terça-feira, 6 de março de 2018

Santa ira

Se Deus é bom, por que sua ira recai sobre os homens e não apenas o seu amor? Essa é uma pergunta que teólogos responderam dizendo que Deus não era mau e que a Sua ira santa era o caminho que levaria os cristãos pecadores à redenção e ao paraíso. Afinal, o contrário da bondade e do amor não seria a ira, mas sim a indiferença – essa a atitude a ser temida, pois significaria que Deus não acreditava no poder de regeneração das almas pecadoras.

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A ira santa de Deus popularizou-se como a santa ira dos homens ou a ira do bem. Ela aparece na explosão indignada de quem não consegue assistir passivamente ao que é injusto, incorreto ou amoral. A santa ira vem de dentro e invoca a razão e a ética em defesa do que é certo. Sem ela, não há transformação, só apatia. Mantém-se o status quo e vai-se adiante, mas sempre um pouco pior.

Mais ou menos como estamos hoje no Brasil. Somos diariamente bombardeados por notícias e fatos absurdos e vamos nos acostumando, numa condição de normalidade surreal.

Somos o País que concede, com dinheiro público, auxílios moradia, educação, alimentação, livros, etc., para aqueles que têm estabilidade de renda, enquanto não conseguimos prover saúde ou educação de qualidade, gratuitas, para quem não pode pagar. Convivemos com uma associação de juízes que promove greve em favor do desrespeito à lei ao mesmo tempo em que defende o cumprimento das leis pelos outros. Temos o sistema de Previdência mais injusto do mundo, que transfere recursos públicos para os que estão no topo da distribuição de renda, que permite aposentadorias precoces e generosas para alguns e que faz multiplicar o número de filhas de militares solteiras-casadas. Afinal, aqui o direito se adquire mesmo que a condição não esteja presente e apesar do risco concreto de deixarmos todos ao relento.

Concedemos incentivos fiscais e desonerações sem avaliar seus resultados e nos convencemos de que não são renúncia de receita, e sim subvenção a investimento. Fomentamos uma indústria nascente há mais de 60 anos e tributamos de forma regressiva, fazendo aqueles que ganham menos pagarem mais. Convivemos com um sistema tributário caótico e combatemos a falta de uma política de desenvolvimento regional com uma guerra fiscal que incentiva a alocação ineficiente de recursos. Mas preferimos não atentar para os caminhões trançando o País em estradas esburacadas, consequência da falta de capacidade de investimento do setor público.

Promovemos anistias fiscais anuais, premiando quem não paga imposto em detrimento dos que encaram a alta carga tributária como obrigação cívica. O que arrecadamos financia uma máquina pública enorme. Ao mesmo tempo, garantimos aumentos salariais descolados dos aumentos de produtividade e desconectados da qualidade do serviço que o cidadão recebe. Contratamos via concurso público sem planejamento, mas convivemos com escolas caindo aos pedaços e hospitais sem remédios. A Lei de Responsabilidade Fiscal virou “lei para inglês ver”, pois fazemos de conta que o que se paga de salário não é salário, mas a cada mês valores maiores são transferidos à conta de despesa de pessoal e menos sobra para investimento. Nesse desbalanço, o servidor também paga a conta. Basta ver os atrasos de salários e aposentadorias Brasil afora, as condições de trabalho e, muito mais trágico, o recorde de assassinatos de policiais no Rio de Janeiro.

Ah, o Rio... esse foi tomado de assalto. Afundado no caos, ainda assiste à resistência dos poderes locais a uma completa revisão institucional, como se a saída do fundo do poço fosse cavar mais fundo.

Diante de tantos absurdos, está nos faltando a santa ira, a ira do bem. Aquela indignação cívica que não admite a injustiça e motiva as necessárias transformações. Aquela força difusa, a única que pode recolocar o eixo de leis e políticas públicas de volta no cidadão. É hora de resgatar a razão. Somente a santa ira nos levará a um outro Brasil. O Brasil em que queremos viver.

Desligada da realidade a bem próprio

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A elite vive apartada da sociedade brasileira desde a escola. E aparentemente, como se nada estivesse acontecendo
Cao Hamburger

Supremo decreta intervenção na ficção de Temer

Num instante em que o governo prepara o lançamento de uma campanha publicitária para trombetear as realizações de Michel Temer, o Supremo Tribunal Federal joga lama no chope do presidente. Em apenas quatro dias, Temer foi empurrado para dentro de um inquérito sobre propina da Odebrecht e teve o sigilo bancário quebrado em investigação sobre a troca de favores portuários por mais propina. As novidades enferrujam a pretensão do Planalto de influir na sucessão.


Há na praça uma espécie de presidente dois em um. O Temer denunciado duas vezes e varejado num par de inquéritos é assustador. O Temer “reformista” e “corajoso” é um homem realizado, com o qual muitos gostariam de trocar um dedo de prosa sobre tudo o que hove depois que ele deixasse a Presidência —de preferência na semana que vem. Mas é impossível não tratar os dois como um só, pois a falta de ética do primeiro anula a boa intenção do segundo.

Após decretar intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, Temer assiste à intervenção judicial em sua biografia. As iniciativas dos ministros Edson Fachin (caso Odebrecht) e Luís Roberto Barroso (quebra do sigilo bancário) são pedagógicas. Ajudam o brasileiro a entender que está lidando com dois tipos de criminosos: os absolutamente sujos, que operam nas cadeias e nas favelas, e os supostamente limpos, que atuam nos gabinetes.

O criminoso sujo é matéria-prima para que o criminoso limpo tente manter intacta a anormalidade de sua vida normal. Ao decretar guerra ao crime organizado do Rio, Temer manteve viva a realidade paralela que construiu para viver com seus amigos. Ao intervir nas contas do presidente e do seu séquito de amigos, o Supremo retira de Temer e Cia. a proteção de habitarem numa ficção.

A Era do algoritmo chegou e seus dados são um tesouro

O que têm em comum as menções nas redes sociais ao turismo de Moçambique, a coleta de resíduos na cidade espanhola de Haro e a eficiência energética dos edifícios registrados no cadastro? Em princípio, nada. Mas uma visita à sala de monitorização de eventos da Indra basta para encontrar o nexo entre elementos tão díspares.

