sábado, 22 de novembro de 2014
O arauto do que vem por aí
É melhor prestar atenção ao que anda dizendo o
ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, goste-se dele ou não
Quem ainda nutre a esperança de que o governo possa imprimir
rumo mais promissor à política econômica, em 2015, deve acompanhar com atenção
o que vem sendo dito por Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil da
Presidência.
Em reunião com a bancada petista na Câmara, na semana
passada, o ministro foi direto ao ponto: “A política econômica do segundo
governo não pode ser a que foi derrotada. A nossa prioridade é emprego e renda.
A nossa agenda não é a do mercado.” (O GLOBO, 14/11).
Dois dias depois, em entrevista no Palácio do Planalto a
Míriam Leitão, na GloboNews, Mercadante deixou claro que, três semanas após o segundo
turno, o governo continua aferrado ao discurso econômico descolado da realidade
a que se apegou durante a campanha eleitoral.
Bem-falante, o ministro consegue repetir de forma mais
articulada os argumentos que Dilma tentava brandir ao longo da campanha. Mas,
ao ser mais claro, Mercadante torna ainda mais evidente a absurda dissonância
cognitiva que vem marcando o discurso do governo.
O que se ouviu foi uma longa fieira de mistificações. A
estagnação da economia é simples desdobramento da desaceleração da economia
mundial. Se olharmos nosso entorno na América Latina, a situação não é
diferente. Não há nada errado com a política de combate à inflação. O Banco
Central sempre teve autonomia operacional. A presidente não fala sobre juros. A
inflação sempre esteve dentro da meta. Não houve nenhum represamento de preços
de energia elétrica e combustíveis. Ao contrário do que se alega, a política
econômica foi uma escolha vitoriosa. O reconhecimento do êxito desse projeto
foi dado pelos “54 milhões de votos, 3,5 milhões a mais que o segundo colocado,
um Uruguai a mais”.
Em face do risco cada vez mais alto de um vergonhoso rebaixamento da dívida soberana do país, é espantoso que o Planalto se permita adotar discurso tão acintosamente explícito de defesa da irresponsabilidade fiscal. Já não há nem mesmo preocupação em manter as aparências.
O império da mentira
Leia mais o artigo de Nelson MottaMarqueteiros políticos são uma espécie moderna de mentirosos profissionais de alta performance, que são mais eficientes quando distorcem fatos e números e ampliam supostos defeitos e suspeitas sobre os adversários. O problema é o candidato vencer as eleições e continuar acreditando na campanha do marqueteiro, mesmo diante da realidade adversa dos fatos e dos números.
O X da questão
E, no entanto, a Petrobras sem X já estava ‘privatizada’ há muito tempo... Profetas do passado, agora sabemos por que o estouro do mensalão não acabou com o governo Lula.
Esse X seria a prova do que o governo tucano pretendia
fazer: privatizar a joia mais brilhante de nossa coroa.
Dona Dilma, herdeira do Lula, também usou esse ‘dado
concreto’ em seu governo e durante a campanha pela reeleição. A cada vez que
não tinha como responder a Aécio Neves, lembrava o “crime” que se pretendeu
cometer contra a estatal: trocar seu nome para privatizá-la!
E, no entanto, a Petrobras sem X já estava ‘privatizada’ há
muito tempo... Profetas do passado, agora sabemos por que o estouro do mensalão
não acabou com o governo Lula. Ainda jorrava muito dinheiro e de uma fonte
imensamente mais rica...
Parece que desta vez o Brasil se livra desse clube. No entanto, tão importante quanto desconstruir o clube será o PT, o PMDB e demais partidos se convencerem que vencer eleições não é uma certidão de posse. Foram eleitos para administrar o país em nome do povo e não para embrulhá-lo e levá-lo para suas casas.
