O presidente Jair Bolsonaro aproveitou, ontem, a entrega de casas populares no Distrito Federal para anunciar que desembarca, amanhã, em Chapecó, município de 225 mil habitantes em Santa Catarina, distante 550 quilômetros de Florianópolis.
Motivo da visita: o “trabalho excepcional” feito pela prefeitura de Chapecó no combate à pandemia. Um trabalho, segundo ele, que deu liberdade aos médicos para prescreverem o tratamento precoce da doença. O ministro da Saúde irá com ele.
Chapecó está com 100% das UTIs lotadas. Acumula mais mortes por 100 mil habitantes do que o país e o Estado. Dos 537 mortos pelo vírus, mais de 410 foram registrados somente este ano. Em fevereiro último, o sistema de saúde entrou em colapso.
Apesar disso, o prefeito João Rodrigues (PSD) garante que a doença “está 100% controlada”. O que tem, segundo ele, “são as UTIs lotadas”. Mesmo assim, em Chapecó, cidade onde “a economia bomba”, é “proibido falar em lockdown".
Bolsonaro vai sentir-se em casa.
terça-feira, 6 de abril de 2021
A falsa crise e a crise permanente
Militares — ao menos os de alta patente — não respaldam o golpismo de Jair Bolsonaro. Ok. Vá lá. Respaldam, porém, o governo por meio do qual Bolsonaro exercita seu golpismo. Isso é um fato. Serei generoso a respeito. Admitamos que tenha havido, entre os generais que embarcaram na canoa do capitão, os que desconhecessem a figura. (Falei que seria generoso.) Passados dois anos, contudo: se ficam, endossam. Se ficam, ante tudo quanto há, acumpliciam-se. Se ficam e se ficaram, os que saíram anteontem, de súbito democratas: cúmplices.
O governo é militar — e já vai tarde o tempo, um Pazuello de distância, em que se poderia reverter essa associação. É orgânica, embora tenha como marca a produção de cloroquina em laboratórios do Exército. São cerca de 6 mil os militares (quase a metade, da ativa) incorporados à administração federal, em ministérios, inclusive os palacianos, e estatais. E é com assento neste corpo, na projeção de força que esta estrutura musculosa insinua, que o presidente da República fala — e continua a falar —em “meu Exército”.
O governo é militar — e autocrático. O presidente não se tornou este populista-autoritário na semana passada; e foi por ser o que é que atraiu tantos generais-helenos. A dança das cadeiras se dá em torno — e em função — de Bolsonaro. Um general vai; outro vem. As Forças Armadas, o Exército acima de todas, permanecem.
Estão todos felizes nesta parceria; o que não exclui reacomodações eventuais.
Sim: houve tensão no processo que resultou na queda de Azevedo e Silva. Não ficou claro o que Bolsonaro lhe teria pedido que ainda não tivesse entregado; sendo o ex-ministro da Defesa aquele, e não posso crer que obrigado, que sobrevoara, com o presidente, em helicóptero militar, uma manifestação golpista, e que continuaria no cargo mesmo depois de o chefe haver discursado em ato antidemocrático defronte ao QG do Exército. O que mais queria Bolsonaro? O que mais quererá, que Azevedo e Silva não topou dar, e que Braga Netto — dedução lógica —toparia? (Sempre haverá quem tope, ou general Ramos não se teria transformado neste Carlos Marun fardado.)
Houve alguma tensão. Mas não a crise que se quis difundir — e que só faz o jogo do presidente. O que quer que tenha sido: nada que mudasse a relação de Bolsonaro com os militares. Nada nem sequer próximo de estremecer uma sociedade que — diga-se —tende a se aprofundar no novo arranjo. Ou, com Braga Netto na Defesa, teremos menos militares no governo? Ou, sob Braga Netto, não seria mais fácil esperar que esse número aumentasse?
Que crise será esta em que os partícipes todos engordam? Ora: só uma — um falso problema — que fosse forjada; e boa para todos os envolvidos.
O general demitido saiu plantando, com eficiência, que sua débâcle derivava de não ter aceitado pressão por apoio político — por mais apoio político, né? — das Forças Armadas ao governo. E, desse modo, sem maiores questionamentos, foi para casa beatificado, um guerreiro em defesa da democracia e das Armas como instituições de Estado; como se não tivesse assinado, nos 31 de março de 2019 e 2020, ordens do dia cujas exaltações ao golpe de 1964 foram mais intensas que a de 2021.
Virou herói. Contou sua história, não foi chamado a detalhá-la ao Senado e virou santo, assim como Bolsonaro virara defensor da vacinação em massa. E ficaram todos felizes: o democrata (desde a véspera) e o golpista (sem dentes para dar golpe); os perigos obscuros sugeridos por Azevedo e Silva alimentando o terrorismo — banguela — do presidente.
Era tudo de que Bolsonaro precisava. Uma crise artificial— conflito forjado — para demonstrar força, que não tem, num período em que vai obviamente isolado, desprovido de recursos políticos para robustecer o governo que não os oferecidos por Arthur Lira. Puro truque: fabricar um confronto para exibir quem manda, quem tem poder, enquanto, no mundo real, o Centrão derruba o ministro das Relações Exteriores, sequestra o Orçamento e chega ao Planalto tomando a articulação política.
Bolsonaro neste momento: um fraco, um sozinho, que tem os filhos como recursos humanos, e que estica a corda a cada vez que tem essa miséria exposta. Arma-se um perigoso ciclo de instabilidade, que aguça — aí, sim — a crise real. Uma crise permanente. Porque o fraco, naturalmente, mostra fraqueza —e essa fraqueza evidente faz com que o fraco, sendo ele Bolsonaro, precise mostrar força. Assim giramos... Azevedo e Silva serviu de escada para que o presidente desfilasse seu poder imaginário: aquele que demite os comandantes militares, que faz e acontece, sendo o mesmo que entrega latifúndios de seu governo em busca de sustentação e blindagem.
A questão é lógica: ou Bolsonaro é mito ou precisa receber Valdemar da Costa Neto no Planalto. Isso implica uma pane em sua base de apoio fundamental, em resposta a que, para agradá-la, tem de radicalizar. E então radicaliza, com nova rodada de ataques aos tiranos governadores e mais referências ao “meu Exército” (fantasia que Azevedo e Silva fez parecer real) — ataques, entretanto, que não serão chancelados pelo sócio (de capital crescente) Centrão. Eis o ciclo da desgraça, da progressiva corrosão republicana. A crise constante. O nosso buraco. Contratado um país que, estando paralisado, não terá como andar tão cedo.
O governo é militar — e já vai tarde o tempo, um Pazuello de distância, em que se poderia reverter essa associação. É orgânica, embora tenha como marca a produção de cloroquina em laboratórios do Exército. São cerca de 6 mil os militares (quase a metade, da ativa) incorporados à administração federal, em ministérios, inclusive os palacianos, e estatais. E é com assento neste corpo, na projeção de força que esta estrutura musculosa insinua, que o presidente da República fala — e continua a falar —em “meu Exército”.
O governo é militar — e autocrático. O presidente não se tornou este populista-autoritário na semana passada; e foi por ser o que é que atraiu tantos generais-helenos. A dança das cadeiras se dá em torno — e em função — de Bolsonaro. Um general vai; outro vem. As Forças Armadas, o Exército acima de todas, permanecem.
Estão todos felizes nesta parceria; o que não exclui reacomodações eventuais.
Sim: houve tensão no processo que resultou na queda de Azevedo e Silva. Não ficou claro o que Bolsonaro lhe teria pedido que ainda não tivesse entregado; sendo o ex-ministro da Defesa aquele, e não posso crer que obrigado, que sobrevoara, com o presidente, em helicóptero militar, uma manifestação golpista, e que continuaria no cargo mesmo depois de o chefe haver discursado em ato antidemocrático defronte ao QG do Exército. O que mais queria Bolsonaro? O que mais quererá, que Azevedo e Silva não topou dar, e que Braga Netto — dedução lógica —toparia? (Sempre haverá quem tope, ou general Ramos não se teria transformado neste Carlos Marun fardado.)
Houve alguma tensão. Mas não a crise que se quis difundir — e que só faz o jogo do presidente. O que quer que tenha sido: nada que mudasse a relação de Bolsonaro com os militares. Nada nem sequer próximo de estremecer uma sociedade que — diga-se —tende a se aprofundar no novo arranjo. Ou, com Braga Netto na Defesa, teremos menos militares no governo? Ou, sob Braga Netto, não seria mais fácil esperar que esse número aumentasse?
Que crise será esta em que os partícipes todos engordam? Ora: só uma — um falso problema — que fosse forjada; e boa para todos os envolvidos.
O general demitido saiu plantando, com eficiência, que sua débâcle derivava de não ter aceitado pressão por apoio político — por mais apoio político, né? — das Forças Armadas ao governo. E, desse modo, sem maiores questionamentos, foi para casa beatificado, um guerreiro em defesa da democracia e das Armas como instituições de Estado; como se não tivesse assinado, nos 31 de março de 2019 e 2020, ordens do dia cujas exaltações ao golpe de 1964 foram mais intensas que a de 2021.
Virou herói. Contou sua história, não foi chamado a detalhá-la ao Senado e virou santo, assim como Bolsonaro virara defensor da vacinação em massa. E ficaram todos felizes: o democrata (desde a véspera) e o golpista (sem dentes para dar golpe); os perigos obscuros sugeridos por Azevedo e Silva alimentando o terrorismo — banguela — do presidente.
Era tudo de que Bolsonaro precisava. Uma crise artificial— conflito forjado — para demonstrar força, que não tem, num período em que vai obviamente isolado, desprovido de recursos políticos para robustecer o governo que não os oferecidos por Arthur Lira. Puro truque: fabricar um confronto para exibir quem manda, quem tem poder, enquanto, no mundo real, o Centrão derruba o ministro das Relações Exteriores, sequestra o Orçamento e chega ao Planalto tomando a articulação política.
Bolsonaro neste momento: um fraco, um sozinho, que tem os filhos como recursos humanos, e que estica a corda a cada vez que tem essa miséria exposta. Arma-se um perigoso ciclo de instabilidade, que aguça — aí, sim — a crise real. Uma crise permanente. Porque o fraco, naturalmente, mostra fraqueza —e essa fraqueza evidente faz com que o fraco, sendo ele Bolsonaro, precise mostrar força. Assim giramos... Azevedo e Silva serviu de escada para que o presidente desfilasse seu poder imaginário: aquele que demite os comandantes militares, que faz e acontece, sendo o mesmo que entrega latifúndios de seu governo em busca de sustentação e blindagem.
A questão é lógica: ou Bolsonaro é mito ou precisa receber Valdemar da Costa Neto no Planalto. Isso implica uma pane em sua base de apoio fundamental, em resposta a que, para agradá-la, tem de radicalizar. E então radicaliza, com nova rodada de ataques aos tiranos governadores e mais referências ao “meu Exército” (fantasia que Azevedo e Silva fez parecer real) — ataques, entretanto, que não serão chancelados pelo sócio (de capital crescente) Centrão. Eis o ciclo da desgraça, da progressiva corrosão republicana. A crise constante. O nosso buraco. Contratado um país que, estando paralisado, não terá como andar tão cedo.
Bolsonaro e o mito de Sísifo
O consagrado escritor francês Albert Camus foi um existencialista, para quem o homem vive em busca de sua essência, do seu sentido, e encontra um mundo desconexo, ininteligível, guiado por religiões e ideologias políticas. Num de seus ensaios filosóficos, Camus classifica Sísifo, um dos grandes personagens da mitologia grega, como um herói absurdo. “Tanto por causa de suas paixões como por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo seu ser se empenha em não terminar coisa alguma. É o preço que se paga pelas paixões desta terra”, resumiu.
Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o cume de uma montanha, de onde a pedra se precipitava por seu próprio peso. “Imaginaram que não haveria punição mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança”, afirma Camus, que publicou O Mito de Sísifo em 1942. Nessa obra, destaca o mundo imerso em irracionalidades. “Ou não somos livres, e o responsável pelo mal é Deus todo-poderoso, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo-poderoso”, questionava.
Àquela época, em plena Segunda Guerra Mundial, o mundo parecia mesmo absurdo: a guerra, a ocupação da França, o triunfo aparente da violência e da injustiça, tudo se opunha ao humanismo e à ideia de civilização. O trabalho de Sísifo, ao empurrar incessantemente uma pedra até o alto da montanha, até ela tornar a cair, é uma analogia perfeita com o esforço empreendido por profissionais da saúde, prefeitos e governadores para combater a pandemia do novo coronavírus: a covid-19. Entretanto, esse não é um trabalho inútil e sem esperança, como no caso do mito grego. É uma batalha que acabará sendo ganha, apesar de tudo.
Como disse Camus, porém, “sempre houve homens para defender os direitos do irracional”. O problema é quando se trata de um governante, como o presidente Jair Bolsonaro, que combate as medidas de isolamento social e mobiliza seus aliados para sabotar os esforços dramáticos que estão sendo realizados para evitar que a pandemia mantenha sua escalada, que pode chegar a mais de 500 mil mortos em julho, segundo estimativas dos principais centros de estudos epidemiológicos do mundo.
Luiz Carlos Azedo
Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o cume de uma montanha, de onde a pedra se precipitava por seu próprio peso. “Imaginaram que não haveria punição mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança”, afirma Camus, que publicou O Mito de Sísifo em 1942. Nessa obra, destaca o mundo imerso em irracionalidades. “Ou não somos livres, e o responsável pelo mal é Deus todo-poderoso, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo-poderoso”, questionava.
Àquela época, em plena Segunda Guerra Mundial, o mundo parecia mesmo absurdo: a guerra, a ocupação da França, o triunfo aparente da violência e da injustiça, tudo se opunha ao humanismo e à ideia de civilização. O trabalho de Sísifo, ao empurrar incessantemente uma pedra até o alto da montanha, até ela tornar a cair, é uma analogia perfeita com o esforço empreendido por profissionais da saúde, prefeitos e governadores para combater a pandemia do novo coronavírus: a covid-19. Entretanto, esse não é um trabalho inútil e sem esperança, como no caso do mito grego. É uma batalha que acabará sendo ganha, apesar de tudo.
Como disse Camus, porém, “sempre houve homens para defender os direitos do irracional”. O problema é quando se trata de um governante, como o presidente Jair Bolsonaro, que combate as medidas de isolamento social e mobiliza seus aliados para sabotar os esforços dramáticos que estão sendo realizados para evitar que a pandemia mantenha sua escalada, que pode chegar a mais de 500 mil mortos em julho, segundo estimativas dos principais centros de estudos epidemiológicos do mundo.
Luiz Carlos Azedo
'Poder já está em nossas mãos', diz Zero Três ao negar que queira ditadura
Quando encontra um espaço baldio entre as orelhas, o poder costuma subir à cabeça. Foi o que ocorreu com o deputado Eduardo Bolsonaro. Alvo de duas representações no Conselho de Ética por ter defendido a volta do AI-5, o filho Zero Três do presidente da República disse que os Bolsonaro não têm interesse na restauração da ditadura, porque "o poder já está em nossas mãos".
Numa entrevista que concedeu em 2019, Eduardo Bolsonaro declarou que, se a esquerda brasileira radicalizar, "a gente vai precisar ter uma resposta. E a resposta pode ser via um novo AI-5." O Ato Institucional número 5 foi o mais draconiano instrumento da ditadura militar. Produziu, entre outras atrocidades, o fechamento do Congresso. Um deputado que jura respeitar a Constituição ao tomar posse deveria ter algum respeito pelo menos à inteligência alheia.
Ao se defender no Conselho de Ética, o Zero Três não teve como desdizer o que dissera. A entrevista foi gravada em vídeo. Saiu-se, então, com a tese segundo a qual a ditadura não interessa a quem já dispõe do poder.
"Já sendo eleito presidente da República, o menos interessado em que o país vire uma ditadura é o próprio presidente Jair Bolsonaro", disse o herdeiro do capitão. "Em igual conta, eu também, deputado federal mais votado da história do país. E muitos aí dizem que eu deveria ser cassado. Uma total violação do nosso sistema representativo. Sou o menos interessado também em ter qualquer tipo de ditadura, porque o poder já está em nossas mãos."
Eduardo Bolsonaro ainda não notou. Mas seu pai tornou-se um presidente da cota do centrão. Não é Bolsonaro que passou a ter uma base congressual. O centrão é que voltou a ter o presidente. De resto, ainda que se admitisse, para efeito de raciocínio, que os Bolsonaro estão no poder seria necessário realçar que falta-lhes alguma coisa qualquer que possa ser chamada de governo.
Ficou para a semana que vem a decisão do Conselho de Ética sobre o pedido de cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro por quebra de decoro parlamentar. A punição é improvável. Relator do caso, o deputado Igor Timo (Podemos-MG) já recomendou o arquivamento. Nada mais previsível.
Mal comparando, o Zero Três faz lembrar um personagem secundário da peça Júlio César, de Shakespeare. Açulados por Marco Antonio, os plebeus saem à caça dos assassinos de César. Encontram Cinna. Alguém grita: "Matem-no, é um dos conspiradores!" Ouve-se uma voz ao fundo: "Não, é apenas Cinna, o poeta." E ecoa no ar uma sentença: "Então, matem-no pelos maus versos".
O mandato de Eduardo Bolsonaro deveria ser passado na lâmina até por conta dos seus "maus versos". Mas um Congresso que convive com deputada acusada de mandar matar o marido e com senador pilhado com dinheiro na cueca... um Congresso assim é capaz de absorver qualquer absurdo.
Numa entrevista que concedeu em 2019, Eduardo Bolsonaro declarou que, se a esquerda brasileira radicalizar, "a gente vai precisar ter uma resposta. E a resposta pode ser via um novo AI-5." O Ato Institucional número 5 foi o mais draconiano instrumento da ditadura militar. Produziu, entre outras atrocidades, o fechamento do Congresso. Um deputado que jura respeitar a Constituição ao tomar posse deveria ter algum respeito pelo menos à inteligência alheia.
Ao se defender no Conselho de Ética, o Zero Três não teve como desdizer o que dissera. A entrevista foi gravada em vídeo. Saiu-se, então, com a tese segundo a qual a ditadura não interessa a quem já dispõe do poder.
"Já sendo eleito presidente da República, o menos interessado em que o país vire uma ditadura é o próprio presidente Jair Bolsonaro", disse o herdeiro do capitão. "Em igual conta, eu também, deputado federal mais votado da história do país. E muitos aí dizem que eu deveria ser cassado. Uma total violação do nosso sistema representativo. Sou o menos interessado também em ter qualquer tipo de ditadura, porque o poder já está em nossas mãos."
Eduardo Bolsonaro ainda não notou. Mas seu pai tornou-se um presidente da cota do centrão. Não é Bolsonaro que passou a ter uma base congressual. O centrão é que voltou a ter o presidente. De resto, ainda que se admitisse, para efeito de raciocínio, que os Bolsonaro estão no poder seria necessário realçar que falta-lhes alguma coisa qualquer que possa ser chamada de governo.
Ficou para a semana que vem a decisão do Conselho de Ética sobre o pedido de cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro por quebra de decoro parlamentar. A punição é improvável. Relator do caso, o deputado Igor Timo (Podemos-MG) já recomendou o arquivamento. Nada mais previsível.
Mal comparando, o Zero Três faz lembrar um personagem secundário da peça Júlio César, de Shakespeare. Açulados por Marco Antonio, os plebeus saem à caça dos assassinos de César. Encontram Cinna. Alguém grita: "Matem-no, é um dos conspiradores!" Ouve-se uma voz ao fundo: "Não, é apenas Cinna, o poeta." E ecoa no ar uma sentença: "Então, matem-no pelos maus versos".
O mandato de Eduardo Bolsonaro deveria ser passado na lâmina até por conta dos seus "maus versos". Mas um Congresso que convive com deputada acusada de mandar matar o marido e com senador pilhado com dinheiro na cueca... um Congresso assim é capaz de absorver qualquer absurdo.
Homens pequenos
Quem atentar para o número de vezes em que a defesa da liberdade está sendo utilizada para a consumação de atos nocivos à sociedade dará razão ao Marquês de Maricá (Rio, 1773-1848): “Quando em um povo só se escutam vivas à liberdade, a anarquia está à porta e a tirania pouco distante”. A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nunes Marques de liberar os cultos religiosos presenciais no auge da pandemia — certamente para agradar ao presidente Bolsonaro — foi errada em todos os sentidos, mesmo que a liberdade religiosa seja usada para a defesa da tese.
O “novato”, como o qualificou o decano do Supremo, ministro Marco Aurélio Mello, foi contra a deliberação do próprio STF, que já decidira que prefeitos e governadores têm a prerrogativa para decidir sobre as restrições durante a pandemia. No afã de atender aos evangélicos, foi além do pedido da Associação Nacional de Juristas Evangélicos, que estava preocupada com decretos estaduais e municipais que proibiram a realização de cultos evangélicos até mesmo para transmissão pela internet, o que é um absurdo.
Nunes Marques liberou completamente os cultos presenciais, com algumas restrições, como distanciamento entre os fiéis e uso de máscara. O ministro Gilmar Mendes, que é o relator de duas ações no Supremo sobre o tema, rejeitou ontem o pedido do PSD de São Paulo contra a decisão do governo de São Paulo de proibir os cultos presenciais. Para o ministro, “em cenário tão devastador, é patente reconhecer que as medidas de restrição de cultos coletivos, por mais duras que sejam, são não apenas adequadas, mas necessárias ao objetivo maior de realização de proteção da vida e do sistema de saúde”.
O plenário do Supremo julgará o caso amanhã, e deverá manter a proibição, deixando claro que os atos pela internet podem ser realizados. Para dar um toque patético ao caso, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao Supremo que tire a relatoria do ministro Gilmar Mendes e a passe ao ministro Nunes Marques, autor da autorização mais realista que o rei. O que uma disputa de vaga do Supremo, que pode ser decidida a favor de um candidato “terrivelmente evangélico”, não faz? Decisões monocráticas estão transformando o STF em 11 Supremos. Cada ministro tem uma ideia na cabeça e exerce seu direito de liminar, fazendo vista grossa para decisões do colegiado.
Outro uso cinicamente ampliado do que seja liberdade individual está na insistência do presidente Bolsonaro na defesa de “tratamento precoce” no combate ao coronavírus da pandemia. Ele ontem voltou a dizer que a “liberdade dos médicos deve ser total” na prescrição de remédios que possam minorar os efeitos da Covid-19. Só que não existe esse remédio, segundo orientação da Organização Mundial da Saúde. Já há decisão formal de que a cloroquina não deve ser usada, pelo alto risco, inclusive de morte. A Anvisa já detectou nove mortes devido ao uso da cloroquina ou hidroxicloroquina.
Também o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, excedeu-se no uso da palavra “liberdade” quando disse em discurso: “As Forças são fiéis às suas missões constitucionais, de defender a pátria, garantir os poderes constitucionais e as liberdades democráticas”. Já a Constituição, em seu artigo 142, diz que as Forças Armadas destinam-se “à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais, e, por iniciativa de qualquer destes, a lei e a ordem”.
