terça-feira, 10 de março de 2020

A necropolítica das epidemias

A epidemia do vírus corona parece uma atualização das aulas de Michel Foucault sobre biopolítica, segurança e territórios. A biopolítica é o poder que organiza as políticas da vida, isto é, são táticas que regulam que corpos devem viver e quais podem ser descartáveis. A explosão de uma epidemia é um momento efusivo à biopolítica: em nome da proteção coletiva se controlam os corpos, se traçam fronteiras reais ou imaginárias à saúde. Assim foi com a epidemia de zika vírus. Com zika, no entanto, o pânico global foi ligeiro, pois logo se compreendeu que o risco à doença estava confinado aos países tropicais. E por que o rápido silenciamento sobre o zika? Porque toda biopolítica se converte em uma necropolítica quando os regimes de desigualdade determinam quais corpos vivem o risco.


Há uma nova doença em curso, e sobre a verdade do vírus não parece haver controvérsia —a Organização Mundial de Saúde a descreve como COVID-19, uma doença infecto-respiratória semelhante à gripe. Por ser um vírus novo, a taxa de infecção é alta, pois não há imunidade por adoecimento prévio ou proteção por vacina. Uma doença se apresenta como perigosa às populações por seu potencial de contaminação ou pelo risco de morte. Nesse sentido, os vírus corona e zika se parecem na epidemiologia: populações sem imunidade e risco de morte concentrado em determinados grupos etários —no caso do vírus corona, entre idosos; do zika, entre crianças.

Mas o burburinho das duas epidemias foi diferente. Houve compaixão às mulheres e seus filhos de cabeça miúda, discutiu-se os riscos de a doença sair do Sul Global para o Norte pelo risco de transmissão sexual, uma vez que o mosquito, o principal vetor, estava concentrado nas casas precárias dos trópicos. No entanto, não houve desaceleração da economia global, flutuação da bolsa de valores ou cancelamento de desfiles de moda, congressos acadêmicos e encontros de negócios, como ocorre com o vírus corona. Há um verdadeiro “pânico coletivo”, segundo Giorgio Agamben, cujo exagero da resposta seria, na verdade, um pretexto de governos autoritários para mover o “estado de exceção”.

Agamben está certo em descrever que o estado de medo em que vivemos se alimenta com momentos de “pânico coletivo”. O vírus corona permite fechar fronteiras, impedir mobilidade nas cidades, confinar indivíduos às casas. Se a política do medo explica o exagero da resposta e sua utilidade para os regimes autoritários, para nós, há uma outra particularidade em como se respondeu à epidemia de zika em comparação à de corona: zika era uma doença com risco global, mas se mostrou uma doença de gente miserável e uma sentença de vida às mulheres anônimas.

Nossa estranheza não é ressentimento de mulheres latinas que, ainda hoje, acompanham a peregrinação das sobreviventes de zika com seus filhos. Como qualquer outra pessoa, estamos expostas ao vírus corona, mas diferentemente das mulheres pobres do Brasil, Colômbia, El Salvador ou Venezuela, não estamos em risco ao adoecimento pelo vírus zika, ou sob leis criminais que proíbem o aborto ou sob regimes de pobreza que desamparam o cuidado. É preciso especificar quais mulheres vivem o vírus zika como uma ameaça para o futuro —as mulheres mais vulneráveis, negras e indígenas, jovens e pobres. Essa é a passagem da biopolítica para a necropolítica das epidemias: o vírus corona aciona o pânico coletivo dos regimes autoritários que não querem estrangeiros em terras próprias; o vírus zika abandona as mulheres mais vulneráveis ao abuso de governos patriarcais que perseguem a sexualidade e a reprodução.
Debora Diniz, pesquisadora da Universidade de Brown / Giselle Carino diretora da IPPF/WHR

A confusão como estratégia

Bolsonaro despreza os fatos e não se dá o trabalho de parecer coerente.

No começo do seu mandato, o Orçamento impositivo foi apresentado como manobra do Congresso para enquadrar um presidente que não queria negociar; depois, durante a votação, virou projeto desde sempre apoiado pela família Bolsonaro, demonstrando que não existia tensão entre os Poderes; em seguida, foi vetado pelo presidente.

Neste ano, quando o veto estava prestes a ser derrubado, voltou a ser chantagem do Congresso, motivo de sonoro "foda-se" pronunciado por um ministro; na semana passada, foi alvo de meticulosa negociação com os parlamentares; em seguida, a negociação, registrada no Diário Oficial, foi categoricamente negada.

A manifestação do dia 15 passou pelo mesmo processo.

Originalmente, foi convocada para pressionar o Congresso pela prisão em segunda instância; depois, a reboque do áudio vazado do general Heleno, virou convocação anti-Congresso; diante da repercussão negativa, transformou-se em ato pró-governo; de maneira pró-ativa, o presidente compartilhou a convocação; confrontado com o fato, disse que o fez na condição de pessoa privada; alegou, em seguida, que o vídeo não era sobre a manifestação deste ano, mas sobre uma manifestação de 2015; por fim, em evento público, fez elogio à manifestação, ressalvando que era espontânea.


É atordoante a sucessão de vaivéns.

O que os fatos sugerem é que, por inabilidade, Bolsonaro permitiu que o Congresso mordesse parte expressiva do Orçamento discricionário do Executivo.

Para não reconhecer sua incompetência política, nem a tensão crescente com o Legislativo em início de mandato, Bolsonaro fez parecer que não era contra o Orçamento impositivo, mas, sim, a favor dele. Em seguida, teve que reconhecer que a medida era ruim e que, se não negociasse, perderia o poder de alocação sobre R$ 30 bilhões. Convocou, ou articulou para que se convocasse, uma mobilização contra o Congresso para ampliar seu poder de negociação e desgastar as instituições. Mesmo tendo logrado uma boa negociação, disse que não negociou para manter a base mobilizada.

Chama a atenção como Bolsonaro consegue emplacar narrativas desprezando fatos e mesmo suas ações precedentes. Apenas neste episódio, o presidente foi evasivo, mentiu e se contradisse inúmeras vezes. Seus ataques à imprensa colocam em xeque a única maneira de determinar os fatos, e sua máquina de propaganda, por meio da repetição, consegue impor as explicações mais implausíveis.

Essa confusão toda tem estratégia.
Pablo Ortellado

Aventura perigosa

O presidente Bolsonaro está levando parte das Forças Armadas a uma aventura que não se sabe como terminará. A idéia equivocada de que haveria por parte dos militares disposição de controlar os ímpetos de Bolsonaro já foi há muito superada.

Mesmo que se saiba que existe desconforto de parte dos militares com as posições do presidente em certos temas, sempre há um ingrediente ideológico que une as Forças Armadas. A política de Meio-Ambiente do governo, por exemplo, se por um lado preocupa pelo prejuízo à imagem internacional do país, e pela possível perda econômica que pode provocar, também une os militares na visão estratégica da região.

O temor de que a região possa ser dominada por interesses estrangeiros une o pensamento militar a favor de nossa soberania, supostamente ameaçada. As questões ideológicas na política são também mais fortes do que eventuais desacordos com a maneira como as situações são enfrentadas por Bolsonaro.


Há uma tendência a considerar que ele é quem sabe lidar com políticos, pois é quem tem popularidade e votos. Ainda durante a campanha, quando o General Villas Boas ainda era o Comandante do Exército, alguém, numa roda de conversa em seu gabinete em que estavam generais que hoje integram o governo Bolsonaro, perguntou por que os militares não controlavam um pouco os arroubos do então candidato. Villas Boas deu uma gargalhada e disse: “Ele é incontrolável”.

Por outro lado, a ideia de que existe um perigo de volta do PT ao governo se não for combatido diuturnamente é majoritária nas Forças Armadas, que vêem um real perigo comunista numa eventual volta da esquerda ao poder.

Nomeando dois generais da ativa para seu ministério, saídos dos mais altos cargos da hierarquia militar, ele deu mais um passo perigoso no envolvimento dos militares com seu governo. O General Luiz Eduardo Ramos era o chefe do Comando Militar do Sudeste quando foi convidado a assumir a Secretaria de Governo de Bolsonaro, e ainda está na ativa.

