quinta-feira, 8 de julho de 2021

Por que os militares apoiam e apoiarão Bolsonaro até o fim

O que diz sobre a capacidade de avaliação dos comandantes militares brasileiros o apoio que deram a Jair Bolsonaro para que se elegesse presidente, e que dão para que governe?

Eles conheciam o candidato melhor do que ninguém. Como soldado, ele se distinguiu nas atividades atléticas, especialmente em corridas de curta distância. Ganhou o apelido de “Cavalão”.

Uma vez salvou um colega de morrer afogado. Foi garimpeiro enquanto vestia a farda, o que era proibido. Planejou atentado à bomba em quartéis para reclamar por melhores salários.

Processado no Superior Tribunal Militar, negociou seu afastamento do Exército em troca da patente de capitão. Não pôde mais frequentar ambientes militares, e nem seus filhos podiam.

Em depoimento ao núcleo de pesquisas da Fundação Getulio Vargas, o general Ernesto Geisel, o terceiro presidente da ditadura de 64, classificou Bolsonaro de “um mal militar”. Foi o que ele foi.


Limitado intelectualmente, sem nunca ter lido um livro como admitiu e disso se orgulha, entrou para a política como um lobista informal das Forças Armadas que não o reconheciam como tal.

Elegeu-se e se reelegeu sete vezes como deputado federal do baixo clero. Na Câmara, jamais ocupou posição de destaque, ou presidiu alguma comissão ou aprovou um único projeto.

Treze candidatos disputaram a eleição presidencial de 2018 – entre eles, três que haviam governado Estados, três ex-ministros, um ainda senador e outro empresário.

Por que os comandantes militares, liderados à época pelo general Eduardo Villas Bôas, preferiram apoiar Bolsonaro a qualquer outro nome? Logo Bolsonaro, que conheciam tão bem?

Simples. Porque ele tinha mais chances de impedir a volta da esquerda (Lula-Haddad) ao poder, e também da centro-esquerda (Ciro Gomes). Porque com Bolsonaro, eles voltariam ao poder.

Era um despreparado? Sempre souberam que sim. Jamais imaginaram outra coisa. Mas ele seguiria suas ordens, supunham; abriria espaço para eles no governo; privilegiaria suas pautas.

Generais veem soldados e oficiais como pessoas que lhes devem obediência. Missão dada, missão cumprida. A missão dada a Bolsonaro resumia-se a isto: esquerda, nunca mais!

Não há militares de esquerda em nenhuma das três armas. Houve até 64 quando os poucos acabaram expurgados. A formação dos militares é pela direita, sempre foi, não é de hoje.

De resto, sentem-se superiores aos civis e julgam-se donos da última palavra quando enxergam ameaças à República que proclamaram por meio de um golpe. São patriotas, os civis menos.

Alguns entre eles começam a reconhecer que fizeram uma má escolha ao apoiarem o capitão anarco-sindicalista – mas são poucos os que batem no peito em sinal de sincero arrependimento.

Se no ano que vem, Bolsonaro despontar como nome capaz de vencer outra vez, esquecerão seus clamorosos crimes e o seguirão em massa como boas e pacíficas ovelhas com porte de arma.

É o poder, o poder que move os homens. Poder de mandar e de ser atendido. Poder de vir a ter seus desejos satisfeitos.

De militares a milicos


Os militares devem estar na caserna, nos quartéis. Eles são militares do Estado e não do governo. Onde vamos parar? 
Marco Aurélio Mello, ministro do STF 

A superação dos generais

O Exército não puniu Pazuello. Qual a surpresa? O governo é militar. Surpreendente seria se punisse o que lhe dá dentes para intimidar inimigos. O governo é militar, e é Bolsonaro, indistinta e personalissimamente, o que ladra. Surpreendente seria punir-se com a banguelice.

O governo é militar e é daquele que ergueu bem-sucedida empresa familiar nas bordas do Estado. O governo é militar e é de patriotas como general Braga Netto, ministro da Defesa, cujo salário — sob regra editada pelo mito — aumentou 58% e para mui além do teto remuneratório constitucional. O governo é militar e é do capitão, o velho líder corporativista fã de Hugo Chávez. Não cortará na própria carne — e isso não se aplica somente a privilégios de contracheque.


O governo é militar. E o Exército está pazuellizado: submetido à dissolução de sua essência impessoal, degradada a natureza de instituição de Estado, a serviço incondicional do governante de turno e independentemente do que limita a Constituição. Um manda, o outro obedece — qualquer que seja a ordem, depauperado também, confundido com falta de vergonha, o senso de hierarquia. O governo é militar, e o Exército vai bem alimentado.

O governo é militar e a pazuellização do Exército, fato consumado. Pazuello fez a aposta correta. Acreditou na acomodação, em que nem sequer seria advertido, e saiu premiado, com cargo no governo. Saiu mais que premiado, encarnando uma espécie de habeas corpus preventivo, extensivo a todos os militares: pode tudo, rapaziada.

Pôde tudo, anos atrás, o vice Mourão: general punido de mentirinha por discursos agitadores, deslocado — sob os holofotes que lhe dariam existência pública — a uma função burocrática desde a qual encontrou as condições ideais para sua escalada à política.

Não há mais fronteira entre Planalto e Exército. No Ministério da Saúde ou sobre o palanque, Pazuello servia — obedecia — a Bolsonaro, um chefe supremo das Forças Armadas cuja ascendência sobre as tropas já não deriva da Carta, mas da lógica personalista que fundamenta as relações entre o cabeça miliciano e seus homens.

O governo é militar. Militar e golpista. E não chegou a 2021 sem que a estrada fosse pavimentada por badaladíssimos quatro estrelas da moderação. Em 2018, o então comandante do Exército, dito moderado, foi a uma rede social para emboscar o Supremo. Era o general Villas Bôas, padrinho do Bolsonaro presidente e patrono da multiplicação dos generais Ramos — aquele para quem Pazuello, general da ativa, subiu ao carro de som como civil, aquele mesmo Ramos que, diante da série de atos antidemocráticos com a presença do presidente, compareceu “só no da rampa”. (Ramos, outro fura-teto: 69% de aumento salarial.)

Foi de rampeiro em rampeiro que chegamos até aqui. E não sem covardes. Os códigos militares são diretos: a participação do ex-ministro general na manifestação bolsonarista infringiu as regras. O Exército tinha a mais fácil desculpa para repreendê-lo: a clareza dos estatutos. Optou, porém, pela submissão. Ou melhor: teria optado, se não estivesse submisso havia muito. No último 27 de maio, o comandante da Força, Paulo Sérgio Nogueira, aceitou viajar com Bolsonaro ao Amazonas para inaugurar uma ponte erguida pela engenharia militar — isso à véspera de ter de decidir sobre Pazuello. Lá, previsivelmente, ouviu o presidente declarar que “somos todos seres políticos”, generais inclusive, e que caberia aos fardados decidir “como o povo viverá”.

Fala-se que teria recebido diretamente de Bolsonaro uma carga para que não penalizasse Pazuello. Não penalizou.

Na semana passada, circulou a versão de que o comandante do Exército assim agira sob cálculo. Temeria que a punição causasse um conflito entre a cúpula do Exército e o presidente; caso em que haveria o risco de Bolsonaro lhe sustar a decisão, o que o obrigaria a renunciar, abrindo terreno para que um bolsonarista chegasse ao comando. Uma conta que não fecha, senão para fantasiar a existência de algum brio militar no episódio. Ora! Desde quando Bolsonaro precisa de um bolsonarista — um explícito — na liderança da Força para ter o Exército a seu absoluto dispor?