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Aqui, nessa sala repleta de telas com luzes piscantes, um grupo de engenheiros controla 24 horas por dia, sete dias por semana, a informação que recebem de uma infinidade de processadores. Eles observam a evolução desses indicadores, e enviam suas conclusões aos clientes que contrataram seus serviços, sejam empresas privadas e administrações públicas. Esse é um excelente lugar para compreender por que os algoritmos se transformaram no segredo do sucesso de muitas grandes empresas: um segredo que lhes permite canalizar um fluxo ingente de informação para tomar decisões fundamentais para sua atividade.

Dessa sala-observatório da Indra na cidade espanhola de San Fernando de Henares, José Antonio Rubio explica que é aqui onde gigantescas quantidades de dados são transformadas em conhecimento suscetível de ser monetizado. “Os algoritmos não têm só a capacidade de explicar a realidade, mas também de antecipar comportamentos. É uma vantagem para evitar e minimizar riscos e para aproveitar oportunidades”, afirma Rubio, diretor de Soluções Digitais da Minsait, a unidade de negócio criada pela Indra para encarar a transformação digital.

Não é novidade que as empresas obtenham dados da analítica avançada para estudar características do produto que planejam lançar no mercado; o preço que se quer colocar e até decisões internas tão sensíveis como a política de retribuições aos seus funcionários. O surpreendente é a dimensão. Não é só o fato de que recentemente o número de dados em circulação tenha se multiplicado a volumes difíceis de se imaginar — calcula-se que a humanidade gerou nos últimos cinco anos 90% da informação de toda a história. Também cresceram vertiginosamente as possibilidades de interconectá-los. A palavra revolução corre de boca em boca entre acadêmicos e gestores empresariais em contato com o florescente negócio dos algoritmos e o chamado big data.

“A primeira revolução chegou há alguns anos, com o armazenamento de imensas quantidades de dados procedentes das pegadas eletrônicas que todos nós deixamos. A segunda, na qual estamos imersos, vem da capacidade que tanto os empresários como os usuários e pesquisadores têm de analisar esses dados. Essa segunda revolução procede dos algoritmos supercapazes e do que alguns chamam de inteligência artificial — mas que eu prefiro denominar de superespecialistas”, explica Esteban Moro, professor da Universidade Carlos III de Madri e do MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de Boston.

Essa segunda revolução conta com a ajuda de cada uma das milhões de pessoas que todo dia entregam seus dados de forma gratuita e contínua, seja publicando uma foto no Facebook, comprando com cartão de crédito ou passando pelas roletas do metrô com um cartão magnético.

Na esteira de gigantes como Facebook e Google, que baseiam seu enorme poder na combinação de dados e algoritmos, cada vez mais empresas investem quantidades crescentes de dinheiro em tudo o que se relaciona com big data. É o caso do BBVA, que aposta tanto em projetos invisíveis para clientes — como os motores que permitem processar mais informações para analisar as necessidades dos usuários — como em iniciativas facilmente identificáveis, entre elas a que permite que os clientes do banco possam prever a situação de suas finanças no final do mês.

“Faz décadas que o setor financeiro usa modelos matemáticos. Nos anos setenta, o cliente de um banco vinha definido por muito poucos atributos, como lugar de residência, idade, profissão e renda. Hoje, contudo, ele deixa uma pegada digital muito profunda que nos ajuda a conhecê-lo para personalizar nossa oferta de serviços e minimizar os riscos. A novidade é a profundidade dos dados e a capacidade analítica”, afirma Juan Murillo, responsável pela divulgação analítica do BBVA. “O grande desafio agora é ver como todos esses dados se transformam em valor, não só para a empresa, mas também para os nossos clientes e a sociedade.”

As amplíssimas possibilidades oferecidas pelos algoritmos não estão livres de risco. Os perigos são muitos: vão da segurança cibernética — para fazer frente aos hackers e ao roubo de fórmulas — até a privacidade dos usuários, passando pelos possíveis vieses das máquinas.

De fato, um recente estudo da Universidade Carlos III concluiu que o Facebook controla, para uso publicitário, dados sensíveis de 25% dos cidadãos europeus, que são categorizados na rede social em função de assuntos tão privados quanto sua ideologia política, orientação sexual, religião, etnia e saúde. A Agência Espanhola de Proteção de Dados já impôs em setembro uma multa de 1,2 milhão de euros (4,8 milhões de reais) à rede social de Mark Zuckerberg por usar informações sem autorização.

A segurança cibernética, por sua vez, transformou-se na principal preocupação dos investidores do mundo todo: 41% se disseram “extremamente preocupados” com esse assunto, segundo a pesquisa Global Investors Survey de 2018, publicada nesta semana pela PwC. “Um problema dos algoritmos é que carecem de contexto. Podem fazer maravilhosamente bem uma tarefa, mas, se você os tirar dessa atividade, vão falhar de maneira estrepitosa. Uma empresa que realizar uma fusão com outra terá que aprender a treinar de novo os algoritmos da companhia que absorver. Para isso, é preciso saber como eles foram criados”, afirma Moro, o especialista do MIT.

De volta à sala de monitorização da Indra, Rubio destaca as diversas utilidades que oferece aos clientes. Por motivos de confidencialidade, ele não pode falar das dezenas de empresas às quais fornece informação. Por isso, cita exemplos um tanto exóticos, como o turismo em Moçambique e os resíduos de Haro. Quando termina, a pergunta gira em torno da possibilidade de que os algoritmos tenham se transformado no tesouro mais valioso das empresas. “Definitivamente, sim”, responde, sem hesitar.

E os riscos? As máquinas assumirão o lugar dos humanos? “Isso é algo que preocupa. Tudo o que não conhecemos gera desconfiança. Mas a tecnologia nos permite limitar os riscos e aproximar as indústrias digitais das pessoas. O risco é inerente ao ser humano, não às tecnologias”, conclui Rubio.

