sábado, 2 de novembro de 2019

Brasil finado


Notícias do sanatório

A desordem e o retrocesso tomam conta do Sanatório. Como disse Chesterton, há quase sempre método na loucura. Ou deveria haver. Mas em nosso Sanatório, a loucura tomou conta e jogou pelas janelas o método e a ordem e adotou como parâmetro o retrocesso.

Começa que ninguém fala a mesma língua, a oficial da Nova Política. Chama-se Bolsonarês, é de difícil compreensão e nunca diz exatamente aquilo que parece estar dizendo.

Dou como exemplo Eduardo Bolsonaro que disse em entrevista à Leda Nagle que caso houvesse manifestações esquerdistas aqui no Brasil, como as que acontecem no Chile, ele sugeria que se editasse a volta do AI5. Disse isso com a cara limpa, em alto e bom tom. Falou em puro Bolsonarês. Afrontou a Constituição que jurou defender ao tomar posse como deputado federal por São Paulo.


A reação veio com a velocidade da luz. O pai do deputado, ao sentir que o filho lhe dera uma grave rasteira, fez ver ao garoto o crime que estava cometendo e esse, habituado ao vezo do “falou, mas não foi isso que quis dizer”, já deu outra declaração, dizendo que interpretaram mal o que ele quis dizer, afirmando que não tem nenhuma proposta para a volta do AI5. Ou seja, como bom aluno da língua oficial, o que ele disse não foi bem o que ouvimos, foi aquilo que ele queria que ouvíssemos.

Assim como o capitão e seus filhotes, o ministro do Meio Ambiente, também fluente em Bolsonarês, acusou num momento a ONG Greenpeace, que ele chamou de ‘greenpixe’, pelo vazamento de óleo nas praias do nosso Nordeste, mas menos de 48 horas depois desdisse o que disse e pior, desmentiu que algum dia tivesse dito o que disse! O desmentido aconteceu no programa Central Globo News no qual o que mais chamou minha atenção foi a expertise da defesa que Ricardo Salles faz de seu chefe. É justo que se diga, Salles é um bolsonarista leal e apaixonado, nunca vi nada igual.

Nesse programa, o jornalista Fernando Gabeira fez a pergunta que eu gostaria de ter feito: sobre a vontade demonstrada por Bolsonaro de transformar a Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis, em uma reles Cancún. Resposta enfática de Salles, o defensor do capitão: o presidente não disse isso, ele apenas citou Cancún como exemplo de um resort que colabora para o progresso de seu país, o México. E onde a pesca não é multada, que foi o que aconteceu com Bolsonaro em Tamoios. Pois é...

Infelizmente, o eleitor brasileiro escolheu um homem destemperado, mal-educado, agressivo, para ser presidente do Brasil por quatro anos. Vamos ter que carregar essa cruz por mais três anos, com calma e paciência, mas sempre atentos para não deixar que os filhos do capitão extrapolem. O mais interessado em controlar os garotos é o pai. Até porque cada vez que eles movem uma peça no tabuleiro, eles prejudicam seu governo e diminuem o número de seus seguidores.

Creio ser urgente a contratação de tradutores-intérpretes bolsonarês/português, juramentados, para acompanhar, quando em Brasília ou em viagens, Jair Bolsonaro e seus filhos. Assim, a desculpa favorita deixará de funcionar. Tudo que eles disserem será traduzido para o português e não poderá ser desmentido e transformado em fumaça.

Mas não quero me despedir do Leitor sem comentar dois maravilhosos artigos publicados no jornal O Globo de 31 de outubro: Ascânio Seleme comentando sobre ‘A Ira Desnecessária’ do capitão e Cora Rónai, brilhante, lembrando a semelhança entre Jair Bolsonaro, lá em Rhiad, e Bruno Ganz, o grande ator alemão interpretando Hitler em ‘A Queda’. Simplesmente genial!</p>
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Indignações engolidas rapidamente



As indignações demoram, hoje, o tempo de um fósforo - apesar da chama vigorosa, são depressa consumidas e substituídas por outras, com a mesma duração efémera. Se, em boa verdade, a maior parte das polémicas não merece mais do que esses cinco ou seis segundos de atenção, outras há que não deviam cair no esquecimento rápido e na fosso da normalização imediata, como se aquilo que antes parecia inadmissível pudesse depois, pelo cansaço da polémica, passar a ter justificação e a ser considerado normal
Rui Tavares Guedes

Mentes reacionárias

Em A Mente Naufragada, o cientista político norte-americano Mark Lilla explica que o espírito reacionário difere muito do conservador. Trata-se de invocar o passado para nele viver sem transformações, o que é muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradições como referência para agir no presente e construir o futuro. Partindo da análise das ideias de três pensadores do século XX — Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss —, Lilla investiga a mente reacionária e conclui que naufragou, porque olha para os destroços de um passado que lhe parece ameaçado, e luta para salvá-lo, porque não sabe conviver com as mudanças. Ironicamente, porém, isso faz do reacionarismo um fenômeno “moderno” no mundo da globalização e do multiculturalismo.

Lilla nos ajuda a entender a diferença entre o pensamento conservador, mesmo de viés autoritário, e o pensamento reacionário. E é um autor muito oportuno, porque explica o caráter ideológico do movimento que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, se propõe a organizar no Brasil no rastro da eleição de seu pai. O clã Bolsonaro flerta com a ideias propagadas pelo escritor Olavo de Carvalho, radicado nos Estados Unidos, guru da extrema direita brasileira. Há uma diferença, sutil mas relevante, entre a declaração de Eduardo Bolsonaro a favor da reedição do AI-5 em caso de mobilizações de protestos semelhantes às do Chile e a do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), de que seria preciso estudar a forma de fazer isso. Um defendeu a volta da ditadura pura e simples; o outro, embora igualmente autoritário, sabe que os tempos mudaram e a história só se repete como tragédia ou farsa. Diante da reação negativa, o parlamentar se retratou.


O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi um golpe de Estado dentro do golpe de 1964, que destituiu o presidente João Goulart. Foi o período de maior repressão da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978, com poder de exceção para punir arbitrariamente os adversários como inimigos de Estado. O ano de 1968 havia sido marcado por manifestações estudantis em todo mundo. Eclodiram em Paris e logo chegaram ao Brasil. O lema “é proibido proibir” tinha mais a ver com as mudanças nos costumes, mas aqui se encaixou como uma luva na luta contra o regime militar.

O ambiente era de isolamento político dos militares. A Igreja atuava em defesa dos direitos humanos e as lideranças políticas cassadas pelo regime se uniam de forma, até então, inimaginável: Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, João Goulart, com apoio do líder comunista Luís Carlos Prestes, em 1967, haviam criado a Frente Ampla, cujas atividades foram suspensas pelo ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, em abril de 1968. O ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, exigia atestado de ideologia dos dirigentes sindicais. Mesmo assim, uma greve dos metalúrgicos de Osasco sinalizava que o movimento operário se incorporaria às mobilizações de massa de estudantes, intelectuais e artistas.

