terça-feira, 19 de abril de 2022

General Mourão tira a máscara e debocha dos mortos da ditadura

Na hora em que vozes das catacumbas assombram o país com novas revelações sobre torturas e mortes na época da ditadura de 64, o vice-presidente Hamilton Mourão, agora filiado ao Republicanos para disputar uma vaga a senador pelo Rio Grande do Sul, despe a máscara de militar moderado e mostra-se como sempre foi.


“Vai apurar o quê? Os caras já morreram tudo. Vai trazer os caras do túmulo de volta?” – e dá uma risadinha em resposta à pergunta sobre se não seria o caso de se voltar a investigar o legado de horror de um regime que durou 21 anos, e que adotou a tortura, a morte e o desaparecimento de presos como política de Estado.

Há mais de 10 mil horas de gravações dos simulacros de julgamentos feitos pelo Superior Tribunal Militar entre 1975 e 1985, às quais o historiador Carlos Fico teve acesso. E, aos poucos, frações desse gigantesco material começam a se tornar públicos. Nem as leis da ditadura foram respeitadas por ela e pelos juízes.

Para Mourão, “isso é história, já passou. São assuntos já escritos em livros e debatidos intensamente. É passado. Faz parte da história do país”. Passou para quem, cara pálida? Para os que torturaram, mataram e se beneficiaram de uma anistia sem jamais terem sido julgados ou admitidos seus crimes?


Os que sobreviveram às torturas foram julgados, condenados, ou forçados a se exilar. Seu crime? Desarmados ou armados, lutaram contra uma ditadura que a pretexto de defender a democracia, suprimiu-a, que herdou uma inflação anual de 80% em 1963 e a empurrou para 215% em 1984. Foi um atraso na história do país.

O general desprezado por quem o escolheu para vice, prega que ao se relembrar a ditadura deve-se ouvir “os dois lados”. As gravações dão justamente voz ao lado dos que foram cúmplices do regime que violou todas as leis que dizia respeitar, e todos os tratados internacionais assinados pelo Brasil até então.

Tortura e morte, que Mourão prefere chamar de “excessos”, chocaram até mesmo alguns dos juízes militares que fizeram parte do tribunal. Como o general Rodrigo Otávio Jordão Ramos que, em 24 de junho de 1977, comentou sobre torturas em uma presa, que estava grávida e perdeu o filho:

“Alguns réus trazem aos autos acusações referentes à tortura e sevícias das mais requintadas, inclusive provocando que uma das acusadas, Nádia Lúcia do Nascimento, abortasse após sofrer castigos físicos no DOI-Codi.”

Os DOI-Codi eram centros e destacamentos do Exército usados pela ditadura. O general descreveu o tipo de tortura:

“Sofreu um aborto no próprio DOI-Codi em virtude de choques elétricos em seu aparelho genital.”

O general Rodrigo Otávio Jordão Ramos, que em 1968 como Comandante da Amazônia pediu a cassação do deputado Márcio Moreira Alves (MDB-RJ) por ele ter feito um discurso considerado ofensivo às Forças Armadas, em 15 de dezembro de 1976, como membro do Superior Tribunal Militar, ao julgá-lo, disse:

“Condená-lo em bases jurídicas é completamente inexequível. […] Em 1968, solicitei ao ministro do Exército que se tomasse uma providência drástica contra ele, inclusive a cassação. Eu vou tomar uma decisão revolucionária, deixando de lado a lei, porque pela lei não se pode condená-lo. De maneira nenhuma. Ele é inviolável”.

E condenou o deputado que já fora cassado e estava no exílio. Às favas as leis da ditadura. Às favas todos os escrúpulos, como disse em 1968 o então ministro Jarbas Passarinho ao subscrever o Ato Institucional nº 5, que suspendeu as garantias individuais e deu início ao período mais sangrento do regime militar.

