terça-feira, 4 de setembro de 2018

Só tem na democracia

É curioso como algumas pessoas mentem descaradamente sobre os mais variados temas, especialmente na política. A quantidade de heróis que lutaram contra a ditadura assombra. Mas poucos contam quais foram seus atos de heroísmo, normalmente substituídos por um levantar de ombros como que dizendo “minha modéstia não me deixa falar sobre isso”.

Eu conheço gente que fez a sua parte com rara coragem, muitas vezes para ajudar quem tinha tentado destruí-los. Estes não falam sobre o assunto não porque não possam ou não tenham provas, como acontece com parte dos heróis que recebem polpudas mesadas do Governo, mas porque acham que não vale a pena. O que fizeram tinha que ser feito e ponto final.



Uma das grandes qualidades, se não a maior de todas, das democracias é que elas garantem o direito de cada um falar o que tiver vontade, até quando a fala propõe a destruição da própria democracia.

Não existe ditadura ou semi-democracia que permita isso ou vagamente se aproxime disso. O Estado corta a fala – ou o mal – pela raiz, num movimento rápido, que pode ir de uma pressão mais forte e evidente até a prisão do falador.

A quantidade de mentiras que têm sido ditas no Brasil de hoje apavora. E como o brasileiro se esquece depressa, a tese de Goebles, o Ministro da Propaganda de Hitler, floresce numa velocidade espantosa. Segundo ele, uma mentira repetida mil vezes se torna verdade.

No Brasil, isso é duas vezes mais verdade. Quantas vezes já me disseram isso ou aquilo, sem parar para pensar que o que estavam dizendo simplesmente não era possível porque não fazia sentido?

De apartamentos mirabolantes a atos de coragem sob fogo, vale tudo. Por isso, preste muita atenção ao que te dizem ou você lê. Há uma enorme chance de estarem tentando te levar no bico.

A ética nossa de cada dia

Vivemos numa época em que, graças à tecnologia da comunicação, deparamos diariamente com situações que nos levam, ou nos deveriam levar, a refletir sobre o comportamento das pessoas em sociedade. A ética, ou a falta dela, tema tão em voga na atualidade, tem sido amplamente discutida, sobretudo quando algo de novo aparece no cenário econômico e político, que tem estado bastante movimentado nos últimos meses.

As redes sociais têm sido porta-vozes de pessoas que se sentem “empoderadas” ao postar seu comentário no Facebook, criar um canal no YouTube ou utilizar o WhatsApp para compartilhar assuntos e criar grupos para trocar ideias com amigos. Mas, ao mesmo tempo que aproveito as vantagens, eu também me preocupo.

Até que ponto a agilidade de comunicação que a tecnologia nos faculta, em que tudo está resumido a um clique ou a um deslizar de dedos sobre a tela, nos proporciona informações corretas? A rapidez da informação está obrigatoriamente vinculada a pedaços de fatos? Será que estamos fadados a conviver na superficialidade, que não nos permite mergulhar nas questões que nos assolam?
Voltemos nosso olhar para a ética. Quando pensamos na palavra ética, vem-nos logo à mente a ideia dela relacionada a um determinado campo de atuação: ética na política, ética no trabalho, ética no esporte, ética na saúde, ética na educação, etc. E sempre conseguimos expandir esse termo para a esfera que acharmos mais conveniente.

Mas a ética não existe apenas nas relações profissionais ou comerciais. É preciso ter claro que a ética é parte do nosso dia a dia, de forma que, se não formos éticos conosco, não conseguiremos ser com os demais, e não seremos éticos na sociedade em que vivemos. A ética cabe em qualquer situação da nossa vida.

Mas, afinal, o que é essa palavra, ética, nos propõe? Será que seu sentido é imutável? Que significado tem essa palavra, que invadiu os noticiários nos últimos tempos e se instalou no nosso vocabulário cotidiano?

Etimologicamente, a palavra ética é de origem grega, ethos, que significa modo de ser, costume ou hábito. Esse termo reflete o caráter e a natureza de cada indivíduo enquanto forma de vida adquirida ou conquistada.

Seguindo essa linha de raciocínio, podemos dizer que a ética é tão antiga quando o nascimento das relações humanas. Seja com Adão e Eva no Éden, ou com a evolução do homem primata de Charles Darwin, a ética já estava lá, permeando as relações mesmo sem ser percebida ou nomeada.

Vemos a primeira definição de ética na Antiguidade clássica, com os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles. Com eles surge a ideia do pensamento crítico e reflexivo sobre valores e costumes vigentes.

Se falamos em costumes vigentes, podemos dizer que ética é uma questão atual. Não importa o tempo em que ela exista, ela sempre é contemporânea. Por isso, quando falamos de ética é crucial entender, antes de tudo, os problemas com os quais a sociedade de uma determinada época está tentando lidar.

Clóvis de Barros Filho explicita, de uma forma didática, que a ética passou a ser vista no imaginário comum como uma categorização prévia sobre qualquer conduta em “certo” ou “errado”. É como se ela se bastasse numa grande tabela com duas colunas: na primeira estariam as coisas legítimas e aceitáveis e na segunda coluna, comportamentos a evitar ou intoleráveis, ou seja, pode ou não pode, isso é ético e isso não é.

De fato, se essa tabela existisse, estaria obsoleta imediatamente, porque no dia seguinte estaríamos diante de situações inéditas que essa tabela não comportaria. Por isso podemos dizer que ética tem que ver com liberdade, com a possibilidade que temos de escolher como queremos conviver.

A ética parte de uma premissa: a nossa convivência pode ser diferente do que é, portanto, a nossa convivência pode ser melhor. A ética é a inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência e, por isso, ela não é um saber acabado, não é uma tabela pronta.

Exatamente por isso podemos dizer que não existe uma ética única e universal porque ela não é individual, ela sempre será referente a um grupo, a uma sociedade, a uma comunidade, logo, cada tempo terá de construir a sua ética. A ética que se desenrola na prática do dia a dia anda junto com a moral, originária do latim morales, cujo significado é “relativo aos costumes”. Por isso, à medida que as sociedades se modificam, a ética e a moral acompanham esse processo.

Moral é algo que você tem em seu interior e orienta suas ações, sem preocupação com olhar do outro. São Paulo, o apóstolo, em sua Carta aos Coríntios também deixa lição sobre moral: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6:12).

