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| Farol Petit Minou, Brest (França) |
quarta-feira, 14 de março de 2018
Visita imprópria: o investigado Temer na casa da juíza Cármen
A ministra Cármen Lúcia sempre demonstrou cuidado com sua imagem pública. Por isso, é difícil entender o que ela esperava ao receber Michel Temer para uma conversa privada. A presidente do Supremo Tribunal Federal abriu a própria casa para o mais ilustre investigado da Corte. O encontro ocorreu num dia de folga, sem testemunhas e fora das agendas oficiais.
A visita já seria imprópria em tempos de calmaria. Está longe de ser o caso. Temer voltou à mira da Lava-Jato. Sob pressão, tem aproveitado todas as oportunidades para reclamar do Supremo.
Em quatro dias, o presidente sofreu duas derrotas no tribunal. O ministro Luís Roberto Barroso quebrou seus sigilos no inquérito dos portos, que investiga o favorecimento de uma empresa do setor. O ministro Edson Fachin o incluiu no inquérito da Odebrecht, que apura o repasse de dinheiro sujo a seu partido.
O poderoso chefão do PMDB esbravejou duplamente. Seus aliados dizem que não havia motivo para a abertura das contas e que ele não poderia ser investigado por fatos anteriores à posse. As duas queixas revelam uma tentativa de colocar o presidente acima da lei.
No caso dos portos, Barroso seguiu o roteiro de toda investigação de corrupção. Se quebrou o sigilo dos coadjuvantes, não teria por que blindar o protagonista. Isso não significa que ele espere encontrar propina depositada na conta do presidente. Como diz o ministro Moreira Franco, não há amadores no Planalto.
No inquérito da Odebrecht, Fachin também fez o básico: atendeu a um pedido da procuradora-geral da República. Nomeada por Temer, ela entendeu que a Constituição impede que ele seja denunciado, e não investigado, por “atos estranhos ao exercício de suas funções”.
Para evitar constrangimentos, Cármen deveria ter evitado o encontro do último sábado. Se o investigado insistisse, a juíza poderia marcar uma reunião em dia útil e em local público, com registro na agenda oficial.
Seu colega Ricardo Lewandowski mostrou como se faz em 2015, quando Eduardo Cunha tentava emparedar o Supremo e interferir no rito do impeachment. O ministro recebeu o deputado, mas abriu as portas do gabinete e convidou a imprensa para ouvir a conversa.
Para evitar constrangimentos, Cármen deveria ter evitado o encontro do último sábado. Se o investigado insistisse, a juíza poderia marcar uma reunião em dia útil e em local público, com registro na agenda oficial.
Seu colega Ricardo Lewandowski mostrou como se faz em 2015, quando Eduardo Cunha tentava emparedar o Supremo e interferir no rito do impeachment. O ministro recebeu o deputado, mas abriu as portas do gabinete e convidou a imprensa para ouvir a conversa.
Misteriosos mundos de sócios
O crime organizado é um sistema que se aproveita das certezas erradas do sistema de valores do Estado de Direito. Para ambos, a civilização é uma obra-prima em perigo. Já o povo é o peão desse jogo de xadrez.
Os dois sistemas são contaminados pela fartura. Um usa a liberdade sem limite, o outro quer limite na defesa da liberdade. A promiscuidade não os ameaça de extinção. Os dois querem moderação, como se a alta violência entre nós fosse fruto de falta, e não de excesso. Quando o governo acerta, e a maioria aplaude, o mal aciona o desafeto e impõe a lentidão.
A resistência humana é feita pela maioria silenciosa, que sabe ser necessário enfrentar o crime, devolver a liberdade ao cidadão, libertar jovens da cilada, bloquear o engajamento da boa-fé no erro. O sabe-tudo usa a negatividade para deter a esperança.
O crime na política liquidou a inteligência e projetou a patologia da desinfecção no País. É hora de enfrentar a onda de destruição da autoridade feita por má autoridade, pelo autoritário e pela falsa limpeza do sujo.
O niilismo gangrena a sociedade democrática. Há cada vez menos políticos universalistas, humanistas, progressistas, liberais. Prospera quem for de gueto, famiglia, facção. O mal fala bem com o sectário, azeda diálogo, provoca infelicidade no círculo dos livres. A manipulação é seu roteiro de alucinação. Afogar o povo na infecção mortal do pessimismo.
O Brasil não está erigido sobre contratos formais respeitados. Todos os interesses são esquartejados pela mais primitiva exaltação do individualismo. Ninguém é informado de que ultrapassou o porcentual de bobagem que pode dizer em público e, pasmo, a mixórdia no Supremo é de deixar Abraão descrente. Um feudalismo judicial provinciano domina a cena da Alta Corte, descomprometida com a norma que a regula. É um abre-fecha, multitarefa, cria lei como quem rola pedra. Há ministro que quer o País vestido com a sua fantasia. Parece autor dessas novelas para quem não resta mais protegida nenhuma partícula privada do destino do cidadão. A transparência do mal e sua obsessão pela lascívia.
No caso da segurança pública, quando um manipulador diz recear alguma coisa, esteja certo de que é isso mesmo que ele deseja provocar. Mas podemos apostar, pela alta qualidade do silêncio das ruas, que surge nova geração de militantes da cultura da paz, outros procedimentos e horizontes se abrem.
O poder do crime não aceita ser reversível, como o poder democrático. Opera por contatos e intimidações, não é uma instituição, é um campo de força gravitacional. Sua infiltração magnética na sociedade é infinita. Balada insana, domina tudo, invade a tela, corrompe igreja, empolga especialista. Não encontra mais resistência. Não pode ser derrubado sem ver o fundo da doença, sua imantação social, o ciclo monetário e legal que o sustenta.
Conseguiu misturar sentimentalidade com terror, sigilo com cumplicidade, praia com arrastão, descontração carioca com domínio do medo. Tudo sobre segurança pública vaza para os seus alvos numa fuga ao pudor do Estado.
O que os opositores da prontidão no Rio talvez pressintam é o fato de que a esperança que desperta não é da ordem da força, nem do poder. Ela desacumula o real viciado e privilegia sua unilateralidade fora do poder, dos partidos, das instituições dominadoras. É a porta-voz dos costumes adormecidos, que é pensar livremente. O apoio da massa silenciosa à política acertada de um governo sob ataque de um arrepia-cabelo na má consciência nacional.
O vazio por trás do poder assusta os que pretendem ser donos da ilusão do povo, das massas inertes, indiferentes aos interesses do poder. A elevada motivação das operações de paz, o voluntarismo neutro e generoso, a cruz vermelha que surge na hora certa no lugar necessário, o médico sem fronteira que não cobra nada para cuidar dos que acolhe estão acima da conversa fiada dos donos de poder. A fascinação pela paz e pela vida tranquila é uma catástrofe para quem fez da miséria e da violência mercado lucrativo nesse misterioso mundo de sócios.
O crime revela a tramoia que se tornaram a ideologia e seus personagens dominadores. Sempre impulsiona pela direita gigolôs de quartéis, pela esquerda, gigolôs de pobres. O pessimista, que alimenta os dois espectros, sempre atrasado, se abraça ao realista. Na fase terminal que vivemos, quando a confusão e o contágio atingiram tudo, é impossível deter o surgimento dos messias em todas as instituições. É que a forma de atuar do demagogo, em sua maratona circular, o atravessa para o outro lado, onde se encontra o criminoso.
A indiscriminação de tudo, o pode tudo, é como um vírus contagioso. Um ciclo inteiro, falador, perverso, completou-se. A cultura que o impulsiona é a da irradiação, o triunfo do artificial, do iludir o pobre e saquear o rico. Exacerbada pelo jogo fanático do poder sobre o território dominado, o mesmo apetite de controle do cargo ocupado. Um sistema excessivo que alimenta a epidemia do mal, cujo excedente produzido é a criminalidade em geral.
O maior desafio no controle do crime é o que fazer ao desvendar seu mistério. Quando o tráfico deixa de ser um poder do crime para se tornar um poder político, com sua estratégia de dominação social, começa a se desfazer a verdade do Estado. O que está em jogo é o atalho que o crime organizado usou para se infiltrar e se beneficiar da improvisação da política do País nos últimos anos. Sem estancar as miragens e os abismos que ainda nos dominam não será fácil controlar a farra cultural que produziu tanta intimidade entre dinheiro-poder-delito. Se o social é usado para melhor gravitar na orbita do capital, quem vale mais? Desagregados os valores, tudo se contamina, o positivo não expulsa o negativo.
Os negócios do mal, a atual escravidão do brasileiro. “Andrada, arranca este pendão dos ares. Colombo, fecha a porta dos seus mares”.
Os dois sistemas são contaminados pela fartura. Um usa a liberdade sem limite, o outro quer limite na defesa da liberdade. A promiscuidade não os ameaça de extinção. Os dois querem moderação, como se a alta violência entre nós fosse fruto de falta, e não de excesso. Quando o governo acerta, e a maioria aplaude, o mal aciona o desafeto e impõe a lentidão.
A resistência humana é feita pela maioria silenciosa, que sabe ser necessário enfrentar o crime, devolver a liberdade ao cidadão, libertar jovens da cilada, bloquear o engajamento da boa-fé no erro. O sabe-tudo usa a negatividade para deter a esperança.
O crime na política liquidou a inteligência e projetou a patologia da desinfecção no País. É hora de enfrentar a onda de destruição da autoridade feita por má autoridade, pelo autoritário e pela falsa limpeza do sujo.