Governo novo, governo velho
Pronta a receber diariamente os jornalistas, falar pelos
cotovelos, avacalhar e denegrir adversários, em campanha eleitoral, Dilma
parece não ter mesmo a boa vontade de ser presidente quando o assunto é a
governança em xeque. O país que assistia todo o dia suas diatribes direto do
Planalto, mas em meio a uma crise tenebrosa para os destinos da nação a
presidente se cala e se recolhe. Não é atitude de estadista, que aliás nunca
foi, nem de governante. A fala na Austrália, que custou a sair, foi apenas um discurso
ensaiado, preparado nas sombras de hotel.
Em todo o mandato que finda sempre tomou o silêncio como
porta de escape para não dar satisfações satisfatórias à população, de quem
parece fugir como o diabo da cruz quando não seja para pedir votos. Ou alguém
já viu, ao menos em sonho, Dilma se prestar a falar sobre os grandes problemas
que afetam a população? Nem morta. Prefere as citações econômico-financeiras, a
falação politiqueira em idioma dilmês. Assim é a doutora, a sábia, a
“presidenta”. Já viram sair em fala presidencial sobre os 50 mil assassinatos
por ano, as estratosféricas cifras da violência, a medalha de ouro no uso de
crack, a violência escolar, a mortandade nos hospitais de péssima qualidade?
Em vez de falar ao povo, prefere as conversas palacianas com
um ex que ainda se acha no poder legítimo, quando não passa de poderoso chefão
do tráfico de influência. Detalhe que a Sombra tomou chá de sumiço, silenciou,
mas tem voz suficiente para suportar horas de conversas ao pé do ouvido
presidencial de como ser canalha parecendo santa.
Dilma transforma assim o palácio em aparelho, onde se tramam
as novas investidas, quando seria digno que ali tratasse com as lideranças, os
políticos, os representantes da sociedade o seu novo governo. Não com meia dúzia
de coronés, barões de tostão e outros que tantos do mesmo quilate.
Vive-se o governo em que a presidente ainda não se convenceu
que é presidente. Prefere as confabulações palacianas, que nada têm de
democráticas, que reveste com a maior desfaçatez em medidas para o bem estar do
povo. É o vício da marquetagem. A mesma com que faz aparecer em celebrações se
apropriando como sua a determinação de investigar os desmandos, de forma “firme
e severa”, quando se está cansado de saber que não moveu uma única palha – até
anda atrapalhando as investigações – em quatro anos de governo. Pior ainda, foi
conivente com a má administração da Petrobras e até nomeou uma companheira do
Clube da Luluzinha para garantir total acobertamento aos rombos na empresa.
O país que Dilma governa não mudou. Continua a ser nação
capitaneada por caciques que dirigem e determinam o que vão fazer para manter o
tacape na mão. A indiada que se dane, aguente o sofrimento para felicidade
geral dos governantes. Que esses estão bem, obrigado, com todas as benesses que
negam à população.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Não podemos perder a capacidade de nos indignar
Na quarta-feira, o advogado de um dos investigados pela
Lava-Jato disse que sem corrupção a empreiteira não ganha a concorrência. Me
fez lembrar uma frase que usávamos na luta contra a ditadura: não podemos
perder a capacidade de nos indignar. A corrupção não pode ser aceita como parte
da paisagem brasileira.
Essa declaração do advogado é o começo daquele discurso de
que as empreiteiras são vítimas. Não são. As que forem apanhadas em casos de
corrupção têm que responder por isso. Muitas dessas grandes empreiteiras são
eficientes como empresas de engenharia. Competentes, ganham concorrências em
outros países onde os controles de desvios são muito rígidos.
Não podemos aceitar que a corrupção faça parte da paisagem e
vire endêmica. Tampouco cabe banalizar algo que é gravíssimo, como tentou
fazer o advogado.
Temos que nos indignar para que, de fato, a investigação
seja uma oportunidade de mudarmos a forma de fazer negócios entre governos e
empresas no Brasil.
Ninguém viu?
Como não desconfiaram dos seguidos aditivos, que adicionavam novos custos às obras e novos prazos?