Está muito bom com Nogueira mesmo, cujo caminho tomado — ainda que tivesse a intenção de evitar uma crise institucional — resultaria, como resultou, em algo muito mais grave: na mensagem de vale-tudo transmitida ao guarda da esquina.

Em português castiço: para o inferno o eventual choque entre cúpula do Exército e Bolsonaro. Ao comandante, só caberia aplicar o regulamento e disciplinar a tropa. Seu papel. Esse universo corrompido em que o comando da Força tem de fazer ponderação política só existe porque os generais escolheram se misturar, até a indistinção, ao governo de turno.

Aí está. Para que os sócios — parceiros fiéis neste projeto autoritário de poder — não se estranhassem pontualmente por cima, difundiu-se um salvo-conduto imprevisível para baixo, um convite ao estado de amotinamento; o que representaria a superação desta etapa de pazuellização para o estabelecimento de um Exército afinal bolsonarizado, em que todo militar, de qualquer grau, estaria autorizado, estimulado, a se comportar como Bolsonaro quando na Força: malandro, desagregador, conspirador, com planos atentatórios. É o que ele quer. O Exército como milícia. Status em que — fica a dica — não seriam necessários generais.

A estreita visão do governo

O presidente Jair Bolsonaro editou medida provisória no início desta semana prorrogando o pagamento do auxílio emergencial por três meses. Cerca de 39 milhões de brasileiros receberão entre R$ 150 e R$ 375 até outubro. A nova rodada de pagamentos, portanto, segue os moldes da anterior, tanto em valores como em público-alvo.

Com o País ainda devastado pelos efeitos da pandemia de covid-19, prorrogar o auxílio emergencial era o mínimo a fazer, até mesmo por imposição humanitária. A taxa de desemprego beira os 15%, a inflação acima do teto da meta corrói a renda dos que ainda a têm e o espectro da fome ronda os lares de milhões de brasileiros. O grande problema é que Bolsonaro é um presidente do tipo que se contenta com o mínimo a fazer, especialmente quando este mínimo é o que ele precisa para tentar estancar a vertiginosa queda de sua popularidade.


A esta altura, já está claro para a maioria dos brasileiros – como pesquisas de opinião sobre o governo podem atestar – que o bem-estar da população passa ao largo do rol de preocupações do presidente da República. Bolsonaro só tem olhos para a eleição de 2022. Neste sentido, prorrogar o auxílio emergencial não se pauta por outra coisa que não o mero cálculo eleitoral. Caso estivesse genuinamente preocupado com a situação periclitante de milhões de brasileiros, Bolsonaro teria dedicado tempo e energia para melhor formular e implementar seu plano de transferência de renda, uma reformulação do programa Bolsa Família que o governo pretende chamar de Renda Brasil.

“Estamos prorrogando o auxílio emergencial por mais três meses enquanto acertamos o valor do novo Bolsa Família para o ano que vem”, disse o presidente durante breve cerimônia em seu gabinete. Por sua vez, o ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a prometer o lançamento do Renda Brasil ainda neste ano. Já o ministro da Cidadania, João Roma, afirmou que o programa será lançado em novembro próximo. Bolsonaro fala em 2022, Guedes é impreciso e Roma promete o Renda Brasil para daqui a cinco meses. Uma conversa entre os três poderia resolver ao menos o problema de comunicação.

A prorrogação do auxílio emergencial, repita-se, era o certo a fazer. Mais certo, porém, teria sido o governo compreender, ainda em 2020, o sentido da palavra “emergencial” e ter planejado a transição para o novo Bolsa Família, reformulado. Não o fez porque só planeja quem tem um plano a executar. A ausência de um programa de governo claro e exequível é um vício fundamental deste governo. Igualmente, a visão estreita. Basta lembrar que o ministro da Economia, não faz muito tempo, falou em “surpresa” pela irrupção da segunda onda de covid-19 no País, ainda mais mortal do que a primeira. Não foram poucos os epidemiologistas que alertaram para este risco.

Um programa de transferência de renda, seja como for chamado, é imperativo em um país tão desigual como o Brasil. Mas não deve ser um fim em si mesmo. É dever do governo planejar uma política econômica que propicie as condições para o crescimento da atividade, este, sim, capaz de mudar a vida das pessoas de forma consistente. A política econômica há de vir acompanhada por uma política de educação igualmente bem elaborada e implementada. No Brasil sob Jair Bolsonaro, não há uma coisa nem outra.

Ao presidente, ao que parece, interessa mais lançar mão de políticas pontuais de claro viés eleiçoeiro do que atacar os problemas que pairam sobre sua mesa de trabalho com mais responsabilidade. Bolsonaro não mobilizou seu governo para mudar profundamente a realidade que submete milhões de seus concidadãos à pobreza, ao desemprego e à fome. Agora, acossado que está por graves denúncias de corrupção na aquisição de vacinas, pela acusação da prática de “rachadinhas” e, como se não bastasse, pelos achados de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tem lançado luz sobre o descalabro que é a resposta federal à crise sanitária, tenta de qualquer forma se manter de pé do ponto de vista eleitoral, dado que a atual conjuntura política lhe é flagrantemente desfavorável.

Pensamento do Dia

 


Não é negacionismo, é só picaretagem

Em 22 de junho, Júlia Affonso relatou no Estadão o negócio suspeitíssimo de R$ 1,6 bilhão na compra da vacina indiana Covaxin, enquanto ficavam sem resposta propostas sem intermediário algum de empresas com compliance. Jair Bolsonaro atribuiu a demora à falta de autorização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de uso dos imunizantes vendidos por Pfizer, Johnson e Moderna. E à exigência dele de assumirem despesas de tratamento médico de eventuais efeitos colaterais na imunização. Na série Nêumanne Entrevista no Blog do Nêumanne, no portal do Estadão, o ex-encarregado de negócios no exterior do Banco do Brasil por 31 anos Luiz Geraldo Dolino disse que é ingênuo atribuir isso a negacionismo, terraplanismo ou obscurantismo da direita estúpida, que apoia incondicionalmente o presidente.

Conforme os fatos, listados no que ele batizou de “cronologia macabra”, a “ideologia” é cortina de fumaça para negociatas escusas no Ministério da Saúde (MS) por burocratas indicados para cargos de confiança pela gentalha política do Centrão. Em conluio com militares, que ocupam cargos de comando na pasta. Segundo Brenno Pires, que revelou neste jornal o escândalo do “tratoraço” ou “bolsolão”, documento oficial do MS confirma que “o valor da dose era US$ 10 por unidade, de acordo com reunião realizada em 20 de novembro entre representantes do governo e das empresas. Porém o preço fechado no contrato foi de US$ 15, um porcentual 50% maior. O valor global do contrato, de R$ 1,614 bilhão (já convertida a moeda), saiu R$ 534 milhões mais caro do que o preço original”. O próprio Brenno Pires e Lorenna Rodrigues informaram que o orçamento secreto destinou R$ 2,1 bilhões para fundos municipais de saúde.


