chama” esses feldsher de “médicos”, inflando artificialmente a sua população de médicos. Com essa jogada, Cuba possui um dos maiores índices de médicos por habitante do planeta. E isso permitiu outra coisa ao regime cubano: Usar esses feldsher como agentes de propaganda de sua revolução e seus interesses não apenas dentro, mas fora de seu território.

Ao longo de décadas o regime cubano vem fazendo uso do empréstimo de mão-de-obra técnica, paramédica, porém “vendida” como médica, para centenas de países a um custo bilionário que fica todo com o regime cubano. Literalmente, como na URSS, os feldsher são “servos do povo” (no caso, leia-se “povo” como Partido Comunista de Cuba).

Recentemente a presidente Dilma lançou um demagógico e absurdo projeto de “resgate da saúde” do povo brasileiro às custas apenas da presença de “médicos” em locais desprovidos do mesmo, aliás, por culpa do próprio governo.

Ao invés de pegar os médicos nacionais, recém-formados ou interessados, e criar uma carreira pública no SUS e solidificar a presença do médico nesses povoados, ela resolveu importar feldsher cubanos a um preço caríssimo, travestidos de médicos, ao que seu marketing chamou de “Mais Médicos”. Diante da recusa inicial, simulou-se uma seleção de nacionais, dificultada ao extremo pelo governo, para depois chamar os feldsher.

O objetivo aqui é claro: O alinhamento ideológico entre os regimes, o uso de “servos do povo” para fazer propaganda do governo, encher o bolso dos amigos cubanos de dinheiro e evitar a criação de uma carreira pública que poderia ser crítica e demandadora de recursos. Como não podiam se assumir como fedlsher, jogaram um jaleco, os chamaram de médicos e os colocaram para atuar como médicos de verdade.

Por isso as cubanadas não param de crescer. Por isso os erros bizarros, os pânicos diante de pacientes sintomáticos. Os cubanos não são médicos, são feldsher – agentes políticos com treinamento prático em saúde – que vieram ao Brasil cumprir uma agenda política e, segundo alguns, eventualmente até mesmo militar.

São paramédicos. Isso explica as “cubanadas”. Se houvesse decência no Ministério da Saúde, ele retiraria o termo “médico” desse programa, e seria mais honesto. Mas honesto não ganha eleição nesse país.”

Mais de 2 mil anos de atualidade


Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!

Marcus Tullius Cicero (Catalinárias, 63 a.C.)

Falta transparência sobre desmatamento


Especialistas ouvidos pela BBC Brasil avaliaram como positiva a queda da taxa de desmatamento na Amazônia, mas acusaram o governo de agir com pouca transparência na divulgação dos dados oficiais.
Na quarta-feira, o governo anunciou uma redução de 18% nas taxas de desmatamento na chamada Amazônia Legal entre agosto de 2013 e julho deste ano.A Amazônia Legal é uma área que engloba nove Estados brasileiros pertencentes à Bacia amazônica.

O anúncio coube à ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira, que comemorou o fato de o índice ser o segundo menor desde 1988, quando começou a ser realizado o levantamento com dados do sistema Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal).

Na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC Brasil, embora positivos, os dados não devem ser amplamente comemorados.

"É uma boa notícia, especialmente diante dos dados de 2013", disse Paulo Adário, estrategista sênior de florestas do Greenpeace, em referência ao índice do Prodes divulgado no ano passado, quando houve um aumento de 29% em relação a 2012.

"Mas não comemoramos desmatamento. É preciso ter em mente que foram desmatados 4.848 km² (mais de três vezes o tamanho da cidade de São Paulo), são milhões de árvores".

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, no mesmo período de 2013, foram desmatados 5.981 km² da Amazônia Legal – daí a queda de 18%.

Para Beto Veríssimo, pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que também monitora o desmatamento, "a estimativa do Prodes é relativamente positiva, mas é bom lembrar que a taxa deste ano é do que a de 2012, quando foram desmatados cerca de 4,5 mil km² da floresta."

Mas a principal crítica, segundo os especialistas, é a "pouca transparência" na divulgação mais recente dos dados gerais sobre desmatamento.

Isso porque, em junho deste ano, o governo decidiu parar de divulgar mensalmente os índices monitorados por outro sistema do Inpe, o Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real).

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Para que servem as leis


'Noblesse oblige'


À honestidade dos explorados corresponde muito de perto a consideração dos seus patrões
A nobreza obriga. Ela demanda do nobre, do dono, do empresário e, acima de tudo, dos “políticos” — dos que ocupam cargos públicos temporários e abarrotados de poder —, uma boa porção de deveres. De dívidas e de responsabilidades para com os subordinados, com os governados e com a sociedade como um todo. O capitão é o último a abandonar o navio; os ratos são os primeiros.

Em algumas sociedades tribais, os curadores desleixados e egoístas são punidos com a morte. O caso mais contundente de noblesse oblige encontra-se entre os shiluk do antigo Sudão, estudado magistralmente pelo antropólogo inglês Evans-Pritchard. Lá, o rei não podia realizar atos impuros e corruptos. Se o fizesse, todo o reino sofria e ele — como encarnação de Nyikang, o espírito onipresente legitimador e símbolo da própria sociedade e das suas normas morais — seria assassinado. Tal como na Grécia e na Roma antigas, rex est mixta persona cum sacerdote (o rei é uma figura que reúne nobreza e sacerdócio). A despeito de todas as utopias revolucionárias, as nobrezas têm um lado sacerdotal de origem e, se esse lado é esquecido ou abusado, com ele se vão a ética e a honra devida ao seu caráter. Mas o Brasil de hoje passa ao largo de tudo isso. De fato, nestes tempos de mistificação geral e oficial, a palavra de ordem é justamente esquecer essa chatice obviamente reacionária do "noblesse oblige".