O ministro do Exército, Aurélio de Lira Tavares, exigia medidas mais enérgicas contra as “ideias subversivas”. Falava em “guerra revolucionária” liderada pelos comunistas, pois parte da esquerda se preparava para a “luta armada”. A gota d’água para a promulgação do AI-5 foi o pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, na Câmara, nos dias 2 e 3 de setembro, lançando um apelo para que o povo não participasse dos desfiles militares do 7 de Setembro e para que as moças, “ardentes de liberdade”, se recusassem a sair com cadetes das escolas militares. O deputado Hermano Alves, do mesmo partido, criticara duramente o regime em artigos no antigo Correio da Manhã. Por exigência do ministro do Exército, Costa e Silva, o governo solicitou ao Congresso a cassação dos dois deputados.

No dia 12 de dezembro, a Câmara recusou, por uma diferença de 75 votos (e com a colaboração da própria Arena, partido do governo), o pedido de licença para processar Márcio Moreira Alves. No dia seguinte, foi baixado o AI-5, que autorizava o presidente da República, sem apreciação judicial, decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir em estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por 10 anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas corpus. No mesmo dia, foi decretado o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado, sendo reaberto somente em outubro de 1969, para referendar a escolha do general Emílio Garrastazu Médici para a Presidência da República.

Na sequência imediata do AI-5, foram cassados 11 deputados federais, entre eles Márcio Moreira Alves e Hermano Alves. As cassações prosseguiram em janeiro de 1969, atingindo não só parlamentares, mas até ministros do Supremo Tribunal Federal. A forte reação dos partidos políticos, inclusive o PSL, e da sociedade civil às declarações de Eduardo Bolsonaro, que foi aconselhado a se retratar pelo próprio pai, o presidente Jair Bolsonaro, têm esse lastro da história. O AI-5, nas palavras do falecido senador Ernâni do Amaral Peixoto, um político conservador, foi “a morte da política”. Nem por isso, a nostalgia de Eduardo Bolsonaro deixa de ser perigosa: um golpe militar no Brasil exigiria um banho de sangue e não teria apoio internacional. O general Augusto Heleno sabe disso.

Treinando para fugir

Na terça da semana passada, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, saiu correndo pelo Congresso, fugindo dos repórteres que queriam entrevistá-lo. Eduardo Bolsonaro acabara de se entronizar como líder do PSL na Câmara, o que, para os jornalistas, justificava uma entrevista. Sem explicação, valeu-se de seu preparo físico, arrancou em disparada e fez comer poeira os que, perplexos, tentaram segui-lo.


Na corrida em que bateu o recorde de velocidade nos três anexos da Câmara, Eduardo Bolsonaro abalroou vários incautos que cometeram o erro de estar no seu caminho e voou por uma escada rolante, saltando de cinco em cinco degraus. Seu segurança, tentando acompanhá-lo, deixou cair o celular e, na obrigação de recuperar o aparelho, ficou vários focinhos atrás do patrão. E o pobre cinegrafista do Congresso em Foco tinha não só de correr além de suas forças como tentar manter a câmera minimamente sem tremer — o que, claro, não conseguiu. O vídeo, disponível na internet, lembra os filmes do antigo Cinema Novo.

Por que Eduardo Bolsonaro saiu correndo se ninguém ali o ameaçava, exceto talvez com perguntas? Uma hipótese seria a de um súbito e urgente compromisso no banheiro. Mas, então, por que escolher um banheiro tão longe? Ou talvez só não quisesse dar entrevista — direito que não lhe assiste. Pois surge agora outra hipótese: já prevendo o momento em que ameaçaria o país com um novo Ato Institucional nº 5 — e desconfiando que talvez não ficasse impune por tal afronta—, Eduardo Bolsonaro já começou a treinar para a eventualidade de, um dia, ter de fugir às pressas.

O Congresso, as Forças Armadas e o povo brasileiro sabem muito bem o que lhes custou o AI-5. Eduardo Bolsonaro parece não saber.

Mas, se o seu AI-5 não vier e a Constituição continuar em vigência, ele talvez não seja mais deputado federal.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Autocombustão dos Bolsonaro atrapalha Guedes

Houve um tempo em que se sabia o nome das principais lideranças políticas. Quando os políticos começaram a ir para a cadeia, foi necessário aprender a composição do Supremo Tribunal Federal, tendo o cuidado de distinguir as togas que prendem daquelas que abrem as celas. Agora, exige-se do brasileiro que aprenda os nomes dos filhos do presidente da República. Há o Carlos das brigas nas redes sociais; o Flávio da rachadinha e das conexões milicianas de Fabrício Queiroz; e o Eduardo, que não conseguiu virar embaixador e continua expondo ao país seu nanismo intelectual —agora materializado na defesa da volta do AI-5.


Jair Bolsonaro tomou posse em 1º de janeiro. A partir do dia 2, deveria oferecer paz, probidade e empregos. Com o auxílio dos filhos, entrega atritos, suspeições e um tipo de déficit muito mais grave do que a ruína fiscal —um déficit localizado entre as orelhas dos membros da dinastia Bolsonaro. Só a falta de miolos explica a defesa que Eduardo Bolsonaro fez da adoção do AI-5 como remédio contra uma hipotética radicalização de esquerda, capaz de levar às ruas do Brasil uma revolta semelhante à que eletrifica a democracia chilena.

O presidente desautorizou o filho. Mas todos sabem que ele pensa a mesma coisa. O AI-5 não será reeditado porque a democracia brasileira pode eleger os Bolsonaro, mas não os autoriza a brincar de ditadores.

A plataforma reformista do ministro Paulo Guedes enfrenta muitas dificuldades. Mas nenhuma se equipara ao processo de autocombustão da família Bolsonaro. É como se o presidente e seus filhos se dedicassem à implantação de um projeto secreto de extermínio da oposição por meio da autossabotagem. Aos pouquinhos vai ficando claro para o país que o clã Bolsonaro não é conservador. A primeira-família é apenas arcaica. Bolsonaro e os filhos não desejam levar o país para a direita. Eles ambicionam a marcha à ré.

