quarta-feira, 6 de abril de 2016


Vivandeiras e provocadores

Em momento tão conturbado da vida política nacional é importante registrar um fato: a crise, ao menos por enquanto, passa ao largo dos quartéis. É irrelevante aqui discutir se isto acontece porque os militares já não têm a mesma força política de 1964, ou porque a comunidade internacional e os brasileiros não aceitam mais soluções fora do escopo do Estado de Direito Democrático.

Importa mesmo é a valorização do fato objetivo: ao contrário do que aconteceu até meados da penúltima década do século passado, quando as intervenções militares ocorreram aos borbotões, as Forças Armadas se dedicam hoje às suas funções profissionais e constitucionais.

Com toda a crise ética, econômica e política, não tivemos, até o momento, episódio de monta de quebra da hierarquia e da disciplina - pedra angular de qualquer instituição castrense do mundo. Isso é positivo. É um indicativo de que a corporação militar vem respeitando o pacto estabelecido em 1985, na transição democrática. Preservar essas conquistas, evitar que a crise contamine os quarteis, são desafios colocados à nossa frente pelo momento político atual.


Nas crises, os extremos afloram. É o que assistimos agora. De um lado, segmentos da sociedade cada vez mais desencantados com a política formal, assumem o discurso do ódio, do neomarcatismo e sonham com a volta dos militares ao poder.

O lulopetismo, ao promover o assalto aos cofres públicos e fazer tábula rasa dos valores éticos, conseguiu a proeza de fazer ressurgir uma base social, ainda que pequena, de extrema direita. Aplainou o terreno para o retorno das vivandeiras; figuras que antigamente viviam a rondar os quartéis.

De outro lado, a autointitulada “base popular” do governo rasga a fantasia. Radicaliza seu discurso, ameaçando tocar fogo no país, caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff prospere. Adota também o discurso do ódio. Aposta suas fichas num clima de confronto, na crença de que a presidente, se não for impedida, instituirá, finalmente, um “governo popular”.

Mais grave: a própria presidente aposta na conflagração política e social como tábua de salvação. Para safar-se, transformou o Palácio do Planalto em palanque político.

Como se não bastasse o aparelhamento, essa confusão entre público e privado, entre partido e Estado, a presidente dá provas de desrespeito à liturgia do cargo ao consentir que, em um ato oficial, haja a incitação à violência e a ruptura com direitos assegurados pela Constituição, como o da propriedade, e do livre exercício do mandato dos parlamentares. Sob seus olhos, radicalóides de plantão agridem e afrontam a soberania do Poder Legislativo.

A presidente não desrespeita apenas a liturgia, mas também o próprio conceito de hierarquia. Como maior autoridade do país, jamais poderia ter permitido que o representante da Contag, a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, pronunciasse, em sua presença e no interior do Palácio do Planalto: "Vamos ocupar as propriedades deles, as casas deles no campo. Vamos ocupar os gabinetes, mas também as fazendas deles”.

É uma bravata, sabemos. Até porque as Forças Armadas estão aí para cumprir sua função de garantir a ordem, conforme determina a Constituição. Mas provocações dessa natureza são absolutamente dispensáveis e só revelam o descompromisso democrático dos extremistas de plantão.

Não há o menor sentido em se testar a capacidade dos militares de engolir sapos. Ou de tentar atraí-los para a crise, que já é suficientemente grave. 

Que as vivandeiras e os provocadores deixem as Forças Armadas em paz. A democracia agradece.

1º de abril

Sagrado leitor, eu confesso que roubei, tramei, colei, menti e pequei por minha culpa. Minha máxima e mais absoluta, vergonhosa e indesculpável culpa!

Aliás, dizendo mais abertamente, eu não só menti como saltei de bonde andando, pulei muro, matei passarinho, roubei goiabas do quintal dos vizinhos, comi os chocolates dos irmãos mais novos, usei escondido as gravatas do papai, roubei para ganhar um campeonato de futebol de botão e fiquei muito tempo no banheiro com as garotas do Vargas, um desenhista de “pin-ups” de quem o Waltinho tinha uma coleção que ele emprestava ou alugava aos amigos.

Mas minha maior aventura nessa misteriosa, irremovivelmente humana e interminável área foi quando espiei a belíssima mulher do nosso mal-encarado vizinho, o capitão de mar-e-guerra Rodoaldo mudando de roupa e com as pernas bambas de nervoso quase cai do telhado. Papai brotou na varanda empunhando o seu niquelado revólver Smith & Wesson calibre 38-duplo e, não fosse o seu grito irritado de “Quem está ai em cima?!”, eu provavelmente não estaria tirando esse 1º de abril que vem meu infinito “isso” sendo filtrado pelo meu pequeno “eu”.

Também colei muito nas provas de matemática, latim e francês e mais ainda nas de física e química, que eram territórios de um outro povo o qual falava uma língua que eu jamais entendi.


No quesito da inveja eu até hoje peco brutal e exageradamente, porque fui o “irmão mais velho", o que dá o exemplo, não pode ser egoísta e é sempre o culpado das brincadeiras mais perigosas. De tal modo fui perseguido por esse dever que até hoje pouco distingo generosidade de correção. Em consequência, sou perseguido por um tirânico super-ego — por um conjunto de regras morais que liquidaram o meu sono quando estilhacei com uma pedra um vidro de janela, imitando o Garoto do filme de Carlitos e, como sobremesa, beijei por interesses “baixos” a inocente Lurdinha que estava trocando de roupa com a porta aberta.

Falei mal, caluniei e intriguei como é hoje moda e ganha-pão no Brasil. E como não estamos na tal “pátria educadora", mas no “país dos ladrões", confesso que roubei muito do bolso do paletó do papai e da bolsa de mamãe. Foram tantos trocados que, mesmo considerando a mentirosa e imoral folha corrida deste governo, se tais trocados fossem somados, dava para comprar um bom vinho comemorativo da vitória na sacrossanta eleição que foi vencida graças às mentiras contadas ao povo bom e fiel. Afinal, ele não deve ser cultivado por escolas e hospitais, mas cuidado pelas obras e pelos pixulecos pagos (e recebidos) dos nossos compadres miliardários que são a glória e a graça da nossa cada vez mais densa desonestidade e má-fé.

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Imagina, leitor, se algum dos nossos barões — do Legislativo, do Judiciário ou do obviamente solitário e, por isso mesmo, totalmente surtado Executivo, mais os nossos mais dignos, honestos e criativos empresários presos, decidissem “pregar” a todos vocês, esse meu 1º de abril confessional?

Sobraria alguma coisa? Ou todos repercutiriam as sábias palavras do intemerato ministro do STF Luís Barroso, quando disse: “Meu Deus do céu! Essa é nossa alternativa de poder. Não vou fulanizar mas quem viu a foto sabe do que estou falando". Como o ministro não sabia que estava sendo transmitido pelo sistema interno de TV, o desabafo é uma pérola de sinceridade, mais do que apropriada — com a devida vênia — de um 1º de abril deste malfadado ano de 2016!

Isso posto, eu pergunto com o devido respeito: E se nos fosse estampada uma foto de todos — isso mesmo — de todos os ocupantes dos três poderes? Quem não faria, com as devidas ressalvas de sua fé e confiança do “esse ou essa eu conheço!”, essa mesma exclamação? Ou o ministro Barroso pensa que ele ficaria de fora do axioma de Maria Madalena, devidamente acionado por Cristo e usado como artigo de fé no Brasil petista que reza: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra?”

