segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Degradação acelerada

Já era visível a olhos nus a brutal explosão de moradores de rua nos grandes centros urbanos. Bastava olhar para as barracas instaladas nas praças e calçadas das cidades ou ler os cartazes de papelão – verdadeiros outdoors da fome – expostos nas mãos de pessoas em condições de vulnerabilidade, postadas nos semáforos das avenidas. Ou observar as filas de famílias recebendo “quentinhas”, pratos de comida embalados num pedaço de papel alumínio, distribuídas nas ruas por entidades sociais.

Agora, o censo de 2021 realizado pela prefeitura de São Paulo traduziu em números o tamanho dessa tragédia.

Em apenas dois anos houve um crescimento de 31% de moradores de rua na capital paulistana e uma mudança significativa do seu perfil. O número de famílias morando em barracas ou embaixo de marquises quase dobrou no mesmo período.


A expansão vertiginosa desse contingente nas grandes cidades brasileiras se deu por uma razão bastante concreta.

As pessoas perderam emprego e renda, e, sem condições de pagar aluguel, foram expulsas de suas moradias, restando como alternativa a rua. Em outras palavras, o descaso das autoridades em elaborar políticas sociais, a crise econômica e a pandemia levaram as pessoas a descer mais um degrau na escala social. Antes de 2015 boa parte dos moradores de rua vivia em tais condições devido à desestruturação familiar ou dependência das drogas, ou pela associação desses dois motivos.

Com a crise de 2015, quando a “nova matriz econômica” do governo Dilma gerou recessão, inflação e aumento exponencial do desemprego, o perfil do morador de rua começou a sofrer alteração. Isso explica, ao lado da falta de políticas públicas para moradia e assistência social, o salto da população de rua em São Paulo entre 2015 e 2021, quando simplesmente dobrou de tamanho.

Não há um censo nacional sobre moradores de rua, mas certamente o fenômeno se reproduz, em maior ou menor proporção, nas principais regiões metropolitanas do Brasil. Talvez também seja mais exacerbado na capital paulista porque pessoas, em desespero por não encontrar emprego em seus estados de origem, migram para São Paulo com a esperança de resolver sua situação. Como não conseguem, findam por engrossar a população de rua.

O quadro dantesco revelado pelo censo paulistano faz parte de uma acelerada degradação social visível em todos os setores da sociedade e de forma profundamente desigual.

Com a pandemia, nos últimos dois anos houve um aumento do fosso entre o topo da pirâmide social e a base. Como reflexo, quase metade da população do país vive em situação de insegurança alimentar e 20 milhões de brasileiros adultos se alimentam dia sim, dia não. A eles juntam-se cinco milhões de crianças que vão dormir com fome.

O elo mais frágil da cadeia da miséria é a população de rua, prisioneira de um círculo vicioso. Não tem uma moradia fixa por estar desempregada e não encontra emprego entre outros motivos por não ter moradia, um endereço fixo. Quebrar esse círculo exige políticas sociais transversais e articulação entre os três entes federativos – municípios, estados e união.

Seria injusto, e ineficaz do ponto de vista de dar uma resposta ao binômio desemprego-moradia improvisada, jogar toda a responsabilidade nas costas das prefeituras. Isso não significa desobrigá-las de fazer a sua parte para dar uma resposta satisfatória à questão da moradia para a população de rua.

Até pelo seu novo perfil e também pelo fato do fortalecimento da estrutura familiar ser fundamental para uma solução positiva, a política de abrigamento não é a mais adequada. Não há uma alternativa única, mais um leque de opções não excludentes que vai da construção de habitações específicas para esse segmento, passando pelo uso da rede de hotéis populares e de parcerias com instituições laicas ou religiosas, com vistas à reinserção no mercado de trabalho.

É preciso trazer os desabrigados para o orçamento público por meio de políticas sociais vigorosas. Em um país com tantas carências é imperioso definir quais as prioridades orçamentárias, bem como estimular a cultura da solidariedade, mobilizando a sociedade e a iniciativa privada para ser parceira no combate à fome, flagelo que atinge profundamente os moradores de rua.

Dos homens públicos exige-se sensibilidade social. Infelizmente, contam-se nos dedos os que carregam esse atributo, virtude que não é a marca do governo Bolsonaro e que deveria entrar nas contas do eleitor no dia 2 de outubro deste ano.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Pensamento do Dia

 

Luc Descheemaeker (Bélgica)

O racismo é tema central

Há uma lucidez nas férias que ajuda o jornalismo. Às vezes, a distância da correria diária permite um olhar mais agudo sobre o país. As tragédias recentes atingindo negros colocam o combate ao racismo como ponto central de qualquer projeto de futuro. Não precisamos de mais mortes para entender que esse problema pode destruir a Nação, se não for encarado com coragem, obstinação e propostas objetivas. Séculos de violência contra o povo preto nos olham desafiadores.

Não há palavras de repúdio que confortem os que vivem sob a ameaça constante e perdem pessoas queridas de maneira brutal. O refugiado congolês Moïse Kabaganbe foi vítima de uma barbárie tão imensa que nos cobriu de vergonha. Ele era apenas um menino de 24 anos que buscou abrigo entre nós. A mancha não sairá da nossa bandeira, nada há que apague esse crime hediondo. Só podemos, diante dele, fortalecer a convicção de que é preciso resgatar o país do fosso cada vez mais fundo em que estamos. Ver logo depois Durval Teófilo Filho com o braço estendido, como um pedido de paz, diante do seu assassino, foi dilacerante. O sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra já havia dado um tiro no seu vizinho de condomínio. Foi quando, caído, Durval levanta a mão desarmada. Ele estava apenas tentando chegar em casa. Aurélio saiu do carro, mirou a vítima caída e deu mais dois tiros. O sargento quis matar. Aos 38 anos, Durval foi executado por ser negro e seu vizinho achou que ele só podia ser um ladrão. Um ato explícito de racismo que termina tragicamente. Na sua defesa, o sargento fez alegação absurda. Disse que atirou “para reprimir a injusta agressão iminente que acreditava que iria acontecer”. O jovem Yago Corrêa de 21 anos saiu para comprar pão e foi preso. O delegado disse que Yago “estava na hora errada, no lugar errado”. Graças à mobilização da família e de moradores da favela do Jacarezinho ele foi solto.

Com quanto sangue mais vamos manchar nossa bandeira antes de entender que só haverá futuro quando o país encarar seu racismo? O racismo é inimigo da pátria, que só será pátria se honrar a sua rica diversidade étnica. Não é tarefa dos negros combater essa violência, é de cada pessoa e de todos os poderes.