Na sexta 25, o deputado federal Luís Miranda e seu irmão Luís Ricardo de Miranda revelaram à comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado para apurar crimes e omissões da União no combate à pandemia que narraram a Bolsonaro a pressão sobre o segundo para liberar R$ 225 milhões para pagar pela Covaxin comprada. O adiantamento não era previsto em contrato e a vacina fabricada pela Barhat Biotech fora autorizada pela Anvisa, mas com muitas restrições. Ao receber os irmãos em casa, o que não negou, Bolsonaro prometeu tomar providências. Mas nada fez.

Ao contrário, fiel ao estilo “Mateus, primeiro os meus”, o chefe do desgoverno operante mandou seu anspeçada Onyx Lorenzoni, secretário-geral da Presidência, denunciar os denunciantes à Polícia Federal, à Controladoria-Geral da União, à Advocacia-Geral da União e ao Ministério Público Federal por “denunciação caluniosa”. E pela “falsificação” do “invoice”. Mas a tal fatura é autêntica e consta do acervo disponível no sistema do próprio MS. Ninguém pediu desculpas pela infâmia. Ao contrário, com base em informações da Precisa, de Francisco Emerson Maximiano, o papel foi “corrigido”. Sempre disposto a trocar velha vergonha por outra mais recente, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, apresentou na CPI a terceira versão: Bolsonaro teria pedido informações ao então ministro Eduardo Pazuello no domingo 21 de março. Este teria mobilizado o secretário executivo, Elcio Franco, exonerado em seguida e, depois, abrigado no valhacouto do Planalto. Na segunda 22, este teria dito que nada havia. Na terça 23, Pazzuello caiu. Um primor de presteza: investigação administrativa feita por um dos acusados e arquivada em 24 horas. Digna de figurar no Guinness Book of Records.

Na sexta 2 de julho, a CPI foi criticada por ter ouvido o cabo PM de Minas Luiz Paulo Dominguetti, que acusara o diretor de Logística (!) do MS, Roberto Ferreira Dias, de ter cobrado propina de US$ 1 (R$ 5,07) por cada uma de 400 milhões de doses de Astrazenica (sic). A AstraZeneca é parceira na vacina envasada pela Fiocruz. Chamado de “cavalo de Troia” pelos senadores da CPI, ele teve o celular apreendido e nele apareceu que cobrava US$ 0,25 (R$ 1,25) de comissão. Octávio Guedes, da GloboNews, reduziu-o a pangaré. Mas seu depoimento é peça importante no quebra-cabeças de atravessadores, propinas e comissões que emporcalham o combate federal à pandemia por um armada Brancaleone com cabo PM da ativa, coronéis do Exército, burocratas, chefões partidários e um pastor capelão. O líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, segundo os interlocutores de 20 de março, foi dado como autor do “rolo”, o que não foi desmentido, e recorreu ao Supremo Tribunal Federal exigindo depor na CPI. Não se sabe se escolherá o relator ou se exigirá o direito de se calar, dado por Roberto Barroso ao milionário Carlos Wizard, flagrado rindo dos 524 mil mortos pela covid.

Na guerra dos picaretas pés de chinelo que a direita estúpida forneceu ao desgoverno Bolsonaro, só morrem inocentes. Os criminosos contam com o aval dos chefões da politicagem. O presidente da Câmara, Arthur Lira, debocha. O do Senado, Rodrigo Pacheco, fala em banalização do impeachment do nosso Napoleão de hospício. No mínimo, são cúmplices do genocídio doloso.

Politizadas, Forças Armadas mordem a CPI e assopram as fardas sob suspeição

Na CPI da Covid, quando alguém menciona numa rodinha de conversa o envolvimento de militares no escândalo das vacinas é impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de suspeito. Entre oficiais da ativa e da reserva, frequentam o rol dos encrencados meia dúzia de patentes: um general, três coronéis e dois tenentes-coronéis.

Incomodado com o surgimento de fardas ineptas ou com fins lucrativos, o presidente da CPI, Omar Aziz, lastimou: "Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo."

Abespinhados, o Ministério da Defesa e os comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica disseram que Aziz atacou as Forças Armadas de forma "vil", "leviana", "infundada" e, sobretudo, "irresponsável". Em nota oficial, a cúpula militar escreveu: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..." A resposta é tardia, desonesta e presunçosa.

A reação chega tarde porque o silêncio das Forças Armadas diante da perversão já havia consolidado a sensação de cumplicidade com oficiais que grudaram na farda um código de barras. É desonesta porque desconsidera o apreço de Aziz pelo pedaço limpo das forças militares. "Quando a gente fala de alguns oficiais do Exército, é lógico, nós não estamos generalizando", declarou o senador. "De forma nenhuma, nós estamos entrando aqui no mérito que as Forças Armadas têm", acrescentou.

A nota da cúpula militar é presunçosa porque ameaça o Legislativo —"As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..."— no pressuposto de que a democracia brasileira aceitaria desaforos. O presidente da CPI foi a tréplica: "Pode fazer 50 notas contra mim, não me intimida." O que farão agora os comandantes militares?

Não podendo estacionar seus tanques na entrada do Congresso, fariam um bem a si mesmos e às corporações que representam se utilizassem sua ira para condenar quem enlameia a farda. A alternativa seria aderir à retórica do capitão, que chama os rivais da CPI de "pilantras", "patifes", "picaretas".

Depois, bastaria pendurar uma placa na entrada dos quarteis: "Diretório do PMB, Partido dos Militares do Bolsonaro". Não resolveria o problema. Mas diminuiria a taxa de cinismo.

Dia de conflito da CPI com militares

As Forças Armadas e o ministro da Defesa reagiram de forma exagerada e fora do tom a uma declaração do presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM). E assim deram mais um passo na sua politização. Na sessão que terminou com a prisão de Roberto Dias houve tanta referência a militares que o senador disse que “os bons das Forças Armadas” deviam estar com vergonha dos “membros do lado podre”. Mais tarde, ele fez elogios às Forças Armadas, atenuando o que dissera. Os três comandantes e o general Braga Netto fizeram uma ameaça implícita. Disseram que “não aceitarão qualquer ataque leviano”. Omar, diante de um plenário em silêncio, deu sua resposta. “Podem fazer 50 notas contra mim, só não me intimidem."


Foi um dia de muitas revelações, apesar das mentiras, lacunas, inverossimilhanças de Roberto Dias. Seu depoimento deixou elementos para se concluir que há uma divisão no Ministério, de grupos com esquemas diferentes, querendo tirar vantagens na compra de imunizantes. O ex-secretário-executivo coronel Élcio Franco — aquele que usa o broche de uma caveira esfaqueada — estava no lado oposto ao de Ricardo Dias. Enquanto brasileiros morriam, vacina passara a ser uma moeda de troca numa disputa de poder.

O que o ex-diretor do Departamento de Logística falava não ficava de pé porque ele mesmo tratava de derrubar o que acabara de dizer. Segundo Dias, ele não negociou a compra de vacinas, mas aceitou marcar uma reunião no Ministério no dia seguinte ao do encontro no restaurante com o cabo Luiz Paulo Dominguetti. E nessa reunião tratou de vacinas. Ou seja, negociou.

Roberto Dias afirmou inúmeras vezes que toda a negociação de vacinas estava centralizada no secretário-executivo Élcio Franco. Se era assim, por que ele aceitou marcar uma reunião com Dominguetti e o coronel Marcelo Blanco para tratar da oferta de 400 milhões de doses? Se o assunto era vacina da Astrazeneca, porque ele nunca pensou — nem Franco — em chamar para essa conversa a Fiocruz, que tinha acordo com a própria Astrazeneca?