O General Braga Neto era o Comandante do Estado-Maior do Exército, e foi para a reserva antes de assumir a Casa Civil da presidência da República. As intrigas palacianas que engoliram diversas autoridades militares nos últimos meses, inclusive o General Santos Cruz, a quem substitui, já estão envolvendo o General Ramos, que entrou na mira de tiro dos olavistas.

Até o momento indiretamente, o General está sendo acusado de ter traído o presidente na negociação dos vetos parlamentares com o Congresso, induzindo-o a erro. Teria sido a Ramos que se referia ao dizer recentemente que levara “uma facada na garganta” dentro do Palácio do Planalto.

Também seria a ele que o filho 02 Carlos se dirigia quando disse em recente twitter que o pai “está propositalmente isolado e blindado por imbecis com o ego maior que a cara”.

Experiente no jogo político, pois há muito mantém contatos com políticos de diversos partidos desde que estava no Comando Militar do Leste, Ramos aproveitou uma entrevista da Secretária de Cultura Regina Duarte ao Fantástico para tentar se realinhar com o grupo olavista.

Em uma sequência de mensagens no Twitter, Ramos afirmou que, ao utilizar o termo "facção", sem identificar os integrantes, Regina deu a entender que há "divisões inexistentes e inaceitáveis em nosso governo".

O ministro também disse que "são seus ministros e secretários que devem se moldar aos princípios publicamente defendidos por Bolsonaro, não o contrário". A exigência de lealdade explícita de seus ministros e assessores impede que existam ao redor do presidente vozes discordantes que ponderem suas decisões sem cair na lista dos inimigos definitivos.

Preservando a área militar de cortes nos investimentos, e negociando um plano de Previdência especial para a categoria, o presidente Bolsonaro vem dando atenção especial aos militares, onde recruta boa parte do primeiro e segundo escalões da República.

Ao mesmo tempo, deixou clara sua simpatia pelo movimento reivindicatório dos policiais militares do Ceará, e aproveita toda solenidade militar a que comparece para fazer discursos políticos, mesmo que nada tenham a ver com a ocasião.

Como ao fazer uma escala em Roraima para seguir viagem à Flórida na visita que fez a Trump no fim de semana, quando aproveitou a solenidade da Base Aérea e fez a convocação popular para as manifestações no próximo domingo.

Pensamento do Dia


Brasil lidera importações de armas na América do Sul

O Brasil se tornou o maior importador de armas da América do Sul, de acordo com um estudo divulgado nesta segunda-feira pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri). O país superou a Venezuela, que liderou a lista de importadores sul-americanos no relatório anterior publicado há cinco anos.

Entre 2015 e 2019, o Brasil foi responsável por 31% das compras de armas entre as nações sul-americanas, apesar de uma queda de 37% em comparação ao período 2010-2014. O país também possui a maior encomenda de armas pendente na região, que inclui aviões de combate suecos e submarinos franceses.

Em relação à exportação, o Brasil também fica em primeiro da lista na América do Sul, sendo responsável por 0,2% das vendas globais, e figurando em 24ª posição no ranking mundial.


A Venezuela, que liderou a lista de importadores sul-americanos em 2010-2014, viu suas compras caírem 88% nos últimos cinco anos, como resultado da grave crise econômica que está sofrendo.

A pesquisa, que compara o período de 2015 a 2019 com o de 2010 a 2014, também destaca um aumento de 5,5% no tráfico global de armas entre os dois períodos.

"No geral, as transferências de armas aumentaram. Entre os países importadores de armas, a demanda é alta e parece até ter aumentado um pouco", disse Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Sipri.

O relatório confirmou que os Estados Unidos reforçaram sua condição de maior exportador mundial de armas nos últimos cinco anos, com um aumento de 23%, enquanto a Arábia Saudita se consolidou como o maior importador.

Os EUA, que venderam armas para 96 ​​países, aumentaram sua participação no total de exportações globais para 36% (cinco pontos percentuais a mais), 76% a mais que o segundo exportador mundial, a Rússia.

"Metade das vendas foi para o Oriente Médio e metade destas, para a Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, a demanda por aviões militares avançados dos EUA aumentou, especialmente na Europa, Austrália, Japão e Taiwan", destaca o estudo.

A Rússia mantém o segundo lugar, apesar de uma queda de 18%, devido à perda de peso nas vendas para a Índia, que continua sendo seu principal cliente; à frente da França, Alemanha e China, nessa ordem.

Os cinco primeiros países da lista foram responsáveis ​​por 76% das vendas globais de armas nos últimos cinco anos, observa o Sipri.

A Alemanha manteve seu quarto lugar entre maiores exportadores de armas do mundo. O governo alemão afirma visar uma política "restritiva" de exportação de armas. No entanto, entre 2015 e 2019, as exportações do país aumentaram 17%. Desde o outono de 2018, a Arábia Saudita é um grande cliente para os fabricantes de armamentos alemães. Berlim interrompeu a exportação de armas para o país em resposta ao assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

Com um aumento de 72%, a França teve o maior crescimento de exportações, graças à demanda por armas em Egito, Catar e Índia.

Com um aumento de 130% em comparação a 2010-2014 e uma participação global de 12%, a Arábia Saudita se estabeleceu na liderança entre os importadores mundiais de armas.

"Apesar das preocupações nos EUA e no Reino Unido sobre a intervenção militar saudita no Iêmen, os dois países continuaram a vender armas. Do total das importações sauditas, 73% vêm dos EUA e 13%, do Reino Unido", destaca o estudo.

Índia, Egito, Austrália e China completam a lista dos cinco principais compradores de armas globais.

Por região, a Ásia-Oceania foi o principal destinatário de armamento nos últimos cinco anos, com 41% do total, seguido pelo Oriente Médio (35%), Europa (11%), África (7,2%) e América (5,7%).

As importações na América Central e no Caribe aumentaram 23% nos últimos cinco anos, com o México como líder regional com 70% do total, coincidindo com suas operações militares em andamento contra cartéis de drogas.

Na América do Sul, as importações caíram 59%, sendo os Estados Unidos (19%), França (16%) e Itália (8,6%) os principais fornecedores.

Deutsche Welle

Apoio viral


A questão do coronavírus também, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica
Jair Bolsonaro

Bolsonaro primeiro destrói para construir depois o que não se sabe

Se o governo cometer mais besteiras, o dólar baterá a casa dos 5 reais, admitiu o ministro Paulo Guedes, da Economia, o ex-Posto Ipiranga do presidente Jair Bolsonaro. Se Guedes for demitido ou pedir as contas, o dólar irá a 7 reais, projetou o ministro.

O mercado está pronto para evitar uma disparada dessas se o substituto de Guedes for Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, embora saiba que o problema maior não é Guedes. E ainda faltam três anos para que se dê adeus a Bolsonaro...

Fora outras razões que podem impulsionar o dólar. Como deverá acontecer, hoje, depois que o preço do barril do petróleo desabou no mercado internacional. Na abertura do mercado na Ásia, ele voltou ao patamar de 1991, antes do início da Guerra do Golfo.

Quando Guedes diz que tem 15 semanas para mudar o Brasil, ignora-se se esse é o prazo que ele se deu para depois seguir ou não no cargo ou se esse foi o prazo que seus superiores lhe deram, do contrário será mandado embora. Guedes não explicou direito.



Quinze semanas tem a ver com o costume de o Congresso ficar vazio a partir de junho em ano eleitoral. A primeira das 15 semanas venceu. Esta agora vencerá sem que nada de bom aconteça à espera das manifestações marcadas para o próximo domingo.

Se elas forem grandes, e o Congresso o seu alvo, deputados e senadores levarão certo tempo para engolir mais um sapo indigesto que Bolsonaro lhes serviu. Restarão 12 semanas para que se cumpra ou que se frustre a inesperada previsão de Guedes.

