quarta-feira, 9 de julho de 2014

Imagem do Dia

Pra frente, Brasil!

A ovelha negra


Em um país distante existiu faz muitos anos uma Ovelha negra.

Foi fuzilada. Um século depois, o rebanho arrependido lhe levantou uma estátua equestre que ficou muito bem no parque. Assim, sucessivamente, cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente passadas pelas armas para quer as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura.
Augusto Monterroso (1921-2003), escritor hondurenho

Os desiludidos da República


Há um notório sentimento popular de cansaço, de enfado, de identificação do voto como um ato inútil, que nada muda
A proximidade das eleições permite uma breve reflexão sobre o processo de formação de uma cultura política democrática no Brasil. A República nasceu de um golpe militar. A participação popular nos acontecimentos de 15 de novembro de 1889 foi nula. O novo regime nasceu velho. Acabou interrompendo a possibilidade de um Terceiro Reinado reformista e modernizador, tendo à frente Isabel como rainha e chefe de Estado e com os amplos poderes concedidos pela Constituição de 1824.

A nova ordem foi edificada para impedir o reformismo advogado por Joaquim Nabuco, Visconde de Taunay e André Rebouças, que incluía, inclusive, uma alteração no regime de propriedade da terra. Os republicanos da propaganda — aqueles que entre 1870, data do Manifesto, e 1889, divulgaram a ideia republicana em atos públicos, jornais, panfletos e livros — acabaram excluídos do novo regime. Júlio Ribeiro, Silva Jardim e Lopes Trovão, só para recordar alguns nomes, foram relegados a plano secundário, considerados meros agitadores.

O vazio no poder foi imediatamente preenchido por uma elite política que durante decênios excluiu a participação popular. As sucessões regulares dos presidentes durante a Primeira República (1889-1930) foram marcadas por eleições fraudulentas e pela violência contra aqueles que denunciavam a manipulação do voto.


O processo eleitoral reforça este quadro de hostilidade à política. A mera realização das eleições — que é importante — não desperta grande interesse. Há um notório sentimento popular de cansaço, de enfado, de identificação do voto como um ato inútil, que nada muda. De que toda eleição é sempre igual, recheada de ataques pessoais e alianças absurdas. Da ausência de discussões programáticas. De promessas que são descumpridas nos primeiros dias de governo. De políticos sabidamente corruptos e que permanecem eternamente como candidatos — e muitos deles eleitos e reeleitos. Da transformação da eleição em comércio muito rendoso, onde não há política no sentido clássico.

Leia mais "Os desiludidos da República", de Marco Antonio Villa

E se o Brasil fosse mais do que uma Copa?

As vitórias das novas Copas sociais e políticas, que toda a sociedade deve disputar, serão as que colocarão este país nos trilhos da verdadeira modernidade.

O Brasil do futebol se apagou entre milhões de lágrimas, mas este país é hoje mais do que a alegria de uma bola marcando gols. O Brasil tempos atrás, em uma tarde nefasta como esta em que escrevo, mais negra talvez do que a do maracanazo de 1950, teria sido um país em total depressão. Hoje pode talvez estar indignado com Felipe Scolari ou com raiva contra aquele que deixou Neymar de fora da Copa, mas esta noite os brasileiros não se atirarão pela janela.

Haverá quem queira fazer de bode expiatório da tremenda derrota o jogador colombiano que empurrou o herói Neymar. Não é o caso, é que simplesmente o Brasil não conseguiu jogar, foi dominado pelos alemães.

E se fosse verdade, o que não é, que a derrota teve origem na ausência do ídolo Neymar, o Brasil tem de recordar as palavras de Bernard Shaw: “Desgraçados os povos que necessitam de heróis”. Referia-se aos que continuam depositando sua fé em seus caudilhos mais do que na força e criatividade de seus povos, dos não heróis, ou melhor, dos heróis anônimos, os que se forjam na luta dura do cotidiano, os que sustentam nas suas costas, com seu trabalho, o peso da nação.


Os brasileiros deveriam agora ser capazes de ver nessa derrota a luz no final de um túnel para fazer deste maravilhoso país não só o salão do futebol mundial, mas uma oportunidade de bem-estar e justiça para todos, onde o futebol, como nos países já desenvolvidos, possa ser somente um jogo que às vezes nos faz tocar o céu e outras nos devolve tristes à vida real, que é a que conta. 