Gente fora do mapa

Vivendo com um dólar por dia

As 'luléculas' de vocês

Lula nunca foi modesto. Já se comparou a Jesus Cristo, Tiradentes, Nelson Mandela e tantos outros quantos lhe convenham à hora e ao tempo. O ex-presidente mais popular do Brasil tem muitos defeitos, mas nunca fez ou disse algo que não seja para se exaltar e engrandecer. Apequenar-se, nunca!

Dia destes, falando a seus prosélitos, aludiu aos juízes que ousam julgá-lo, condená-lo – e até aí ele é capaz de chegar ao paroxismo de seu espanto e de sua revolta – afirmando peremptoriamente: “Estão lutando com um ser humano diferente. Eu não sou eu. Sou a encarnação de um pedaço de células de cada um de vocês”. E acrescentou, no melhor estilo evangélico: “Prendam minha carne, mas minhas ideias continuarão livres”. Não se assuste. O petista pode até exagerar na sua imodéstia, mas a verdade é que ele nunca precisou tanto dela quanto precisa agora.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Neste momento, seus desafetos, adversários e inimigos podem dizer sem receio: o homem não é mais suspeito, réu muitas vezes, acusado, difamado; ele agora é – sem dúvida nenhuma – condenado por dois crimes abjetos para qualquer pessoa, mais ainda para um ex-dirigente sindical, um chefão partidário, eternamente no palanque para disputar o mais elevado cargo político do Brasil: corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Sim, o juiz Sergio Moro condenou-o a nove anos e meio de cadeia na primeira instância. E daí? Daí o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, confirmou a condenação e aumentou sua pena para 12 anos e um mês. Essa conta pode ser discutida, é possível argumentar que o tempo foi fixado para evitar uma prescrição próxima, pode-se alegar qualquer coisa em sua defesa nos tribunais. Menos uma: o fato está consumado. Fait accompli, diriam os franceses. A decisão de que o fato é criminoso, na Justiça brasileira, põe por terra o mimimi dos devotos da intelligentsia local e internacional de que ele é injustiçado e perseguido por golpistas da elite que não suportam o fato de ter permitido o acesso dos jovens pobres ao ensino superior e a suas famílias, o conforto de viagens aéreas. Fato é fato, gato é gato. E passado na segunda instância não pode mais ser contestado, revisto, alterado.

À espera de um veredicto benevolente do Supremo Tribunal Federal (STF), o conjunto imaginário das “luléculas” de todos os brasileiros não se contenta com a liberdade da qual se acha merecedor pelo simples fato de ter sido parido por dona Lindu, com a graça de Deus, Nosso Senhor, seu parceiro de buraco no sítio Los Fubangos, não aquele de Atibaia, que ele jura não ser dele. Ele quer que a suprema graça de poder tomar cachaça com Cambuci, herdada da “Nonna”, avó de dona Marisa, de saudosas memórias, venha acompanhada de outro benefício: a prisão dos inimigos. Em entrevista exclusiva à colega Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, ele não fez por menos e exigiu: “A Justiça tem o tempo necessário para fazer a investigação correta e punir quem está errado. E quem deveria ser punido era o Moro, o MPF, a PF e os três juízes que fizeram a sentença lá. Essas pessoas mereciam ser exoneradas a bem do serviço público”. Execração, prisão, desonra pública e demissão para os inimigos. É pouco?

Trata-se de um desejo de difícil realização. Por enquanto, não tem mais como ser absolvido no primeiro dos sete processos judiciais a que responde e tudo o que ele poderia almejar seria adiar a chamada “execução da pena”, já decidida em segunda e definitiva instância, para Deus sabe até quando, se ele aceitar, quem sabe ao atingir a idade atual do ex-inimigo e ex-aliado Paulo Maluf. Uma hora, a julgar pela tradição, chegará o dia de cumprir a pena. Pode ser na cela comum, por falta de diploma universitário, ou em outra em que caibam seus seguranças e assessores pagos pelos contribuintes. Estes também são “luléculas”, aliás, filhos de Deus. Ou no conforto do apartamento em São Bernardo com tornozeleira e sem poder receber amigos, como, por exemplo, o compadre Roberto Teixeira.

Os amigos do peito da alta Justiça já providenciaram alguns confortos para seu futuro. Há pouco, o Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1) transferiu processos em que é réu na 10.ª Vara Criminal Federal de Brasília, apesar das testemunhas ouvidas, das provas colhidas e tudo o mais pelo rigoroso juiz Vallisney de Souza Oliveira, para a recém-criada 12.ª. Todavia, como seu parceiro de cartas é misericordioso, mas também tem de cuidar de ser justo, por enquanto, a péssima repercussão da medida levou o TRF-1 a devolver os processos ao juiz que o tornou réu.

E impôs-lhe outro obstáculo irremovível. O principal deles é o juiz federal do Paraná Sergio Moro, da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba. Pois não é que um dos tais “três juízes que fizeram a sentença lá”, justamente o relator Gebran Neto, ousou indeferir o pedido de sua diligente defesa para afastar esse magistrado do processo da Lava Jato que o acusa de ter recebido propinas das empreiteiras baianas OAS e Odebrecht na reforma de um sítio em Atibaia, que membros do MPF, também execrado por ele, afirmam que lhe pertence? O pedido foi baseado na lógica, não a de Aristóteles, Santo Tomás ou Santo Agostinho, mas na de Djalma Bom, o companheiro orador dos tempos das greves de metalúrgicos no ABC de Luiz Marinho. Acompanhe o raciocínio: Sergio Moro fez uma palestra numa reunião que tratava decompliance nas dependências da Petrobrás. Já seria suspeito pelo fato de o encontro tratar dessa mania de gringo, além do mais definida em inglês, compliance. Mas mais suspeito ainda seria o fato de a estatal contratar advogado para auxiliar da acusação do processo do tal do sítio. É o caso de exclamar: valei-me, Santa Bárbara! Pois então, o relator rasgou o tomo da suma do compadre Djalma dizendo que o tema da conferência do julgador nada tinha que ver com o objeto do tal processo em que Lula é réu e, pelo visto, está para ser apenado. Ora, ora,compliance não quer dizer boa prática de gestão, o contrário de corrupção? E não é de corrupção que o processo trata?