Pensamento do Dia


É repulsivo ouvir um deputado falar de um repugnante AI-5

O deputado Eduardo Bolsonaro escancarou uma limitação política e intelectual ao expor a repulsiva visão do que é democracia para quem carrega seu sobrenome. Ao sugerir um novo AI-5, o ato institucional que fechou o Congresso em 1968 no Brasil e que abriu as portas do inferno no país, o deputado mostrou o quão arrogante e mimado é para ocupar um cargo de deputado. Em sua tresloucada entrevista para a jornalista Leda Nagle, mostrou não só que o Brasil corre perigo com ele em qualquer cargo, como também que a sua irresponsabilidade em lançar suspeitas calcadas na ignorância é infinita. Sugeriu, por exemplo, que o BNDES dos tempos do PT financiou, indiretamente, os protestos de outubro no Chile, através de manifestantes radicais, no estilo blackblocs. “Para fazer isso tudo você precisa de dinheiro. De onde vem esse dinheiro? Nós desconfiamos que esse dinheiro vem muito por conta do BNDES, que no tempo de Dilma e Lula, faziam obras superfaturadas no porto de Mariel, em Cuba, ou contrato de Mais Médicos que rendia mais de 1 bilhão reais para a ditadura cubana. Por que não achar que esses dinheiro vai se voltar para cá para se fazer essas revoluções?”.

Mais ainda, sugere que a esquerda pode chegar ao ponto de sequestrar aeronaves, e autoridades, como nos anos 60, para culminar na sua brilhante ideia de que isso vai suscitar um AI-5. “Alguma resposta vai ter de ser dada”. Deputado, filho do presidente da República, entrelinhas, revela que precisaria recorrer a um ato autoritário porque seu pai não teria competência para lidar com uma possível insatisfação social.


Na entrevista, Eduardo, se mostra chocado porque seu pai é cobrado pelo que qualquer presidente da República seria: os problemas urgentes para a sociedade, como os incêndios que tomaram a Amazônia ou o derramamento de óleo nas praias do Nordeste. O mundo para ele, porém, vive nas enquetes de redes sociais, que oferecem a profundidade de um espelho d’água. Sua cegueira e deslumbramento com o cargo de filho de um presidente não o fazem admitir o gene da auto-sabotagem que herdou do seu pai. Ambos já implodiram boa parte do capital político que lhes foi favorável nas eleições de 2018.

O jornalista José Roberto de Toledo, da revista Piauí, publicou uma análise, a partir de dados de uma pesquisa do instituto Ibope, que mostra um eleitorado arredio ao PSL, maior que ao PT. A rejeição é de 50% ao partido que acolhe hoje o presidente Bolsonaro contra 43% da legenda de Lula. Ainda que tente se descolar do partido depois das desavenças com o presidente Luciano Bivar, Bolsonaro não pode negar seu poder de Midas ao revés. Queima pontes e aliados com a mesma velocidade que subiu na preferência do eleitorado, quando surfava no antipetismo. “A impressão é que fazer aliança com Bolsonaro, em regra, é um mau negócio”, analisa Toledo.

O deputado Eduardo parece seguir a mesma linha. Acredita que melhor é investir na gestão do medo para conquistar e manter a confiança de um eleitorado, sem entender que é exatamente ao contrário. Parece que não entendeu que os heróis da Internet nascem com a mesma velocidade que morrem porque, apesar de expressarem uma imagem holográfica portentosa, são confrontados com os desafios da realidade. E as pessoas buscam pessoas humanas, que tenham empatia com suas dores e ansiedades. A frase do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi direto ao ponto. “Manifestações como a do senhor Eduardo Bolsonaro são repugnantes, do ponto de vista democrático, e têm de ser repelidas como toda a indignação possível pelas instituições brasileiras”. Maia, filho de um exilado político, torturado durante a ditadura que a família Bolsonaro exalta.

É repulsivo ouvir de um deputado que comanda a Comissão de Relações Exteriores tamanho disparate sobre as manifestações do Chile, querendo tergiversar o que está colocando o presidente Sebastián Piñera contra as cordas. Reduz os problemas do país a blackblocs supostamente financiados pela esquerda, fingindo que o modelo econômico do Chile – tomado como exemplo por ele em mais de uma ocasião – não colapsou. É chamar dois terços dos chilenos de ignorantes manipuláveis.

A fala do deputado vem, ainda, num momento emblemático. Justamente na semana em que se descobre que sua família já estava a par de que o nome do presidente seria envolvido, ainda que indiretamente, na investigação sobre a execução de Marielle Franco. Seja por má fé de seus adversários ou dos que conduzem a investigação, a família Bolsonaro sabia que uma bomba estava prestes a estourar sobre ele. E a reação às pressões do cargo é a de incendiar a própria democracia. Próprio dos pobres de espírito, dos covardes que se justificam com frases como “fui mal interpretado”, ou dos que compensam sua inconsistência com arroubos autoritários. Eduardo Bolsonaro deveria encarar este como um dos pontos mais baixos do seu mandato. Mas é impossível esperar o amadurecimento de quem se alimenta de memórias brutais que envergonham o Brasil. Ao contrário, flerta com a reedição de tempos de barbárie, para se sentir relevante. Nada mais revelador.

Qual a 'culpa' ?



O porteiro é aquele que menos tem culpa nesse novo crime
Jair Bolsonaro

Brasil, uma grande aldeia isolada do mundo

O Brasil é um país fechado. Aqui vive gente de todas as partes do mundo, mas os brasileiros não estão abertos para o mundo.

Por um lado, isso tem a ver com as dimensões continentais deste país, que forçosamente dirigem o olhar para dentro. Por outro lado, a culpa é de décadas de protecionismo econômico. Durante um certo tempo, isso fazia sentido: assim como os "tigres asiáticos", o Brasil queria proteger sua economia da concorrência dos Estados Unidos e da Europa.

A ideia era que se desenvolvessem empresas brasileiras fortes, as chamadas campeãs nacionais. Mas quando isso acabou acontecendo, as barreiras comerciais, na forma de taxas de importação altas e uma burocracia kafkiana, não foram suspensas, mas mantidas.

O resultado dessa proteção do Estado é que se criaram quase monopólios no país, como o conglomerado Ambev, que inundou o país com uma bebida feita de água, milho e química, a qual teve permissão de chamar de "cerveja", sem discussões – e sem o perigo de outra empresa colocar em risco o seu domínio.

É óbvio que monopólios são ruins. Em primeiro lugar, para o consumidor, pois permitem a uma única companhia ditar a oferta e os preços. Em segundo, para a economia nacional, pois firmas protegidas de concorrência não estão expostas a pressões inovadoras, e não investem seus lucros na melhoria dos seus produtos.


Isso resulta em maus produtos brasileiros, que não correspondem mais ao padrão tecnológico internacional. Qualquer um que já tenha estado numa loja de ferragens brasileira pode confirmar: não se acha sequer uma tomada decente. A única alternativa hoje são artigos importados, os quais, no entanto, são absurdamente caros.

Isso também fez com que a maioria das casas e apartamentos tenha aparências semelhantes. Por exemplo: as trêmulas, rangedoras e emperradas janelas de correr de alumínio. Muitos brasileiros aprenderam a se contentar com pouco, pois não têm ideia de tudo o que seria possível.