Essa ética da obrigação (ou da generosidade) incomoda porque revela o poder visto do ângulo do reprimido dos subordinados, bem como a sua dimensão interdependente. Ela lembra que os empregados daqueles que por nascimento, eleição, talento ou sucesso, tornaram-se poderosos, ricos e famosos devem contar com um mínimo de proteção moral. Podem não ter cofres, capacidade para decretar, interesses, compromissos pessoais e partidários, mas, se deixarem de obedecer, de confiar ou de respeitar seus patrões — se suprimirem a relação com eles —, o sistema (o todo) vai abaixo, como estamos vendo no aumento da chamada violência neste nosso Brasil sem nenhuma "noblesse oblige".

O nobre, como o senhor, pode ter a espada, o chicote o mercado e até mesmo os juízes e a lei, mas o subordinado tem aquilo que alguns antropólogos antigos — que escreveram quando os animais ainda não discursavam — chamavam de “poder dos fracos”. O poder de abençoar (ou amaldiçoar) e de serem honestos e amorosos com os nossos filhinhos e os nossos bens. A rebelião nasce da maldição e da vingança.


Pois, para esses traidores da democracia e ladrões da riqueza coletiva, a nobreza desobriga! Daí o surto de desânimo, de desconfiança e de apatia dos que silenciam por não terem poder ou dinheiro, mas demandam e têm o direito à honestidade, ao pedido de desculpa e ao reconhecimento dos erros dos poderosos. Ninguém pode ou deve esconder-se por detrás da Bandeira do Brasil. Tentar usar desse expediente é mais do que desfaçatez: é covardia e traição para com o todo que nos une.

Balada do inquilino


 Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.

Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.

Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.

Um dia nos livraremos do aluguel.


Miguel Sanches Neto, "Venho de um país obscuro"

Que é isso, companheiro?


O que é isso? Em que país vivemos? Os bandidos perderam a noção das coisas! Como podem se apropriar desse montante?

Que Lula fale sobre a Petrobras

Os brasileiros ainda seguem dando um voto de credibilidade ao carismático ex-presidente que transformou esse país dando voz a milhões de pobres
 É impossível separar o ex-presidente Lula do caso que sacode a Petrobras e das sequelas que os escândalos estão causando. Como um editorial desse jornal escreveu, Lula havia identificado a Petrobras com o Brasil, com seu futuro de prosperidade, com o orgulho da petrolífera, então invejada pelo resto do mundo.

Estão aí as imagens de Lula com as mãos manchadas de óleo, vestido com o uniforme da Petrobras, lançando uma imagem de ilusão ao país.

Hoje, tanto Lula como a presidenta Dilma Rousseff estão na boca de todos como os principais responsáveis do bem e do mal da Petrobras. Um magistrado do Supremo chegou a dizer que, comparado com esse novo escândalo, o do mensalão poderia ser objeto de um simples caso das “pequenas causas”.

Dilma já falou. Assegurou que seu governo não colocará obstáculos às investigações judiciais, algo óbvio, porque fazê-lo seria um crime.

Ela assegurou que “não deixará pedra sobre pedra” na busca dos supostos corruptos que atuavam como uma máfia dentro da maior empresa do país, e que se hoje esses “desvios de conduta” são conhecidos, e é melhor chamá-los de crimes contra o patrimônio nacional, é porque nunca a Polícia Federal foi tão atuante na busca pelos culpados.

O problema, entretanto, é que os brasileiros desejariam saber da Presidenta recém eleita nas urnas se ela sabia ou não, quanto sabia e desde quando, do que se tramava em uma empresa da qual ela esteve sempre tão próxima e responsável por conta dos cargos nela exercidos.

Após as últimas denúncias da imprensa de que ela e Lula haviam sido avisados, anos atrás, de que havia algo de podre na Petrobras, que estava sendo saqueada por diretores e gerentes nomeados por ela e Lula, é urgente, que tanto a Presidenta como o ex-presidente, falem com sinceridade à nação, se for necessário para reconhecer culpas e apresentar uma proposta de ajuste.


E sobretudo Lula deveria falar, ele que foi o grande impulsor da petrolífera apresentando-a ao mundo como exemplo de empresa nacional bem sucedida e que deu a Dilma grandes responsabilidades sobre ela.

Redução de variedades de flores mata abelhas

 
Análise de espécimes mostra que declínio tem relação com expansão da agricultura
O quebra-cabeça que é o declínio geral das abelhas fica ainda mais complicado. A abelha europeia (Apis mellifera) e o resto dos insetos antófilos (que amam as flores) já tinham que lutar contra o vírus das asas deformadas, o fungo Nosema ceranae, o parasita Varroa destructor, sofisticados inseticidas neonicotinóides ou o próprio aquecimento global. Agora, um estudo acrescenta mais um inimigo: a redução da diversidade de plantas e árvores florais provocada pela agricultura moderna.

A Holanda é uma das regiões do mundo onde a agricultura mais avançou. Mais de 80% do território que era natural no início do século passado hoje é terra cultivada. Por isso, é um grande cenário real para estudar o impacto que a agricultura moderna está tendo sobre as abelhas. Aliados tradicionais dos agricultores, esses polinizadores estão desaparecendo em um ritmo alarmante, que alarmou os agricultores e os cientistas.

Um grupo de biólogos holandeses descobriu que há uma conexão entre a diminuição da diversidade floral e o declínio das abelhas. O trabalho deles se concentra nas espécies silvestres, mas suas conclusões podem ajudar a desvendar o colapso sofrido por muitas colmeias de abelhas melíferas.