O presidente da Central Única de Favelas e escritor Preto Zezé, em artigo na terça-feira, na “Folha de S.Paulo”, exprimiu o sentimento dos negros. “Somos exilados de direitos no nosso país e perseguidos como inimigos. O cenário inviabiliza qualquer ideia de nação, já que, devido à cor da pele, somos privados de direitos básicos. E corremos riscos, pois o imaginário popular está habitado com a ideia de preto como perigoso.”

Um país assim, que mata negros por serem negros, que escravizou africanos por três séculos, que nunca teve política de reparação, que até hoje os discrimina, não pode perder tempo com debate estapafúrdio. Não há racismo reverso. Ponto final. Os brancos não são ameaçados por serem brancos. Pelo contrário. Chega de dar espaço a debate falso. A mentira não é inocente, ela nos afasta do essencial e urgente.

Sempre houve quem lutasse a luta justa no Brasil. O herói da Pátria Luiz Gama é desses. O filme “Doutor Gama”, de Jeferson De, no Globoplay, narra uma das suas muitas lições de resistência. Precisa ser visto. O livro “Avesso da Pele”, de Jefferson Tenório, é outra recomendação que faço. Nele, o narrador, em diálogo com o pai, vai revelando ao leitor o cotidiano das feridas que os olhares, as palavras, as portas fechadas vão impondo ao negro. A pessoa adoece e um dia não aguenta mais. Tenório nos conta dessa morte lenta, desse cumprimento de uma pena sem culpa e sem remissão. Por quanto tempo mais o tecido social brasileiro suportará tamanha covardia?

Gosto dos números, acho que eles são reveladores, mas prefiro nem levantar aqui estatísticas para mostrar o que é evidente, a hegemonia dos brancos, a exclusão dos negros. Por natureza sou otimista. Acredito em políticas públicas e nas decisões privadas para mitigar problemas sociais. As poucas que surgiram nos últimos anos, como as cotas nas universidades públicas, ajudaram. As empresas que sinceramente querem mudar estão avançando. Tudo somado é pouco perto da imensidão da tarefa. Este é um ano eleitoral. O combate ao racismo deveria ocupar as agendas como uma obsessão.

Privatização humana


Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence
Bertolt Brecht

Federalizar os professores

Nesta semana, o Piso Nacional do Salário dos Professores foi tema constante dos noticiários e dos debates políticos. O Presidente da República se coloca como patrono dos professores, quando ele nada mais fez do que cumprir uma lei em vigor desde 2008, que regularizou um artigo da Constituição de 1988; os prefeitos argumentam que não terão condições de pagar o reajuste. Por incrível que pareça, não se ouviu vezes dizendo que o aumento ainda foi pequeno, e que a questão não é seu valor, mas como resolver a equação fiscal de cada município para viabilizá-lo.

O Presidente é um impostor ao se colocar como padrinho dos professores, quando se sabe que ele despreza educação, já demonstrou que não gosta de professores e apenas cumpriu lei já em vigor. Se não tivesse sancionado o reajuste, seria passivo de julgamento por crime de responsabilidade.


A ideia do Piso Nacional dos Professores está na Constituição desde 1988, graças a uma ementa do Deputado Constitucionalista baiano, Severiano Alves. Em 2008, 20 anos depois, tomei a iniciativa, como Senador, de apresentar o Projeto de Lei para fazer a Constituição ser realidade. A Senadora Ideli Salvati colaborou com uma emenda que ajudou a definir a maneira de fazer os reajustes anualmente. O Ministro Fernando Haddad foi fundamental para o processo seguir adiante e o Presidente Lula sancionar a Lei nº 11.738/2008. Ao longo do tempo, com o Fundeb, a lei melhorou para os professores e para a educação. O atual presidente nenhum mérito tem com a lei, nem com o valor do reajuste.

Os prefeitos têm o direito de manifestar preocupação com suas finanças, mas não por achar que o valor do piso ficou alto: R$3.500,00 é muito pouco para o Brasil fazer a carreira do professor mais atrativa do que todas as demais carreiras do Estado. Se o Brasil quer ser um país com futuro, é preciso que ao nascer uma criança, pai e mãe, irmãos, tios e padrinhos digam com orgulho: “Quando crescer, este vai ser professor, ter ótimo salário, ser respeitado e ajudar a construir o país que desejamos”.

Os prefeitos devem pensar como pagar um piso ainda maior e sem desorganizar as finanças de seus municípios.. Em primeiro lugar, observar quanto custa sua Câmara de Vereadores, quanto gasta em seu gabinete, como fazer sua administração mais eficiente e ética. Mesmo assim, muitos municípios não terão recursos para pagar os salários que suas crianças e o futuro de sua cidade precisam, e por isto, seus professores devem ganhar bem. Por isto, eles precisam entender que é o Brasil quem deve pagar o salário dos professores do Brasil, não importa em qual município. No lugar de reclamar, os prefeitos deveriam ter apoiado o Projeto de Lei do Senado (PLS) 155/2013, com o qual buscava atribuir à União o pagamento do Piso Nacional do Professor em todo o Brasil. Lamentavelmente, o PLS foi arquivado, em função da minha perda do mandato em 2019. Se tivesse sido aprovado, teria sido um passo inicial para criar-se uma carreira nacional do professor, para toda rede de escolas públicas..

É certo que muitos municípios não têm condições de pagar aos professores o salário necessário para a educação que as crianças dos municípios precisam: a solução não é continuar sacrificando as crianças, é federalizar a educação. Um país não tem futuro se seus cérebros são desperdiçados por nascerem em um município pobre ou em um município cujo prefeito tem outras prioridades e por isto despreza a remuneração de seus professores. Todo prefeito tem limitações, a solução é federalizar a carreira dos professores. Pena que a falta de interesse na educação, leva muitos prefeitos a preferirem não cumprir a lei 11.738/2008, do que lutar pela federalização da responsabilidade com o pagamento do piso salarial dos seus professores, como previsto no PLS 155/2013.

Audiência em baixa, riscos em alta

Nem o ar de profeta (de araque) – “…nos próximos dias vai acontecer algo que vai salvar o Brasil” -, ensaiado para os cativos do cercadinho do Alvorada, nem a mais recente bateria de “denúncias” de que o Exército teria encontrado “dezenas de vulnerabilidades” nas urnas eletrônicas funcionaram. Ambos movimentos do presidente Jair Bolsonaro tiveram repercussão baixíssima. Por um lado, é salutar que não se faça grande eco às suas sandices. Por outro, é um perigo. Deixa-se o monstro à solta para continuar a mentir, difamar as instituições e minar a democracia. Metodicamente.

Bolsonaro chefia um desgoverno, não tem qualquer aptidão para o cargo que ocupa ou noção do significado da Presidência. Mas nada tem de tolo. Dedica tempo quase integral à proteção de si e de sua prole, o que remete à obrigatoriedade de ter mandato para assegurar foro privilegiado. E tem usado todas as ferramentas para tal: do Estado, do qual se sente dono, das redes sociais e da deep web.