E no que consistiria mudar o Brasil em 15 semanas? Guedes não explicou. Talvez consistisse em avançar dentro do Congresso de modo convincente com a pauta das reformas. Mas imaginar que elas serão aprovadas em prazo tão curto é um despautério.

Quem sabe Guedes não será obrigado a dizer outra vez que foi mal interpretado quando falou em 15 semanas, que retiraram sua frase de contexto, e coisa e tal? Quem sabe não culpará por isso a imprensa, inimiga número um de governos em dificuldades?

Extraordinário é que o governo precise tanto do Congresso e não perca uma chance de atacá-lo. Foi novamente o que fez Bolsonaro no último fim de semana dentro do Esquadrão Logístico da Força Aérea Brasileira, em Boa Vista, Roraima.

magine se Lula, o líder vermelho, cercado de admiradores no ambiente de uma unidade militar, chamasse o povo às ruas em apoio ao seu governo? E logo às vésperas de manifestações a serem promovidas por seus devotos da esquerda contra o Congresso?

Lula ou outro governante qualquer de esquerda, mesmo que legitimamente eleito, se arriscaria a ser acusado de subversivo, de atentar contra a ordem e as instituições da República, e de acabar enquadrado na Lei de Segurança Nacional de triste memória.

Mas Bolsonaro pode, porque a direita e os militares estão com ele. Foi no Regimento Mallet, quartel do Exército em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que Bolsonaro, em 15 de junho do ano passado, aproveitou a Festa Nacional da Artilharia para incitar sua turma.

“Mais do que o Parlamento, precisamos do povo ao nosso lado para que possamos impor política que reflita em paz e alegria a todos”, ele disse quando a reforma da Previdência empacara. E defendeu armar a população para evitar golpes de Estados.

Saiu do regimento aos gritos de “Mito”. Em Boa Vista, antes de entrar nas dependências da Força Aérea Brasileira, foi saudado aos gritos de “Mito”. Nunca antes na história da democracia neste país um presidente jogou tanto o povo contra os demais Poderes.

Bolsonaro teve tempo suficiente até aqui para entregar ao país muitas de suas promessas de campanha. Entregou quase nada. A reforma da Previdência foi obra deixada pronta pelo governo Temer e aprovada pelo Congresso apesar de Bolsonaro.

Entre Dilma e Bolsonaro houve Temer, que herdou um PIB negativo de 3,3 e tornou-o positivo um ano depois. Legou a Bolsonaro um PIB que crescia a 1,3%, inflação e dólar sob controle, juros em queda, reforma trabalhista, teto de gastos públicos.

O Brasil estava pronto para voltar a crescer. Mas deu no que se vê: um pibinho que não passará dos 2% este ano, dólar nas alturas, fuga de capital estrangeiro, ações de empresas em baixa, desemprego expressivo e instabilidade política.

Em sua primeira visita a Washington, Bolsonaro afirmou durante convescote na embaixada do Brasil que seria necessário, primeiro, destruir tudo que encontrara (o sistema) para só depois começar a construir. É a única promessa que se empenha em realizar.
Ricardo Noblat

Eleições – jornalismo sem censura

Estamos em ano eleitoral. E o galinheiro político já começa a entrar em clima de agitação. Eleição municipal é sempre um ensaio para o grande embate presidencial lá na frente. Ataques aos adversários, promessas irrealizáveis e imagens produzidas farão parte, mais uma vez, do discurso dos candidatos. Assistiremos, diariamente, a um show de efeitos especiais capazes de seduzir o grande público, mas, no fundo, vazio de conteúdo e carente de seriedade. O marketing, ferramenta importante para a transmissão da verdade, pode, infelizmente, ser transformado em instrumento de mistificação. Estamos assistindo à morte da política e ao advento da era da inconsistência.

Os programas eleitorais vendem uma bela embalagem, mas, de fato, são paupérrimos na discussão das ideias. Nós jornalistas somos – ou deveríamos ser- o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar os candidatos. Só nós, estou certo, podemos minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida.

Por isso uma cobertura de qualidade será, antes de mais nada, uma questão de foco. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. Não basta um painel dos candidatos, é preciso cobrir a fundo as questões que influenciam o dia a dia das pessoas. É importante fixar a atenção não nos marqueteiros e em suas estratégias de imagem, mas na consistência dos programas. É necessário resgatar o inventário das promessas e cobrar coerência. O drama das cidades – segurança, educação, saúde, saneamento básico, iluminação, qualidade da pavimentação das ruas, transporte público de qualidade, responsabilidade fiscal, entre outros – não pode ficar refém de slogans populistas e de receitas irrealizáveis. Os candidatos deverão mostrar capacidade de gestão, experiência, ousadia e criatividade.

Não se pode permitir que as assessorias de comunicação dos políticos definam o que deve ou não ser coberto. O centro do debate tem de ser o cidadão, as políticas públicas, não mais o político, tampouco a própria imprensa. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute a Nação oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

A independência é a regra de ouro da nossa atividade. Para cumprir a nossa missão de levar informação de qualidade à sociedade, precisamos fiscalizar o poder. A imprensa não tem jamais o papel de apoiar o poder. A relação entre mídia e governos, embora pautada por um clima respeitoso e civilizado, deve ser marcada por estrita independência.

Um país não se pode apresentar como democrático e livre se pedir à imprensa que não reverbere os problemas da sociedade. Não apenas os que aparecem na superfície, mas também aqueles que vão corroendo os pilares da cidadania. A intolerância é, de longe, um dos mais nefastos filhotes do sectarismo. A radicalização ideológica não tem a cara do brasileiro. O PT procurou dividir o Brasil ao meio. Jogar pobres contra ricos, negros contra brancos, homos contra héteros. Pretendeu substituir o Brasil da tolerância pelo país do ódio e da divisão. Tentou arrancar com o fórceps da luta de classes o espírito aberto dos brasileiros. Procurou extirpar o DNA, a alma de um povo bom e multicolorido. Não queria o Brasil café com leite.

O totalitarismo ideológico pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar, elemento essencial da democracia. Se a ditadura gramsciana constrange a cidadania, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e redações. Informação independente incomoda e faz pensar. Jornalismo sem censura é o melhor antídoto contra aventuras autoritárias.

Anotemos a experiência e estejamos alertas. Agora e sempre. Governo e Congresso precisam se entender. Não cabe mais o toma lá da cá de triste memória. Mas também não faz sentido ameaças populistas e ensaios de democracia direta. É preciso dialogar. Faz parte do processo democrático. O primeiro mandamento do jornalismo de qualidade é a independência. Não podemos sucumbir às pressões dos lobbies direitistas, esquerdistas, homossexuais ou raciais. O Brasil eliminou a censura. E só há um desvio pior que o controle governamental da informação: a autocensura. Para o jornalismo, em ano eleitoral e em qualquer tempo, não pode haver vetos, tabus e proibições. Informar é um dever ético.

O leitor espera uma imprensa firme, disposta a exercer o seu intransferível dever de denúncia fundamentada. O jornalismo de qualidade deve assumir o papel de memória da cidadania. Mostramos o que os políticos querem ocultar. Precisamos falar dos planos e do futuro. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambiguidades.

Deixemos de lado a pirotecnia do marketing e não nos deixemos aprisionar pelas necessárias pesquisas eleitorais. Nosso papel, único e intransferível, é ir mais fundo. A pergunta inteligente faz a diferença. Incomodar é preciso. E é o que o leitor espera de nós.

Uma injustiça enterrada e explosiva

Me parece que não prestamos atenção o suficiente a uma notícia verdadeiramente atroz: o intolerável Donald Trump acaba de dizer que os Estados Unidos voltarão a usar minas antipessoa. Vejam, essas minas são um invento de uma perversidade horripilante. Possuem cargas explosivas muito pequenas porque seu objetivo não é matar, mas mutilar, arrebentar os ventres ou arrancar pernas e braços, para enfraquecer o oponente, forçando-o a cuidar de seus feridos e transportá-los. São artefatos cruéis que se fartam com a população civil. Por isso, quando se realizou em 1997 a Convenção de Ottawa para proibir o uso dessas minas, a humanidade deu um passo gigantesco. Sair do acordo, como Trump fez, é uma infâmia.