Leia mais o artigo de Juan Arias "E se o Brasil fosse mais do queuma Copa?"

terça-feira, 8 de julho de 2014

Marinha

Emiliano Di Cavalcanti (1897 - 1976)

Lance a lance, tudo igual


O futebol toma o país, e com ele toda nossa hipocrisia. Vibramos em estádios superfaturados, torcemos por vitórias que não levam a nada em nossa melhoria social, mas nos esbaldamos com o orgulho de ser brasileiros. Ufanistas desde criancinhas com a mentirinha de que aqui é o país do futebol, quando já deixou há muito de ser. O último grande futebol apresentado em Copas, aplaudido de pé como maravilhoso, aconteceu há 30 anos, e ainda assim foi derrotado.

Também já não detemos mais nenhuma liderança em estádios, que mesmos sem padrão Fifa não conseguem ser enchidos pela paixão nacional. Perdemos longe para os Estados Unidos, que estão lotando seus estádios com o “soccer”. Aqui ainda há apenas 1% de mulheres registradas como jogadoras, mas lá elas já são 40% das registradas.

Vivemos de clichês alimentados pela mídia, que “joga pra cima” como bem conhece quem labutou nas redações esportivas. Sobra farofa no que servem. E o brasileiro fica entupido de misturar a farinha ao chope da festa que se esparrama como se vivêssemos num país dos paraísos. Enche a boca e bate no peito de melhor do mundo, que deixou de ser e não sabe, porque não interessa a seu egocentrismo. Mais vale a fantasia, que esconde tudo de todos e a cara de uma realidade de desastres, de infortúnios.  

As explicações, ou o que se entende como desculpas pelo pouco jogo apresentado, ou o ufanismo da última vitória, são ingredientes muito usados também no campo político. Tudo é o óbvio, mas que os jogadores e comissão técnica da seleção brasileira defendem como observações inteligentes. Tal no campo como no Planalto. Pareceram nas coletivas de imprensa estar jogando para uma plateia de eleitores como no jogo político.

O espetáculo das coletivas mostra o quão vazios, ou cretinos, somos em futebol como em política quando temos que dar explicações. Dessas fugimos como o diabo da cruz para não nos embananar nas respostas e perder o eleitorado.

À exaustão, falam do ídolo, contundido, pedem a cabeça do adversário “criminoso”, quiçá querem até sua extradição para julgamento popular em praça pública. Pois somos ridículos, e até racistas, quando defendemos o que apelidaram de país, ou os “ídolos” nacionais, mas não nos mexemos para salvar a Pátria e a pele dos compatriotas quando os políticos esculhambam tudo até as empresas criadas com o suor do trabalhador, se lixam para a saúde, brincam de oferecer educação.

Como no futebol, tentam de todas as formas driblar o público em arenas políticas espalhadas pelo país a custos exorbitantes como os estádios modelitos Fifa, que refletem muito bem os gigantes espalhados pela ditadura para exaltar o futebol pós-Copa de 1970. Ou já se esqueceram dos Geraldões e Castelões construídos na época para exaltar o famigerado Pra frente, Brasil?

Embora muitos defendam que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, aqui se misturam as coisas. A Copa, fora de torneio de futebol, tem servido, e muito bem, para escusos interesses eleitoreiros. Ou o governo não já está tirando seus lucros para investir nas eleições? E pode ser a competição o fiel da balança para assegurar o continuísmo. 

A Copa não é dela

"Mas nada – nem o desejado hexa – será capaz de esconder a orgia de gastos que por antecipação assegurou ao Brasil o título da Copa mais cara já realizada. Só as 12 arenas custaram R$ 8 bilhões, 285% acima dos R$ 2,8 bilhões fixados em 2007. Mais do que o dobro dos R$ 3,2 bilhões da África do Sul e dos R$ 3,6 bilhões da Alemanha. Sem computar o legado muito aquém do prometido: das 100 obras previstas, mais da metade não estão prontas e 20% ficaram para as calendas"

Ataque à mídia

"Agora, com o Estado aparelhado, o Congresso ameaçado pelo decreto de Dilma que inaugura a governança via conselhos, obviamente controlados pelo governo, e a imprensa fustigada, o lulismo mostra sua verdadeira cara: o rosto do caudilhismo"
Leia mais o artigo Ataque à mídia, de Carlos Alberto Di Franco 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Diferença fundamental



Não basta
que os pobres te conheçam
e te saibam o nome:
É importante
que tu os conheças
e lhes saibas a história
e lhes saibas o nome


D. Hélder Câmara (1909-1999)

A periferia na televisão brasileira


A quase ausência de negros e mestiços nas arquibancadas dos estádios reproduz um fenômeno muito antigo: a invisibilidade dos pobres

A imprensa internacional já se deu conta da discrepância entre a composição racial brasileira e os rostos que vemos pela TV nas arquibancadas dos estádios, durante os jogos da Copa. A julgar por essas imagens, os desavisados poderiam até pensar que o Brasil é um país de brancos.