Para essa constatação, não é preciso comparar o Brasil com a Europa. Basta uma olhada em países como Colômbia ou México. Quem voa do Rio de Janeiro para Bogotá ou a Cidade do México, logo tem a sensação de ter viajado de um país do passado para a atualidade. Não tem só a ver com a oferta mais variada de mercadorias, mas também com o maior profissionalismo.
No Brasil, a população se acomoda em letargia, resignação e uma restauração conservadora
Já se nota isso na diferença entre aeroportos. O Terminal 2 do Galeão é uma catástrofe de planejamento, com uma arquitetura que força passageiros e tripulações a caminharem vários quilômetros por corredores vazios.

Isso tudo nem seria tão grave, se o protecionismo econômico do Brasil não tivesse também resultado numa rejeição mental contra muito do que é novo. Pode-se observar isso especialmente bem no Rio. Em geral, os cariocas consideram sua cidade insuperável: de fato, é difícil encontrar uma metrópole tão provinciana.

Um exemplo ao acaso? Numa área urbana de 12 milhões de habitantes, o metrô para de funcionar à meia-noite. A oferta gastronômica é comparativamente pobre. E nos supermercados do Rio, continuam se promovendo orgias de sacolas plásticas – as quais atualmente já são proibidas até em diversos países africanos. No Quênia, sua produção e venda é punida com 19 mil dólares de multa e quatro anos de prisão. No Rio, assim como no resto do Brasil, sacolas plásticas ainda são vistos como um direito humano.

A falta de visão exterior igualmente marca a política brasileira. Em Bogotá, acaba de ser eleita prefeita uma mulher abertamente lésbica; em numerosos países, políticos homossexuais não são mais nenhuma raridade. Mas no Brasil eles têm que temer pela própria vida. Aqui se elege antes um evangélico incapaz do que um gay competente.

Aliás, o país com mais mulheres no Parlamento é Ruanda, onde elas são 64%. O Brasil, por sua vez, figura nessa estatística no nível da República Islâmica do Irã; nenhum outro país da América Latina tem uma percentagem tão pequena de deputadas.

Portanto aqui falta declaradamente uma percepção de common sense. É como uma pessoa que viveu sozinha a vida toda, e não percebe quão excêntrica se tornou. Ela se considera normal e todos os outros, esquisitos. Isso fica óbvio especialmente no atual pessoal do governo.

Ministros como Abraham Weintraub, Ernesto Araújo e Damares Alves têm óbvias deficiências cognitivas. Eles vivem em mundos paralelos e paranoicos. Em sociedades saudáveis jamais teriam chegado a posições de poder. Mas o Brasil é como uma comunidade de aldeões isolada, que escolheu como seus líderes justamente os habitantes mais agressivos, inescrupulosos e loucos.

Um indicador de quanto o Brasil está separado do próprio continente é o fato de, no momento, outros países da região parecerem estar avançando. No Equador e no Chile, milhões se levantaram contra as injustiças sociais. Os argentinos se cansaram dos experimentos neoliberais de Mauricio Macri. E a Bolívia se revolta contra o caudilhismo de esquerda de Evo Morales, o que atesta a favor do processo de amadurecimento da democracia local.

No Brasil, em vez disso, a população se acomoda em letargia, resignação e uma restauração conservadora. Um fim do protecionismo comercial e intelectual faria bem ao país.
Philipp Lichterbeck

Política na selva

A alusão a animais na propaganda política é recurso antigo dos demagogos. A imagem de ratos roendo a bandeira nacional, utilizada pelo PT em 2002, vem sendo retomada há décadas como uma maneira de desumanizar os adversários.

A publicação do presidente Jair Bolsonaro (PSL), numa rede social, de alegoria baseada no cerco de um grupo de hienas a um leão tem, no entanto, as suas peculiaridades.

Alegoria constitui, aliás, palavra sutil demais para qualificar o vídeo, que deixa muito claro, por meio de trucagens toscas, quem são as tais hienas: o Supremo Tribunal Federal, a Ordem dos Advogados do Brasil, veículos da imprensa (incluída esta Folha), o PT e até o PSL, que o mandatário luta para controlar com a mão pesada do Executivo.

Tampouco resta dúvida sobre a identidade do felino rodeado pelos bichos carniceiros: presidente Bolsonaro, estampa a legenda.


No reino da Arábia Saudita, que o chefe de Estado brasileiro visitava quando o vídeo foi divulgado, o regime especializou-se não só em rugir para seus críticos. Ele os mata e trucida, como foi feito com o jornalista Jamal Khashoggi em pleno consulado saudita de Istambul (Turquia), em outubro de 2018.

Com a fantasia de rei leão, Bolsonaro talvez vislumbre a latitude dos monarcas absolutos. O traje combina com os elogios velados e explícitos que veio fazendo a aspectos tenebrosos da ditadura militar (1964-1985), seja ao longo de sua extensa carreira de deputado periférico, seja mais recentemente, como candidato e presidente.

Não combina, entretanto, com as instituições da República brasileira sob a guarda da Carta de 1988.

Onde a fábula bolsonarista vê hienas, há na verdade organizações civis e estatais incumbidas de evitar o abuso no exercício do poder de Estado. Onde vê o leão, há o chefe eleito do Executivo, submetido não a seus desejos de supremacia, mas ao império universal das leis, como qualquer outro cidadão.

O choque com essa realidade levou Jair Bolsonaro a retirar o vídeo do ar e a pedir desculpas pela postagem. É um modus operandi que, de tanto repetir-se, afasta qualquer ilusão de que o presidente esteja de fato arrependido ou que tenha se convencido das vantagens do Estado democrático de Direito —se é que foi capaz de compreendê-lo.

A mensagem do leão ameaçado vem juntar-se a outra, do início de setembro, quando Bolsonaro disse que, se levantasse “a sua borduna”, todos viriam atrás dele. São rabiscos de conclamação a forças extraconstitucionais que felizmente não vicejam no Brasil de hoje.

O primeiro presidente deste ciclo democrático a apostar no “Não me deixem só” acabou isolado e defenestrado. Que Bolsonaro consiga absorver ao menos essa lição.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Radicalização bolsonarista preocupa Forças Armadas

A radicalização proposta pelo entorno ideológico do presidente Jair Bolsonaro (PSL) é a principal fonte de preocupação institucional na cúpula das Forças Armadas.

Oficiais-generais da ativa, das três Forças, dizem não haver apoio generalizado a eventuais aventuras repressivas sugeridas pelo grupo.

Os dois mais recentes episódios, envolvendo a publicação do “vídeo das hienas” contra o Supremo Tribunal Federal e a reação à reportagem sobre movimentações de acusados de matar Marielle Franco no condomínio de Bolsonaro, geraram o que um oficial-general definiu como “alta ansiedade”.