Mas, já que falo de minas e de indecência política, quero falar sobre os saarauís. Sim, desse povo que nós, espanhóis, traímos e vendemos como ovelhas aos marroquinos há 45 anos. Sim, esses mesmos saarauís que têm a Justiça e os acordos da ONU a seu favor, mas nem assim conseguem recuperar suas terras. De fato, todos os dias nos esquecemos um pouco mais deles.


E as minas são um exemplo perfeito desse esquecimento. Segundo a Landmine Monitor, o Saara Ocidental está entre os países mais tomados por minas no planeta. Talvez seja o mais poluído dos territórios habitados. E o muro que divide em dois o Saara Ocidental (de um lado os saarauís, do outro, a área ocupada por Marrocos) é o campo minado mais longo do mundo. Estima-se que nessa área existam entre sete e 10 milhões de minas, colocadas pelos dois lados do conflito durante a guerra. A ONU e a Frente Polisário, líder da causa saarauí, pediram repetidas vezes ao Marrocos mapas de localização de seus explosivos, sem nenhum resultado. A remoção de minas é cara, perigosa e difícil; as chuvas deslocam as bombas na areia, o que complica ainda mais sua localização. Aliás, há um grupo de aguerridas mulheres saarauís, as SMAWT, em inglês (Sahrawi Mine Action Women Team, grupo saarauí de mulheres em ação contra as minas), que se dedica a essa arriscadíssima tarefa de caçadoras e neutralizadoras de explosivos.

A Frente Polisário, que acata a convenção de Ottawa e a de Oslo (contra as bombas de fragmentação) fez um enorme esforço para reduzir seus artefatos explosivos e destruiu todo o seu arsenal de minas antipessoa (20.493 unidades) e de munições de fragmentação (24.107). Enquanto isso, o Marrocos continua sem aderir a Ottawa ou Oslo. Para piorar, ocorre que após o precário acordo de paz de 1991 entre Marrocos e a Polisário foi criada uma faixa de exclusão de cinco quilômetros de largura a leste do muro, onde não podem entrar nem pessoal nem equipamento militar, mas os civis podem.

Esta zona, que proporciona reservas de água porque se formam poças quando o muro cruza os rios, é atravessada o tempo todo por pastores nômades e seus animais, e é aí que está a maioria das minas. Entre 2014 e 2019, houve 186 vítimas. Uma delas passou 10 horas sangrando diante do olhar desamparado dos soldados, que não podiam entrar na zona de exclusão para resgatá-lo (por fim, civis o resgataram e foi preciso cortar a perna dele). Além disso, mais e mais animais são feridos ou mortos pelas explosões, o que arruína a vida dos pastores.

E sendo tudo isso horrível, o pior é que esta situação catastrófica que acabo de contar não existe oficialmente. Embora já tenhamos dito que o Saara Ocidental talvez seja o território habitado mais poluído por minas antipessoa em todo o planeta, não está no foco das áreas a serem limpas, de acordo com a Convenção de Ottawa, pois não possui status de país independente.

Além do mais, delegados saarauís não têm permissão para intervir de forma oficial nas conferências antiminas. Ottawa estabeleceu como objetivo conseguir em 2025 um mundo sem minas antipessoa (uma meta que Trump tornou muito difícil), e eu me pergunto como sequer se atrevem a esboçar semelhante conquista se não levam em conta os milhões de artefatos letais que irrigam o Saara. Aqui está uma boa metáfora da causa saarauí: é uma injustiça indecentemente silenciada, enterrada, explosiva.

domingo, 8 de março de 2020

A seguir: a 'guerra urbana'

Está na história. Em fins dos anos 70, era mais fácil encontrar um pinguim do que um militar fardado nas ruas do Brasil. Era como se, encerrado o expediente em seus então milhares de empregos oficiais, os militares pendurassem o uniforme no armário e só saíssem à paisana, para evitar constrangimentos. E com razão: sob uma ditadura já velha de 15 anos, que não metia mais medo em ninguém, um oficial fardado numa fila de cinema arriscava-se a que populares lhe mostrassem a língua. O povo estava farto deles. Mas só em 1985, vitorioso Tancredo Neves, eles marcharam de volta para o quartel e se dedicaram a tentar limpar sua imagem horrível perante a nação.


O que custou décadas, porque havia muito a limpar: a violência das cassações, prisões, torturas e mortes, as cínicas trapaças eleitorais, as sucessivas crises da economia e, como sempre, os acordos corruptos de seus tecnocratas com os piores empresários e políticos nacionais. Mas, milagrosamente, os militares conseguiram. Nos mais de 30 anos desde então, em que eles se conservaram à margem da política e do poder —e das tramoias dos vários governos do período—, o povo voltou a vê-los com simpatia e respeito.

Pois, graças ao governo Bolsonaro, essa imagem respeitável volta a correr perigo. Ao entupir seu gabinete de generais fanzocas e induzir seus subordinados a se cercar de oficiais menores, Bolsonaro está promovendo uma contaminação. Em breve, para o povo, o Exército será cúmplice do descalabro presidencial.

Por enquanto, os generais que Bolsonaro arrebanhou, e a quem impõe seu estilo desqualificado de governar, são dos que comandam mesas. Não se sabe o que pensam os que comandam tropas —e que, para começar, serão chamados a enfrentar as polícias militares dos Estados, no que o próprio Bolsonaro já chamou de “guerra urbana”.

Guerra esta que, por algum motivo, ele parece felicíssimo em insuflar.
Ruy Castro

Mulher brasileira no dicionário bolsonarista


Os planos maquiavélicos de Bolsonaro

A estratégia protogolpista do presidente Jair Bolsonaro é perfeita, exceto pela falta de um ingrediente essencial, que são os índices elevados de popularidade. Para que a tática de jogar o povo contra os outros Poderes funcione, é preciso que o Executivo conte com o apoio decidido da maioria dos cidadãos —e isso Bolsonaro não tem.


Com efeito, líderes populistas que lograram enfraquecer as instituições incumbidas de controlá-los, como Vladimir Putin, Viktor Orbán, Recep Tayyp Erdogan e Hugo Chávez, tiveram força política para enquadrar outros Poderes e até reescrever as constituições de seus países graças a bons resultados econômicos que, durante algum tempo, entregaram a seus eleitores.

Bolsonaro não chegou nem perto disso. As pesquisas de popularidade lhe dão algo em torno dos 30% de avaliações positivas, contra 36% de negativas. E é remota a chance de ele vir a surfar numa onda de pujança econômica. Se, no final de 2019, economistas ainda viam a possibilidade de o Brasil crescer uns 2% em 2020, as perspectivas pioraram no último par de meses. Agora, com o coronavírus, já há quem fale em recessão global, um cenário que seria mais compatível com rejeição nas urnas e impeachment do que com reeleição e remodelamento constitucional.

Daí não decorre, obviamente, que não precisemos nos preocupar com o estado de nossa democracia nem resistir às investidas autoritárias do presidente. No mundo contemporâneo, as ameaças à democracia já não vêm tanto na forma de tanques, mas de perda de higidez. Ficam cada vez mais raras as rupturas formais e se tornam mais presentes arranjos híbridos, em que figuras sombrias instaladas no Executivo desequilibram o balanço institucional para abocanhar mais poder. Mesmo que Bolsonaro não tenha força para introduzir mudanças profundas no sistema, muitas de suas ações mais ordinárias já pioraram a qualidade de nossa democracia.

A história escondida das mulheres guerreiras apagadas dos livros

A presença das mulheres guerreiras foi apagada da história. Mas elas sempre combateram – e não apesar de serem mulheres, mas precisamente porque o eram. Como explica a historiadora Pamela D. Toler no seu novo livro Mulheres Guerreiras (Temas e Debates), há vários motivos pelos quais a presença das mulheres guerreiras foi apagada da história. Quando se excluem as mulheres guerreiras – ou as cientistas, matemáticas ou escritoras – dos registos históricos, é fácil concluir que, com poucas exceções, as mulheres nunca combateram, realizaram descobertas ou fizeram uma diferença no mundo. Se as mulheres não aparecem nos livros de História, é fácil esquecer que elas pintaram quadros no Renascimento, que foram decisivas para a descoberta da estrutura do ADN ou que calcularam trajetórias de foguetões para a NASA. Estudar as mulheres guerreiras da história é importante, porque elas fazem parte da «história oculta do mundo».