Na verdade, a quase ausência de negros e mestiços nas arquibancadas dos estádios reproduz um fenômeno muito antigo: a invisibilidade dos pobres na televisão brasileira.

Até a década de 1970, a TV se voltava a um público quase exclusivamente composto pelas elites e classes médias altas. As tramas e ambientes da telenovela, por exemplo, tinham uma clara função pedagógica: dizer como deviam se comportar e consumir os membros daquelas classes, tanto os mais antigos quanto aqueles que ascendiam socialmente aproveitando-se dos postos de trabalho e oportunidades de negócio abertos pela intensa modernização capitalista do período.

Elites vermelhas


Lula inventou uma bizarra luta de classes, em que não são os pobres que odeiam os ricos por sua opressão, exploração e privilégios, são os ricos que não suportam que os pobres comam, tenham um teto e, suprema afronta, viajem de avião pagando em dez vezes.

E não se contentam em explorá-los e desprezá-los, amam odiá-los, logo eles, que vão consumir os bens e serviços que os ricos produzem para ficarem ainda mais ricos. Isso não é coisa de rico, é de burro, e Lula, rico, de burro não tem nada.

Com o país vivendo uma era de prosperidade desde o Plano Real, os três governos petistas não só tiraram milhões da miséria e alçaram milhões da pobreza à classe média, como criaram uma nova classe de ricos, ocupando milhares de cargos no governo, nas estatais, nos estados e nas prefeituras. É o pleno emprego, partidário.

A taça é deles (e a conta é nossa)

"A Copa no Brasil tem tido jogos realmente emocionantes. É o triunfo do único inocente nessa história — o futebol. Viva ele. Os zumbis que ficavam gemendo pelas ruas que “não vai ter Copa” sumiram na paisagem do congraçamento das torcidas.
Mas é claro que isso será entendido pela geleia geral brasileira como... gol da Dilma! É a virada dos companheiros, a vitória dos oprimidos palacianos sobre as elites impatrióticas etc. A taça é deles. E a conta é nossa.
Se você não suporta mais essa alquimia macabra, que faz qualquer sucata populista virar ouro eleitoral, faça como os atletas do Felipão: chore.
A taça é deles (e a conta é nossa)"

sábado, 5 de julho de 2014

Legado da Copa


Depois do tiro se desenha o alvo

   

 Nos velhos alfarrábios sempre há parábolas que nos ensinam mais do que se pensa. Pequenas pérolas podem nos fazer pensar muito até sobre certos gestos de chamados grandes homens, ou como são adjetivados na mídia de hoje. E mesmo tanto tempo passado estão elas a nos advertir sobre as aparências que podem enganar.
     Conta uma velha história que o imperador do Japão, em visita às províncias, encontrava em cada cidade um alvo com uma flecha cravada bem no meio. Intrigado e curioso por conhecer o emérito arqueiro, soube pelas autoridades locais que esse era apenas um idiota.
- Idiota? Mas como um imbecil pode disparar com essa habilidade um arco?
    E qual não foi sua surpresa ao descobrir o “segredo” do extraordinário arqueiro:
- Primeiro ele dispara a flecha. Depois desenha o alvo.
(Qualquer semelhança não é mera coincidência em se tratando de Brasil)

'Depósito humano' de mendigos acumula denúncias no Rio

     

Um verdadeiro "depósito de seres humanos". É como o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro se refere ao Abrigo Rio Acolhedor (Paciência) – cujas funções seriam o acolhimento e reinserção social da população em situação de rua – após o local acumular ações judiciais e denúncias de falta de higiene, transmissão de doenças, superlotação e negligência.
     Em funcionamento há três anos, o abrigo pode estar prestes a ser alvo de nova petição do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que insiste no fechamento total após uma polêmica visita às instalações no início de junho que verificou uma série de irregularidades.
     Entre elas estariam a presença de percevejos nos colchões - responsáveis por lesões de pele -, insalubridade, falta de encaminhamento dos abrigados para programas de trabalho, banheiros sem portas, falta de protocolos de atendimento ambulatorial e mau estado das instalações de forma geral, além da presença de insetos e baratas.