O Brasil não está erigido sobre contratos formais respeitados. Todos os interesses são esquartejados pela mais primitiva exaltação do individualismo. Ninguém é informado de que ultrapassou o porcentual de bobagem que pode dizer em público e, pasmo, a mixórdia no Supremo é de deixar Abraão descrente. Um feudalismo judicial provinciano domina a cena da Alta Corte, descomprometida com a norma que a regula. É um abre-fecha, multitarefa, cria lei como quem rola pedra. Há ministro que quer o País vestido com a sua fantasia. Parece autor dessas novelas para quem não resta mais protegida nenhuma partícula privada do destino do cidadão. A transparência do mal e sua obsessão pela lascívia.
No caso da segurança pública, quando um manipulador diz recear alguma coisa, esteja certo de que é isso mesmo que ele deseja provocar. Mas podemos apostar, pela alta qualidade do silêncio das ruas, que surge nova geração de militantes da cultura da paz, outros procedimentos e horizontes se abrem.
O poder do crime não aceita ser reversível, como o poder democrático. Opera por contatos e intimidações, não é uma instituição, é um campo de força gravitacional. Sua infiltração magnética na sociedade é infinita. Balada insana, domina tudo, invade a tela, corrompe igreja, empolga especialista. Não encontra mais resistência. Não pode ser derrubado sem ver o fundo da doença, sua imantação social, o ciclo monetário e legal que o sustenta.
Conseguiu misturar sentimentalidade com terror, sigilo com cumplicidade, praia com arrastão, descontração carioca com domínio do medo. Tudo sobre segurança pública vaza para os seus alvos numa fuga ao pudor do Estado.
O que os opositores da prontidão no Rio talvez pressintam é o fato de que a esperança que desperta não é da ordem da força, nem do poder. Ela desacumula o real viciado e privilegia sua unilateralidade fora do poder, dos partidos, das instituições dominadoras. É a porta-voz dos costumes adormecidos, que é pensar livremente. O apoio da massa silenciosa à política acertada de um governo sob ataque de um arrepia-cabelo na má consciência nacional.
O vazio por trás do poder assusta os que pretendem ser donos da ilusão do povo, das massas inertes, indiferentes aos interesses do poder. A elevada motivação das operações de paz, o voluntarismo neutro e generoso, a cruz vermelha que surge na hora certa no lugar necessário, o médico sem fronteira que não cobra nada para cuidar dos que acolhe estão acima da conversa fiada dos donos de poder. A fascinação pela paz e pela vida tranquila é uma catástrofe para quem fez da miséria e da violência mercado lucrativo nesse misterioso mundo de sócios.
O crime revela a tramoia que se tornaram a ideologia e seus personagens dominadores. Sempre impulsiona pela direita gigolôs de quartéis, pela esquerda, gigolôs de pobres. O pessimista, que alimenta os dois espectros, sempre atrasado, se abraça ao realista. Na fase terminal que vivemos, quando a confusão e o contágio atingiram tudo, é impossível deter o surgimento dos messias em todas as instituições. É que a forma de atuar do demagogo, em sua maratona circular, o atravessa para o outro lado, onde se encontra o criminoso.
A indiscriminação de tudo, o pode tudo, é como um vírus contagioso. Um ciclo inteiro, falador, perverso, completou-se. A cultura que o impulsiona é a da irradiação, o triunfo do artificial, do iludir o pobre e saquear o rico. Exacerbada pelo jogo fanático do poder sobre o território dominado, o mesmo apetite de controle do cargo ocupado. Um sistema excessivo que alimenta a epidemia do mal, cujo excedente produzido é a criminalidade em geral.
O maior desafio no controle do crime é o que fazer ao desvendar seu mistério. Quando o tráfico deixa de ser um poder do crime para se tornar um poder político, com sua estratégia de dominação social, começa a se desfazer a verdade do Estado. O que está em jogo é o atalho que o crime organizado usou para se infiltrar e se beneficiar da improvisação da política do País nos últimos anos. Sem estancar as miragens e os abismos que ainda nos dominam não será fácil controlar a farra cultural que produziu tanta intimidade entre dinheiro-poder-delito. Se o social é usado para melhor gravitar na orbita do capital, quem vale mais? Desagregados os valores, tudo se contamina, o positivo não expulsa o negativo.
Os negócios do mal, a atual escravidão do brasileiro. “Andrada, arranca este pendão dos ares. Colombo, fecha a porta dos seus mares”.
Tá osso
Como dizem os motoristas de aplicativos: hoje tá osso. É cada tapa na cara. Paciência, tu tens? Hoje vai ser difícil de entender, porque eu também não estou entendendo nada. E vou te levar comigo.
Oh (edição – TT, não põe exclamação depois do meu oh nem vírgula – meu oh é assim mesmo, no seco e sem entonação). Refaço. Oh que falso e inútil poder esse de te levar comigo nessa viagem minha das quintas-feiras, tão rapidinha, engolida com café preto. Corremos vendados no tiroteio. Uma colega com baixa visão contou-me que já perdeu duas bengalas no centro histórico da minha Poa. Foi atropelada por pedestres que nem pararam pra ajudar ou alcançar-lhe as bengalas. Sério, gente, tenho às vezes vontade de descer com o mundo andando mesmo, não precisa nem parar.
Uma empresa da Noruega, a Noruega aquela, sabe, toda limpinha, mineradora de alumínio no Pará, descarta dejetos tóxicos direto no meio ambiente e diz não saber de nada. Depois, contou que, tá, sabíamos, mas não admitimos. Então, sabendo realmente o que (não) vai acontecer, por fim, admitiu. Garante que “vai estar analisando”…
Na Síria, genocídio que não gera notícia. No Rio, intervenção militar nas favelas. Como se a cúpula do crime organizado não estivesse nos gabinetes de Brasília. Aqui pelos pagos (pasmem), estão a desmanchar escolas e bibliotecas pra venderem seus terrenos aos amigos. O Júnior quer acabar com o Adote um Escritor, projeto de incentivo à leitura que é sucesso há vinte anos. Daí pra incendiarem livros é só dizer quero ler. Na boa, alguém me traz um Fontol?
Enquanto isso, no Maranhão, o governador comuna, descarado, pagando quase seis pau aos professores. Deusulivre (assim mesmo, TT, uma palavra só). Deusulivre. Criminoso. Tá osso, gente, até pra motoristas de aplicativos, meu amigo disse que tá dormindo dentro do carro. Garante que tem gente em situação bem pior: “outro colega, foi pra baixo do viaduto”. E o Hulk, vai pro pleito? E o Lula, vai em cana? O Neymar, vai à Copa? Você, vai às urnas? Pois devia. Antes que elas sejam suspensas por tempo indeterminado.
Senhores, vocês senhores, que já mostraram suas caras de pau nas votações da CCJ, já viram a cara das ruas? Estamos com fome, senhores, sem moradia, trabalho não temos, as contas, senhores, estão vencidas, saiam às ruas. Eu queria dizer que é mentira. Eu queria dizer que inventei isso tudo só pra terminar essa crônica. Queria dizer bons futuros. Dizer uma prece. Dormir um semestre, eu queria. Mas escuta, não tá dando.
Aliás, queria mas não posso, entrei na UERGS pra estudar letras, licenciatura. Talvez eu aprenda. Daí, te levo comigo outras vezes nessas minhas viagens, em outros dias, com mais polidez, quem sabe. Lembrei do Lenine: “tendo tudo contra e nada me transtorna/ dentro do meu peito/ um desejo martelo/ uma vontade bigorna”.
E a gente querendo ser feliz, aff… Tu tens paciência? A minha tá acabando.
Oh (edição – TT, não põe exclamação depois do meu oh nem vírgula – meu oh é assim mesmo, no seco e sem entonação). Refaço. Oh que falso e inútil poder esse de te levar comigo nessa viagem minha das quintas-feiras, tão rapidinha, engolida com café preto. Corremos vendados no tiroteio. Uma colega com baixa visão contou-me que já perdeu duas bengalas no centro histórico da minha Poa. Foi atropelada por pedestres que nem pararam pra ajudar ou alcançar-lhe as bengalas. Sério, gente, tenho às vezes vontade de descer com o mundo andando mesmo, não precisa nem parar.

Na Síria, genocídio que não gera notícia. No Rio, intervenção militar nas favelas. Como se a cúpula do crime organizado não estivesse nos gabinetes de Brasília. Aqui pelos pagos (pasmem), estão a desmanchar escolas e bibliotecas pra venderem seus terrenos aos amigos. O Júnior quer acabar com o Adote um Escritor, projeto de incentivo à leitura que é sucesso há vinte anos. Daí pra incendiarem livros é só dizer quero ler. Na boa, alguém me traz um Fontol?
Enquanto isso, no Maranhão, o governador comuna, descarado, pagando quase seis pau aos professores. Deusulivre (assim mesmo, TT, uma palavra só). Deusulivre. Criminoso. Tá osso, gente, até pra motoristas de aplicativos, meu amigo disse que tá dormindo dentro do carro. Garante que tem gente em situação bem pior: “outro colega, foi pra baixo do viaduto”. E o Hulk, vai pro pleito? E o Lula, vai em cana? O Neymar, vai à Copa? Você, vai às urnas? Pois devia. Antes que elas sejam suspensas por tempo indeterminado.
Senhores, vocês senhores, que já mostraram suas caras de pau nas votações da CCJ, já viram a cara das ruas? Estamos com fome, senhores, sem moradia, trabalho não temos, as contas, senhores, estão vencidas, saiam às ruas. Eu queria dizer que é mentira. Eu queria dizer que inventei isso tudo só pra terminar essa crônica. Queria dizer bons futuros. Dizer uma prece. Dormir um semestre, eu queria. Mas escuta, não tá dando.
Aliás, queria mas não posso, entrei na UERGS pra estudar letras, licenciatura. Talvez eu aprenda. Daí, te levo comigo outras vezes nessas minhas viagens, em outros dias, com mais polidez, quem sabe. Lembrei do Lenine: “tendo tudo contra e nada me transtorna/ dentro do meu peito/ um desejo martelo/ uma vontade bigorna”.