Na verdade, as mulheres sempre foram para a guerra, e algumas conseguiram, a custo, ficar nos relatos históricos. Por vezes são recordadas nos seus países de origem como heroínas nacionais, mesmo que tenham sido esquecidas pelo resto do mundo. Porém, «a grande maioria de mulheres guerreiras – de farda ou não, desejosas de combater ou movidas pelo desespero de se defenderem – foi relegada para as sombras da história, escondida em notas de rodapé ou quase apagada», afirma autora.

Aqui fica, em exclusivo para a VISÃO, um excerto do livro que conta a sua história e que chega agora às bancas.

Exceções insignificantes?


Quer a atração atual pelas heroínas da cultura pop, quer as batalhas persistentes pelo papel das mulheres-soldado nas Forças Armadas modernas partem do princípio de que as mulheres que vão para a guerra são anomalias históricas: Joana d’Arc [na imagem em cima], não G.I. Joana. Esta posição é resumida na afirmação incrivelmente imprecisa do historiador militar John Keegan de que "a guerra é […] a única atividade humana da qual as mulheres, salvo exceções muito insignificantes [o destaque é meu], estiveram sempre e em toda a parte afastadas. […] As mulheres seguiam o tambor, cuidavam dos feridos, tratavam do campo e reuniam as multidões enquanto o homem de família seguia o seu líder e até escavavam trincheiras para os homens se defenderem e trabalhavam em oficinas para lhes enviar armas. As mulheres, contudo, não combatem […] e nunca, em nenhum sentido militar, combatem contra homens".

Na verdade, as mulheres sempre foram para a guerra: combatiam para vingar as suas famílias, defender as suas casas (ou cidades ou nações), conquistar a independência relativamente a uma potência estrangeira, expandir as fronteiras do seu reino ou satisfazer a sua ambição.

Um punhado de mulheres abriu caminho à cotovelada até aos relatos históricos. Por vezes são recordadas nos seus países de origem como heroínas nacionais, mesmo que tenham sido esquecidas pelo resto do mundo. Porém, a grande maioria de mulheres guerreiras – de farda ou não, desejosas de combater ou movidas pelo desespero de se defenderem – foi relegada para as sombras da história, escondida em notas de rodapé ou quase apagada. Algumas desapareceram, porque se disfarçavam de homens para poderem combater, surgindo como mulheres nos registos só se os seus disfarces caíam por terra. Algumas foram mandadas para fora de cena: a minha história preferida é a do historiador que afirmou que uma mulher que combateu no cerco francês a Saragoça, em 1808, não contava como combatente, porque a sua vida estava em perigo e ela estava a defender-se. Outras que combateram no passado longínquo são subvalorizadas como lendas, mitos, folclore, exageros ou simplesmente mentiras descaradas, com a justificação de que os relatos dos seus atos ou da sua existência são escassos – uma indignidade à qual os seus congéneres masculinos são menos propensos. Algumas mulheres guerreiras são deliberadamente excluídas da história. Após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o governo soviético deu instruções explícitas aos seus esquadrões de mulheres pilotos de caças altamente condecoradas para não falarem sobre as suas experiências no tempo da guerra. Até a história de mulheres-soldado modernas começou a ficar turva. Quando eu dizia às pessoas que estava a escrever sobre mulheres guerreiras, quase todas ficavam atónitas ao saberem que mulheres norte-americanas participaram oficialmente em unidades de combate aéreas e navais nos últimos vinte anos.

Algumas mulheres guerreiras são deliberadamente excluídas da história. Após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o governo soviético deu instruções explícitas aos seus esquadrões de mulheres pilotos de caças altamente condecoradas para não falarem sobre as suas experiências no tempo da guerra

De certa forma, o desaparecimento das mulheres guerreiras faz parte da nossa tendência mais alargada de escrever a história no masculino. A tendência é explícita no mundo da história militar. Salienta o historiador militar David Hay: "A presunção de que a guerra é algo essencialmente masculino – seja a apoteose da masculinidade ou a encarnação do patriarcado – baniu o estudo das combatentes femininas para o purgatório académico." Porém, os contributos das mulheres na ciência, na literatura, na política e na economia também são frequentemente minimizados, ignorados ou esquecidos. Pesquise praticamente qualquer tema e encontrará outro exemplo, seja o papel crítico da classicista Alice Kober na decifração da escrita Linear B ou a existência de brigadas de bombeiros voluntários totalmente femininas no início do século XX. Rachel Swaby descreve a escrita sobre estes contributos esquecidos como "reveladora de uma história escondida do mundo".

No caso das mulheres guerreiras, a tendência para apagar os papéis das mulheres na história é complicada pela questão contestada de se as mulheres devem ou não combater. Muitas pessoas que aplaudem as altamente sexualizadas mulheres guerreiras da cultura popular sentem-se menos confortáveis quando confrontadas com imagens reais de mulheres camufladas com cabeças rapadas na recruta ou na escola de Rangers. Na verdade, esse contraste chega a muito do desconforto social multicultural e de longa data com as mulheres guerreiras – o medo de que as mulheres que escolhem combater percam a sua feminilidade ou, pelo contrário, que a sua presença "feminilize" o exército, tornando-o assim menos eficaz, menos agressivo, menos sério ou simplesmente menos. É uma discussão antiga: quando Platão argumentou que as mulheres deveriam ter o mesmo treino que os homens e ser usadas nas mesmas tarefas, incluindo o treino para a guerra, avisou: "Não devemos ter medo das piadas do género que os espertos irão fazer sobre tal mudança na cultura física e artística, muito menos sobre as mulheres que pegam em armas e montam cavalos."

Se analisarmos atentamente as discussões sobre se as mulheres deveriam poder participar em combates nas Forças Armadas norte-americanas, torna-se evidente que quem está em lados opostos da discussão nem sequer coloca as mesmas questões, o que acontece há muito tempo. Após a Segunda Guerra Mundial, quando o Congresso ponderou sobre permitir ou não que as mulheres fossem membros regulares permanentes das Forças Armadas, defensores do Women’s Armed Services Integration Act, entre os quais o general Dwight D. Eisenhower e o almirante Chester W. Nimitz, argumentaram com o valor de usar mulheres em funções "tradicionalmente femininas" e com a potencial necessidade de uma mobilização rápida em consequência das tensões da Guerra Fria. Críticos da legislação levantaram questões sobre o impacto de "insuficiências" biológicas femininas na eficiência das Forças Armadas, na masculinização das mulheres-soldado e no regresso a uma cultura típica do tempo de paz da domesticidade feminina.Imagem da Marselha desenhada por Gustave Doré no séc XIX, com a tradicional representação feminina da República em armas

Hoje, quem defende que as mulheres deveriam poder assumir funções em combates diretos argumenta em termos de direitos iguais e da natureza do combate na guerra moderna, bem como daquilo que define um combatente, um não combatente e a frente. Por outro lado, os argumentos que defendem que as mulheres não devem ir para a guerra estão profundamente enraizados em ideias sobre o que significa ser mulher e sobre o que significa ser homem. Tais argumentos estendem-se desde ideias culturais e tabus em torno da família, da maternidade, da gravidez e da menstruação até questões banais sobre dispor de instalações físicas para as mulheres-soldado. Os opositores à ideia das mulheres em combate exprimem medos de que uma mulher-soldado engravide para evitar ser mobilizada, referindo que a gravidez é a única incapacidade temporária que um membro das Forças Armadas pode infligir a si próprio sem ser penalizado. Perguntam como irão as mulheres-soldado usar a latrina numa zona de combate. Argumentam que as mulheres não são aptas, ao nível emocional, para combater, porque são naturalmente mais cuidadoras do que os homens, e, por outro lado, dado que os homens são programa- dos para proteger as mulheres, a presença destas no campo de batalha distrairá os seus camaradas das suas funções. Consideram que as mulheres não têm força física nem resistência para a função, quer esta implique usar uma armadura de placas de metal medieval ou os coletes à prova de bala atuais, mantendo uma marcha forçada, carregando uma metralhadora de vinte e três quilos até às batalhas, ou salvando um camarada atingido.