Na versão do ex-sargento Roberto Dias, o encontro com Dominguetti foi casual. Ele marcou um chopp com seu amigo às cinco da tarde. E apareceram por lá o coronel Marcelo Blanco, com quem havia trabalhado no Ministério, e o cabo Dominguetti. Numa hora daquelas, numa quinta-feira, no meio de uma pandemia que só naquele dia matou mais de 1.500 brasileiros, o diretor de logística do Ministério da Saúde de um país sem vacinas vai beber com um amigo. Encontra casualmente um ex-assessor que abriu uma empresa de medicamentos e um cabo da PM de Minas Gerais que diz representar uma empresa que teria 400 milhões de doses. O Ministério que foi tão fechado para a Pfizer, tão hostil ao Butantan, tão lerdo, fica de repente ágil e na tarde do dia seguinte estava recebendo em sua sala o cabo que agora ele define como picareta, aventureiro e mentiroso.

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) deu chance para Dias se explicar. Lembrou que ele havia sofrido várias retaliações. Fora indicado para a Anvisa, mas a indicação fora retirada. Fora exonerado pelo general Eduardo Pazuello, mas sua demissão fora revista na Casa Civil. E após ser acusado, por Dominguetti, de cobrar a propina de um dólar por dose, ele foi exonerado. Além disso, assessores seus foram demitidos contra a sua vontade, e nomeados dois militares, um deles o tenente-coronel Alex Lial Marinho, já citado na CPI. Diante de todos esses sinais da luta interna no Ministério, Dias dizia não se lembrar dos eventos ou não ter ideia dos motivos. “Desconheço”, repetia.

Omar Aziz tentou dissuadi-lo. Pediu que ele falasse a verdade. Lembrou que ninguém ali era tolo. Na confusão que se formou após o presidente da CPI dar a ordem de prisão em flagrante por falso testemunho, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) foi ao ponto:

— O senhor tentou infantilizar esta comissão. Todo mundo sabe que o seu encontro não foi casual. Pelo amor de Deus, o senhor está sendo preso, contribua com esta comissão. O senhor não está vendo que os integrantes do governo lhe jogaram para as cobras?

A CPI ontem deixou claro que o Ministério da Saúde do país que já perdeu 528 mil pessoas para a Covid dedica-se à guerra interna entre esquemas de poder. Militares da ativa ou da reserva, políticos do centrão se misturam nesse cenário de horror que é o governo Jair Bolsonaro.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Imagem do Brasil

 


O Brasil em voo cego

Evidências crescentes da gravíssima crise climática levam o mundo, apesar do atraso, a ampliar esforços para mitigá-la. Mas, para quase todos os políticos brasileiros, o assunto inexiste! Autoridades negam o fenômeno e atrasam providências. Sobre a questão climática, as oposições não se manifestam.

Nos últimos dias, fatos ligados ao aquecimento global pouco repercutiram no Brasil, mas devem ser lembrados.

No normalmente gelado Canadá, moradores da pequena cidade de Lytton, perto da costa oeste, sofreram 49,60C, temperatura mais elevada da história no país e mais alta que Dubai. Na vizinha Seattle o termômetro ficou em 420C, acima do recorde de Miami! Portland, próxima, superou em 50C o recorde de Houston!



E não só lá. No Japão, nos três primeiros dias deste julho, mais chuvas do que o esperado para todo o mês causaram deslizamento de terra e mortes; em partes do Paquistão e no golfo Pérsico ondas de calor elevaram a temperatura acima do que pessoas saudáveis podem suportar ao ar livre! No Brasil, a crise hídrica ameaça com falta d’água!

Isso tudo está se tornando o “novo normal”, e nem chegamos ainda à elevação de 20C referida no acordo de Paris; mantido nosso comportamento atual, projeções indicam aumento da temperatura média da Terra acima de 40C nas próximas décadas!

Também na semana passada a contida rainha Elizabeth II, visitando centro de pesquisa climática, afirmou que “enfrentar a mudança climática significará mudar a maneira como fazemos as coisas”. Com isso, ela rompeu a barreia posta pelo ex-presidente George Bush quando, às vésperas da Rio 92, disse “nosso estilo de vida é inegociável”. Mudar a maneira como fazemos as coisas, isto é, nosso estilo de vida, com apoio em novas políticas, tecnologias e valores, é a única forma de evitarmos que se generalizem – ainda mais em países tropicais – temperaturas mais elevadas do que humanos podem suportar!

Enquanto isso, no tropical Brasil, o número de focos de incêndio continua crescendo, o governo destrói agências ambientais e cria uma comissão inoperante! Sem gerar resultados condizentes com a construção do futuro, como afirmar que as instituições estão funcionando?

Não há dúvidas: as aceleradas mudanças climáticas agravarão ainda mais nossos problemas de saúde, saneamento, habitação, segurança, educação e outros, ampliando as desigualdades. É essencial e urgente enfrentá-las e mitigá-las, caminhar rumo a novos estilos de vida, com novas tecnologias, minimizando, com urgência, a queima de combustíveis fósseis, a geração de lixo e a ocupação descontrolada do solo. Enfim, alterando “a vida como ela é”! Não é fácil mas é indispensável!

Ao ideologizar esses temas, vê-los como frutos de conspirações contra nós e descartar enfrentá-los, o governo nos condena à retaguarda da história e a sofrimentos ainda maiores. Mais grave e preocupante: não se conhece manifestação dos ditos presidenciáveis sobre a questão climática!!!!
Eduardo Fernandez Silva

Falou, Spike!

Este mundo é governado por gângsteres, O Agente Laranja [Trump], o cara do Brasil [Bolsonaro] e [Vladimir] Putin. Eles são gângsteres e farão o que quiserem. Eles não têm moral nem escrúpulos. Este é o mundo em que vivemos, e nós temos que falar publicamente contra gângsteres como esses
Spike Lee, cineasta americano que preside o júri da 74ª edição do Festival de Cannes

Uma receita para Bolsonaro

As pedaladas que custaram o mandato a Dilma Rousseff tinham algo de malandragem contábil, só. O rolo das vacinas tem muito mais que isso. Ainda faltam-lhe, contudo, as digitais de Jair Bolsonaro. Os irmãos Miranda denunciaram a picaretagem indiana durante uma conversa, e ele não fez nada. É forte, mas pode ser pouco.

Negacionismo só produz misérias. A “gripezinha” abalou a credibilidade do governo em tudo que tem a ver com uma pandemia que já matou mais de 525 mil brasileiros. O mandato de Jair Bolsonaro está em perigo. Na melhor das hipóteses (para ele), a reeleição torna-se um sonho perdido que milicianos não conseguirão reativar.


A Bolsonaro, de nada adianta mobilizar pelotões contra a CPI, maltratar repórteres ou falar para convertidos nas redes sociais. A compra de vacinas pelo governo brasileiro expôs um redemoinho de picaretagens. Um cabo da PM mineira diz que recebeu um pedido de pixuleco de US$ 1 para cada uma dos 400 milhões de doses da AstraZeneca. Capilé de US$ 400 milhões num golpe semelhante é coisa que não existe, mas outras libélulas giravam em torno da AstraZeneca. A vacina do cabo custaria US$ 4,50 (com o pixuleco incluído). Na mesma época, um misterioso operador oferecia-se para privatizar imunizações, oferecendo a mesma vacina a um grupo de empresários por US$ 23,79 a unidade. A proposta foi detonada pelos bilionários que seriam mordidos. Isso com a AstraZeneca. 