Não deve se reeleger, mas os estragos feitos ou em curso serão dificílimos de corrigir. Em todos os planos: econômico, social, ambiental. Na pauta de costumes, na civilidade, no pacto institucional. A lista de destruição é infinda.

Na economia o país regride a olhos nus, com desindustrialização, tecnologia ultrapassada, baixa competitividade, juros e inflação em alta. Para os mais pobres, demoliram-se redes de sustentação social complexas em nome de um auxílio direto mais robusto, que é comido pelas dívidas das famílias e pela inflação. Tem-se a ampliação da miséria e da fome. Educação e ciência são vítimas de desmontes e cortes sucessivos, a Cultura é jogada às traças. Recordes de desmatamentos, queimadas, mineração e garimpo ilegais, afrouxamento de fiscalização e, nesta semana, sob o generoso patrocínio da Câmara dos Deputados, mais liberalidade para venenos agrícolas.

Mais armas e mais violência.

Mas é na retrógrada agenda de costumes e na visão torta e muito particular que tem das instituições, da liberdade e da democracia que estão as maiores apostas do presidente. Não à toa, insiste em um novo projeto de liberação de armamentos, mesmo sabendo que não é possível votá-lo neste ano, em temas como família tradicional e escola domiciliar e, fundamentalmente, na falsa falta de legitimidade das urnas que possivelmente vão derrotá-lo.

Bolsonaro quer fixar sua persona, tornando-a capaz de sobreviver depois de um provável fracasso eleitoral.

O exemplo continua sendo Donald Trump. Mesmo longe da Casa Branca, Trump se mantém como a principal força conservadora do país. A ponto de deixar de cócoras o Partido Republicano, que, para agradar o ex, considerou a invasão do Capitólio um “discurso político legítimo”.

É tudo que o “mito” adoraria ver por aqui. Um caminho que ele vem traçando – metodicamente.

Ao voltar à carga contra as urnas eletrônicas, no cercadinho, na live de quinta-feira e no sábado, em entrevista ao ex-governador Anthony Garotinho, na rádio Tupi de Campos dos Goytacazes, Bolsonaro tratou de enfiar as Forças Armadas no bolo, como se delas partisse qualquer desconfiança. Ainda que o TSE tenha reagido rapidamente, afirmando que os militares convidados para acompanhar o processo pré-eleitoral só tinham feito questões técnicas sem expor dúvidas quanto à confiabilidade do sistema, Bolsonaro ressuscitou pulgas e soltou-as nas orelhas de seus seguidores.

Mais: incluiu na orquestração da turba o ministro da Defesa, general Braga Netto, cotadíssimo para vice em sua chapa. Para muitos extremistas, reacenderam-se as chamas do golpe frustrado de 7 de setembro. E eles estariam novamente prontos.

Fora das redes bolsonaristas, ninguém deu muita bola. Mas o movimento nelas para desacreditar o resultado das urnas continua intenso. Estudo da FGV sobre desinformações nas eleições, publicado na Folha de S. Paulo deste sábado, aponta que nos últimos 15 meses foram feitas mais de 390 mil postagens no Facebook sobre alegadas fraudes eleitorais. Ou seja, atiçar essa turma é fácil, basta um clique. Quanto mais para quem tem uma milícia digital à mão.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Pensamento do Dia

 


Mentira não é informação

Em 1969, um executivo anônimo de uma fabricante de cigarros dos Estados Unidos redigiu um memorando de nove páginas com o título “Tabagismo e Saúde: Proposta”. O problema a enfrentar era as pessoas saberem que tabaco causa câncer. O memorando é histórico porque contém a quase poética frase “dúvida é nosso produto”. Menos conhecida é a conclusão do raciocínio: a dúvida é o produto porque “é o modo de estabelecer uma controvérsia”.

Em poucas linhas, esse soldado desconhecido da guerra corporativa articulou o princípio básico do negacionismo enquanto estratégia política: produzir dúvida com o objetivo de semear, na mente do público, a falsa noção de que existe uma controvérsia legítima a debater. Da negação do aquecimento global antropogênico ao estímulo bolsonarista à hesitação vacinal, chegando até mesmo a ideologias mais antigas, como o fundamentalismo bíblico (“ensine a controvérsia!” tornou-se o grito de guerra dos criacionistas a partir da década de 1990), os defensores de ideias derrotadas pelos fatos e pela ciência parecem ter abraçado, em massa, a fabricação de dúvida como atividade principal.


Como todo produto, a dúvida fabricada precisa ser distribuída. Tomates e geladeiras viajam por estradas e trilhos. Dúvidas e controvérsias, pela imprensa. Mesmo neste mundo de redes sociais e aplicativos de mensagem, os nomes e marcas reconhecidos há décadas, com reputação consolidada, chamados de “mídia de legado”, ainda têm um poder excepcional para gerar atenção e prestígio. O mesmo argumento será lido e valorizado de modo diverso se aparecer no tuíte pessoal de alguém ou nas páginas (impressas ou virtuais) de um jornal respeitado ou grande revista.

A vulnerabilidade da imprensa a controvérsias artificiais é um fato histórico bem documentado. O jornal The New York Times só parou de oferecer direito de réplica à indústria do cigarro em seus textos sobre os males do tabaco no fim dos anos 1970 — 30 anos depois do consenso científico sobre a ligação entre tabagismo e câncer ter sido estabelecido, 15 anos depois de o governo americano emitir seu primeiro alerta oficial aos fumantes.

Essa permeabilidade tem causas estruturais que em geral emanam de bons princípios, aplicados de modo irrefletido ou inocente. Liberdade de expressão muitas vezes é citada, mas não é o caso. Nenhum jornal publica todas as cartas que recebe, nem todos os artigos que lhe são submetidos. Curadoria de conteúdo não é “censura”.

Os princípios que, quando ingenuamente aplicados, fazem a imprensa abrir portas aos fabricantes de dúvidas são o equilíbrio e a informação. Se existem interesses diferentes em torno de um tema, é preciso equilibrá-los para que a cobertura seja justa; se determinado ponto de vista existe, é preciso informar as pessoas disso.

Equilíbrio, no entanto, é ferramenta, não meta. Se há dúvida razoável sobre a verdade dos fatos, equilíbrio talvez seja o melhor que se pode fazer. Mas contentar-se com ele, almejá-lo, é um erro. Como escreve o filósofo Lee McIntyre em seu livro “Post-Truth” (“Pós-verdade”), o meio-termo entre verdade e mentira ainda é menos que a verdade.

