sábado, 5 de outubro de 2024

Israel no Líbano: Até quando o mundo assistirá inerte ao terrorismo?

A pergunta parece nos levar ao menos duas décadas atrás, quando muitos dos leitores formaram sua percepção sobre o conceito de terrorismo a partir da reação global comandada pelos EUA, com seus aliados europeus no Conselho de Segurança da ONU, à derrubada dos edifícios gêmeos em Nova York, atribuídas a um grupamento criado, treinado e financiado pelos EUA décadas antes no Oriente Médio.

Naquele momento histórico, desde o futebol ao cinema, das conversas de bar aos desenhos animados, o estereótipo do terrorismo assolando o “mundo civilizado” era o fio condutor da convivência social, tudo refletia essa percepção de um mal a ser combatido como devir existencial, sustentado por imagens de um horror desumano que, por sua vez, comunicava: se trata do chamado à batalha contra inumanos, desprovidos daquilo que definiria a humanidade. Logo, a guerra deve ser total, com todas as forças e sem qualquer oposição.

Ao ligar a televisão, em qualquer canal, em qualquer horário, dos programas de amenidades matutinos aos noticiários, passando pelas fofocas e filmes de sessão da tarde, até os talk-shows noturnos, todos faziam questão de exibir histórias de famílias devastadas, atos heróicos de bombeiros, mobilizações cívicas de voluntários, preparativos bélicos militares. Conhecemos nos detalhes de terceira geração cada vítima, vimos seus amigos, namorados, parentes, filhos, colegas de trabalho, animais de estimação. Cada vítima extremamente humana do terror.


Com tudo isso formamos nosso entendimento de terrorismo. O mal maior, a bestialidade insuportável até entre os brutos. Satíricos complementavam com bazófia a caricatura do terrorista. A mote de dar uma “outra” visão sobre o demônio, criavam personagens com roupas e costumes típicos, vivendo vidas em cavernas e tendas onde confundiam coxinha de galinha com granada, jogavam boliche com bombas com pavio aceso, etc. Não se tratava assim de outra visão, mas da mesma, sob a permissão do ridículo com a dor ocidental. No fundo, um complemento útil e necessário, vejo hoje, à delimitação da figura do terrorista, o agente do terrorismo.

É muito fácil para os canais de televisão, seus jornalistas e grupos de mídia impressa e de internet repetirem hoje que a ação militar da resistência palestina foi um ato terrorista. Estamos há um ano repetindo sem qualquer contraponto que se trata de terrorismo matar centenas de civis num único dia. Contudo, a ação que matou cinco centenas de civis no Líbano recentemente, ou seja, um acontecimento idêntico, dessa vez promovido por Israel, não teve uma única citação em praticamente lugar nenhum com a mesma palavra.

Por que o assassinato de centenas de pessoas num único dia, em acontecimentos sem causalidade entre si, são tratados um como terrorismo inquestionável e outro sequer tem aventado o caráter terrorista?

Diante desse paradoxo, qualquer leitor bem instruído tentará dar um passo atrás e procurar além da semelhança dos fatos uma abstração sobre o conceito de terrorismo. Respeito o exercício e farei agora.

Segundo a ONU, conforme a resolução 48/60 de 1994 da sua Assembleia Geral, terrorismo são “atos criminosos planejados ou calculados para provocar estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em particulares por motivos políticos”.

Por essa definição não é necessário sequer haver mortes para ser enquadrado como ato terrorista. Mas os atos citados na definição geralmente são atos homicidas, levando um grupo maior a temer por suas vidas. Assim, as mortes de 7/10/23 e as de 23/9/24 encaixam-se ajustadamente no largo conceito.

A abstração jurídico-política nos deixa, assim, no mesmo lugar. Como atos igualmente terroristas à luz da definição da ONU são tomados de forma tão diferente por quase a unanimidade da mídia, sem que essa tenha qualquer acordo obscuro de manipulação?

A resposta, a meu ver, não é a existência de qualquer sala de comando noticioso entre a AP, Reuters, AFP, EF, etc. Tampouco um órgão secreto em Washington com censores que definem os rótulos e, a partir deles, as notícias. É algo bem mais simples, tangível e à vista de todos.

No acontecido do ano de 2023 não bastou o pronto reconhecimento da diplomacia brasileira do caráter terrorista da ação; foi cobrado em uníssono pela mídia liberal, e pelos que se dizem de esquerda que paradoxalmente se instruem por essa mídia, que Lula definisse também os perpetradores como essencialmente terroristas. Há uma exigência de pronto pela caricatura do terrorista como introjetada socialmente: o esteriótipo do islâmico. Da mesma forma, no ato terrorista recente, o mecanismo cognitivo trabalha no caminho inverso: se não partiu do esteriótipo do terrorista, não foi terrorismo.

Não há um estudioso sério, um profissional de relações internacionais, história, geopolítica ou áreas a fim que não reconheça a prevalência global geoeconômica dos EUA desde o fim da Guerra Fria, bem como sua dominância no chamado Ocidente desde o fim da Segunda Guerra. Falo aqui de consensos entre opositores e defensores.

A partir dessa identidade geopolítica, ou seja, desse fato inquestionável, para alguns positivo e para outros negativo, se extraem duas considerações gêmeas com valoração oposta. Enquanto uns chamarão de “valores ocidentais”, defendendo sua universalização, outros chamarão de hegemonia ou, com maior precisão, imperialismo.

Esta prevalência, o imperialismo, impõe a hegemonia dos chamados valores ocidentais, com o objetivo único de se tornarem universais. É, portanto, a universalização do particular, logo, a subversão da diversidade, tanto quanto das possibilidades de consensos básicos dentro dessa multiplicidade. Uma violência epistemológica a serviço do exercício da força, instrumento do poder no teatro interestatal.

Desta forma, relegando à insignificância as abstrações jurídico-políticas das instituições do pós-Segunda Guerra, prevalecem as caracterizações maniqueístas do hegemon. É terrorista aquele que faz X ou Y se este for adversário do hegemon e daqueles que devem obedecê-lo. Não é terrorista aquele que faz X ou Y se for aliado do hegemon, a mando dele ou ele próprio.

É inclusive bem fácil de entender. Como em qualquer governo despótico, baseado diretamente na força sem intermediação de regras e instituições (o que o ocidente gosta de chamar de ditaduras), o bem e o mal não são essência de nada, apenas rótulos dados pelo príncipe, pelo soberano. Esse é o real funcionamento das chamadas relações internacionais, atrás das camadas de instituições e regras que o hegemon impõe aos vassalos enquanto age acima delas.

Assim como as instituições econômicas de Bretton Woods foram solapadas pelos mesmos EUA que as criaram, as instituições da ONU vem sendo paulatina e cada vez mais acintosamente desidratadas por Washington. Israel é hoje o braço armado racista que melhor evidencia a hipocrisia da diplomacia estadunidense.

Então, até quando o mundo assistirá inerte? Ora, o conselheiro presidencial Celso Amorim respondeu recentemente, num think tank de Nova York, que o Brasil, a China, a Rússia e a maior parte do Sul Global operam com a consciência de que as “relações internacionais baseada em regras” são a expressão do definitivo abandono do “direito internacional”. Se o último emula a figura jurídica do capitalismo intra-estatal no interestatal, o primeiro é o retorno ao puro poder do príncipe, que edita regras a todos e a nenhuma se submete.

Não está distante, portanto, que novos coletivos de países, ou mesmo Estados solitariamente (como fez a Rússia), passem a agir como polícia do mundo, “baseados em regras” e ao arrepio do “direito internacional”, como fizeram EUA e Reino Unido no início do século no Oriente Médio, para combater o terrorismo, o genocídio e outras formas de violência que julguem insuportáveis.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Estamos a atirar o ouro borda fora…

Continuamos a encarar a sociedade como se nada tivesse mudado nos últimos cem anos. Esquecemos que aqueles que agora nascem terão uma vida adulta muito diferente da nossa. Desde logo, exercerão novas profissões. Em 2016, o Relatório do Fórum Económico Mundial antecipava que 65% das crianças que entravam nas escolas iriam trabalhar em funções que ainda não existiam.

A incerteza e as mudanças profundas que surgirão em vidas humanas mais longas e diversificadas aconselham a procurar novas soluções culturais, sociais, políticas e económicas diferentes das tradicionais, uma vez que estas estão a revelar-se inadequadas à realidade emergente.


Por exemplo, as propostas sociais mais correntes para os idosos são centros de dia, lares de terceira idade e apoio domiciliário. Mas são propostas que foram desenhadas para uma população analfabeta ou com baixa literacia e cultura, problemas de mobilidade e saúde mais acentuados. Sucede que a população portuguesa está em transformação. Por exemplo, hoje já estão a chegar à idade da reforma inúmeras pessoas com níveis de formação mais elevados, inclusivamente académicos, que necessitam de outras respostas.

As universidades e academias seniores ainda são olhadas como sendo respostas de elite e não têm os apoios do estado que deveriam ter, a fim de desenvolverem um trabalho muito mais profundo e alargado a todo o território. Falo do que sei. Em 2003, fundei com outras pessoas uma universidade sénior de que fui reitor durante cerca de dez anos, e bem sei as dificuldades que tivemos para colocar o projeto de pé, sem apoios oficiais do governo ou autarquias nem de privados. Apesar disso, veio a ser considerada uma das melhores do País e tornou-se uma instituição muitíssimo significativa para idosos, tantos na condição de alunos como na de professores ou de ambos.

A maioria dos lares de idosos não passam dum depósito de velhos doentes, sem estímulos nem programas, onde os utentes morrem um pouco todos os dias na sua inatividade, absortos, a olhar distraidamente para um televisor, a maioria deles esquecidos pela própria família e desligados da comunidade humana em que se integram.