Outro episódio noticiado no mesmo dia em que a Folha publicou que ele jura que não se matará nem fugirá do Brasil, mas brigará até o fim, o Estado contou que o antigo parceiro e hoje abjeto delator premiado – e logo ele, que dizia condenar delação – Marcelo Odebrecht entregou à turma da Operação Lava Jato e a Moro e-mails de seu computador pessoal relacionando-o com as obras da reforma do sítio. E daí? Compadre Djalma Bom diria, pela lógica dele, que um bom amigo faz o que pode pelos amigos e pelos filhos deles. Como compadre Jacó Bittar está dodói na Ilha Porchat, caberia a Lula providenciar facilidades burocráticas para seu filho Fernando e o sócio dele, Jonas Suassuna, “verdadeiros” donos do sítio.

Já que é mais fácil nevar em Cuiabá do que Moro e os meninos do PowerPoint de Curitiba aceitarem o pedido da defesa de Lula de jogar no lixo da História os e-mails do filho do “amigo” Emílio, a batata do ex está assando e deverá torrar completamente em breve. Seja qual for a decisão dos amigos Dias Toffoli, Lewandowski e Rosa Weber e do ex-desafeto Gilmar Mendes no STF, mais uma condenação na primeira instância, com boa chance de ser corroborada na segunda, não será a melhor notícia para quem disse à entrevistadora amiga que só vai aventar a possibilidade de outra candidatura (do PT) “quando for confirmado definitivamente” que ele não é candidato. Afinal, o STF poderá até, como parece que vai fazê-lo, apesar do vergonhoso casuísmo que isso significará, adiar para as calendas gregas o momento da execução de sua (ou suas) pena (ou penas). Mas jamais impedir que um dia, que não seja o 31 de novembro dos recibos do aluguel do compadre Glaucos, ele seja proibido de circular por aí.

Em Brasília, até se comenta à boca pequena que ele não será preso agora, mas também não será candidato, e obterá de seus amigos dos altos escalões judiciários vista grossa para poder fazer campanha e participar de pelo menos quatro debates eleitorais apresentando um vice. Este, na hora H, receberá os votos que lhe forem destinados nas urnas eletrônicas em outubro e novembro. No reino da condescendência que permite a Dilma ser merendeira de escola por um rabisco na Constituição, tudo é possível. Só que isso nada significa para quem se acredita a soma “lulecular” de todos os brasileiros – ele só não definiu se seriam vivos e mortos ou apenas os atuais 200 e poucos milhões presentes na luta terrível de sobreviver a uma crise de 12,7 milhões de desempregados que os desgovernos seus e da afilhada Dilminha aqui implantaram. Para geral desgraça nacional.

José Nêumanne Pinto

O conturbado histórico de Temer na Segurança Pública

Ao decretar uma intervenção no Rio de Janeiro e criar o Ministério da Segurança Pública, o presidente Michel Temer colocou o combate ao crime no topo da agenda do seu último ano de governo. O assunto não é novo para o político veterano, que foi secretário de Segurança Pública de São Paulo em duas ocasiões, nos anos 1980 e 1990.

Em maio de 2016, logo após assumir interinamente a Presidência, Temer fez questão de lembrar sua experiência na área: "Fui secretário de Segurança duas vezes e tratava com bandidos. Então, eu sei o que fazer no governo."

No entanto, suas duas gestões na área foram marcadas pela explosão nos índices de homicídios, conflitos com delegados e promessas não cumpridas. Elas também evidenciaram um padrão da sua futura carreira na política: o papel de substituto. Temer nunca foi a primeira opção, mas acabou herdando o cargo de secretário quando seus antecessores pediram demissão ou não tinham mais condições de permanecer à frente da pasta.


Se eu tiver conhecimento dela (corrupção), haverá punição imediata
Michel Temer, secretário de Segurança em 1984


Em janeiro de 1984, o governador de São Paulo, Franco Montoro (PMDB), havia perdido o segundo secretário de Segurança desde o início da sua gestão, iniciada apenas dez meses antes. O mais recente titular do cargo, Miguel Reale Jr. – que 30 anos depois seria um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff –, abandonou o posto alegando problemas pessoais.

Para o cargo, Montoro transferiu Temer, então procurador do Estado – e sem nenhuma experiência em segurança pública. Ao assumir, Temer fez declarações de efeito. Disse que iria ter tolerância zero com a corrupção policial: "Se eu tiver conhecimento dela, haverá punição imediata."

Ele também prometeu ser duro: "A polícia responderá com energia à violência do marginal. Ninguém desejará que no eventual confronto com a delinquência a polícia não responda com as mesmas armas e com firmeza. É violento o confronto."

Ao mesmo tempo, declarou que sonhava com o dia em que a polícia não precisasse mais usar armas e propôs a legalização do jogo do bicho.

Temer ficou no posto por dois anos. Colecionou algumas iniciativas que ainda são propagandeadas em suas biografias oficiais em sites do governo, como a criação da primeira delegacia da mulher do Brasil e a implementação de uma delegacia de direitos autorais. Forçou ainda mudanças na aposentadoria dos delegados com o objetivo de renovar a Polícia Civil.

Mas pouco fez para frear a tendência de crescimento da violência no Estado. Em 1983, São Paulo registrou uma taxa de 21,9 homicídios por 100 mil habitantes. No final de 1985, seu segundo ano no cargo, a taxa havia saltado para 25,1 – um total de 8.213 assassinatos. Na região metropolitana da capital paulista, o crescimento também foi dramático, de 30,4 em 1983 para 35,3 por cada grupo de 100 mil habitantes em 1985.