"os argumentos que defendem que as mulheres não devem ir para a guerra estão profundamente enraizados em ideias sobre o que significa ser mulher e sobre o que significa ser homem. Tais argumentos estendem-se desde ideias culturais e tabus em torno da família, da maternidade, da gravidez e da menstruação até questões banais sobre dispor de instalações físicas para as mulheres-soldado
Muitos destes argumentos são familiares a estudantes da história das mulheres. Por diversas vezes, defensores do statu quo usaram preocupações semelhantes para argumentar contra educar mulheres, contratar mulheres ou promover mulheres. Na década de 1860, médicos do departamento de saúde do exército norte-americano usaram as mesmas ideias gerais contra a utilização de enfermeiras na Guerra Civil. Na década de 1980, a polícia e os bombeiros apresentaram justificações semelhantes para não integrarem mulheres agentes da polícia em patrulhas e para não contratarem bombeiras e técnicas de emergência médica.

A força e a continuidade desses argumentos apontam para uma sensação de desconforto social que ultrapassa os argumentos específicos apresentados por opositores às mulheres em combate, aquilo que Elaine Donnelly, fundadora do Center for Military Readiness, descreve como "dissonância cultural", relacionada com a ideia de mulheres nas Forças Armadas. Durante a maior parte da história humana, as imagens dominantes da guerra, e consequentemente da paz, foram baseadas no género. A guerra é considerada uma coisa de homens, posição ilustrada pela ativista e poetisa Grace Paley:

Devo dizer que a guerra é feita por homens. É uma coisa deles, é o mundo deles, e eles são terrivelmente lesados por ela. Sofrem terrivelmente nela, mas ela é feita por homens. Como chegam ao ponto de viver desta maneira? Eu demorei anos a perceber. Porque quando era pequena, era um rapaz, como muitas meninas que gostam de conhecer coisas e que querem estar onde existe ação, que é num canto qualquer onde param os rapazes. E eu percebi isto muito bem, porque era o que realmente me interessava. Estava ansiosa por continuar a ser um rapaz para poder ir para a guerra e fazer todas as outras coisas excitantes de rapazes.

Se os homens são vistos como guerreiros, as mulheres são não guerreiros.

Na sua aceção mais positiva, o papel de «não guerreiro» é enquadrado em termos de maternidade, potencial e factual. As mulheres são consideradas um recurso demasiado precioso para se colocar em perigo, como expôs o correspondente de guerra norte-americano William G. Shepherd num artigo sobre os batalhões russos de mulheres-soldado na edição de março de 1918 da Delineator. "As mulheres têm algo que os homens não têm", explicou ele através do seu intérprete à jovem mulher-soldado que estava a entrevistar.

"Elas têm a maternidade potencial, e, se matarmos isso, matamos a raça inteira." Ao mesmo tempo, as mulheres são vistas como pacifistas natas, precisamente porque são mães (posição que é historicamente dúbia). No debate moderno, a ideia da mãe como não guerreira é muitas vezes disfarçada em termos aparentemente práticos: o que acontece aos filhos quando uma mãe é mobilizada? Pior, o que acontece aos filhos se ambos os pais forem mobilizados? O serviço de elevados números de mulheres jovens nas Forças Armadas teria um efeito adverso na taxa de natalidade de um país? Ideias deste género levam à conclusão de que, mesmo que as mulheres sejam capazes de combater, permitir-lhes que o façam poderá não ser do interesse geral da sociedade.

A imagem das mulheres como não guerreiras não implica que as mulheres não se envolvam na guerra. A alegação de Keegan de que as mulheres não combatem está envolta numa lista de modos em que as mulheres estiveram envolvidas na guerra: "As mulheres seguiam o tambor, cuidavam dos feridos, tratavam do campo e reuniam as multidões enquanto o homem de família seguia o seu líder e até escavavam trincheiras para os homens se defenderem e trabalhavam em oficinas para lhes enviar armas." O historiador e teórico militar Martin van Creveld defendeu a mesma tese em termos mais sombrios quando descreveu os papéis não guerreiros que "as mulheres desempenharam na guerra, nomeadamente como suas causas, objetos e vítimas".

Van Creveld deixa explícita a ideia subjacente àquilo que eu entendo como o "argumento saco para cadáveres": os opositores à ideia de as mulheres combaterem invocam muitas vezes a imagem de uma mãe ou de uma filha a chegar a casa num saco para cadáveres, como se esse fosse um argumento contra a utilização de mulheres nos combates por mérito próprio e como se a morte de uma mãe em combate fosse inerentemente mais horrível do que a morte de um pai. Do outro lado da barricada, a historiadora Linda Grant De Pauw sugere que o problema não é o facto de ser uma mulher dentro do saco para cadáveres: "O horror de mulheres em sacos para cadáveres não é o horror de uma mulher morta. É o facto de a mulher ter sido uma guerreira, de que não é uma vítima. A cultura americana não quer aceitar que as mulheres podem ser ao mesmo tempo guerreiras e mães. […] Aceitar as mulheres como guerreiras significa desafiar o patriarcado ao seu nível mais fundamental."

Visão

Mundo

Na cidade de Ouro Preto há um monumento que eu não direi bonito – não, não é bonito: uma coluna fina e alta e, no cimo da coluna, uma estátua que não parece proporcionada ao pedestal. Mas ao pé desse monumento medíocre há uma inscrição, tão nua e tão sóbria, que nos dá três voltas no coração e vale sozinha por uma dúzia de monumentos. A estátua é do Tiradentes e na inscrição lê-se apenas isto: “Aqui, em poste de ignomínia, foi exposta a sua cabeça”. Sim, ali. Naquele mesmo lugar, no mês de abril de 1792, naquela praça da antiga Vila Rica, onde hoje se ergue a coluna, era a estaca de pau; e onde agora se vê a imagem em bronze do Alferes, espetava-se a sua cabeça, barbuda e descorada, terrível, curtindo ao sol.

Lembrei-me hoje dessa estátua, desse lugar, desse ominoso poste de ignomínia, lendo nos jornais um telegrama onde se conta que as autoridades portuguesas de Angola estão decapitando os rebeldes que apanham e expondo em postes as cabeças degoladas, para escarmento do insurretos. Acrescenta o despacho que tal medida visa atingir a crença supersticiosa dos negros, segundo a qual um corpo sem cabeça não poderá ter descanso depois da morte.

Para que comentar a notícia? Creio que basta repeti-la em todo o seu medieval horror. Breve se completarão 170 anos que os ministros da senhora dona Maria I mataram, esquartejaram, degolaram Tiradentes, expondo-lhe os pedaços do corpo mutilado ao longo da estrada que vai do Rio a Minas, e espetando a cabeça do herói no orgulhoso coração da rebelde Vila Rica. Mas depois disso houve a Revolução Francesa. Houve Napoleão e suas guerras. A ascensão e a queda do Império britânico. A formação e a liquidação do Império prussiano. A Primeira Grande Guerra. A Revolução Russa. O fascismo. O nazismo. A guerra civil na Espanha. A Segunda Guerra Mundial. A bomba atômica. Os mapas da Europa, da Ásia, da África inteiramente subvertidos e renovados. A impressionante insurreição dos povos de cor do mundo inteiro – o que talvez seja a feição principal a marcar este nosso século perante a história.

Entretanto, ao longo disso tudo, parece que a política colonial portuguesa não aprendeu nada; ainda não saiu do reinado de dona Maria I. Rebeldes? É degolá-los e lhes expor a cabeça em praça pública, numa boa estaca, para que tomem a lição e a deem aos outros!