Portanto, nenhuma referência na Constituição ao papel das Forças Armadas na defesa “das liberdades democráticas”. Basta que cumpram suas missões constitucionais que estarão a salvo, sem que o artigo 142 seja distorcido para validar intervenções militares, como querem bolsonaristas de vários calões. Uso mais uma vez o Marquês de Maricá para terminar: “Os grandes empregos desacreditam e ridicularizam os pequenos homens”.
Paixão sem Aleluia
Silone escreveu uma peça teatral tirada de seu livro "Pão e vinho" e que me parece muito superior ao livro. É uma peça em que entram cristianismo e comunismo; mas tudo isso através da vida, e de uma vida simples. Não tenho dúvida de que qualquer dia essa peça será representada no Brasil, e como não sou crítico de teatro (nem de filosofia), deixo honradamente ao leitor o trabalho de julgá-la.
Lembrei-me disso hoje por causa de um padre que há no drama. É um padre que parece não estar funcionando muito bem da cabeça. Cai na pior heresia. Ele acredita, por exemplo, na Sexta-Feira da Paixão. Mas não acredita no Sábado de Aleluia. Vejam que tremendo espírito de porco há nessa tese. Cristo não morreu, nem, portanto, ressuscitou. Cristo está morrendo. Sua agonia se prolonga. Ele agoniza ao longo dos minutos e dos séculos, torturado pela nossa maldade, pelos nossos erros tão negros. Cada ruindade que fazemos é um espinho em sua carne. Ele está sempre morrendo.
Contada assim, por um cronista leviano, essa história parece não ter importância. Mas vivida por um espírito crente é profundamente patética. É intolerável. O ano inteiro será de Paixão, sem nenhuma aleluia. O bom cristão, que tanto se compunge na sexta-feira, mas sempre, através das lágrimas, tem um olho aberto para o desafogo no sábado, teria de viver numa eterna sexta-feira. Ó tu que jogas pif-paf, ó mulher de olhos claros que emudeceste na Paixão o riso claro como trinado de canário, e todavia jogas pif-paf no sábado, larga essas cartas. Cessa a música dos bailes, o cálido murmúrio do amor no portão, e assim também o berro do esporte, a gargalhada do cinema: e que se cale o assobio profano: Cristo está em plena agonia, tu o torturas, com teu prazer.
Não são os pecados de cada homem que mais angustiam o padre louco de Silone. São os pecados sociais. É a opressão e a exploração do homem pelo homem que o amarga. Ele vê em Cristo a lição de igualdade e justiça. O Diabo age através da mais-valia, atrás do lucro... Não é diante do ministério da Fazenda, mas diante de Deus que o capitalista tem de prestar contas dos lucros extraordinários.
É forte, mas talvez muitos prefiram...
Cúpula militar acende alerta sobre bolsonarismo e agora tenta calcular perdas e ganhos
Novembro de 2014. Um grupo de aspirantes a oficial do Exército brasileiro cruza com Jair Bolsonaro nos jardins da Academia Militar das Agulhas Negras. Começam a gritar: “Líder, líder, líder...”. Ele cumprimenta agradecido e improvisa algumas palavras diante das dezenas de jovens com uniforme de gala e quepe.
“Precisamos mudar esse país. Alguns vão morrer pelo caminho, mas em 2018 estou disposto, se Deus permitir, tentar jogar para a Direita esse país! (...) O Brasil é maravilhoso, temos de tudo aqui. Está faltando é político!”. Os militares aplaudem com entusiasmo, como mostra o vídeo publicado no YouTube por um dos filhos do atual presidente.
Quando Bolsonaro falou aos cadetes começava o quarto mandato do Partido dos Trabalhadores. Na Presidência, Dilma Rousseff, que entrou na história como a primeira presidenta. Mas também era uma guerrilheira que foi torturada durante a ditadura e impulsionadora da Comissão da Verdade. A corrupção do PT aflorava. A operação Lava Jato acabava de nascer.
Esse momento —as palavras, o público, o cenário— ajuda a entender a crise que explodiu surpreendentemente nesta semana entre o presidente mais ligado aos militares desde que o Brasil recuperou a democracia, em 1985, e a cúpula das Forças Armadas. Poucas vezes se viu o ultradireitista mais à vontade do que em um quartel cercado de militares, mas na terça-feira destituiu sem consideração o ministro da Defesa. Em um efeito dominó, no dia seguinte os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica renunciaram em uníssono.
Outro ponto fundamental é o alerta lançado por um dos demissionários, o general Edson Leal Pujol, comandante em chefe do Exército, há quatro meses: “Não queremos ser parte da política de governo e do Congresso, assim como que a política entre em nossos quartéis”. A crise aberta, inédita, disparou as procuras no Google do Brasil de “o que é um golpe de Estado”.
Bolsonaro, reformado do Exército como capitão há 33 anos, “avança cada vez mais em seu projeto de transformar as Forças Armadas em instrumento de Governo. Deu os primeiros passos em 2014, quando visitou a academia militar para começar sua pré-campanha”, diz o professor Eduardo Heleno, da Universidade Federal Fluminense (sem parentesco com o ministro-general de mesmo sobrenome). A crise desmedida desta semana é consequência da “politização dos militares, um fenômeno que Bolsonaro impulsiona, e a militarização da política, que não começou com ele”, acrescenta o especialista do Instituto de Estudos Estratégicos.
Deputado medíocre, em 2014 Bolsonaro era um nostálgico da ditadura famoso por suas grosserias misóginas e homofóbicas. Retornava à academia localizada entre o Rio de Janeiro e São Paulo onde se formou. Durante anos esteve proibido de pisar os quartéis por indisciplina. Abandonou o Exército após ser absolvido em um tribunal militar de instigar a soldadesca ao protesto, mas saiu sem honras. O ditador Ernesto Geisel chegou a dizer sobre ele em 1993: “É um caso completamente fora do normal, é até um mau militar”.
Pensar que conseguiria chegar a presidente era uma loucura. Um delírio. Mas soube ler a conjuntura, também nos quartéis, onde fez campanha eleitoral. O Bolsonaro candidato germinou em meio a uma onda gigantesca de desencanto com a política, agitada pelo discurso contra a corrupção e o ressurgimento do ódio ao PT. Capitalizou a irritação com os partidos, com a política tradicional. Como por mágica, conseguiu se vender como candidato antissistema apesar de levar metade da vida de uniforme verde oliva e outra metade na política pedindo melhorias salariais à tropa.
As Forças Armadas que agora afirmam guardar zelosamente o papel que a Constituição outorga a elas pressionaram sem pudor o Supremo Tribunal Federal com uma publicação no Twitter durante a campanha eleitoral de 2018. Era uma frase trabalhada que foi lançada na véspera de os juízes decidirem se permitiriam a candidatura ou não de Lula. “Eu asseguro à Nação que o Exército Brasileiro acredita que compartilha o desejo de todos os cidadãos de repudiar a impunidade e respeitar a Constituição, a paz social e a Democracia, assim como vigiar suas missões institucionais”, tuitou à época o comandante em chefe do Exército, o general Eduardo Villa Boas. O resultado é conhecido. O Supremo não habilitou Lula, que foi preso. E Bolsonaro disparou nas pesquisas.
Vários colegas da academia militar que chegaram ao generalato o acompanharam na corrida à presidência. Todos formados na Guerra Fria, quando o grande inimigo era o comunismo. Já no poder, além do general vice-presidente com quem foi eleito, trouxe vários outros para ministros. Juntos começaram a recrutar militares para o Governo, centenas e centenas que espalharam por todos os órgãos. Hoje presidem 15 empresas estatais (incluindo a Petrobras), e dirigem outras 92. Por volta de 3.000 militares na ativa e outros tantos na reserva ostentam cargos governamentais, segundo as contas de Heleno.
“Precisamos mudar esse país. Alguns vão morrer pelo caminho, mas em 2018 estou disposto, se Deus permitir, tentar jogar para a Direita esse país! (...) O Brasil é maravilhoso, temos de tudo aqui. Está faltando é político!”. Os militares aplaudem com entusiasmo, como mostra o vídeo publicado no YouTube por um dos filhos do atual presidente.
Quando Bolsonaro falou aos cadetes começava o quarto mandato do Partido dos Trabalhadores. Na Presidência, Dilma Rousseff, que entrou na história como a primeira presidenta. Mas também era uma guerrilheira que foi torturada durante a ditadura e impulsionadora da Comissão da Verdade. A corrupção do PT aflorava. A operação Lava Jato acabava de nascer.
Esse momento —as palavras, o público, o cenário— ajuda a entender a crise que explodiu surpreendentemente nesta semana entre o presidente mais ligado aos militares desde que o Brasil recuperou a democracia, em 1985, e a cúpula das Forças Armadas. Poucas vezes se viu o ultradireitista mais à vontade do que em um quartel cercado de militares, mas na terça-feira destituiu sem consideração o ministro da Defesa. Em um efeito dominó, no dia seguinte os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica renunciaram em uníssono.
Outro ponto fundamental é o alerta lançado por um dos demissionários, o general Edson Leal Pujol, comandante em chefe do Exército, há quatro meses: “Não queremos ser parte da política de governo e do Congresso, assim como que a política entre em nossos quartéis”. A crise aberta, inédita, disparou as procuras no Google do Brasil de “o que é um golpe de Estado”.
Bolsonaro, reformado do Exército como capitão há 33 anos, “avança cada vez mais em seu projeto de transformar as Forças Armadas em instrumento de Governo. Deu os primeiros passos em 2014, quando visitou a academia militar para começar sua pré-campanha”, diz o professor Eduardo Heleno, da Universidade Federal Fluminense (sem parentesco com o ministro-general de mesmo sobrenome). A crise desmedida desta semana é consequência da “politização dos militares, um fenômeno que Bolsonaro impulsiona, e a militarização da política, que não começou com ele”, acrescenta o especialista do Instituto de Estudos Estratégicos.
Deputado medíocre, em 2014 Bolsonaro era um nostálgico da ditadura famoso por suas grosserias misóginas e homofóbicas. Retornava à academia localizada entre o Rio de Janeiro e São Paulo onde se formou. Durante anos esteve proibido de pisar os quartéis por indisciplina. Abandonou o Exército após ser absolvido em um tribunal militar de instigar a soldadesca ao protesto, mas saiu sem honras. O ditador Ernesto Geisel chegou a dizer sobre ele em 1993: “É um caso completamente fora do normal, é até um mau militar”.
Pensar que conseguiria chegar a presidente era uma loucura. Um delírio. Mas soube ler a conjuntura, também nos quartéis, onde fez campanha eleitoral. O Bolsonaro candidato germinou em meio a uma onda gigantesca de desencanto com a política, agitada pelo discurso contra a corrupção e o ressurgimento do ódio ao PT. Capitalizou a irritação com os partidos, com a política tradicional. Como por mágica, conseguiu se vender como candidato antissistema apesar de levar metade da vida de uniforme verde oliva e outra metade na política pedindo melhorias salariais à tropa.
As Forças Armadas que agora afirmam guardar zelosamente o papel que a Constituição outorga a elas pressionaram sem pudor o Supremo Tribunal Federal com uma publicação no Twitter durante a campanha eleitoral de 2018. Era uma frase trabalhada que foi lançada na véspera de os juízes decidirem se permitiriam a candidatura ou não de Lula. “Eu asseguro à Nação que o Exército Brasileiro acredita que compartilha o desejo de todos os cidadãos de repudiar a impunidade e respeitar a Constituição, a paz social e a Democracia, assim como vigiar suas missões institucionais”, tuitou à época o comandante em chefe do Exército, o general Eduardo Villa Boas. O resultado é conhecido. O Supremo não habilitou Lula, que foi preso. E Bolsonaro disparou nas pesquisas.