A informação é o fim maior, mas, para que se realize, deve ser completa. Não basta noticiar que há quem acredite que a Terra é plana, é necessário acrescentar que essas pessoas estão erradas — e explicar por quê. Limitar-se a “informar” acriticamente que uma mentira existe equivale, em termos morais e práticos, a repeti-la.

Na pandemia, setores importantes da imprensa, confrontados por falsas controvérsias que põem vidas em risco, aprenderam a reconhecer a armadilha e a escapar dela. É uma lição que não pode se esgotar na emergência sanitária. A era da inocência precisa terminar. Ou assumir-se como a era do cinismo.

Hora de farol alto, meu Brasil

O leitor certamente conhece o instituto de pesquisas inglês Economist Intelligence Unit (EIU), ligado à revista The Economist, que compila anualmente um “índice de democracia” para mais de 60 países. Baseando-se em diversos indicadores, o EIU classifica tais países com base em diversos indicadores e situação conjuntural de cada um.

Em seu relatório de 2020 – o mais recente divulgado –, a instituição traçou um quadro sombrio, indicando um enorme retrocesso em todos os continentes. O título do relatório, In sickness and in health? (Na doença e na saúde?), já sugere o fator posto em relevo: a pandemia de covid-19, que forçou a maioria dos governos a tomar medidas que provavelmente seriam rejeitadas pelos cidadãos caso fossem submetidas a algum tipo de plebiscito. Esse trágico painel reforça numerosas análises que vêm há anos prognosticando o iminente fim da democracia liberal-representativa.

O EIU classifica os países estudados em quatro categorias. A “nata” da democracia, designada como “democracias plenas”, compreende apenas 23 países, nos quais vivem 8,4% da população mundial. Os países nórdicos da Europa e o Canadá ocupam as posições mais altas. Na América Latina, só três países – Uruguai, Chile e Costa Rica – podem gabar-se de ser “plenamente” democráticos.


O grupo seguinte, denominado “democracias defeituosas”, compreende 52 países e 41% da população mundial. Esses países podem orgulhar-se de alguns traços democráticos importantes, desde logo o fato de que o acesso ao poder se dá mediante eleições periódicas, limpas e livres, mas não conseguem manter um padrão elevado em outros aspectos, como a liberdade de imprensa e a proteção dos direitos humanos. Uma parte expressiva dos cidadãos se opõe aos valores básicos da democracia. Para ter uma ideia da qualidade exigida para um país ser considerado “plenamente” democrático, basta lembrar que França, Portugal e Estados Unidos foram recentemente rebaixados para o grupo “defeituoso”, fato perceptível no caso norte-americano, tendo em vista a virulenta polarização iniciada na eleição presidencial de 2016, que deu a vitória a Donald Trump, e a recidiva racista, grotescamente ilustrada pelo assassinato de um negro quando um policial o manteve sufocado sob sua bota durante 8 minutos.

O terceiro grupo, designado como “regimes híbridos”, é uma mistura desconexa, na qual alguns países até mantêm uma contrafação de processo eleitoral, mas que, a meu ver, não passam de ditaduras, abertas ou veladas.

Abaixo dos “regimes híbridos” temos os países inequivocamente ditatoriais, como a China, o Irã e a Coreia do Norte. Alguns desses países exemplificam bem o que acima designei como contrafação de processo eleitoral. Na Bielorrússia, por exemplo, o presidente Alexander Lukashenko, possuidor de sólidas credenciais fascistas, pleiteou em 2020 o seu sétimo mandato. Ao se dar conta de que seu adversário, Siarhei Tsikhanouski, poderia dar-lhe algumas dores de cabeça, mandou-o para a cadeia. Não se importou com a mulher dele, Sviatlana Tsikhanouskaya, uma simples dona de casa que se ocupava tão somente de cuidar de seus dois filhos, um deles nascido surdo. Mas o implausível aconteceu. Ela se candidatou à presidência, o inconformismo latente veio à tona e ele, Lukashenko, achou melhor mandá-la para o exílio na Lituânia.

O caso da Bielorrússia contém uma lição importante: o fascinante painel que a pesquisa do EIU nos proporciona requer certos cuidados na interpretação. O sucesso eleitoral da sra. Sviatlana e a evidência de que a Bielorrússia não passa de uma ditadura nada tiveram que ver com a conduta do governo em relação à pandemia. No sentido oposto, a estrela do relatório de 2020 é Taiwan, que subiu 11 posições, alçando-se ao seleto grupo das democracias plenas.

O Brasil é outro caso que precisa ser interpretado com cautela. Ocupando a 49.ª posição, estamos um pouco acima da Índia e um pouco abaixo da África do Sul. Os relatórios bianuais divulgados desde 2006 mostram uma acentuada redução na qualidade de nossa democracia (que nunca foi grande coisa). Importa ressaltar que estou me referindo à série iniciada em 2006, portanto a pandemia, por maior que venha a ser seu efeito, não é a explicação. Se queremos de fato entender o que vem acontecendo, melhor será começarmos pela ressurreição do populismo a partir de 2002; o conluio entre a deslavada corrupção implantada na Petrobras com a malta dos empreiteiros; a liquefação da estrutura partidária; a recessão engendrada pelos desatinos econômicos da sra. Dilma Rousseff; a estúpida polarização política entre Bolsonaro e o PT, iniciada na eleição de 2018; a liturgia presidencial, espezinhada pelo sr. Jair Bolsonaro, tudo isso servindo como pano de fundo para o fato de nos havermos igualado aos Estados Unidos numa grotesca manifestação de racismo, o assassinato do congolês Moïse no Rio de Janeiro. Haveria mais o que dizer, claro, mas, a oito meses da eleição, basta lembrar que o farol baixo aponta para a Bielorrússia, o alto, para Taiwan.

Conspirando contra o futuro

A perversa e persistente estratégia de desenvolvimento nacional, fundada em altos níveis de concentração de renda, baixos padrões educacionais, desigualdade social, racismo estrutural e na violência e arbítrio como formas de ordenação social, nunca foram tão evidentes como no presente momento.

Dois relatórios publicados recentemente escancaram o quanto a sociedade brasileira, leia-se os adultos, temos descumprido nossas obrigações, plasmadas no artigo 227 da Constituição Federal, de assegurar às crianças e adolescentes "com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação... à dignidade..., além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

A desonestidade do Estado e de parte da sociedade brasileira com seus jovens é constrangedora, comprometendo não apenas o processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil, mas, também, a própria aspiração de vivermos em paz, sob o estado democrático de direito.

O movimento Todos pela Educação, que vem mapeando o desempenho da educação brasileira nas últimas décadas, sinaliza em seu último relatório um preocupante crescimento de 66,3% no número de crianças, entre 6 e 7 anos, que não foram alfabetizadas.