Porque não investir em apartamentos residenciais em zona urbana, enquadrados em bairros com vida comunitária, dispondo de serviços essenciais (p. e. apoio médico, de enfermagem, cabeleireiro, limpeza), onde os utentes possam fazer ou encomendar as suas compras e cozinhar, mantendo alguma privacidade, mas nunca estando completamente sozinhos de dia nem de noite?

Por que não articular os lares residenciais com jardins-de-infância, de forma a permitir uma ligação intergeracional, que é sempre rica tanto para as crianças como para os idosos?

Porque não utilizar alguns mais velhos quando necessário, dando-lhes uma pequena formação, para irem às escolas, a convite destas contar estórias de vida às crianças e adolescentes?

Porque não organizar, potenciar oficialmente e estimular de forma ativa a oferta de quartos a estudantes deslocados na casa de idosos sozinhos, em troca de pequenos serviços de apoio?

Porque não reorganizar o mercado de trabalho de modo a que os indivíduos com idade de reforma possam continuar a trabalhar durante um período, agora em regime de tempo parcial, de acordo com o seu desejo e o interesse das empresas? Certamente todos concordamos com Camus “Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.”

Porque se faz uma separação tão categórica entre a chamada vida ativa e a reforma? Por que não se compreende que tal separação é cada vez menos inteligente, tanto devido à progressiva longevidade como ao facto de atirar para o canto os que dispõem de mais competências e experiência profissional? E que, por essa razão, se estão a dar verdadeiros tiros no pé em temos de economia, em know-how e produtividade, para não falar nos problemas de saúde pública desencadeados por tal corte brusco, dadas as profundas implicações emocionais e mentais que desencadeia com tanta frequência? Como dizia George Sand “Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência e da sua fé.”

A rigidez mental de quem traça as políticas sociais nos gabinetes é de tal ordem que qualquer projeto social inovador que não se enquadre nas valências já existentes é imediatamente desconsiderado, em regra. Porquê? É que dá trabalho pensar, organizar e sobretudo lutar por uma mudança substantiva do paradigma que inspira as respostas sociais já existentes e tradicionalmente aplicadas à população idosa. Abrir novos caminhos dá trabalho e inovar implica sempre um risco que a velha “mentalidade de funcionário público” tem dificuldade em assumir.

Ou seja, somos bem menos inteligentes do que os povos primitivos ao atirarmos borda fora o nosso ouro geracional.

A ordem é matar!

As pessoas estão a ver o que querem acreditar, e não estão a acreditar no que veem. Israel nunca foi tão explícito sobre a sua intenção de guerra em Gaza
Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados

Doenças sociais oportunistas

Médicos dizem que as infecções oportunistas são causadas por micro-organismos que se aproveitam de debilidades no sistema imunológico e podem se converter em epidemias em razão de imprudência ou negligência humanas. No último parágrafo de A Peste, obra-prima de Albert Camus, o personagem Rieux refletia: “o bacilo da peste não morre, nem desaparece, espera com paciência…e chega talvez o dia em que…a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz”.

Traçando um paralelo, perversidades sociais, a exemplo do crime organizado, corrupção e vícios de todos os gêneros, constituem uma ameaça permanente, sobretudo, em países com fragilidades institucionais e déficit civilizatório, como o Brasil. Esse entendimento é abonado por fatos recentes.

A Constituição de 1988 admitiu que a proposta orçamentária pudesse ser objeto de emenda para proceder à “correção de erros ou omissões”. Tese, em princípio, razoável.


Essa brecha legal serviu, todavia, de pretexto para, artificialmente, elevar a receita e financiar “emendas parlamentares”. De início, elas constituíam valores modestos; hoje representam quase ¼ das despesas discricionárias da União, desdobrando-se em uma larga coleção de alternativas (emendas individuais, de bancada, impositivas, secretas e as teratológicas emendas PIX), que acentuam as distorções no já disfuncional federalismo fiscal e são fonte poderosa de corrupção. Reverter essa iniquidade requer uma desproporcional energia política.

A incapacidade de enfrentar os crônicos desequilíbrios fiscais por meio do gasto pretexta a elaboração de fantasias, como teto de gastos e arcabouço fiscal, e a busca alucinada por novas fontes de receita, não raro esdrúxulas, como a anistia parcial em decisões tomadas no CARF pelo voto de qualidade, ou tóxicas, como a tributação de apostas esportivas (bets).

A febre das bets resultou em expressivo endividamento dos mais pobres, redução do consumo, ludopatia digital e estímulo à corrupção nas competições esportivas.

Até mesmo o bolsa família tem sido utilizado em apostas esportivas, em abusivo desvio de finalidade.

Não consigo entender a surpresa diante desse quadro, construído por uma combinação de maciça publicidade, amplo patrocínio dos clubes de futebol e legislação que ampara a atividade.

São pífias as medidas cogitadas para enfrentar a febre das bets, como o controle de licenças para exploração da atividade e a vedação do uso de recursos do bolsa família. Ingenuidade ou impotência? A febre não será debelada.

Persiste a esperança de que a violência acabe em breve

As cicatrizes das guerras anteriores do Líbano ainda eram visíveis em Beirute antes desta começar. E a cidade agora se encontra, novamente, no meio de um conflito, com novas cicatrizes surgindo.

As noites aqui são interrompidas por explosões e estrondos que iluminam o céu. Elas são tão poderosas que são ouvidas, e às vezes sentidas, a quilômetros de distância.

Beirute, tão acostumada a guerras, parece estar tentando se adaptar a essa nova realidade. Algumas lojas, restaurantes e bares estão abertos novamente em áreas centrais, ainda vistas como relativamente seguras. Lembretes da guerra, no entanto, vêm com frequência: os ataques, o som constante de drones voando sobre suas cabeças, ou o grande número de pessoas deslocadas, dormindo em ruas e praças.

As conversas são inevitavelmente dominadas pelo que está acontecendo aqui e em todo o país, e pela esperança de que a violência, "Inshallah", se Deus quiser, acabe logo.

As pessoas costumam comparar a violência atual entre Israel e o Hezbollah com o conflito que eles lutaram em 2006, que durou um mês. Mas os ataques aéreos e assassinatos israelenses continuam, sua invasão terrestre do sul está aparentemente se expandindo, e com o Hezbollah prometendo resistir, esta guerra pode ser mais longa e mais dolorosa do que a última.
Hugo Bachega , correspondente da BBC

Assim, ninguém ganha esta guerra

O Médio Oriente está a ferro e fogo. Gaza arrasada e o Líbano em convulsão. Israel, ébrio de vitórias táticas e o Irã condicionado por um dilema estratégico. Os Estados Unidos apelam à paz e Netanyahu faz a guerra. Sob a vertigem dos acontecimentos e a ameaça de um conflito em larga escala, é difícil ver claro. Mas há duas perguntas fundamentais: como é que tudo isto começou? E como é que isto vai acabar?

Começou há mais de um século. É um conflito que atravessou várias fases e diferentes configurações. Entre as duas guerras, ainda sob o mandato britânico da Sociedade das Nações, assumiu a forma de uma guerra civil. Nos anos 30, os palestinos revoltaram-se contra a instalação de judeus em Israel e contra os britânicos que a facilitaram.


Depois da fundação do Estado de Israel, entre 1948 e 1973, o conflito assume a forma de um conflito clássico interestatal. Os palestinos desaparecem da equação e as grandes resoluções do Conselho de Segurança da ONU nem sequer os mencionam. O conflito é entre os exércitos regulares de Israel e dos Estados árabes. É o tempo da chamada “guerra israelo-árabe”. E das grandes vitórias israelitas: 1948, 1956 e, sobretudo, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e do Yom Kippur, em 1973. A partir de então, o conflito muda uma vez mais de configuração e aproxima-se de uma guerra assimétrica entre as forças palestinas e o Estado de Israel. Este processo é acompanhado por uma dupla dinâmica: de desarabização do conflito e apropriação palestina da sua causa. Desde os acordos de paz de Camp David, em 1978, que, primeiro o Egito, depois os outros Estados árabes, se vão afastando do conflito. E em 1993, nos acordos de Oslo, são os próprios palestinos, através da OLP, que assinam a paz com Israel.

Em casa, enquanto Israel vai consolidando o seu poderio militar, os palestinos vão alimentado a sua revolta nas sucessivas intifadas 1987-1993 e 2000-2005. Uma coisa é certa: a desarabização do conflito e reapropriação palestina é acompanhada pelo desenvolvimento da guerra assimétrica. E é a retirada dos Estados árabes que permite a entrada do Irã. Em 1988, depois da guerra Irão-Iraque, o Irã decide substituir os Estados árabes no apoio à causa palestiniana e construir uma rede de influência regional de actores não estatais, explorando, precisamente, a guerra assimétrica: o Hamas; o Hezbollah; a Jihad Islâmica e os houthis.

Agora, como é que tudo isto vai acabar? Não sabemos. Mas há uma ou outra coisa que nós sabemos. Sabemos que a estratégia iraniana é de estabelecer uma articulação militar entre as várias frentes de batalha contra Israel através destes atores não estatais seus “proxis”, com o objetivo de cercar, desgastar e enfraquecer Israel. E, bem entendido, garantir o seu programa nuclear. E sabemos que a prioridade de Israel é combater o Irã e os seus “proxis”. Mas também sabemos que o 7 de outubro desencadeou uma reação brutal de Israel. Israel tem direito à legítima defesa. Mas desbaratou essa legitimidade na brutalidade da reação. A justeza dos objetivos não justifica a desproporcionalidade dos meios.