Como é que a
Petrobras pode ter cometido tantos erros? Pois, antes de mais nada, é um erro
empresarial brutal começar a construir uma refinaria, esta mesmo, a de
Pernambuco, calculando que vai custar US$ 4 bilhões, depois gastar US$ 18
bilhões, e a obra ainda não está pronta. Mesmo que tudo tivesse sido feito com
a maior honestidade, é evidente que as diretorias da empresa e seu Conselho de
Administração fizeram uma péssima gestão. Como é que não perceberam que o
negócio estava errado?
Essa mesma
pergunta pode ser dirigida a todos os dirigentes honestos que não perceberam o
tamanho do desastre e a corrupção que se praticava na empresa. Ou perceberam e
não puderam contar aos demais órgãos de controle?
Como ninguém
desconfiou dos seguidos aditivos, que adicionavam novos custos às obras e novos
prazos? Reparem, não um, mas todos os investimentos relevantes ficavam cada vez
mais caros e demoravam mais tempo.
Lembram-se do
que disse o ex-diretor Paulo Roberto Costa quando perguntado, no Congresso,
sobre o aumento dos custos da Refinaria Abreu e Lima? Que o projeto inicial
estava errado, fora feito em cima das pernas. Na ocasião, não falou das
propinas que entregaria na delação premiada. Mas ele tinha razão em apontar o
improviso como uma das causas do problema.
E isso remete
a responsabilidade administrativa e política ao ex-presidente Lula. Foi ele
mesmo que disse, em entrevista publicada pelo jornal “Valor”, em 17 de setembro
de 2009, quando o país saía da crise. O então presidente reclamava que
empresários brasileiros eram conservadores no investimento, que era preciso
partir para o ataque.
Exemplificou
contando que até a diretoria da Petrobras lhe apresentara um plano de
investimento que ele considerou pífio. O que fez? “Convoquei o Conselho da
Petrobras para dizer: ‘Olha, este é um momento em que não se pode recuar’. Até
no futebol a gente aprende que, quando se está ganhando de 1 x 0 e recua, a
gente se ferra.”
A Petrobras
partiu para o ataque, programou não uma, mas logo quatro refinarias e ampliou o
projeto do complexo Comperj, no Rio. As sucessivas diretorias, já entrando pelo
governo Dilma, foram levando a coisa (sem notar nada?), até que a situação
tornou-se absurda. Diziam: qual o problema com a refinaria de Pasadena? Apenas
um mau negócio. Abreu e Lima vai custar cinco vezes mais? Acontece nas grandes
obras.
A honesta honestidade
Um partido político não começa a morrer quando conquistado
de fora, pelos adversários, mas no momento em que passa a ser destruído de
dentro, por seus próprios integrantes. A regra milenar serve para civilizações,
países, corporações, até clubes de futebol.
O PT encontra-se nessa situação. Pouca influência tem em sua
sobrevivência os ataques do conservador PSDB ou a histeria do PSOL e
penduricalhos, do outro lado. Os companheiros estão entrando em colapso por
conta de suas atividades. Uma vez conquistadas as primeiras vitórias, mesmo
aquelas menores, como as prefeituras do interior de São Paulo, o partido chegou
ao poder maior, com a vitória do Lula. Aí se intensificaram as atividades agora
responsáveis pela deturpação, a desmoralização e agonia da legenda. O capítulo
dos escândalos na Petrobras é apenas mais um, envolvendo outros anteriores.
Encontra-se o PT em pleno conflito entre a honesta
desonestidade ou, se quiserem, entre a desonestidade honesta. Fora aquela
parcela de aproveitadores existentes em toda comunidade, sempre interessados em
aumentar suas contas bancárias, a grande maioria do partido justifica o assalto
à coisa pública como decorrência natural da luta para reformar e até
revolucionar costumes e instituições. Trata-se, para eles, de um confronto
ideológico, necessário para a concretização de suas propostas. Se é para
promover a justiça social, a igualdade e as mudanças imprescindíveis à
construção de uma nova sociedade – tudo será válido. Até superfaturar preços,
cobrar propinas, fraudar contratos e comprar opiniões. Imaginam que o objetivo
final justifica todos os instrumentos utilizados.