Assim, a moral diz respeito ao nosso comportamento individual, enquanto a ética nos faz ter a capacidade de aperfeiçoar nossa convivência. Nesse sentido, podemos considerar a ética como uma postura que se refere a um modo de ser, à natureza da ação humana. Trata-se de uma maneira de lidar com as situações da vida e do modo como estabelecemos relações com outras pessoas, algo muito além do contato educado. O respeito aos próximos, a empatia com os diferentes podem nos tornar melhores seres em sociedade.

Embora nos devamos preocupar com as relações agressivas que se estão estabelecendo na sociedade, é preciso ter consciência de que o relacionamento humano pode ser diferente do que está em voga, e cabe exclusivamente a nós a tarefa de refletir e pensar conjuntamente e de argumentar dentro de um espaço de diálogo para aperfeiçoá-lo no dia a dia, para que o amanhã seja melhor do que o hoje.

Façamos nossa ética de cada dia acontecer, porque, se existe ética, é porque há liberdade. Se abrirmos mão da liberdade de fazermos a sociedade que queremos, teremos também aberto mão da possibilidade de convivência entre os seres humanos e da ética!

Gente fora do mapa


Museu Nacional, um projeto civilizatório que fracassou

Relatos sobre o abandono do Museu Nacional deixaram atônitos muitos brasileiros que assistiram pela televisão às labaredas consumirem quase 200 anos de pesquisa. É impossível não sentir uma certa resignação com a tragédia. Afinal, o Museu Nacional não é o primeiro a ter este destino, e não há indícios de mudanças para que seja o último. A sensação é que naturalizamos a ideia que a cultura não faz parte do projeto de Brasil e, por isso, é normal vê-la destruída. É só acompanhar os comentários de internautas satisfeitos com o incêndio nas redes sociais: "Segue o baile! Se não há vítimas, deixa queimar essa história comunista que criaram", afirmou um entusiasta da tragédia. "Um gasto a menos nos cofres públicos", disse outro.

Mas há de existir algo mais entre o descaso e a conformidade.



A história do Museu Nacional é a história de um projeto civilizatório para o Brasil que fracassou. Embora a discussão sobre o que é "civilização" seja, hoje em dia, alvo de de discussões, a ideia da família real portuguesa ao fugir para o Brasil era muito clara: trazer para os tórridos trópicos as boas maneiras, as artes e a cultura europeia. D. João VI, rei português, para além de todo um aparato político institucional, precisava também da criação de um aparato intelectual que tornasse legítima a Corte portuguesa trasladada para a América do Sul. Assim o Museu Nacional funcionou como uma das formas de validação do Império Português, agora em outras terras.

Criado via decreto de 6 de junho de 1808 com a função de “estimular os estudos de botânica e zoologia”, o museu não tinha acervo e começou com pequena coleção doada pelo próprio João VI e, posteriormente, aumentada por seu neto e imperador, D.Pedro II. Vale lembrar que Pedro (segundo) é um desses personagens peculiares de nossa história. Aclamado imperador aos quinze anos, em 1831, ele teve uma educação baseada nas ideias de seu principal tutor, o Marquês de Itanhaém. Sua educação baseava-se em "uma mistura de iluminismo, humanismo e moralismo", que o tornasse, nas palavras do historiador José Murilo de Carvalho, "um monarca humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante”.

Era também viajante contumaz para Europa e Estados Unidos. Suas viagens eram marcadas pela visita a instituições culturais, de educação e ciência e a lugares históricos. Algumas das peças que mais chamavam a atenção do Museu Nacional, e que foram destruídas no incêndio, eram as múmias adquiridas em sua visita ao Egito. Ele se correspondeu com Nietzsche, Lewis Carroll, Júlio Verne e Victor Hugo. Foi amigo do astrônomo Camille Flammarion. Esteve nos Estados Unidos, em 1876, quando Alexander Graham Bell lançou o telefone. Se entusiasmou pela invenção e logo a trouxe para o Brasil. Financiou o cientista Louis Pasteur. Apoiou o projeto do empreendedor Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá, de trazer fazer a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Financiou a primeira expedição brasileira à Antártida, e muitos outros projetos que, hoje criticados por seu viés elitista e etnocêntrico, foram, sem dúvida, um grande impulso na construção de um esboço de nação. Mas esse esboço não saiu realmente do papel.

O Museu Nacional era apenas um dos instrumentos civilizatórios do Império. Outras instituições eram a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico do Rio, a Imprensa Régia (atual Imprensa Nacional), a Casa de Suplicação (que mais tarde se tornaria o Supremo Tribunal Federal), o Banco do Brasil, a Academia Real da Marinha e a Escola Real de Ciências, Artes e Ofício (atual Escola de Belas Artes), além da Real Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação (mais conhecida como Junta do Comércio).

Não é preciso conhecimento histórico para saber quais dessas instituições cresceram e prosperaram, e quais ficaram relegadas ao esquecimento. Quantas pessoas conhecem o STF ou o Banco do Brasil e quantas sabiam até o incêndio que existia um Museu Nacional no Rio? Qual você consideraria mais importante? Há razões porque as instituições culturais tem sido sendo lentamente apagadas. Com a proclamação da República, em 1889, e com boa parte das forças políticas defendendo ainda a monarquia, muitos republicanos se viram, de certa maneira, impelidos a deixar de lado qualquer ícone ou projeto que lembrassem o império.

Além disso, a ênfase na economia e no progresso material, de maneira desordenada, sobretudo a partir do começo do século XX impeliu o país a relegar e a enxergar o passado como algo velho e sem uso prático, abdicando de sua memória. É nesse contexto que o Brasil se torna o eterno "país do futuro", aquele de Stefan Zweig. Neste futuro, há uma cultura que tem importância, mas essa não é a do acesso para todos. Ela está nos grandes museus da Europa e Estados Unidos, nos mesmos lugares onde D. Pedro II ia para buscar inspirar. "No Brasil, temos a ideia de que a cultura é a 'salvação' para todas as nossas misérias, mas ao mesmo tempo só é digna de acessá-la quem é 'de bem', ou tem algum dinheiro", desabafou nas redes sociais a historiadora Deborah Neves, especialista em patrimônio histórico.

Nesse Brasil, atuar na cultura sequer é considerado trabalho. A rejeição da história como coisa de "esquerdista" está nas redes, mas também no projeto da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio, que tenta abolir a disciplina. A história se tornou um supérfluo e também uma maneira de distinção. Não gera riqueza, só prazer. E prazer é só para quem pode manter a vida nababesca de um imperador-menino visitando grandes museus ao redor do mundo.