Gaza está arrasada, o Líbano invadido, o Hamas destruído e o Hezbollah decapitado. Há destruição física, milhões de deslocados, crise humanitária e milhares de mortes de civis inocentes. A destruição militar de uma organização terrorista não pode justificar a punição coletiva de um povo. Depois do assassinato de Nasrallah, o Irã estava perante um dilema: como calibrar as represálias? Ou se limitava a uma política declaratória, condenava veementemente, mas não retaliava e perdia a sua credibilidade política e a sua capacidade de dissuasão; ou respondia e atacava diretamente Israel. Decidiu retaliar. Arrisca uma nova guerra e, quem sabe, o seu programa nuclear.

Ver-se-á a resposta de Israel. Embora não pareça, o seu dilema não é menor. Israel tem avançado de vitória táctica em vitória táctica, mas não há vitória estratégica sem uma solução política. E até agora não se vislumbra qual seja. Nem para Gaza, nem para o Sul do Líbano. É que as operações militares são necessárias para ganhar a guerra. Mas não são suficientes para garantir a paz. Não haverá paz, enquanto não houver uma solução política para os problemas que persistem: a relação com o Irã e um Estado para a Palestina. A escalada está em marcha e assim não acaba bem. Não haverá paz e sem paz ninguém ganha esta guerra.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Shalom ?


Pergunte a qualquer oficial israelense qual é o plano deles para a paz – você não receberá nada, Uma coisa que os israelenses odeiam são os árabes que realmente querem a paz
Ayman Safadi, ministro das Relações Exteriores da Jordânia na ONU

Brasil é uma 'mina de ouro' para casas de apostas

Entre as décadas de 1930 e 1940, o Brasil era como um paraíso dos cassinos. Mais de 70 casas funcionavam no país, e os jogos de azar faziam parte da cultura nacional. No dia 30 de abril de 1946, entretanto, essa realidade mudou abruptamente. Pelo menos de forma legal. Sob o argumento de que esse mercado feria a “tradição moral, jurídica e religiosa” do brasileiro, o então presidente Eurico Gaspar Dutra assinou um decreto proibindo a prática.

Quase 80 anos depois, o cenário é outro. Mesmo diante de um Congresso considerado conservador, o Brasil reabriu as portas para o mundo das apostas, legalizadas em 2018, com a Lei 13.756. Desde então, o país vive um novo “boom” desse mercado, agora de apostas online.

O setor deve ser regulamentado e fiscalizado a partir de janeiro de 2025. O Ministério da Fazenda já tem 182 pedidos de empresas interessadas em obter licença para operar no país, de acordo com o Sistema de Gestão de Apostas. Somente entre setembro e o primeiro dia de outubro, foram 70 novos pedidos.

O interesse é de empresas nacionais e multinacionais da área, como MGM Grand e Caesars Palace, que atuam no mercado de cassinos físicos em Las Vegas, nos Estados Unidos.

Na outra ponta, as apostas online estão fincando raízes na rotina da população. Uma pesquisa do Instituto DataSenado, publicada nesta terça-feira (01/10), mostra que 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais, cerca de 22 milhões de pessoas, declararam ter participado de “bets” no último mês.

Outro levantamento da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) já havia mostrado que 63% de quem aposta no país compromete a renda para jogar. Já um levantamento do Banco Central (BC) revelou que inscritos no Bolsa Família teriam direcionado cerca de R$ 3 milhões para as bets apenas via Pix em agosto.

Esse último estudo vem sofrendo contestação, porém todos esses dados são termômetro da nova onda que já posiciona o Brasil, de acordo com a empresa especializada em análise de dados Comscore, como o terceiro mercado mundial em consumo de casas de apostas, atrás apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Pesquisadores e integrantes do setor creditam a atratividade do mercado de apostas brasileiro a uma série de fatores, entre eles o apelo a uma paixão nacional, o futebol; o atraso em regulamentar a área; a possibilidade turística para cassinos físicos; o tamanho da população economicamente ativa; e a desigualdade social existente no país.


“O Brasil não é só um mercado interessante, ele é considerado uma das joias da coroa do mercado de aposta mundial, principalmente se levarmos em consideração que o país está sem jogo legalizado há quase 80 anos”, defende Magno José, presidente do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL).

Nesta terça-feira (01/10), o Ministério da Fazenda publicou uma lista com todas as empresas de bets e apostas aptas a operar no Brasil até dezembro. A lista inclui 89 empresas com respectivamente 193 bets (marcas) que vão continuar operando no país. O governo federal também solicitou informações aos estados, que registraram seis empresas com respectivamente seis bets.

Todos os outros sites que não foram incluídos na lista não poderão mais divulgar ofertas e serão proibidos no país. Eles permanecerão no ar por dez dias, para facilitar o pedido de devolução do dinheiro de apostadores. A partir de 11 de outubro, eles começarão a ser derrubados, com auxílio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Aqueles que não pediram autorização de licença ao ministério passarão a ser classificados como ilegais. Quem solicitou atuar no Brasil, mas não estava funcionando ainda, deverá aguardar até 2025. Até lá, a pasta analisará todos os pedidos de licenciamento.

"A medida proporciona mais segurança para a sociedade e para as empresas que querem operar adequadamente no Brasil. Com isso, protegemos a saúde mental e financeira dos jogadores", ressaltou Regis Dudena, secretário de Prêmios e Apostas do ministério, em nota.

A lei de 2018 previa uma regulamentação para o setor de apostas entre dois a no máximo quatro anos, mas apenas em fevereiro de 2023 o país começou a estabelecer as regras de funcionamento das bets esportivas e jogos similares.

Para tanto foi criada uma agenda regulatória, que incluiu a publicação de 11 portarias até setembro deste ano com normas para licenciamento, marketing, fiscalização, entre outras.

O governo federal havia estabelecido que a partir de janeiro iria banir as empresas que não tivessem a licença de operação concedida, mas pesquisas apontando o dano financeiro e de saúde na população, bem como investigações sobre lavagem de dinheiro envolvendo o mundo das bets e influenciadores digitais, anteciparam a medida.

Representantes do setor, Magno José, defendem que a ausência de regulamentação foi o que catapultou o Brasil no mercado internacional de jogos de azar. Ele estima que haja mais de 2 mil sites em funcionamento. Para José, os recursos que poderiam ter sido investidos na compra de outorgas e gerar tributos ao Estado acabaram direcionados para publicidade e marketing, o que tornou o mercado selvagem e nocivo, além de permeado por sites ilegais.

De acordo com o professor do Departamento de Sociologia e Metodologia e Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marcelo Pereira de Mello, a ausência de regras no mínimo facilitou uma corrida para abrir empresas da área. “Uma regulamentação frouxa e a falta de experiência da gestão pública serviram como estímulo para a criação de muitas empresas de fundo de quintal”, afirma.

O Brasil vive historicamente uma relação de amor e ódio com os jogos de azar. Tanto que a proibição de Dutra, em 1946, não foi a única a ocorrer no país. Por outro lado, a inexistência dos cassinos online nunca limitou totalmente os jogos de azar, que permaneceram ocorrendo por vias lícitas ou ilícitas, seja na loteria federal ou com o jogo do bicho.

De acordo Mello, do ponto de vista sociocultural não há nada que faça o brasileiro ser mais propenso a jogar em comparação a outros mercados mundiais. “Aqui se joga como em qualquer outro país. Os jogos de aposta são uma tradição das sociedades humanas, de maneira geral”, diz.

Autor do livro Criminalização dos Jogos de Azar - A História Social dos Jogos de Azar no Rio de Janeiro, Mello ressalta inclusive que o Brasil sempre viu os jogos de azar pela perspectiva conservadora. Contudo, ele lembra também que esse tipo de negócio sempre esteve vinculado a políticos.

“Pode parecer um paradoxo, mas isso é explicado por outra característica da política brasileira, que é o fisiologismo. Houve uma intensa atuação de lobbies relacionados a apostas, com promessas de favorecimento a diversos grupos dentro do Congresso Nacional”, acrescenta.

Outro fator apontado como importante nessa equação é a paixão do brasileiro por futebol, já que as apostas em eventos esportivos representam parte significativa desse mercado. Empresas do setor começaram a realizar propaganda em diversos eventos desde 2018 e patrocinam pelo menos 30 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro, incluindo Flamengo e Corinthians.

“É um mercado novo, que explora uma paixão nacional. As pessoas podem pensar que aquilo não é um jogo de azar, mas de conhecimento técnico sobre o esporte, o time, os jogadores”, afirma Mello. De acordo com José, 80% dos apostadores brasileiros são considerados recreativos, ou seja, que apostam em pequenas quantias. “É aquela coisa de mandar no grupo de amigos que apostei no time que ganhou”, diz.

Daniel Dias, professor da FGV Direito Rio de Janeiro, lembra, contudo, que faltam dados comparativos com outros países para cravar se a paixão do brasileiro por futebol move mais apostas do que em outros países onde acontece o mesmo fenômeno.

“Independentemente disso, é uma novidade, e tudo o que é novo atrai atenção. Além disso, o mundo das bets está entrando com muita publicidade agressiva”, diz Dias.

Com a regulamentação do mercado, as bets vão precisar ter sede no Brasil e licenciamento para seguir patrocinando os times de futebol e outros eventos esportivos. Em outros países, como no Reino Unido, o patrocínio das casas de apostas foi proibido de ser estampado nas camisas dos clubes a partir de 2026.