Com a Covaxin indiana, o ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União, pergunta ao governo por que a unidade, negociada a US$ 10 em novembro do ano passado, foi contratada por US$ 15 em fevereiro.

Todos os laboratórios reiteram que nada tiveram a ver com essas ofertas. Tudo não passaria de conversa de atravessadores, mas, em todos os casos (salvo no da oferta ao consórcio de empresários), na outra ponta havia servidores públicos habilitados a negociar.

A única vacina que não foi rondada pela turma do pixuleco foi a CoronaVac. Aquela que, segundo ele, NÃO SERÁ COMPRADA (maiúsculas de Bolsonaro).

O capitão pode persistir no caminho do vitupério. Nele, a Covid-19 era uma gripezinha, e as vacinas poderiam transformar cidadãos em jacarés. Esse negacionismo já levou o país à ruína dos 525 mil mortos e mandou o governo às cordas. Recorrer aos militares, nem pensar, pois eles já carregam o desastre do general Pazuello e dos coronéis que ele levou para o Ministério da Saúde.

O tamanho do problema sugere que seria conveniente nomear uma pessoa ou uma comissão independente para tratar dessa cavalariça, limpando-a. Nada a ver com notáveis terrivelmente seja lá o que for. Para fulanizar, apenas mostrando um perfil dessa pessoa. Poderia entregar o caso ao ministro Marco Aurélio Mello, que está prestes a deixar o Supremo Tribunal Federal.

Essa pessoa, ou comissão independente, investigaria o que acontece no Ministério da Saúde e no seu entorno, restringindo-se à questão do preço das vacinas. Terminado o serviço, entregaria a Bolsonaro uma bandeja com a cabeça dos envolvidos, bem como uma avaliação de seu papel nos episódios. Esse procedimento não tiraria das costas do capitão os 525 mil mortos da Covid-19, nem os quase 15 milhões de desempregados. No mínimo, aliviaria o país de um aspecto de sua conduta irracional.

Bolsonaro jogou os militares num barco que parece fazer água por todos os lados

Nenhum outro presidente fez tão mal às Forças Armadas como o capitão insubordinado Jair Bolsonaro.

O Ministério da Saúde do governo Jair Bolsonaro, em plena pandemia, embolou militares da ativa e da reserva com PM lotado a quilômetros de distância, pastor dito “humanitário”, empresas fajutas nacionais e internacionais, atravessadores picaretas, apadrinhados do líder do governo e do Centrão. De perder o fôlego. E isso dá em “rolo” na certa.

Se Bolsonaro foi longe demais ao irritara sociedade, as Forças Armadas precisam agir para evitar o contágio enquanto é tempo, se ainda há tempo. Não é trivial um general da ativa e tantos coronéis e tenentes coronéis, da ativa e da reserva, citados de forma nada dignificante, inclusive em encontros com gente de péssima reputação, representando empresas suspeitas e oferecendo vacinas a preços exorbitantes.

A lista de oficiais citados, liderada por Eduardo Pazuello, general da ativa, continua aumentando. Os dois novos, trazidos pela Rede Globo, com base em e-mails entre a Saúde e a tal “empresa” Davati, são: coronel Hélcio Bruno de Almeida, que participou de reuniões com um pastor dedicado subitamente ao ramo das vacinas, e um tal “coronel Guerra”, que se mete em negócios do ministério diretamente dos EUA.



Dos oito listados, dois já foram acomodados no Planalto, Pazuello e o coronel da reserva Elcio Franco. Dá para enfiar os outros seis lá? E, afinal, o que a Defesa, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica acham de tudo isso? Caiu ou não a ficha? Nenhum outro presidente fez tão mal às FA como o capitão insubordinado Jair Bolsonaro.

Com tantas certezas nesta vida, ele diz que não sabe nada do que acontece nos ministérios e, sempre tão falante, não diz absolutamente nada sobre a versão dos irmãos Luis Miranda, deputado federal, e Luis Ricardo Miranda, diretor de Importação da Saúde: de que relataram a ele todo o “rolo” Covaxin – e ele, que nem pareceu surpreso, não fez nada.

Bolsonaro tem obsessões: acabar com a urna eletrônica e reinstaurar o voto impresso, que fazia a festa dos “coronéis” da política; armar toda a população civil; derrubar a floresta para “desenvolver” a Amazônia; tirar as reservas dos indígenas, que só querem “celular e internet”.

É uma enxurrada de ideias muito próprias, peculiares, chocantes, mas talvez fosse mais conveniente o presidente acompanhar o que ocorre não só na Saúde e no Meio Ambiente, mas em todos os ministérios. Ou seja, passar a governar, botar a mão na massa, porque a coisa está ficando feia para o lado dele.

A CPI da Covid está indo mais longe do que se imaginava, com depoimentos, dados e provas abundantes do descaso do presidente pela ciência e é impossível achar uma explicação razoável para o desprezo por Coronavac, Pfizer e Covax Facility em favor de Covaxin, Convidecia, Sputnik e a tal Davati, uma farsa.

À CPI, soma-se mais uma investigação no Supremo: além da acusação de Sérgio Moro de intervenção política na Polícia Federal, agora a de três senadores de que ele prevaricou, ao desprezar a denúncia dos irmãos Miranda.

Pior: depois convocou Pazuello para matar no peito, numa história sem pé nem cabeça.

A isso, acrescentem-se as investigações do Ministério Público e do TCU, os 124 pedidos de impeachment na mesa do presidente da Câmara, Arthur Lira, e as manifestações do “Fora, Bolsonaro”, em São Paulo, Rio, Brasília e todas as capitais. Teve quebra-quebra no fim? Esses vândalos têm cara, cheiro e jeito de infiltrados...

Se a semana passada acabou mal, esta já começa com os áudios da excunhada de Bolsonaro, Andrea Siqueira Valle, no UOL, relatando como ele não apenas participava como tinha voz ativa nas “rachadinhas” dos gabinetes parlamentares da família. Pinga daqui, pinga dali, a sensação é de que o barco Bolsonaro faz água por todo lado.

Falta Lalau pra rir do falso moralismo

Valei-me, Stanislaw Ponte Preta! Há 55 anos, num julho como este, você lançava o primeiro Festival de Besteira que Assola o País, o Febeapá, uma espécie de balanço do golpe dos militares – e eis-me aqui a lamentar sua ausência para contar as histórias bizarras protagonizadas agora pelos súditos daqueles. Todo dia tem uma.

A mais recente é a da ministra (que Deus nos perdoe) da Família. Sempre tão proba, carola a ponto de negar aborto a uma adolescente estuprada, no fim de semana ela se viu denunciada em suposto pecado por ex-colega de igreja, um outro cidadão de bem que, por sua vez, é notório na fé de distribuir fake news.

Foi aí, divino mestre da fina flor dos Ponte Preta, todos moradores da então pacata Boca do Mato, foi aí que me lembrei de sua frase, e de como ela ainda é na medida para identificar o falso moralismo do Brasil de hoje: “O homem sensato, quando soube que todos seus vizinhos eram pessoas exemplares, mudou-se imediatamente para outro bairro”.