E a gente querendo ser feliz, aff… Tu tens paciência? A minha tá acabando.
Exclusivo para pobres
O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas.

No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maiorNoam Chomsky
Michel Temer exilou-se no mundo da hipocrisia
Michel Temer exilou-se no mundo da hipocrisia. Comporta-se como um presidente cenográfico. Encena a peça de um perseguido político (mais um!). Já nem se importa com os fatos que desmentem sua ficção. Nesta terça-feira, falava sobre reforma da Previdência para uma plateia de empresários quando, de repente, ergueu o timbre para enfatizar o seguinte:
''Vocês acompanharam a guerra que eu pessoalmente recebi em razão dos setores interessados nisso. Eu denuncio, eu acuso, eu aponto o dedo. Porque hoje tem que apontar o dedo. Se você não fizer isso, você não reinstitucionaliza o país. E o país perdeu inteiramente a ideia de liturgia, a ideia de autoridade, a ideia de uma certa hierarquia, responsabilidade''.
Horas antes do desabafo teatral, uma novidade tóxica ganhara o noticiário. Ficou-se sabendo que a Polícia Federal fizera uma batida no terceiro andar do Palácio do Planalto na semana passada. Os agentes federais procuravam um computador que guardasse na memória os e-mails trocados por um ex-auxiliar de Temer: Rodrigo Rocha Loures, o homem filmado quando recebia a mala com propina de R$ 500 mil da JBS.
Descontado o cinismo, Temer só pode ser compreendido às avessas. A pose de Émile Zola não orna com sua realidade. Ele não denuncia, foi denunciado criminalmente duas vezes. Não acusa, é acusado de corrupção num par de inquéritos que estão em andamento. Não aponta o dedo, é dedurado por uma penca de corruptos confessos. A liturgia foi para o beleléu quando Temer converteu a sede do governo num bunker que oferece foro privilegiado a auxiliares denunciados.
''…Tentaram degradar-me moralmente”, declarou Temer. “E eu tenho dito com muita frequência que não vou mais tolerar isso. Eu digo que agora vou combater isso, até porque meus detratores, hoje, ou estão na cadeia ou estão desmoralizados.''
Para ser tolerado no Planalto, Temer comprou com cargos, verbas e privilégios a fidelidade dos deputados que congelaram na Câmara as denúncias da Procuradoria. São três os principais delatores que o presidente chama de “detratores”: Marcelo Odebrecht e os irmãos Joesley e Wesley Batista. Já deixaram a cadeia. Usufruem do conforto da prisão domiciliar.
Quem continua atrás das grades é o pedaço da “Turma do Charuto” que perdeu a proteção do foro privilegiado. Gente como Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, cujo encarceramento impede de comparecer aos jantares do Jaburu —seguidos de articulações urdidas na varanda da residência oficial de Temer, em meio à fumaça de bons cubanos.
Solto, Temer compõe o bloco dos “desmoralizados”. No momento, é varejado por duas investigações. Numa, apura-se a propina de R$ 10 milhões da Odebrecht. Coisa negociada num jantar do Jaburu. Noutra, verifica-se a denúncia sobre a troca de propinas por um decreto da área de portos. Com o sigilo bancário quebrado, Temer prometeu entregar os extratos aos repórteres. Já desistiu da ousadia.
A grande pose de Temer não é para a mulher Marcela, o filho Michelzinho, os cúmplices palacianos, os aliados no Congresso ou os ministros do Supremo Luís Roberto Barosso e Edson Fachin. Nada disso. Temer simula as melhores virtudes para o seu próprio julgamento.
No mundo real, Temer é o primeiro presidente da história denunciado por corrupção no exercício do cargo. Ou, por outra, é um réu esperando na fila para acontecer depois que perder as prerrogativas do cargo. No universo da hipocrisia, Temer é um mandatário de mostruário. ''Deixando a modéstia de lado, este será o melhor governo que o país já conheceu”, declarou no discurso para empresários.
''Vocês acompanharam a guerra que eu pessoalmente recebi em razão dos setores interessados nisso. Eu denuncio, eu acuso, eu aponto o dedo. Porque hoje tem que apontar o dedo. Se você não fizer isso, você não reinstitucionaliza o país. E o país perdeu inteiramente a ideia de liturgia, a ideia de autoridade, a ideia de uma certa hierarquia, responsabilidade''.

Descontado o cinismo, Temer só pode ser compreendido às avessas. A pose de Émile Zola não orna com sua realidade. Ele não denuncia, foi denunciado criminalmente duas vezes. Não acusa, é acusado de corrupção num par de inquéritos que estão em andamento. Não aponta o dedo, é dedurado por uma penca de corruptos confessos. A liturgia foi para o beleléu quando Temer converteu a sede do governo num bunker que oferece foro privilegiado a auxiliares denunciados.
''…Tentaram degradar-me moralmente”, declarou Temer. “E eu tenho dito com muita frequência que não vou mais tolerar isso. Eu digo que agora vou combater isso, até porque meus detratores, hoje, ou estão na cadeia ou estão desmoralizados.''
Para ser tolerado no Planalto, Temer comprou com cargos, verbas e privilégios a fidelidade dos deputados que congelaram na Câmara as denúncias da Procuradoria. São três os principais delatores que o presidente chama de “detratores”: Marcelo Odebrecht e os irmãos Joesley e Wesley Batista. Já deixaram a cadeia. Usufruem do conforto da prisão domiciliar.
Quem continua atrás das grades é o pedaço da “Turma do Charuto” que perdeu a proteção do foro privilegiado. Gente como Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, cujo encarceramento impede de comparecer aos jantares do Jaburu —seguidos de articulações urdidas na varanda da residência oficial de Temer, em meio à fumaça de bons cubanos.
Solto, Temer compõe o bloco dos “desmoralizados”. No momento, é varejado por duas investigações. Numa, apura-se a propina de R$ 10 milhões da Odebrecht. Coisa negociada num jantar do Jaburu. Noutra, verifica-se a denúncia sobre a troca de propinas por um decreto da área de portos. Com o sigilo bancário quebrado, Temer prometeu entregar os extratos aos repórteres. Já desistiu da ousadia.
A grande pose de Temer não é para a mulher Marcela, o filho Michelzinho, os cúmplices palacianos, os aliados no Congresso ou os ministros do Supremo Luís Roberto Barosso e Edson Fachin. Nada disso. Temer simula as melhores virtudes para o seu próprio julgamento.
No mundo real, Temer é o primeiro presidente da história denunciado por corrupção no exercício do cargo. Ou, por outra, é um réu esperando na fila para acontecer depois que perder as prerrogativas do cargo. No universo da hipocrisia, Temer é um mandatário de mostruário. ''Deixando a modéstia de lado, este será o melhor governo que o país já conheceu”, declarou no discurso para empresários.
Lava Jato: 'Quo vadis?'
Tenho procurado ler e ouvir, tanto quanto posso, experiências de combate à corrupção, sobretudo – é claro – o caso italiano Mani Pulite.
E ando desassossegada.
Em segundo lugar, porque repartem-se em mil pedaços os casos a cargo dos procuradores da Lava Jato. Parece que, cansados da figura meio dândi de Dallagnol, grupos outros fazem coletivas e mais coletivas ora sobre um, ora sobre outro fato investigável, envolvendo empreiteiras que teriam tido ramificações na Lava Jato. Há casos complexos demais como os das universidades federais – cada uma delas por uma razão –, a primeira das quais com o trágico desfecho do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Depois veio a condução coercitiva na UFMG e agora a operação na UFJF. Recentemente, teve início a investigação sobre coleta de lixo na cidade de São Paulo, o caso do Paulo Preto, envolvendo José Serra, senador por São Paulo, e, ainda relacionado à Odebrecht e à OAS, os supostos desvios milionários do ex-governador da Bahia. Isso sem contar a operação Acrônimo aqui, em Minas, a Zelotes envolvendo fraudes fiscais junto ao Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Ufa!!! – será que me esqueci de alguma delas?
Ah, e ainda vem agora o caso Delfim Netto, que o MPF terá de provar ter sido agente público ao tempo de Lula e Dilma...
Posso eventualmente estar cometendo um tremendo erro, mas sempre me acostumei a pensar que problemas devam ser resolvidos um a um. Como numa guerra: se você abre frentes diversas, acaba encurralado, como ocorreu com Hitler com a frente leste-oeste ao mesmo tempo.
Parece-me que tudo está virando uma barafunda, a confundir tudo e todos e num ano de eleições gerais. Somando-se a isso o intrincado panorama do processo penal brasileiro, com seus inúmeros recursos, suas idas e vindas, posso agora afirmar com certeza: por enquanto, só estão ganhando os advogados de renome, aqueles que são lembrados porque possuem as duas qualidades imprescindíveis num defensor: conhecem um a um os magistrados das Cortes superiores e têm capacidade especializada excepcional. Para esses, não fossem também cidadãos deste país infeliz, estariam gozando momentos insuperáveis.
Espero que tenham também consciência cívica!
Sandra Starling
E ando desassossegada.

Uma, pela demora do relator no Supremo, ministro Fachin, que anda a uma velocidade de carroça, no turbilhão de acontecimentos da vida atual. Ao que me consta, até hoje Sua Excelência continua lendo e mandando investigar a montanha de processos relaciona dos ao caso inicial, o dos escândalos na Petrobras. Gente morreu, gente adoeceu, gente continua vivíssima e dando entrevistas a três por dois, enquanto Fachin medita sobre os processos que dependem dele ou de que ele os leve à turma ou ao plenário. Tudo isso contrasta com a rapidez de Joaquim Barbosa ao tempo da Ação 470 e até mesmo do expedito Teori Zavascki, que, num piscar de olhos, levou ao pleno o caso Eduardo Cunha. Agora é um nhe-nhe-nhém que irrita quem quer respirar um pouco, mesmo com o ar irrespirável que paira sobre o Brasil (e o mundo...).