E assim vamos para um poço sem fundo porque sem a verdade (nua e bela dentro do poço como disse um esquecido Jorge Amado no seu “Os velhos marinheiros") não há democracia que aguente. Infelizmente, nas democracias igualitárias, o público e o particular não são separados. Esse impedimento é o que se chama “verdade” — é o peso às vezes absurdo que vem com o cargo. Nelas, o cargo não alivia ou desculpa, mas agrava e penaliza. E é justamente isso que falta neste nosso Brasil perdido no labirinto de sua incapacidade de sequer supor a existência da verdade.

Roberto DaMatta 

Sem trama e sem final

“Por que não escolheste um tema sério? A forma é excelente, mas as personagens parecem pedaços de pau, o tema é insignificante. Uma quinta série de ginásio faria melhor. Pega alguma coisa da vida, de todos os dias, sem trama e sem final.” Esse é o trecho de carta escrita por Anton Chekhov para o irmão mais velho, Alexander, em 16 de junho de 1887.

A economia é coisa da vida, de todos os dias. Trata-se de tema sério, longe de ser insignificante. Por que então o governo brasileiro e, sobretudo, seus defensores parecem pedaços de pau ao tratar do assunto? Para salvar Dilma do impeachment, pensam, é preciso gastar mais. Para salvar Dilma do impeachment, é preciso abater cerca de R$ 120 bilhões da “meta”, aquela que não é fixa, número que flutua ao sabor dos desmandos de Dilma e de seu fiel ministro da Fazenda, o inventor da “banda fiscal”. 



Para salvar Dilma do impeachment, é preciso abrir espaço para mais gastos, mais repasses para os Estados brasileiros, muitos quebrados. Para salvar Dilma do impeachment, é preciso jogar debaixo do trem as reformas da Previdência e das leis trabalhistas, ambas urgentes para a retomada sustentável do crescimento econômico e do emprego. Para salvar Dilma do impeachment, vale tudo. Vale até quebrar o Brasil, quebrá-lo mais de uma vez. Afinal, arrebentado o País já está. Arrebentado de forma vil, léguas da excelência.

Repito palavras que escrevi em 10 de outubro de 2014 na Folha de S. Paulo em artigo intitulado “Mentira tem perna curta”. “Há quem ache que mentira repetida à exaustão torna-se verdade absoluta. Há quem subestime a capacidade de reflexão das pessoas repetindo refrões mentirosos como “o Brasil quebrou três vezes durante a época em que o PSDB esteve no poder”, nos anos 1990. Prefiro outro dito popular, o que diz que mentira em cima de mentira corre, corre, mas não chega a lugar algum com suas pernas desavantajadas. Igual ao Brasil de Dilma Rousseff.

Quem te viu, quem te vê. Depois de registrar o maior déficit primário em duas décadas no mês de fevereiro de 2016, cerca de 2,1% do PIB no acumulado de doze meses, o Brasil está, sim, quebrado. A dívida pública, hoje acima de 70% do PIB segundo a metodologia do FMI, a única métrica comparável a de outros países – uma vez que a medida do Banco Central exclui parcela relevante da dívida pública de seu cálculo –, está em trajetória ascendente. Ainda que não se considerem as mais recentes tentativas no estilo “salve-se quem puder” do governo, o estoque bruto da dívida pública brasileira deve alcançar rapidamente os 80%.

A velocidade da deterioração fiscal tem sido espantosa – o que mata, aquilo que quebra é, sempre, a velocidade. Mas governo em fim de linha, governo descarrilado, não se importa com a velocidade. Ao contrário, para governo em fim de linha, quanto mais rápido, melhor. Quem sabe assim a ilusão de que a economia em frangalhos será reanimada sobreviva um pouco mais, ganhe adeptos, um pouco mais, ou mantenha os iludidos de plantão cegos pelos movimentos vertiginosos que não conseguem acompanhar.

O Brasil está quebrado. Para resolver os problemas que impedem a retomada do crescimento e do emprego será necessário enorme empenho em reestruturar o orçamento público, adotando medidas indigestas que muita indignação hão de gerar. Benefícios, programas sociais, regras de salário mínimo, benesses do BNDES, tudo isso terá de ser repensado e reformulado. Antes, tudo isso terá de ser explicado à sociedade. Para que se chegue ao consenso do que é necessário, será preciso explicar para a população brasileira porque as melhorias de vida que pensara ter alcançado eram apenas fruto de uma falácia, de um grande embuste. Embuste travestido de “preocupação com o povo, atenção aos pobres”.

O Brasil está quebrado. Isso significa que a volta à realidade será dura, lenta, prolongada. Poderá se estender por muitos anos, a depender dos descalabros adicionais aos quais o governo estrebuchante nos submeterá. É essa a coisa da vida, de todos os dias, a economia. Sem trama e sem final.

Dilma passa a traficar cargos às escondidas

Onde você leu: “A presidente Dilma Rousseff anunciou, ontem, que a reforma ministerial ficará para depois da votação do pedido de impeachment”, leia: a reforma continua sendo negociada às escondidas com partidos que possam ajudar o governo a derrotar o impeachment. Bem como a entrega desde já de cargos nos diversos escalões da administração pública.

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Dilma se convenceu de que estava pegando muito mal para ela e para partidos e políticos gulosos o tráfico de ministérios, cargos e liberação de emendas ao Orçamento da União, dinheiro destinado à construção de pequenas obras em redutos eleitorais de deputados e senadores. O fisiologismo escancarado sempre assusta. E um governo perdulário assusta muito mais. Daí o recuo de Dilma. Combaterá à sombra, pois.

De resto, começara a briga entre os partidos dispostos a entrar no governo para ocupar o espaço vago deixado pelo PMDB depois do rompimento anunciado. PP, PR e PSD, principalmente esses, ambicionam os ministérios mais poderosos e certas posições consideradas estratégicas. O PP, por exemplo, não abre mão do Ministério da Saúde, ainda de posse de Marcelo Castro, do PMDB. O PR também o deseja.

A opção de Dilma de seguir distribuindo cargos e de deixar para mais adiante a escalação do elenco de novos ministros, aumentou a desconfiança dos que negociam com ela, repercutindo na tropa de soldados rasos ávida por sinecuras. A fama de Dilma entre os políticos é de prometer coisas e de não entregá-las. Converse com qualquer um deles e você ouvirá um rol interminável de queixas a esse respeito.

Uma vez que consiga barrar o impeachment, nada mais natural que Dilma se sinta fortalecida e acabe esquecendo parte do que prometeu. Nada mais natural que o PT, sentindo-se vitorioso, queira mais espaço em um governo que já não será mais pilotado apenas por Dilma, mas também por Lula, que desembarcou em Brasília e operou o milagre político considerado impossível.

À medida que se aproxima o dia da votação do impeachment na Câmara, mais se torna delicada a situação de Dilma. Ela depende dos partidos de direita para se garantir no cargo. Mas terá de lidar, depois, com o PT, seus aliados e movimentos sociais prontos a exigir que ela passe a governar mais pela esquerda. Lula sempre soube conviver com forças contrárias. Dilma nada aprendeu com ele. Nem mesmo a negociar.

Ricardo Noblat

O país despenca em meio ao caos

Como Advogado-Geral da União, José Eduardo Cardoso brilhou. Quer dizer, alinhou profundos argumentos jurídicos para afastar da presidente Dilma a sombra do impeachment. O problema é que deveria ter atuado como ministro da Justiça, que não é mais. Traduzindo: a batalha pelo afastamento de Madame é essencialmente política. Chegou à reta final, ou seja, tornou-se inevitável, quando o vice-presidente Michel Temer escreveu estranha carta de rompimento com a presidente. Entraram em campo as alegações políticas, as disputas por espaços de poder, acima e além de supostas discussões doutrinárias, que foram para o banco.