O que Mourão pensa, diz e proclama como verdade é o que ainda hoje é ensinado nos cursos de formação dos oficiais das Forças Armadas. A democracia no Brasil sempre estará ameaçada enquanto o negacionismo militar seguir vivo.

A batalha final do Donbas

Putin, e as suas forças militares, vão jogar tudo na batalha do Donbas. E os ucranianos, por sua vez, sabem que será ali, no Sul do país, a zona mais martirizada pela guerra, que terão de apostar as suas melhores forças e equipamentos para derrotar, de uma vez, o exército russo. Está tudo conjugado para um confronto duro, direto, e poderoso, no final de abril, início de maio. Nenhuma das duas forças tem espaço para falhar. Há analistas americanos que apontam para uma batalha de dimensões só vistas na II Guerra Mundial.

Estando nas últimas, e com o seu porta-voz a reconhecer pesadas baixas na Ucrânia, a aventura desastrosa e criminosa de Putin vai resumir-se em mais uma tragédia para as suas forças, para os seus soldados, e para o seu país. O Donbas não vai refazer a reputação das forças militares russas, que estão agora a juntar as sobras militares das frentes do Norte e Leste. A Rússia não pode desguarnecer outras frentes e fronteiras, particularmente com a NATO, e por isso o que vai para o Sul é o que resta da ideia megalómana de conquistar a Ucrânia, e Kiev, em 72 horas.

Jogue-se o que se jogar, a batalha de Donbas não será uma vitória para os russos. Não pode ser. Os ucranianos estão a receber cada vez mais equipamento militar dos aliados da NATO, ligeiro e pesado, estão ansiosos por dar uma coça nos russos, de uma vez, e também estão a deslocar os seus batalhões mais bem equipados para a última frente de batalha. Com um pormenor agora revelado: o Pentágono está a partilhar informações e sugestões com o comando militar ucraniano, e isso, com a ajuda do equipamento ultramoderno, resultará no enxovalho final das forças militares da Rússia.

Como é que Putin não consegue perceber que vai ser derrotado? Como é que não evita mais mortes, destruição insensata, e crimes contra a Humanidade? Não tem cara, nem coração, de quem aceita perder, mas bastaria olhar para Mariupol para concluir que nunca sairá bem, e ileso, desta loucura militar: 43 dias depois, Mariupol está cercada, mas nunca foi tomada pelos russos. Não conseguiram, mesmo destruindo 90% da cidade e do porto. Isto não fez soar os alarmes no Kremlin? A batalha final do Donbas, mais cedo do que tarde, vai ser o pano que cai no teatro de guerra. Putin já não tem concerto.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Aliança do Brasil

 


Ainda somos o país do futuro?

A campanha política está em pleno andamento. É verdade que nenhum candidato a candidato, ou mesmo candidato assumido apresentou, por enquanto, qualquer projeto consistente sobre as questões centrais do país. Pena. Elas precisam ser abordadas com seriedade. E, para evitar enganos, deixo claro que as questões centrais não são simplesmente as urgentes, mas as importantes, aquelas que, devidamente resolvidas, poderiam nos transportar ao almejado e cada vez mais distante patamar em que deveríamos chegar, o de nação desenvolvida, socialmente justa. Queremos que nosso Brasil volte a ser um lar ambicionado por gente do mundo todo, não apenas por refugiados.