“A gente vê grandes jogadores de futebol, da seleção, vinculando suas imagens às apostas esportivas. Além disso, a gente tem anúncio em tudo quanto é canto, num ambiente sem categorização de idade”, afirma Rodrigo Machado, psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Em 1920, o então presidente Epitácio Pessoa chegou a liberar os cassinos, mas só em balneários, para fomentar o turismo e custear o saneamento básico no interior. Mas tanto os estados quanto o Governo Federal fecharam vários dos hotéis-cassinos, que só voltaram a ser estimulados a partir de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas.

Agora, com o mercado online efervescente, há a expectativa de que o país também volte a aceitar os espaços físicos de apostas. E ter um litoral vasto é considerado um ativo interessante para a eventual instalação de cassinos físicos.

O Congresso discute um projeto de lei para regulamentar o jogo do bicho, a corrida de cavalo e os cassinos. O texto do PL 2.234, de 2022, é uma versão do PL 442, que tramitava desde 1991 e foi aprovado na Câmara dos Deputados em 2022. O documento está em tramitação no Senado, com última movimentação no início de agosto deste ano.

Representantes de empresas com atuação em Las Vegas, como o presidente da Caesars Sportsbook no Brasil, André Feldman, têm realizado encontros com senadores e integrantes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

Segundo a ferramenta Agenda Transparente, da Agência Fiquem Sabendo, Feldman realizou pelo menos três encontros com representantes do Executivo e Legislativo desde 2023. A última delas no dia 4 de setembro, com o senador Rogério Carvalho (PT/SE) e integrantes do MF. Já Alex Pariente, vice-presidente sênior do Hard Rock International para hoteis e cassinos, encontrou-se em maio com representantes do MF.

“Estamos num país que tem muitas belezas naturais, então, se forem aprovados os cassinos presenciais, é um mercado fantástico para instalar resorts e cassinos e fomentar o jogo de azar presencialmente”, lamenta Machado.
Desigualdade social como pano de fundo

A pesquisa do DataSenado mostra que o perfil principal de apostadores no Brasil são pessoas do sexo masculino, entre 16 e 39 anos, que ganham até dois salários-mínimos. Entre as pessoas que apostaram, cerca de 58% estão com dívidas em atraso há mais de 90 dias.

Os dados corroboram as pesquisas já divulgadas pela SBCV e o Banco Central sobre o perfil de quem está se tornando consumidor nesse mercado. Para os pesquisadores entrevistados pela DW, são estatísticas que revelam o papel da desigualdade social na proliferação das bets.

“A camada social mais pobre é mais vulnerável a esse tipo de atividade, pois são pessoas que muitas vezes estão endividadas ou querendo fazer uma grana extra, que estão com a corda no pescoço”, afirma Dias.

Mello ressalta também as desigualdades educacionais como fato. “No Brasil, os mais pobres são também os que têm menos escolaridade formal. Essas empresas prometem enriquecimento, mudança de padrão de vida a uma população desesperançada. Então, a expectativa de ascensão social se dá por esse meio”, diz.
Alice de Souza 

O mundo se arma

As oscilações para cima ocorridas nos últimos dias nos preços do petróleo e do ouro são reações imediatas a eventos com potencial de imprimirem insegurança aos mercados. Eram previsíveis, pois não pode haver dúvida de que a escalada da guerra no Oriente Médio, com o envolvimento direto de Israel, do Líbano, do Irã e, indiretamente, dos Estados Unidos, acentua a gravidade de uma disputa que coloca em risco a estabilidade global. No entanto, nos bastidores que movimentam a geopolítica, há muito tempo os países relevantes preparam-se militarmente para enfrentar um cenário mundial de instabilidade crescente.

Os gastos militares mundiais aumentaram 6,8% em 2023, em termos reais (descontada a inflação). Foi a mais acentuada expansão anual observada ao longo de nove anos consecutivos, desde 2014, representando despesas no total de US$ 2,443 trilhões. Os Estados Unidos aparecem em primeiro lugar, com um total de despesas no setor militar de US$ 916 bilhões no ano passado (2,3% a mais sobre 2022), seguido da China com a estimativa de gastos da ordem de US$ 296 bilhões (6% acima do ano anterior).

Os números são do Stockholm International Peace Research Institute - Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) -, cujo banco de dados foi atualizado em abril deste ano. Trata-se de uma conceituada instituição independente dedicada a pesquisar informações relacionadas com a segurança global em 40 países.

A Rússia, com US$ 109 bilhões (24% de aumento sobre 2022) aparece em terceiro lugar, à frente da Índia, cujas despesas militares atingiram US$ 83,6 bilhões e da Arábia Saudita, com US$ 75,8 bilhões de gastos. A Ucrânia ampliou suas despesas militares em 51%, atingindo o total de US$ 64,8 bilhões em 2023.

No top 10, aparecem ainda o Reino Unido, a Alemanha, a França e o Japão, que decidiu voltar a investir em armamento. O Brasil é o 16º colocado, com gastos equivalentes a US$ 22,9 bilhões (3,1% a mais sobre 2022).

Obviamente, o incremento dos gastos militares foi estimulado pela invasão da Rússia na Ucrânia há cerca de dois anos e meio e pelo ataque do Hamas a Israel com a consequente resposta que há um ano tem envolvido o exército israelense na faixa de Gaza, na Cisjordânia e, mais recentemente, no Líbano. Os dados do Sipri apontam para um aumento real de 9% das despesas militares na região do Oriente Médio em 2023. Além da Arábia Saudita, destacam-se Israel com gasto de US$ 27,5 bilhões (24% a mais sobre 2022), a Turquia, que ampliou seus gastos em 37% para o total de US$ 15,8 bilhões, e o Irã, cujo aumento marginal de 0,6% envolveu US$ 10,3 bilhões no ano passado.

No que diz respeito às armas nucleares, também se observou inversão substancial, com destaque para a China. Como se sabe, são nove os países que detêm arsenal nuclear: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) e Israel. O Sipri calcula que no início de 2024 o total de armas nucleares naqueles países somou cerca de 12.121, sendo que destes 9.585 são considerados potencialmente disponíveis do ponto de vista operacional.

Estados Unidos e Rússia são responsáveis, juntos, por cerca de 90% da totalidade do armamento nuclear no mundo e têm investido na substituição e modernização de ogivas, mísseis, aviões e em submarinos especializados. A grande novidade é a expansão do arsenal nuclear chinês. Com a ressalva de que as informações se baseiam em dados secundários, uma vez que a China não os divulga oficialmente, o Sipri estima em 500 ogivas nucleares o total existente naquele país em janeiro deste ano. Isto representaria 90 ogivas a mais do que a estimativa de 2023. O Instituto destaca a possibilidade de que, na próxima década, os chineses sejam capazes de manter posicionada a mesma quantidade de mísseis balísticos intercontinentais que a Rússia ou os Estados Unidos no mesmo período.

Enquanto o mundo se arma, as Nações Unidas, órgão responsável por manter a paz global, se enfraquece. Criada em julho de 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em substituição à Liga das Nações que, por sua vez, havia surgido com o fim da Primeira Guerra, a ONU vem gradualmente perdendo poder de influência na mediação de conflitos. Paralisada em meio às discussões a respeito da formação atual e injustificável do Conselho de Segurança, a instituição ficou sem voz e sem vez.

De fato, há uma obsolescência em torno daquele Conselho. Seus membros permanentes com poder de veto - Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China - formam o grupo dos aliados, vencedores da guerra deflagrada por Hitler, com exceção da China que entrou, talvez, por oposição ao então inimigo Japão, apesar de representar na época apenas 2% do PIB mundial. Aliás, entrou como República da China (hoje Taiwan) e foi substituída em 1971 pela República Popular da China em manobra de Nixon, que se aproximou dos chineses com receio de que estes se aliassem à Rússia. Após quase 80 anos, vive-se hoje uma realidade geopolítica diferente com novas forças de influência, muitas informais, como o G-7, o G-20, os Brics, a Asean (do Sudeste Asiático mais China) e a AUKUS (Aliança de Defesa anti-China), entre outras.

A 79ª Assembleia Geral da ONU aprovou recentemente em Nova York o “Pacto do Futuro”, com o objetivo de reforçar a cooperação multilateral e reabilitar o poder político da própria instituição. Entre os objetivos está a reforma do Conselho de Segurança com relação à forma, ao tamanho e às atribuições, incluindo limites para o uso do poder de veto. O tal Pacto mais parece aquele tipo de decisão para inglês ver, como se diz. A ONU quer recuperar influência, mas sabe-se que dificilmente conseguirá grandes avanços enquanto as decisões continuarem a passar pelas mãos dos cinco países agraciados com o crivo do veto em meio ao universo de 193 países que fazem parte da organização.
Maria Clara R. M. do Prado 

Criariam a guerra se já não houvesse uma guerra criada para que lutem

Red ganha uma batalha entre frotas estelares no futuro distante do Filamento 2218. Enquanto a grande Gallumfry se inclina em direção ao planeta, lançando uma chuva de cápsulas de fuga, enquanto as estações de batalha murcham como flores lançadas ao fogo, enquanto as bandas de rádio chiam com triunfos e naves ligeiras mergulham para escapar de perseguições, enquanto armas ecoam seus últimos argumentos no espaço mudo, ela escapa. O triunfo parece rápido e sem graça. Ela costumava adorar esse fogo. Agora, só a lembra de quem não está lá.
Ela escala fio acima, se consolando no passado.

Red raramente procura a companhia de outros como ela. São todos esquisitos — decantados depois de terem sido considerados divergentes em algum ponto de seu desenvolvimento. Ou os mais divergentes de todos: aqueles que decantaram a si mesmos. Eles não ficam em paz, e continuam os jogos na rosa celestial. Eles se destrincham do resto, introduzem assimetria.

Eles criariam esta guerra se já não houvesse uma guerra criada para que lutem, ela pensa.