Fábio Teixeira de Sá/ Regiane Oliveira

Transição de Lula para Haddad avacalha o TSE

Lula transformou a transição de sua candidatura para a de Fernando Haddad num desafio à autoridade do Tribunal Superior Eleitoral. Na noite desta segunda-feira, 72 horas depois de o TSE ter barrado o candidato-presidiário, o PT continuava exibindo Lula como postulante ao Planalto em inserção comercial na TV. A mesma peça, disponível acima, foi veiculada nas redes sociais.

Num quadro de normalidade, um presidenciável ficha-suja é enquadrado na Lei da Ficha Limpa e, por ordem do TSE, deixa o horário eleitoral que avacalha. Quando isso não acontece, a exibição da candidatura fantasma na vitrine eletrônica avacalha a Justiça Eleitoral. No caso de Lula o processo de avacalhação é conduzido com método de dentro da cadeia.

Em decisões tomadas no domingo e nesta segunda, os ministros Luís Felipe Salomão e Carlos Horbach, do TSE, proibiram o PT de exibir novamente os comerciais de campanha veiculados no rádio e na TV no horário eleitoral de sábado —sob pena de pagar multa de R$ 500 mil a cada reprise.


Os ministros concluíram que o PT afrontou a decisão judicial e confundiu o eleitor ao vender a ideia de que Lula ainda é candidato. Em dois textos —a defesa apresentada ao TSE e uma nota pública—, a coligação presidencial encabeçada pelo PT simulou respeito e obediência. Jogo de cena. A reiteração da candidatura de Lula nas inserções noturnas desta segunda-feira não é coisa de quem deseja render homenagens à Justiça.

O site da coligação petista na internet escancara o teatro, deixando claro que a decisão de achincalhar a Justiça Eleitoral veio antes da sessão em que o registro da candidatura de Lula foi negado pelo placar de 6 votos a 1. “Assista aos programas de Lula que o TSE não quer deixar passar na TV”, convida um título pendurado no site na última sexta-feira, antes que o veredicto do TSE fosse conhecido. (veja reprodução abaixo)

Sob a manchete, lê-se o seguinte: “Como todo mundo bem sabe, o TSE julga nesta sexta-feira (31) a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. O TSE acelerou o processo de Lula para que você não pudesse ver o presidente que mais fez por esse país de novo em sua televisão, para que você não se lembrasse de todos os projetos implementados por nosso Luiz Inácio.”

Na sequência, o site oferece aos visitantes o acesso a três vídeos com um par de programas e um comercial “que o TSE não quer que você veja”. Depois que o veto a Lula foi consumado, a coligação petista não moveu um dedo para retirar os vídeos do ar.

Como que antevendo a trapaça, a procuradora-geral da República Raquel Dodge fizera uma sugestão ao ministro Luis Roberto Barroso, relator do caso. no TSE. Ela mencionara a necessidade de esclarecer que a proibição de propaganda sobre a candidatura de Lula valia também para a internet.

Barroso respondeu que, embora tivesse mencionado apenas o rádio e a TV em seu voto, estava entendido que o veto à participação de Lula em atos de campanha se estendia à internet. A cena foi testemunhada pelos advogados de Lula. Mas o petismo deu de ombros.

Quando a coligação encabeçada pelo PT diz estar cumprindo a decisão judicial, está, na verdade, propondo um troca-troca: Lula finge que respeita a Justiça e o TSE finge que acredita. Enquanto isso, o petismo fará barulho no Conselho de Direitos Humanos da ONU. E os advogados de Lula tentarão cavar no Supremo Tribunal Federal uma liminar suspendendo o veto à sua candidatura.

Se a sorte providenciar uma liminar da Suprema Corte, dá-se uma banana ao TSE. Se o Supremo não aderir à manobra, formaliza-se a substituição de Lula por Haddad em 11 de setembro (que data!), quando expira o prazo para a troca. É como se Lula e seus devotos desejassem vetar o veto do TSE, observando-o apenas em último caso. O fantasma sabe para quem aparece. Inicialmente, o voto de Luís Roberto Barroso tirava o PT do ar até a substituição do candidato. Mas os ministros decidiram, a portas fechadas, suavizar o veredicto, mantendo o PT no ar. Deu no que está dando.

Protagonistas do crime

O fracasso era imputado sempre aos outros; os cidadãos que falavam em crise na verdade estavam tranquilos, satisfeitos com suas funções, vivendo dentro dos limites de seu cotidiano, encurralados; eles mesmos protagonizavam aquele que condenavam
V. S.Naipaul, "Gerruilheiros"

Estreitos horizontes

Uma das coisas de que não gosto nessas minhas viagens semanais é me sentar na poltrona do meio. São trechos longos, como Macapá ou Boa Vista-Rio. Preciso trabalhar, mas o espaço fica muito contraído, e detesto incomodar o sonolento vizinho do corredor quando preciso ir ao banheiro.

Jamais pensei que faria um texto cujo tema é o assento 23B. Mas essa sensação de estar meio espremido, sem horizontes, lembrou-me de minhas inquietações espaciais na Rússia.

Fotografei muitos prédios em todos os estilos, mas queria ressaltar a arquitetura stalinista, sobretudo um grupo de arquitetos surgidos na época do Plano Diretor, quando tudo deveria se submeter aos desígnios do Estado.

Os intelectuais eram chamados de engenheiros das almas, e esse grupo de arquitetos projetou inúmeros prédios onde tudo era coletivo. Todos os que conhecem a história recente da Rússia sabem que a vida se tornou muito difícil nessa atmosfera desenhada e que as pessoas costumavam até comer na cama, desesperadas por uma nesga de privacidade.

Vejo agora que uma escola de Tocantins, da cidade de Formoso do Araguaia, ganhou um prêmio internacional de arquitetura, o melhor prédio escolar do ano. As fotos das estruturas de madeira são bonitas. A história, mais reveladora ainda. O projeto da escola, na Fazenda Canuanã, foi realizado pelo designer Marcelo Rosenbaum e o escritório de arquitetura Aleph Zero.

Os autores contaram com a ajuda dos alunos que moravam no prédio e indicaram as linhas por onde deveria ser melhorado. Eles diziam que moravam na escola. Agora, não dizem mais. Um traço da mudança foi abrir mais espaços para a privacidade individual.