Se é fato que uma parcela substantiva desse crescimento se deve à Covid-19 e ao fechamento das escolas públicas, onde estudam mais de 80% de nossos alunos, predominantemente pobres, o que mais preocupa, como argutamente aponta Claudia Costin, nesta Folha, é que esse crescimento se dá sobre um número já extremamente alto de crianças —cerca de 55%— que não se encontra alfabetizada no 3º. ano do ensino fundamental. Mantidos esses padrões educacionais, o Brasil jamais conseguirá ingressar numa economia cada vez mais pautada no conhecimento, ficando fadado à produção de commodities.

Nossas crianças não têm apenas uma educação deficiente, em face de políticas educacionais insuficientes. Como aponta o relatório "Tiro no Futuro", recentemente publicado pelo Centro de Estudos de Segurança Pública e Cidadania (CESeC), a violência, em grande medida decorrente de uma política equivocada de "guerra às drogas", tem tido um forte impacto sobre a trajetória educacional, psíquica e social de jovens que vivem em comunidades, encontrando-se expostas ao tráfico, a operações policiais bélicas, tiroteios e balas perdidas.

Nada menos do que 1.115 escolas públicas ficaram expostas aos 4.346 episódios de trocas de tiros registrados na cidade do Rio de Janeiro, em 2019. Os alunos de 57% dessas escolas presenciaram dez tiroteios; de 11% das escolas, 30 tiroteios; já as crianças de 0,3% dessas escolas ficaram expostas a 95 casos de troca de tiros em um único ano.

Os pesquisadores apontaram as perdas educacionais coletadas junto à secretaria de educação e estimaram as perdas econômicas decorrentes da exposição à violência. Indicam, no entanto, que há inúmeras outras sequelas que acompanharão esses alunos ao longo de suas vidas.

Chamo a atenção, aqui, para a dificuldade que essas crianças, que não tiveram seus direitos mais básicos respeitados, terão em se conformar ao Estado de Direito. A insinceridade dos adultos e do Estado brasileiro no cumprimento de suas obrigações morais e legais em nada favorecerá a que esses jovens reconheçam os códigos de respeito recíproco indispensáveis numa sociedade democrática. Sem que sejamos capazes de reconfigurar nosso projeto de desenvolvimento, estaremos conspirando contra o futuro de nossos próprios filhos e netos.

Ano novo?

O ano passou de 21 para 22, mas não conseguimos controlar as velhas, triviais e vergonhosas roubalheiras, o machismo, o feminicídio e a violência miliciana e policial. Ademais, aumentamos a taxa de racismo estrutural e estruturante, do “você sabe com quem está falando?” e, para completar, voltou a inflação, em paralelo a uma polarização que, demandando a exclusão do outro, é, em todo tempo e lugar, o timbre do reacionarismo fascista.

O calendário muda, mas o estilo aristocrático e elitista, antirrepublicano e autoritário, claro na Presidência e em todo lugar, permanece atrapalhando nossas vidas.


Num chavão, o “ano novo” realiza sua costumeira malandragem de mudar não mudando. Continuamos a pensar o tempo como calendário, imaginando que, quanto mais velhos, mais “adiantados” ficamos, quando, na verdade, o Brasil de hoje é uma infâmia de atrasos. É um país a caminho do suicídio moral.

Como falar num novo ano se o acontecimento básico deste tempo começa com uma campanha eleitoral que repete a anterior, negando o devir histórico?

É abominável ver a repetição da “luta” Lula-Bolsonaro, que, neste “novo ano” de 22, estão muito mais parecidos com criadores de autolorotas negacionistas — esse conceito dominante de um ano novo nascido velho. São nossos mais ávidos postulantes a “supremos magistrados da nação” — uma nação que precisa de muita água benta (e sanitária) para livrar-se de sua danação e que corre o risco de repetir-se no seu rito democrático mais importante. Reprisará na eleição sua sina de conjugar, segundo o oportunismo, burocracia-legal-processualística, compadrio regado a mandonismo elitista e carisma para dar e vender.

Estou cheio de messias, milagreiros, curadores, especialistas e religiosos carismáticos. Chega de mediadores canalhas de divindades baratas. Nosso panteão de carismáticos que mudariam o Brasil chegou ao seu limite!

Penso que, para termos de fato um novo ano, e não um “Ano-Novo” formal e ritualístico, temos de resgatar uma abandonada e destruída ética de responsabilidade e de honra. A ética do “isso eu não faço!”.

Tempos novos são ideais para tirar da latrina princípios e valores que dizem não ao nosso egoísmo e ao nosso “bom-mocismo” condescendente, que concilia Deus e Diabo; que confunde direita com esquerda e cabeça (sejamos educados...) com o traseiro...

É preciso pensar mais sinceramente quando se fala em nome do “povo”, que cada vez mais se desgraça, porque os cargos públicos são apossados pelos eleitos (na maioria, aventureiros de gravata italiana) que jamais pensam em trabalhar para o Brasil, pois, mesmo em meio a tempos novos e difíceis, continuam a pensar que são donos do Brasil...

Valha-nos, Deus!, como se dizia antigamente...

Na festa deste fim de ano, vesti preto. Estou de luto e tomo, é claro, um adequado black label. Mas, nestes anos finais de minha vida, enfrento a tentação de desistir de um país onde a “política” perdeu credibilidade. Passou de projeto a malandragem autoritária.

A tal ponto que a mentira, a falsidade e, acima de tudo, a má-fé (essa mestra das fake news e das militâncias mais perversas) tornaram-se projetos para quem escapou da abominação que foi testemunhar um presidente da República recusar a vacina contra a pandemia.

Amigos, é grande a vontade de sumir. Mas para onde ir?

Para uns Estados Unidos que se perdem em meio ao que foi a liberdade — sua grandiosa virtude democrática? Para uma China materialmente gigantesca que, com ajuda de Confúcio, torna minúscula uma cidadania já hierarquizada? Irei com os zilionários americanos dar voltas em torno do planeta que a bolsonarista alienada diz que é plano?

Ou devo apelar para o Papai Noel ianque, de quem a maioria dos brasileiros jamais foi filho ou ganhou o presente da igualdade?

Pensei, é claro, em Pasárgada.

Mas o melhor mesmo é desejar que o fogo da esperança acenda uma fagulha no coração dos leitores desta coluna. É o cintilar da esperança que construirá um autêntico Ano-Novo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Pensamento do Dia

 


Desesquecer

Ao final de Mães paralelas, o novo filme de Pedro Almodóvar (que está em cartaz em São Paulo e logo entra em exibição na Netflix), surge na tela uma frase do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Em letras brancas sobre fundo preto, as palavras cumprem a função de resumir a moral da história, como se fossem um post scriptum ou uma espécie de envoi:

“Não há história muda. Por mais que a queimem, que a dilacerem, por mais que mintam, a história humana se nega a calar a boca.”