Em segundo lugar, porque repartem-se em mil pedaços os casos a cargo dos procuradores da Lava Jato. Parece que, cansados da figura meio dândi de Dallagnol, grupos outros fazem coletivas e mais coletivas ora sobre um, ora sobre outro fato investigável, envolvendo empreiteiras que teriam tido ramificações na Lava Jato. Há casos complexos demais como os das universidades federais – cada uma delas por uma razão –, a primeira das quais com o trágico desfecho do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Depois veio a condução coercitiva na UFMG e agora a operação na UFJF. Recentemente, teve início a investigação sobre coleta de lixo na cidade de São Paulo, o caso do Paulo Preto, envolvendo José Serra, senador por São Paulo, e, ainda relacionado à Odebrecht e à OAS, os supostos desvios milionários do ex-governador da Bahia. Isso sem contar a operação Acrônimo aqui, em Minas, a Zelotes envolvendo fraudes fiscais junto ao Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Ufa!!! – será que me esqueci de alguma delas?
Ah, e ainda vem agora o caso Delfim Netto, que o MPF terá de provar ter sido agente público ao tempo de Lula e Dilma...
Posso eventualmente estar cometendo um tremendo erro, mas sempre me acostumei a pensar que problemas devam ser resolvidos um a um. Como numa guerra: se você abre frentes diversas, acaba encurralado, como ocorreu com Hitler com a frente leste-oeste ao mesmo tempo.
Parece-me que tudo está virando uma barafunda, a confundir tudo e todos e num ano de eleições gerais. Somando-se a isso o intrincado panorama do processo penal brasileiro, com seus inúmeros recursos, suas idas e vindas, posso agora afirmar com certeza: por enquanto, só estão ganhando os advogados de renome, aqueles que são lembrados porque possuem as duas qualidades imprescindíveis num defensor: conhecem um a um os magistrados das Cortes superiores e têm capacidade especializada excepcional. Para esses, não fossem também cidadãos deste país infeliz, estariam gozando momentos insuperáveis.
Espero que tenham também consciência cívica!
Sandra Starling
Gilmar Mendes, o Neymar do Supremo
Lembra a escalação daquele STF de 2012? Aquele que julgou o mensalão. Barbosa e Gilmar no ataque; Ayres Britto e Celso de Mello no meio de campo; Lewandowski e Dias Toffoli na defesa. Lembra quando Fux deixou o gol para ir matar aquela bola no peito como ponta direita? Ninguém entendia as jogadas de Marco Aurélio. Rosa Weber e Cármen Lúcia discretas, quase sumidas em campo; Peluso no fim da carreira, pegando os atalhos do campo. Eram tempos de ousadia e alegria na Corte Suprema, que vinha de aprovar populares pautas impopulares, como a união civil entre homossexuais e o aborto de anencéfalos.
Seis anos depois, essas e outras pautas encampadas pelo Supremo Tribunal Federal, como questões ligadas à maconha, não foram apreciadas pelo Congresso Nacional— uma exceção é a cota racial, aprovada posteriormente pelo parlamento. Desde então, a ousadia segue como regra entre os ministros da Corte, mas não se pode mais falar exatamente em alegria. Convocados para atuar em praticamente todas as questões da política nacional, eles demonstram muita disposição, mas não podem mais viajar tranquilos de avião.
O craque segue sendo Gilmar Mendes. É o Neymar da Corte. Individualista, abusado, debochado, parte pra cima, não respeita adversário, provoca a torcida, ataca pela esquerda cortando para o meio. Amante da liberdade, joga para si mesmo e distribui habeas corpus pelo campo como se os estivesse colocando com as mãos. Indisciplinado, ele desafia a autoridade da capitã Cármen Lúcia sem se constranger, não respeita esquema tático, não recompõe a lateral, não volta para marcar, mas como joga bonito! Quando disse que a Lei da Ficha Limpa tinha sido escrita por bêbados, foi tido por defensor de bandidos. Hoje, que estão todos embriagados, sem entender como resolver o caso do ex-presidente Lula, Gilmar levanta o cartaz do “eu já sabia”. Foi ele também que alertou para os exageros impraticáveis das Dez Medidas Contra a Corrupção — pelo jeito, só ele podia fazê-lo.
Gilmar brilha tanto que ofusca os companheiros. Marco Aurélio, vez ou outra, dá uma canelada, um bico para fora do estádio, e chama a atenção da torcida. Mas o arrojo de Gilmar só encontra paralelo no tribunal atualmente em Luís Roberto Barroso, que ocupa a parte oposta do gramado, puxando a orelha de diretores-gerais da Polícia Federal, quebrando o sigilo de presidentes da República e provocando o avanço do time sem medir as consequências de possíveis contra-ataques. Barroso faz o processo rolar bonito, mas dá passes arriscados, ousa sem necessidade, faz firula, cruza a bola na frente da própria área. Barroso joga para a torcida, dá carrinho depois que a bola já saiu pela lateral e, assim como Gilmar, costuma esquecer o time. Eles são o contrário de Edson Fachin, um clássico volante injustiçado.
O relator da Lava Jato no Supremo joga para o time. Sem vaidade — os corneteiros dirão que falta-lhe coragem —, Fachin divide as decisões mais importantes com os colegas. Vestiu a camisa da operação, como o finado Teori Zavascki, e não tenta jogadas irresponsáveis, enquanto o colega Luiz Fux passa o jogo todo se olhando no telão, à la Cristiano Ronaldo, e Celso de Mello conta seus últimos dias na Corte oferecendo a bola de segurança, fazendo o pivô e segurando os zagueiros adversários para o resto do time subir ao ataque.
O veterano Celso é a antítese da eterna promessa Dias Toffoli, o errático ponta esquerda que só descobriu que batia na bola com o pé errado depois de entrar em campo como profissional. Nas tabelas com Gilmar Mendes, o prodígio ainda pode chegar a se tornar um Philippe Coutinho, mas joga sob a sombra do estrelato frustrado do ex-corintiano Lulinha. Seu vigor juvenil compete agora com a disposição do novato Alexandre de Moraes para armar jogadas.
Para fechar a escalação atual, faltam apenas Lewandowski, que se acostumou a jogar de peito aberto, sem conseguir esconder o jogo; a capitã relutante Cámen Lúcia, no melhor estilo Thiago Silva; e Rosa Weber, que dá a impressão de ser a única capaz de se constranger genuinamente na Corte na hora de cometer uma falta para matar o contra-ataque adversário.
Os saudosistas dirão que as escalações antigas do STF eram melhores, mas quem as viu jogar? A primeira sessão televisionada do Supremo ocorreu em 23 de setembro de 1992, quando o então presidente Fernando Collor de Mello questionava o início de seu processo de impeachment. Desde então, a Corte, que foi anulada por Getúlio Vargas e pelo Governo militar, virou protagonista da política nacional. O STF se vangloria de ter sido o primeiro tribunal do mundo a transmitir suas sessões por canal próprio, em 2002, e se transformaria no reality show preferido dos brasileiros durante o julgamento do mensalão, quase final de Copa do Mundo.
Hoje, o Brasil tem 210 milhões de presidentes do Supremo, que sabem exatamente como cada ministro joga — ou como deveriam jogar — e que assuntos devem ser pautados pelo tribunal. É saudável, argumenta um pedaço da torcida, enquanto a outra parte da arquibancada grita que a hiperexposição prejudicou a Justiça brasileira na última década. O STF realmente deixou de ser um tribunal estabilizador — ou acomodador — para tumultuar ainda mais o meio de campo. Mas como reclamar dessas aulas públicas de direito ao custo de módicos auxílios-moradia?
Nos últimos 10 anos, a torcida brasileira aprendeu que um único ministro do Supremo pode segurar o quanto quiser a decisão sobre questões decisivas para o país — ou decidir sozinho sobre a mesma questão. Eles também podem mudar o entendimento sobre leis, passando por cima do poder Legislativo. Quanto mais há para aprender? Que os juízes supremos sigam, portanto, deferindo suas liminares, infringindo seus embargos, negando as aparências e disfarçando as evidências diante dos nossos olhos. Por pior que seja para eles e para a própria Justiça, pelo menos a gente pode xingar enquanto acompanha os lances.
O craque segue sendo Gilmar Mendes. É o Neymar da Corte. Individualista, abusado, debochado, parte pra cima, não respeita adversário, provoca a torcida, ataca pela esquerda cortando para o meio. Amante da liberdade, joga para si mesmo e distribui habeas corpus pelo campo como se os estivesse colocando com as mãos. Indisciplinado, ele desafia a autoridade da capitã Cármen Lúcia sem se constranger, não respeita esquema tático, não recompõe a lateral, não volta para marcar, mas como joga bonito! Quando disse que a Lei da Ficha Limpa tinha sido escrita por bêbados, foi tido por defensor de bandidos. Hoje, que estão todos embriagados, sem entender como resolver o caso do ex-presidente Lula, Gilmar levanta o cartaz do “eu já sabia”. Foi ele também que alertou para os exageros impraticáveis das Dez Medidas Contra a Corrupção — pelo jeito, só ele podia fazê-lo.
Gilmar brilha tanto que ofusca os companheiros. Marco Aurélio, vez ou outra, dá uma canelada, um bico para fora do estádio, e chama a atenção da torcida. Mas o arrojo de Gilmar só encontra paralelo no tribunal atualmente em Luís Roberto Barroso, que ocupa a parte oposta do gramado, puxando a orelha de diretores-gerais da Polícia Federal, quebrando o sigilo de presidentes da República e provocando o avanço do time sem medir as consequências de possíveis contra-ataques. Barroso faz o processo rolar bonito, mas dá passes arriscados, ousa sem necessidade, faz firula, cruza a bola na frente da própria área. Barroso joga para a torcida, dá carrinho depois que a bola já saiu pela lateral e, assim como Gilmar, costuma esquecer o time. Eles são o contrário de Edson Fachin, um clássico volante injustiçado.