“Os efeitos negativos do varroa, das doenças ou da quantidade de pesticidas pode ser reforçada por uma limitação da disponibilidade de comida”, diz o ecologista da Universidade de Wageningen e coautor do estudo, Jeroen Scheper. “Com as condições pioradas por um cenário de recursos escassos, as abelhas podem ser mais vulneráveis a estas ameaças. E o mecanismo pode funcionar em sentido inverso: os efeitos não-letais dos pesticidas podem afetar negativamente a eficiência forrageira das abelhas operárias, o que poderia ter um impacto maior quando a disponibilidade de recursos florais é baixa“, acrescenta.

As espécies de abelhas silvestres que se alimentam de rosáceas se multiplicaram Scheper e seus colegas coletaram exemplares entre várias coleções de museus e taxidermistas de mais de 50 espécies de polinizadores silvestres. Eles queriam saber de quais flores elas se alimentavam antes que, a partir dos anos cinquenta do século passado, a agricultura se espalhasse por quase todo o território holandês. Mas estavam procurando mais o pólen que o néctar.

“O pólen é um recurso alimentício crítico para as larvas das abelhas, mas elas não se desenvolvem com o pólen de todas as espécies de plantas. Algumas espécies de abelhas só crescem com o pólen de um único gênero ou família, enquanto outras espécies coletam de uma grande variedade vegetal. Mesmo neste caso, no entanto, as abelhas têm preferências por determinados táxons e se desenvolvem menos com as variedades que atraem menos”, explica Scheper. “Pelo contrário, as abelhas são menos exigentes com o néctar, ou seja, as espécies que coletam o pólen de uma única variedade de planta também recolhem néctar de muitas outras variedades vegetais”, acrescenta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Na falta de emprego


Inútil


O Brasil inteiro assiste o intenso momento dos tantos in. E o que impressiona é a inoperância diante do fenômeno, como se fosse tudo normal, intrínseco ao nosso tempo.

A indiferença para com o próximo é descortinada nas calçadas das grandes cidades o tempo inteiro, sem que cause a mais pálida inquietação.

Uma crescente onda de intolerância foi tomando conta das redes sociais, insidiosa e ferina, maculando amizades outrora íntimas. Tornando o trato indecente.

Outro infortúnio comum ao cidadão é a incompetência das instituições em se mostrar inconciliáveis com a corrupção. Incrível: honestidade se tornou atributo incomum.

Incalculáveis desvios de conduta são vistos com ­indolência pelas autoridades constituídas e, pior, com incógnitos interesses ao sabor de desejos indefensáveis. Algo inacreditável.

Basta um pouco de dinheiro ou poder para alguém se tornar intocável. Enquanto isso, no inaceitável subsolo social, a menor indisciplina incha nossas indignas prisões.

Dos protestos explícitos aos recados indiretos, nada parece incitar reações. A incongruência está incrustrada na sociedade. Pouco pode o indivíduo diante do insolúvel.

Sob a influência das intrigas, das inverdades ou das invenções, até intelectuais são manipulados. Que dirá os incultos… Faltam intérpretes confiáveis para indicar as (in)verdades.

Mas, o que esse insipiente cronista estaria insinuando? Quais interesses estariam interferindo na insólita prosa? Mera inquietação, ou intrigante conluio?

Quem quiser, que investigue minha obra, inquira-me nas ruas, invente motivos para este involuntário desabafo. Pouco adianta inverterem a responsabilidade.

Ao fim e ao cabo, pareço mero intrometido. Inoportuno incendiário que não vê inquestionáveis avanços nos últimos 20, 30 anos. Estarmos todos atrás de grades, por exemplo, é detalhe inócuo.


Certos mesmo estavam os rapazes do Ultraje a Rigor quando, intensamente, repetiam: “inútil, a gente somos inútil!”.

Os pobres pagarão

Ilustração do fotógrafo português Miguel Castello

“A prosperidade de poucos amaldiçoa todos os outros”
Eduardo Galeano

O Brasil está doente. Nunca tão poucos conseguiram fazer uma lambança gigante que afeta milhões - tanto os que acreditaram piamente nas mentiras, como os que sempre suspeitaram que havia truta no governo. O país é hoje um navio de vento em popa para o redemoinho político, fenômeno não climático, mas de alta destruição. No torvelinho, todos os poderes serão envolvidos, instituições, governos, entidades.

A dimensão do que se prevê nem pode ser dimensionada. Os estragos, no entanto, desde já são visíveis em cada cidadão crente ou descrente no governo de hoje que prometeu mudar.

São os doentes do corpo, da alma e do bolso que perambulam por todo canto. Estamos enfastiados da corrupção, do descaso dos políticos, das armações de companheiros, das obras que seriam para o progresso mas só fizxeram progredir as contas bancários de políticos, agentes governamentais e empreiteiros.

Na alma, se carrega a revolta, que nem adianta procurar uma UPA para sanar o mal. O sistema de saúde tá no fundo do poço e é uma outra caixa preta, voraz em mais provocar a doença do que curar.


Tudo o bolso limpo terá que pagar. Do bolso principalmente do pobre, tão defendido por esses canastrões, sairá o rico dinheiro para saldar a conta que nunca fizeram e custa-lhe os olhos da cara, a saúde, a vida. 

Paisagens Brasileiras

José Pancetti, Ponta da Areia (Niterói) 

No curto prazo, nada pode ser feito pela seca


Para o mineiro Léo Heller, futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico, crise hídrica não tem solução imediata a não ser chuva e redução do consumo. 
 A crise hídrica no sudeste não tem solução a curto prazo a não ser chuva e redução do consumo, afirma Léo Heller, futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico. A partir de 1º de dezembro, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vai substituir a portuguesa Catarina de Albuquerque na ONU. O mandato dura três anos e pode ser renovado pelo mesmo período.