Parece uma oração. Parece uma profecia. Parece um poema. Parece verdade. Mas será verdade?


Mães paralelas narra os encontros e desencontros de duas mulheres que dão à luz no mesmo dia, na mesma maternidade e ficam hospedadas no mesmo quarto. As duas não se conheciam até despencarem em suas camas emparelhadas. Elas vêm de formações distintas, classes apartadas, universos desconectados. Uma não tem nada a ver com a outra, até que a trama encadeada por Almodóvar começa a embaraçar as duas em laços bem atados, definitivos e belos.

O filme não traz (quase) nenhum toque de comédia. Nesse ponto é diferente dos grandes sucessos do cineasta espanhol. O andamento grave combina algumas notas de romance com uma crítica severa ao esquecimento das atrocidades cometidas pelos fascistas (franquistas) durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O enredo pesa e comove. As duas mulheres, as tais “mães paralelas”, vivem a experiência da maternidade enquanto descobrem a si mesmas: Ana (Milena Smit) quer se libertar da família burguesa, enquanto Janis (Penélope Cruz), mais velha que a companheira de quarto, está empenhada em encontrar o lugar em que foi sepultado o seu bisavô, executado na Guerra Civil por tropas do franquismo.

A partir daí, as verdades íntimas de cada uma delas se descortinam em paralelo com os fatos históricos que vão sendo exumados. A subjetividade irredutível de Ana e Janis vai ganhando consistência no mesmo ritmo em que os crimes contra a humanidade são dados à luz.

Então, no fecho de tudo, entra em cena o texto de Eduardo Galeano, o célebre autor de As veias abertas da América Latina, de 1971. “A história humana se nega a calar a boca”, ele nos garante. O trecho em questão faz parte de um breve ensaio, “La impunidad de los cazadores de gente”, dentro do livro Patas arriba: la escuela del mundo al revés, de 1998. É bonito ler a mensagem confiante, depois de ver um filme também bonito e confiante. A certeza de que nada ficará esquecido, de que nada ficará impune, vem nos confortar e nos fortalecer. Dá vontade de acreditar. Dá até para chorar.

Mas será que é assim mesmo? Será crível a crença de Almodóvar e Galeano? Existiria um impulso próprio nos acontecimentos passados, um impulso que os impediria de se calar? Será que podemos pensar na história como pensamos sobre o recalcado na psicanálise? O recalcado, segundo os psicanalistas, sempre volta – e volta porque, de um jeito ou de outro, não dá sossego ao sujeito. O que se encontra recalcado sempre conspira para retornar. Só com muito trabalho, imenso trabalho, o sujeito dá conta de manter escondido o que está recalcado. Quando o cidadão se cansa, ou quando se distrai, a coisa irrompe lá do fundo do armário e vem à superfície, como lava de vulcão. Voltando ao filme, será que a história, ou, como diz Galeano, a “história humana”, funciona do mesmo jeito que o recalcado numa pessoa qualquer?

Talvez não. Quando um idioma desaparece (e mais de 200 línguas desapareceram desde 1950, segundo a Unesco, e outras 2. 500 têm sua existência ameaçada), uma história inteira desaparece. Língua morta, história morta. Também os fatos desaparecem. Os atos humanos tendem naturalmente ao esquecimento, a menos que um outro ato humano, como o trabalho dos repórteres ou dos historiadores, venha impedir que eles se percam na escuridão. Enquanto o recalcado exige trabalho psíquico para continuar esquecido, a história exige trabalho investigativo para não ser esquecida. Sem esse trabalho, a verdade factual – a mais frágil das verdades, como ensina Hannah Arendt – sumiria no tempo. Quando entregue à sua própria inércia, a história, sim, se cala. Para termos direito à memória – tema por excelência do filme de Almodóvar –, lutar por isso, temos de investir no trabalho duro para construir as vias de acesso ao passado.

No Brasil, a Comissão Nacional da Verdade teve uma trabalheira federal para descrever objetivamente as graves violações dos direitos humanos cometidas pelos agentes da ditadura militar. O que veio depois? O esquecimento. As recomendações deixadas pela comissão seguem mudas, caladas.

E o que é que não se cala? O fascismo. Dia desses, um rapaz – que dizem ser famoso nas redes sociais – defendeu publicamente a legalização de um partido nazista no nosso País. É o recalcado que retorna, nos braços da ignorância e do esquecimento da história.

A palavra aletheia, em grego, normalmente traduzida como “verdade”, tem o sentido de não esquecimento. O problema é que o humano esquece. Esquece e reincide.

Pátria assassina

Dia desses mataram alegria, grávida de quatorze semanas, bala perdida, digo, bala encontrada. O bom senso, que já andava capenga, foi morto a pauladas atrás de um quiosque no Rio de Janeiro ao cobrar o seu sustento. A empatia também foi estrangulada no estacionamento de um supermercado. O afeto saiu pra trabalhar e não voltou mais, não encontraram o corpo até hoje. Ajuntamento na esquina da Assis Brasil com a Sertório, cena forte, compaixão destroçada no asfalto quente, pernas e braços amputados, foi atingida por um carro na contramão, o motorista fugiu sem prestar socorro. Alguém serviu pra boa fé, moradora de rua, um prato de comida misturada com pó de vidro. Gratidão morreu de sede. Coragem suicidou-se. Autoestima pulou do terraço de salto alto, do prédio mais alto, da Avenida Paulista. A generosidade foi vista a última vez, doente, todos os dentes podres, pedindo esmola na Cracolândia. Com a tolerância foi cirrose, nem transplante de fígado a salvou. O carinho adoeceu de repente, foi definhando, definhando, amarelou, perdeu os cabelos, já não se alimentava mais, até que não resistiu. No atestado de óbito do encantamento dizia: morte por causas naturais. Doação afogou-se na última enchente. Compreensão pegou fogo, incêndio criminoso. Esfaquearam a dignidade em plena luz do dia, ninguém fez nada. O respeito perdeu-se por completo, não foi mais visto nem é lembrado. Com o perdão foi latrocínio. Felicidades morreu de saudade. A liberdade está sendo caçada, dois olhos arregalados, esconde-se como pode. Perdão pegou perpétua, tuberculoso, agachado no canto de uma cela fedorenta. A fé teve morte cerebral. A humanidade não encontrou vaga na UTI, não há previsão de melhora. Esperança, entubada, ainda resiste ligada em aparelhos.

Bolsonaro critica o nazismo para poder compará-lo ao comunismo

Morreram milhões de pessoas na extinta União Soviética quando ela foi governada pelo ditador Joseph Stalin, assim como na China durante a guerra civil vencida pelo ditador Mao Tsé-Tung.