Mas ela busca companhia agora, em um dos lugares onde sempre encontra.
O sol castiga as ruas de Roma. Um homem com um rosto magro e um nariz fino e uma coroa de louros passa acompanhado pelo Teatro de Pompeia. Outros o interceptam, convidam-no a entrar. Uma multidão está esperando nas sombras: os senadores, seus servos, e outros.

— Você já sentiu que está sendo seguido? Que a Comandante está espionando você? — Red pergunta a um dos outros.

Um senador oferece a César uma petição.

— Seguido? — diz o homem com o nariz quebrado à sua esquerda. — Pelos inimigos, às vezes. Pela Agência? Se a Comandante quisesse nos espionar, poderia ler nossas mentes.

César desconsidera a petição, mas os senadores o rodeiam.

— Alguém está seguindo meus rastros, mas some assim que penso em pegá-lo — diz Red.

— Agente inimigo — diz a mulher à sua direita.

— Mas são em excursões minhas, viagens de pesquisa, não de contra-ataque. Como um agente inimigo saberia para onde eu vou?

Um senador puxa uma adaga. Ele tenta esfaquear César pelas costas, mas César segura sua mão.

— Se for a Comandante — diz o homem com o nariz quebrado —, por que se preocupar?

Ela franze a testa.

— Eu gostaria de saber se a minha lealdade está sendo testada.

O homem que teve a mão segurada grita por ajuda em grego. Adagas deslizam das bainhas dos senadores.

— Isso acabaria com o propósito do teste — observa a mulher. — Ah, deixe disso, nós vamos perder a diversão.

Ela tem um sorriso largo e uma lâmina longa.

César grita algumas palavras, mas elas se perdem no tumulto do ataque dos assassinos. Red dá de ombros e suspira e se junta a eles. A guerra oferece poucas chances de extravasamento, e ela não pode ser vista dispensando uma. O sangue gruda em suas mãos. Ela lava depois, em outro rio, bem longe.

Folhas esvoaçam nos bosques de Ohio quando os gansos pousam. Um deles se afasta dos demais gansos e se aproxima dela. Red pondera sobre o destino do último ganso a lhe trazer uma carta e sente um momento de culpa.
Há um barbante ao redor do pescoço do ganso, e do barbante pende uma bolsa de couro fino.

Suas mãos tremem ao abrirem a bolsa. Seis sementes repousam lá dentro, diminutas lágrimas carmesins com ainda mais diminutos números entalhados em suas superfícies, de um a seis. Sobre o couro, em uma tinta azul demais para aquele continente ou filamento, a caligrafia que ela conhece bem, mesmo que só tenha visto uma vez, traça: Você confia em mim?

Ela se senta no bosque, sozinha.

Ela confia.

Red confia nela até os ossos, a ponto de ter que pensar por um longo tempo para se dar conta do que desconfiar implicaria — o que essas sementes podem ser, o que podem fazer a Red, se estiver errada.

Ela come as três primeiras sementes uma a uma. Deveria se sentar debaixo de um baobá, mas em vez disso afunda sob uma castanheira, rodeada de seus frutos espinhosos.

Quando cada carta se abre em sua mente, ela a enquadra no palácio da memória. Ela tece as palavras em cobalto e lápis-lazúli, unindo-as ao manto de Maria nos afrescos de São Marcos, à tinta sobre porcelana, à cor de uma rachadura em uma geleira. Recusa-se a deixá-la escapar.

A terceira semente, com sua terceira carta, faz Red desfalecer.

Ela acorda com o farfalhar de castanhas secas para descobrir as últimas três sementes ainda em sua mão fechada, mas a bolsa de couro desaparecida. Ela ouve passos no bosque e os persegue: uma sombra dispara lá na frente, sempre fora de alcance, e então some, e ela cai ofegante de joelhos no bosque vazio.
Amal El-Mohtar e Max Gladstone, "É assim que se perde a guerra do tempo"

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Além da imoralidade

A defesa deve ser sempre proporcional ao ataque. Quando há algo desproporcional, você vê uma tendência de dominar que vai além da moralidade
Papa Francisco

Coach — política neofascista e traumaturgia

O coach é a representação limite da financeirização do capital — a sua máxima abstração e pureza, dominando a produção e a guerra global — no âmbito da cultura. Psicólogo definido pelo incremento da produtividade de seu cliente, o coach teve origem na ruína do mundo do trabalho, das profissões e de suas éticas, no mundo da fragmentação e monadizacão do destino do trabalhador, vendedor de qualquer coisa que ninguém quer comprar.

Ele é o próprio sintoma encarnado da vida das classes médias sob o risco de não serem produtivas, por fim dispensáveis, pela presença da política permanente do desemprego. Neste mundo, o coach cumpre o serviço de exploração da insegurança universal. Ele medeia a violência normal na vida das empresas, promove falsa autoajuda como verdade humana, a única ajuda disponível, para pacificar um sujeito sem valor algum, cultural ou de troca, na cultura de sua máxima exploração, física e psíquica.

Como um dia me disse o CEO de uma gigantesca agência de publicidade, máquina que trabalhava no fundo da própria política do país: “na empresa você pode facilmente ganhar 100 mil por mês, não é difícil… basta você me produzir 300 mil por mês.” Este é o mundo dos valoresdo coach, é nele e por ele, sustentado em indivíduos, que o coach trabalha.


Mundo da pressão total da abstração do dinheiro, sem nenhum caráter ou valor para fora do retorno ao mercado, da tempestade tautológica do sistema da mercadoria se auto-referenciando, para justificar o terrorismo de sua própria vida social. Realidade dura dos vencedores, no limite da maior derrota, onde o coach pontifica.

Ele é um psicólogo clínico degradado na ideia fixa da autoajuda banal, pastor profano do elogio do trabalho e do dinheiro quando eles se tornaram impossíveis, psicanalista que negou o inconsciente e a transferência a favor do apego sugestivo ao próprio eu, confundindo subjetividade com produção de valor e sujeito com submissão ao racket psíquico pessoal.

O coach é o pastor cujo único deus é o sucesso abstrato na cultura dada, o psicólogo empresarial de Recursos Humanos pago particularmente para se suportar o risco da vida do trabalho, de quem ainda quer estar por cima, o psicanalista que vende a própria imagem, e a própria tabuada de razões ideológicas, radicalmente comprometidas com a reprodução da ordem que põe tudo em risco.

Não há dialética nem negatividade na existência do coach e sua “teoria” — instrumentalização do pior do elemento subjetivo presente em uma psicanálise. Há apenas aceitação, celebração tácita, adaptação como estratégia de vida, sob o cálculo e o projeto do truque, do golpe ou do balanço malando em meio ao dinheiro, para garantir a sobrevivência nele. Sobrevivência de vida que parte e se resolve no espetáculo, traduzida diretamente em fetichismo da mercadoria, consumo conspícuo.

Vendendo degradação de qualquer metafísica, desde que adaptada a tudo o que existe, o coach é o apoio limite do homem comum, quando ele não vai ao culto coach de uma igreja evangélica…, o amuleto transferencial mundano do filisteu cultural, normal, que, dispensável em todos os níveis da vida que não tenham a ver com mais valor, necessita de alguém que junte os seus pedaços, o pastor profano. Explodido pela própria sociedade esquizofrênica, que não pode negar, pensar em contradição, o cliente do coach o deseja como a liga de seu retorno ao próprio mundo impossível.

O duplo do coach, coach sem nenhum vínculo com o trabalho, é o promoter da vida permanente no gozo generalizado das imagens em fluxo, mas de kicks e de baques, de excitação vazia, o influencer da internet: o vendedor estridente, vulgar no último, de tudo e qualquer coisa que exista, ou seja, que excite alguém. O propagandista, da propaganda que se voltou sobre si mesma. A cultura do coach é a dasobrevivência para a sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida; a cultura do influencer é a daafirmação imanente da sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida.

O coachlíder fascista é o que une o seu estatuto de pastor profano com a malandragem feliz de vampirizar qualquer fetichismo, de qualquer produto, fofoca ou crime nas redes, a arte do influencer. Realiza meta-morfose de si mesmo, virando em exemplo degradado, autocelebrado em fusão com a propaganda de tudo, a ser seguido por massas. O coach líder fascista é o líder político das micro-celebridades, auto geradas aos milhares nas redes. Quanto mais ele aparece, mais poderoso ele é, porque neste mundo basta aparecer para ser poderoso.

Vendedor do sonho de si mesmo, o produto do coach fascista, novo líder no limite da degradação política total — da manutenção do capitalismo de fronteira final, de extermínio de ambiente e natureza, porque os humanos já eram faz tempo… — é a venda da própria imagem, a figura de um rico grotesco brilhando, um sádico do gozo da vida má, deliberadamente estúpido, como modelo para a vida geral degradada. O coach político de internet, influencer e mercadoria a um tempo, vende o vento da sua pura excitação, como todo influencer.

Porém, sua excitação é o puro ar de si mesmo, a constelação ideológica positiva de amor sacrificial pelo mercado, ele próprio como o seu produto. De fato, pessoas compram de Pablo Marçal apenas cursos, golpes farsescos, exatamente para serem como Pablo Marçal; e Olavo de Carvalho sabia bem ser um coach fascista. Como no jogo, como dizia Marx, a ideologia vazia e o personalismo de espetáculo fazem o produto-ele-mesmo do coach funcionar diretamente como D-D’ — dinheiro imagem que faz mais dinheiro… — sem nenhuma mercadoria no meio. O coach funcionando como líder fascista é pura identificação, função de espelho do rosto da mercadoria, formula cultural do capital financeiro.