O relator da Lava Jato no Supremo joga para o time. Sem vaidade — os corneteiros dirão que falta-lhe coragem —, Fachin divide as decisões mais importantes com os colegas. Vestiu a camisa da operação, como o finado Teori Zavascki, e não tenta jogadas irresponsáveis, enquanto o colega Luiz Fux passa o jogo todo se olhando no telão, à la Cristiano Ronaldo, e Celso de Mello conta seus últimos dias na Corte oferecendo a bola de segurança, fazendo o pivô e segurando os zagueiros adversários para o resto do time subir ao ataque.
O veterano Celso é a antítese da eterna promessa Dias Toffoli, o errático ponta esquerda que só descobriu que batia na bola com o pé errado depois de entrar em campo como profissional. Nas tabelas com Gilmar Mendes, o prodígio ainda pode chegar a se tornar um Philippe Coutinho, mas joga sob a sombra do estrelato frustrado do ex-corintiano Lulinha. Seu vigor juvenil compete agora com a disposição do novato Alexandre de Moraes para armar jogadas.
Para fechar a escalação atual, faltam apenas Lewandowski, que se acostumou a jogar de peito aberto, sem conseguir esconder o jogo; a capitã relutante Cámen Lúcia, no melhor estilo Thiago Silva; e Rosa Weber, que dá a impressão de ser a única capaz de se constranger genuinamente na Corte na hora de cometer uma falta para matar o contra-ataque adversário.
Os saudosistas dirão que as escalações antigas do STF eram melhores, mas quem as viu jogar? A primeira sessão televisionada do Supremo ocorreu em 23 de setembro de 1992, quando o então presidente Fernando Collor de Mello questionava o início de seu processo de impeachment. Desde então, a Corte, que foi anulada por Getúlio Vargas e pelo Governo militar, virou protagonista da política nacional. O STF se vangloria de ter sido o primeiro tribunal do mundo a transmitir suas sessões por canal próprio, em 2002, e se transformaria no reality show preferido dos brasileiros durante o julgamento do mensalão, quase final de Copa do Mundo.
Hoje, o Brasil tem 210 milhões de presidentes do Supremo, que sabem exatamente como cada ministro joga — ou como deveriam jogar — e que assuntos devem ser pautados pelo tribunal. É saudável, argumenta um pedaço da torcida, enquanto a outra parte da arquibancada grita que a hiperexposição prejudicou a Justiça brasileira na última década. O STF realmente deixou de ser um tribunal estabilizador — ou acomodador — para tumultuar ainda mais o meio de campo. Mas como reclamar dessas aulas públicas de direito ao custo de módicos auxílios-moradia?
Nos últimos 10 anos, a torcida brasileira aprendeu que um único ministro do Supremo pode segurar o quanto quiser a decisão sobre questões decisivas para o país — ou decidir sozinho sobre a mesma questão. Eles também podem mudar o entendimento sobre leis, passando por cima do poder Legislativo. Quanto mais há para aprender? Que os juízes supremos sigam, portanto, deferindo suas liminares, infringindo seus embargos, negando as aparências e disfarçando as evidências diante dos nossos olhos. Por pior que seja para eles e para a própria Justiça, pelo menos a gente pode xingar enquanto acompanha os lances.
terça-feira, 13 de março de 2018
Educação ou democracia: o que vem primeiro?
Há no Youtube a gravação de um debate sobre a decadência da qualidade da educação nos Estados Unidos de que já recebi cópias pelo menos uma dezena de vezes. Nele Michio Kaku, um divulgador da ciência célebre naquele país, adverte que “ela é o motor da prosperidade que só não entrou em colapso nos Estados Unidos ainda porque o país dispõe de uma arma secreta, o H-1b”, que vem a ser o “visto especial para gênios” que o governo concede (ou concedia até Trump) com largueza suficiente para fazer do país um “imã que suga todos os cérebros do mundo”.
Isso é menos de metade da verdade. Se transformar-se num “imã” de cérebros privilegiados fosse apenas uma questão de conceder vistos facilitados ninguém teria problemas em conseguir o mesmo efeito. Os Estados Unidos atraem os cérebros mais brilhantes do mundo pela mesma razão pela qual o dólar é a moeda de referência e sustentação de todas as outras. Porque o seu sistema de governo é o único onde a vontade de um presidente sozinho não pode nada e a vontade popular realmente impera. É porque o país dispõe de instituições montadas para permitir que a vontade dos representados seja imposta aos seus representantes (a saber: voto distrital puro, eleições primárias diretas, recall, referendo, iniciativa, e eleições de retenção de juizes), que o sistema se torna disposto a e capaz decorrigir erros. E isso porque “erros” persistentes nunca são função de enganos genuinos mas sim da condição dada a uma oligarquia para criar e manter privilégios manipulando instituições calculadamente entortadas para lhe dar esse poder.
Quando, porém, esses expedientes ou outra causa qualquer produzem turbulências na economia mundial, as chinas todas, para proteger os lucros acumulados que são a munição da sua guerra pela hegemonia econômica, correm para abrigar-se … nos títulos do governo americano. Porque? Porque ele é o unico do mundo que não tem o poder de calotear seus credores internos, que contam com instituições que os fazem mais fortes que o próprio governo, o que redunda na extensão dessa mesma garantia aos credores externos. As explicações conspiratórias e “imperialistas” para a força do dólar são mentirosas. Ele é o que é em função da qualidade das instituições do país que o emite.
Assim também os “gênios” do mundo. É para os Estados Unidos que eles afluem não porque seja fácil conseguir um visto mas para fugir de governos como os das chinas do mundo onde os ditadores da hora podem fazer de seus súditos o que bem entenderem quando bem entenderem, o que torna impossivel a liberdade, a estabilidade e a continuidade que a pesquisa pura e a verdadeira inovação requerem.
No Brasil é voz corrente que instituições de qualidade são produto de uma boa educação e que como não temos uma boa educação jamais teremos instituições de qualidade. Historicamente, entretanto, a ordem desses fatores tem sido a inversa. A boa educação é que é consequência da conquista de boas instituições. A “educação” patrocinada pelos regimes estabelecidos está sempre casada com a religião, vale dizer, com o dogma oficialmente aceito, o unico livre de repressão. E sua função é reproduzir o sistema instituido. Lutero primeiro denuncia o dogma que sustenta as instituições anteriores. E para se compor com os príncipes que queriam se livrar do papa, exige educação gratuita e obrigatória para todos. Na Inglaterra seiscentista, igualmente, é só depois que a volupia de Henrique VIII institui a liberdade religiosa e “legaliza” a convivência com a diversidade de crenças que se abre o espaço que vai ensejar o nascimento da ciência moderna. Nas experiências asiáticas, mais recentes, é sempre o déspota esclarecido que denuncia o dogma anterior (o socialismo). Só então abre-se o caminho para a reforma da educação que, mais adiante, consolida a mudança.
O Brasil mantem “petrificada” a sua miséria medieval muito mais graças ao desconhecimento meticulosamente construido das curas disponiveis mediante um controle estrito da educação e da mídia que por uma recusa consciente da população a tomar os “antibióticos institucionais” que poderiam facilmente cura-la. E essa afirmação de que “estudar medicina” seria um requisito prévio para que esses remédios façam efeito aqui faz parte da mentira de quem nos quer para sempre doentes. Eles curam quem quer que os tome, independentemente do que lhe tenham “ensinado” na vida.
Uma boa educação requer, de qualquer maneira, no mínimo duas ou tres gerações. O atalho obrigatório, que é o que abre caminho para ela, é ousar na reforma das instituições.
Fernão Lara Mesquita
Isso é menos de metade da verdade. Se transformar-se num “imã” de cérebros privilegiados fosse apenas uma questão de conceder vistos facilitados ninguém teria problemas em conseguir o mesmo efeito. Os Estados Unidos atraem os cérebros mais brilhantes do mundo pela mesma razão pela qual o dólar é a moeda de referência e sustentação de todas as outras. Porque o seu sistema de governo é o único onde a vontade de um presidente sozinho não pode nada e a vontade popular realmente impera. É porque o país dispõe de instituições montadas para permitir que a vontade dos representados seja imposta aos seus representantes (a saber: voto distrital puro, eleições primárias diretas, recall, referendo, iniciativa, e eleições de retenção de juizes), que o sistema se torna disposto a e capaz decorrigir erros. E isso porque “erros” persistentes nunca são função de enganos genuinos mas sim da condição dada a uma oligarquia para criar e manter privilégios manipulando instituições calculadamente entortadas para lhe dar esse poder.
O cidadão exerce a sua liberdade, na prática, na sua dimensão de produtor e consumidor na medida em que possa escolher entre patrões e fornecedores competindo entre si por sua preferência. O resto é poesia. Ja os déspotas, depois do surgimento das armas de extinção em massa, deram-se conta de que entrar no jogo economico é o unico modo de projetar poder internacionalmente e continuar vivo. A diferença essencial entre os capitalismos de estado e o capitalismo democrático esta, portanto, nos objetivos que se propõem. O primeiro visa o bem estar do indivíduo que depende do estado impor limites ao capital em nome da preservacão da concorrência que garante a liberdade individual. O outro requer a concentração dos poderes do capital e do estado nas mesmas mãos e a sujeição de tudo o mais ao objetivo de projetar internacionalmente a hegemonia que o ditador e seu grupo já exercem internamente. Um só pode avançar com benefício de todos pelos acrescentamentos da inovação que depende da garantia da propriedade intelectual pelo estado. Os outros impõem-se pela lógica do monopólio que hoje tem no pirateamento das invenções alheias e na exploração pelo estado da sua condição de unico empregador a vantagem competitiva que lhes permite esmagar concorrentes pelo mundo afora.