O alerta vem circulando desde que o bolsonarismo encampou o discurso de que os protestos no Chile e Equador, a volta do peronismo na Argentina e até o derramamento de óleo no Nordeste fazem parte de uma trama da esquerda que precisa ser combatida.

As teorias conspiratórias chegaram não só aos usualmente falantes filhos presidenciais Carlos e Eduardo, mas também ao general da reserva Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), que hoje está numa frequência bastante diversa daquela registrada na ativa.


Influenciado, Bolsonaro emulou o entorno ideológico e sugeriu que convocaria as Forças Armadas caso houvesse um contágio dos protestos chilenos em ruas brasileiras.

Na sequência, publicou o infame vídeo em que hienas representando o Supremo, a OAB, órgãos de mídia e adversários amorfos como o feminismo, ameaçam o leão personificando o presidente.

Aqui ficou evidente a pressão do grupo ideológico, discípulo do escritor Olavo de Carvalho. Bolsonaro recuou e pediu desculpas ao Supremo, e só ele, pelo vídeo. Mas seu assessor internacional, Filipe Martins, redobrou a crítica em redes sociais mesmo depois da retratação.

Na noite de terça (29), foi a vez do vereador carioca Carlos (PSC) complicar a narrativa presidencial de que a postagem era problema de terceiros com acesso às suas contas. No Twitter, o filho quis defender o pai de críticas, mas sublinhou que a postagem havia sido feita por Bolsonaro —em resumo, o contradisse.

Havia um objetivo não declarado na confusão, que era o de tirar a atenção sobre as ameaças feitas por Fabrício Queiroz, o antigo faz-tudo do clã Bolsonaro que levou a investigações sobre seu último chefe, o hoje senador Flávio (PSL-RJ). Com a revelação do próprio presidente de que já sabia do caso do condomínio, feita nesta quarta, a tática ficou clara.

Antes de o Jornal Nacional veicular a reportagem sobre o caso Marielle, o deputado Eduardo foi à tribuna da Câmara para sugerir que a história se repetiria caso houvesse protestos ao estilo chileno no Brasil. Foi acusado de defender medidas ditatoriais pela oposição.

O grau máximo de tensão veio com a “live” do presidente. Demonstrando o que mesmo aliados consideraram uma apoplexia desnecessária, ele fez críticas à Rede Globo e acusou o governador Wilson Witzel pelo relato em apuração do caso da vereadora assassinada em 2018.

Na manhã desta quarta, antes de o Ministério Público derrubar o pilar central da suspeita ao dizer que o porteiro do condomínio de Bolsonaro havia mentido sobre o contato de um acusado da morte de Marielle com a casa do então deputado, houve uma modulação da crise.

Filhos, parlamentares e ministros enfocaram fragilidades do relato, o que com o aval da Promotoria deve garantir a vitória bolsonarista na guerra de versões no momento.

Destoou do processo e manteve o tom conspiratório justamente Heleno. “Tentam criar fato político que desestabilize o país e fomente violentas manifestações, como as que ocorrem em outros países da América Latina”, escreveu no Twitter, comentando a reportagem.

Há elementos nas Forças Armadas, notadamente no Exército, que compartilham de tal visão. Ela só não é majoritária hoje em instâncias como o Alto-Comando da Força terrestre e é francamente minoritária na Marinha e na Força Aérea.

Chamou a atenção o posicionamento espontâneo do vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), que descartou a gravidade do episódio —assegurando, ao mesmo tempo, que ele prejudica “o serviço”.

Mantido à distância por Bolsonaro e seus filhos, após vários episódios em que se mostrou ostensivamente como ator político mais racional no Planalto, Mourão agora faz um jogo de observação.

Ele não é exatamente querido na ativa do Exército, mas é sempre lembrado em conversas nas quais riscos de ruptura institucionais são mencionados, como “a nossa saída constitucional” —afinal de contas, teve os mesmos votos de Bolsonaro.

A relação dos militares com Bolsonaro, um capitão com histórico de indisciplina reformado, é complexa. No poder, a ala militar no governo perdeu força e integrantes nos embates com os olavistas, com quem fez alianças pontuais, mas também não age em ordem unida.

A ativa associou-se à formação de seu governo, cuja equipe na campanha era coalhada de fardados, a começar por Heleno. Diversos quadros migraram para o serviço civil, incluindo 8 de 22 ministros. Hoje, após as diversas crises com os olavistas, a ativa afastou-se preventivamente do governo, enfatizando seu caráter de ente de Estado.

Um dos que integram o governo é o influente ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. Mas seu poder é declinante: a postagem pressionando o Supremo na véspera da votação da questão da prisão em segunda instância surtiu críticas, enquanto medida semelhante em 2018 foi vista como gesto de autoridade.

Parte disso diz respeito a Luiz Inácio Lula da Silva, que poderia sair beneficiado nos dois episódios. Villas Bôas sugeriu risco à paz social, mas o fato é que tanto no governo, quanto na ativa, militares já “precificaram” eventual libertação do petista preso por corrupção e lavagem de dinheiro.

Bolsonaro e seu entorno torcem pela libertação de Lula, pois isso manteria o clima de polarização do país, teoricamente o favorecendo.

Se o ex-presidente for beneficiado por uma revogação da prisão após duas instâncias e solto nas próximas semanas, já há militares perguntando se o bolsonarismo radical não irá unir todas esses fios narrativos para instigar confrontos de rua.

Neste caso, o artigo 142 da Constituição é claro sobre a manutenção da lei e da ordem recair sobre os militares, sob ordens civis.

A insanidade no Poder

Falta sanidade a quem controla os destinos da cidade, do estado e da nação. E isso é perigoso. Porque dá à população a sensação de que é válido usar a máscara do Coringa e sair por aí xingando e vandalizando. O Coringa já aparece em manifestações na América Latina, no Oriente Médio e na Ásia.


O Brasil é hoje governado por uma família sem freios ou limites no trato social e político. Os filhos de Bolsonaro são caixa de ressonância e de dissonância. Carlos posta no perfil do pai uma ridícula paródia sobre o “rei Bolsonaro leão” e as hienas. As hienas são juízes, políticos, jornalistas, todos os que fazem parte do jogo da democracia. O presidente pede desculpas, diz que não sabia, exime o filho. E fica por isso mesmo até o próximo espanto.

O deputado Eduardo Bolsonaro fez bem pior. Como atual líder do PSL na Câmara, ameaçou o Brasil com um novo golpe militar. “Não vamos deixar isso aí vir pra cá (os protestos de rua no Chile). Se vier pra cá, vai ter que se ver com a polícia e, se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a História se repetir. Aí é que eu quero ver como é que a banda vai tocar. Muito obrigado, senhor presidente”, afirmou Eduardo. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, nasceu no Chile, durante o exílio de seu pai, Cesar Maia, pela ditadura brasileira.