"Já estão adotando todas as medidas necessárias e usando o volume morto do reservatório. No curto prazo, é muito difícil pensar em outras soluções", afirmou Heller, em entrevista à DW Brasil.
Caso não chova nos próximos meses, alerta o engenheiro, a situação pode ficar "dramática".

Ele considera que o volume de água desperdiçada ao longo do sistema de abastecimento brasileiro "não é admissível". "Ao invés de buscar novos mananciais, é mais ético trabalhar na redução dessas perdas."

Heller é cauteloso ao falar do tratamento do esgoto para transformação em água de reúso. Recentemente, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou a construção de uma estação que irá empregar a técnica, com o objetivo de aumentar a oferta de água.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A grande pergunta


Faltam pontes para governo do PT mudar métodos


Em outubro, os discursos dos candidatos não estiveram à altura do que o povo gritou em junho de 2013. Os eleitores não encontraram nas urnas os desejos de mudanças que pediram nas ruas. É como se houvesse um divórcio entre a vontade dos pés caminhando e as pontas dos dedos votando. A campanha, especialmente no segundo turno, foi sobre o passado de cada candidato, não sobre o futuro que eles ofereciam ao país. Os discursos e as publicidades eram de louvação aos próprios candidatos ou de críticas e difamações sobre os opositores.

Uma das ilusões da democracia é que o povo escolhe seus dirigentes. Na verdade, o povo vota entre candidatos apresentados por seus partidos. Não é difícil perceber que, por isso, muitos escolheram Dilma com medo de Aécio, e muitos votaram em Aécio porque não queriam a continuidade de Dilma. A opção estava em continuar com os mesmos dirigentes ou quebrar os vícios dos últimos dez anos mudando os quadros no poder. E isso faria diferença, mesmo sem significar mudança estrutural, porque uma das qualidades da democracia é o constante recomeço do casamento entre os novos eleitos com os eleitores, a cada quatro anos.

Depois de anos de corrupção, esgotamento das ginásticas econômicas e desmoralização da contabilidade criativa, insuficiência das medidas sociais, caos e descrédito na prática política e da volta da inflação, o novo governo Dilma começa velho, como um casamento em crise. Junte-se a isso a necessidade de enfrentar a herança maldita – que seu governo criou e sua campanha escondeu –, tomando medidas que até dias antes acusava os opositores de planejar contra os interesses do povo e do país, e o resultado é um governo que se inicia sob desconfiança. Desta vez, a democracia não conseguiu fazer a tradicional lua de mel posterior às eleições para troca de governo.

Esta é a realidade com a qual o Brasil vai ter de conviver pelos próximos quatro anos, porque pior do que um governo sob desconfiança seria o rompimento com um governo constitucionalmente estabelecido. Por isso, é necessário o diálogo que a eleita propôs, mas para o qual a presidente ainda não fez qualquer gesto.

Os desgastes do processo eleitoral – irresponsavelmente manobrado por marqueteiros desejosos dos votos no dia da eleição, independentemente das consequências para o futuro do país – exigem pontes, que não foram usadas no primeiro mandato e foram destruídas no período eleitoral.

O Congresso Nacional, dividido em dezenas de minúsculos clubes eleitorais, viciados em acordos barganhados, objetivando o poder pelo poder, comprando ou vendendo apoio para o imediato, sem compromissos para mudar o futuro, não construiu pontes com as ruas. E o novo governo começa cansado, sem pontes nem terreno onde construí-las, passando a ideia de não querer mudar seus propósitos nem sua prática, e falando em diálogo como uma promessa atrasada de campanha.

Cinismo e reação tardia


A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff
 No seu primeiro pronunciamento desde a prisão de dirigentes de empreiteiras no escândalo da Petrobrás, a presidente Dilma Rousseff exaltou o mérito do governo de estar investigando a corrupção “pela primeira vez na História do Brasil.” Fantástico!

Em primeiro lugar, amigo leitor, o governo não está apurando nada. Ao contrário. Está sendo investigado. O juiz federal Sergio Moro não é um contínuo do Palácio do Planalto. É representante de outro poder da República.

A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff. O pronunciamento da presidente da República só pode ter duas explicações: cinismo ou preocupante desligamento da realidade.

A Operação Lava-Jato vai compondo um quadro de corrupção que arranhou gravemente a história, a saúde financeira, a marca e o futuro de um ícone do Brasil: a Petrobrás.  A atual presidente da República não é uma espectadora passiva da tragédia. O escândalo permeou os mandatos de Lula e estourou com força no atual governo. Dilma foi ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás no governo Lula. A presidente da República, conhecida por seu perfil centralizador e autoritário, não pode fazer de conta de que está em outro planeta. Ela está, queira ou não, no olho do furacão.

Chegou a hora verdade para governantes e políticos. A sociedade está cansada da empulhação. Os culpados pela esbórnia com dinheiro público, independentemente da posição que ocupem na cadeia corruptora, devem ser exemplarmente punidos. E isso não significa, nem de longe, ruptura do processo democrático, golpismo ou incitamento à radicalização.

Primado do roubo


É doloroso ver que a luta contra a fome é
prejudicada pelo primado do lucro
Papa Francisco

Paúra no 'clube' dos políticos


Em pane, os políticos desse nefasto clube, acostumados a criar as regras, espreitam da várzea. Fazem de conta que não são os donos da primeira divisão. Dilma, inclusive.

Ainda que pelo avesso, Dilma Rousseff acertou uma. Depois da prisão de alguns dos donos do dinheiro – grandes empreiteiros que pagaram propinas a operadores da Petrobras –, o Brasil definitivamente não será o mesmo.