Portanto, o êxito dos arquitetos brasileiros avançou exatamente no sentido oposto ao dos stalinistas. Certamente, foram ajudados pela opinião dos estudantes.

Mas a simples inquietação com o espaço não me levaria a escrever sobre o 23B. O assento parece o lugar adequado para pensar no Brasil: estreito, sem grandes horizontes.


Já vivemos os grandes horizontes do país do futuro. Hoje está tudo tão apertado. Um copo d’água, um pacote de biscoitos salgados, penso na eleição presidencial: vejo apenas o estreito caminho que o Congresso abrirá ao vencedor.

Projetos, projetos, mas não vejo de onde virá o dinheiro. Um dos temas mais populares é a promessa de tirar o nome dos devedores do SPC. Não entro no mérito, porque não sei quanto custará. Sei apenas que é mais uma sedução pelo consumo, não muito diferente da visão que nos arruinou.

Mesmo no campo do delírio, Cabo Daciolo me desapontou. Foi para a montanha falar com Deus. Não esperava que, no seu encontro com Deus, produzisse lindos poemas místicos como as freiras Mariana Alcoforado e Sor Juana Inés de la Cruz. Mas ele recebeu uma vulgar teoria da conspiração, que está em qualquer lugar da internet.

Deus mesmo, quando vier, que venha armado. Essa frase de Guimarães Rosa deve ter inspirado a política de segurança de Bolsonaro.

Deixo para trás Roraima com seu impasse. Não há como fechar a fronteira nem recursos para aguentar as consequências de sua abertura. Tudo muito B23.

O que me salva é um livro de Antônio Damásio, “A estranha ordem das coisas”. Fala de miniorganismos, de como as bactérias sentem o ambiente e reagem de forma organizada para sobreviver a ele. Elas fazem alianças até com inimigas, para sobreviver.

Essa sabedoria bacteriana, essa capacidade de realizar a homeostase, equilibrar diferentes variáveis, seria fundamental num momento em que estamos com uma perspectiva de dias piores ainda.

Crescimento econômico e mais consumo não bastam. Será preciso reativar valores, pois foi sua falência que nos trouxe à ruína. Enquanto não soar a consciência do perigo à frente, mesmo consumindo mais, nossas esperanças no país continuarão baixas.

No 23B, estreitos cenários do segundo turno, as promessas de reforma política, mas ninguém combinou com os russos. Ainda nem sabemos quem serão os russos, a suspeita é de que sejam os mesmos de sempre.

Certamente, acharemos a saída. É pouco mais difícil achá-la aqui no 23B. Estamos chegando, vejo o Rio de Janeiro, minha alma canta. Canta de teimosa no estreito assento do meio. Crivella baixou a taxa municipal de exumação. Depois da morte, não é que a vida melhorou?

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Agora Luzia é morta

O Museu Histórico Nacional agora é uma ruína histórica. O prédio e o acervo sofreram incêndio criminoso. Resta à perícia dar o atestado de óbito indicando a causa e os criminosos, que todos já conhecem de longa data: a incúria e o descaso apocalípticos do país.


O Brasil não só perdeu o prédio da família imperial ou o quinto maior acervo do mundo. Puseram fogo no imaginário nacional com a perenidade do símbolo de sua História e Pré-História. Lamentam e choram milhões que o patrimônio histórico e científico, legados pétreos, viraram cinzas em poucas horas. A memória humana, além da história brasileira, foi levada pelo fogo e a água.

Falam em reconstrução em mais uma cenografia de quem se lixa para as referências da memória de um país. Não se pode mais recuperar acervo em cinzas. Enganar pessoas e o futuro a bel-prazer é a própria profanação dos restos mortais. Deve-se respeitar a ruína como exemplo às gerações de como um país maltrata tudo - de gente a instituições, prédios e história - em nome da sustentação do privilegismo.

As lágrimas de crocodilo inundam páginas de necrológico do museu. Nem governos, políticos, instituições, banqueiros ou empresários se empenham em manter a história desde que não seja para cenário de auto-exaltação. A Quinta da Boa Vista, no Rio, com o prédio histórico ao fundo, como cenografia, foi por décadas abusada por um projeto midiático que não rendeu um centavo de direitos de imagem para a instituição, mas milhões para os patrocinadores e promotores em fortalecer seu poderio político-econômico.

As chamas desse domingo iluminaram a hipocrisia nacional. A cultura e o empresariado que choram a perda são os mesmos que ontem prodigalizavam o patrocínio público, em lei, de seus shows pseudo-culturais. A mídia que defendia um ministério único para a Cultura, quase em campanha nacional, não foi capaz de denunciar com a mesma veemência o descaso governamental. O dinheiro da preservação correu sempre de enxurrada para alimentar a cultura dos estandartes político-ideológicos. Aqueles que nunca promoveram nenhuma iniciativa para a defesa do museu contra o descaso de governos, talvez mesmo nunca pisaram no prédio, promoveram um “braço” às ruínas.

A memória, registro da Humanidade, nunca foi, nem é, cuidada como deve ser no país. Não será agora que o brasileiro deixará de lado a hipocrisia de matar e depois chorar o morto para cenograficamente idealizar um futuro. 


A cremação de "Luzia", a mulher brasileira de 12 mil anos, exemplifica um país que se lixa para si mesmo desde que haja lucro em suas supremas castas. Pois que deixem as ruínas do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista como memória deste país que todos fizeram e fazem.
Luiz Gadelha

Deputado vale mais

Museu Nacional deveria receber R$ 515 mil anuais 

Cada deputado federal custa mais de R$ 2,14  milhões por ano

Apoteose tabajara

Evitemos ferir suscetibilidades falando em candidatura fake, farsa, palhaçada, carnaval, molecagem, chanchada, em relação ao circo armado para não cumprir a Lei da Ficha Limpa — promulgada por Lula nos tempos em que era presidente, e os anos não trazem mais. O realismo aconselha que não adianta o eleitor se paralisar, perdido numa campanha eleitoral cheia de dúvidas, que acabam por configurar a impressão que o PT quer passar ao mundo: a de que, na melhor das hipóteses, o Brasil vive uma democracia tabajara, quando não a encarnação do Bananão a que se referia Ivan Lessa.

Enquanto tomamos pé no quadro definido pela Justiça Eleitoral, prestemos atenção ao outro lado do pleito em que decidiremos nosso futuro daqui a um mês. Olho vivo nos deputados e senadores que vamos escolher.