Esses “homens exemplares” retomaram o poder e ao estilo daqueles de 1964 – com Deus no coração e um revólver engatilhado embaixo do travesseiro. “E o homem honesto?”, você se perguntava. “É aquele que se vende caro?” Pois é, Lalau, o Centrão manda responder que sim. Os teus três volumes do “Febeapá” colecionaram as asneiras militares entre 1964 e 1967. Parecia aquela seção da revista Readers’ Digest, Piadas de Caserna, mas era tudo verdade. Os generais proibiram o balé Bolshoi para combater o comunismo, permitiram um jogo da seleção contra a Alemanha Oriental “desde que não tivesse cunho político”. Confundiram “A capital”, do Eça, com “O capital”, do Marx, e mandaram recolher o portuga das livrarias.

Eu gosto também da notícia em que um delegado mineiro, “para evitar ofensa às forças armadas”, proibiu no carnaval fantasias em que as mulheres ficassem de pernas de fora. Você, o mui digno criador das Certinhas do Lalau, concluiu sábio: “como se perna de mulher alguma vez tivesse ofendido as armas de alguém”.

Lalau, os cronistas que te sucederam em 2021 estão naturalmente enfurecidos com esses moralistas do sétimo dia que sonham o pesadelo de uma nova ditadura. Na ânsia louca de botar o maluco presidenciário no olho da rua, fecharam os punhos, cerraram fileiras e partiram para o discurso. Os cronistas perderam a leveza. Você cutucava a pança gorda dos que zelavam pelos bons costumes com a facada do humor.

Diante de instituições do tipo “Liga da Decência” e “Associação de Pais de Família”, todas metidas a reformar os hábitos alheios, você era só o mais risonho escárnio. “Quem tem a consciência tranquila não entra para clube nenhum. A consciência é como a vesícula, a gente só se preocupa quando dói.”

No Brasil 2021 os novos homens de bem praticam um cristianismo de mercado, onde quem dá aos pobres acha que eles merecem R$ 150 de auxílio emergencial. Zombam da fé, os insensatos. Já mataram 500 mil pessoas e avisaram que a vida é assim mesmo, vão morrer outras tantas porque, como você debochava, “quem não morre não vê Deus”.

A avacalhação é geral, mente-se como nos tempos do Febeapá original, “com tanta ênfase que até o contrário do que se diz está longe da verdade” – e eu sinto falta de teu humor para documentar o chorrilho de tantas sandices. Locupletam-se todos, ninguém restaura a moralidade. Muito lalau, meu caro, e pouco Lalau, os males do Brasil são.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Pensamento do DIa

 


A hipótese militar

Uma hipótese para que Bolsonaro, diante da denúncia dos irmãos Miranda, nada tenha feito: que a tradicional corrupção no Ministério da Saúde, operada por esses barros e seus afilhados, tenha sido encorpada pela adesão competitiva de militares ao esquema. Não seria só o Centrão a amarrá-lo.

O governo é militar. Sim: abrigou mobília testada como Roberto Dias, que Bolsonaro chegaria a indicar a cargo de direção na Anvisa; só recuando ante a notícia de que assinara contrato suspeito para compra de 10 milhões de kits-teste. Recuou da indicação, sem se acanhar, porém, para mantê-lo como diretor do Departamento de Logística do ministério em que, ora, ora, firmara o convênio acusado.


Manteve Dias, cheio de padrinhos e alcolumbres. Mas, sendo o governo militar, acrescentar-se-iam à dinâmica tipos como coronel Blanco, aquele que, ex-assessor de Dias até janeiro, abriu uma empresa de representação comercial de medicamentos três dias antes de se sentar à mesa, em 25 de fevereiro, com o ex-chefe e o policial Dominguetti, intermediário do intermediário, para presenciar conversa em que um diretor do Ministério da Saúde teria pedido propina ao atravessador que oferecia inacreditáveis 400 milhões de doses do imunizante AstraZeneca por meio de uma companhia, a Davati, de que procuração não tinha.

Assim se manifestou o CEO da Davati, Herman Cárdenas, sobre o que ofertava: “No começo deste ano, fomos procurados pelo nosso representante no Brasil para ajudar a localizar vacinas contra Covid-19. Descobrimos um possível lote de vacinas sendo oferecido por um vendedor privado no exterior”. Diga-se que a ponte entre a descobridora Davati e o governo, antes de Dominguetti entrar na jogada, coubera a outro militar, o coronel Criscuoli, amigo de Bolsonaro e próximo a Eduardo Pazuello e Elcio Franco.

Cárdenas também falou sobre Dominguetti, o desconhecido que, no entanto, operava por sua empresa e que incluíra em e-mail ao ministério: “Nos disseram para incluí-lo, mas ele não estava nos representando. A Davati não tinha conhecimento de quem ele era, então presumimos que era representante deles”.

Deles quem?

Nada disso — essa várzea — impediria que Dominguetti fosse recebido, no dia seguinte, no Ministério da Saúde; nem que, adiante, chegasse ao gabinete do secretário executivo, coronel Elcio Franco.

Para isto serve o rolo Dominguetti/Davati: para mostrar como era fácil alcançar o centro decisório do ministério bastando ter/ser um intermediário, independentemente de haver vacinas a comerciar. Este, o atravessador, o elemento que dispararia o interesse do governo Bolsonaro — não por imunizantes necessariamente, mas por contratos. Era o negócio — a fatura, uma carta de intenções — que fazia a máquina girar. E tudo bem que fosse irreal a oferta, se real fosse a intermediação. Eram necessárias a Precisa, a Belcher, a Davati, até um Dominguetti. O agente que faltara à Pfizer.

Voltamos, pois, ao caso Covaxin. O caso-mãe.

Eis a cronologia, segundo a última versão do Planalto. Em 20 de março, os Mirandas falaram a Bolsonaro sobre traficâncias no Ministério da Saúde relativamente à aquisição dessa vacina. Terceirizando a prevaricação, o presidente mandou Pazuello investigar. Era dia 22. (Não há documento que formalize a ordem.) O general matou no peito. O chefe determinara mesmo que apurasse; que, claro, o ministro da Saúde investigasse seu Ministério da Saúde. Pazuello, por sua vez, terceirizando a terceirização, repassara a demanda a seu braço direito, conforme explicaria, em 29 de junho, à PGR:

— Impende destacar que o secretário executivo Elcio Franco foi responsável pela negociação, contratação e aquisição de todas as vacinas pelo Ministério da Saúde. Por consectário lógico, o agente público com maior expertise para apreciar eventual não conformidade contratual quanto às vacinas era o secretário executivo.

Note-se que o “consectário lógico” de Pazuello é a própria razão para que não fosse Elcio a investigar “eventual não conformidade contratual”. Ou não será uma anomalia — a defesa do vício — estabelecer que o “responsável pela negociação, contratação e aquisição de todas as vacinas” seja o designado a apurar o produto (degenerado, segundo a denúncia) de sua expertise?

Pazuello recebera a ordem — repita-se — em 22 de março. (O mesmo 22 de março em que Regina Célia Silva Oliveira, fiscal do contrato em xeque, autorizaria a abertura do processo de importação da Covaxin, mesmo ante pedido por pagamento antecipado — não previsto — a ser feito a offshore não constante no tratado.) Pazuello seria exonerado no dia seguinte, 23, quando se formalizou demissão anunciada ainda no dia 15. Foi a 24 de março, aliás, já fora da pasta, que associaria a sua queda à falta de “pixulé”; à “crise com liderança política que nós temos hoje, que mandou uma relação pra gente atender e nós não atendemos, e aí você está jurado de morte”. (O mesmo dia 24 em que a Anvisa reclamava, ao ministério, de ser diretamente assediada por e-mails da intermediária Precisa pressionando pelo aval à importação da Covaxin.) A 26 de março, seria Elcio Franco o exonerado, mas não sem que informasse — após três dias de averiguação — estar tudo bem com o contrato; o mesmo suspenso ao fim de junho.