Ontem fui ao cinema ver o excelente documentário que, sob o título de "Mein kampf", recapitula a mocidade, a ascensão e o triunfo de Adolf Hitler. E há na fita um momento onde se faz um cálculo: só por causa daquele homem, entre guerra e "pogroms", morreram mais de 22 milhões de seres humanos.

Dantes, quando eu era jovem, o espetáculo da ferocidade bestial do nazismo, além de me despertar a justa cólera que brada aos céus e pede satisfações a Deus por permitir semelhante horror sob Seus olhos, deixava-me a consoladora convicção de que, em verdade, o sangue derramado dos mártires é a sementeira dos heróis e de que, só sobre alicerces de sofrimento, se constrói a felicidade das gerações futuras. Hoje, que envelheço, talvez a cólera não seja menor, nem menor o apavorado testemunho. Apenas me vai faltando a fé na veracidade daqueles slogans. Já não confio muito na sementeira de heróis, na colheita de liberdades e compensações como herança do sangue dos mártires. Antes me dá um dó terrível, justamente pelos mártires, coitadinhos, pelo seu sacrifício, pelos seus sofrimentos – tão fúteis, Deus que me perdoe, tão perdidos! E por que só pagarem aqueles, justamente aqueles?

Homens que viveram pelo ferro e pelo fogo, morram pelo ferro e pelo fogo, como Trujillo, como Mussolini, como Hitler, e como deveriam ainda morrer alguns. Mas, por que também os inocentes, os que não tinham nada com Hitler nem com os negócios de guerra, os que não disputam o petróleo nem o espaço vital, os que não inventam bombas nem projéteis teleguiados. Os meninos judeus de cara escaveirada e olhos arregalados diante das câmaras de morte; aquela velha avópisoteada na rua, chorando e morrendo; o homem de sobretudo esfarrapado que tenta segurar com as mãos nuas a metralhadora do guarda SS.

E quem marcou, entre os negros rebeldes de Angola, os que teriam a sua cabeça cortada, espetada num poste? E, acima de tudo, quem será o cristão batizado que degola homens e os priva de sua esperança de salvação, só para sustentar alguns meses mais o poder nas mãos trêmulas de um velho? E por falar nesse velho – o que me surpreende é ele, que reza e bate nos peitos, não ter medo desse sangue negro que derrama assim na África, friamente, calculadamente, hitlerianamente. Ele há de dizer que desde que o mundo é mundo Portugal guerreia em terras d´África. Será. Mas com uma diferença: antes, com dom Sebastião, com todos os mais, Portugal lutava em África, matando e morrendo. Morrendo! Agora apenas mata, e de longe, em segurança. Dantes era guerreiro; hoje está apenas querendo ser carrasco.

Pensamento do Dia


Escritores contagiosos

Leio que, na Itália, a epidemia de coronavírus tem levado milhares de leitores às livrarias para comprar “A peste”, de Albert Camus. Também o “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, voltou a frequentar as tabelas dos livros mais vendidos, 25 anos após ser lançado em Lisboa.

Aconteceu algo semelhante no Japão, em 2011, logo a seguir ao acidente nuclear de Fukushima. Nos meses seguintes, os leitores japoneses redescobriram “A peste”. Outro livro que costuma ter grande procura durante crises como a atual é “1984”, de George Orwell. Não por acaso, a forma como o mundo vem reagindo à epidemia de coronavírus configura uma mistura entre “1984”, romance sobre um déspota que recorre às tecnologias mais sofisticadas para vigiar os seus cidadãos, e o livro do escritor franco-argelino, o qual, a partir do drama de uma pequena cidade argelina, Oran, tomada pela peste bubônica, reflete sobre alguns dos aspectos mais sombrios da natureza humana.
'Posso finalmente ler e trabalhar sem que ninguém me incomode. Quando aparece alguém, eu apenas tusso'
Não sei se os aflitos encontram real conforto nos títulos acima. Se algum incauto me contratasse como terapeuta literário aconselharia antes “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, um livro fabuloso, no qual o amor pode não conseguir vencer a epidemia, mas pelo menos permite aos amantes permanecer numa quarentena infinita. Ou seja: se forem forçados a ficar de quarentena, pelo menos escolham bem a companhia.

O coronavírus, portanto, tem o seu lado positivo. Até vários lados. Com as fábricas encerradas, o ar tornou-se mais respirável em vastas zonas da China, diminuindo o número de pessoas afetadas por doenças respiratórias.

Em Portugal, a epidemia tornou-se quase sinônimo de literatura, dando um sentido literal à expressão “escritor contagioso”, no momento em que um romancista chileno, Luís Sepúlveda, foi diagnosticado com a doença. Dois dias antes de ser hospitalizado, na cidade espanhola de Gijon, onde vive, Sepúlveda estivera num famoso festival literário, o Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. A notícia provocou forte alvoroço nos meios literários. Escritores que haviam confraternizado na Póvoa com Luís Sepúlveda optaram por se isolar em casa. O romancista caboverdiano Germano Almeida, muitas vezes referenciado como o maior dos autores de língua portuguesa, foi internado num hospital da cidade do Mindelo, em Cabo Verde, logo depois que o seu avião aterrou. Temia-se que o escritor — um gigante afável, com mais de dois metros de altura —, pudesse, ao espirrar, destruir o arquipélago.

O meu editor português, Francisco José Viegas, conseguiu a proeza de ter estado na Póvoa do Varzim, na China e no norte de Itália nas últimas três semanas. Também ele está em prisão domiciliar, pondo a leitura em dia. No momento em que escrevo esta coluna, quinta-feira, Luís Sepúlveda permanece hospitalizado (faço votos para que se recupere logo). Germano Almeida, felizmente, já está em casa. Os restantes escritores, entre os quais José Luís Peixoto, João Tordo e tantos outros, aproveitam para ler e escrever. “Foi a melhor coisa que me aconteceu”, confessou-me um deles: “Posso finalmente ler e trabalhar sem que ninguém me incomode. Quando aparece alguém, eu apenas tusso.”

Testemunho obstinado

Quem responderia neste momento à terrível obstinação do crime, senão a obstinação do testemunho?
Albert Camus

'Isso aí acabou

Foi assim que o ministro Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da presidência da República, tranquilizou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em relação ao temor de alguns deputados de que estariam sendo monitorados pelo governo.

No início do governo Bolsonaro, quando a relação com o Congresso estava em momento crítico, deputados procuraram o presidente da Câmara com uma apreensão: acreditavam que estavam sendo gravados.

Os relatos não foram conjuntos, mas individuais, em diversas circunstâncias, uns consideravam que seus telefonemas estavam sendo grampeados, outros “sentiam” que estavam sendo gravados em suas conversas no Palácio do Planalto.

Eram mais percepções e temores do que fatos concretos que motivassem uma reclamação formal do presidente da Câmara. Até que um deputado com patente militar, ligado à comunidade de tecnologia de segurança de informação, disse a Maia que tinha certeza de que fora grampeado, e deu detalhes técnicos sobre o que poderia ter acontecido ao seu celular Android.

Segundo relatos de deputados, o presidente da Câmara aproveitou uma conversa com o General Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) para abordar o tema delicado. Revelou a preocupação de diversos deputados, e recebeu a resposta tranquilizadora, que foi repassada aos deputados queixosos. O assunto morreu.

A revelação do ex-ministro Gustavo Bebianno de que o filho 02 Carlos Bolsonaro pensara em montar um esquema não oficial paralelo de monitoramento de políticos e jornalistas trouxe o assunto de volta ao noticiário e gerou desdobramentos.

Ontem, a revista Crusoé publicou em sua capa um amplo material sobre o tema, detalhando como o esquema teria sido montado. Não há dúvida de que o atual diretor da Agência Brasileira de Informações (ABIN), delegado Alexandre Ramagem foi quem inicialmente discutiu com Carlos e mais três agentes da Polícia Federal a estruturação de uma equipe que seria responsável por essa atividade. Mas não é possível afirmar, (apenas intuir), que ele sabia que o trabalho seria clandestino, embora patrocinado pelo novo grupo que ocupava o Palácio do Planalto.