Mas só na Alemanha do ditador Adolf Hitler houve um regime racista: o nazismo, que matou 6 milhões de judeus, ciganos, gays e pessoas deficientes a pretexto de purificar a raça ariana.

Defensor da tortura, da ditadura e réu em processo de estupro, Bolsonaro, que ano passado recepcionou uma deputada alemã neta de um ministro de Hitler, criticou o nazismo nas redes sociais.

Sem citar as demissões do influenciador digital Bruno Aiub, o Monark, e do comentarista da TV Jovem Pan Adrilles Jorge, disse que “a ideologia nazista deve ser repudiada de forma irrestrita”.

Monark havia defendido a legalização no Brasil de um partido nazista, e Jorge, ao discutir o assunto, despediu-se dos expectadores com o gesto de mão imortalizado por Hitler.


Bolsonaro quis escapar aos efeitos da polêmica, manter os votos que tem entre os judeus e ao mesmo tempo usar o nazismo para compará-lo ao comunismo. Então, escreveu no Twitter:

“É de nosso desejo, inclusive, que outras organizações que promovem ideologias que pregam o antissemitismo, a divisão de pessoas em raças ou classes, e que também dizimaram milhões de inocentes ao redor do mundo, como o comunismo, sejam alcançadas e combatidas por nossas leis”.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) tem um projeto de lei na Câmara que propõe a criminalização do comunismo. Para ele, seus irmãos e o pai, Lula e sua turma são comunistas de carteirinha.

É bem capaz de acharem que o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos chefes do Movimento Brasil Livre, também seja. Bolsonaristas e petistas uniram-se para cassar seu mandato.

Os bolsonaristas, porque Kim, agora, apoia a candidatura do ex-juiz Sergio Moro (Podemos). Os petistas, porque ele deu força à ideia da criação de um partido nazista no Brasil ao dizer:

“Por mais absurdo, idiota, antidemocrático, bizarro, tosco que [seja o assunto que] o sujeito defenda, isso não deve ser crime. Por quê? Porque a melhor maneira de você reprimir uma ideia antidemocrática, tosca, bizarra, discriminatória, é você dando luz àquela ideia para que aquela ideia seja rechaçada socialmente, e então socialmente rejeitada”.

Confuso, não? Idiota e abjeto! No Twitter, Kim admitiu o erro:

“Gostaria de aproveitar esse espaço para reforçar meu pedido de desculpas para toda a comunidade judaica. Foi um erro tratar um assunto tão delicado quanto esse da forma que tratei”.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Pensamento do Dia

 


O genocídio negro

Será que, se fosse um branco andando e mexendo na mochila, tinham atirado no meu irmão três vezes?” Foi dessa forma que Fabiana Teófilo reagiu ao assassinato de seu irmão Durval Teófilo Filho, no dia 2 deste mês, em São Gonçalo (RJ), uma das cidades mais violentas do país. Durval tinha 38 anos, era casado e pai de uma menina de seis anos, Letícia, que tinha o hábito de esperar o pai retornar do trabalho.

Antes de trabalhar como repositor de supermercado _ o profissional que reabastece as prateleiras, à medida que estas vão sendo esvaziadas _, Durval foi letrista em plataformas da Petrobras. O pintor letrista é responsável por escrever sinalizações para orientar, por exemplo, a aproximação de barcos e helicópteros às plataformas.


Na noite fatídica, ao chegar perto do portão de entrada de seu condomínio no Colubandê, em São Gonçalo, Durval parou para buscar a chave do portão dentro da mochila. Naquele momento, foi alvejado por três tiros disparados por Aurélio Alves Bezerra, sargento da Marinha. Ele atirou de dentro de seu carro, sob a alegação de que temia ser assaltado. O militar era vizinho da vítima no condomínio.

“É mais um preto morto, e vai ficar por isso mesmo?”, questionou, indignada, Fabiana, a irmã de Teófilo. “Já passei por isso diversas vezes. [A morte de] meu pai foi assim, já tive primos que foi assim, mas, agora, de novo? Agora, não! Vou atrás de onde tiver que ir, entendeu? A justiça tem que ser feita.”

Durval se mudou com a família para o Colubandê, justamente para fugir da comunidade do Capote, um exemplo da violência em forma de guerra-civil que assola os grandes centros urbanos deste país há décadas. E a intensidade está aumentando.

Os dados oficiais de mortes violentas mostram queda no número de casos, segundo o Atlas da Violência. O problema é que a qualidade e, portanto, a credibilidade das informações, repassadas pelas secretarias estaduais de segurança pública, são hoje discutíveis, uma vez que o número de cidadãos mortos de forma violenta, mas sem causa determinada, tem crescido de maneira exponencial. Como essa estatística não entra no cômputo geral de assassinatos, criou-se a falsa impressão de que a violência está diminuindo. Em alguns Estados, o número de casos que não entram na estatística é superior ao de registro de mortes violentas com causa determinada, o que nos remete à famosa frase de Hamlet: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.

No fundo, do jeito que estão, as estatísticas sobre violêdncia mascaram a verdadeira dimensão da tragédia que nos leva a concluir que, no Brasil, viver não é preciso. “Vendo as câmeras, ouvindo a fala do delegado e pelo que os vizinhos estão falando, tenho certeza de que isso aconteceu porque ele é preto. Mesmo eles falando que ele era morador do condomínio, o vizinho não quis saber. Para mim, foi racismo sim”, disse Luziane, a viúva de Durval.

Ora, Durval morreu porque era negro. Quando um negro é visto nas ruas de São Paulo, por exemplo, a primeira reação dos viventes, principalmente, dos que estão devidamente acomodados dentro de seus automóveis, com as janelas e portas travadas, e com o ar condicionado ligado porque ninguém suporta o calor que faz aqui nos trópicos, é achar que se trata de um assaltante. Isso está impregnado no imaginário coletivo de uma sociedade racista desde a sua fundação.

Durval agora é parte de uma estatística macabra que, de tão comum, integra a paisagem de nossa sociedade. Em 2019 (último dado disponmível), e nos anos anteriores, do total de brasileiros que, ao longo daquele ano, saíram de casa para morrer, 77% eram negros. No gráfico, a proporção por Estado. Em Alagoas, apenas 1% dos cidadãos que sucumbiram, vítimas de morte violenta em 2019, não eram negros.