Na manhã desta quinta-feira, Eduardo insistiu. “Se a esquerda radicalizar, a resposta pode ser via um novo AI-5”. O Ato Institucional número 5 inaugurou o período mais sombrio de nossa ditadura. Legalizava repressão, tortura, censura, estado de sítio por tempo indeterminado, cassação de mandatos.

Flávio sumiu, todos sabemos. O Queiroz e as rachadinhas obrigaram o senador a submergir. Opera só nos bastidores, para que as investigações de desvio de dinheiro público não comprometam a bandeira de anticorrupção. Opera e se dá bem com ministros do STF, o mesmo Supremo que o irmão Eduardo disse que, para fechar, “basta um soldado e um cabo”. O mesmo Supremo que, no perfil do pai presidente, controlado por Carlos, não passa de uma hiena.

O capitão Jair Bolsonaro foi expulso do Exército. Admitiu atos de indisciplina e deslealdade com seus superiores, ao publicar artigo pedindo aumento salarial para a tropa e ao afirmar que ele e outro oficial tinham elaborado um plano para explodir bombas-relógio em unidades militares no Rio de Janeiro. Depois, disse que não passavam de “espoletas”. Bolsonaro foi preso por 5 dias por “ter ferido a ética, gerando clima de inquietação na organização militar” e “por ter sido indiscreto, comprometendo a disciplina”.

As más línguas disseram que Jair foi expulso por ser “maluco”. Injustiça, não? O descontrole não é exclusivo de Bolsonaro. O governador do Rio, Wilson Witzel, sobe camuflado em helicóptero militar e diz que agora é “atirar na cabecinha” de quem portar uma arma. Se o tiro matar uma criança, abre um inquérito. O prefeito Marcelo Crivella destrói com retroescavadeiras e marretas a praça do pedágio da Linha Amarela. Cancelas e guaritas foram para o espaço. Muita gente acha que Crivella surtou.

Se o Poder acha que pode agir como maluco e black bloc, como se precisasse de um calmante tarja preta ou de uma camisa-de-força, qual é a mensagem de violência verbal e física que está passando? O Coringa pode não ser apenas uma máscara no próximo Carnaval. Pode invadir as ruas com seu riso. Sinistro.

Profeta Brasil


A paranoia como método político

Cercado por hienas e conspirações socialistas, Jair Bolsonaro quer convencer o país de que é vítima de uma ameaça contínua. A insistência do presidente em retratar críticos como vilões e atribuir seus infortúnios a complôs delirantes mostra que ele pretende governar em estado permanente de paranoia.

Esse estilo político foi descrito pelo historiador americano Richard Hofstadter num ensaio de 1964. Ele tomou emprestado o termo clínico para descrever um discurso baseado no exagero, na suspeição, no alarmismo e em fantasias conspiratórias.

A tática é apresentar o jogo democrático como um conflito entre o bem e o mal, anulando qualquer expectativa de moderação e convocando uma luta constante. "Visto que o inimigo é considerado totalmente mau e desagradável, ele deve ser totalmente eliminado", escreveu.


Governos com inclinações autoritárias costumam se apegar a esse método para destruir a legitimidade de instituições que delimitam seus poderes. Conluios são a justificativa ideal para quem quer adotar medidas excepcionais e punir rivais.

Nos últimos dias, Bolsonaro e sua equipe sugeriram repetidas vezes que os protestos no Chile e o resultado de eleições livres na Argentina não são produtos da vontade popular, mas uma intentona esquerdista que ameaça também o Brasil. O presidente até alertou os militares e pediu que eles ficassem de prontidão para reprimir manifestações.

Ao divulgar o vídeo em que retrata quase todos os seus críticos como animais agressivos e aproveitadores, o bolsonarismo amplia o recado: a fonte do perigo não são apenas opositores formais, mas qualquer personagem disposto a contrariar seus interesses ou sustentar uma desaprovação legítima ao governo.

O próprio Bolsonaro deixa claro que tudo não passa de enganação. Depois de lançar o alerta sobre o risco vermelho, ele divergiu de si mesmo. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente disse achar que a esquerda "não tem futuro no Brasil num curto espaço de tempo".

Governo não há, mas o que virá?

Por mais que o establishment econômico esteja fechado com a agenda liberal de Paulo Guedes, que o risco Brasil tenha caído e que o mercado venha melhorando suas previsões para o PIB, não há como tapar o sol com a peneira. O ritmo cada vez mais acelerado das crises políticas envolvendo o presidente da República — agora à razão de uma por dia, ou até mais de uma no mesmo dia — não permite ilusões. A tática de avestruz das elites, que enterram a cabeça no chão para não ver a realidade na esperança de que essa parte do governo fique invisível — enquanto a de Guedes trabalha e recupera a economia do país — parece fadada ao fracasso. Na verdade, não há governo.

Fica muito difícil levar o Congresso a prosseguir numa pauta de emendas constitucionais, com mudanças profundas no Orçamento, reforma administrativa, e as privatizações prometidas num ambiente de tal instabilidade, com o primeiro mandatário do país se mete em tantas confusões.


O episódio mais recente junta o inquérito que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco pelas milícias à figura do presidente da República. Vem se somar a um conjunto da obra que, em menos de uma semana, expôs ao público as entranhas do PSL, as conversas de bastidor em que Queiroz faz pose de articulador governista e o vídeo do leão Bolsonaro cercado pelas hienas institucionais do país, incluídos aí o STF e a CNBB.

A “live” em que Jair Bolsonaro se defendeu diante da informação de que um dos acusados da execução da vereadora esteve em seu condomínio no dia do assassinato, citando sua casa como local de destino, provavelmente será um dia objeto de estudos da história. Não apenas pela declaração de guerra à Rede Globo e ao governador do Rio, mas pelo tom geral belicoso, duro, ameaçador, no estilo "matar ou morrer" — e que não prenuncia boa coisa.

Sem entrar no mérito de suas razões, e dando crédito às provas de que ele estava em Brasília na data citada e não se encontrou com o suposto executor da vereadora Marielle — o que parece claro — Bolsonaro mostrou que vai levar ao limite a tática da radicalização do discurso com o objetivo de levantar sua base social. Ainda que venha perdendo popularidade, num desgaste constante desde que assumiu, o presidente conta um um grupo minoritário, mas aguerrido e barulhento, que pode defendê-lo. Quer botar essa turma em campo, nas redes e fora delas.

É cedo para dizer no que isso dará. Haverá consequências para além dos salões da política. Mas uma constatação óbvia é que Bolsonaro não é um sujeito que sairá fácil. É do tipo que não renuncia e cai atirando. Do outro lado, seus adversários, antigos e novos, não parecem ter hoje vontade ou organização suficientes para mergulhar num sempre traumático processo de impeachment. Pelo menos ainda não.