Vamos nos informar e debater com os amigos sobre os candidatos ao próximo Congresso. Garimpar escolhas racionais que pareçam dignas. Não dá para esquecer aquele vergonhoso desfile de oradores se sucedendo ao microfone na votação do impeachment da Dilma. Aproveitemos este mês para analisar os pretendentes à Câmara e ao Senado. Deles sairão os eleitos que devem definir a reforma política, a da Previdência, a tributária e outras medidas necessárias ao fim dos privilégios, para começar a dar jeito no que está aí. Compete-lhes conter as decisões irresponsáveis, corporativas e populistas que vêm quebrando o país. Eles é que aprovarão ou não as prioridades corretas para retomar o crescimento, reduzir a desigualdade entre nós e proteger o meio ambiente. Caberá a eles romper as práticas corruptas que nos trouxeram até aqui, e deter a incompetência e o despreparo do Congresso dolorosamente incapaz que temos visto.

Há nomes novos que parecem interessantes. Há alguns experientes que merecem respeito, em diferentes partidos, mesmo com alguma restrição aqui e ali. Precisamos contar com bons deputados e senadores. Somos responsáveis por sua escolha.

Voto leviano constrói a apoteose tabajara.

Pensamento do Dia

                                                                              Pawel Kuczynski

Um país exausto

O vaivém nos últimos dias a respeito do reajuste salarial do funcionalismo, defendido com obstinação pelas corporações malgrado o estado crítico das contas públicas, serviu para lembrar a existência de dois países chamados Brasil: o Brasil real, no qual a maioria dos trabalhadores, se der sorte de arranjar emprego, recebe salários determinados pelas duras condições de mercado, pode ser demitida a qualquer momento e tem escassa capacidade de mobilização política; e o Brasil dos servidores públicos, onde grande parte de seus felizes habitantes conta com estabilidade no emprego, ganha muito acima da média do mercado, aposenta-se em condições privilegiadas e dispõe de imenso poder de convencimento em Brasília.

O fato é que o Brasil dos servidores públicos está exaurindo o Brasil dos trabalhadores comuns, de cujo rendimento saem os impostos que sustentarão os proventos dos cidadãos daquele outro país. E isso fica claro não apenas quando se comparam as discrepantes condições de trabalho e de aposentadoria de uns e de outros, das quais se destacam os muitos penduricalhos e benefícios de que usufruem várias categorias de servidores públicos, a maioria dos quais jamais seria obtida no setor privado. A exaustão do Brasil real se dá especialmente porque uma parte considerável de suas agruras fiscais se deve à sempre crescente demanda de recursos por parte do país dos servidores públicos - invariavelmente, é claro, movido pelas melhores intenções.


Um exemplo caricato desse discurso se deu quando o ministro Ricardo Lewandowski defendeu para ele e seus colegas de Supremo Tribunal Federal um reajuste salarial de 16,38%, com impacto na folha de todo o Judiciário e, por tabela, de todo o resto do funcionalismo. Lewandowski sugeriu que aquele porcentual era quase nada perto dos “milhões e milhões de reais que os juízes federais e estaduais recuperam para os cofres públicos” em processos contra corruptos - como se os juízes estivessem fazendo um favor a seus vizinhos do Brasil real ao punir corruptos, razão pela qual a majoração salarial seria uma justa comissão de sucesso.

Mas o problema é que a mentalidade que alimenta esse Estado a caminho da inanição graças à voracidade cada vez maior das corporações vai muito além de raciocínios quase anedóticos - mas sem a menor graça - como esse do ministro Lewandowski. Predomina há muito tempo no País a visão segundo a qual é preciso garantir uma série de direitos sociais para a população em geral, especialmente os mais pobres, e isso só seria possível com a manutenção de um Estado forte, bem estruturado e, claro, com uma elite bem remunerada. O problema é que, quanto mais direitos se criam - e a Constituição atual mostra que não há limites para essa criatividade -, maior tem de ser a máquina supostamente dedicada a atender-lhes.

Na prática, portanto, o resultado é o exato oposto do pretendido: quanto maior o Estado, quanto mais prebendas aufere a elite dos servidores públicos, quanto mais recursos são dragados, menor é a capacidade dessa máquina estatal de atender às necessidades do Brasil real.

Os indicadores sociais, por exemplo, só fazem piorar. Dados divulgados em julho mostram que a mortalidade infantil avançou 4,8% em 2016 em relação a 2015, o primeiro aumento desde 1990. Em grande medida, esse desempenho lamentável é fruto de outro vergonhoso déficit, o de saneamento básico - apenas metade dos brasileiros tem acesso a coleta de esgoto. Ademais, os mais recentes dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram que 70% dos alunos que terminam o ensino médio têm nível considerado insuficiente em matemática e português. A indecorosa lista de falhas desse Estado balofo inclui ainda o colapso da segurança pública, o estado tenebroso da infraestrutura e as carências extremas do sistema público de saúde.

Enquanto isso, como noticiou recentemente o Estado, a empresa estatal criada em 2011 pelo governo de Dilma Rousseff para tocar o megalomaníaco projeto do trem-bala continua a funcionar, com 146 servidores, vários dos quais com salários acima de R$ 20 mil. Como se sabe, o trem-bala não saiu do papel, mas, no Brasil da fantasia, isso não tem a menor importância. Os alicerces do Estado só se abalam quando os caprichos das elites corporativas são negados.
Editorial -  O Estado de S.Paulo

Vencedores na vida

Pensando bem talvez mundo seja feito só para queles que são donos dele agora, e há pessoas que nunca vão ser nada. As pessoas que vão vencer são aquelas que já venceram, e essas não estão correndo nenhum risco agora
V. S.Naipaul, "Gerruilheiros"

As mortes do dia 20

No dia 20 de agosto de 2018, o Rio de Janeiro teve mais um dia daqueles terríveis. Matou-se nos quatro cantos da cidade. Sabemos quem são os mortos, os de sempre: negros, jovens, moradores da periferia, alguns que trabalham no tráfico, outros que simplesmente vivem ali onde o tráfico — e não só ele — está entrincheirado. Há um grito para que legalizem a pena de morte, mas ela, se não está legalizada, impera entre nós. Praticada pelo Estado, praticada pelo tráfico (pelo roubo, pelo sequestro). A pena de morte não resolve, temos prova suficiente disso, basta tirar o véu dos olhos. A violência não coíbe a violência, ao contrário, alimenta-a. Minha utopia, digo e redigo: desarmar a polícia, o Estado. A reação dos bandidos se daria no mesmo sentido, por que gastar tanto com armas se o outro lado não as tem mais? Meu leitor, você está lidando com um utópico, guarde um pouco de seu pragmatismo ao combater minhas ideias. Vamos nos alimentar de um sonho.