Há o antecedente histórico do ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, político paranoico que procurou se proteger gravando clandestinamente as conversas no Salão Oval e grampeando seus “inimigos”.

Também objetivava impedir que vazamentos de documentos oficiais voltassem a acontecer como no caso dos Pentagon Papers, que revelou atuação ilegal do Departamento de Estado na Guerra do Vietnã. Essa equipe clandestina era conhecida como “plumbers” (bombeiros), e foi descoberta a partir da prisão de um grupo que invadiu a sede do Partido Democrata no prédio Watergate em Washington. A descoberta dos esquemas clandestinos levou à renúncia de Nixon ante a possibilidade de sofrer um impeachment.

O que é certo é que o General Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro, conversou com o General Heleno sobre o assunto, e também Gustavo Bebianno, o primeiro a revelar formalmente essa tentativa do filho do presidente de montar um serviço de segurança paralelo ao já disponível pela presidência da República.

Houve o aconselhamento ao presidente da República, por parte dos dois ex-ministros, de que seria uma temeridade acobertar tal tipo de atividade, que poderia motivar um impeachment.

O ministro Augusto Heleno mais uma vez ontem negou a veracidade da tentativa de criar-se uma “ABIN paralela”. Mas não se referiu em nenhum momento ao filho do presidente, talvez indiretamente citado na definição de “devaneio de amadores”, como classificou a informação.

De fato, é tecnicamente equivocado chamar-se de “ABIN paralela” uma equipe clandestina de rastreamento de pessoas em posições “sensíveis”, embora seja jornalisticamente oportuno.

Mas as indicações são claras de que esse movimento foi feito. Se o esquema chegou a ser implementado a ponto de os deputados “sentirem” sua presença nas conversas políticas, é um tema para ser investigado mais a fundo.

Pode ser até mesmo que não tenha nem sido instalado, diante das advertências aos “amadores”. Ou, o que seria uma tragédia institucional, pode ser que tal esquema continue em plena vigência. Só uma investigação independente poderá esclarecer a situação.

Questões emergentes de nossa democracia

A democracia representativa está em crise. Este é um tema recorrente. Para amparar a tese, ora recorre-se aos mecanismos tradicionais da política, deteriorados desde a Queda do Muro de Berlim; ora se pinça a lição de Norberto Bobbio, que lembra as promessas não cumpridas pela democracia.

Na primeira leva, temos a derrocada das ferramentas clássicas da política: crise das ideologias, pasteurização dos partidos, declínio dos Parlamentos, arrefecimento das oposições, desmotivação dos eleitores, exacerbação do presidencialismo de cooptação, entre outras. Em contraponto, surgem novos polos de poder, como as entidades de intermediação social.


Já na vertente de Bobbio, narram-se as falhas dos sistemas democráticos, que prometeram eliminar o poder invisível e o império das oligarquias; proporcionar transparência e expandir os valores da cidadania pela educação. Em “O Futuro da Democracia”, Bobbio descreve o cenário do amanhã.

Evidente que, a cada ciclo, acrescentam-se novos ingredientes. Por isso, quando se planeja hoje algum evento sob a chancela de “crise”, deve-se entender que as pautas tratarão de questões emergentes, pontuais e agravadas pela cultura política de cada país.

Exemplos são: a politização das Forças Armadas e a “milicialização” das Polícias Militares. Líderes desses dois contingentes poderão dizer que “não ocorre isso”, é um exagero de jornalistas, políticos e analistas. Mas a quadra atual sugere que essas temáticas não sejam escondidas.

A politização das Forças Armadas tem como eixo-mor o círculo de generais em volta do presidente da República. Duas visões sobre o tema: uma, dos próprios participantes da roda, nega tal incursão na política. A menos que seus integrantes o façam pela via partidária, como na eleição de 2018. Outra ala defende militares da ativa fora da política, seguindo a ordem constitucional. O comandante do Exército, Edson Pujol, seria o avalista dessa linha.

Militar reformado assume o papel de civil, como devem ser considerados os generais aposentados do “núcleo duro”. Mas o fato é que, de pijama ou sem, o número de generais no Executivo chama a atenção ao encarnar fortaleza em defesa do presidente. Isso atemoriza parcela da sociedade.

Na “milicialização” das PMs, a inferência negativa é até maior, a partir da leitura do episódio do Ceará. Houve ali um “motim”? Policial pode fazer greve? Por indução, entende-se que os “amotinados” poderiam se multiplicar país afora. O termo “milícia” é empregado para designar bandidagem, relacionando quadrilhas no Rio (e figuras ligadas à família Bolsonaro) com quadros policiais nos Estados. Lembre-se de que a vida política de Bolsonaro começou com a defesa de aumento de soldos para as Forças Armadas.

Os dois temas estão incorporados na política e na polarização que envolve o país. A discussão se justifica, até para afastar dúvidas sobre suas intenções.

O Instituto Brasil Mais Plural, formado por cientistas políticos, jornalistas, juristas e advogados, economistas, pessoas de denso pensamento, prepara para maio, em parceria com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), um seminário em São Paulo sobre esses fenômenos que ameaçam nossa democracia. É hora de debatê-los à luz do bom senso.

Apelo às ruas é mais um sinal de desespero de um presidente isolado

O que causa espanto não é Jair Bolsonaro remeter um vídeo para seus seguidores endossando a manifestação de rua contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal convocada por seus devotos para o próximo dia 15 – e depois negar que o tenho feito. Nem aproveitar, agora, uma viagem de fim de semana a Roraima para incentivar o povo a participar da manifestação que será, segundo ele, muito bem-vinda, porque é “o povo quem diz para onde o Brasil deve ir”. Nada disso espanta.

Espanta é a reação dos que ainda acreditam ou dizem acreditar que Bolsonaro tem compromissos, sim, com a manutenção da democracia entre nós e que em momento algum tenta enfraquecê-la. Ou são ingênuos, ou cegos ou coniventes com ele. É direito do povo ou de parcelas dele ir às ruas pacificamente defender o que quiser, até mesmo uma ditadura como parte faz, e Bolsonaro nunca condenou, antes pelo contrário. Mas o presidente não tem o direito de jogar o povo contra os demais Poderes.

Foi o general Augusto Heleno, ministro do esvaziado Gabinete de Segurança Institucional, quem sugeriu a Bolsonaro chamar os bolsonaristas de raiz e os de ocasião para pressionar o Congresso a rever o acordo sobre o chamado Orçamento Impositivo da União. O acordo havia sido firmado, de um lado, pelos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, por outro, pelos ministros Paulo Guedes, da Economia, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Bolsonaro e Heleno estavam informados a respeito. Mesmo assim o acordo acabou revisto por um Congresso com medo de ser enxovalhado nas ruas. Um novo acordo foi fechado nesta semana e começou a ser votado. Isso não impediu que Bolsonaro, outra vez, mentisse ao afirmar que não fez acordo.

O apelo dele ao apoio das ruas tem menos a ver com verbas do Orçamento e mais com a situação difícil que o país atravessa, e também o governo. A economia patina. O coronavírus chegou. Por sua culpa ou escolha, Bolsonaro está cada vez mais isolado. E aí... Aí tenta distrair a atenção dos brasileiros dos problemas que de fato importam. Quanto mais confusão, melhor para ele. Chama o palhaço fantasiado de presidente para explicar o pibinho. Culpa a imprensa por tudo, rompe relações com ela, para depois reatar. Cerca-se de generais. Nomeia uma artista de televisão, antiga namoradinha do Brasil, com a missão de pacificar as relações do governo com a classe artística. Promete que ela terá carta branca para governar e depois diz que não será bem assim.

Onde está Queiroz? Quem matou Marielle Franco? Por que barrar a investigação do esquema da rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro? O que guardam na memória os celulares do miliciano Adriano Lopes caçado e morto na Bahia?

É jogo jogado que Bolsonaro será sempre Bolsonaro, o mal militar como disse o ex-presidente Ernesto Geisel, o presidente mau como se revela. Resta impedi-lo de destruir “tudo o que está aí” para depois construir o país dos seus sonhos. Ou dos seus pesadelos.