Antes de entrar na disputa política como alternativa verdadeira, pelo sucesso degradante e pela arrogância de vencedor em mundo de derrotas totais, o coach amealhou milhões de miseráveis do destino e da cultura, da vida e da história, em suas redes sociais na internet, de fato suas redes pessoais. Milhões de compradores do ar do coach, tentando reproduzir o seu brilho e sua riqueza mágica configuram de fato a sua indústria cultural particular.

De fato, milhões de demenciados de mercado, aos quais o novo malandro industrial, que aposentou a navalha, opera por desejo como entretenimento, como fantasia de ganho pela submissão ao seu desejo. Pagando pelo ar do coach, os milhões de idiotas do mundo como ele é confirmam pela raiz o seu poder: fundamentalmente o desejam.

A política do desejo, das coisas, do dinheiro circulante, e de seu show, se confirma absolutamente no desejo do coach. Ele tem seu próprio partido político, sua indústria cultural de propaganda fascista, sua rede de milhões de seguidores o desejando, e desejando ser o coach — que não é nada se não isso mesmo. Tais militantes e ativistas pagam milhões pela indústria cultural da personalidade, para que o coach apareça para eles como milionário, pelo desejo radical que isto exista.

Porque o mundo é isso, produção de riqueza sobre a produção de massas de excluídos, que pagam pelo acesso, quando não exterminados. Dono de um partido de massas da venda de si mesmo como a política do real, das coisas da vida social arruinada, o coach político de massas é a condensação da coisa cultural do neofascismo, esta nova ordem de razões políticas que intriga a tantos.

O coach é o vendedor na rede de uma pirâmide de si mesmo, em que ele é a imagem, o modelo e a mentira de que sua riqueza ridícula estará acessível a todos. Basta todos reconhecerem isso, e seu golpe neoliberal total, de sua excitação vazia de palhaço pop grotesco, chegará ao poder, o seu verdadeiro lugar, como Javier Milei na Argentina e Pablo Marçal tentando o golpe em São Paulo.

Basta ser como o coach, diz o coach, e para isto é preciso que a massa se cale e o assista, e ele enuncie sozinho sua violência antipolítica como política. É preciso ser como ele, por isso é ele quem fala. Por um naco imaginário da riqueza, e para pertencer ao código do dinheiro, palhaços de um circo pegando fogo tendem a entregar tudo ao coach. Como já entregaram quando compravam seus cursos, que não são nada. Por não ter nada a oferecer no âmbito da história, o coach só pode causar, chamar a atenção para si mesmo como um palhaço da indústria cultural que tem nas mãos, que de fato é.

Mentir a mentira que excita, ousadia tática e sádica, que convoca a atenção exatamente porque todos sabem que é mentira. Sua mentira política é apenas uma aposta, em um jogo vazio de verdade, pleno de poder que gera poder. Sua performance, da qual depende, é sua traumaturgia.

Com este choque vazio, se convoca a massa, submetida ao desejo do coach mercadoria. Um povo que deseja o fascista brand new, o espírito vazio do capitalismo como golpe e como crime, e seu grande líder, a vida pública da política como sonho de um coach.

Elogio da vida monástica

Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes coletivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efetivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.

Jorge de Sena, "40 Anos de Servidão"

A extrema-direita entre um passado perdido e um futuro irreal

O show deplorável de Pablo Marçal nos debates e nas redes, de um lado, e pesquisas que revelaram a competitividade de sua candidatura à prefeitura de São Paulo, de outro, aqueceram uma eleição que tinha tudo para ser morna. A ascensão de Marçal despertou sentimentos de medo e angústia que só podem ser comparados ao processo eleitoral que levou Jair Bolsonaro à presidência em 2018. Os absurdos contidos no discurso e na prática do ex-coach, suficientes para chamar a atenção e mobilizar um conjunto assustador de pessoas, lembraram a vitória inesperada do ex-capitão. Até a divulgação recente de pesquisas que mostraram a estagnação de Marçal, muita gente já via como provável a sua vitória.

Longe de ser carta fora do baralho da disputa, o fenômeno Pablo Marçal merece atenção por diversos motivos. Em primeiro lugar, o frenesi que ele tem provocado é sintoma de uma sociedade sensibilizada quase que exclusivamente pelo espetáculo. Diante de uma campanha que opõe duas faces tradicionais da política institucional, a fanfarronice eficiente e sem precedentes do ex-coach não poderia passar despercebida. Com efeito, a campanha em São Paulo era até então marcada por uma concorrência um tanto convencional. De um lado, um ex-vereador alçado a vice-prefeito em negociatas de bastidor e que, apesar de contar com o apoio ao mesmo tempo necessário e problemático de Bolsonaro, representa o que há de mais tradicional de uma direita fisiológica e apegada a esquemas no seio da máquina pública. De outro, a liderança mais arejada que a esquerda brasileira produziu no último período, mas que conta e depende do apoio do presidente da república e luta contra estigmas associados ao seu passado combativo no movimento social. Em um momento em que a atenção do consumidor (ou eleitor) é um ativo raro e disputado, havia espaço para o inusitado, o irreverente que pudesse articular a política ao entretenimento e ao espetáculo.

Do ponto de vista político-eleitoral, é quase intuitivo encontrar uma explicação para o crescimento repentino de Marçal. Conforme Bolsonaro aparenta covardia ao se submeter à candidatura preferida de Valdemar Costa Neto em meio à articulação de um grande acordo que envolve o centrão e os partidos da direita tradicional para livrá-lo da inelegibilidade e da prisão, ele deixa carente e incomodada uma base que ajudou a forjar e que cultivou a partir do conflito com o sistema. Ao aparecer como um outsider alheio a conchavos e privilégios que marcam os atores da ordem, Marçal renova o espírito subversivo do bolsonarismo e encanta seus eleitores mais radicais. Mas sua ascensão coloca outras questões que merecem ser pensadas. A mais óbvia diz respeito à adequação do termo “bolsonarismo” para descrever um movimento ou uma agenda política com atores, grupos e contornos bem definidos.


Jair Bolsonaro e depois o que se convencionou chamar de bolsonarismo têm sua origem como fenômeno político em um ímpeto eminentemente negativo: uma rejeição ao Partido dos Trabalhadores calcada nos efeitos dos governos petistas sobre a redução de desigualdades materiais e simbólicas. Bolsonaro se tornou uma figura que, como um significante vazio capaz de articular ressentimentos de ordem material e simbólica, sinalizava para diferentes grupos e expectativas conservadores. Setores médios incomodados com a ameaça de seu status social viram nele a chance de interromper movimentos que questionavam hierarquias históricas e um processo de redistribuição que apontava para uma sociedade menos desigual e com menos privilégios.

Enquanto força negativa, movida mais pelo imperativo da destruição do que da construção de algo novo, o bolsonarismo sinaliza uma traição de seu espírito anti-sistema original quando se vê compelido a negociar e acomodar interesses com as forças mais identificadas com a ordem que ele defendia suprimir. A ponto de ser contestado ou até ultrapassado por uma figura que resgata o apelo de uma alternativa original ao sistema. No momento em que o bolsonarismo parece se institucionalizar de maneira definitiva, curiosamente depois de deixar o governo federal, surge a dúvida quanto à capacidade de Bolsonaro e de seu grupo mais próximo de controlarem o monopólio da direita mais conservadora.

Mas para além da discussão acerca da natureza anti-sistema e da hegemonia bolsonarista sobre o eleitorado de direita, outros elementos devem ser pensados acerca da relação entre Bolsonaro e Marçal e sobre quanto há de ruptura ou continuidade entre ambos. Um deles é de ordem temporal e sugere uma diferença importante entre o movimento liderado por Bolsonaro e o incipiente estrago que Marçal vem fazendo na disputa paulistana. Grosso modo, não é um exagero dizer que enquanto o bolsonarismo tem seu horizonte no passado, Marçal interage com o presente e aponta para algum futuro – por mais distópico que ele pareça.

Bolsonaro construiu sua imagem como liderança apegada a tradições, costumes e valores ameaçados. O ex-capitão ascendeu politicamente a partir do conflito com avanços que promoveram uma certa nostalgia em relação a um passado perdido. No centro do projeto e da comunicação bolsonarista sempre estiveram as noções de ordem e segurança. Não apenas a segurança pública contra a violência e o crime, mas a segurança de instituições como a família, a igreja, as forças armadas. O que ele sempre reivindicou foi a proteção de determinados setores sociais diante da insegurança trazida pela dissolução de referências culturais e de hierarquias sociais que asseguravam algum conforto. É bem verdade que o bolsonarismo, diferente de movimentos de extrema direita correlatos em outras partes do mundo, teve uma relação no mínimo ambígua com a agenda liberal no plano econômico. Enquanto em países do centro lideranças populistas acenam para políticas de proteção comercial e de direitos sociais, foi conveniente para a sua versão tropical uma aliança com as demandas liberais das elites financeiras. No entanto, Paulo Guedes é lateral no bolsonarismo, a agenda liberal não está, definitivamente, no centro de sua identidade.

Já em Pablo Marçal a cultura do empreendedor individual é definidora do que ele projeta enquanto movimento político. A partir do conflito mais ou menos explícito com o Estado, com a cultura do serviço público, de qualquer tipo de regulação da produção e do trabalho, Marçal tem no sucesso individual e no enriquecimento suas principais bandeiras. Ele parece responder aos imperativos de uma economia em transformação e que premia novos padrões e práticas no sentido da obtenção de recursos. Numa sociedade que normaliza uma renda proporcional ao esforço individual, ao estilo do motorista de aplicativo ou do entregador que ganham mais conforme mais trabalham, sem nenhum tipo de proteção, Marçal é referência. No Brasil, a informalidade sempre condicionou lógicas de produção alheias aos padrões legais da proteção trabalhista. Mas agora esse se tornou o padrão de uma cultura que não só aceita, mas normatiza o esforço infinito. Antes tratava-se de se virar para garantir um sustento mínimo, hoje é mérito encontrar diversas maneiras de obter recursos. Ganhar dinheiro é o imperativo, não importa como, se é investindo, empreendendo, apostando em sites esportivos e jogos eletrônicos ou enganando os outros.