Temer chegou a culpar a pornografia pelos números alarmantes. "A divulgação do chamado sexo explícito, tanto no cinema quanto em meios escritos, atua como elemento de incentivo ao crime, já que essas mensagens atingem, sobretudo, as pessoas carentes, econômica e emocionalmente", disse Temer em 1985, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

No período, o então secretário ainda enfrentou o que provavelmente foi o primeiro movimento "Fora Temer", conduzido por um sindicato de delegados, insatisfeito com a falta de aumento salarial e com mudanças na estrutura das polícias.

Em 1985, durante uma assembleia da categoria, chegou a ser chamado de "secretário sinistro". Uma carta oficial assinada por centenas de delegados exigiu sua demissão, mas Montoro se manteve firme e defendeu seu secretário. Temer só viria a deixar o posto no ano seguinte para lançar sua pré-candidatura como deputado constituinte.

Em outubro de 1992, Temer voltou a seguir o roteiro de oito anos antes: foi deslocado da procuradoria do Estado para a Secretária de Segurança Pública. Desta vez, em meio a um quadro mais dramático. Seis dias antes de reassumir o posto, policiais mataram 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo. Era o massacre do Carandiru. O então governador Luiz Antonio Fleury Filho (PMDB) demitiu o secretário Pedro Franco de Campos e pediu que Temer ajudasse a recuperar a imagem da polícia.

Ao assumir o posto, Temer falou da importância de se investigar o episódio, mas suas energias foram mesmo canalizadas para acalmar os oficiais da PM, que temiam que o massacre prejudicasse a corporação. O secretário manteve o comandante-geral da PM no cargo e disse em um encontro com oficiais que a PM não seria "julgada por nenhum episódio isolado". O secretário não tomou nenhuma iniciativa para punir os envolvidos. O caso permaneceu nas mãos da Justiça Militar, que conduziu vagarosamente um inquérito até 1996, quando os autos foram remetidos para a Justiça comum.

Um ano depois do massacre, Temer ordenou que a Rota, uma das unidades que participou do massacre, voltasse às ruas com mais vigor. "Os bandidos parecem estar pensando que podem agir sem serem molestados", disse.

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domingo, 4 de março de 2018

Gente fora do mapa

Crianças da Guerra

Poucos noticiam

Yemen, 2017. O flagelo da guerra abate-se sobre esta região miserável do planeta. Vamos a alguns números, levantados após cerca de um ano de conflito: 130 crianças mortas por dia, ou uma a cada 18 minutos, e 400.000 em necessidade de tratamento urgente por conta de doenças causadas pelas vicissitudes da guerra - fome, falta de medicamentos etc. Estima-se que 30% delas morrerão. Curiosamente, um quadro tão dramático recebeu da esmagadora maioria da imprensa ocidental um tratamento meramente burocrático.

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Congo, década de 1990. Inicia-se um violento conflito em torno da exploração de coltan, um minério raro sem o qual não teríamos a maioria dos aparelhos eletrônicos modernos. Nos últimos 20 anos, esta guerra já ceifou seis milhões de vidas - o mais sangrento conflito desde a Segunda Guerra Mundial. Uma investigação identificou 157 empresas ocidentais envolvidas com a exploração deste mineral - e calculou-se o custo de um telefone celular produzido com coltan extraído daquele país: a vida de duas crianças. É interessante: no mundo ocidental praticamente não se noticia este tão grave conflito!

Fallujah, 2015. Pela pena do jornalista Larry Everest, alguns poucos jornais noticiaram que "os EUA usaram bombas de fragmentação, fósforo branco e urânio empobrecido contra o povo iraquiano, todas elas consideradas armas de destruição em massa, suspeitas de induzirem câncer e deformações em fetos. Presencia-se uma taxa de deformações congênitas na cidade de Fallujah que supera até as verificadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em seguida aos bombardeios nucleares".

Colômbia, 2014. Um chocante relatório da Anistia Internacional, que praticamente não encontrou repercussão, expôs que a guerra civil que assola aquele país desde 1956 já produziu nada menos que 7 milhões de mortes - a maioria delas após o ano 2000. Somente para que se tenha uma ideia, em 2002 aquele conflito ceifou a vida de 744.799 seres humanos.

É intrigante: nenhuma das informações acima recebeu ampla divulgação! Conflitos de muito menor relevância, ou mesmo divórcios escandalosos de algumas celebridades, encontraram repercussão muito maior.

É quando a humanidade deveria lançar-se ao seu talvez mais importante e premente desafio: resolver a crise do acesso à informação em plena… era da informação!

Pedro Valls Feu Rosa

Formatados pela sociedade

Idealmente, o que deveria ser dito a todas as crianças, repetidamente, ao longo da sua vida escolar, seria algo como isto: "Estás no processo de ser doutrinado. Nós ainda não fomos capazes de desenvolver um sistema de educação que não seja um processo de doutrinação. Lamentamos, mas é o melhor que podemos fazer.
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O que te estamos a ensinar é uma amálgama dos preconceitos atuais e das escolhas desta cultura em particular. Uma pequena olhada na História vai-te mostrar o quanto estes são temporários. Estás a ser ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a um regime de pensamento que foi desenhado pelos seus antecessores. É um sistema de auto-perpetuação. Aqueles de vocês que forem mais robustos e individuais que os outros serão encorajados a sair e a encontrar formas de se educarem a si próprios – a educarem os seus próprios julgamentos. Aqueles que ficarem têm que se lembrar, sempre, e para sempre, que estão a ser moldados e modelados para se encaixarem nas necessidades estreitas e particulares desta sociedade"
Doris Lessing 

Paisagem brasileira

Penedo (AL)

A intervenção meia-sola

Há um recado subjacente às restrições que a esquerda e as organizações a ela ligadas emitem em relação à intervenção federal no Rio: confiam menos nos militares que nos bandidos.

Isso explica o largo espectro de entidades – nacionais e locais – que, em tom hostil, avisam que irão monitorar minuciosamente a ação das Forças Armadas no combate ao crime organizado.

Entre outras, OAB, ABI, Ministério Público, Associações de Magistrados, de Moradores das Comunidades, sem esquecer parlamentares, artistas, intelectuais, acadêmicos e sindicalistas.

Vídeos com advertências prévias, em tom intimidatório, viralizam na internet, em contraste com o clamor popular, saudando os interventores, na expectativa de um enfrentamento eficaz.