Estamos hoje diante de uma equação de difícil solução, que junta um governo que não governa mas não cai, uma elite política e econômica que acredita ilusoriamente poder erguer um muro em torno de Bolsonaro e fazer reformas à revelia dele, e uma sociedade cada vez mais desigual e cheia de demandas, crescentemente perplexa com o que está assistindo.

Vaca prenha

Vai chegar um momento em que a situação vai ser igual a do final dos anos 60 no Brasil, quando sequestravam aeronaves, quando executavam-se e sequestravam-se grandes autoridades, cônsules, embaixadores, execução de policiais, de militares. Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente via precisar ter uma resposta. E a resposta, ela pode ser via um novo AI-5, via uma legislação aprovada através de um plebiscito, como aconteceu na Itália*.
*Em 1929, as eleições na Itália foram substituídas por plebiscitos, nos quais, ao invés de votar, o povo italiano poderia dizer entre sim e não a uma lista de candidatos que era escolhida pelo Grande Conselho Fascista. Essa lista, por sua vez, era selecionada a partir de nomes apresentados pelo Partido Nacional Fascista, pelos sindicatos fascistas e organizações empresariais.

O culpado é o porteiro

Meia volta volver. O porteiro do condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem casa na Barra da Tijuca mentiu. Foi o que disse a promotora Simone Sibilio, do Ministério Público do Rio.

“A prova técnica juntada aos autos mostra que no dia 14/03/2018 às 17h07, quem autoriza a entrada de Élcio Queiroz no condomínio é Ronnie Lessa”, informou a promotora

Em dois depoimentos prestados à Polícia Civil, o porteiro havia dito que telefonou na tarde daquele dia para a casa de Bolsonaro. Um homem, de nome Élcio, pedia licença para entrar.

De dentro da casa de Bolsonaro, a voz de um homem, que o porteiro identificou como sendo a do “seu Jair”, respondeu que Élcio poderia entrar. Élcio e Lessa estão presos por terem matado Marielle Franco.


“As testemunhas prestam depoimento e o Ministério Público checa. Nada passa sem ser checado”, garantiu a promotora. A ser assim, há muito ainda a ser investigado sobre essa história.

Se o porteiro mentiu ou se enganou por que um grupo de procuradores, no último dia 17, foi à Brasília consultar o ministro Dias Toffoli sobre se as investigações deveriam ser federalizadas?

Uma vez que o nome de Bolsonaro fora citado, e como ele tem direito a foro privilegiado, caberia ao Supremo Tribunal Federal investigá-lo. Os procuradores se precipitaram?

Quando voaram à Brasília não sabiam que o porteiro mentira ou se enganara? Nada haviam checado? A checagem só ocorreu de ontem para hoje? Não faz sentido.

Também não faz sentido que, informado pelo governador do Rio no último dia 9 que seu nome fora citado, Bolsonaro até ontem desconhecesse que o porteiro mentira ou se enganara.

Bolsonaro, como ele mesmo admitiu, orientou seu advogado a defendê-lo em entrevista ao Jornal Nacional. Por que o advogado não o defendeu com o argumento de que o porteiro mentira?

O Ministério Público do Rio foi uma das fontes de informação do Jornal Nacional. Por que não informou à Globo que o porteiro mentira? Teria abortado a reportagem, com certeza.

Sobrou para o porteiro mais cedo do que se imaginava. Só falta acusá-lo de ser ligado ao Foro de São Paulo.

Desconecte-se


As posturas do clã Bolsonaro no caso Marielle Franco

Brasil, 14 de março de 2018. Horas após os assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, praticamente todos os pré-candidatos à Presidência lamentaram as mortes e cobraram investigações rigorosas. "Barbárie" e "crime grotesco" deram o tom de algumas declarações.

Apenas um pré-candidato não quis comentar, seja para cobrar apuração, seja para lamentar: Jair Bolsonaro. No dia seguinte, um assessor afirmou que o então deputado não pretendia comentar o caso porque sua "opinião seria polêmica demais".

Nos primeiros meses que se seguiram, o futuro presidente e seu clã político intercalariam silêncio com declarações e ações para minimizar a gravidade do crime, manifestando ainda, em algumas ocasiões, desprezo pela comoção nacional e internacional com a morte da vereadora, que atuava na cidade que há décadas é a base eleitoral de Jair Bolsonaro.


"Crime comum" e "mais uma morte no Rio de Janeiro" foram algumas das declarações que partiram inicialmente do clã. Menos de um mês depois do crime, à época da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos filhos do presidente também afirmou que "se Marielle estivesse viva, provavelmente defenderia o ladrão Lula".

Enquanto Jair permanecia em silêncio na semana seguinte ao crime, seus filhos Carlos, Eduardo e Flávio usaram as redes sociais tanto para reforçar uma narrativa de crime comum quanto para demonstrar desconfiança com a hipótese de participação de policiais ou ex-policiais ligados à milícia.

Flávio, então deputado estadual no Rio, chegou a publicar no Twitter inicialmente uma mensagem em que lamentava a morte de Marielle. "Apesar de profundas divergências políticas, sempre tive relação respeitosa com ela." Apagou o texto pouco depois. No lugar, publicou uma mensagem prestando solidariedade à família de um PM do Rio que morreu em um assalto.

Em outubro, ele também defenderia dois candidatos do PSL que quebraram uma placa em homenagem a Marielle afixada em uma rua do centro do Rio. Segundo ele, os correligionários "nada mais fizeram do que restaurar a ordem", e a homenagem havia sido "ilegal".

Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que havia sido colega de Marielle na Câmara Municipal do Rio, também não lamentou a morte e sugeriu que as Nações Unidas eram hipócritas por se manifestarem sobre o caso. Dois dias depois do crime, publicou no Twitter o link de uma reportagem sobre a morte de um empresário em um assalto e escreveu: "Ninguém verá a ONU se manifestar por isso."

No final de março de 2018, voltou a usar o mesmo tom ao comentar a morte de um PM catarinense. "Essa realidade a Globo, a ONU, o Psol, as feministas e toda esquerda continuarão ignorando."

No Carnaval de 2019, quase um ano após o crime, Carlos também criticou a escola de samba Mangueira, que homenageou Marielle em seu desfile. "Dizem que a Mangueira, escola de samba campeã do carnaval e que homenageou Marielle, tem o presidente preso, envolvimento com tráfico, bicheiros e milícias. Esse país está de cabeça pra baixo mesmo."

Já as primeiras manifestações do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sobre o caso atacaram a hipótese de que Marielle e Anderson teriam sido mortos por policiais. "Vão falar, refalar, bater, repetir tanto que a vereadora foi executada por um PM mesmo sem uma prova concreta disso. Daí quando surgir uma possibilidade qualquer de se ligar o crime a policial em particular, pronto, ele já estará condenado", escreveu em 15 de março.