Não se pode dizer que o ex-coach não está afinado ao espírito do tempo. É diferente do bolsonarismo, em que a luta de classes é feita olhando para baixo, por uma classe média que teme perder o status e os privilégios a partir da ascensão das camadas populares, e que idealiza um passado em que haveria algum senso de coletividade em torno de instituições como a nação, a família, a igreja. Na ideologia propagada por Marçal, a luta de classes é feita olhando para cima, não por parte de uma classe, mas de um indivíduo que pode reunir as condições de ascender socialmente de maneira atomizada.

E aqui nos deparamos talvez com o elemento mais intrigante do fenômeno Marçal. O ex-coach se conecta com um tempo em que o indivíduo, como empreendedor, influenciador ou qualquer outra coisa, está supostamente no centro da produção e do seu potencial enriquecimento. Diferente de uma sociedade marcada pela clivagem entre patrão-empregado, o sucesso partiria das ideias, do talento, da força e da capacidade do indivíduo. No que ele difere de um modelo teoricamente racional para a prosperidade e que inclusive já foi testado politicamente. No Brasil, figuras como Fernando Collor, João Dória e Paulo Guedes, entre outros, encarnaram a via “normal” de um capitalismo desprovido das amarras que o Estado colocaria sobre a liberdade econômica e o empreendedorismo. Projetos mais alinhados à teoria econômica hegemônica na academia e no debate público, mas que não prosperaram politicamente.

Marçal poderia ser entendido como a expressão de um sincretismo improvável entre um capitalismo contemporâneo excessivamente focado no indivíduo e manifestações localizadas no âmbito da fé. É como se depois de se depararem e se frustrarem com um modelo político-econômico que não entrega o que promete quando respeitada a via convencional e racional, restaria às pessoas apelarem para alternativas que estão à margem do espectro convencional, a soluções novas e mágicas para a prosperidade. Quando o padrão normativo de educação e trabalho e a renda são insuficientes para atender às demandas impostas por um modelo de consumo que cria desejos e necessidades de maneira incessante, restaria apelar a apostas, sejam elas econômicas, como os sites de apostas esportivas, sejam elas político-normativas, como Marçal.

A escolha pela extrema direita “tradicional” não deixa de ser uma resposta política ao insucesso, ao fracasso, à inviabilidade de um modelo de sociedade que promove a frustração de não se ter aquilo que precisamos e desejamos. Não alcançar tudo o que se deseja, trabalhar mais do que se pode física e emocionalmente, lidar com a frustração imposta por uma cultura que coloca sobre o ombro dos indivíduos toda responsabilidade pelo sucesso e pelo mais provável fracasso de vontades não realizadas é penoso. Mas como dito acima, essa extrema direita olha para o passado, projeta uma luta de classes em que os estratos sociais miram para baixo, têm medo de cair e se assemelhar às camadas inferiores. Em suma, o populismo da última década projeta a preservação daquilo que se tem ou a recuperação daquilo que se teve. No centro, ganham força o controle da imigração, a xenofobia e também alguma regulação sobre a economia de modo a preservar direitos mínimos e o poder de compra dos setores médios. No Brasil, o desespero e o ressentimento descambaram para a proteção, a segurança, a família, a religião e a restauração de uma sociedade baseada em desigualdades materiais e simbólicas.

Pablo Marçal não é único e carrega características que podemos encontrar em figuras como Donald Trump, Najib Bukele – que ele tentou em vão encontrar – e até Bolsonaro. Não se trata de uma ruptura completa com o modelo anterior, afinal disputa segmentos parecidos da sociedade. Mas há também diferenças importantes. No movimento promovido por Marçal, a aspiração de enriquecer faz com que o olhar esteja dirigido para o topo da estrutura social, a aspiração de prosperar conta mais do que a defesa da família e dos costumes, embora ela também esteja presente. Não é um acaso a afinidade do ex-coach com a juventude que se espelha em influenciadores que enriquecem a partir das redes sociais e com setores do funk cuja identidade está muito associada ao consumo e à ostentação.

O mais curioso, porém, é que essa projeção de sucesso e prosperidade está assentada na fé, na “mentalidade”, não em um plano racional de desenvolvimento econômico e abertura de oportunidades de trabalho e carreira. Marçal é a resposta a desejos e vontades que a ordem econômica é incapaz de realizar da maneira que a teoria econômica hegemônica propala. É como se as pessoas soubessem que pela via “normal” defendida – da educação e do esforço profissional – é impossível alcançar o que se almeja. É daí a força de um apelo sobrenatural, de uma solução mágica. Marçal está atrelado a questões muito reais e concretas, desde o jovem que consegue fazer dinheiro a partir da viralização de vídeos nas redes até famílias cuja renda é insuficiente para as necessidades mais ou menos básicas. Mas o caminho que ele aponta está apoiado no intangível, na crença, no fantástico, pois o caminho “normal” já se mostrou inviável.

A resistência contra o desespero reacionário do bolsonarismo contou com os erros cometidos por Bolsonaro no poder, com o receio dos estragos que ele ainda poderia cometer e, sobretudo, com as lembranças de um período de melhores condições de vida. Diante de uma extrema direita que, embora fragmentada, dialoga ao mesmo tempo com a nostalgia de um passado desigual e com a aspiração de um futuro de prosperidade individual, será preciso apresentar saídas objetivas para angústias e receios que podem facilmente aderir a um desses dois registros. Em um mundo em que as soluções coletivas razoáveis disputam espaço e atenção com um espetáculo desprovido de compromisso com a racionalidade, é apontando caminhos críveis de progresso e bem-estar que algum contraponto pode ser construído. Melhores oportunidades de trabalho, salários maiores, maior poder de compra, menos impostos sobre a renda, em suma, a perspectiva concreta de uma vida melhor é incontornável para qualquer projeto político que busque adesão popular. É difícil prever o que vai acontecer com as eleições paulistanas em meio a brigas e cadeiradas, o que dirá com a disputa político-ideológica que se anuncia para o próximo período. O que se pode afirmar sem muito risco de errar é que alternativas que dialogam com a irracionalidade do apego a um passado perdido ou a um futuro idealizado continuarão atormentando o nosso presente.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Pensamento do Dia


 

O conquistador

Para o governo de Netanyahu, o fim da guerra é a guerra

Um outro olhar para o coronelismo

Associamos o coronelismo a toda concentração de poder. A expressão exemplifica a influência política dos donos de terra no Nordeste na metade do século passado, e une Lira, Calheiros, Sarney, se espalhou para todas as análises políticas. Carmén Lúcia, essa semana, falou em “coronelismo digital” ao falar do poder das plataformas e empresas de tecnologia. O antropólogo Jorge Mattar Villela refuta a origem do conceito. Ao invés de um poder centralizador que domina o Estado, ele constrói a ideia de alianças temporárias de famílias, vinculadas a interesses políticos e vinganças.

O jurista Victor Nunes Leal foi quem divulgou a ideia em seu livro “Coronelismo, Enxada e Voto”, de 1948, em que relatou a relação e a influência dos grandes proprietários de terra com o poder público, trabalho e democracia – marcadamente nas eleições, com o voto de cabresto nos currais eleitorais, isto é, gente que sob seu domínio votava no candidato do “coroné”. Legal lembrar que o título militar foi dado aos fazendeiros que apoiaram as ações da Guarda Nacional contra as revoltas populares, entre a Regência e o início da República. A Guarda findou, ficou o prestígio.


Vilela considera uma explicação simplista acreditar no poder centralizado e exclusivista do coronel, do “soba”, do “chefete do baraço e do cutelo”, do “mandão de campanário”. Ele enxerga um poder descentralizado e baseado em alianças familiares temporárias alimentadas por interesses políticos e vinganças de sangue – e muitas vezes essas vinganças, que eram comuns, determinavam as celebrações ou rupturas desses acordos.

“Nas grandes brigas de famílias, havia gente capaz de arregimentar, ou atrair, vários microgrupos de base familiar formando bandos instáveis de mais de cem homens armados, voltados para o ataque a um inimigo”, explica no texto. O antropólogo define que a organização social e a política dessa região era estruturada por essas redes familiares, deixando o Estado em segundo plano.

Em um lugar em todo mundo vestia calça, camisa e um revólver ou espingarda, um “povo em armas”, com ele escreve, existiam altos níveis de autonomia nos conflitos. Como se poderia viver sob esse regime de submissão a um senhor de terras sem que houvesse um episódio de revolta?, pergunta. A gestão municipal ficava à margem ou era tragada por essas intrigas.

Ao invés do coronel, ele destaca o inspetor de quarteirão, um delegado que mantinha a ordem pública onde não havia quadros institucionais de segurança. Eram mediadores que “impediram que uma convivência de conflito iminente escapasse para o conflito permanente” costurando vínculos e resolvendo desavenças sob o manto da violência. Expulsava ladrões, combatia cangaceiros, silenciava embates entre vizinhos, com o auxílio de parentes para formar esse grupo.


Seu trabalho, um mergulho de 20 anos em mais de um século de história social e política, desembocou em três livros e está resumido no artigo A Antropologia do Sertão de Pernambuco. Pajeú e Navio, publicado na Revista de Antropologia da UFSCar.