Sendo assim, por maiores elogios dedicados à defesa jurídica feita pelo novo Advogado-Geral da União, está em pauta a questão política, de saber quem vai formar e mandar no governo. Os adversários da presidente utilizaram o impeachment por mera comodidade, como instrumento capaz de desalojá-la da capacidade de empalmar o poder. Reagiram por sentir-se alijados da capacidade de nomear ministros e de participar da definição de políticas públicas. Por isso escolheram as armas e o campo de batalha.

Optando pelos meandros da interpretação jurídica, José Eduardo Cardoso desviou o embate sobre quem deve dominar a administração nacional, se a presidente ou o vice-presidente da República, se o PT ou o PSDB. Foi aplaudido, mas deu a impressão de pretender utilizar as regras do jogo de basquete numa partida de futebol. Misturou os objetivos. Será derrotado no primeiro round.


O impeachment segue seu curso, em meio às dificuldades de Dilma reunir o número necessário de deputados para mantê-la no palácio do Planalto. Poderá perder na guerra dos números, não conseguindo reunir os 172 votos em condições de afastar seu impedimento temporário de 180 dias. Haverá um segundo tempo, é claro, no Senado. Conquistando 40 senadores, estará garantida, mesmo precisando enfrentar um interregno fora da sede do Executivo. Um vexame, mesmo alcançando a vitória no gesto final, coisa que poderá deixar as instituições em frangalhos.

Em suma, os batalhões pró-impeachment parecem muito mais numerosos, na Câmara. Se bastarão para afastá-la pelos 180 dias, é outra história. Enquanto isso, o país despenca em meio ao caos administrativo, econômico e político. Trocar ministros como quem muda de camisa nunca foi solução, muito menos quando não se liga para a capacidade dos infelizes.

Após lavar as mãos, Dilma fará sumir o sabonete

Ao terceirizar a Lula a operação de salvamento do seu mandato, Dilma compôs uma versão particular do mito de Fausto. Hipotecou a alma ao Tinhoso por um prazo estipulado. Em troca da perspectiva de continuar usufruindo da sensação de poder pelos dois anos e nove meses que lhe restam de mandato, a pseudo-presidente paga adiantado o alto preço da desmoralização.

Nesta sua fase, digamos, desinibida o governo democrático e popular de madame escandalizaria o ex-deputado Roberto Cardoso Alves, que formulou no governo Sarney a doutrina político-teológica baseada no princípio franciscano do “é dando que se recebe”.

O Planalto acena com a hipótese de dar ao PP, partido com 32 filiados enrolados na Lava Jato, a pasta da Educação. E negocia com o mensaleiro Valdemar Costa Neto, em prisão domiciliar, a entrega ao PR da pasta da Agricultura ou equivalente.


Charge (Foto: Miguel)
Não é só: escancaram-se para as duas legendas as portas de acesso às diretorias, vice-presidências e presidências de instituições como Banco do Brasil, Caixa Econômica e Banco do Nordeste. O PSD do ministro Gilberto Kassab (SP) vai na rabeira, recolhendo as sobras.

No instante em que confiou a gerência do balcão a Lula, Dilma lavou as mãos. Ao permitir que o ex-presidente, agora na pele de ex-quase-talvez-quem-sabe-futuro-ministro, ofereça aos ratos os queijos finos do organograma estatal, Dilma parece decidida a fazer sumir o sabonete.

Lula e os demais operadores do governo executam seus papéis com tamanha competência e probidade que Dilma merece ser condenada à perda do mandato. Perdeu-se ao longo dos 13 anos de poder petista um elemento essencial na política: o recato.

Disse tudo

Eu não conhecia impeachment de vice-presidente. É tudo novo para mim. Mas o ministro Marco Aurélio está sempre nos ensinando
Ministro Gilmar Mendes 

Novas eleições para limpar o esgoto

Nem precisa esperar o fim da novelesca "Ocaso da rainha louca". O cheiro já chega longe. Afinal o que esperar da inteligência dos políticos brasileiros?

Eleitos para representar e defender os eleitores, a primeira e única atitude, enquanto imunes e impunes, é mesmo obrar na cabeça de quem os elegeu. Crentes em serem a encarnação no atacado do salvador da pátria, ainda não pensaram que estão enfiando o país no brejo.

Dispostos a resolver o problema político, no qual estão empenhados há mais de um ano, esquecem que a rapidez nas soluções será efetiva para a recuperação de milhões de pessoas. Mas como crise não afeta bolso político, continuam nas articulações, para render mais discussão e mais espaço na mídia.
Charge (Foto: Miguel)

Se não bastassem os golpes de retórica, as jogatinas de aliciamento, as firulas do juridiquês, as manobras nas sombras, o toma lá dá cá, e a mais criminosa compra escancarada de votos, agenciada pelo ex quase ministro Lula, aspone contra o impeachment, a nova "saída" está na mesa das elites políticas.

O golpe, este verdadeiro, com aval até de Marina Silva, que ressuscitou da mata, começa a ganhar adeptos no saco de gatos. Tudo se resolveria com a proclamação de novas eleições ainda este ano para todos os cargos eletivos federais. Simplicidade maior não há! Merece estar nas manchetes mesmo camuflada a origem da genialidade: Lula.

O jogo recomeçaria zerado sem vencidos ou vencedores. A turba iria para as ruas aclamando seus candidatos e se jogaria para debaixo do tapete o impeachment, os restos de Dilma, os crimes do aspone ministro como articulador com dinheiro e cargo público, a falta de caráter geral. A ficha limpa seria concedida a todos e a todas como adora a tresloucada Dilma.

O Brasil, mais uma vez, seria hilário. Um acordo dos mais cretinos contra a democracia para que possam retomar o jogo de roubar o país dentro da legalidade avalizada pelo judiciário.

O custo da tal "crise política" cairia nas costas dos mais pobres, dos desempregados, das empresas falidas, de todos aqueles brasileiros que bancaram os palhaços de amarelo ou vermelho. E todos ficariam obrigados a pagar os custos da tal nova eleição, que não são poucos.

Num momento de crise alarmante, o país teria que gastar um "pedágio" com todos os políticos passando pela lava jato das urnas como para abençoar sua magnânima batalha pela democracia. Mais uma vez o Brasil assistiria os poderes gozarem com a cara do cidadão e ainda pagar o ingresso.

Alvorada

Amanhece...
E amanhece o desespero...
Dura condenação
Da vida humana!
Angústias a oprimir o coração,
Seguidas como os dias da semana.

Mais vinte e quatro horas
De negrura,
Que o sol nem há-de ver, na sua pressa.
Em vez dum claro apelo,
O pesadelo
Dum sonho mau, que apenas recomeça.
Miguel Torga

Perdas e danos

O dinheiro é fácil e barato para empresários com amigos no centro do poder. O lucro é certo para empresas privadas privilegiadas.

É jogo de um único perdedor, a quem nem é preciso dar satisfações: trinta milhões de pessoas, submetidas à poupança compulsória no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, donas de um patrimônio bilionário (mais de R$ 207 bilhões, em janeiro).

Sobram perdas para os trabalhadores, a começar pela corrosão monetária (TR+ 3% ao ano) imposta ao fundo.


Há muito mais. Neste mês reluz o reconhecimento do prejuízo de R$ 1 bilhão investidos na Sete Brasil — figurante em dois de cada três inquéritos criminais no Supremo e na Justiça Federal sobre a megalomania, má gerência e corrupção que devastaram a Petrobras nos governos Lula e Dilma.

