segunda-feira, 5 de abril de 2021

Pequena apologia da empatia

Andava há muito tempo para escrever sobre o tema da empatia. Mas, depois, assuntos ditos “sérios” tomavam a dianteira: crises de saúde pública, opções políticas certas ou erradas, impactos económicos maiores ou menores. Temas relevantes e considerados prioritários na escala dos habitualmente trazidos aos editoriais analíticos dos jornais e das revistas. E, no entanto, a empatia é um tema seríssimo – estrutural nas nossas vidas, naquilo que somos, nas opções profissionais e políticas que fazemos e no impacto que causamos no mundo.

Hoje, porém, foi o dia: este editorial é sobre empatia. Se não lhe interessar nada, saia agora, caro leitor. Eu compreendo, o assunto não é, nem nunca será, para todos.


E porque é que hoje foi o dia? Porque esta semana tive o privilégio de estar várias horas à conversa com o rei da empatia em Portugal. Chama-se Rui Nabeiro, celebrou 90 anos de uma vida extraordinária, com uma audácia e visão estratégica únicas. Mas não é só isso que o distingue. Empresários e homens de negócios bem-sucedidos há vários. É a forma como sempre – desde os tempos em que o menino Rui deixou de estudar para ajudar os pais até aos dias em que lidera um império nos cafés – manteve como prioridade construir e criar riqueza, mas também respeitar os que estão com ele, partilhar e ajudar os outros. Algo que fez sempre com empenho pessoal, dos casos mais simples que se plantavam na porta da fábrica, pedindo ajuda, às maiores obras de responsabilidade social que apadrinhou. O empático Rui Nabeiro é um ser humano superior, o que se nota nos mais pequenos gestos, e é graças a isso que o legado que deixará é tão excecional.

A palavra empatia deriva do grego empátheia, que significa “com sentido de paixão”. Mas foi só no início do século XX que Edward Titchener e James Ward traduziram o conceito alemão Einfühlung para empatia, assim introduzindo o termo na língua inglesa com o significado psicológico próximo do que tem hoje: esta capacidade de alguém se pôr no lugar do outro, tentando entendê-lo. Nas neurociências modernas, a empatia é uma competência emocional com duas componentes: cognitiva – a capacidade de compreender a perspetiva dos outros – e afetiva – a habilidade de ter reações emocionais por causa da observação das experiências alheias (como chorar, por exemplo). Não há altruísmo genuíno sem empatia.

Durante anos, a academia discutiu se a empatia é genética e inata ou se pode ser estimulada ou ensinada, tal como outros traços psicológicos. Conclui-se que, longe de ser uma característica imutável, a empatia pode ser trabalhada e desenvolvida. E que só há vantagens em treinar e ensinar que se deve ir para além das nossas próprias visões do mundo, para pelo menos tentar, como dizem os ingleses numa das suas felizes expressões, andar nos sapatos de outro homem.

Em 2006, o ainda senador Barack Obama fez um discurso aos graduados de uma universidade e disse: “Fala-se muito neste país sobre o défice federal. Mas acho que devemos falar mais sobre o nosso défice de empatia – a capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa, para ver o mundo através daqueles que são diferentes de nós –, a criança que está com fome, o metalúrgico despedido, a mulher imigrante que limpa o vosso dormitório.”

Vivemos tempos bem diferentes daqueles em que Barack Obama ainda só sonhava com a Casa Branca. Entretanto, explodiram redes sociais onde as pessoas revelam o pior de si próprias, escondidas atrás de um ecrã, e onde se sentem confortáveis, nas suas bolhas alimentadas por sinistros algoritmos, para descarregar frustrações, destilar ódio, espalhar mentiras e discórdia. E onde se julga o outro à velocidade vertiginosa de um like ou de um share insultuoso. O mundo entrincheirou-se, veio a “cultura do cancelamento”, e a cova que nos separa daqueles que criticamos e desprezamos parece cada vez mais funda. A empatia é cada vez menos praticada – e, porém, nunca nos fez tanta falta como agora. Sim, razão e empatia podem, e devem, andar de braços dados. E Rui Nabeiro é a prova viva disso.

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