Até o Tribunal de Contas da União – já que o do Estado está na cadeia – avisou que irá designar comissão para acompanhar os gastos dos militares durante as operações.

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Nada contra a vigilância cívica, que deve mesmo estar presente, sempre e em horário integral. O que se questiona é onde essa vigilância estava quando o narcotráfico, ao longo das três últimas décadas (começou com Brizola, nos anos 80), se instalou nos morros e periferias da cidade, submetendo à tirania do crime a população pobre, exatamente a que a esquerda diz agora defender.

Desde que passaram o poder aos civis, há 33 anos, os militares jamais voltaram a intervir na cena política, ocupada gradualmente por ONGs, sindicatos e partidos de esquerda.

O crime organizado estabeleceu-se à sombra dessas organizações, em conluio com os sucessivos governos, estimulado por uma blindagem legal que, desde Brasília, o tornou mais seguro que qualquer outro segmento da sociedade brasileira.

Quando o general Hamilton Mourão chamou a intervenção de “meia-sola” e comparou o interventor, general Braga Neto, a “um cachorro acuado”, referia-se a esse quadro.

Quem o vê de fora imagina que o Exército invadiu a cidade, à revelia de seus habitantes – e não que está sendo chamado, mais uma vez, para gerir uma catástrofe, que não ocasionou. Foi assim em eventos de repercussão internacional, como os jogos Pan-americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os jogos Olímpicos de 2016.

Por fim, as operações de garantia da lei e da ordem (GLO). Agora, a missão é mais espinhosa ainda: assumir a segurança pública do Estado, que é um dos fatores da insegurança.

O crime é monitorado de dentro do próprio Estado. Nas palavras do agora ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no Rio, o Estado foi “capturado pelo crime organizado”. Como combatê-lo, pois, à sombra do governador Pezão e da Assembleia Legislativa?

Sérgio Cabral chegou ao Palácio Guanabara tendo como cabos eleitorais Lula e Dilma. Lula (e isso está no Youtube) chegou a dizer que votar em Cabral era “um dever moral do carioca”. Cabral foi eleito, reeleito e fez seu sucessor, Pezão. Ontem, recebeu mais uma condenação, inteirando mais de um século de cadeia.

Lula está prestes a segui-lo. Não se ouviu dessas organizações que dizem temer o Exército nenhuma manifestação crítica a nenhum desses personagens. O crime organizado age sem as ressalvas que se impõem à polícia: não está submetido a coisas tais como “excesso de legítima defesa” ou à audiência de custódia ou a direitos humanos.

Rouba, mata e faz da população escudo humano. Se falhar, será socorrido por diversas ONGs, que defenderão seus “direitos”.

O general Mourão foi até moderado. O general Braga Neto é um maestro algemado, chamado a reger uma orquestra cujos instrumentos estão quebrados e as partituras se misturaram.

Ruy Fabiano 

As crianças alemãs e as bicicletas

Na Alemanha, a impressão que se tem é que as crianças já nascem sabendo andar de bicicleta. Elas sempre acompanham os pais nos passeios ciclísticos pelas cidades e parques. O treinamento começa bem cedo.

Quando pequenas, as crianças começam a praticar com uma bicicleta sem pedal, impulsionando o movimento com os pés. Assim, quando passam a usar as bicicletas infantis convencionais, não precisam depender das rodinhas.

Mas aprender em casa não é suficiente. Na terceira classe do ensino fundamental (Grundschule), por volta dos sete anos de idade, as crianças passam por uma formação de ciclistas, a Radfahrausbildung.

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O tempo varia de estado para estado alemão, mas em geral dura dois anos com práticas espaçadas por um período de seis meses.

Além de receber um curso teórico, as crianças praticam com cones e figuras no chão e fazem exercícios de subida e descida, respeitando todas as leis de trânsito da Alemanha.

As crianças usam coletes fosforescentes com número de identificação e capacete. As bicicletas devem ser adequadas ao peso e altura da criança, além de equipadas com luzes dianteira e traseira e campainha.

Os pais podem participar de algumas aulas e também da visita ao departamento de trânsito, onde as crianças aprendem a dirigir de bicicleta com simuladores de trânsito, como rotatórias, preferenciais, semáforos e faixa de pedestres.

A formação termina com uma prova prática. Se aprovada, a criança recebe uma espécie “carteira de motorista”. Elas não precisam portar o documento quando circulam nas cidades, mas a carteira tem uma simbologia importante: representa a formação de futuros adultos responsáveis no trânsito.

Karina Gomes

sábado, 3 de março de 2018

Imagem do Dia

The Sacred Valley of the Incas in Peru
Vale sagrado dos incas (Peru)

Improvisos seculares

Ainda no século XIX, um dos maiores brasileiros de nossa história, Joaquim Nabuco, disse que a Abolição ficaria incompleta se os escravos não recebessem terra para trabalhar, e seus filhos não recebessem escolas para estudar. Não lhe deram atenção. Cem anos depois, outro dos maiores brasileiros da história, Darcy Ribeiro, disse que se o Brasil não construísse escolas naquele momento, teria de construir cadeias no futuro.

Junto com o então governador Leonel Brizola, Darcy iniciou a construção de um sistema estadual de escolas públicas com máxima qualidade: os Cieps. Os governadores seguintes não deram continuidade a esse sistema em horário integral. Em 1990, o ex-presidente Collor tentou levar a ideia para o resto do Brasil com os Ciacs, mas, com o impeachment, a tentativa de federalização foi abortada.