Vários colegas da academia militar que chegaram ao generalato o acompanharam na corrida à presidência. Todos formados na Guerra Fria, quando o grande inimigo era o comunismo. Já no poder, além do general vice-presidente com quem foi eleito, trouxe vários outros para ministros. Juntos começaram a recrutar militares para o Governo, centenas e centenas que espalharam por todos os órgãos. Hoje presidem 15 empresas estatais (incluindo a Petrobras), e dirigem outras 92. Por volta de 3.000 militares na ativa e outros tantos na reserva ostentam cargos governamentais, segundo as contas de Heleno.
segunda-feira, 5 de abril de 2021
Bolsonaro defendia há 22 anos que o Brasil só se salvaria com uma guerra civil
Aqueles que, como este colunista, viveram durante a infância a Guerra Civil Espanhola, em que morreram quase um milhão de pessoas e cerca de 30.000 crianças, sentem calafrios só de falar sobre uma guerra entre irmãos. Lembro que minha mãe fechava as janelas que davam para a estrada para que eu não visse os fuzilamentos. Só ouvia os tiros dos fuzis e das metralhadoras. Era uma guerra entre irmãos. E lembro-me de quando alguns camponeses escondiam de noite o meu pai, que era professor primário, por medo de que viessem fuzilá-lo.
É isso que o presidente Bolsonaro deseja para o Brasil?
Sim, esse era o seu sonho há 22 anos, quando era deputado do chamado baixo clero sem que se destacasse por nada além de sua homofobia, seu desprezo pelas mulheres e a sua defesa da ditadura e da tortura. Em 1999, em uma entrevista ao programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes, disse textualmente: “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30.000”.
Infelizmente o Congresso considerou então apenas como extravagâncias as ameaças do deputado militar. Se tivesse sido processado na época, hoje não seria presidente nem sofreríamos as contínuas ameaças de golpes autoritários. Em qualquer democracia do mundo, um deputado que defendesse uma guerra civil na televisão seria processado e destituído do cargo. A Bolsonaro permitiu-se desde o primeiro momento fazer todos os ataques mais ferozes à liberdade e aos valores democráticos e defender os torturadores durante a ditadura que, segundo ele, foi demasiado leve porque deveria ter matado muitos mais. E isso foi defendido em pleno Congresso.
Se na ocasião as instituições do Estado, o Congresso e o STF tivessem intervindo, expulsando-o do cargo, hoje o Brasil certamente não teria mais de 300.000 mortos na pandemia e teria poupado tanta dor.
Bolsonaro já deveria ter sido julgado por seu negacionismo da pandemia e por zombar daqueles que lutavam para salvar vidas. As consequências da inércia das instituições em enfrentar o defensor da ditadura fizeram com que o Brasil chegasse até a se perguntar se estamos na iminência de um novo golpe militar. Pelo que se sabe até agora, as Forças Armadas decidiram interromper essa narrativa quando o ministro da Defesa e seus comandantes deixaram seus cargos, sinalizando que para tudo há limites.
Aqueles que continuam defendendo que ainda não é hora de abrir um processo de impeachment contra ele deveriam pensar que amanhã pode ser tarde demais. Pois imaginar que o frustrado capitão ainda possa se converter à democracia é apenas loucura. Ele carrega no sangue o gosto pela morte e pelas armas.
Até quando o Brasil, em que cerca de 80% da população quer viver em democracia, aceitará passivamente que o chefe do Estado, ao invés de governar o país em um de seus momentos mais dramáticos, trame todos os dias para dar um golpe autoritário? O fato de ter colocado um policial amigo da família do presidente como ministro da Justiça é de uma gravidade difícil de qualificar. É uma ofensa à Justiça e revela os instintos do capitão obcecado pelo mundo das armas, pelo desafio da vida e por tudo o que significa morte e violência.
Para alimentar seu rebanho de fanáticos violentos, o presidente esquece e despreza aqueles que preferem apostar na vida, na empatia e na solidariedade com todos aqueles que sofrem e choram com a dor própria e alheia. Para o presidente, hoje abandonado até pelo que chamava de “meu Exército”, quem se defende da pandemia ouvindo a ciência não passa de um bando de covardes com medo de morrer.
Até quando o Brasil são, o que anseia viver em paz e segurança e que não falte comida no prato de seus filhos, continuará ameaçado por fantasmas de golpes e guerras civis? O Brasil já sofre com seus índices de violência que ceifam mais de 40.000 vidas a cada ano, a maioria de jovens e negros.
O escritor norte-americano Ernest Hemingway se perguntava por quem os sinos dobravam. Oxalá neste Brasil que sabe aproveitar a vida os sinos deixem de soar para anunciar mais mortos e repiquem para festejar de novo a vida.
É isso que o presidente Bolsonaro deseja para o Brasil?
Sim, esse era o seu sonho há 22 anos, quando era deputado do chamado baixo clero sem que se destacasse por nada além de sua homofobia, seu desprezo pelas mulheres e a sua defesa da ditadura e da tortura. Em 1999, em uma entrevista ao programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes, disse textualmente: “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30.000”.
Infelizmente o Congresso considerou então apenas como extravagâncias as ameaças do deputado militar. Se tivesse sido processado na época, hoje não seria presidente nem sofreríamos as contínuas ameaças de golpes autoritários. Em qualquer democracia do mundo, um deputado que defendesse uma guerra civil na televisão seria processado e destituído do cargo. A Bolsonaro permitiu-se desde o primeiro momento fazer todos os ataques mais ferozes à liberdade e aos valores democráticos e defender os torturadores durante a ditadura que, segundo ele, foi demasiado leve porque deveria ter matado muitos mais. E isso foi defendido em pleno Congresso.
Se na ocasião as instituições do Estado, o Congresso e o STF tivessem intervindo, expulsando-o do cargo, hoje o Brasil certamente não teria mais de 300.000 mortos na pandemia e teria poupado tanta dor.
Bolsonaro já deveria ter sido julgado por seu negacionismo da pandemia e por zombar daqueles que lutavam para salvar vidas. As consequências da inércia das instituições em enfrentar o defensor da ditadura fizeram com que o Brasil chegasse até a se perguntar se estamos na iminência de um novo golpe militar. Pelo que se sabe até agora, as Forças Armadas decidiram interromper essa narrativa quando o ministro da Defesa e seus comandantes deixaram seus cargos, sinalizando que para tudo há limites.
Aqueles que continuam defendendo que ainda não é hora de abrir um processo de impeachment contra ele deveriam pensar que amanhã pode ser tarde demais. Pois imaginar que o frustrado capitão ainda possa se converter à democracia é apenas loucura. Ele carrega no sangue o gosto pela morte e pelas armas.
Estes dias de convulsão política, às vésperas do aniversário do golpe de 1964, com a renúncia do alto comando militar, revelam a gravidade da situação do Brasil. Até quando esperarão os que detêm o poder constitucional para destituir do cargo o capitão do Exército, reformado por subversão? Enquanto isso, o presidente se prepara para dar força e poder às Polícias Militares e, se puder, transformá-las em sua milícia pessoal, um atalho para seus sonhos golpistas.
Até quando o Brasil, em que cerca de 80% da população quer viver em democracia, aceitará passivamente que o chefe do Estado, ao invés de governar o país em um de seus momentos mais dramáticos, trame todos os dias para dar um golpe autoritário? O fato de ter colocado um policial amigo da família do presidente como ministro da Justiça é de uma gravidade difícil de qualificar. É uma ofensa à Justiça e revela os instintos do capitão obcecado pelo mundo das armas, pelo desafio da vida e por tudo o que significa morte e violência.
Para alimentar seu rebanho de fanáticos violentos, o presidente esquece e despreza aqueles que preferem apostar na vida, na empatia e na solidariedade com todos aqueles que sofrem e choram com a dor própria e alheia. Para o presidente, hoje abandonado até pelo que chamava de “meu Exército”, quem se defende da pandemia ouvindo a ciência não passa de um bando de covardes com medo de morrer.
Até quando o Brasil são, o que anseia viver em paz e segurança e que não falte comida no prato de seus filhos, continuará ameaçado por fantasmas de golpes e guerras civis? O Brasil já sofre com seus índices de violência que ceifam mais de 40.000 vidas a cada ano, a maioria de jovens e negros.
O escritor norte-americano Ernest Hemingway se perguntava por quem os sinos dobravam. Oxalá neste Brasil que sabe aproveitar a vida os sinos deixem de soar para anunciar mais mortos e repiquem para festejar de novo a vida.
Até quando, Bolsonaro?
O Brasil é o campeão do mundo em mortes diárias por Covid-19. Tivemos, segundo Margareth Dalcolmo, o março mais triste de nossas vidas e, infelizmente, começa o abril mais triste de nossas vidas.
Estamos isolados no mundo. Não podemos viajar para encontrar nossos parentes no exterior, muito menos para realizar os negócios essenciais num mundo globalizado.
O fantástico Orçamento produzido pelo Centrão é, na verdade, um ataque de gafanhotos à nossa horta financeira. Não há mais governabilidade.
Um leitor me escreve perguntando até quando continuaremos discutindo e argumentando enquanto as pessoas vão morrendo às pencas.
Devo responder que ainda não encontrei outro caminho. Mas era só o que faltava, no auge da maior crise que o Brasil enfrenta ao longo de tantos anos, acrescentar uma pitada de autoflagelação.
Tudo o que podemos fazer é prosseguir isolando Bolsonaro para derrubá-lo no momento em que for possível, ainda que isso só possa acontecer em 22. E julgá-lo também por sua incompetência assassina, quando for possível e tivermos força para que a Justiça não falhe. Bolsonaro tem algumas características que podem absolvê-lo em certos tribunais brasileiros. Uma delas é a grande quantidade de provas contra ele. Já houve no país casos de absolvição por excesso de provas.
No momento, é preciso reunir forças contra a pandemia, salvar vidas. Aqui e ali, Bolsonaro tentará dar golpes de Estado. Mas o vírus não se curva a tanques e canhões. No fundo, a tarefa fundamental continuará a mesma até neutralizarmos essa peste.
Desde o ano passado, sabemos que a vacina é arma estratégica. Só o obtuso presidente ignorava essa realidade. Agora corremos contra o tempo.
Mas temos que buscar outras saídas, diuturnamente. Surgiram remédios que me trazem agora a mesma esperança que tive quando surgiram os coquetéis contra a Aids.
A diferença para mim, que estudo como um leigo desesperado, é que os coquetéis de agora são de anticorpos monoclonais, essas proteínas que o próprio organismo produz para atacar vírus, bactérias e até células cancerosas.
Aliás, meu palpite é que o pulo do gato nasceu aí, dessa luta contra células cancerosas. Os grandes laboratórios aproveitaram o avanço nas pesquisas contra o câncer e sintetizaram anticorpos que podem neutralizar o vírus.
Alguns desses experimentos já passaram pela fase 3 de pesquisa, assim como as vacinas que hoje usamos a conta-gotas no Brasil.
Um deles é da Regeneron e foi usado para curar Donald Trump na véspera das eleições. O outro, com resultados muitos bons, é o da Eli Lilly, que está sendo submetido a um exame da Anvisa para ser licenciado no Brasil.