Quando, porém, esses expedientes ou outra causa qualquer produzem turbulências na economia mundial, as chinas todas, para proteger os lucros acumulados que são a munição da sua guerra pela hegemonia econômica, correm para abrigar-se … nos títulos do governo americano. Porque? Porque ele é o unico do mundo que não tem o poder de calotear seus credores internos, que contam com instituições que os fazem mais fortes que o próprio governo, o que redunda na extensão dessa mesma garantia aos credores externos. As explicações conspiratórias e “imperialistas” para a força do dólar são mentirosas. Ele é o que é em função da qualidade das instituições do país que o emite.
Assim também os “gênios” do mundo. É para os Estados Unidos que eles afluem não porque seja fácil conseguir um visto mas para fugir de governos como os das chinas do mundo onde os ditadores da hora podem fazer de seus súditos o que bem entenderem quando bem entenderem, o que torna impossivel a liberdade, a estabilidade e a continuidade que a pesquisa pura e a verdadeira inovação requerem.
No Brasil é voz corrente que instituições de qualidade são produto de uma boa educação e que como não temos uma boa educação jamais teremos instituições de qualidade. Historicamente, entretanto, a ordem desses fatores tem sido a inversa. A boa educação é que é consequência da conquista de boas instituições. A “educação” patrocinada pelos regimes estabelecidos está sempre casada com a religião, vale dizer, com o dogma oficialmente aceito, o unico livre de repressão. E sua função é reproduzir o sistema instituido. Lutero primeiro denuncia o dogma que sustenta as instituições anteriores. E para se compor com os príncipes que queriam se livrar do papa, exige educação gratuita e obrigatória para todos. Na Inglaterra seiscentista, igualmente, é só depois que a volupia de Henrique VIII institui a liberdade religiosa e “legaliza” a convivência com a diversidade de crenças que se abre o espaço que vai ensejar o nascimento da ciência moderna. Nas experiências asiáticas, mais recentes, é sempre o déspota esclarecido que denuncia o dogma anterior (o socialismo). Só então abre-se o caminho para a reforma da educação que, mais adiante, consolida a mudança.
O Brasil mantem “petrificada” a sua miséria medieval muito mais graças ao desconhecimento meticulosamente construido das curas disponiveis mediante um controle estrito da educação e da mídia que por uma recusa consciente da população a tomar os “antibióticos institucionais” que poderiam facilmente cura-la. E essa afirmação de que “estudar medicina” seria um requisito prévio para que esses remédios façam efeito aqui faz parte da mentira de quem nos quer para sempre doentes. Eles curam quem quer que os tome, independentemente do que lhe tenham “ensinado” na vida.
Uma boa educação requer, de qualquer maneira, no mínimo duas ou tres gerações. O atalho obrigatório, que é o que abre caminho para ela, é ousar na reforma das instituições.
Fernão Lara Mesquita
Prioridade para segurança começa a fazer água
Nesta semana, a intervenção federal no Rio de Janeiro fará aniversário de um mês. Você se lembra: estava em cartaz a reforma da Previdência. Sem votos para prevalecer na Câmara, o governo trocou o espetáculo em 16 de fevereiro. Do nada, entraram no vocabulário político de Michel Temer duas palavras: segurança pública. O problema é que certos espetáculos teatrais, apesar de badalados, fracassam porque o público não foi devidamente ensaiado para exercer o papel de bobo.
Houve intensa movimentação no palco. O general Braga Netto virou interventor da segurança do Rio. O ministro Raul Jungmann foi deslocado da Defesa para a novíssima pasta da Segurança Pública. Temer recepcionou em Brasília governadores e prefeitos de capitais. O Planalto soltou fogos. Era o governo exercitando o velho hábito de superestimar os êxitos, subestimando as dificuldades.
Abriu-se no BNDES uma linha de crédito para governadores e prefeitos. Quebrados, Estados e prefeituras ainda não fizeram fila na frente do guichê. O Ministro da Segurança empina duas prioridades: quer aprovar no Congresso o Sistema Único de Segurança Pública. É inspirado no SUS, como se o Sistema Único de Saúde pudesse inspirar alguma coisa. Deseja também convencer o empresariado a ajudar no financiamento da segurança. É mais fácil o PIB sonegar impostos do que pingar bilhões no chapéu de Raul Jungmann. Por ora, a única certeza é a de que, sob Michel Temer, quem vive de esperanças morre muito magro.

Abriu-se no BNDES uma linha de crédito para governadores e prefeitos. Quebrados, Estados e prefeituras ainda não fizeram fila na frente do guichê. O Ministro da Segurança empina duas prioridades: quer aprovar no Congresso o Sistema Único de Segurança Pública. É inspirado no SUS, como se o Sistema Único de Saúde pudesse inspirar alguma coisa. Deseja também convencer o empresariado a ajudar no financiamento da segurança. É mais fácil o PIB sonegar impostos do que pingar bilhões no chapéu de Raul Jungmann. Por ora, a única certeza é a de que, sob Michel Temer, quem vive de esperanças morre muito magro.
Tá osso
Como dizem os motoristas de aplicativos: hoje tá osso. É cada tapa na cara. Paciência, tu tens? Hoje vai ser difícil de entender, porque eu também não estou entendendo nada. E vou te levar comigo.
Oh (edição – TT, não põe exclamação depois do meu oh nem vírgula – meu oh é assim mesmo, no seco e sem entonação). Refaço. Oh que falso e inútil poder esse de te levar comigo nessa viagem minha das quintas-feiras, tão rapidinha, engolida com café preto. Corremos vendados no tiroteio. Uma colega com baixa visão contou-me que já perdeu duas bengalas no centro histórico da minha Poa. Foi atropelada por pedestres que nem pararam pra ajudar ou alcançar-lhe as bengalas. Sério, gente, tenho às vezes vontade de descer com o mundo andando mesmo, não precisa nem parar.
Uma empresa da Noruega, a Noruega aquela, sabe, toda limpinha, mineradora de alumínio no Pará, descarta dejetos tóxicos direto no meio ambiente e diz não saber de nada. Depois, contou que, tá, sabíamos, mas não admitimos. Então, sabendo realmente o que (não) vai acontecer, por fim, admitiu. Garante que “vai estar analisando”…
Na Síria, genocídio que não gera notícia. No Rio, intervenção militar nas favelas. Como se a cúpula do crime organizado não estivesse nos gabinetes de Brasília. Aqui pelos pagos (pasmem), estão a desmanchar escolas e bibliotecas pra venderem seus terrenos aos amigos. O Júnior quer acabar com o Adote um Escritor, projeto de incentivo à leitura que é sucesso há vinte anos. Daí pra incendiarem livros é só dizer quero ler. Na boa, alguém me traz um Fontol?
Enquanto isso, no Maranhão, o governador comuna, descarado, pagando quase seis pau aos professores. Deusulivre (assim mesmo, TT, uma palavra só). Deusulivre. Criminoso. Tá osso, gente, até pra motoristas de aplicativos, meu amigo disse que tá dormindo dentro do carro. Garante que tem gente em situação bem pior: “outro colega, foi pra baixo do viaduto”. E o Hulk, vai pro pleito? E o Lula, vai em cana? O Neymar, vai à Copa? Você, vai às urnas? Pois devia. Antes que elas sejam suspensas por tempo indeterminado.
Senhores, vocês senhores, que já mostraram suas caras de pau nas votações da CCJ, já viram a cara das ruas? Estamos com fome, senhores, sem moradia, trabalho não temos, as contas, senhores, estão vencidas, saiam às ruas. Eu queria dizer que é mentira. Eu queria dizer que inventei isso tudo só pra terminar essa crônica. Queria dizer bons futuros. Dizer uma prece. Dormir um semestre, eu queria. Mas escuta, não tá dando.
Aliás, queria mas não posso, entrei na UERGS pra estudar letras, licenciatura. Talvez eu aprenda. Daí, te levo comigo outras vezes nessas minhas viagens, em outros dias, com mais polidez, quem sabe. Lembrei do Lenine: “tendo tudo contra e nada me transtorna/ dentro do meu peito/ um desejo martelo/ uma vontade bigorna”.
E a gente querendo ser feliz, aff… Tu tens paciência? A minha tá acabando.
Oh (edição – TT, não põe exclamação depois do meu oh nem vírgula – meu oh é assim mesmo, no seco e sem entonação). Refaço. Oh que falso e inútil poder esse de te levar comigo nessa viagem minha das quintas-feiras, tão rapidinha, engolida com café preto. Corremos vendados no tiroteio. Uma colega com baixa visão contou-me que já perdeu duas bengalas no centro histórico da minha Poa. Foi atropelada por pedestres que nem pararam pra ajudar ou alcançar-lhe as bengalas. Sério, gente, tenho às vezes vontade de descer com o mundo andando mesmo, não precisa nem parar.

Na Síria, genocídio que não gera notícia. No Rio, intervenção militar nas favelas. Como se a cúpula do crime organizado não estivesse nos gabinetes de Brasília. Aqui pelos pagos (pasmem), estão a desmanchar escolas e bibliotecas pra venderem seus terrenos aos amigos. O Júnior quer acabar com o Adote um Escritor, projeto de incentivo à leitura que é sucesso há vinte anos. Daí pra incendiarem livros é só dizer quero ler. Na boa, alguém me traz um Fontol?