Embora não façam cessar a corrupção, as grades têm o poder de inibi-la e de ampliar a delação. Mais ainda depois da síndrome da bailarina, referência a Kátia Rabello, do Banco Rural, que, assim como os demais empresários condenados no mensalão, continua na cadeia enquanto os políticos, exceto o delator, cumprem suas penas no aconchego do lar.

Rompida a crença do silêncio como garantia de proteção, corruptos e corruptores perderam o constrangimento de dedurar. Falam, entregam provas, devolvem dinheiro roubado. Algo - é verdade, Dilma - nunca antes visto neste país.

A delação atemoriza, apavora. A paúra é geral.

Quanto mais a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça Federal do Paraná desvendam segredos do “clube” dos empreiteiros, mais o “clube” dos políticos arrepia. Afinal, um clube não existe sem o outro. E vice-versa.

Fala-se de 60 ou 70 políticos do PT, PMDB e PP. Nominalmente, já se aponta para o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto (SP).  Mas ninguém arrisca um palpite de até onde isso vai.

Teme-se, em especial, pelos VIPs. Assim como nem todos os empreiteiros participariam da elite do “clube”, entre os políticos não é diferente. Há poder de mando, hierarquia. Maiores e menores beneficiários de cada centavo desviado. Seja para o projeto político, seja para o próprio bolso.

Maná para a máfia


Num país em que, em plena seca, chove bilhões dos cofres públicos como maná em propinas e pagamentos ao comissariado, estamos caindo na rotina de aceitar a corrupção como regra, não como exceção, por mero enfado.

Com todos os esforços policiais e jurídicos das instituições, ainda há muito blábláblá com que se tenta blindar os poderosos envolvidos. Há batalhões de aliados, a bom preço, dispostos a por a mão no fogo e a cabeça a prêmio para defender os bandidos do alto escalão.

Farsas não faltam. A penalização dos condenados políticos com uma peninha vergonhosa, que mostra bem a cara brasileira de se defender os poderosos a qualquer custo. Os mensaleiros conseguiram abater das penas “tempo de trabalho e tempo de estudo” na cadeia, o que não acontece com os meros mortais com penas ainda menores, e agora até estão viajando pelo país como qualquer cidadão de ficha zerada.

Se a famosa soprano Montserrat Caballé, de 81 anos, foi condenada a pagar de 508 mil euros, quase R$ 1,5 milhão, por sonegação em imposto de 2010, e o ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, foi detido para depor e deve ser condenado por corrupção, há uma grande festa na bandidagem brasileira. As figuras de proa, com grande blindagem, pairam como ninfas no lago da impunidade.

Ninguém consegue que Luís Inácio Lula da Silva, como qualquer cidadão, seja encontrado e intimado para depor sobre o caso do Mensalão, como também João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, não vai para o xadrez mesmo denunciado criminalmente pelo Ministério Público por um rombo de R$ 100 milhões na Bancoop, sem contar que está envolvido até o pescoço por falcatruas também no Petrolão, área hidrelétrica e fundos de pensão. 


Se no passado, os bandidos nos filmes de Hollywood sempre se refugiavam no Brasil, agora nem precisam vir mais, porque os nativos já dão conta do recado e tomam todos os postos da elite. Vivem como nababos, festejados mesmo nos jornalões, protagonizando festas e viagens hollywoodianas sem precisar temer a Justiça, cega, surda e muda, quando não conivente. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Vem chegando a onda


Formiga de ouro


O escracho com que são tratadas as obras públicas chegou ao cúmulo de até formiga servir de motivo para a extorsão nos cofres públicos, no caso da Petrobras. A descoberta de formigas ameaçadas de extinção da espécie Atta robusta, mais conhecida como saúva-preta, em área de uma obra da Petrobras, rendeu R$ 64,3 milhões em “dificuldades geradas por motivos de ordem ambiental” para a Mendes Júnior Engenharia, investigada no Lava-Jato. A empresa cobrou os ressarcimentos depois que o contrato já estava encerrado, por meio de transação extrajudicial sem que fosse preciso apresentar provas.
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Um projeto de extorsão contra a patuleia


A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios.

Dois diretores de empreiteiras disseram à Justiça que foram extorquidos pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e seu operador financeiro, Alberto Youssef. Se não pagassem, teriam seus contratos prejudicados ou até mesmo cancelados.

A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios. Para que a pizza fosse ao forno, faltaria só o orégano.

A primeira denúncia da extorsão veio de Sérgio Mendes, vice-presidente e herdeiro da tradicional Mendes Junior, fundada em 1953 por seu avô. Ele contou que em 2011, a mando de Paulinho, pagou R$ 8 milhões a Youssef. Se não fizesse isso, estariam fechadas as portas e os guichês da Petrobras.

A Mendes Junior opera com o governo brasileiro há três gerações e com a Petrobras há pelo menos duas. Teve negócios bilionários (em dólares) com a cleptocracia de Saddam Hussein no Iraque. Admita-se que jamais molhou mãos alheias. Tendo sido obrigada, em 2011, não denunciou o malfeito. Seria tudo coisa do Paulinho e do Youssef.

A segunda denúncia de extorsão veio do diretor de Óleo e Gás da Galvão Engenharia, doutor Erton Medeiros. Seu advogado, José Luis de Oliveira Lima, explicou por que a Galvão ficou calada: “Se ele denunciasse o que estava acontecendo, era ameaçado de perder os contratos. Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef estão longe de serem Madres Teresas de Calcutá”.