Esses medicamentos são um pouco diferentes do Remdesivir, aquele que foi aprovado recentemente. O Remdesivir é um antiviral, custa em torno de R$ 20 mil e apenas reduz o tempo de hospitalização. É um custo-benefício duvidoso.
No entanto os anticorpos monoclonais têm um poder maior e, se a Anvisa também chegar a essa conclusão, examinando o material apresentado, teríamos que correr contra o tempo e tentar evitar este massacre cotidiano no Brasil, reduzindo logo o número de mortes.
De qualquer forma, esses remédios não são necessários no mesmo volume que as vacinas. Estas são compradas para toda a população, ou para uma grande parte dela. Os remédios são apenas para uma fração dos doentes que apresentam sintomas mais graves.
Os males da passagem da extrema-direita pelo poder transcendem o governo Bolsonaro. Levaremos anos para repará-los aqui, e talvez anos para podermos olhar o Brasil no espelho do mundo, sem recuarmos horrorizados e constrangidos.
Por isso, caro leitor, nossa tarefa será muito longa e árdua. Temos que lembrar a frase de um personagem de Guimarães Rosa: “Quem mói no áspero não fantasia”.
Estamos isolados no mundo. Não podemos viajar para encontrar nossos parentes no exterior, muito menos para realizar os negócios essenciais num mundo globalizado.
O fantástico Orçamento produzido pelo Centrão é, na verdade, um ataque de gafanhotos à nossa horta financeira. Não há mais governabilidade.
Um leitor me escreve perguntando até quando continuaremos discutindo e argumentando enquanto as pessoas vão morrendo às pencas.
Devo responder que ainda não encontrei outro caminho. Mas era só o que faltava, no auge da maior crise que o Brasil enfrenta ao longo de tantos anos, acrescentar uma pitada de autoflagelação.
Tudo o que podemos fazer é prosseguir isolando Bolsonaro para derrubá-lo no momento em que for possível, ainda que isso só possa acontecer em 22. E julgá-lo também por sua incompetência assassina, quando for possível e tivermos força para que a Justiça não falhe. Bolsonaro tem algumas características que podem absolvê-lo em certos tribunais brasileiros. Uma delas é a grande quantidade de provas contra ele. Já houve no país casos de absolvição por excesso de provas.
No momento, é preciso reunir forças contra a pandemia, salvar vidas. Aqui e ali, Bolsonaro tentará dar golpes de Estado. Mas o vírus não se curva a tanques e canhões. No fundo, a tarefa fundamental continuará a mesma até neutralizarmos essa peste.
Desde o ano passado, sabemos que a vacina é arma estratégica. Só o obtuso presidente ignorava essa realidade. Agora corremos contra o tempo.
Mas temos que buscar outras saídas, diuturnamente. Surgiram remédios que me trazem agora a mesma esperança que tive quando surgiram os coquetéis contra a Aids.
A diferença para mim, que estudo como um leigo desesperado, é que os coquetéis de agora são de anticorpos monoclonais, essas proteínas que o próprio organismo produz para atacar vírus, bactérias e até células cancerosas.
Aliás, meu palpite é que o pulo do gato nasceu aí, dessa luta contra células cancerosas. Os grandes laboratórios aproveitaram o avanço nas pesquisas contra o câncer e sintetizaram anticorpos que podem neutralizar o vírus.
Alguns desses experimentos já passaram pela fase 3 de pesquisa, assim como as vacinas que hoje usamos a conta-gotas no Brasil.
Um deles é da Regeneron e foi usado para curar Donald Trump na véspera das eleições. O outro, com resultados muitos bons, é o da Eli Lilly, que está sendo submetido a um exame da Anvisa para ser licenciado no Brasil.
Esses medicamentos são um pouco diferentes do Remdesivir, aquele que foi aprovado recentemente. O Remdesivir é um antiviral, custa em torno de R$ 20 mil e apenas reduz o tempo de hospitalização. É um custo-benefício duvidoso.
No entanto os anticorpos monoclonais têm um poder maior e, se a Anvisa também chegar a essa conclusão, examinando o material apresentado, teríamos que correr contra o tempo e tentar evitar este massacre cotidiano no Brasil, reduzindo logo o número de mortes.
De qualquer forma, esses remédios não são necessários no mesmo volume que as vacinas. Estas são compradas para toda a população, ou para uma grande parte dela. Os remédios são apenas para uma fração dos doentes que apresentam sintomas mais graves.
Os males da passagem da extrema-direita pelo poder transcendem o governo Bolsonaro. Levaremos anos para repará-los aqui, e talvez anos para podermos olhar o Brasil no espelho do mundo, sem recuarmos horrorizados e constrangidos.
Por isso, caro leitor, nossa tarefa será muito longa e árdua. Temos que lembrar a frase de um personagem de Guimarães Rosa: “Quem mói no áspero não fantasia”.
Pequena apologia da empatia
Andava há muito tempo para escrever sobre o tema da empatia. Mas, depois, assuntos ditos “sérios” tomavam a dianteira: crises de saúde pública, opções políticas certas ou erradas, impactos económicos maiores ou menores. Temas relevantes e considerados prioritários na escala dos habitualmente trazidos aos editoriais analíticos dos jornais e das revistas. E, no entanto, a empatia é um tema seríssimo – estrutural nas nossas vidas, naquilo que somos, nas opções profissionais e políticas que fazemos e no impacto que causamos no mundo.
Hoje, porém, foi o dia: este editorial é sobre empatia. Se não lhe interessar nada, saia agora, caro leitor. Eu compreendo, o assunto não é, nem nunca será, para todos.
E porque é que hoje foi o dia? Porque esta semana tive o privilégio de estar várias horas à conversa com o rei da empatia em Portugal. Chama-se Rui Nabeiro, celebrou 90 anos de uma vida extraordinária, com uma audácia e visão estratégica únicas. Mas não é só isso que o distingue. Empresários e homens de negócios bem-sucedidos há vários. É a forma como sempre – desde os tempos em que o menino Rui deixou de estudar para ajudar os pais até aos dias em que lidera um império nos cafés – manteve como prioridade construir e criar riqueza, mas também respeitar os que estão com ele, partilhar e ajudar os outros. Algo que fez sempre com empenho pessoal, dos casos mais simples que se plantavam na porta da fábrica, pedindo ajuda, às maiores obras de responsabilidade social que apadrinhou. O empático Rui Nabeiro é um ser humano superior, o que se nota nos mais pequenos gestos, e é graças a isso que o legado que deixará é tão excecional.
A palavra empatia deriva do grego empátheia, que significa “com sentido de paixão”. Mas foi só no início do século XX que Edward Titchener e James Ward traduziram o conceito alemão Einfühlung para empatia, assim introduzindo o termo na língua inglesa com o significado psicológico próximo do que tem hoje: esta capacidade de alguém se pôr no lugar do outro, tentando entendê-lo. Nas neurociências modernas, a empatia é uma competência emocional com duas componentes: cognitiva – a capacidade de compreender a perspetiva dos outros – e afetiva – a habilidade de ter reações emocionais por causa da observação das experiências alheias (como chorar, por exemplo). Não há altruísmo genuíno sem empatia.
Durante anos, a academia discutiu se a empatia é genética e inata ou se pode ser estimulada ou ensinada, tal como outros traços psicológicos. Conclui-se que, longe de ser uma característica imutável, a empatia pode ser trabalhada e desenvolvida. E que só há vantagens em treinar e ensinar que se deve ir para além das nossas próprias visões do mundo, para pelo menos tentar, como dizem os ingleses numa das suas felizes expressões, andar nos sapatos de outro homem.
Em 2006, o ainda senador Barack Obama fez um discurso aos graduados de uma universidade e disse: “Fala-se muito neste país sobre o défice federal. Mas acho que devemos falar mais sobre o nosso défice de empatia – a capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa, para ver o mundo através daqueles que são diferentes de nós –, a criança que está com fome, o metalúrgico despedido, a mulher imigrante que limpa o vosso dormitório.”
Vivemos tempos bem diferentes daqueles em que Barack Obama ainda só sonhava com a Casa Branca. Entretanto, explodiram redes sociais onde as pessoas revelam o pior de si próprias, escondidas atrás de um ecrã, e onde se sentem confortáveis, nas suas bolhas alimentadas por sinistros algoritmos, para descarregar frustrações, destilar ódio, espalhar mentiras e discórdia. E onde se julga o outro à velocidade vertiginosa de um like ou de um share insultuoso. O mundo entrincheirou-se, veio a “cultura do cancelamento”, e a cova que nos separa daqueles que criticamos e desprezamos parece cada vez mais funda. A empatia é cada vez menos praticada – e, porém, nunca nos fez tanta falta como agora. Sim, razão e empatia podem, e devem, andar de braços dados. E Rui Nabeiro é a prova viva disso.
Hoje, porém, foi o dia: este editorial é sobre empatia. Se não lhe interessar nada, saia agora, caro leitor. Eu compreendo, o assunto não é, nem nunca será, para todos.
E porque é que hoje foi o dia? Porque esta semana tive o privilégio de estar várias horas à conversa com o rei da empatia em Portugal. Chama-se Rui Nabeiro, celebrou 90 anos de uma vida extraordinária, com uma audácia e visão estratégica únicas. Mas não é só isso que o distingue. Empresários e homens de negócios bem-sucedidos há vários. É a forma como sempre – desde os tempos em que o menino Rui deixou de estudar para ajudar os pais até aos dias em que lidera um império nos cafés – manteve como prioridade construir e criar riqueza, mas também respeitar os que estão com ele, partilhar e ajudar os outros. Algo que fez sempre com empenho pessoal, dos casos mais simples que se plantavam na porta da fábrica, pedindo ajuda, às maiores obras de responsabilidade social que apadrinhou. O empático Rui Nabeiro é um ser humano superior, o que se nota nos mais pequenos gestos, e é graças a isso que o legado que deixará é tão excecional.
A palavra empatia deriva do grego empátheia, que significa “com sentido de paixão”. Mas foi só no início do século XX que Edward Titchener e James Ward traduziram o conceito alemão Einfühlung para empatia, assim introduzindo o termo na língua inglesa com o significado psicológico próximo do que tem hoje: esta capacidade de alguém se pôr no lugar do outro, tentando entendê-lo. Nas neurociências modernas, a empatia é uma competência emocional com duas componentes: cognitiva – a capacidade de compreender a perspetiva dos outros – e afetiva – a habilidade de ter reações emocionais por causa da observação das experiências alheias (como chorar, por exemplo). Não há altruísmo genuíno sem empatia.
Durante anos, a academia discutiu se a empatia é genética e inata ou se pode ser estimulada ou ensinada, tal como outros traços psicológicos. Conclui-se que, longe de ser uma característica imutável, a empatia pode ser trabalhada e desenvolvida. E que só há vantagens em treinar e ensinar que se deve ir para além das nossas próprias visões do mundo, para pelo menos tentar, como dizem os ingleses numa das suas felizes expressões, andar nos sapatos de outro homem.
Em 2006, o ainda senador Barack Obama fez um discurso aos graduados de uma universidade e disse: “Fala-se muito neste país sobre o défice federal. Mas acho que devemos falar mais sobre o nosso défice de empatia – a capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa, para ver o mundo através daqueles que são diferentes de nós –, a criança que está com fome, o metalúrgico despedido, a mulher imigrante que limpa o vosso dormitório.”