A sociedade brasileira continuou sua marcha de pobreza, violência, desigualdade, ineficiência, improvisando soluções parciais para cada problema. Eleitos e eleitores não percebem que o berço de nossos problemas está na falta de um sistema nacional de educação com máxima qualidade; que o futuro de um povo tem a cara de sua escola no presente (83% dos jovens infratores abandonaram a escola ainda na educação de base). A população vê a ameaça de uma pessoa portando fuzil, mas não vê a esperança em um professor segurando um lápis, um livro, um computador dentro de uma boa escola. No momento, quase todo carioca apoia, e os demais brasileiros invejam, a decisão de federalizar a segurança do Rio de Janeiro, mas nem imaginam que a maior parte se opõe a uma federalização da educação de base. Preferimos continuar nas improvisações seculares: “Abolição”, “República”, “desenvolvimento”, “democracia” e “segurança” sem educação. A urgência de cuidar do fuzil nos faz desprezar a importância do lápis, mas guiar-se apenas pelo desespero com a violência não leva à construção da paz.

Em sete meses, teremos eleições gerais, mas nenhum candidato a presidente parece consciente da dimensão de nossos problemas, nem interessado em oferecer uma resposta que não da improvisação pontual. Ainda menos, enfrentar os problemas imediatos considerando que a solução de longo prazo está na construção de um sistema nacional de educação com máxima qualidade.

Querendo apenas agradar ao eleitor assustado com o presente, ficam presos às improvisadas trapalhadas seculares dos discursos demagógicos. Os partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação como solução, porque isso não atrai votos. Por mais consistência lógica que eles tenham, a urgência destrói os mais sólidos argumentos. Quem está com sede não aceita o aviso de que a água do poço em frente está contaminada e devemos cavar um novo poço em outro lugar. Poucos votam em quem propõe enfrentar fuzil também com lápis.

Por isso, não há ouvidos para a fala de Nabuco, nem de Darcy, nem para a ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, disse: “Se adotássemos uma geração de brasileiros, ela depois adotaria o Brasil”.

Cristovam Buarque

As duas fases do governo

Pode ser qualificado como populista, oportunista ou qualquer outro adjetivo que se queira mencionar, mas é fato que o governo do presidente Michel Temer é um, antes do Carnaval, e outro, depois da folia de Momo. Assim, mutante, o presidente que até a quarta-feira de cinzas parecia ser um fardo para os aliados no jogo eleitoral que se aproxima, pode, agora, vir a ser um importante agente político de sua própria sucessão. Sabemos que há um longo caminho até a eleição, mas o País dará um grande salto se as forças políticas se mostrarem capazes de abandonar um pouco o Fla-Flu dos últimos anos e convergirem em torno de uma agenda mínima proposta por essa espécie de segunda gestão Temer.


No primeiro governo tinha-se um Poder Executivo que, aparentemente, estava em estado letárgico. Refém de um Legislativo ganancioso, radicalmente fisiológico e sem nenhum pudor ético. Uma gestão fragilizada com parte de sua equipe citada em falcatruas, diante de um Ministério Público travestido de super-herói. Uma administração dependente de uma agenda econômica extremamente impopular e reformista, mas necessária para tirar o País de uma recessão sem precedentes na nossa história republicana. Com alguma habilidade, muita verba pública e estratosférico índice de impopularidade, esse primeiro governo Temer construiu uma base de apoio no Congresso para manter o presidente no Palácio do Planalto e aprovar parcialmente as amargas reformas, o suficiente para agora começar a colher bons resultados econômicos, que se espera, nos próximos meses, possam refletir no dia a dia do cidadão.

O segundo governo Temer parece revigorado. Praticamente abdicou da reforma da Previdência e assim cortou as amarras que o deixavam refém da Câmara e do Senado. Trocou a pauta negativa por uma agenda conectada com os anseios populares e empunhou a bandeira da segurança pública. Reduzir a violência é o desafio. Em pouco mais de dez dias, o governo, antes letárgico, decretou intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, criou o Ministério da Segurança e começa a construir uma força de elite nacional, que reúne os serviços de inteligência das Forças Armadas, amplia o contingente da Polícia Federal e tira os militares dos quartéis para que efetivamente patrulhem as fronteiras. Nessa batalha extremamente popular, o presidente passou os últimos dias a reunir governadores de diversos partidos para que se unam em torno de um plano de ação de comum. Só na quinta-feira 1, anunciou crédito de R$ 42 bilhões para que os estados invistam em planos contra a violência.

Não é pouco para um País que há décadas procura um projeto nacional de segurança pública, visto que os estados não dão conta de enfrentar um crime que não respeita as fronteiras, sejam elas nacionais ou internacionais. O segundo governo Temer entendeu que para enfrentar as organizações criminosas não basta comprar viaturas e armas, ou ampliar os contingentes policiais. Com as medidas anunciadas nos últimos dias, o governo pôs fim ao discurso de que segurança não é tarefa federal e inaugurou, assim, uma nova dinâmica para tratar do assunto. O Congresso logo reagiu e os presidentes da Câmara e do Senado correram para tirar das prateleiras os inúmeros projetos que tratam do tema e que havia anos estavam paralisados. Animais políticos que são, deputados e senadores sabem que, se o governo conseguir reduzir a violência e fizer frente ao crime organizado, o presidente se firmará como um importante eleitor e a eleição de alguma forma passará por ele. Interesses políticos à parte, para os brasileiros é importante que o projeto dê resultados e que o governo a ser eleito possa estar comprometido com as reformas que o primeiro governo de Temer não conseguiu realizar.

Paisagem brasileira

Aconchego do campo

Temer virou um réu esperando para acontecer

Em matéria penal, Michel Temer revela-se um recordista. Supera suas próprias marcas numa velocidade estonteante. Virou o primeiro presidente da história a ser denunciado por corrupção. Tornou-se o primeiro mandatário a ostentar duas denúncias criminais. Sobreveio um inquérito sobre a suspeita de recebimento de propinas de empresas portuárias. E nesta sexta-feira, o relator da Lava Jato no Supremo, Edson Fachin, adicionou Temer no rol de investigados do inquérito que apura o pagamento de propina de R$ 10 milhões da Odebrecht para o PMDB. Coisa negociada num jantar no Palácio do Jaburu, a residência oficial de Temer.


A coleção de encrencas impressiona: presidente de um mandato-tampão, Temer ostenta duas denúncias e dois inquéritos. Para lidar com o passivo ético, o presidente desenvolveu uma filosofia peculiar. Para ele, não há problema tão grande que não caiba no dia seguinte. Ser transformado em réu, por exemplo, é uma coisa que Temer prefere deixar sempre para depois.