Sete Brasil é apenas um dos negócios ruins na carteira FI-FGTS. Trata-se de um braço do Fundo de Garantia, criado em 2007, para ampliar a transferência de dinheiro barato dos cofres públicos para os de grupos privados já beneficiados por um banco estatal, o BNDES, com empréstimos a custos abaixo do mercado. Detalhe relevante é que o FI-FGTS também financia o BNDES, onde aplica 19% do patrimônio.

Recursos da poupança compulsória dos trabalhadores, já dilapidada pelos padrões de baixo rendimento e indigente governança, passaram a ser partilhados entre empresas de imóveis, saneamento, petróleo, aeroportos, estaleiros, papel e celulose. Houve significativa concentração em poucas empresas privadas, a maioria de capital fechado.

Resultado: mais de um terço dos recursos de trabalhadores aplicados via FI-FGTS nos últimos oito anos foi direcionado a uma dezena de empresas, hoje processadas por crimes de cartel, corrupção, lavagem de dinheiro em negócios com a Petrobras e outras estatais. Todas estão à beira do precipício, e com o dinheiro de trinta milhões de pessoas.

Metade dos recursos usados para compra de participações acionárias foi dirigida ao grupo Odebrecht. Uma das beneficiárias foi a Odebrecht Ambiental, de saneamento. Em 2013, o FI-FGTS pagou R$ 315 milhões para aumentar em 5% sua posição no controle (30% do capital).

Esse investimento equivalia a uma avaliação da empresa em R$ 6,3 bilhões, ou seja, 22 vezes seu lucro operacional registrado em 2012 (R$ 273 milhões). A exorbitância foi percebida porque valorizava a empresa numa escala seis vezes acima da maior do setor, a Sabesp.

Mensagens eletrônicas que levaram à prisão de Marcelo Odebrecht, um dos acionistas, lançaram luz sobre suas relações com o representante da Central Única dos Trabalhadores no Comitê de Investimentos do fundo FI-FGTS, André Luiz de Souza.

O jogo de interesses obscuros se repete na década, sempre com placar final certo — prejuízo para os donos do patrimônio do Fundo de Garantia. Quando se amplia o horizonte, percebe-se que as perdas provocadas pelas estranhas transações já superam R$ 100 bilhões. É a dimensão do rombo somado em 2015 pela Petrobras, Eletrobras, Correios e fundos de pensão estatais (Previ, Petros, Funcef e Postalis). Nos Correios a situação ficou tão crítica que a estatal só garante o pagamento de salários até setembro.

José Casado

No auge da crise, o auge do lulopetismo de coalizão comprada

Estamos entrando no clímax da crise política que consome o Brasil desde o estouro da bolha econômica inflada pela deletéria expansão econômica pelo consumo, que é a principal política pública na área de gestão econômica da era lulopetista (2002-2016).

Já falamos neste espaço algumas vezes que uma economia só cresce de maneira sustentável se o aumento do consumo ocorrer em conjunto com o aumento da produtividade da economia, caso contrário, esse consumo estará dilapidando poupança nacional e inviabilizando, no longo prazo, investimentos em desenvolvimento tecnológico, educacional e estrutural. O crescimento do consumo de maneira forçada, através de subsídios para pobres e ricos, inevitavelmente gera crise econômica, desemprego e liquidação de maus investimentos. Um roteiro infalível seguido à risca pela equipe econômica de Guido Mantega, que Levy e Barbosa não puderam contornar.


Enquanto a crise econômica vai gerando uma intensa crise política, o lulopetismo volta a fazer a única coisa que sabe quando está politicamente necessitado de apoio: corrupção e troca de favores.

O lulopetismo nunca foi uma unanimidade no Congresso Nacional. Sequer formou, em qualquer momento, uma maioria ideologicamente comprometida com seus princípios ideológicos básicos. Nem mesmo na saída das eleições de 2002, quando Lula só não venceu no Estado de Alagoas.

Essa falta de apoio parlamentar genuíno no Brasil é um problema particularmente grave, pois o sistema de governo brasileiro é um presidencialismo com muitos elementos de parlamentarismo. Vários dos constituintes de 1988 já declararam que a Constituição brasileira foi pensada para um modelo parlamentarista, e não presidencialista, sofrendo gatilhos para poder se adaptar a esse tipo de sistema. O próprio ambiente multipartidário não é propício para o presidencialismo, pois o Presidente nunca consegue apoio parlamentar suficiente apenas dentro do seu próprio partido ou coligação original. O presidencialismo faz muito mais sentido em um sistema bipartidário.

Daí vários cientistas políticos nacionais declararem que o Brasil vive um sistema político misto, chamado de “presidencialismo de coalizão”, onde o Presidente, recém-eleito, precisa cooptar outros partidos, mormente através de cargos e favores, para conseguir a maioria necessária para governar.

Voltando ao lulopetismo, esse movimento político fez desse erro de sistema uma arte. Transformou a coalizão política em formação de quadrilha. Deputados deixaram de ser convencidos e passaram a ser comprados, no sistema conhecido como Mensalão, que inclusive gerou condenações criminais como as imputadas a José Dirceu e José Genoíno. Além disso, outros movimentos como o Petrolão e os saques a todas as estatais brasileiras, em especial os Correios e a Petrobras.

Agora, nos seus momentos finais, escancara esse método de fazer política negociando cargos e, provavelmente, mais propinas, para partidos grandes (como o PP), médios (como PR e PRB) e pequenos (como o PTN) para impedir a aprovação do impeachment, tal como Collor fez há 24 anos atrás.

Uma vez eu ouvi uma frase de um amigo que se encaixa perfeitamente ao momento atual: “a hipocrisia é a deferência que o imoral faz à virtude”. Normalmente, mesmo uma pessoa inescrupulosa sabe distinguir o certo do errado, ainda que escolha sempre fazer o que é errado. Então, enquanto pratica sua imoralidade, tenta esconder esse feito, praticando hipocrisia porque sabe que a sociedade o recriminará se descobrir a verdade. Quando o malfeitor sequer é hipócrita, escancarando sua vilania em público, é porque perdeu totalmente o norte moral, já não mais se importando com o que os outros, ou Deus, pensam dele. Não há nenhum balizamento ético.

É nesse estágio que se encontra o lulopetismo. Na falta de qualquer referência, destila suas impropriedades como se coisa normal fosse. Nas palavras de Lula, “querem criminalizar a política”, frase essa muito bem ironizada pelo site Sensacionalista, ao anunciar que Lula acha que “querem criminalizar o crime”. A política não é antiética. O homem é um animal político, já dizia Aristóteles. Antiético é o PT, e sequer faz questão de esconder.

Basta agora conferirmos quem abraçará esse monstro para morrer politicamente junto. Com a palavra, os nobres deputados.r

terça-feira, 5 de abril de 2016

Dilma, impeachment, golpe

É um país da América Latina, em recessão e com a inflação descontrolada. As denúncias de subornos em troca de favores políticos para empresários se multiplicam. Relutando a tomar parte de contratos ilícitos, o presidente do monopólio estatal de petróleo renuncia sob pressão de um assessor próximo do presidente. O caso chega ao Congresso, que inicia uma investigação. Vota-se a favor do julgamento político do próprio presidente da Nação. Este renuncia dois meses depois e assume o vice-presidente, um político de outro partido.

Parece algo conhecido? Trata-se do Brasil, claro, só que em 1992. Aquela história chegou ao Congresso por meio de investigações jornalísticas. O presidente Collor, da direita do Estado de Alagoas, alegou que a coerção da mídia e dos partidos de oposição –o paulista PT, entre eles– era um golpe de Estado. Foi um recurso discursivo para minimizar o protesto das ruas que pedia sua destituição. Foi em vão.