Haja máscara para se tirar

     Aos poucos, voltamos a tirar a máscara. A Copa vai-se esfumaçando e deixa a reluzir novamente nossa cretinice. Os focos da mídia já não são tantos para jogadores e torcida e assim afloram aqui e ali esses sinais de sem-vergonhice padrão Brasil. Ainda pequenos em espaço, mas sem dúvida bem significativos dessa cultura sempre babosa pelo poder.
     O governo solta foguetório para um país livre de mazelas, que é só festa, onde tudo funciona bem e cretinos são os que querem lembrar que a realidade do desprezo com a população não muda. Faltam remédios, inclusive para tuberculose, com graves riscos para os doentes. Mas que problema tão reles para uma presidente que inaugura casa por videoconferência, a R$ 2 milhões pela publicidade e mais R$ 1 milhão para espalhar sete ministros em aviões da FAB para os locais de inauguração?
     A mesma ladainha não voltou, apenas esteve em pausa com as doses cavalares de um futebol a trocar as pernas em campo. Se faltou mais garra no gramado, a “segurança” esbanjou e até se esmerou internamente no ataque contra “revoltados” sentindo o peso do cassetete – ah, os velhos tempos de volta! Nem faltou uma agressão desmedida a jovem universitária no metrô, que de vítima virou ré. “Parece que vivemos em um estado de exceção”, declarou a estudante “Joana”, sem nome para não ser identificada. Voltamos ao tempo do codinome para não sofrer com o tacão das botas?

     O país é o mesmo de sempre, apesar da cantoria de que mudou para melhor, porque “eles” assim quiseram e fizeram. Pois sim! Aos poucos tudo retoma à normalidade no quartel de Abrantes. Os políticos presos e condenados já não são tão perigosos à sociedade e bem podem desfrutar das regalias que o poder oferece. Como reocupar cargos, trabalhar (sic), serem cidadãos honestos e cumpridores da lei, mesmo que seja com o requinte de carro de luxo com chofer para levá-los ao trabalho (?), onde continuarão a comandar, mandar e desmandar, sobre a sujeira política de sempre para infelicidade geral da nação. Como assim já fizeram bem protegidos pelas grades do xadrez de onde comandaram mexidas políticas no melhor estilo dos chefões do tráfico.      

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Será?


Estupidez sagrada


Leve para longe de mim essa inteligência perigosa, porque minha estupidez é sagrada
(De um pequeno conto árabe sobre a inteligência e a burrice)


Deveriam os corruptos devolver o que roubaram?


Se o Brasil levasse a cabo essa revolução, estou certo de que sua imagem mundial sairia muito mais engrandecida do que se ganhasse várias Copas juntas
     O Papa Francisco introduziu um novo elemento, revolucionário, eu diria, na luta contra a corrupção, ao dizer que não basta "aos políticos, empresários e religiosos corruptos" pedir perdão: eles devem "devolver" à comunidade o que roubaram.
     O papa fala aos cristãos e diz aos corruptos que já não é suficiente pedir perdão a Deus, precisam devolver o fruto da corrupção. A Igreja antes de Francisco absolvia esses pecadores, mas não lhes impunha, como penitência para poderem ser absolvidos, devolver o fruto de seu pecado.
     Se, de acordo com Francisco, os cristãos que se apossam do dinheiro público em qualquer das esferas do poder têm agora a obrigação de devolver o roubado, não poderia e deveria a justiça civil exigir o mesmo dos condenados por corrupção? Hoje, em quase todo o mundo, basta os condenados por corrupção passarem, no melhor dos casos, meses ou anos na prisão para, depois, saírem e continuarem tão ricos como entraram.
Leia mais o artigo de Juan Arias 

Brasil ainda demora para alcançar os ricos

Aumentar a produtividade é um dos desafios para países em desenvolvimento

     Um relatório divulgado nesta quarta-feira pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que reúne 34 dos países mais industrializados do mundo, afirma que o Brasil não conseguirá atingir o nível de renda média dos países desenvolvidos até 2050 caso sejam mantidas as taxas de crescimento atuais.
     A previsão distancia o Brasil de outros países cujo crescimento chamou atenção nos últimos anos, como a China. Segundo o relatório, China, Panamá e Cazaquistão estão no caminho certo para equiparar sua renda à de países desenvolvidos nos próximos 35 anos.
    Assim como o Brasil, ficaram para trás o México, Colômbia e a África do Sul, entre outros.
"Muitos dos países que esperávamos que se aproximariam das economias avançadas até a metade do século não vão conseguir com as taxas de crescimento de hoje", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.