Vivemos tempos bem diferentes daqueles em que Barack Obama ainda só sonhava com a Casa Branca. Entretanto, explodiram redes sociais onde as pessoas revelam o pior de si próprias, escondidas atrás de um ecrã, e onde se sentem confortáveis, nas suas bolhas alimentadas por sinistros algoritmos, para descarregar frustrações, destilar ódio, espalhar mentiras e discórdia. E onde se julga o outro à velocidade vertiginosa de um like ou de um share insultuoso. O mundo entrincheirou-se, veio a “cultura do cancelamento”, e a cova que nos separa daqueles que criticamos e desprezamos parece cada vez mais funda. A empatia é cada vez menos praticada – e, porém, nunca nos fez tanta falta como agora. Sim, razão e empatia podem, e devem, andar de braços dados. E Rui Nabeiro é a prova viva disso.
Até quando?
Tristeza e desânimo é o que nos causa o fato de que, há exatamente 57 anos do golpe de 1964, quepes e fardas voltem a ocupar as páginas dos jornais e hoje também as redes sociais. Com 81 anos de idade, pergunto-me quando é que nossa República será capaz de se autogovernar dentro dos parâmetros da democracia, descartando a tutela militar? Ao longo dos 33 anos que se seguiram à redemocratização de 1985, acreditamos que caminhávamos nessa direção. Achávamos que o profissionalismo, a não interferência na política, passara a ser a marca da atuação de nossas Forças Armadas. Mas o fatídico tuíte do comandante do Exército, general Villas Bôas, em 3 de abril de 2018, pressionando o STF às vésperas do julgamento de um habeas corpus em favor de Lula, veio nos desenganar. As Forças Armadas, particularmente o Exército, continuavam, e continuam, convencidas de seu papel tutelar da República, expresso, segundo elas, nas palavras “garantias dos poderes constitucionais” do artigo 142 da Constituição.
A situação agravou-se quando os militares endossaram a candidatura do capitão indisciplinado e entraram em massa, de generais a oficiais subalternos, nos quadros governamentais, seja por ideologia, seja por fisiologismo, seja pelas duas coisas. Os alertas sobre o perigo que isso poderia representar para a unidade e a imagem das Forças Armadas não foram ouvidos. Ao longo de dois anos, ficaram claros os sinais de que o presidente buscava apoiar-se nelas, até para desafiar os outros poderes da República. Só aos poucos a ficha foi caindo e chegou ao ponto de conflito aberto quando, nesta semana, os comandantes das três Forças decidiram colocar seus cargos à disposição, sendo, a seguir, demitidos para que o governo salvasse a própria cara. Não me lembro de caso semelhante na história da República.
O chefe do Executivo está no pior momento de seu mandato até agora, torpedeado pela volta de Lula à disputa política, pela adesão da população à vacinação e pela postura do Centrão, menos submissa e menos fisiológica do que esperava. A tentativa de fazer uso político do Exército, embutida na expressão “o meu Exército”, assustou o alto-comando da Força. Começou a ficar claro que os militares tinham embarcado numa canoa furada, capaz de afundar a corporação. A reação ficou clara na frase do então ministro da Defesa, general Fernando de Azevedo e Silva, segundo a qual as Forças Armadas são instituições do Estado, e não de governos. Até mesmo o general vice-presidente alertou: nos quartéis, quando a política entra por uma porta, a disciplina sai pela outra. A politização leva à divisão e à quebra da disciplina, baluarte de qualquer organização militar. O grande erro político de João Goulart em 1964 foi ter apoiado os sargentos e os marinheiros.
Em que tudo isso vai dar, não se sabe, mas é positivo que os militares pareçam ter percebido o erro que cometeram. Se persistir em seus propósitos, o presidente ficará cada vez mais vulnerável. E só vai piorar a situação se insistir também em cortejar o apoio das polícias militares, tema também delicado para as Forças Armadas. Dito isso, nosso problema central persiste: quando nossa República será capaz de resolver suas crises sem dar margem à interferência militar? Desde o início, ela admitiu em todas as suas constituições, exceto na do Estado Novo, um papel político para os militares. Interprete-se esse papel como se quiser, mas ele está lá. E crises é o que não nos faltará levando em conta a dimensão de nossa desigualdade social, os mais de 60 milhões de brasileiros que precisaram do auxílio emergencial. Ou a República acaba com a desigualdade, ou a desigualdade inviabiliza a República, impedindo-a de se autogovernar.
A situação agravou-se quando os militares endossaram a candidatura do capitão indisciplinado e entraram em massa, de generais a oficiais subalternos, nos quadros governamentais, seja por ideologia, seja por fisiologismo, seja pelas duas coisas. Os alertas sobre o perigo que isso poderia representar para a unidade e a imagem das Forças Armadas não foram ouvidos. Ao longo de dois anos, ficaram claros os sinais de que o presidente buscava apoiar-se nelas, até para desafiar os outros poderes da República. Só aos poucos a ficha foi caindo e chegou ao ponto de conflito aberto quando, nesta semana, os comandantes das três Forças decidiram colocar seus cargos à disposição, sendo, a seguir, demitidos para que o governo salvasse a própria cara. Não me lembro de caso semelhante na história da República.
O chefe do Executivo está no pior momento de seu mandato até agora, torpedeado pela volta de Lula à disputa política, pela adesão da população à vacinação e pela postura do Centrão, menos submissa e menos fisiológica do que esperava. A tentativa de fazer uso político do Exército, embutida na expressão “o meu Exército”, assustou o alto-comando da Força. Começou a ficar claro que os militares tinham embarcado numa canoa furada, capaz de afundar a corporação. A reação ficou clara na frase do então ministro da Defesa, general Fernando de Azevedo e Silva, segundo a qual as Forças Armadas são instituições do Estado, e não de governos. Até mesmo o general vice-presidente alertou: nos quartéis, quando a política entra por uma porta, a disciplina sai pela outra. A politização leva à divisão e à quebra da disciplina, baluarte de qualquer organização militar. O grande erro político de João Goulart em 1964 foi ter apoiado os sargentos e os marinheiros.
Em que tudo isso vai dar, não se sabe, mas é positivo que os militares pareçam ter percebido o erro que cometeram. Se persistir em seus propósitos, o presidente ficará cada vez mais vulnerável. E só vai piorar a situação se insistir também em cortejar o apoio das polícias militares, tema também delicado para as Forças Armadas. Dito isso, nosso problema central persiste: quando nossa República será capaz de resolver suas crises sem dar margem à interferência militar? Desde o início, ela admitiu em todas as suas constituições, exceto na do Estado Novo, um papel político para os militares. Interprete-se esse papel como se quiser, mas ele está lá. E crises é o que não nos faltará levando em conta a dimensão de nossa desigualdade social, os mais de 60 milhões de brasileiros que precisaram do auxílio emergencial. Ou a República acaba com a desigualdade, ou a desigualdade inviabiliza a República, impedindo-a de se autogovernar.
Cai o mito do valentão
Na semana do trágico 31 de março, data que desde os tempos de deputado Jair Bolsonaro glorifica, o presidente tentou endurecer com comandantes militares e acabou enquadrado pelas três Forças. Teve ainda de fazer novas mesuras ao Centrão para agradar o presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que o ameaçou com o “sinal amarelo” do impeachment, e ao mensaleiro Valdemar da Costa Neto, dono do PL. Acuado, no dia seguinte aos 57 anos do golpe que pela primeira vez ele não comemorou, o “Rambo Bolsonaro” virou o que sempre foi: um sonoro 1º de abril.
Mas o escancaramento da fragilidade de Bolsonaro não o fará mudar. Sua obsessão por destruir o país para proteger a si e aos seus se manterá a todo vapor. Continuará usando a mesma tática miliciana da ameaça permanente. A única que ele conhece, que rendeu frutos para ele e os filhos, todos - exceto Jair Renan, que já já chega lá, e a jovem Laura - lançados precocemente pelo papai nas delícias da vida pública.
Nas redes sociais, o filho Eduardo até tentou manter o clima pró-64, com a publicação de um vídeo patético do pai, ao lado do irmão Flávio e dele, ao som de marcha militar e ditos em favor do golpe, com um surpreendente encerramento: “Brasil acima de tudo”, gravado em 2014.
Dizem, mas não há quem prove, que a força de Bolsonaro está nos baixos escalões das Forças Armadas e das Polícias Militares estaduais. De fato, é nessa turma que se concentra o empenho do presidente, nas dezenas de formaturas de jovens militares a que ele comparece e, mais gravemente, no reforço direto e indireto às tentativas de insurreições nas polícias estaduais.
Agiu assim nos motins - que ele chamava de greves - de policiais do Ceará e do Espírito Santo. Tentou agora na Bahia, com sua militância virtual em ordem unida para transformar em herói um PM enlouquecido que abriu fogo contra seus pares em suposta defesa do fim das restrições à circulação determinada pelo governador.
Ainda que possam, hipoteticamente, serem seduzidos pelo blá-blá-blá bolsonarista, não é crível - e até então não mensurável - que jovens recrutas das Forças Armadas e das Polícias Militares prefiram uma aventura desvairada à estabilidade da carreira militar. Afinal, gente infame e “mau militar” como o capitão Bolsonaro é exceção e não regra.
Mesmo aquinhoados com reajustes, investimentos, assento em milhares de cargos no governo e todo tipo de privilégio, os fardados, como se viu, não parecem estar dispostos a aventuras. Portanto, representam baixo risco. O perigo reside nas armas em mãos de civis, autorizadas e estimuladas por Bolsonaro.
Para a montagem dessa tropa ele desrespeitou pareceres técnicos, retirou poderes de controle do Exército e da Polícia Federal. Mais do que triplicou a posse de revólveres, multiplicou por 10 o poder de fogo dos armamentos, a quantidade e letalidade das munições autorizadas para aqueles que possuem porte de armas, também facilitado.
Muitos comparam o esquema miliciano bolsonarista ao que Hugo Chávez implantou na Venezuela. Mas Bolsonaro, felizmente, não tem a inteligência do líder bolivariano. Imita grosseiramente alguns fundamentos. Naufraga nas tentativas de aliciamento das Forças Armadas e da Justiça. Na política, come nas mãos do Centrão.
Por mais que force a barra, também não tem tido êxito na guerra cotidiana contra a imprensa, um dos eixos que impede golpismos e regimes de exceção. Já tentou calar a Folha de S. Paulo, demonizou o Estadão, O Globo e a revista Veja. Seus fiéis mais afoitos chegaram a plantar boatos de que, a exemplo do que Chávez fez com a RCTV, Bolsonaro não renovaria a concessão da TV Globo, que só vence depois de o mandato dele terminar.
Mas o presidente tenta as suas "venezueladas". Cancelou, ilegalmente, a participação da Folha em licitação pública, estimulou empresários a não anunciar no jornal, ameaçou ministros que dessem entrevistas. Editou Medida Provisória, que caducou, liberando empresas de publicarem seus balanços em jornais. Na semana passada, ao sancionar a nova Lei de Licitações, no mesmo 1º de abril, vetou a obrigação de publicação dos editais de compras, serviços e obras no Diário Oficial da União e em jornais de circulação nacional.
A nova tentativa de asfixiar os veículos de imprensa que o incomodam coincide com a gracinha feita para a TV Record. A partir de amanhã, a TV Brasil, que Bolsonaro jurou vender ou fechar durante a campanha de 2018, começa a exibir os 242 capítulos de “Os Dez Mandamentos”, comprados do bispo pela bagatela de R$ 3,2 milhões. Para agradar aliados, até pagar caro por reprise vale.
As armações bestiais de confronto com militares podem até servir para desviar o foco das graves crises sanitária, econômica e social, das quais o presidente se esforça para tirar o corpo fora. Mas tanto os movimentos diversionistas como as artimanhas para calar a imprensa são inúteis. No Brasil real, com média de mais de 3 mil mortos por dia pela Covid-19, hospitais em pane com doentes amontoados, medicamentos para intubação e oxigênio no limite, miséria e fome, Bolsonaro não terá replay. Ou nem termina a primeira temporada.