Qualquer semelhança com o presente não é coincidência. Aquele intelectual que dizia que a história sempre ocorre duas vezes estava errado: ambas as ocasiões podem ser trágicas. Alguém neste século plagiou o script de 1992 e o pôs diante do espelho. Nele, o que está à esquerda se vê à direita, e vice-versa; o resto é idêntico. Exceto as cifras da corrupção, claro, que vão dos 2,5 milhões de dólares (8,9 milhões de reais) do jardim de Collor, sua própria Babilônia em Brasília, aos 2 bilhões (7,1 bilhões de reais) da Petrobras sob o PT.


O Brasil modelo 2016 fala ao restante da América Latina. Os golpes militares são relíquias do passado, mas não a fragilidade institucional e sua consequente instabilidade. De fato, desde as transições dos anos oitenta, 20 presidentes da região não completaram o mandato, a maioria deles sem intervenção militar alguma. Somente dois foram vítimas de um golpe militar clássico.

Alguns foram depostos por impeachment, como Collor e Carlos Andrés Pérez na Venezuela. Outros por uma crise na coalizão de governo, como Lugo no Paraguai. Também há os que renunciaram ante revoltas da população contra a corrupção, como Pérez Molina na Guatemala, ou por uma profunda crise econômica, como De la Rúa, na Argentina. Para alguns especialistas essas crises seriam evitadas com um sistema parlamentar. Outros veem nesses presidencialismos menos rígidos uma capacidade autocorretiva própria da democracia.


“Se trata-se de um golpe, o golpe foi o próprio Lula quem deu, empurrando a presidenta ao precipício ao se fazer blindar com um cargo de ministro"

Em todos esses casos se vê o DNA da política latino-americana, essa incapacidade congênita de respeitar as regras do jogo. É uma região de presidentes que se vão antes do estipulado, impotentes para resolver as crises políticas que eles mesmos causam, ou então que ficam mais tempo do que o devido, bem capazes de transformar a Constituição em um traje feito sob sua medida. Cenários diferentes, são ambos igualmente propícios para a arbitrariedade, o abuso do poder e, quase inevitavelmente, a corrupção generalizada, sobretudo quando há abundantes recursos como durante o boom de preços, agora esgotado.

Por essa fossa escorre a institucionalidade democrática. Assim é a crise brasileira, apesar de toda a cacofonia sobre um suposto golpe institucional, constitucional e outros eufemismos oximorônicos. Miopia analítica ou ingenuidade, senão uma deliberada intencionalidade política, o argumento do golpe é funcional para um governismo posto contra as cordas por uma economia em crise, um furacão de denúncias e uma sociedade enfastiada.

Ocorre que, se trata-se de golpe, o golpe foi o próprio Lula quem deu, empurrando Dilma ao precipício ao se fazer blindar com um cargo de ministro. Falar de golpe é colocar um véu fictício na mais importante responsabilidade nesta crise: a do partido do Governo ante fraudes de bilhões de dólares contra o Estado. Se esta crise é um golpe, Marcelo Odebrecht seria um preso político. E para que o PT fale de golpe, antes deveria reconhecer sua participação naquele “golpe” –enfatizo as aspas– contra Collor, hoje, curiosamente, um aliado.

Só se trata de uma decomposição que se prolonga por tempo indefinido, o que é suficientemente grave. Não em vão o mais lúcido estadista de toda a América Latina, Fernando Henrique Cardoso, cobrou de Dilma um gesto de grandeza –a renúncia– ante sua evidente incapacidade de continuar governando. E por certo não se tratou da recomendação de um golpista de direita.

É a sétima economia do planeta, primeira da região. É a nação indispensável para o investimento e o comércio hemisférico, para mediar a crise venezuelana e para fortalecer o sistema interamericano. Com um Brasil instável, além disso, a mudança de ciclo de preços internacionais causará estragos em todas as economias da região. Resolver a crise do Brasil é uma prioridade para toda a América Latina.

O Brasil dá adeus a Lula

Assistimos aos últimos dias do projeto criminoso no poder. O país padeceu durante treze anos de uma forma de ação política que associou o velho coronelismo tupiniquim ao leninismo — e com toques de um stalinismo tropical, mais suave, porém mais eficaz. Ainda não sabemos — dada a proximidade histórica — quais os efeitos duradouros deste tipo de domínio que levou à tomada do aparelho de Estado e de seus braços por milhares de funcionários-militantes, que transformaram a ação estatal em correia de transmissão do projeto petista, criminoso em sua ação e devastador na destruição do patrimônio nacional.

É nesta conjuntura — a mais grave da história do Brasil republicano — que as nossas instituições vão ser efetivamente testadas. Até o momento, uma delas, o Supremo Tribunal Federal, ainda não passou no exame. Muito pelo contrário. Inventou um rito de impeachment que viola a Constituição. Sim, viola a Constituição. Deu ao Senado o “direito” de votar se aceita a abertura de processo aprovada pela Câmara, o que afronta os artigos 51 e 52 da Constituição. E interferiu até na composição da comissão processante da Câmara. Pior deverá ser a concessão de foro privilegiado e, mais ainda, do cargo de ministro Chefe da Casa Civil a Luís Inácio Lula da Silva. Caso isso ocorra — e saberemos nesta semana — o STF deixará de ser um poder independente e passará a ser um mero puxadinho do Palácio do Planalto, uma Suprema Corte ao estilo da antiga URSS.

Ainda na esfera do STF, causa preocupação o seu protagonismo em um processo estritamente político como é o impeachment. Não cabe à Suprema Corte decidir o andamento interno e o debate congressual do impeachment. O STF não pode, em nenhuma hipótese, se transformar no Poder Moderador — de triste memória, basta recordar os artigos 98-101 da Constituição de 1824. E nem desempenhar o papel que o Exército teve nas crises políticas desde a proclamação da República até a promulgação da Constituição de 1988. Em outras palavras, o STF não pode ser a carta na mão de golpistas, que a colocam na mesa quando estão correndo risco de derrota. Judicializar o impeachment é agravar ainda mais a crise e jogar o país no caos social e político.

A solução do impasse político é no Parlamento — e com a participação das ruas. A manifestação de 13 de março — a maior da história do Brasil — impediu uma saída negociada do projeto criminoso do poder. O sinal das ruas foi claro: fora Dilma e Lula na cadeia. A estas duas palavras de ordem, as ruas reforçaram ainda mais a necessidade imperiosa de continuidade da Lava-Jato até o final. O impulso popular levou o PMDB a mudar radicalmente de posição, basta recordar a dúbia decisão tomada a 12 de março — de independência — e a meteórica reunião de 29 de março, quando rompeu com o governo.

A participação das ruas na política brasileira inaugurou um novo momento na nossa história. É incrível o desinteresse da universidade em estudar o fenômeno representado, entre outros, pelos movimentos Vem pra Rua e Brasil Livre. Ao invés de enfrentar este desafio interpretativo, os docentes das instituições públicas organizam atos e manifestos em defesa de um governo corrupto, antibrasileiro e criminoso. É a apologia ao crime — e paga com dinheiro público.

A resposta do projeto criminoso de poder foi pífia. Tentou de todas as formas organizar manifestações para demonstrar que ainda domina as ruas e tem apoio popular. Fracassou. Mesmo utilizando-se de fartos recursos públicos, de partidos políticos, centrais sindicais pelegas e contando com setores da imprensa para inflar o número de participantes. Pior foram os comícios realizados no Palácio do Planalto. Nunca a sede do Executivo Federal assistiu aos tristes espetáculos de incitação à violência, de ameaça à propriedade privada e ao rompimento da ordem legal. E contando com a conivência de Dilma. Lula, o presidente de fato, optou por permanecer em uma suíte de hotel, em Brasília, de onde governa o Brasil, como se a ficção dos clássicos da literatura latinoamericana — “A hora do bode”, de Mário Vargas Llosa, entre outros — fosse transformada em realidade.