O problema, para os companheiros, é que ao construir uma
nova ordem, geraram a desordem. Pergunte-se a seus líderes se estão
arrependidos e eles ficarão surpresos e irritados. Para eles, tudo é permitido
no rumo do final projetado. Apenas, esqueceram-se dos valores fundamentais que
deveriam pautar a vida em sociedade. Não há, para o PT, uma ética universal e
permanente, mas diversas éticas capazes de anular-se.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Lobo em pele de ovelha
Assim
ofuscados pelo cetro, pelas insígnias reais, por seu cortejo, títulos
fulgurantes de sereníssimo, clementíssimo, alto e poderoso senhor,
reverenciamos num príncipe uma espécie de divindade terrestre, de natureza mais
que humana. Mas abre esse anti-sileno e não encontrarás mais que um tirano,
quer dizer, um inimigo mortal dos cidadãos, que detesta a paz interior e está
disposto a suscitar a discórdia e perseguir as pessoas de bem, flagelo das
leis, destruidor das cidades e devastados da Igreja, ladrão sacrílego,
incestuoso, em suma, como diz o provérbio grego, um amontoado de todos os
vícios
Erasmo de
Roterdã
Lição para o Brasil de hoje
“Era uma bela manhã de agosto. O vento era suave. Uma
tripulação contente e satisfeita levantava a vela, disparava uma saudação, e
navegava para fora do local onde hoje fica Slussen (nota: a área da eclusa que
separa o lago Mälaren do Mar Báltico, no centro de Estocolmo).
Milhares de moradores contemplavam o orgulho da
superpotência, um dos maiores e mais fortemente armados navios de guerra, o que
faria a guerra contra os católicos no continente.
Em vez disso, eles viram o Vasa dar uma violenta guinada
assim que saiu do abrigo. O navio se endireitou, mas foi logo empurrado
para baixo por uma rajada. Desta vez tão fortemente que a água começou a jorrar
para dentro das aberturas dos canhões.
O maior navio da frota adernou rapidamente, virou e afundou
em 10 de agosto de 1628, após uma viagem de 1300 metros.
Neste domingo, faz 50 anos que o Vasa foi resgatado pelo
engenheiro naval Anders Franzén, depois de uma longa luta contra aqueles que
queriam explodir os destroços e com eles fazer móveis de madeira.
Isso deu à Suécia seu mais impressionante museu, com os mais
bem conservados restos de um naufrágio dos anos 1600 que o mundo já viu.
Como bônus, nós também temos um permanente lembrete sobre o
perigo do autoritarismo e do pensamento de grupo - partidos, organizações e
empresas deveriam fazer visitas regulares ao Museu Vasa, para sempre lembrar-se
dos riscos que correm.
Para os responsáveis, o naufrágio do Vasa não foi uma surpresa.
Os interrogatórios revelaram mais tarde que eles provavelmente suspeitavam de
que as coisas não iam bem, mas cada um culpava o outro.
Ninguém se atreveu a informar o rei de que seus planos
forçados não eram factíveis. O Almirante de Esquadra alegou que o Capitão
deveria ter protestado, e o Capitão disse que era o Almirante Clas Fleming quem
deveria ter feito isso.
O Rei Gustav II Adolf havia exigido um navio poderoso e o
queria imediatamente. O projeto não foi testado e o barco tinha não apenas mais
canhões na parte superior, como também menos peso na parte inferior, do que o
habitual. Já no porto o defeito era óbvio.
Na primavera de 1628, a estabilidade do Vasa foi testada por
30 marinheiros correndo para trás e para frente no convés. O Vasa começou a
balançar violentamente.