Querem reduzir a maioridade penal, pois, argumentam, as crianças estão carregadas de maldade e portam fuzis. Perguntar a razão disso não se pergunta. Isso de perguntar muito não leva a lugar nenhum. Melhor prender, arrebentar, dar um corretivo ou mesmo o corretivo final. Crianças? Que não vinguem. O fato é que muitas delas já estão encarceradas nos estabelecimentos que deveriam servir a sua reeducação. E essas crianças, um jornal do Rio de Janeiro, na véspera do 20 de agosto, mostrava, umas assassinam as outras. Essas crianças suicidam-se. Elas já recebem o tratamento que os senhores da violência imaginam ser a solução para o futuro do país. Em vez da violência, plantemos uma utopia. Vamos nos alimentar de um sonho.

Os que acreditam no chicote e na bala não são pessoas de diálogo, claro que não. Como seriam? Ouvir o outro pode significar baixar a mão, recolher o relho, tirar as balas da culatra e enfiar para sempre a arma no coldre, o coldre no lixo. Dar ouvido ao outro pode significar entendê-lo, dar-lhe razão. Mas como abandonar suas próprias razões, essas adquiridas não com reflexão, mas com experiência? Qual experiência? Ora, não venham com perguntas, eles não gostam de perguntas. Eles têm resposta. Mas respondem a quê, se não respondem a uma pergunta? Não respondem. O que fazem então? Reproduzem a ignorância alheia. Matem. O ladrão? Matem. A mulher que não baixa a cabeça? Matem. O pedinte? Matem. Deixemos que a morte faça o seu serviço sujo, ela existe para isso, não precisamos, feito Deus, agir por ela. Plantemos uma utopia. Vamos nos alimentar de um sonho.

Alexandre Brandão

Menos estado, mais prisão: a rota do milhão

Não existe Estado mínimo grátis. Estudiosos da segurança pública e da economia política do crime, em diversas partes do mundo, identificam que a retração de políticas de bem-estar gera expansionismo nas políticas de repressão: do minimalismo governamental ao maximalismo penal, o caminho de um ponto a outro não é acidente ou mera coincidência. Quanto menos dinheiro público de um lado, mais do outro. As variáveis e causalidades são mais complexas do que essa equação sugere, mas a síntese da correlação mostra-se universal. Falta-nos, portanto, um retrato fiel sobre o significado do Estado mínimo: o apelido do “Estado-guarda-noturno”, aquele vigia simpático que protege sua casa (em bairro nobre), na prática significa “Estado-penitenciária”. Sai caro para todo mundo.

O problema, claro, não é só de finanças públicas. O Brasil vive sob vertiginosa taxa de crescimento de sua população carcerária, que já ultrapassou os 700 mil, a terceira do mundo. Os presos sem condenação tangenciam os 300 mil. O déficit de vagas ultrapassa os 350 mil. Segundo dados oficiais, os mandados de prisão em aberto beiram os 600 mil. Se tudo der certo, o projeto brasileiro de encarceramento em massa ultrapassará 1 milhão de “beneficiários” no fim desta década ou começo da próxima.


O problema, claro, não é só de números. A população carcerária brasileira é composta de maioria de homens jovens, negros, que não completaram o ensino fundamental. Essa maioria foi presa por crimes contra o patrimônio (37%) ou de tráfico de drogas (28%), típicos de pessoas de alta vulnerabilidade socioeconômica. Por homicídios, apenas 11%. A Constituição de 1988 proíbe tratamento desumano ou degradante e também as penas cruéis (Art. 5º), uma homenagem insólita às condições de insalubridade de nossas prisões.

O problema, claro, não é só de violação de direitos. O crime organizado aprendeu a lucrar com isso. Multiplica a violência nas ruas e nossa sensação de insegurança. Nos últimos cinco anos, por exemplo, o PCC aumentou em 700% seus integrantes fora do estado de São Paulo (de 3 mil para 20 mil). O sucesso empresarial do PCC está imbricado no sistema prisional (recomendo o recém-lançado livro A guerra — A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, escrito por Bruno P. Manso e Camila N. Dias). Uma forma de resumir a lei geral do encarceramento brasileiro seria esta: quanto mais prisão, mais crime organizado; quanto mais crime organizado, maior corrosão da política e da democracia. Como muitas leis sociológicas, são contraintuitivas, ignoram ideologias e desafiam o senso comum. A política pública falha em neutralizá-las. Os autores morais e intelectuais do massacre prisional brasileiro não habitam apenas os palácios de governo, as Assembleias e os quartéis, mas também os palácios de Justiça.

As ciências sociais e a sociedade civil organizada, por meio de seus diagnósticos e recomendações, têm contribuído na elucidação do tema (para citar algumas instituições: Conectas, Instituto Sou da Paz, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto Igarapé, IBCCRIM, Pastoral Carcerária, Rede Justiça Criminal, IDDD). As publicações “16 medidas contra o encarceramento em massa” e “Segurança pública é a solução”, disponíveis na rede, oferecem bons critérios para avaliar os programas de presidenciáveis.
Curar a desinteligência penal brasileira é uma missão que não perde de nenhuma conquista civilizatória da qual possamos nos orgulhar, como as abolições da escravatura, da pena de morte ou da tortura. Numa democracia com alto grau de desigualdade e elites com baixo grau de compromisso público e educação política, a missão de candidatos à Presidência de hoje e de amanhã é enfrentar o debate sem recorrer à cartilha do populismo penal, repleta de promessas de balas de prata. Os programas que estão na mesa variam em conhecimento técnico, seriedade e profundidade. Alguns continuam a pensar a segurança pública como sinônimo de arma, polícia e prisão, numa política de “ganha quem tiver calibre mais grosso”. Outros não subestimaram sua inteligência. Resta ler antes de votar.Conrado Hübner Mendes

Brasil incendiário

Os dois cavaleiros do apocalipse

Engana-se quem pensa que o fundamentalismo político é privativo dos que se identificam como “de esquerda”. Agora, nos escombros deixados pelo furacão Dilma Rousseff, surgiu um fundamentalismo que se apresenta como “de direita” e que àquele se assemelha em certos aspectos cruciais. Refiro-me ao bolsonarismo.