Neste momento decisivo da vida nacional é necessário evitar cair nas armadilhas produzidas à exaustão pelo projeto criminoso de poder. Num dia insinuam que adotarão o Estado de Defesa (artigo 136 da Constituição), noutro que vão antecipar a eleição presidencial, depois que contam com um número confortável de deputados para impedir a abertura do processo de impeachment, ou que o Senado vai rejeitar a decisão da Câmara. E mais: que a saída de Dilma vai produzir uma grave crise social. Falácias. É o desespero, pois se avizinha — ainda neste mês — a derrota acachapante do petismo.

A hora do acerto de contas político está chegando. Manter o respeito à lei, à ordem e à Constituição é essencial. Lula — que é quem, de fato, vai ser “impechado” — agirá para desestabilizar o processo democrático, como se fosse um general abandonando território conquistado. Destruirá o que for possível destruir. Não deixará pedra sobre pedra — daí a necessidade da sua prisão, pois solto coloca em risco a ordem pública, desrespeita as instituições e ameaça o país com uma guerra civil. Quer transformar a sua derrota em um cataclismo nacional. Não vai conseguir. A desmoralização da política não pode chegar ao ponto de dar a ele o direito de decidir que vai incendiar o país. Ele sabe que, desta vez, como se diz popularmente, a crise não vai acabar em pizza — ou na rota do frango com polenta, em São Bernardo do Campo. Vai terminar em sushi.

Marco Antonio Villa 

O PT e o governo legitimaram "o golpe". Ou melhor: o impeachment

Quem decide se Dilma deverá permanecer no cargo ou se afastar dele até ser julgada pelo Senado? A Câmara dos Deputados. Está escrito na Constituição.

Como pode ser chamada de golpe uma eventual decisão da Câmara a favor do afastamento de Dilma, e uma posterior decisão do Senado que casse os direitos políticos dela e o mandato?

Tanto não é golpe o que está em curso no Congresso que a defesa de Dilma foi apresentada, ontem, na Comissão Especial do Impeachment da Câmara pelo Advogado-Geral da União, o ministro José Eduardo Cardoso, ex-ministro da Justiça.


Ninguém se defende de golpe no ambiente em que ele foi tramado e aonde será decidido. De resto, não existe golpe, golpe digno de ser chamado por esse nome, se feito às claras, com regras definidas pelo Supremo Tribunal Federal, com direito a manifestações de ruas favoráveis ou contrárias a ele, e acompanhado em tempo real por todos os meios.

Esse é o principal ponto fraco, o que na verdade desmoraliza a tese de golpe esgrimida por todos os que defendem um governo paralisado por seus erros e pelos efeitos dos seus erros. Um governo que já não governa.

Quem primeiro, digamos assim, legitimou o “golpe” foi o PT e seus aliados quando aprovaram a composição da Comissão Especial do Impeachment da Câmara e indicaram seus representantes para fazer parte dela.

Naquela ocasião poderiam ter se recusado a aprovar a composição – mas, não, avalizaram-na pela unanimidade dos seus votos. Não perderiam o direito de indicar depois o mesmo número de representantes para integrá-la e defender o governo.

Indiretamente, Dilma também legitimou o impeachment ao convocar Lula para ser ministro da Casa Civil e impedir a sua queda.

Dilma e Lula legitimam o que apontam como golpe ao oferecer cargos, liberação de emendas parlamentares ao Orçamento da União e outras sinecuras a deputados que os ajudem a enterrar o impeachment.

Cardozo valeu-se de todos os recursos de um bom advogado para negar que “pedaladas fiscais” configurem crime de responsabilidade como está previsto na Constituição. E para apresentar as “pedaladas” como se, no máximo, não passagem de um “desrespeito tangencial” à Constituição, não um atentado contra o que está escrito na Constituição.

Em resumo, o que Cardozo disse com outras palavras: o processo de impeachment só não será um golpe se acabar arquivado pela Câmara. Ou pelo Senado mais tarde. Se dele resultar a deposição de Dilma, terá sido um golpe.

Ora, ora, ora...

Mais respeito pela inteligência alheia!

Lula quer Judiciário, Congresso, imprensa, empresários e sociedade de joelhos

O investigado Luiz Inácio Lula da Silva comandou nesta segunda-feira mais um ato golpista no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Aquele que é chamado, pela imprensa internacional, de presidente “de facto” — sinônimo de ditador — atacou o vice-presidente da República, Michel Temer, falou como chefe de governo e criticou a imprensa e os mercados.

Lula decidiu, em suma, chantagear todo o processo político. Caiu nos braços de suas milícias e acha que, com elas, vai emparedar a Câmara, o Senado, o Judiciário, o empresariado, a esmagadora maioria dos brasileiros que quer o impeachment e a imprensa. Agora, é Lula contra o Brasil.

Referindo-se ao vice, afirmou: “Não tenho nada contra Michel Temer. A única coisa que poderia falar é ‘companheiro Temer, se você quer ser presidente, dispute a eleição, meu filho'”. E mais: “Vai para rua pedir voto para você. Esse negócio de pensar em encontrar o caminho para chegar lá não dá certo”.


É um boquirroto. Eis o homem que, hoje, de um quarto de hotel em Brasília, como se o país fosse um lupanar, vai comprando os serviços daqueles e daquelas que passam lá para se oferecer. É um troço asqueroso. Comecemos pelo óbvio: Temer foi eleito. Suceder a presidente é uma disposição constitucional. Cabe a pergunta: e ele próprio, Lula, foi eleito por quem? Que se saiba, é hoje um dos campeões da rejeição, não é mesmo?

Um pouco antes, Vagner Freitas, aquele que, dentro do Palácio do Planalto, afirmara que se entrincheiraria, de arma na mão, se houvesse impeachment, havia chamado Temer de “golpista”.

Notem, então, para onde Lula e Dilma estão empurrando as instituições: o vice eleito, segundo as regras da Constituição, é tratado e chamado de golpista, e aquele que comanda a patuscada, sem ter sido eleito por ninguém, é o dono hoje de centenas de cargos da República para distribuí-los entre aqueles que lá comparecem para se vender.

Lula deixou claro que passará a ser, se ministro, o comandante também da economia: “Eu disse para companheira Dilma: ‘Venho para cá [para o governo], mas temos que saber que é preciso dar uma certa consertada na política econômica’.

No mesmo dia em que afirmou que pretende propor uma nova “Carta ao Povo Brasileiro”, hostilizou os mercados: “É importante conversar com mercado. Mas nosso mercado é povo trabalhador. Não adianta agradar. Quanto mais a gente agrada, mais a capa da revista bate. Mais sai porrada na TV e nos jornais”.

Entenderam? O discurso é da mais pura extração chavista. Caso o Brasil perca a batalha para Lula, dá para imaginar o que vem. Mesmo sabendo que há manifestações já marcadas pelos defensores do impeachment para o dia da votação na Câmara, provavelmente 15 de abril, convocou manifestações de rua.

Lula, este irresponsável, acha que ainda está nos estertores da ditadura, quando seus adversários de rua praticamente inexistiam, a não ser as forças militares, ou no impeachment de Collor, em 1992, quando, mais uma vez, só havia um lado se manifestando. Agora ele decidiu intimidar também o povo brasileiro.

Suas delinquências intelectuais não pouparam, mais uma vez, FHC. Contou: “Fomos tirados pela polícia em 1979 [do sindicato em São Bernardo]. Fui deitar às 2 horas. Quem veio me fazer uma visita foi o cientista político Fernando Henrique Cardoso. Ele me disse: ‘Não tem como a polícia invadir aqui’. Foi embora, e a polícia invadiu. Significa que nem todo cientista político tem a precisão das palavras. Eu poderia falar como Tite: fala muito, Fenando”.