Mary Zaidan
Mas o escancaramento da fragilidade de Bolsonaro não o fará mudar. Sua obsessão por destruir o país para proteger a si e aos seus se manterá a todo vapor. Continuará usando a mesma tática miliciana da ameaça permanente. A única que ele conhece, que rendeu frutos para ele e os filhos, todos - exceto Jair Renan, que já já chega lá, e a jovem Laura - lançados precocemente pelo papai nas delícias da vida pública.
A invertida que Bolsonaro tomou do ex-ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, além da imposição dos critérios hierárquicos na indicação dos novos titulares, reforçou o papel institucional das Forças e expôs um cenário no mínimo curioso. Os militares, que já foram os bichos-papões, se tornaram defensores da democracia e das Forças Armadas como instituições de Estado, em contraponto a um presidente civil autocrata, que anseia por um Exército para chamar de seu.
Nas redes sociais, o filho Eduardo até tentou manter o clima pró-64, com a publicação de um vídeo patético do pai, ao lado do irmão Flávio e dele, ao som de marcha militar e ditos em favor do golpe, com um surpreendente encerramento: “Brasil acima de tudo”, gravado em 2014.
Dizem, mas não há quem prove, que a força de Bolsonaro está nos baixos escalões das Forças Armadas e das Polícias Militares estaduais. De fato, é nessa turma que se concentra o empenho do presidente, nas dezenas de formaturas de jovens militares a que ele comparece e, mais gravemente, no reforço direto e indireto às tentativas de insurreições nas polícias estaduais.
Agiu assim nos motins - que ele chamava de greves - de policiais do Ceará e do Espírito Santo. Tentou agora na Bahia, com sua militância virtual em ordem unida para transformar em herói um PM enlouquecido que abriu fogo contra seus pares em suposta defesa do fim das restrições à circulação determinada pelo governador.
Ainda que possam, hipoteticamente, serem seduzidos pelo blá-blá-blá bolsonarista, não é crível - e até então não mensurável - que jovens recrutas das Forças Armadas e das Polícias Militares prefiram uma aventura desvairada à estabilidade da carreira militar. Afinal, gente infame e “mau militar” como o capitão Bolsonaro é exceção e não regra.
Mesmo aquinhoados com reajustes, investimentos, assento em milhares de cargos no governo e todo tipo de privilégio, os fardados, como se viu, não parecem estar dispostos a aventuras. Portanto, representam baixo risco. O perigo reside nas armas em mãos de civis, autorizadas e estimuladas por Bolsonaro.
Para a montagem dessa tropa ele desrespeitou pareceres técnicos, retirou poderes de controle do Exército e da Polícia Federal. Mais do que triplicou a posse de revólveres, multiplicou por 10 o poder de fogo dos armamentos, a quantidade e letalidade das munições autorizadas para aqueles que possuem porte de armas, também facilitado.
Muitos comparam o esquema miliciano bolsonarista ao que Hugo Chávez implantou na Venezuela. Mas Bolsonaro, felizmente, não tem a inteligência do líder bolivariano. Imita grosseiramente alguns fundamentos. Naufraga nas tentativas de aliciamento das Forças Armadas e da Justiça. Na política, come nas mãos do Centrão.
Por mais que force a barra, também não tem tido êxito na guerra cotidiana contra a imprensa, um dos eixos que impede golpismos e regimes de exceção. Já tentou calar a Folha de S. Paulo, demonizou o Estadão, O Globo e a revista Veja. Seus fiéis mais afoitos chegaram a plantar boatos de que, a exemplo do que Chávez fez com a RCTV, Bolsonaro não renovaria a concessão da TV Globo, que só vence depois de o mandato dele terminar.
Mas o presidente tenta as suas "venezueladas". Cancelou, ilegalmente, a participação da Folha em licitação pública, estimulou empresários a não anunciar no jornal, ameaçou ministros que dessem entrevistas. Editou Medida Provisória, que caducou, liberando empresas de publicarem seus balanços em jornais. Na semana passada, ao sancionar a nova Lei de Licitações, no mesmo 1º de abril, vetou a obrigação de publicação dos editais de compras, serviços e obras no Diário Oficial da União e em jornais de circulação nacional.
A nova tentativa de asfixiar os veículos de imprensa que o incomodam coincide com a gracinha feita para a TV Record. A partir de amanhã, a TV Brasil, que Bolsonaro jurou vender ou fechar durante a campanha de 2018, começa a exibir os 242 capítulos de “Os Dez Mandamentos”, comprados do bispo pela bagatela de R$ 3,2 milhões. Para agradar aliados, até pagar caro por reprise vale.
As armações bestiais de confronto com militares podem até servir para desviar o foco das graves crises sanitária, econômica e social, das quais o presidente se esforça para tirar o corpo fora. Mas tanto os movimentos diversionistas como as artimanhas para calar a imprensa são inúteis. No Brasil real, com média de mais de 3 mil mortos por dia pela Covid-19, hospitais em pane com doentes amontoados, medicamentos para intubação e oxigênio no limite, miséria e fome, Bolsonaro não terá replay. Ou nem termina a primeira temporada.
Mary Zaidan
Brasil se radicaliza
Uma reforma ministerial feita nesta semana pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, para aplacar o descontentamento por sua péssima gestão da pandemia abriu uma crise de consequências imprevisíveis. A destituição do ministro da Defesa e a renúncia em uníssono da cúpula militar, algo inédito desde a restauração da democracia, aumentam a preocupação pelo rumo ao que o mandatário submete seu país no pior da pandemia.
A saída do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica é grave porque, sem dúvida, ocorreu pelas pressões constantes do mandatário ultradireitista. Bolsonaro, um capitão reformado que nunca escondeu sua admiração pela ditadura, pretendia que as Forças Armadas apoiassem suas batalhas políticas extremistas. A cúpula militar enviou um sinal de alarme sobre as atitudes autoritárias do presidente, que quer ser reeleito em 2022, ao renunciar antes de se submeter às suas exigências. É muito preocupante que, neste delicado momento sanitário e com uma economia em franca recessão, o novo titular da Defesa tenha estreado no cargo com uma exaltação pública do golpe de 1964.
Bolsonaro lotou seu Governo de militares, reformados e na ativa, o que coloca as Forças Armadas em uma complexa tessitura diante da qual estas foram frequentemente ambíguas. É preciso lembrar que são uma instituição de Estado e não partidária. A renúncia da cúpula militar deve ser vista como um gesto em defesa do papel constitucional da instituição. O Brasil não pode se permitir que os militares ameacem a democracia; é necessário exigir seu apego absoluto à lei e à Constituição. Por isso é urgente um maior distanciamento dos militares com os gestos autoritários de Bolsonaro, que corroem sistematicamente a democracia.
Essa crise militar chega, além disso, em um momento extremamente delicado para o Brasil, que na quarta-feira voltou a bater um recorde de mortos pelo coronavírus, com quase 3.900 em 24 horas. A nefasta gestão da pandemia por parte de Bolsonaro, contrariando a OMS e confrontando governadores, coloca seu país como epicentro mundial de contágios e mortes. É prioritário deter a expansão do vírus, cuidar dos doentes e acelerar a vacinação para empreender uma recuperação. A nomeação do general que deteve as infecções nos quartéis como novo comandante do Exército dá certa margem de esperança após dias agitados. Tudo o que não evitar distrações e oferecer solidez e certeza diante da pandemia e das penúrias econômicas aprofundará esta crise em que o presidente tem grande responsabilidade. Uma responsabilidade da qual os militares não estão isentos.
A saída do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica é grave porque, sem dúvida, ocorreu pelas pressões constantes do mandatário ultradireitista. Bolsonaro, um capitão reformado que nunca escondeu sua admiração pela ditadura, pretendia que as Forças Armadas apoiassem suas batalhas políticas extremistas. A cúpula militar enviou um sinal de alarme sobre as atitudes autoritárias do presidente, que quer ser reeleito em 2022, ao renunciar antes de se submeter às suas exigências. É muito preocupante que, neste delicado momento sanitário e com uma economia em franca recessão, o novo titular da Defesa tenha estreado no cargo com uma exaltação pública do golpe de 1964.
Bolsonaro lotou seu Governo de militares, reformados e na ativa, o que coloca as Forças Armadas em uma complexa tessitura diante da qual estas foram frequentemente ambíguas. É preciso lembrar que são uma instituição de Estado e não partidária. A renúncia da cúpula militar deve ser vista como um gesto em defesa do papel constitucional da instituição. O Brasil não pode se permitir que os militares ameacem a democracia; é necessário exigir seu apego absoluto à lei e à Constituição. Por isso é urgente um maior distanciamento dos militares com os gestos autoritários de Bolsonaro, que corroem sistematicamente a democracia.
Essa crise militar chega, além disso, em um momento extremamente delicado para o Brasil, que na quarta-feira voltou a bater um recorde de mortos pelo coronavírus, com quase 3.900 em 24 horas. A nefasta gestão da pandemia por parte de Bolsonaro, contrariando a OMS e confrontando governadores, coloca seu país como epicentro mundial de contágios e mortes. É prioritário deter a expansão do vírus, cuidar dos doentes e acelerar a vacinação para empreender uma recuperação. A nomeação do general que deteve as infecções nos quartéis como novo comandante do Exército dá certa margem de esperança após dias agitados. Tudo o que não evitar distrações e oferecer solidez e certeza diante da pandemia e das penúrias econômicas aprofundará esta crise em que o presidente tem grande responsabilidade. Uma responsabilidade da qual os militares não estão isentos.
A paciência acabou
Um poderoso Coronel pernambucano recebeu no majestoso alpendre da Casa Grande, fiel aliado da oligarquia rural. Zé da Cacimba, muito querido, bom coração, distribuía com os moradores água potável, preciosidade para o sertão esturricado.
“Coroné, (patente da Guarda Nacional) tirando o chapéu em sinal de respeito e obediência, tô com um problema com o delegado do meu munícípio: tá perseguindo nossos eleitores e o homem é forte. Só sai de lá com ordem do Governador. A gente sabe que o sinhô manda nele…” Aí o Coronel interrompeu o suplicante: “Zé, se tu não sabe, aprende: ninguém governa Governador”. E convidou o amigo para tomar um café com o insuperável bolo de bacia da veneranda Dona Nininha.
É um “movimento cívico”, disse o cientista político Luiz Felipe d’Avila para ocupar “o vácuo de poder” e “um alerta de que a sociedade mais do que perdeu a paciência, está perdendo a confiança no governo”.
O Presidente da Câmara, Arthur Lyra, ameaçou: “está apertando um sinal amarelo para quem quiser enxergar; Os remédios políticos do Parlamento são todos amargos; alguns, fatais”. O “Centrâo”, canta Ângela Maria, “tem o destino da lua que a todos encanta e não é de ninguém”.
Refém do “Centrão”, Bolsonaro formou o “Ministério da Obediência”; levou uma enquadrada do compromisso institucional das Forças Armadas com a democracia; engoliu, contrariado, a saída de Ernesto Araújo, discípulo de Olavo de Carvalho e Steve Bannon, expoentes do Tradicionalismo, ideologia bizarra que alimenta a autocracia populista da extrema direita.
“Coroné, (patente da Guarda Nacional) tirando o chapéu em sinal de respeito e obediência, tô com um problema com o delegado do meu munícípio: tá perseguindo nossos eleitores e o homem é forte. Só sai de lá com ordem do Governador. A gente sabe que o sinhô manda nele…” Aí o Coronel interrompeu o suplicante: “Zé, se tu não sabe, aprende: ninguém governa Governador”. E convidou o amigo para tomar um café com o insuperável bolo de bacia da veneranda Dona Nininha.