Estará tudo bem até ficar tudo ruim. A crise é também militar. O risco de quando se manda Elcio Franco investigar elcios-francos. Já não dá para culpar apenas “a liderança política que temos hoje” nem cantar somente “se gritar pega Centrão...”.

A cobrar de Bolsonaro um dia

Se se provar que Jair Bolsonaro, por omissão ou cálculo, foi responsável por cerca de 400 mil das quase 530 mil mortes até agora pela Covid no Brasil, ele entrará para um rol de que talvez se orgulhe: o dos genocidas oficialmente reconhecidos pelos tribunais internacionais. Fará companhia nos livros de história a, entre outros, o ugandense Idi Amin Dada, o iraquiano Saddam Hussein e o sudanês Omar al-Bashir. Já é possível, aliás, que estes, somados, tenham matado menos que Bolsonaro.

Mas a contabilidade de um genocídio comporta outros números a apurar. Há que saber, por exemplo, quantos infartos, tumores e tromboses levaram pessoas a óbito porque elas não tinham condições de sair para exames que talvez os prevenissem ou foi impossível atendê-las nos hospitais superlotados. Quantos tratamentos não foram interrompidos com resultados fatais? Quantos infelizes não agonizaram em casa, sozinhos, e só foram encontrados pelos vizinhos dias depois?


Como avaliar as doenças provocadas pelo estresse oriundo da pandemia? Ao ver Bolsonaro na TV cuspindo na nação, como conter sentimentos de medo, raiva ou tristeza, causadores de depressão, úlceras, inapetência, insônia? Quantos não aumentaram seu consumo doméstico de álcool por terem agora mais tempo e pretexto para beber e menos compromissos que os obrigassem a moderar? Quantos casamentos não terão acabado por súbita apatia sexual?

Sem playground, parquinho ou pracinha para brincar, quantas crianças não estão confinadas em casas ou apartamentos e perdendo oportunidades de socialização em períodos decisivos de sua vida? Por causa das aulas online, quantas não estão sendo submetidas ao suplício de uma câmera que talvez não se sintam à vontade para encarar?

Bolsonaro pode não estar em pessoa por trás do drama ou tragédia de cada brasileiro. Mas, de fato, está. Sua maldição paira sobre tudo isso — e sobre nós.

Falta Lalau pra rir do falso moralismo

Valei-me, Stanislaw Ponte Preta! Há 55 anos, num julho como este, você lançava o primeiro Festival de Besteira que Assola o País, o Febeapá, uma espécie de balanço do golpe dos militares – e eis-me aqui a lamentar sua ausência para contar as histórias bizarras protagonizadas agora pelos súditos daqueles. Todo dia tem uma.

A mais recente é a da ministra (que Deus nos perdoe) da Família. Sempre tão proba, carola a ponto de negar aborto a uma adolescente estuprada, no fim de semana ela se viu denunciada em suposto pecado por ex-colega de igreja, um outro cidadão de bem que, por sua vez, é notório na fé de distribuir fake news.

Foi aí, divino mestre da fina flor dos Ponte Preta, todos moradores da então pacata Boca do Mato, foi aí que me lembrei de sua frase, e de como ela ainda é na medida para identificar o falso moralismo do Brasil de hoje: “O homem sensato, quando soube que todos seus vizinhos eram pessoas exemplares, mudou-se imediatamente para outro bairro”.

Esses “homens exemplares” retomaram o poder e ao estilo daqueles de 1964 – com Deus no coração e um revólver engatilhado embaixo do travesseiro. “E o homem honesto?”, você se perguntava. “É aquele que se vende caro?” Pois é, Lalau, o Centrão manda responder que sim. Os teus três volumes do “Febeapá” colecionaram as asneiras militares entre 1964 e 1967. Parecia aquela seção da revista Readers’ Digest, Piadas de Caserna, mas era tudo verdade. Os generais proibiram o balé Bolshoi para combater o comunismo, permitiram um jogo da seleção contra a Alemanha Oriental “desde que não tivesse cunho político”. Confundiram “A capital”, do Eça, com “O capital”, do Marx, e mandaram recolher o portuga das livrarias.

Eu gosto também da notícia em que um delegado mineiro, “para evitar ofensa às forças armadas”, proibiu no carnaval fantasias em que as mulheres ficassem de pernas de fora. Você, o mui digno criador das Certinhas do Lalau, concluiu sábio: “como se perna de mulher alguma vez tivesse ofendido as armas de alguém”.

Lalau, os cronistas que te sucederam em 2021 estão naturalmente enfurecidos com esses moralistas do sétimo dia que sonham o pesadelo de uma nova ditadura. Na ânsia louca de botar o maluco presidenciário no olho da rua, fecharam os punhos, cerraram fileiras e partiram para o discurso. Os cronistas perderam a leveza. Você cutucava a pança gorda dos que zelavam pelos bons costumes com a facada do humor.

Diante de instituições do tipo “Liga da Decência” e “Associação de Pais de Família”, todas metidas a reformar os hábitos alheios, você era só o mais risonho escárnio. “Quem tem a consciência tranquila não entra para clube nenhum. A consciência é como a vesícula, a gente só se preocupa quando dói.”

No Brasil 2021 os novos homens de bem praticam um cristianismo de mercado, onde quem dá aos pobres acha que eles merecem R$ 150 de auxílio emergencial. Zombam da fé, os insensatos. Já mataram 500 mil pessoas e avisaram que a vida é assim mesmo, vão morrer outras tantas porque, como você debochava, “quem não morre não vê Deus”.

A avacalhação é geral, mente-se como nos tempos do Febeapá original, “com tanta ênfase que até o contrário do que se diz está longe da verdade” – e eu sinto falta de teu humor para documentar o chorrilho de tantas sandices. Locupletam-se todos, ninguém restaura a moralidade. Muito lalau, meu caro, e pouco Lalau, os males do Brasil são.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

O bolsonarismo e sua paixão mórbida pela Bíblia

Na Comissão do Senado que investiga os possíveis crimes cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro por ocasião da pandemia, a Bíblia foi citada várias vezes. São especialmente os defensores de Bolsonaro que a usam como arma de defesa na chamada CPI da Pandemia.


Já o hoje presidente, quando era um simples deputado, defendeu no Congresso que o Estado é laico, mas “o Brasil é cristão”, e acrescentou: “E quem não gostar, pode ir embora”.

Quando foi eleito presidente, levantou a Bíblia nas mãos junto com a Constituição. Em seu lema como chefe de Estado, escolheu a frase bíblica: “a verdade vos libertará” e acrescentou: “Deus acima de tudo”. Essa paixão pela Bíblia do bolsonarismo raiz, além de mórbida, é perigosa, porque está próxima do teocentrismo de alguns países islâmicos envolvidos com o terrorismo. E nada é mais perigoso do que usar a Bíblia como instrumento de violência.

O Governo Bolsonaro já teve um ministro da educação que pretendia substituir os livros didáticos pela Bíblia nas escolas. O que os bolsonaristas ignoram é que é precisamente a Bíblia, e especialmente o Novo Testamento, que condena a mentira, que é um dos elementos mais usados pelo bolsonarismo.