Enquanto isso, no Maranhão, o governador comuna, descarado, pagando quase seis pau aos professores. Deusulivre (assim mesmo, TT, uma palavra só). Deusulivre. Criminoso. Tá osso, gente, até pra motoristas de aplicativos, meu amigo disse que tá dormindo dentro do carro. Garante que tem gente em situação bem pior: “outro colega, foi pra baixo do viaduto”. E o Hulk, vai pro pleito? E o Lula, vai em cana? O Neymar, vai à Copa? Você, vai às urnas? Pois devia. Antes que elas sejam suspensas por tempo indeterminado.
Senhores, vocês senhores, que já mostraram suas caras de pau nas votações da CCJ, já viram a cara das ruas? Estamos com fome, senhores, sem moradia, trabalho não temos, as contas, senhores, estão vencidas, saiam às ruas. Eu queria dizer que é mentira. Eu queria dizer que inventei isso tudo só pra terminar essa crônica. Queria dizer bons futuros. Dizer uma prece. Dormir um semestre, eu queria. Mas escuta, não tá dando.
Aliás, queria mas não posso, entrei na UERGS pra estudar letras, licenciatura. Talvez eu aprenda. Daí, te levo comigo outras vezes nessas minhas viagens, em outros dias, com mais polidez, quem sabe. Lembrei do Lenine: “tendo tudo contra e nada me transtorna/ dentro do meu peito/ um desejo martelo/ uma vontade bigorna”.
E a gente querendo ser feliz, aff… Tu tens paciência? A minha tá acabando.
Miséria? Desconhecem
Qual político diz, na Espanha, na Itália ou na Grécia, que essa miséria é suscetível de nos enlouquecer ou de nos levar ao suicídio? O que sabem os nossos políticos dessa miséria?Leila Slimani, escritora franco-marroquina
Na Suíça, sem benefícios para os deputados
Guy Mettan, deputado e ex-presidente do Parlamento de Genebra, chega à sede do Poder Legislativo do cantão suíço em sua scooter. Não tem carro oficial. Tampouco tem uma vaga reservada apenas para ele diante do prédio histórico no centro da cidade.
Por vezes, Mettan confessa que vai ao trabalho com um motorista – o que conduz o ônibus público da cidade. Deputado já por 18 anos consecutivos, Mettan levou a reportagem do Estado aos corredores do Grand Conseil, o nome dado ao Parlamento do Cantão.
A região é uma das mais ricas do mundo, tem uma taxa de desemprego de 5,3% e é um dos pilares de um sistema financeiro que guarda em seus cofres trilhões de dólares. Genebra, de forma insistente, entra em todas as listas das cidades mais caras do mundo há anos.
Mas, para não atrapalhar o emprego dos cem representantes do povo, as sessões do Parlamento são todas organizadas no final da tarde, quando o expediente já terminou.
Não apenas o deputado ordinário não conta com um carro oficial, mas tampouco é beneficiado por qualquer tipo de transporte. Uma exceção é feita ao presidente do Parlamento que, caso esteja indo a um evento oficial, tem o direito de usar um veículo oficial. Mas apenas se ele for à reunião na condição de presidente da Câmara e não a título pessoal.
O auxílio-moradia não faz parte dos benefícios. Ao final de quatro anos de mandato, os deputados não ganham uma aposentadoria. Durante anos no “poder”, não podem contratar parentes e ganham um voucher para fazer duas refeições por mês. Cada uma delas de 40 francos suíços (R$ 137). “Dá para uma pizza e um copo de vinho”, brinca Mettan.
Na melhor das hipóteses, um deputado em Genebra vai somar um salário anual de 50 mil francos suíços (o equivalente a R$ 172 mil), cerca de 4,1 mil francos por mês. Isso se ele for o presidente do Parlamento e comparecer a todas às sessões. O cálculo de quanto Mettan e todos os demais recebem a cada mês é feito por hora. “Se você vem, você recebe. Se não, não recebe”, disse o deputado, que conta que precisa assinar com seu próprio punho uma lista de presença a cada reunião.
Transformado em reais, o valor pode até parecer elevado. Mas, hoje, o pagamento ao presidente do Parlamento de Genebra é inferior à média de um salário de um fabricante de queijo, menor que a renda de um mecânico de carros na Suíça, de uma secretária, de um policial, de um carpinteiro, de uma professora de jardim de infância, de um metalúrgico e de um motorista de caminhão. Ele, porém, é equivalente ao salário médio de um açougueiro da cidade alpina.
Para um deputado “ordinário”, o salário é muito inferior ao do presidente do Parlamento. Por ano, eles chegam a receber cerca de 30 mil francos suíços, o equivalente ao pagamento médio atribuído a um artista de circo ou a um ajudante de cozinha, postos ocupados em grande parte por imigrantes.
No Brasil, o salário de um deputado estadual chega a R$ 25.300 por mês em São Paulo, por exemplo. Além disso, os parlamentares brasileiros têm direito a uma verba mensal (o chamado ‘cotão’), que pode superar R$ 30 mil, para custeio de gastos de alimentação, transporte, passagens aéreas e despesas de escritório.
Mettan explica que a função de deputado consome apenas 25% do seu tempo de trabalho e que, por conta do salário baixo, todos são orientados a manter seus empregos originais, mesmo depois de eleitos.
“Na Suíça, a política é considerada como um envolvimento popular”, explicou. “É um sistema de milícia. Ou seja, não é um sistema profissional. Somos obrigados a ter um emprego paralelo, de ter uma profissão paralela. Não se pode viver com essa indenização”, admitiu o deputado suíço. “Não existe deputado profissional”, completou ele.
Por vezes, Mettan confessa que vai ao trabalho com um motorista – o que conduz o ônibus público da cidade. Deputado já por 18 anos consecutivos, Mettan levou a reportagem do Estado aos corredores do Grand Conseil, o nome dado ao Parlamento do Cantão.
A região é uma das mais ricas do mundo, tem uma taxa de desemprego de 5,3% e é um dos pilares de um sistema financeiro que guarda em seus cofres trilhões de dólares. Genebra, de forma insistente, entra em todas as listas das cidades mais caras do mundo há anos.
Mas, para não atrapalhar o emprego dos cem representantes do povo, as sessões do Parlamento são todas organizadas no final da tarde, quando o expediente já terminou.
Não apenas o deputado ordinário não conta com um carro oficial, mas tampouco é beneficiado por qualquer tipo de transporte. Uma exceção é feita ao presidente do Parlamento que, caso esteja indo a um evento oficial, tem o direito de usar um veículo oficial. Mas apenas se ele for à reunião na condição de presidente da Câmara e não a título pessoal.
O auxílio-moradia não faz parte dos benefícios. Ao final de quatro anos de mandato, os deputados não ganham uma aposentadoria. Durante anos no “poder”, não podem contratar parentes e ganham um voucher para fazer duas refeições por mês. Cada uma delas de 40 francos suíços (R$ 137). “Dá para uma pizza e um copo de vinho”, brinca Mettan.
Na melhor das hipóteses, um deputado em Genebra vai somar um salário anual de 50 mil francos suíços (o equivalente a R$ 172 mil), cerca de 4,1 mil francos por mês. Isso se ele for o presidente do Parlamento e comparecer a todas às sessões. O cálculo de quanto Mettan e todos os demais recebem a cada mês é feito por hora. “Se você vem, você recebe. Se não, não recebe”, disse o deputado, que conta que precisa assinar com seu próprio punho uma lista de presença a cada reunião.
Transformado em reais, o valor pode até parecer elevado. Mas, hoje, o pagamento ao presidente do Parlamento de Genebra é inferior à média de um salário de um fabricante de queijo, menor que a renda de um mecânico de carros na Suíça, de uma secretária, de um policial, de um carpinteiro, de uma professora de jardim de infância, de um metalúrgico e de um motorista de caminhão. Ele, porém, é equivalente ao salário médio de um açougueiro da cidade alpina.
Para um deputado “ordinário”, o salário é muito inferior ao do presidente do Parlamento. Por ano, eles chegam a receber cerca de 30 mil francos suíços, o equivalente ao pagamento médio atribuído a um artista de circo ou a um ajudante de cozinha, postos ocupados em grande parte por imigrantes.
No Brasil, o salário de um deputado estadual chega a R$ 25.300 por mês em São Paulo, por exemplo. Além disso, os parlamentares brasileiros têm direito a uma verba mensal (o chamado ‘cotão’), que pode superar R$ 30 mil, para custeio de gastos de alimentação, transporte, passagens aéreas e despesas de escritório.
Mettan explica que a função de deputado consome apenas 25% do seu tempo de trabalho e que, por conta do salário baixo, todos são orientados a manter seus empregos originais, mesmo depois de eleitos.
“Na Suíça, a política é considerada como um envolvimento popular”, explicou. “É um sistema de milícia. Ou seja, não é um sistema profissional. Somos obrigados a ter um emprego paralelo, de ter uma profissão paralela. Não se pode viver com essa indenização”, admitiu o deputado suíço. “Não existe deputado profissional”, completou ele.
Lulas à beira da prisão: Brasil, país regenerado ou aotofágico?
A prisão de Lula pode estar iminente. Os recursos processuais que interpôs têm estado a ser julgados a toque de caixa e, uma vez esgotados, a sentença de doze anos e um mês a que foi condenado na Lava Jato pode ser executada de imediato.
Para evitar a humilhação, restava ao velho líder operário a possibilidade do Supremo Tribunal Federal – STF rever a sua própria decisão de mandar cumprir as sentenças logo que um réu seja condenado em segunda instância. Alguns dos juízes gostariam que o plenário reexaminasse a questão. Afinal de contas, de acordo com a Constituição, e em nome da presunção de inocência, ninguém deve ser preso até ao derradeiro trânsito em julgado de uma sentença condenatória.
Mas o STF, tão célere noutros casos, mostra-se desta vez, por decisão da juíza Carmen Lúcia, que preside, renitente a reavaliar a situação – mantendo fechada a porta pela qual Lula poderia escapar.