No mesmo dia, ele também reproduziu uma mensagem que dizia: "O assassino da vereadora Mirielle Franco [sic] se for um PM guilhotina, se for um traficante é vítima da sociedade. Assim é a esquerda."

No início de abril de 2018, Eduardo também reclamou no Twitter da cobertura de manifestações em homenagem a Marielle. "Jornal Nacional: 'manifestantes no Brasil e no exterior homenageiam Mariele'. Só vi imagens fechadas para não mostrar os vazios e poucas pessoas acendendo velas."

Eduardo também mencionou a vereadora após um ato que precedeu a prisão de Lula, em abril. "Quase todo Psol, inclusive seu presidenciável, estavam [sic] no ato em apoio ao maior corrupto da Terra, Lula. Se Mariele [sic] estivesse viva provavelmente estaria lá a defender o ladrão Lula. Não desejo a morte de ninguém, mas querer meter goela abaixo que Psol é exemplo de algo também não dá."

Jair Bolsonaro, por sua vez, enquanto era cobrado para se manifestar nos dias seguintes ao crime, usou o Twitter para saudar a descoberta de uma proteína no "leite do ornitorrinco" que pode combater superbactérias. O futuro presidente só rompeu o silêncio no dia 20 de março, e para reclamar da cobrança da imprensa por uma manifestação. "Nos enterros dos PMs nenhum presidenciável foi, e vocês não deram porrada neles como dão em mim", disse a jornalistas.

Nos meses seguintes ao crime, em entrevistas, Bolsonaro também minimizaria o caso. "Para a democracia não significa nada. Mais uma morte no Rio de Janeiro e temos que aguardar a investigação", disse ao jornal O Globo no final de abril.

Em maio, quando as investigações apontaram que a morte de Marielle poderia estar relacionada a denúncias da vereadora contra a grilagem de terras por milícias, Bolsonaro chamou de "demagogia" a possível entrada da Polícia Federal no caso.

Disse ainda a um jornalista do portal O Tempo: "Qual é a diferença da minha vida e da sua com a da Marielle?" "Num primeiro momento, falaram absurdos: 'Crime político', que era uma mulher que 'poderia ser presidente da República'. Confesso que mal conhecia a senhora Marielle. [...] É outro crime comum como outro qualquer."

No mês seguinte, Bolsonaro afirmou que a possível participação de milicianos suspeitos de grilagem de terras nas mortes demonstrava "que não foi crime político". "É econômico. É briga de milícia", disse ao jornal Correio Braziliense.

"A grande mídia deu espaço enorme. [Chamou] de 'heroína', 'futura presidente', 'mulher lésbica'. Peraí... Morre gente da sociedade [...] e ninguém toma uma providência. Grande parte das redações são tomadas por gente de esquerda que faz um estardalhaço terrível", acrescentou.

Bolsonaro não voltaria ao tema Marielle até 12 de março de 2019, quando os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram presos por suspeita de executarem a vereadora e o motorista. A essa altura, uma série de elos já havia associado o clã Bolsonaro ao crime.

Em janeiro, uma operação contra milicianos revelou que Flávio havia empregado em seu gabinete a mulher e a mãe de outro ex-PM que chegou a ser apontado como suspeito pelos assassinatos em outra linha de investigação.

O ex-PM em questão já havia sido homenageado por Flávio na Assembleia Legislativa do Rio em 2005 e havia sido defendido por Jair Bolsonaro em um discurso na Câmara meses depois, quando foi condenado por homicídio. O caso levou a imprensa a revisitar antigas declarações do clã de apoio à milícia.

A prisões de Lessa e Queiroz revelaram mais elos. Lessa foi preso em sua casa, que fica no mesmo condomínio fechado em que Jair e Carlos têm suas residências. O delegado do caso também confirmou que um dos filhos do presidente namorou a filha de Lessa. No entanto, a polícia e o Ministério Público apontaram que encaram esses episódios como coincidências.

Pouco depois, a Polícia Civil revelou que encontrou 117 fuzis na casa de um comparsa de Lessa, reforçando a suspeita de que ele também era um traficante de armas. Por fim, a imprensa brasileira divulgou uma fotografia de 2011 na qual Élcio Queiroz aparece ao lado de Jair Bolsonaro.

Em março, quando questionado sobre as prisões, Bolsonaro adotou um tom mais brando, em contraste com a postura de 2018. "Espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a esse, se é que foram eles os executores, e o mais importante, quem mandou matar", disse.

Com uma postura defensiva, também lembrou o atentado que sofreu em setembro de 2018, cuja investigação não apontou um mandante. "Também estou interessado em saber quem mandou me matar." Sobre a fotografia ao lado de um dos suspeitos, disse: "Tenho foto com milhares de policiais civis e militares, com milhares no Brasil todo."

No dia seguinte, ainda disse a jornalistas que não mantinha qualquer relação com seu vizinho suspeito pelo crime. "Não lembro desse cara. Meu condomínio tem 150 casas", afirmou. "O que tenho a ver com ele? Não tem vida social no meu condomínio", disse o presidente.

Eduardo, por sua vez, voltou a afirmar que a morte de Marielle e de Anderson não se distingue de outros homicídios e que há "um desespero" para relacionar o crime ao seu pai. "É um desespero para tentar dizer que Bolsonaro tem culpa no cartório. Pelo amor de Deus, tentar fazer essa relação é mais do que absurda, é repugnante", disse ao jornal O Globo. "Esse caso de assassinato é como vários outros casos de assassinato", concluiu.

Seu irmão Flávio também adotou a mesma postura defensiva. "Forçação total de barra. Agora virou fator importante para o crime o cara [Lessa] coincidentemente morar no condomínio dele? Essa narrativa não vai colar, não", disse o senador.

Ainda em março, em entrevista à rede americana Fox News, Jair Bolsonaro foi questionado sobre seus elos com os suspeitos e o fato de um deles ser seu vizinho. "Só soube quem era Marielle Franco depois que ela foi assassinada. Que motivo eu teria para encomendar um assassinato desses?", respondeu o presidente.

Nos meses seguintes, o clã não mencionou mais o caso Marielle. Mas, nesta terça-feira (29/10), quando o Jornal Nacional revelou que a investigação havia envolvido diretamente o presidente e que o caso agora pode ser levado para o Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro reagiu de maneira agressiva. Segundo depoimento do porteiro do condomínio do presidente no Rio, um dos suspeitos de matar Marielle pediu para ir à casa de Bolsonaro no dia do crime.

Em um vídeo publicado direto da Arábia Saudita, onde cumpria viagem oficial, Bolsonaro atacou a TV Globo, ameaçou não renovar a concessão da emissora e chamou a imprensa de "porca" e "nojenta". Ele também voltou a negar que tenha algo a ver com o crime. "Não tinha motivo nenhum para matar quem quer que seja no Rio de Janeiro!"