A velha sabedoria também se aplicaria universalmente, ou seja, ninguém “preside” Presidente. Mas Bolsonaro não preside: desgoverna.
Nos últimos dias de março, nove encontros foram articulados pela cúpula do Congresso para intervir nos rumos do governo. As reuniões mobilizaram Presidentes do Senado, da Câmara, empresariado, intelectuais, e claro, “o mercado”, ente gasoso, sem endereço ou CNPJ, mas que funciona como termômetro das expectativas econômicas. Só que desta vez, somaram-se atores que efetivamente botam a mão na debilitada economia real. São os que produzem bens e serviços para compradores cada dia mais pobres, respaldados no sólido documento com 2.000 signatários que sabem o que dizem.
É um “movimento cívico”, disse o cientista político Luiz Felipe d’Avila para ocupar “o vácuo de poder” e “um alerta de que a sociedade mais do que perdeu a paciência, está perdendo a confiança no governo”.
O Presidente da Câmara, Arthur Lyra, ameaçou: “está apertando um sinal amarelo para quem quiser enxergar; Os remédios políticos do Parlamento são todos amargos; alguns, fatais”. O “Centrâo”, canta Ângela Maria, “tem o destino da lua que a todos encanta e não é de ninguém”.
Refém do “Centrão”, Bolsonaro formou o “Ministério da Obediência”; levou uma enquadrada do compromisso institucional das Forças Armadas com a democracia; engoliu, contrariado, a saída de Ernesto Araújo, discípulo de Olavo de Carvalho e Steve Bannon, expoentes do Tradicionalismo, ideologia bizarra que alimenta a autocracia populista da extrema direita.
Os erros estratégicos do Presidente decorrem do pecado original: completa inaptidão para governar e vontade ditatorial incontrolável. Bolsonaro é governo e oposição ao mesmo tempo. Um paradoxo para além da figura de linguagem: é perigosamente real. Ou muda, o que é improvável, ou joga o país numa grave crise institucional o que é indesejável.
O Testamento de Judas na pandemia
“Eu sei que alguém descobre / Falhas no meu testamento”
Joaquim Apolinário. Testamento do Judas. 1886. (*)
Neste sábado de aleluia, Judas Iscariotes, ministro das Finanças do Inferno, visitou países de cinco continentes, entre eles a America First e o Brasil abaixo de tudo. Aqui viu bonecos de pano com a cara do genocida pendurados em postes das cidades. Fugiu ao se deparar com 330 mil mortos pelo coronavirus. Passou antes por Manaus. No bairro de Aparecida, sofreu a tradicional malhação e se vingou deixando seu testamento em versos psicografado pelo irreverente e desabusado Edilson, o Gaguinho, gênio da poesia popular. Tirem as crianças da sala. Ei-lo aqui.
1
Sou Judas Iscariotes / Neguei máscara, vacina.
Dei cloroquina pra Cristo / Olhem só a minha sina.
2
Por isso sou malhado / com porrada na cacunda
No sábado de Aleluia vou / moer vidro com a bunda.
3
Mas antes de me ferrarem / e de me enforcar outra vez
Eis aqui o inventário / do que eu lego pra vocês.
4
Ao Trump bundão eu deixo / o túmulo do faraó
E a espada do centurião / pra enfiar no fiofó.
5
Pra atormentar sua vida / deixo o discurso do Lula.
Ao mentiroso Jair Messias / Burro como uma mula
6
Deixo o exemplo do Temer / ao vice Mourão Mourão
Catuca por baixo que ELE cai / com impeachment e lockdown.
7
Deixo ao Dudu, o 03 / a embaixada em Mianmar
Pra ele fritar hamburger / no Burger King de lá
8
A Carlucho, o 02 da fake news / que escorrega no quiabo
Deixo a máscara que não usa / para enfiar no seu rabo.
9
As trintas moedas repasso / ao 01 da Rachadinha
Mansão, chocolate, iate / Queiroz deu sua lavadinha
10
Ao ministério do Zero Zero / escolhido no capricho
As ratazanas do Centrão / jogo na lata do lixo.
11
Lego armas, vacina não/ à familícia e ao gado
Tudo pau de amarrar égua / com o orifício corrugado
12
O Posto Ipiranga vazio / que nem pastel do Beiçola
Paulo Guedes nega tudo / e põe no PIB meia sola.
13
Ernesto Araújo, seu pária / Que merda de chanceler!
Te deixo spray de Israel / Ninguém te ama nem te quer.
14
Ao obediente Pazzuelo / Lego o mapa do Amapá
O Zé Gotinha com fuzil / no dia D na hora H.
15
Para o Marcelo Quidroga / que não sabe o que quer!
Deixo a vachina da China / pra ele virar jacaré.
16
A corda que me enforquei / e a tripa cagaiteira
Lego ambas pra Damares / se pendurar na goiabeira.
17
Ao “imprecionante” Weintraub / de Kafta um grande fã
Deixo cannabis no campus / e as balbúrdias do Satã.
18
Ao ministro Milton Ribeiro, / da palmatória defensor.
De pedagogo oprimido / a “paudagogo” opressor.
19
Nem tudo que reluz é Moro / mas cai tudo que balança
Ao “conje” suspeito eu deixo / a Edith Piá de herança
20
Ao incendiário da Amazônia / ao Salles abridor de porteira
Deixo o fogo do inferno / Pra ele arder na caldeira
21
Ao general Heleno de Troia / Que gosta de um tititi
Deixo toda a lambança / Cometida no Haiti.
22
À senadora Kátia Abreu / Que ficou no ora veja
A mão que te afaga / É a mema que te apedreja.
23
Tou certo ou tou errado? / Para a Regina Porcina,
Que foi sem nunca ter sido / Deixo um trono na latrina.
24
Lego a Amargo dos Palmares / Pra aprender a ser gente,
Um pixaim de pentelho / Na careca reluzente.
25
Ao garantista Kássio Nunes / Que pensa que a lei destrincha
Deixo-lhe o Gilmar Mendes / Pra chamar ele na chincha.
26
Ao Procurador Augusto Aras / Deixo-lhe muitas gavetas
Que nunca serão abertas / Pra esconder do Bozo as tretas
27
Palloci minh’alma gêmea / Teu destino é como o meu
Pra tirar o loló da seringa, / Traíste mais do que eu.
28
Ao bode libidinoso / Metido num trumbico
Defendo a Isa Penna / Até o Cury fazer bico
29
Para Wilson Lima governador / Lego a operação sangria,
Com dinheiro da saúde,/ Não se faz patifaria.
30
De mãos dadas com o povo? / Ventiladores de hospital
Comprados em adega de vinho / É coveiro em funeral.
31
Lá onde perdi as botas / Ao mulato inzoneiro
Lego o nojo desses pulhas / E a crença no brasileiro.
32
Agora eu volto pro inferno / lá tá melhor do que aqui
Neste fim de Quaresma / Deixo-vos o Taquiprati.
José Ribamar Bessa Freire
(*) O potiguar Joaquim Apolinário de Medeiros (1852-1919) fez um testamento do Judas em 1886, preservado na memória da mãe do Câmara Cascudo, que transmitiu oralmente os versos para seu filho. Trechos foram publicados por ele em “Vaqueiros e Cantadores”. Rio. Ediouro. 200 (pgs 65-66).
domingo, 4 de abril de 2021
O desperdício do fator humano
Com 14,3 milhões de desempregados no trimestre encerrado em janeiro, o Brasil teve uma passagem de ano especialmente penosa para os pobres e agourenta para a maior parte dos negócios. Perdido o primeiro trimestre, o governo só nos próximos dias voltará a pagar o auxílio emergencial. Com isso poderá atenuar a fome e dar novamente algum impulso ao consumo e à produção. Sem Orçamento, sem rumo e aparentemente sem perceber o desastre do dia a dia, a equipe econômica deixou perder-se a recuperação iniciada em maio e já enfraquecida nos três meses finais de 2020. As condições do emprego mostram bem as limitações dessa reação, agora dificultada também pelo forte aumento dos preços no varejo.
O quadro já era muito ruim, porque o governo do presidente Jair Bolsonaro quase nada fizera, no primeiro ano de mandato, para impulsionar a atividade econômica. Em 2019 o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 1,4%, tendo avançado 1,6% no ano anterior. A economia já andava mal antes da pandemia, assim continua e o desemprego persistente é a consequência mais dramática.
A desocupação, o subemprego e o desestímulo a grandes parcelas da força de trabalho compõem uma forma especialmente grave de desperdício. A ociosidade dos trabalhadores pode ocasionar mais que os dramas facilmente visíveis na experiência diária e diminuição do potencial de consumo. Quando prolongado, o desemprego pode também resultar em desatualização e desqualificação da mão de obra – um obstáculo a mais ao desenvolvimento da economia. Por isso, o investimento em requalificação é uma das políticas necessárias depois de longos períodos de desocupação.
O desemprego de 14,2% da força de trabalho, na virada de ano, é apenas o aspecto mais visível desse drama econômico e social. O quadro fica mais feio quando se adicionam 5,9 milhões de pessoas desalentadas – sem ânimo para continuar buscando uma colocação – e outros grupos com potencial de trabalho subempregado ou simplesmente perdido.
Tudo somado, a população subutilizada chegou a 32,4 milhões de indivíduos, ou 29% da população economicamente ativa. Este é um número muito mais adequado que a taxa de desemprego para dimensionar o desperdício de mão de obra.
Mas é preciso olhar outros detalhes para avaliar as limitações do consumo e das possibilidades de progresso individual e familiar. O nível de ocupação chegou a 48,7% das pessoas em idade de trabalhar, com aumento de 0,7 ponto porcentual em relação ao trimestre anterior. Mas esse aumento ocorreu principalmente no segmento informal, onde se acomodaram 34,1 milhões de trabalhadores no período de novembro a janeiro. O número de trabalhadores sem carteira assinada aumentou 3,6% no setor privado, taxa equivalente a 339 mil pessoas, de um trimestre para outro.
A taxa de informalidade subiu de 38,8% para 39,7%, ficando pouco abaixo daquela registrada um ano antes. Participam da informalidade tanto os empregados sem carteira assinada quanto trabalhadores por conta própria sem registro oficial. Baixo rendimento, benefícios assistenciais escassos ou nulos e contratação precária constituem algumas das condições da ocupação informal.
“A perda de força no crescimento da ocupação vem principalmente da menor expansão na indústria, no comércio e na construção”, disse a pesquisadora Adriana Beringuy, ao apresentar os dados do último levantamento do IBGE. Ainda assim, o aumento da população ocupada, no período de novembro a janeiro, é em boa parte explicável pelas contratações adicionais ocorridas no fim de ano, embora o crescimento das vendas tenha sido mais fraco que em outros anos.
Mesmo com a recuperação econômica iniciada em maio, a desocupação continuou bem maior que no período anterior à crise deflagrada pela pandemia. No trimestre móvel terminado em janeiro de 2020 havia 11,9 milhões de desempregados, ou 11,2% da força de trabalho. Os subutilizados eram 23,2%. O desemprego era bem maior que o da média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), praticamente o dobro.
O quadro já era muito ruim, porque o governo do presidente Jair Bolsonaro quase nada fizera, no primeiro ano de mandato, para impulsionar a atividade econômica. Em 2019 o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 1,4%, tendo avançado 1,6% no ano anterior. A economia já andava mal antes da pandemia, assim continua e o desemprego persistente é a consequência mais dramática.
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