É nojento! Até porque é bom que se saiba: FHC correu bem mais riscos do que Lula no período do golpe e teve punição mais severa: foi cassado pelo AI-5. A história, como a conta o petista, faz supor que FHC fez corpo mole diante da ditadura. Trata-se de uma mentira abjeta.

Ao lado de chefão do PT, que falava como presidente “de facto”, Gilmar Mauro, líder do MST, ameaçou o país com o caos caso haja impeachment.

Eis a democracia segundo a entende Luiz Inácio Lula da Silva.

Atenção! Quem viveu sabe, e eu vivi. Lula não falou essa linguagem nem nos estertores do regime militar. Este senhor, para ameaçar a democracia, está tendo a coragem que não teve para ameaçar a ditadura.

Reitero o que já escrevi: ou Lula se verga ao Estado de Direito, ou o Brasil se ajoelha diante do seu tirano.

Qual dos males é o pior?

Eu tenho um pesadelo. Sonho que esta crise não vai passar nunca, que ela se estenderá para além de impeachment ou não impeachment. A resistência do atraso é uma força da natureza. Eu tenho o pesadelo de que nós vamos continuar assim: “Com anestesia, mas sem cirurgia”. Eu tenho o pesadelo que, depois das mãos limpas, voltem as mãos sujas. Eu tenho a impressão de que estamos apenas cumprindo nosso destino traçado há 500 anos. Eu tenho medo que esta primavera de verdades da Lava Jato seja apenas uma utopia. Tenho medo de que toda essa crise política seja uma porta aberta para o nada.

Tenho muito medo de que nós não tenhamos a capacidade de nos regenerar; com que forças poderemos reverter os estragos já feitos? Teremos capacidade de regeneração? Será que vai se cumprir a conhecida (e terrível) profecia de Claude Lévi-Strauss, que aqui estudou nossas doenças, de que “o Brasil vai sair da barbárie para a decadência, sem conhecer a civilização”?

O patrimonialismo, esse adultério secular entre o privado e o público, a corrupção endêmica e o Estado como caverna de ladrões estão entranhados em nossas almas como um tumor inoperável.


Tenho medo. Todos os nossos problemas arcaicos estão vindo à tona provocados pela esculhambação que o PT produziu com dedicação e método. Eles são seculares e contam com a profunda maré de estupidez e oportunismo que nos move há séculos.

Estamos diante do sim e do não. Se Dilma sair deixando em seu lugar o Temer e seu PMDB, é quase certo de que, em curto prazo, não conseguirão melhorar a situação do Brasil. Quem vai fazer a reforma da Previdência, a tributária, quem vai atacar a burocracia, quem despedirá os milhares de vagabundos aparelhados no governo, quem vai segurar a inflação que está voltando?
O estrago deixado pelos utópicos ladrões criou um emaranhado de incógnitas que se embaralham num nó de cama de gato, nó que espada alguma corta.

E diante desse nó histórico, o PMDB se posta, trêmulo de orgulho e poder. Se o Temer entrar, talvez tenhamos um brevíssimo progresso ético. Mas, logo, logo, depois das emoções de calouros, eles se dedicarão a tomar medidas que voltarão a impedir o Brasil de melhorar. E vejam bem, (como dizem os petistas), vejam bem: depois de impeachment, o PMDB, com seus inúmeros indiciados e culpados, vai jogar todas suas forças para arrasar a operação Lava Jato, nosso único motivo de orgulho. Então descobriremos que assim como o atraso era um pretexto para o PT, para o PMDB o atraso é um desejo. Quando acabará esse pesadelo que percorre os céus de Brasília, esse grande comboio de cafajestes portando a bandeira brasileira, com sua feiura, seus rostos cobiçosos, egoístas e caretas, seus podres desejos, suas barrigas, suas gargalhadas infinitas, como zumbis de cabelo acaju e pretos flutuando em torno dos Três Poderes?

Meu Deus, que desgraça nos aconteceu!

O PT e aliados tiveram condições perfeitas para melhorar o país: dinheiro entrando para os emergentes, apoio total no Congresso, apoio da população, e nada – não fizeram porra nenhuma. Só agiram para ficar no poder. Eles não foram propriamente “eleitos”. Eles “tomaram” o país. Isso foi um crime histórico.

Qual dos males é o pior?

Se houver o impeachment, o PT empunhará gostosamente a bandeira do “quanto pior, melhor”.
Como a tragédia que criaram se arrastará por anos, a situação pós-impeachment será o paraíso do Lula. Ele e o PT serão os mártires (como chamam) da “direita-neoliberal-fascista da mídia-imperialista e conservadora dos coxinhas do mal que querem a fome do povo”. Seus guerreiros infernizarão o país contra qualquer ajuste na economia. Vão ignorar o abismo contábil em que caímos e voltar os chifres contra o “capitalismo”, apoiados por nossos intelectuais que nunca entenderam que o capitalismo não é um regime político, mas um modo de produção. Artistas, teóricos, cães de guarda da fé preferem que o país acabe a esquecer a religião que os absolve e justifica. E Lula vai deitar e rolar nessa condição que ele ama: vítima, pobre operário do bem que foi destruído pela burguesia.

E se bobear será eleito em 2018 como pai da pátria, o salvador dos aflitos e dos desempregados que ele mesmo criou, o salvador da República que ele mesmo arrasou.

Isso acontecerá, a menos que haja fatos novos graves como parece ser a exumação do cadáver de
Celso Daniel (aliás, ato falho de Edinho Silva quando disse que, se não houver entendimento, vai aparecer um cadáver?). Nesse sentido talvez seja melhor não haver impeachment, porque talvez o Brasil precise se ferrar ainda mais antes de melhorar. Com Dilma até o fim do mandato, em dois anos e meio apodrece tudo, e a verdade imunda que montaram aparecerá. Vejam aonde chegamos: talvez precisemos de mais desgraça ainda para nos salvar em nossa “jornada de imbecis até o entendimento”. As classes médias já estão politizadas mais do que eram, mas os canalhas contam com a absoluta ignorância do povo, sua base eleitoral.

No tempo de FHC, foram construídas pontes e ajustes para regenerar o país. Isso foi destruído, em nome de um comunismo de galinheiro.

Tenho medo de que o Brasil vire uma república desértica, com pouca ilhas de progresso, sem rumo histórico, com tribos soltas, perdidas como na África ou na solidão asiática. Temo que a União se desfaça e se crie um país sem identidade, sem orgulho, sem projeto. Talvez fique um país no eterno pântano em que estamos hoje.

Espero que nossas desilusões nos mostrem que o Brasil tem uma história que anda de costas, evoluindo pelo que perde, não pelo que ganha. Espero, ao menos, isso.

O Brasil se revelará por subtração; não por soma. Chegaremos a uma ideia de país quando as desilusões chegarem ao ponto zero. E então descobriremos que esse resto somos nós.

Perdas graves

A crise política – cujo complicador maior é o processo de impeachment em andamento na Câmara dos Deputados – e a inédita crise moral estampada no grande número de operações policiais e judiciais, das quais a Lava Jato é apenas a maior delas, são duas catástrofes sociais fabricadas internamente e que respondem por parte substancial do caos econômico que o Brasil vive. A essência maior da crise é o Produto Interno Bruto (PIB) terminar 2016 sendo 7,2% menor que o PIB de 2013, para uma população que terá crescido 5,4 milhões de habitantes nos últimos três anos.