É falsa a impressão de que Temer resolve seus problemas penais. O presidente apenas sobrevive a eles. Terminado o mandato, as denúncias congeladas serão retiradas do freezer. E nada impede que os dois inquéritos se convertam em mais um par de denúncias. Mais do que um presidente, Temer é um réu esperando para acontecer. Cada vez que ele faz pose de presidente, despenca sobre sua cabeça uma novidade para recordar aos brasileiros anestesiados que um presidente não pode ser só uma pose. É preciso que, por trás da pose, exista uma noção qualquer de ética.

Co-irmãos

(Os partidos políticos têm) os mesmos defeitos e algumas qualidades em comum.
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Evidentemente que os partidos são um defeito necessário, porque dividem, mas é uma divisão necessária para agrupar, para reunir a ideia da democracia parlamentar que temos. Agora, o erro das pessoas é adorná-los com méritos extraordinários, porque isso faz-nos cair numa partidolatria, imprópria de espíritos livres! Não penso que a nossa classe política seja pior do que a classe política de outros países. Ponhamos as coisas neste pé: as minhas exigências estéticas e éticas não tornam muito fáceis as minhas relações com a classe política. São caminhos separados. Não vamos pelo mesmo trilho. Mas a classe política é necessária. Ela existe e tem defeitos. Terá também uma ou outra qualidade
Natália Correia (1923 - 1993)

Você vai acabar elegendo Bolsonaro à presidência

Eu ainda não acho que o deputado Jair Bolsonaro será eleito presidente da República neste ano. Mas, se ele tem alguma chance, ela depende de você, que tem medo do capitão. Você, que se auto-congratula diariamente diante do espelho por se preocupar com os pobres e que enxerga ódio para todo o lado, menos em você mesmo. Bolsonaro fala grosso, grita, esbraveja, assusta, mas o que de fato poderia fazer se eleito presidente? Legalizar a tortura no Brasil? Criminalizar a homossexualidade? O debate acerca da possibilidade de ele assumir o Palácio do Planalto está tão fora da realidade que corre o risco de elegê-lo.

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A eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, expôs de forma clara os parâmetros sob os quais o confronto político é travado há décadas. O establishment (partidos, empresariado, mídia) sempre vai optar pelo candidato menos disruptivo, mais previsível. Trump rasgou o roteiro, porque disputou a batalha cultural, que é a que importa há algumas décadas. O presidente dos EUA não se submete ao script padrão, não se constrange quando é chamado de racista ou machista, palavras que viraram cavalos de batalha, e retruca insultos com desqualificações e deboches.

Bolsonaro é completamente diferente de Trump, mas segue regras parecidas. Fala o que pensa — ou, melhor ainda, o que não pensa. Isso cativa a porção do Brasil que não aderiu à política identitária, essa que privilegia o debate sobre minorias. Quanto mais a imprensa e os adversários políticos baterem nessa tecla, mais prestígio Bolsonaro ganhará entre os grupos que não se veem representados em discursos sobre transexuais e negros — que não raro interditam todo o debate franco em relação a qualquer que seja o assunto em discussão.

O pré-candidato do PSL é acusado de incitar o estupro ao mesmo tempo em que defende a castração química de estupradores. Faz sentido? Bolsonaro é destemperado — o que não é exatamente uma qualidade para um presidente da República — e ainda paga por ter respondido de forma ofensiva à ofensa de uma adversária política anos atrás. Teria revelado seu machismo espontaneamente? Nem todo mundo vê assim. A esquerda brasileira pretende fazer de Bolsonaro um símbolo do mal por conta de posicionamentos rotulados como “polêmicos”. E o deputado acabou se transformando em um símbolo do bem para quem não gosta da esquerda brasileira.

Talvez por isso o fato de a família Bolsonaro ter uma dezena de imóveis e, ainda assim, seu patriarca gozar de auxílio-moradia, não interfira em sua popularidade. Não é exatamente a um sistema político que Bolsonaro se opõe. É a um sistema cultural. E, ao fazê-lo, ele recebe carta branca da parcela do país que joga esse mesmo jogo. A vulgaridade da frase “uso para comer gente” é percebida por todos, mas relevada por quem está interessado em avançar alguns passos no campo de batalha cultural que se trava no Brasil desde a ditadura militar — mais em A corrupção da inteligência (Record, 2017), de Flávio Gordon.

Um ano depois da chegada de Trump à Casa Branca, os Estados Unidos não acabaram, apesar de a imprensa norte-americana anunciar a derrocada inevitável do império diariamente. Pode ser que a potência só sinta os alegados efeitos maléficos da gestão Trump daqui a anos, mas, nesse caso, os jornais locais, reverberados mundialmente, deveriam estar dizendo isso. Quanto mais histérica e longe da realidade soa a mídia norte-americana, menos os leitores acreditarão nela. O mesmo se aplica a Bolsonaro.

Quanto mais o deputado for tratado como pária, homofóbico, xenófobo, fascista, machista e misógino, mais prestígio ele ganhará entre aqueles que não enxergam nessas desqualificações mais do que armas da batalha político-cultural. Por enquanto, esses estigmas continuam funcionando para a parte mais proeminente da população, os intelectuais que definem agendas políticas e fazem a cabeça da elite universitária, mas esses termos vão se desgastando pelo uso. Não serviram para impedir a ascensão de Trump ou a saída do Reino Unido da União Europeia.

O que fazer, então, para impedir a eleição de Bolsonaro? Seguindo o raciocínio, a melhor alternativa seria tratá-lo como mais um — ou simplesmente ignorá-lo. Mas isso parece ter se tornado impossível. A armadilha está montada. A política identitária precisa ser alimentada periodicamente, e Bolsonaro é um dos melhores espantalhos de tudo aquilo que os adeptos dessa perspectiva de mundo dizem combater. Para impedir a derrota na batalha cultural, a esquerda nacional pode acabar entregando uma vitória política nas mãos do seu maior inimigo declarado.