O fundamentalismo de esquerda, cujo principal representante entre nós é o petismo, prometia conduzir-nos ao paraíso terrestre da sociedade sem classes. O bolsonarismo promete passar o País a limpo com uma só cajadada, livrando-o do crime, da corrupção, do patrimonialismo e do corporativismo. Assentado sobre uma crença infantil num big-bang primordial, num imaginário quilômetro zero, isento de marcas negativas deixadas pela História, ele se propõe, como objetivo, a refazer o País de alto a baixo. A questão de fundo é de uma clareza meridiana. Esse novo fundamentalismo surgiu entre os escombros deixados pelo furacão Dilma Rousseff. Juntos, o colapso econômico e a corrupção sistêmica aguçaram o desejo de mudança. Agora todos querem (queremos) mudanças profundas, enérgicas, abrangentes - o que é ótimo. Mas daí ao mito romântico do big-bang primordial e aos mantras do “governo forte” e do “salvador da pátria” vai uma grande distância.

Assim como o fundamentalismo esquerdista, o bolsonarismo tende ao pensamento mágico, com certo cariz totalitário. O que lhe escapa, e é a pedra angular da filosofia liberal-democrática, é que todos os governos têm sua ação necessariamente limitada pela realidade social. Mais ainda no regime democrático, a política é sempre e necessariamente uma atividade com fins limitados. A “refundação radical” e o quilômetro zero não passam de piedosas lorotas. Essa limitação fundamental se deve, desde logo, à escassez, ou seja, ao montante sempre insuficiente dos recursos que um governo é capaz de mobilizar a fim de resolver de forma cabal os problemas que considera prementes. Exemplifico: o Brasil reinveste anualmente 16% de seu PIB; a China reinveste 40%, cresce a taxas persistentemente superiores à média mundial e, mesmo assim, ainda abriga um oceano de pobreza.

O candidato Jair Bolsonaro dá a entender que resolverá o problema da violência facilitando o acesso do cidadão comum a armas de fogo. Uma resposta pífia, já se vê, para o crítico problema que adotou como carro-chefe de sua propaganda. Mas, antes disso, aí pelo menos há uma variação. Curioso seria se sua solução consistisse tão somente em mandar o Exército, providência que o presidente Michel Temer pôs em prática no Rio de Janeiro desde o início deste ano, com resultados reconhecidamente modestos. Também aqui não descabe especular que o candidato Bolsonaro não consegue enxergar além dos estritos limites do pensamento mágico. Parece crer que os criminosos são uma parcela fixa da sociedade, bastando, pois, aniquilá-la para que o crime como tal desapareça. É exatamente assim, aliás, que uma proporção elevada dos seguidores do deputado Bolsonaro vê a influência do pensamento de esquerda no Brasil.

Sim, claro, há um esquerdismo amplamente difundido no País, nisso nada havendo de novidade. Nas universidades e até em parte do ensino médio, professores e estudantes curtem o embalo do “socialismo”, em geral sem saber direito do que estão falando. No clero, também: desde a Conferência Episcopal de Medellín (1968), a CNBB passou a se comportar praticamente como uma linha auxiliar do PT. Na imprensa também sempre houve comunistas, bastando lembrar que o sucesso das novelas da Globo se deveu inicialmente ao talento artístico de alguns deles. Mas daí a dizer que estamos na iminência de uma revolução “bolivariana” vai uma grande distância.

Não acredito que Jair Bolsonaro compartilhe o tosco entendimento da esquerda presente no imaginário de muitos de seus adeptos. Na hipótese de se tornar presidente, não o vejo como um projeto de herói solitário, tentando sozinho erradicar uma tradição política tão profunda e complexa. O esquerdismo tende a perder força, mas paulatinamente, pela ação dissolvente do próprio processo democrático e dos imperativos da modernização econômica. Sabemos todos que o petismo surgiu há três décadas e meia, antes do colapso da URSS, já como uma ideologia moribunda. O grande sucesso que logrou no Brasil se deveu em parte à condutibilidade atmosférica do esquerdismo que já tínhamos e, principalmente, à imprecisão enganosa de sua tese principal, a de “um socialismo ainda por construir”. Atacá-lo frontalmente é um atalho seguro para trazê-lo de volta ao ringue, com suas noções arcaicas de economia, cuja capacidade destrutiva Dilma Rousseff demonstrou à saciedade.

Outro traço característico do fundamentalismo presente no atual debate político é a verborragia antipolítica, quero dizer, o devaneio de liquidar a “política tradicional”. Explícita ou implicitamente, esse é o discurso de candidatos que não conseguiram formar alianças e se valem desse caminho para criticar o apoio do chamado Centrão ao candidato Geraldo Alckmin. Supondo, para argumentar, que haja sinceridade nesse discurso, a preliminar óbvia é como pretendem formar uma base no Congresso Nacional. Um presidente com tal perfil optaria por governar e aprovar reformas sem dispor de maioria? A questão suscitada é importante, mas o silêncio embutido nas respostas é de estourar os tímpanos, como diria Nelson Rodrigues. É também o fato, inegável, de a chamada “política tradicional” ser o vestuário externo do velho patrimonialismo, conservado em formol e reforçado por nossa esdrúxula estrutura política, que cedo ou tarde terá de ser reformada.

Reformas, eis o nome do jogo. Com persistência e habilidade, é possível efetivar reformas que cortem o tubo de oxigênio do patrimonialismo.

Eleitos colaboram na matança

Resultado de imagem para urna dá dedada charge
Na América Latina não há mais golpes, mas a democracia continua morrendo por meio de líderes eleitos
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, “Como as democracias morrem”

Troça, chacota, deboche

Goste-se ou não delas, leis balizam a organização da coletividade, garantem direitos e deveres, impõem punições. Têm de ser respeitadas e, por óbvio, cumpridas. Mas por aqui o descaso com as leis e até mesmo com a Constituição é generalizado, a começar por aqueles que por dever de ofício juram lealdade a elas.

Foi o que se viu na madrugada de sábado, quando o TSE, depois de indeferir o registro do ex Lula, afagou o condenado com a permissão de que o PT continuasse usufruindo do horário eleitoral de rádio e TV nos dias dedicados aos candidatos à Presidência da República. A decisão estapafúrdia, tomada longe dos holofotes durante um rápido intervalo, produziu mais uma anomalia no já tumultuado processo eleitoral: a campanha presidencial de um não-candidato à Presidência.