Nenhuma ideologia e nenhum regime político são capazes de distribuir riquezas que o país não produziu – constatação que, apesar de simples, parece não ser entendida por boa parte da esquerda. O declínio do PIB enquanto a população aumenta provoca ampliação da distância negativa entre a renda por habitante hoje e aquela existente quando a recessão teve início. O Brasil terminará 2016 mais pobre do que era ao fim de 2013, medida a pobreza com base no PIB por habitante ou na renda per capita, que significam a mesma coisa. O aspecto trágico que atinge o Brasil neste momento vai além da queda do PIB. Uma coisa é a redução do produto por habitante em um país com PIB per capita de US$ 30 mil/ano. Bem mais grave é um processo equivalente em um país com menos de US$ 12 mil/ano de PIB per capita, como é o caso do Brasil.

A primeira perda grave é o declínio do PIB no geral e o declínio no PIB por habitante, cuja recuperação não é fácil. Quando uma empresa reduz a produção, seja pela desativação de um turno diário de trabalho ou pela desativação de máquinas e equipamentos, a recuperação mais adiante é penosa. Muitas organizações, principalmente no setor industrial, não conseguem retomar o nível anterior de produção: algumas vão à falência (é o caso das fábricas endividadas que, em face da redução da produção e vendas, não conseguem sobreviver); outras simplesmente não têm capacidade de remontar os setores desativados durante a crise; e há aquelas que não conseguem recuperar o mercado perdido com seu próprio encolhimento.

A segunda perda relevante está na infraestrutura física que, no caso do Brasil, segue envelhecendo e ficando obsoleta do ponto de vista tecnológico. Esse mesmo processo da infraestrutura física ocorre, ainda que em menor escala, na infraestrutura empresarial – o chamado parque produtivo –, em razão da suspensão dos projetos de reposição e modernização de máquinas e equipamentos. No caso da indústria de transformação brasileira, a crise tem feito um estrago de alta proporção e fará que a estrutura produtiva nesse setor termine 2016 com menor produtividade (produto por hora de trabalho).

A terceira perda está no nível de emprego e nos salários médios recebidos pelos trabalhadores. Os sindicalistas esclarecidos têm demonstrado preocupação com o retorno de milhões de trabalhadores à classe D, sobretudo aqueles que haviam ascendido à classe C, e sabem que a solução desse problema está longe de vir por mera vontade de conceder reajustes salariais. Nos anos de bonança, o setor industrial concedeu reajustes salariais reais acima do crescimento da produtividade e diminuiu sua capacidade competitiva internacional. Desde a instalação da atual crise, os salários médios caíram, o desemprego aumentou e a recuperação não é uma simples volta ao passado.

Embora haja outras perdas relevantes, essas três bastam para mostrar o tamanho do problema que o Brasil vive e com o qual terá de lidar no futuro – seja quem for que vá governar o país.

Contagem regressiva

Começou a contagem regressiva para a queda de Dilma. Abril será um mês terrível para o governo que, por sua vez, tentará transformá-lo em terrível para todo o Brasil. Foi uma semana intensa de trabalho. Presenciei alguns dos principiais episódios: saída do PMDB, entrega de dois milhões de assinaturas pedindo dez medidas contra a corrupção e, sobretudo, as audiências da Comissão do Impeachment.

Nela, os dados estão lançados. Há uma expressiva maioria a favor da queda de Dilma. Só um milagre, desses bem poderosos, poderá mudar o jogo. Sabendo previamente do resultado, os deputados jogam para cumprir tabela, preocupados apenas em agradar sua plateia. Eles se enfrentam com cartazes, contra ou a favor do impeachment. Quando isso acontece, de um modo geral, eles querem dizer que não há muita discussão possível, nem grandes esperanças na troca de argumentos. Se a vitória do impeachment é quase certa na comissão, a contagem dos votos no plenário ainda não autoriza uma previsão tão nítida. O governo sempre poderá atrair deputados não para o voto contra, mas para a abstenção. É mais fácil negociar esta saída com eles. Não se desgastam tanto com a opinião pública, podem apresentar uma desculpa.


Em quase todas as votações decisivas, um grande número de deputados fica em seus gabinetes, à espera dos momentos finais. Os deputados que vendem sua abstenção são mais sutis que os defensores abertos do governo. Alguns deputados da base, sobretudo os do PT, não têm outro caminho, exceto votar por Dilma. O máximo que pode acontecer é perder alguns votos, sem contudo contrariar aquele núcleo para quem o voto pelo impeachment é uma traição. Estive na reunião do PMDB que rompeu com o governo. Em cinco minutos acabaram com cinco anos de relação. Não houve uma análise sobre o que os unia no passado e o que os separa no presente.

Eles gritaram: “Brasil urgente, Temer presidente e fora PT”. Na verdade, ninguém parecia preocupado com a saída do governo mas com seu lugar no que seria instalado com a queda de Dilma. Estavam felizes como se não houvesse amanhã, nem os novos passos da Lava-Jato. Na plateia, figuras controvertidas como Newton Cardoso, ex-governador de Minas; na mesa, Eduardo Cunha, cuja liberdade me faz duvidar da Justiça brasileira. O amanhã será complicado. Os políticos tradicionais que pensam em se aproveitar do desastre do PT para retomar o governo como se o Brasil fosse o mesmo do tempo de Sarney vão levar um susto. De um lado, enfrentarão o próprio PT e movimentos sociais ligados a ele, algo que me parece possível, se a democracia for usada com inteligência. Mas o Brasil que emerge desse processo, com intensos debates nas redes sociais, muito mais atento às peripécias da política, pode varrê-los do cenário, sem piedade.

As pessoas amadureceram para compreender a tática, a necessidade de organizar os passos intermediários para se alcançar um objetivo a mais longo prazo. No momento, o foco é o governo do PT, suas pedaladas fiscais, o rombo na Petrobras, a corrupção que se espraiou, o cinismo e a cara de pau de seus líderes. Um governo de transição só pode ser estável se equacionar bem suas relação com a Lava-Jato. Se escolher nomes de gente sob investigação, vai demonstrar que pensa como o PT e o desalojou do poder apenas para não partilhar com ele as benesses da mamata federal.

Não ter gente investigada é pouco. Será preciso também definir, publicamente, sua norma para o futuro. Aliás, voltar a uma norma do passado, quando existiam ainda vestígios de decência: no governo Itamar, as pessoas investigadas saíam para se defender. Volto para a casa cansado, escrevendo um pouco espremido no avião. O discurso da advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment, aponta, entre outras, duas realidades interessantes para mim. A primeira delas é a de que há uma conexão entre as pedaladas fiscais, decretos secretos, rombo no orçamento e a corrupção que corroía o país. O dinheiro fantasiado nos planos de Dilma, era, de alguma forma, o dinheiro que se roubava ou, simplesmente, se dilapidava com a incompetência. Um outro ponto que me comoveu foi sua mensagem ao Parlamento: somos apenas parte de um povo que, na realidade, sofreu um golpe, pois analisava a realidade a partir do falso quadro desenhado pelo governo. A missão das ruas é clara: descrever aos parlamentares uma situação em que o povo foi roubado e enganado com fantasias eleitorais. O país sofreu um golpe. Sua única saída é responder ao golpe com uma medida constitucional de autodefesa, que é o impeachment.

Senti que grande parte dos parlamentares compreendeu o cenário. Mesmo os que parecem não ter compreendido, caso de Renan Calheiros, estão apenas fazendo cálculos sobre sua própria salvação. Não creio que exista salvação para figuras como Cunha e Renan. A própria Justiça, cheia de dedos com gente como eles, terá de levar a sério a tese de que a lei vale para todos. Ninguém sai às ruas apenas para trocar de bandidos no poder.