O capitão genocida já nos habituou a usar as crianças para seus ensinamentos a favor da violência e das armas. Já durante sua campanha eleitoral, uma foto se tornou viral e escandalizou. Foi quando, rodeado de seguidores, tomou nos braços uma menina de cinco anos e ensinou-a a fazer o gesto de disparar um revólver com suas mãos inocentes.


É estranha essa paixão e simbolismo mórbidos de usar crianças em gestos relacionados com a violência. Assim foi dias atrás sua violência moral levada a cabo em sua visita ao Rio Grande do Norte, com uma menina e um menino de 10 anos. Pediu a ela, que ia recitar um poema, que tirasse a máscara. Ao garoto, que pegou nos braços, ele mesmo a arrancou em meio às pessoas, expondo ambos ao perigo do contágio. É difícil saber o que esses dois gestos de violência com essas crianças podem representar um dia em suas vidas.

O que está claro é que Bolsonaro usa até com os pequenos seu fascínio pela violência e pela morte. Não por acaso transmitiu aos três genros essa paixão desesperada pelas armas e pela morte. É impressionante, por exemplo, uma foto em que aparecem ele e seus três filhos, Flávio, Eduardo e Carlos, imitando com as mãos o gesto de disparar uma arma enquanto riem às gargalhadas.

Depois do novo escândalo de corrupção das vacinas que está aterrorizando o presidente, é visível seu nervosismo e seu pavor de que possa ser deposto do cargo. Aquele que se apresentou como o Savonarola contra a corrupção, alardeando que não existia em seu Governo, hoje aparece nu sem saber onde se esconder. Sua única defesa é o ataque, que a esta hora soa falso e revela mais sua fraqueza do que sua força.

Nas manifestações de protesto convocadas para este sábado contra Bolsonaro e sua política de morte na gestão da pandemia, deveriam ser destacados os escândalos de corrupção com as vacinas, considerado um crime sem perdão porque custou muitas vidas, bem como o gesto de violência cometido com as crianças a quem tirou as máscaras.

Bolsonaro, que gosta tanto da Bíblia, deveria ser lembrado de que a única vez que Jesus pede a pena de morte é contra aqueles que “escandalizam uma criança”. É uma passagem que também deveria ser destacada nas manifestações. Essa página bíblica em que Jesus pede a pena de morte para quem escandaliza uma criança, explica que seria melhor “que lhe pusessem o pescoço em uma roda de moinho e que o jogassem ao mar”.

Nas manifestações, se voltará a exigir a saída de Bolsonaro do poder por conta dos escândalos de corrupção na compra de vacinas. Há quem peça a pena de prisão. Mas se o crime de corrupção é grave, não é menos grave o gesto violento de arrancar a máscara do rosto de uma criança inocente.

Desde suas origens a Igreja deu importância especial àquela passagem dos Evangelhos canônicos em que Jesus pede a pena de morte para quem escandaliza uma criança. Essa afirmação tão dura deve ter impressionado tanto os primeiros cristãos que aparece em três dos evangelhos canônicos (Mt, 18; Mc, 9 e Lc, 9), sinal de que foi um dos episódios da vida de Jesus que mais chocaram as primeiras comunidades de seus seguidores.

Se não há perdão para os abutres que se alimentam da carniça da corrupção das vacinas, tampouco deve haver para quem que escandaliza e corrompe uma criança. Que nem a CPI nem o Supremo se esqueçam disso, já que o Congresso aparece com os ouvidos surdos ao grito da rua que pede “fora, Bolsonaro, já”.

A lei e a família

O Estado Democrático de Direito exige a investigação de fatos suspeitos e indícios de crime. Ninguém está acima da lei. Para isso, é fundamental que as instituições possam, dentro de suas respectivas competências, funcionar de forma independente.

O governo Bolsonaro atua em sentido contrário à elucidação dos fatos, seja negando qualquer possibilidade de corrupção no governo federal – daí que toda investigação seria por princípio desnecessária –, seja tentando que as instituições operem dentro de uma lógica de lealdade pessoal. O critério já não seria apenas a lei, mas principalmente as relações pessoais.


Tal modo de agir do governo Bolsonaro não é nenhum segredo. Ao explicar no ano passado a escolha que havia feito para o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Bolsonaro foi explícito: “Kassio Nunes já tomou muita tubaína comigo. (…) A questão de amizade é importante, né?”.

Diante desse exercício do poder despudoradamente antirrepublicano, são especialmente relevantes duas recentes decisões do Supremo, determinando o prosseguimento de investigações que envolvem o presidente Jair Bolsonaro e três de seus filhos.

No dia 28 de junho, os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Fabiano Contarato (Rede-ES) e Jorge Kajuru (Podemos-GO) enviaram ao STF notícia-crime pedindo a abertura de inquérito para investigar se o presidente Bolsonaro cometeu crime de prevaricação no caso da negociação da vacina indiana Covaxin. De forma um tanto esquisita, tendo em vista a gravidade dos fatos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) não tomou nenhuma providência. Disse que era preciso esperar o término da CPI da Pandemia.

Diante dessa passividade – muito conveniente, por sinal, aos interesses do Palácio do Planalto –, a ministra Rosa Weber foi contundente. “No desenho das atribuições do Ministério Público, não se vislumbra o papel de espectador das ações dos Poderes da República. Até porque a instauração de Comissão Parlamentar de Inquérito não inviabiliza a apuração simultânea dos mesmos fatos por outros atores investidos de concorrentes atribuições, dentre os quais as autoridades do sistema de justiça criminal.”

Na decisão, a ministra Rosa Weber determinou a reabertura de vista dos autos à PGR. Então, só então, o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, pediu a abertura de inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro a respeito da acusação de prevaricação. Vê-se como é importante insistir na defesa do Direito.

O segundo caso em que o Supremo precisou contornar o desinteresse da PGR em contrariar Jair Bolsonaro refere-se à investigação dos atos antidemocráticos. Apesar de a Polícia Federal ter encontrado indícios de crime, a PGR pediu o arquivamento do Inquérito (INQ) 4.828, que apurava a realização e o patrocínio desses atos.

Em deferência às atribuições do Ministério Público, o ministro Alexandre de Moraes acolheu o pedido da PGR, arquivando o INQ 4.828. No entanto, na mesma decisão, o ministro determinou a abertura de um novo inquérito com o objetivo de investigar grupos que atacam a democracia.

“A análise dos fortes indícios e significativas provas apresentadas pela investigação realizada pela Polícia Federal aponta a existência de uma verdadeira organização criminosa, de forte atuação digital e com núcleos de produção, publicação, financiamento e político absolutamente semelhantes àqueles identificados no Inquérito 4.781, com a nítida finalidade de atentar contra a Democracia e o Estado de Direito”, escreveu Alexandre de Moraes.

Na decisão, os três filhos mais velhos do presidente – Flávio, Carlos e Eduardo – são mencionados na condição de arrolados pela Polícia Federal como possíveis integrantes de organização criminosa destinada a atacar a democracia.

O Estado deve ser capaz de investigar com isenção todos os fatos suspeitos, sejam quais forem os envolvidos. Não existe imunidade ou impunidade por parentesco. Numa República, todo cidadão é responsável perante a lei pelos seus atos, sem discriminações nem privilégios.