Bingo! Paulinho e Youssef são delinquentes, mas colaboram com a Viúva. Madres Teresas seriam a Galvão Engenharia e suas colegas. Segundo o doutor Erton, na origem de tudo estaria o deputado José Janene (morto um ano antes), e o dinheiro do achaque iria para o Partido Progressista. Bingo de novo, e surge mais uma Madre Teresa: o PT.

Durante a última campanha eleitoral, a Galvão Engenharia deu R$ 1,4 milhão ao Diretório Nacional do PT, partido da doutora Dilma. Portanto, a empresa foi achacada por dois delinquentes, não se queixou, e fez uma bela doação ao partido que, governando o país, nomeou Paulinho para uma diretoria da Petrobras. Entre 2006 e 2012, as grandes petroempreiteiras torraram R$ 856 milhões em doações para campanhas eleitorais. O PT ficou com R$ 266 milhões.

Nessa batida, a coisa fica assim: os dois delinquentes que estão colaborando com a Viúva achacavam empresas, e uma delas entrou na dança levada por um deputado que morreu, em benefício de um partido subsidiário. Tudo o mais seria golpismo, terceiro turno, e coisa de uma elite contrariada. Já a elite lubrificada, à qual ascendeu o comissariado petista, vai bem, obrigado.

Todos são vítimas no Brasil


Políticos, estatais, empreiteiras... – se existe uma vítima clara do petrolão, é você, contribuinte
 O petrolão daria um filme de suspense e ação. Só que não. Em qualquer roteiro blockbuster que se preze, há vilões e vítimas das vilanias. No Brasil, só há vítimas. Políticos, estatais, executivos, empreiteiras, diretores, governadores, prefeitos, presidente. São todos vítimas de um “esquema”. Afirmam só fazer “o que todo mundo sempre fez”, porque, caso contrário, o país poderia parar. Irrigam com propinas bilionárias o vale-tudo do Congresso e as obras públicas. É a cultura brasileira, estúpido.

Vamos comprar essa desculpa, sem pedir uma comissão por fora? Lula, na Presidência, banalizava o mensalão. Como você e Zé Dirceu bem sabem, o mensalão nunca existiu. A compra de votos nada mais era que a prática herdada de governos anteriores, para fazer funcionar a engrenagem política entre “os 300 picaretas (sic) do Congresso”, citação do ex-Lula, metamorfose ambulante. E estamos conversados. Punhos cerrados para cima, hasta la victoria siempre. Porque a História tem a péssima mania de ser reescrita por quem está no poder.

Nesse poço sem fundo da Petrobras, revelado pela Operação Lava Jato e pelo juiz Sergio Moro, as novas vítimas são as empreiteiras e seus executivos de capuz. Não se faz obra pública no Brasil sem “composição ilícita com um político”, diz o advogado Mario Oliveira Filho, que defende o lobista Fernando Soares, mais conhecido como Fernando Baiano, o boa-praça apontado como “operador” do PMDB. Sem propina, afirma Oliveira, não se coloca nem paralelepípedo na rua.

Deve ser verdade. Mas o esquemão não exime os executivos das empreiteiras, não os transforma em meras vítimas da ganância de políticos. O esquemão também não transforma partidos, gerentes ou presidentes de estatais em meros atores de extorsão ou marionetes das empreiteiras. São todos vilões e cúmplices de um clube VIP, que envolve doleiros, operadores, lobistas, executivos, políticos.

Mais de 4 mil pessoas, relacionadas com 4.300 empresas ligadas à rede de produção da Petrobras, são acusadas de movimentar, de maneira suspeita, R$ 23,7 bilhões, entre 2011 e 2014. A denúncia é do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). É um escândalo vasto, pesado, impossível de acompanhar. O cidadão comum fica assustado com o desfile diário de nomes desconhecidos e valores estratosféricos. O fator surpresa foi a delação premiada. Ninguém quer ir sozinho para a cadeia. A esperança é que as denúncias cheguem logo ao Congresso, como presente de Natal.

Se existe uma vítima clara, é você, contribuinte. Você, que não sabia de nada e não seria chamado para figurante nesse filme de vilões que posam de vítimas. Você está em boa companhia. Também não sabiam de nada a presidente Dilma Rousseff e sua indicada para o mais alto posto da Petrobras, Graça Foster. Dilma e Graça também são vítimas da má-fé dos diretores e políticos. Embora se orgulhem de seus dotes em gestão, Dilma e Graça não poderiam desconfiar de nada, mesmo após saber que a refinaria em Pernambuco multiplicara seus custos de R$ 4 bilhões para R$ 18 bilhões.

Apenas a indignação acabará com a corrupção


O que amedronta os políticos corruptos é a ira dos sem poder
Não serão os Governos, a polícia, os juízes, nem sequer a detenção de alguns corruptos importantes, que acabará com a impunidade que contagiou com um abraço mafioso partidos e empresas brasileiras.

Contra a raiz da corrupção e contra a impunidade dos criminosos existe uma só arma: a rejeição das mesmas por parte da sociedade, dos sem poder.

A presidenta Dilma Rousseff afirmou na Austrália, durante a reunião do G20, que o escândalo da Petrobras “mudará a história do Brasil para sempre”, porque representa o fim da impunidade. Não. Isso só acontecerá se o Brasil, a parte limpa da sociedade, puder mudar a Petrobras para devolver à empresa a honra da qual foi despojada por políticos e empresários corruptos.

Nada, nem ninguém, será capaz de acabar com a impunidade da corrupção sem que haja um despertar da sociedade no sentido de descobrir que pode ser mais letal do que o vírus do ebola, porque, além de atentar contra a vida, esses crimes sujam a dignidade da nação.