O PT protagoniza outro absurdo jurídico. A presidente cassada Dilma Rousseff é o único caso conhecido de alguém que perde o mandato e mantem seus direitos políticos, contrariando os dizeres da Constituição – a mesma que impediu Fernando Collor de Mello de disputar eleições por oito anos.

Dilma foi liberada por um arranjo entre os então presidentes do Senado, Renan Calheiros, e do STF, Ricardo Lewandowski. Por maioria simples, eles conseguiram o impossível: alterar a Carta Magna, que só pode ser mudada em votação dupla por dois terços dos integrantes da Câmara e do Senado.

A manobra espúria de 2016, que completou dois anos na sexta-feira, continua a ter efeitos deletérios. A ex lidera a disputa para o Senado em Minas Gerais e alimenta sonhos vingativos de vir a presidir a Casa que a cassou.

Com a burla de leis consagrada por cortes superiores, seria demais exigir que o PT cumprisse a proibição de Lula aparecer como candidato na propaganda eletrônica petista de sábado. Lula está lá 100% do tempo. Embora não peça votos para si, o programa inteiro girou em torno de sua candidatura – a que o TSE indeferiu e, portanto, é absolutamente ilegal.

No site da coligação, os comerciais televisivos estão expostos na íntegra, com a assinatura Lula Presidente, desafiando a Justiça, que impediu qualquer tipo de propaganda com o ex como candidato. E faz chacota com a Corte eleitoral na chamada “assista aos programas de Lula que o TSE não quer deixar passar na TV”.

Não há indicações de que o PT mudará o rumo da campanha.

Ainda que internamente haja conflito quanto ao melhor momento de substituir oficialmente o candidato impedido, o partido terá de decidir o que fará nos próximos oito dias. Se escolher colocar Fernando Haddad como cabeça da chapa perde, legalmente, a possibilidade de recorrer para tentar registrar Lula, que não poderia ser reposto no lugar do ex-prefeito de São Paulo.

Mas sabe-se lá. Depois de ser tão mimado por decisões heterodoxas dos mesmos tribunais que o PT demoniza, o partido tem motivos de sobra para crer em novos benefícios. Afinal, quem imaginaria Dilma cassada podendo disputar votos dois anos depois, ou que um candidato condenado por 12 anos, preso por corrupção e lavagem de dinheiro e impedido de ser candidato pela Lei da Ficha Limpa, estaria sorridente na TV.

Nada disso aconteceria se as leis fossem respeitadas, sem jeitinhos ou agrados para alguns.
Mary Zaidan

Há cinismo sobre as cinzas do Museu Nacional

O retrato de uma sociedade é o resultado da análise de tudo o que sobra para ser desenterrado muitos anos depois. No futuro, quando a arqueologia fizer suas escavações à procura de sinais que ajudem a entender a decadência do Brasil, encontrará em meio aos escombros deste domingo, dia 2 de setembro de 2018, evidências de que o cinismo é o máximo de sofisticação filosófica que a civilização foi capaz de alcançar nesta terra de palmeiras. Só o cinismo aproximará o Brasil da verdade.

Numa velocidade de truque cinematográfico, as chamas consumiram a história armazenada durante 200 anos no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio. Os arqueólogos encontrarão uma camada de oportunismo político sobre as cinzas. Eles se espantarão com os resíduos de uma nota oficial de Michel Temer.


Lerão no documento: ''Incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros''.

Os pesquisadores descobrirão que o mesmo Temer dera de ombros para a tentativa do diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, de ser recebido no Planalto. Queria conversar sobre as ruínas da instituição e a necessidade de reformas. Pleiteava a ocupação de um terreno da União. Nele, instalaria a administração do museu, para que o prédio histórico pudesse ser restaurado. Mas Alexander não conseguiu passar “do cara do cafezinho”.

Os arqueólogos gargalharão quando derem de cara com uma manifestação da senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT: “O museu é mais uma vítima do golpe, da turma do austericídio.” Constatarão que o torniquete financeiro que asfixiou o museu foi agravado sob Dilma Rousseff, a quem Gleisi servira como ministra-chefe da poderosa Casa Civil da Presidência.

Desde o ocaso do primeiro mandato de Dilma que o Museu Nacional, subordinado à Universidade Federal dio Rio, não recebia nem mesmo a totalidade dos R$ 520 mil anuais que deveriam custear sua manutenção. A rubrica murchou para R$ 427 mil em 2014. Gleisi não chiou.

A cifra caiu para R$ 257 mil em 2015. Nem um pio de Gleisi. Em 2016, ano do impeachment, liberaram-se R$ 415 mil. Nada de Gleisi. No ano passado, R$ 346 mil. E Gleisi: “zzzzzzzzzzzz”. Até abril de 2018, foram repassados irrisórios R$ 54 mil. Súbito, o incêndio ateou em Gleisi uma indignação cenográfica.

A arqueologia concluirá que a decadência transformou o Brasil numa cleptocracia pós-ideológica. O problema não era de esquerda nem de direita. O problema era a meia dúzia que se revezava por cima, zelando para que as verbas do Tesouro Nacional, extraídas do bolso dos que estavam por baixo, continuassem saindo pelo ladrão.

Quando for estudada no futuro, a realidade brasileira parecerá ainda mais inacreditável. Além do cinismo, os estudiosos ficarão intrigados com o excesso de ironia. Descobrirão que, por uma trapaça do destino, a história guardada no Museu Nacional virou cinzas num instante em que o BNDES liberava R$ 21,7 milhões para reformar o prédio. O fogo chegou antes.

Coube aos bombeiros realizar a descoberta mais constrangedora: a inépcia e a corrupção cresceram tanto que fizeram desaparecer no Brasil até a água dos hidrantes. Uma declaração do ministro da Cultura de Temer revelará que, no dia 2 de setembro de 2018, desapareceu também o senso de ridículo das autoridades:

''Já falei com o presidente Michel Temer e com o ministro da Educação. Vamos começar a fazer o projeto de reconstrução do Museu Nacional, para ver quanto é e como viabilizar.'' Os arqueólogos atestarão que, do ponto de vista político, o homem público brasileiro era apenas um cadáver mal informado. Não sabia que havia morrido.