O Almirante Fleming reagiu imediatamente, interrompendo o
teste e fingindo que tudo estava em ordem. Ele era um dos homens mais
talentosos da frota, mas ele também queria agradar, ele não queria criar
problemas e decepcionar o chefe.
Soa um pouco como algum local de trabalho perto de você? Em
400 anos, a construção de navios conseguiu se transformar, mas o ser
humano continua o mesmo”.
***
O texto acima é de Johan Norberg, publicado originalmente em
sueco no jornal Metro de Estocolmo, em 20 de abril de 2011, sobre o fim do
Vasa, único navio de guerra do século XVII existente no mundo. Com 95% do casco
original do barco preservado é um tesouro artístico único e uma das maiores
atrações turísticas do mundo. Afundou no dia do lançamento ao mar, após
percorrer apenas 1 milha náutica (menos de 2 km). Graças às condições
especiais das águas do Báltico, foi recuperado mais de 330 anos depois,
praticamente intacto. O navio encontra-se exposto num museu especialmente
edificado para acolher o navio, em Estocolmo.
O texto foi traduzido por Sandra Paulsen no artigo O Vasa -Lições para o Brasil de hoje
'Aos que vierem depois de nós'
I
Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
II
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
III
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
II
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
III
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht
Desperdício em sala de aula 'drena' investimentos
Na América Latina e no Brasil, perde-se 1 dia de aula por semana por conta do desperdício de tempo, diz Banco Mundial
Alunos brasileiros perdem em média um dia de aula por semana
por conta de desperdício de tempo em sala de aula, gasto com atrasos, excesso
de tarefas burocráticas (fazer chamada, limpar a lousa e distribuir trabalhos)
e em aulas mal preparadas pelo professor - tempo este que deixa de ser gasto
com o ensino de conteúdo.
Essa foi uma das principais conclusões de um estudo recém-lançado
pelo Banco Mundial que analisou o trabalho de professores na América Latina e
seu impacto sobre a qualidade do aprendizado, a formação dos alunos e o
desempenho desses países em rankings internacionais de educação.
A pesquisadora Barbara Bruns, uma das autoras do estudo,
lembra que o tempo de interação entre aluno e professor é o momento para qual
se destinam, em última instância, todos os investimentos em educação.
"Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não
ser que impacte sobre o que ocorre na sala de aula", diz ela.
O Banco Mundial avaliou 15,6 mil salas de aula, mais da
metade delas no Brasil (classes dos ensinos fundamental e médio em MG, PE e
RJ), e calcula que, em média, apenas 64% do tempo da classe seja usado para
transmissão de conteúdo, 20 pontos percentuais abaixo de padrões
internacionais.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
'Não há uma cidade, um estado no Brasil, sem obra superfaturada'
Para promotor especialista em carteis, algumas empresas atuam como a máfia
Mudam os esquemas, mas os protagonistas continuam os mesmos.
Ano após ano, grandes empresas – em especial, construtoras – são apontadas como
pivôs de escândalos suspeitos de desviar uma fortuna dos cofres públicos no
Brasil. O mais atual, que atinge a empresa estatal mais importante do país, a
Petrobras, revelado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), pode ter
causado um rombo de até 10 bilhões de reais. Para o promotor de Justiça de São
Paulo, Marcelo Batlouni Mendroni, especialista em investigar crimes financeiros
e cartéis, somente uma ampla reforma na legislação diminuirá a ocorrência de
casos de corrupção que, na avaliação dele, é endêmica.
“Não há uma prefeitura, um Estado no Brasil, sem contratos
superfaturados de obras, de prestação de serviços”, disse o promotor, doutor
pela Universidad Complutense de Madrid, na Espanha, com pós doutorado na
Università di Bologna, na Itália. Em entrevista ao El País, na sede do Gedec,
órgão do Ministério Público paulista criado em 2008 para investigar delitos de
ordem econômica, Mendroni comparou as empresas envolvidas em escândalos dessa
natureza à máfia italiana.