A aceitação manifestada e subliminar da corrupção e da impunidade por parte da sociedade é o que deixa as mãos dos políticos livres para assaltar os cofres públicos. Como explicar, então, que, às vezes, os políticos e partidos mais corruptos são os mais votados nas urnas?

Isso se deve à má consciência daqueles cidadãos que pensam que todo mundo, quando pode, rouba e suborna e, por isso, recorre aos políticos menos moralistas porque eles costumam ser, também, os mais generosos?

Não existe, em nenhum lugar do mundo, uma regeneração ética originada pelo poder. Só a força de uma sociedade que um dia desperta e diz “basta”, que deixa de apreciar os políticos corruptos e que se envergonha de aparecer perante o mundo como cúmplice dos crimes pode mudar as coisas.

Os políticos não mudam, e cada vez que tomam atitudes diferentes relacionadas a eles mesmos é para se blindarem melhor e aumentar seus próprios privilégios.

domingo, 23 de novembro de 2014

Inundação à vista


Apocalipse, agora


Passada uma semana do juízo final, ainda me pergunto cadê a Dilma. Ela disse que as contas públicas estavam sob controle e elas aparecem com imenso rombo. Como superar essa traição da aritmética? Uma lei que altere as regras. A partir de hoje, dois e dois são cinco, revogam-se as disposições em contrário.

Os sonhos de hegemonia do PT invadem a matemática, como Lysenko invadiu a biologia nos anos 30 na Rússia, decretando que a genética era uma ciência burguesa. A diferença é que lá matavam os cientistas. Aqui tenho toda a liberdade para dizer que mentem.

Cadê você, Dilma? Disse que o desmatamento na Amazônia estava sob controle e desaba sobre nós o aumento de 122% no mês de outubro. Por mais cética que possa ser, você vai acabar encontrando um elo entre o desmatamento na Amazônia e a seca no Sudeste.

Cadê você, Dilma? Atacou Marina porque sua colaboradora em educação era da família de banqueiros; atacou Aécio porque indicou um homem do mercado, dos mais talentosos, para ministro da Fazenda. E hoje você procura com uma lanterna alguém do mercado que assuma o ministério.

Podia parar por aqui. Mas sua declaração na Austrália sobre a prisão dos empreiteiros foi fantástica. O Brasil vai mudar, não é mais como no passado, quando se fazia vista grossa para a corrupção. Não se lembrou de que seu governo bombardeou a CPI. Nem que a Petrobrás fez um inquérito vazio sobre corrupção na compra de plataformas. A SBM holandesa confessou que gastou US$ 139 milhões em propina.

E Pasadena, companheira?

O PT está aí há 12 anos. Lula vez vista grossa para a corrupção? Se você quer definir uma diferença, não se esqueça de que o homem do PT na Petrobrás foi preso. Ele é amigo do tesoureiro do PT. A cunhada do tesoureiro do PT foi levada a depor porque recebeu grana em seu apartamento em São Paulo.

De que passado você fala, Dilma? Como acha que vai conseguir se desvencilhar dele? A grana de suas campanhas foi um maná que caiu dos céus?

Um dos traços do PT é sempre criar uma versão vitoriosa para suas trapalhadas. José Dirceu ergueu o punho cerrado, entrando na prisão, como se fosse o herói de uma nobre resistência. Se Dilma e Lula, por acaso, um dia forem presos, certamente, dirão: nunca antes neste país um presidente determinou que prendessem a si próprio.

As instituições e a natureza das coisas



De forma lenta, gradual e segura, muitas instituições nacionais vão se desligando do governo. Anos atrás seria inadmissível imaginar a Polícia Federal trabalhando separada dos interesses do Executivo, agindo com independência. Pelo contrário, basta lembrar os tempos da ditadura militar, quando os policiais federais eram mero prolongamento do poder dos generais, um deles sempre comandando a corporação.

O Ministério Público atuava na mesma linha. Cabia aos procuradores federais denunciar subversivos e ameaçar jornalistas com a aplicação da lei de Segurança Nacional e da lei de Imprensa. Mesmo na Nova República, a Procuradoria Geral da República funcionava como advocacia do palácio do Planalto e adjacências.

O próprio Poder Judiciário acomodava-se à força maior, depois de aceitar a esdrúxula imposição de que determinados temas eram “insusceptíveis de apreciação judicial”. Extinto o regime militar, o uso do cachimbo ainda deixou a boca torta por longo tempo.

Quanto ao Congresso, libertado das tenazes do regime castrense, ainda subordinou-se por anos a fio aos caprichos do presidente da República, obrigadas as maiorias parlamentares a votar de acordo com os interesses do Executivo. Claro que já então exigindo compensações fisiológicas.

Pois agora as coisas mudaram. Polícia Federal, Ministério Público, Judiciário e até o Legislativo dão mostras de não estar mais amarrados à vontade dos csares. Os poderes da União libertaram-se da tutela e passaram a exercer suas prerrogativas constitucionais, em especial depois de 1988.

Só os companheiros não perceberam isso, imaginando deter o mando absoluto que o Executivo não mais possuía. De Fernando Henrique ao Lula, os presidentes da República começaram a bater de frente com as instituições que a Constituição garantia, colhendo percalços sucessivos.

Assim estamos, consistindo as investigações, as denúncias, os julgamentos e até as CPIs e as cassações numa espécie de marco a delimitar e ampliar atribuições e prerrogativas que novas gerações assumiam e exerciam.


Por isso não se estranha estar o governo Dilma na defensiva, sendo enquadrado pelo exercício das instituições nacionais. O palácio do Planalto ainda dispõe de muito poder, mas não mais de todo o poder. Será aceitar o rumo dos ventos, porque insurgir-se contra a natureza das coisas não dá mais.