Ao fazer uma ponte com a política atual, o pesquisador disse à Revista da Fapesp que “de uma certa forma, essas coisas acontecem em qualquer lugar. Podem acontecer, por exemplo, na avenida Faria Lima, em São Paulo. Um escritório lobista da Faria Lima também é power-user da democracia e da economia. Não é uma coisa de gente pobre periférica, é de gente que está colada à obtenção de recursos gerados no Estado nacional. A segmentaridade do voto, as complexas negociações intergrupais, as alianças familiares e locais continuam presentes, e dão o tom ao processo”, conclui.

Onde estão os árabes?

Em meio ao barulho das bombas que nestes dias sacodem Gaza e Beirute, o silêncio dos países árabes é surpreendente. Para além de algumas palavras de condenação e de apelos banais ao diálogo por parte dos seus líderes, não houve medidas significativas contra os excessos cometidos por Israel em resposta ao ataque infame que sofreu há um ano pelas mãos do Hamas. Nem sequer se viram manifestações nas ruas, algo que aconteceu em numerosos países ocidentais e noutros de maioria muçulmana.


Dos sete países árabes que mantêm relações diplomáticas com Israel (excluindo o Sudão, atolado numa guerra civil), apenas a Jordânia, que as estabeleceu em 1994, retirou o seu embaixador. O Egito, o primeiro a assinar um tratado de paz com o Estado Judeu em 1979, tenta um difícil equilíbrio como mediador entre ele e o Hamas. Os Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos, por sua vez, mantiveram os laços estabelecidos a partir dos Acordos de Abraham (2020). E a Arábia Saudita não fechou a porta à sua adesão no futuro.

Esta atitude entra em conflito com décadas de utilização da causa palestina como elemento unificador. Assim, são feitos alguns gestos de apoio (como a adesão ao caso de genocídio contra Israel levado a cabo pela África do Sul perante o Tribunal Internacional de Justiça ), enquanto são tomadas medidas contra o ativismo pró-palestiniano (como aconteceu na Arábia Saudita, no Egito ou na Jordânia).

A realidade é que os líderes árabes não querem confrontar Israel. Na maioria dos casos, isto deve-se às suas relações com os Estados Unidos, um país do qual dependem para a sua segurança (no caso das monarquias do Golfo) ou para a sua sobrevivência financeira (Egito e Jordânia). Mas nem mesmo alguém como o presidente sírio, Bashar al Assad, um aliado do eixo de resistência liderado pelo Irã, fez até agora qualquer tentativa de se manifestar em apoio ao Hezbollah, a milícia libanesa que salvou o seu regime da revolta popular.

O que todos têm em comum é o medo da mobilização nas ruas devido à falta de legitimidade democrática dos seus governos. E a causa palestina tem sido historicamente um catalisador, primeiro nas mãos dos esquerdistas e, mais recentemente, dos islamitas. Não importa quantos excessos Israel cometa, no fundo está a fazer o trabalho sujo de pôr fim aos islamistas, sejam eles os sunitas do Hamas ou os xiitas do Hezbollah.

Semeiam o descontentamento e a maldade

Dois terços da gente do meu país leem esta espécie de jornal; leem de manhã e à noite coisas escritas neste tom, são trabalhados permanentemente, incitados, açulados; semeiam-se neles o descontentamento e a maldade, e a meta final de tudo isso é outra vez a guerra, a próxima guerra, que já está chegando e que, sem dúvida alguma, será muito mais horrenda do que a última. Tudo isso é claro e simples, qualquer pessoa pode compreendê-lo; com uma hora de meditação todos poderiam chegar ao mesmo resultado. Mas ninguém quer agir assim, ninguém quer evitar a próxima guerra, quer livrar-se nem livrar a seus filhos das mortes aos milhares, nem quer parar por um instante e pensar voluntariamente.

Uma hora de reflexão, um momento de entrar em si mesmo e perguntar pela parte da culpa que lhe cabe nesta desordem e na maldade que impera no mundo… mas ninguém quer fazê-lo! E assim tudo continua como estava e a próxima guerra vai-se preparando a cada dia que passa, com o auxílio de milhares e milhares de pessoas diligentes. Estas coisas sempre me desesperam: para mim não existe “pátria”, não existe “ideal” algum. Tudo isso não passa de frases inculcadas por aqueles que preparam a próxima carnificina. Não tem sentido pensar ou escrever algo que seja humano, de nada vale ter boas ideias na mente… são duas ou três pessoas que agem assim; em compensação, há milhares de jornais, de revistas, de conferências, reuniões públicas ou secretas que, dia após dias insistem no contrário, e acabarão por alcançá-lo.

Hermínia permaneceu ouvindo com interesse.

- Sim - disse em seguida -, você tem razão. Naturalmente, haverá outra guerra; não é preciso ler nos jornais para saber. É certo, embora isso nos entristeça, que o homem, apesar de tudo e de todos, apesar do que possa fazer, o homem tem inevitavelmente de morrer. A luta contra a morte, meu caro Harry, é sempre uma coisa bela, nobre, prodigiosa e digna, da mesma forma que a luta contra a guerra. Mas há de ser sempre uma quixotada sem esperanças.

- Talvez seja verdade - exclamei enérgico -, mas com verdades semelhantes a esta de que temos todos de morrer e que, por conseguinte, tudo é igual é que convertemos a vida em algo monótono e estúpido. Desta forma teremos de renunciar a tudo, ao espírito, às aspirações; teremos de destruir a humanidade, teremos de permitir que reine o egoísmo e o dinheiro e esperar a próxima guerra com um copo de cerveja à mão.

Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe"

Todos os tons do setembro amarelo no fim

Começou o outono em Nova York. Estive concentrado na cidade porque os líderes mundiais falariam na ONU. E também porque minha filha Maya estava por lá. O que tem a ver uma coisa com a outra? O trânsito. Ela precisava se deslocar entre um e outro evento sobre defesa do oceano e fez uma curta viagem à Califórnia. Sofreu com as longas viagens de táxi.

Os discursos na ONU se sucediam indiferentes aos pequenos transtornos urbanos. Imagino aquele prédio como um imenso transatlântico com seus oradores navegando num mar tempestuoso, repleto de icebergs.

Ouço uma voz em português de nosso presidente advertindo para a catástrofe climática. Soa sensato, mas, a 8 mil quilômetros de distância, o que sentimos ainda é o calor do fogo, o cheiro de fumaça. Estamos destruindo o planeta com regularidade, sem discriminação.

O outono começa por lá. Por aqui o inverno acabou. Ainda restam algumas folhas de amendoeira não recolhidas na Rua Almirante Saddock de Sá.


O amigo Py, psicanalista, me envia uma rápida fala sobre o setembro amarelo. É o mês da prevenção ao suicídio. Ele alerta sobre o suicídio lento do consumo exagerado de tabaco e álcool. E me pergunta se a agressão ao meio ambiente não é um tipo de suicídio coletivo.

De certa forma, sim, amigo. Não há perigo de o planeta acabar, mas sim de a vida humana tornar-se inviável nele. No entanto não é esse o suicídio que Albert Camus chama de maior problema filosófico em seu célebre “O mito de Sísifo”. Para ele, a questão estava na consciência da falta do sentido da vida e em como responder a essa situação absurda. Atribuir um sentido ou abandonar o mundo.

A destruição ambiental não é uma escolha consciente. Na verdade, é resultado do gozo desenfreado da vida, por meio da produção e do intenso consumo. As pessoas não dizem “adeus, vida cruel!”. Pelo contrário, celebram e querem fruir cada vez mais.

No setembro por aqui, é a primavera que começa. Ainda há folhas secas na Rua Saddock de Sá, que esteve coberta com um colorido tapete de folhas de amendoeira.

Talvez um dado novo em nossa prevenção do suicídio seria observar o avanço das empresas de aposta. Os brasileiros jogam mais de R$ 200 bilhões. Fala-se que há 13 milhões de inadimplentes. Isso é um risco para a estrutura das famílias, para a saúde mental.

As empresas de aposta patrocinam muita coisa, clubes e imprensa. O governo espera recolher imposto para obras sociais. Mas precisamos fiscalizar e definir campanhas educativas. Caso contrário, deixaremos passar em branco o setembro amarelo.

Num artigo que escrevi sobre os discursos da ONU, mencionei também as guerras. Não apenas na Ucrânia ou em Gaza. Agora se alastram pelo Líbano, já existem em lugares que ignoramos, como o Iêmen, a República Democrática do Congo.

Esse foi um dos temas no transatlântico dos grandes discursos, dos grandes pianistas. A semana acabou com mais notícias de guerra. Os líderes voltaram para casa, minha filha voou para a Europa. Restou setembro com seus tons de amarelo. Não faço mais discursos, limito-me a interpretá-los por dever de ofício. A esta altura, sem menosprezar a retórica, prefiro alguma ações concretas: elas andam em falta.

Neste setembro, peço desculpas não só a Camus, como aos existencialistas com suas teses sobre o absurdo da vida, a necessidade de cravar as unhas no abismo e de encontrar um sentido para ela.

Tive a sorte de viver muitos anos, acabei me acostumando, sem grandes inquietações. Reduzi expectativas. Felicidade para mim é apenas um pedaço da Lagoa onde sopra uma brisa: este ligeiro excesso de oxigênio me inebria. E, com perdão dos grandes mestres orientais, meditar para mim é boiar de costas e deixar que os pensamentos flutuem e se tornem tão leves como o corpo.

Por isso, meu amigo Py, não sei se meu argumento é uma blasfêmia no coração do setembro amarelo. Penso nas grandes turbulências aéreas: colocar a máscara de oxigênio e, então, ajudar os outros. Dito isso, continuaremos tentando prevenir suicídios, inclusive o da Humanidade.