O promotor é autor da denúncia, de 2012, um grupo de
empreiteiras suspeitas de fraudar uma concorrência pública para obras do metrô
paulista. Embora sejam casos completamente distintos – um afeta o Governo
Federal, comandado pelo PT, e o outro o Governo paulista, a cargo do PSDB –,
chama a atenção a repetição dos “personagens” da esfera privada. Dentre as
denunciadas pela Promotoria de São Paulo há dois anos, seis estão agora sob a
mira da Operação Lava Jato da PF: as construtoras Camargo Corrêa, Mendes
Júnior, OAS, Queiroz Galvão, Iesa e Odebrecht – todas negam irregularidades. Na
semana passada, 36 investigados, entre eles executivos de oito construtoras,
foram detidos pela Polícia Federal.
Leia a entrevista do promotor Marcelo Mendroni
Somos cúmplices
A corrupção se converteu no ambiente da sociedade. É tão velha como a prostituição encontra terreno fértil numa sociedade que premia o cinismo e o êxito rápido. E parte da cultura globalizante que tira do rumo os códigos morais como consequência das exigências sociais. Somos corresponsáveis pela corrupção
Jorge Zepeda Patterson
A calçada dos milhões
Propaganda de supermercado? Oferta de televisão em programa
popular? Promoção de loja de eletrodomésticos? Nova comédia de sucesso no
cinema? Quem dera.
O título é mesmo de mais um rombo em nome do progresso
“revolucionário” (como se esse precisasse de adjetivo) das Organizações Quaquá,
monopólio petista dos rombos nos cofres públicos de Maricá.
Sempre disposto a desenvolver o município com as velhas
receitas rançosas e conservadoras, colorizadas de bolivarianismo, o
multifuncional prefeito Quaquá protagonizou outro escandaloso roubo no Erário:
mais de R$ 8 milhões para a recuperação “ecológica” das calçadas de 1,5 m de
largura em alguns trechos do Centro. Obra digna de um Nabucodonossor de
esquina, insuperável até mesmo pela Calçada da Fama em Hollywood, nem tão cara
assim.
O calçamento passa incólume (será que nada viram?) pela
mídia local e é recebido pelos basbaques de sempre com o estrondo de aplausos,
quiçá com reverências carnavalescas do comissariado e daqueles sempre afeitos a
aplaudir pouca bosta e se calar diante dos desmandos, falcatruas e desgoverno.
Faz parte da pirotecnia da empulhação.
Eleito e reeleito como um símbolo da revolução no município,
ficou no meio-fio como um pierrô pré-revolução russa. Se tornou verdadeiramente
um “coroné” da Velha República dando esmolas em troca de votos de cabresto,
levando o desenvolvimento com obras de barrigada.
A caricata postura de político de meia tigela tem propiciado
ao município as maravilhas de obras, com verbas estaduais e federais, de que se
apropria indevidamente para justificar a permanência no trono, em troca dos
favores da bica comissariada e das esmolas de bolsas. Ambas também
escandalosas.
O número de apadrinhados dentro da administração supera os 3
mil, logicamente para não fazer nada, a ponto de o governo sair alugando
casarões para abrigar parte da gentalha da boquinha, que a outra está em casa
na sombra e água fresca de só aparecer para receber na boca do caixa.
A farra se completa com a distribuição, além do Bolsa
Família, da modalidade Bolsa Mumbuca, atendendo mais de 14 mil famílias
beneficiadas com R$ 85 num universo populacional de 120 mil habitantes. É sinal
de que muita gente está no nível de pobreza e o indigno prefeito nada faz para
desenvolver o município e melhorar a vida da população mais necessitada. O
interesse é sustentar esses eleitores de cabresto com suas bolsas e calçadas
para “beneficiar deficientes físicos e visuais” para continuar mamando com a
gente do seu curral. Mesmo que para isso o município sem afunde na maracutaia e
ignorância dos basbaques.
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