Paisagens Brasileiras

Oswaldo Teixeira, Correias, Petrópolis

Século XXI


No século XXI uma sonda, depois de 10 anos viajando pelo espaço, pousa num cometa e o que vejo é tão diferente da minha imagem poética de um cometa... Vejo pedras, aridez.

No século XXI todas as grandes Bibliotecas estão ao alcance das mão, realizando o sonho alucinante do poeta Borges de uma Biblioteca Infinita como paraíso.

No século XXI tudo o que acontece no mundo, eu sei agora, no minuto em que está acontecendo, tudo é instantâneo e se dissolve como leite em pó. Como poeira de um cometa fugaz.

No século XXI distância e tempo não existem mais como conhecíamos antes. Posso alcançar a voz de um ser amado a milhares de quilômetros de distância, agora no mesmo segundo em que penso em sua voz.

Mas no século XXI, como na Idade Média, como na Europa depois das grandes guerras, no século XX,como na Pré-história, as pessoas se deslocam de um lado para outro, caminham foragidas por grandes distâncias, açoitadas pela fome, pelo medo, pela saudade das suas casas ou cavernas perdidas.

São milhares os apátridas, os refugiados, as crianças que atravessam órfãs e sozinhas as fronteiras
Mas no século XXI, as atrocidades se parecem com atrocidades antigas, perdidas no fundo do poço do tempo.

O inimaginável acontece no século XXI . O mal em estado puro. O mal em estado absoluto. Pessoas desaparecem, e como na história da Alice no País das Maravilhas, que me dava tanto medo quando eu era criança, uma voz diz : "Cortem-lhe a cabeça". Seja no México, na Síria, no Iraque.

Precisamos abraçar nossas crianças, oferecer amor , o pão da beleza, arte, pedaços de aurora e sussurrar em seus ouvidos as mais lindas canções e dizer, podemos ser bons, podemos plantar, podemos cuidar, podemos guardar no coração o rastro azul de um cometa, podemos, como diz a Bia Bedran em seu livro "Fazer um Bem", fazer um pequeno bem cotidiano por qualquer ser vivo, e até mesmo pelas pedras.

Podemos afagar nossas crianças e sussurrar em seus ouvidos, vamos mudar o mundo.

Roseana Murray

Gotas de lágrimas (1930)


Mozart Bicalho (1901/1986) foi violonista, compositor e poeta pouco lembrado, mas que deveria figurar entre os mais importantes compositores brasileiros na primeira metade do século XX.

O eleitor consciente não sabia


A gasolina aumentou, a energia vai aumentar muito, o teto da meta de inflação virou piso e os juros voltaram a subir
Os eleitores progressistas de Dilma Rousseff estão radiantes. Foi muito importante a esquerda ganhar a eleição no Brasil. O candidato burguês da elite branca jamais celebraria o Dia da Consciência Negra como o fez a presidente mulher e oprimida. Devota de Zumbi (o que fica claro pelo estilo do seu governo), Dilma exaltou um Brasil que “se orgulha da sua cor”. Se você não sabia, eleitor derrotado da direita capitalista, agora ficou sabendo: o Brasil tem uma cor. E não é a sua, seu branco azedo. Aí você perguntaria: se o Brasil de Dilma é negro, não seria melhor ela entregar logo a Presidência a Joaquim Barbosa e se exilar na Argentina?

Pronto, lá vem a elite branca com a sua vocação golpista. É bem verdade que também há brancos entre os eleitores conscientes que salvaram o Brasil, garantindo mais quatro anos ao PT. Mas é só aparência. São todos negros por dentro. Negros como o petróleo viscoso que jorrou nas contas bancárias do PT e aliados nos últimos dez anos.

O eleitor progressista do bem votou na candidata do povo já sabendo o que tinha acontecido com a Petrobras. Desde o início do ano a Operação Lava-Jato da Polícia Federal veio mostrando, como numa novela de Aguinaldo Silva, capítulo por capítulo da privatização da maior empresa brasileira pela maior quadrilha brasileira — instalada na diretoria da estatal com as inconfundíveis digitais petistas. Nada disso abalou o eleitor de esquerda, porque ele sabe que privatização perigosa é a dos neoliberais. Se o PT e sua gangue tomam posse do que é do povo, isso é socialismo. No máximo na próxima encarnação você recebe a sua parte.

O que talvez tenha chateado um pouco o eleitor antenado de Dilma foi um detalhe desagradável do caso Petrobras. Só depois de passada a eleição, ele ficou sabendo o nome da empresa offshore do ex-diretor de serviços Renato Duque — um dos prepostos petistas no esquema, que está preso. A empresa depositária das propinas no exterior se chama “Drenos”. Isso magoa um progressista. Mensalão, petrolão, enfim, drenar o dinheiro do povo por 12 anos, prorrogáveis por mais quatro, tudo bem. Mas fazer piada interna com isso é demais. Os companheiros Valério, Delúbio e Vaccari jamais fariam isso. Parece até coisa da elite branca.

Os desvios criados pelo PT nesses três mandatos do governo popular sempre foram coisa séria — dinheiro sujo para financiar a revolução limpa e gloriosa (e os charutos do Delúbio, que ninguém é de ferro). Enfim, roubaram sem perder a ternura. O eleitor progressista e libertário do Rio de Janeiro — que junto com Minas Gerais decidiu a eleição em favor de Dilma — sabia de tudo isso, e explodiu de orgulho do seu voto no PT. Só não sabia que, no meio de toda a sucção revolucionária de dinheiro público, havia um engraçadinho batizando uma offshore do esquema de Drenos. Como assim? Como um companheiro do bem que ama o Nordeste, os negros e os pobres faz uma coisa dessas? Será que ele confundiu socialismo com drenagem?