“Pelo menos desde a década de 1980, quando as taxas de homicídios começam a crescer no país, vê-se também crescer os homicídios entre a população negra, especialmente na sua parcela mais jovem. Embora o caráter racial da violência letal tenha demorado a ter presença constante nos estudos mais gerais da violência, as organizações que compõem o movimento negro há décadas tematizam essa questão, nomeando-as de diferentes modos, conforme apontado por Ramos (2021): discriminação racial (1978-1988), violência racial (1989-2006) e genocídio negro (2007-2018). Nesse sentido, a desigualdade racial se perpetua nos indicadores sociais da violência ao longo do tempo e parece não dar sinais de melhora, mesmo quando os números mais gerais melhoram”, diz o último Atlas de Violência.

Sob o Bolso-Reichnaro

Na segunda-feira, o youtuber Bruno Aiub, vulgo Monark, e o conhecido Kim Kataguiri, vulgo deputado federal (DEM-SP), defenderam o direito de existência no Brasil de um partido nazista. Na terça, um ex-BBB, vulgo comentarista político, tratou do assunto em seu canal e ergueu o braço à maneira nazista. Diante do clamor nacional, todos amarelaram. Um estava "bêbado", outro foi "mal interpretado" e o terceiro queria ser "galhofeiro". Quem não sabe beber, se expressar ou fazer galhofa não deve descer para o play. Inúmeras vozes responsáveis repudiaram as declarações. Só Jair Bolsonaro, vulgo presidente da República, não se manifestou.

Mas há mais debaixo disso do que a irresponsabilidade de três patetas. Desde 2019, em vários estados, sujeitos têm passeado em shoppings com suásticas no braço, abanado bandeiras nazistas na janela e enviado emojis referentes a Adolf Hitler. Um professor, temo que com jovens sob sua influência, decorou o fundo da piscina com uma suástica.


Há estímulos para tal. Em 2021, o secretário especial de Cultura de Bolsonaro, Roberto Alvim, citou em pronunciamento oficial uma frase de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich. Em seguida, Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, fez para milhões um gesto dos supremacistas brancos. Bolsonaro não se alterou. E nem podia porque, pouco depois, recebeu em palácio uma líder da extrema direita alemã e neta do ministro das Finanças de Hitler.

Em 2020, estimava-se em 530 o número de células nazistas no país --uma célula é um grupo de pessoas numa mesma cidade. Por quanto esse número já não terá se multiplicado pela ação de youtubers, podcasters e —perigo— influencers?

Em breve, será muito fácil calcular. Como não há mais possibilidade de um apoiador de Bolsonaro ser um democrata, as eleições dirão exatamente quantos brasileiros ergueram o braço dentro da urna.

Crime e castigo

Interrogado pelo comissário, jurou inocência. Inquirido pelo delegado, voltou a jurar. Não acreditaram. Foi indiciado, pronunciado, julgado, condenado. Sempre gritando que estava inocente.

No fim de cinco anos de prisão, acabou convencido de que era mesmo culpado. Pediu que o julgassem novamente, para agravamento de pena. Em vez disto, soltaram-no porque findara a pena.

Saiu confuso, já não tinha certeza se era culpado ou inocente, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Como toda gente.

Carlos Drummond de Andrade, "Contos plausíveis"

No gesto de Adrilles, só faltou desmunhecar como Hitler

Não consigo mais acompanhar a sucessão de comentaristas que surgem a cada ano. Adrilles Jorge: nunca tinha ouvido falar. Juro. Soube que é ex-participante do BBB (não assisto) e, até horas atrás, comentarista da Jovem Pan (não ouço rádio). Falha minha.

Eu o vi apenas fazendo a saudação nazista, após discorrer sobre as repercussões do caso Monark (que, como disse ontem, também não conhecia, até que Sergio Moro deu uma entrevista ao canal Flow). Sim, Adrilles Jorge fez uma saudação nazista, a mais informal, digamos assim, com o braço direito dobrado lateralmente em 90 graus para cima, com a mão espalmada para a frente. Só faltou dar a desmunhecada para trás de Adolf Hitler. Depois do escândalo geral, ele foi dizer que não fez a saudação nazista, apenas deu tchau. Mentira, como aquela do bolsonarista Filipe Martins, que fez um gesto supremacista no Senado. Adrilles Jorge tentou bancar o engraçado, como fica claro pelo vídeo. Ele agora será investigado pelo Ministério Público de São Paulo, visto que divulgar nazismo no Brasil é crime — e fazer gesto nazista, em especial num meio de comunicação, é divulgar nazismo, não tem jeito, mesmo que você jure ser “antinazista por natureza”, para citar o gajo.


Na sequência, chamaram a minha atenção para um tweet de Fernando Holiday, o vereador do Partido Novo. Ele saiu em defesa de Kim Kataguiri, seu ex-companheiro de MBL, que no programa de Monark disse achar um erro a criminalização do nazismo na Alemanha e, nesse contexto, afirmou que, “por mais absurdo, idiota, antidemocrático, bizarro, tosco que [seja] o [que o] sujeito defenda, isso não deve ser crime”. Olhe, Kataguiri, na Alemanha deu certo, e fez parte do programa de desnazificação do país. No seu tweet, continuando, Fernando Holiday escreveu a seguinte genialidade: “Se o defensor da descriminalização das drogas não é tratado como traficante e o defensor da descriminalização do aborto não é tratado como assassino… Por que um defensor da descriminalização do nazismo deve ser visto como nazista? Obs.: sou contra as três descriminalizações”.

Alguém precisaria dizer a Fernando Holiday que os defensores da descriminalização das drogas não obrigam ninguém a consumir drogas e depois levam o viciado à força para dentro de um forno. E que os defensores da legalização do aborto também não obrigam mulheres a abortar e, em seguida, as matam em câmaras de gás. Já quem é a favor da descriminalização do nazismo, mesmo se declarando não nazista, dá uma baita mão a quem quer instalar uma ditadura e assassinar em massa judeus, ciganos, pretos, gays e pessoas com deficiências físicas e mentais. Além de inimigos políticos, obviamente.

Se houvesse permissão para a criação de um partido nazista, seria natural que se criasse também um partido escravocrata, por exemplo. Afinal de contas, se é possível ter no programa o extermínio de judeus — o antissemitismo é indissociável do nazismo, lhe é ESSENCIAL, repito –, por que outra agremiação não poderia querer que voltássemos a ter escravidão? O mesmo vale para um eventual partido misógino, que retiraria das mulheres o direito de votar, por exemplo.

Nazismo não é ideologia. É uma construção alucinada de um psicopata. Psicopatas não podem ter partidos. Ah, mas nazistas podem manifestar-se livremente nos Estados Unidos. Danem-se os Estados Unidos. Copiemos os acertos deles, não os erros. Nesse caso, adotemos o paradoxo da tolerância, que está na boca do povo desde ontem: o de ser intolerante com os intolerantes. São as minhas considerações finais. Não voltarei ao assunto.

Nada disso tem graça.