Resta, assim, ao ex-presidente a possibilidade de algum dos juízes do Supremo, em decisão unilateral, aceitar o habeas corpus preventivo que a sua defesa já apresentou. Mas, mesmo isso, permanece em aberto e o PT vive nestes dias a angústia de ver passar o tempo e com isso avolumar-se a possibilidade do seu líder histórico ser submetido a uma humilhação nacional e internacional.
Para os adversários de Lula – e boa parte da grande imprensa mais conservadora, que lhe tem movido guerra constante – a sua prisão seria a prova provada de que “o Brasil deixou de ser o país da impunidade e ninguém está acima da lei”.
Mas, face ao comportamento desigual da justiça – muito leniente com políticos de outros quadrantes – muitos aqui consideram que esse quadro idílico não corresponde à realidade. Agora mesmo, a presidente do Supremo não se eximiu de receber em sua casa o atual presidente, Michel Temer, contra quem impendem graves acusações de corrupção por parte do ministério público.
A amarga ironia para Lula e o PT é que foram eles próprios que – em nome da luta contra a corrupção – apoiaram algumas medidas que agora se viram contra eles: a forma de designação do PGR, a lei da delação premiada e a possibilidade de prisão logo após sentença em segunda instância…
Agora, resta saber se essa dinâmica vai prosseguir, prendendo Lula, ou se o sistema acabará, no último momento, por evitar o choque que tal medida não deixaria de provocar, mesmo sabendo que haverá no país uma curta maioria em favor da sua prisão.
Para os juízes e procuradores que a si próprios se vêm como justiceiros e regeneradores, a não prisão de Lula seria enorme desilusão; mas, para os políticos, herdeiros de uma tradição secular de compromissos, seria uma salvaguarda do próprio sistema. E sempre poderiam dizer que Lula, afinal, não é um cara qualquer – foi talvez o presidente mais popular da história do país e o que mais projetou o Brasil no plano externo. E é, ainda hoje e apesar de tudo, o preferido de pelo menos um terço do eleitorado.
O que espanta, neste confronto, é que não se vislumbrem soluções de maior equilíbrio: a emissão de um perdão como Ford fez com Nixon ou uma condenação com pena suspensa – garantindo a condenação moral, mas evitando a humilhação do confinamento.
Para já, parece ser grande a tentação de queimar um capital simbólico remanescente, maculado, é certo, mas real, em nome de um outro ainda só emergente e relativo. Brasil, país regenerado ou autofágico?
Carlos Fino
Para evitar a humilhação, restava ao velho líder operário a possibilidade do Supremo Tribunal Federal – STF rever a sua própria decisão de mandar cumprir as sentenças logo que um réu seja condenado em segunda instância. Alguns dos juízes gostariam que o plenário reexaminasse a questão. Afinal de contas, de acordo com a Constituição, e em nome da presunção de inocência, ninguém deve ser preso até ao derradeiro trânsito em julgado de uma sentença condenatória.
Mas o STF, tão célere noutros casos, mostra-se desta vez, por decisão da juíza Carmen Lúcia, que preside, renitente a reavaliar a situação – mantendo fechada a porta pela qual Lula poderia escapar.
Resta, assim, ao ex-presidente a possibilidade de algum dos juízes do Supremo, em decisão unilateral, aceitar o habeas corpus preventivo que a sua defesa já apresentou. Mas, mesmo isso, permanece em aberto e o PT vive nestes dias a angústia de ver passar o tempo e com isso avolumar-se a possibilidade do seu líder histórico ser submetido a uma humilhação nacional e internacional.
Mas, face ao comportamento desigual da justiça – muito leniente com políticos de outros quadrantes – muitos aqui consideram que esse quadro idílico não corresponde à realidade. Agora mesmo, a presidente do Supremo não se eximiu de receber em sua casa o atual presidente, Michel Temer, contra quem impendem graves acusações de corrupção por parte do ministério público.
A amarga ironia para Lula e o PT é que foram eles próprios que – em nome da luta contra a corrupção – apoiaram algumas medidas que agora se viram contra eles: a forma de designação do PGR, a lei da delação premiada e a possibilidade de prisão logo após sentença em segunda instância…
Agora, resta saber se essa dinâmica vai prosseguir, prendendo Lula, ou se o sistema acabará, no último momento, por evitar o choque que tal medida não deixaria de provocar, mesmo sabendo que haverá no país uma curta maioria em favor da sua prisão.
Para os juízes e procuradores que a si próprios se vêm como justiceiros e regeneradores, a não prisão de Lula seria enorme desilusão; mas, para os políticos, herdeiros de uma tradição secular de compromissos, seria uma salvaguarda do próprio sistema. E sempre poderiam dizer que Lula, afinal, não é um cara qualquer – foi talvez o presidente mais popular da história do país e o que mais projetou o Brasil no plano externo. E é, ainda hoje e apesar de tudo, o preferido de pelo menos um terço do eleitorado.
O que espanta, neste confronto, é que não se vislumbrem soluções de maior equilíbrio: a emissão de um perdão como Ford fez com Nixon ou uma condenação com pena suspensa – garantindo a condenação moral, mas evitando a humilhação do confinamento.
Para já, parece ser grande a tentação de queimar um capital simbólico remanescente, maculado, é certo, mas real, em nome de um outro ainda só emergente e relativo. Brasil, país regenerado ou autofágico?
Carlos Fino
O terror
A nação dos desconfiados
Em quem você confia? Na família? Nos amigos? Nos vizinhos? Nos Estranhos? E o quanto você confia em todos eles? Quando tomada no agregado da população, as respostas a estas questões podem ser cruciais para determinar o grau de sucesso de uma nação.
Isso porque nada se faz sem confiança. É ela que fornece o material que vai servir de cimento para a colaboração, convivência e concretização de ideias, ideais, projetos ou mesmo sonhos. O que é uma nação senão a somatória dos esforços e da colaboração dos seus cidadãos para o atingimento de objetivos comuns?
Estudos claramente demonstram uma relação direta entre qualidade de vidas, nível de corrupção de uma nação, e o grau de confiança que seus habitantes depositam uns nos outros. Ou seja, a vida é mais fácil e melhor em lugares em que todos esperam eu os outros cumpram sua parte do contrato social.
Isto porque confiança social é via de duas mãos. De um lado, todos esperam que cada indivíduo seja honesto e confiável. Do outro lado, cria-se um ambiente em que, caso a desonestidade exista, ela é exceção, e, portanto, facilmente identificável e punível.
E, por falar em punição, vergonha, e não cadeia, parece ser o incentivo mais forte. Onde existe confiança e expectativa de honestidade, quebra de confiança causa vergonha. E isolamento. Ou seja, não ser confiável, ou ser simplesmente desonesto tem custo social elevado.
Talvez esteja aí uma das grandes causas do nosso fracasso como nação. Olhando bem no espelho, o brasileiro talvez encontre um sujeito desconfiado. De tudo. De todos. Sempre com um pé atrás. A desconfiança é evidente, clara, concreta. Aparece nos muros cada vez mais altos. Nos carros blindados. E na montanha de leis com o objetivo de regular por escrito cada aspecto da paranoia tropical, mas cujo único efeito prático é tornar mais fechado e incompreensível o já impenetrável emaranhado legal que criamos.
Não confiamos uns nos outros. Não somos exigentes no comportamento individual daqueles que nos cercam. Esperamos pouco ou quase nada do comportamento alheio. Não sentimos vergonha. Ser desonesto, não traz consequência social. Nem isolamento. Nem punição. E muito menos cadeia.
O resultado é este que está aí. Somos a sociedade da desconfiança. É o que construímos. Não dá mesmo para construir um Estado descente para uma nação que, por desconfiada, é descrente. Por descrente, espera pouco. Por esperar pouco, não tem vergonha. Por não ter vergonha, aceita o pior.
A nação dos desconfiados não tem noção. Desconfiança custa caro.
Elton Simões
Isso porque nada se faz sem confiança. É ela que fornece o material que vai servir de cimento para a colaboração, convivência e concretização de ideias, ideais, projetos ou mesmo sonhos. O que é uma nação senão a somatória dos esforços e da colaboração dos seus cidadãos para o atingimento de objetivos comuns?
Isto porque confiança social é via de duas mãos. De um lado, todos esperam que cada indivíduo seja honesto e confiável. Do outro lado, cria-se um ambiente em que, caso a desonestidade exista, ela é exceção, e, portanto, facilmente identificável e punível.
E, por falar em punição, vergonha, e não cadeia, parece ser o incentivo mais forte. Onde existe confiança e expectativa de honestidade, quebra de confiança causa vergonha. E isolamento. Ou seja, não ser confiável, ou ser simplesmente desonesto tem custo social elevado.
Talvez esteja aí uma das grandes causas do nosso fracasso como nação. Olhando bem no espelho, o brasileiro talvez encontre um sujeito desconfiado. De tudo. De todos. Sempre com um pé atrás. A desconfiança é evidente, clara, concreta. Aparece nos muros cada vez mais altos. Nos carros blindados. E na montanha de leis com o objetivo de regular por escrito cada aspecto da paranoia tropical, mas cujo único efeito prático é tornar mais fechado e incompreensível o já impenetrável emaranhado legal que criamos.
Não confiamos uns nos outros. Não somos exigentes no comportamento individual daqueles que nos cercam. Esperamos pouco ou quase nada do comportamento alheio. Não sentimos vergonha. Ser desonesto, não traz consequência social. Nem isolamento. Nem punição. E muito menos cadeia.
O resultado é este que está aí. Somos a sociedade da desconfiança. É o que construímos. Não dá mesmo para construir um Estado descente para uma nação que, por desconfiada, é descrente. Por descrente, espera pouco. Por esperar pouco, não tem vergonha. Por não ter vergonha, aceita o pior.
A nação dos desconfiados não tem noção. Desconfiança custa caro.
Elton Simões
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