Para quem tem alguma memória, valeria a pena se lembrar de alguns pontos fundamentais, superficialmente tocados na última campanha presidencial: educação pública laica, universal e de qualidade, de modo a propiciar igualdade de oportunidades reais, não apenas nominais; habitação, água e esgoto para todos; sistema de transporte de qualidade (inclusive ferrovias, hidrovias e cabotagem); fartura de alimentos para seres humanos, não apenas para gado e galinhas; qualificação da mão de obra, para que possa haver mais empregos e mais empresas de bom nível; manutenção e expansão da rede pública de saúde; preocupação com o esporte como atividade voltada para a saúde, não apenas para a competição; controle sobre a usura praticada fora e dentro da lei; sistema de justiça democrático, desde o julgamento até o encarceramento. Embora tocados por alguns candidatos nas últimas eleições presidenciais – muito superficialmente, para dizer a verdade -, esses temas e vários outros foram debatidos com alguma seriedade em órgãos de imprensa e com real profundidade em livros. Uma das obras mais sérias, com propostas concretas em diferentes áreas, da Economia ao Esporte, da Educação à Agricultura, passando por Ciência e Tecnologia, Saúde, Segurança Pública e Meio Ambiente, foi “Brasil, o futuro que queremos”. Embora suspeito, por ter organizado a obra, estou à vontade para falar de um trabalho que não escrevi. Apenas estruturei, lancei perguntas, fiz observações, padronizei o material e redigi uma introdução. O conteúdo coube a especialistas, de diferentes correntes e cores políticas, gente aberta, articulada, capaz de juntar o saber com a prática. Brincando, eu chamava o grupo de “meu ministério”.

Seria um desperdício não aproveitar muitas das ideias e sugestões apresentadas nesse livro como tema para discutir nosso país, por ocasião da próxima campanha presidencial. Noticiários na TV, nas rádios e nos jornais têm ido pouco além da divulgação de pesquisas eleitorais (que não ajudam a compreender o país), quando não ficam exibindo manobras realizadas por supostos políticos “hábeis”. É pouco, muito pouco. Precisamos mesmo é discutir os problemas brasileiros. Não é uma competição para ver quem é o mais esperto, mas o mais preparado. Ou estou equivocado?

A percepção que as pessoas têm de quanto o Brasil é injusto é algo muito sério, pois não se pode tecer um país unido com a desigualdade social vigente. A desigualdade favorece a existência de arrogantes de um lado e dissimulados de outro. Um jovem advogado, muito idealista ainda, me dizia que, no Brasil, todos são iguais perante a letra da lei, mas não perante o espírito da lei. Na prática, o poderoso, quando prevarica, é bem defendido, muito bem defendido, defendido com tudo que a lei permite e, às vezes, até um pouco além disso. Quem não pode vai para a cadeia, sofre dias, meses, anos e, se sobrevive às prisões brasileiras, não terá muita chance de se recuperar. E esse sistema, vamos ser claros, não é acidental, é estrutural. Ele reflete a concepção que temos de um estado que é de todos, mas não é para todos. É de todos que pagam o aumento no custo dos alimentos, do transporte, do material escolar, das roupas vindas da China e do Vietnã. O Brasil é um país em que o desemprego é gigantesco, porém, aonde quer que se vá, vai se ouvir patrões dizendo que têm vagas em aberto, por falta de mão de obra qualificada. É um país que acha que todo mundo, para ser cidadão, precisa ter faculdade, e para isso aprova o funcionamento de pseudo universidades, verdadeiras Unidrogas e Unigranas, que ainda são beneficiadas com empréstimos feitos aos alunos, para eles pagarem a anuidade… Em troca, exigem muito pouco do aluno. A preocupação não é preparar gente, é fornecer um diploma para os pagantes. Diploma, que por seu turno, não servirá para nada.

O Brasil tem solução? Teoricamente tem. Até países na Ásia Oriental, no Oriente Médio (com solo desértico e sem petróleo), no sul do Pacífico consolidaram-se como democracias pujantes e sociedades equilibradas. Não há motivos geográficos ou históricos que nos condenem a ser, para sempre, o país do futuro que passou.

O futuro que queremos é outro.

Natureza morta

Ruínas onde foram ontem casas,
corpos a apodrecerem no chão,
crianças mortas, lindas, já sem asas,
um mundo, antes, vivo, em implosão.

Por todo o lado, a morte em vez da vida,
por todo o lado, o nada em vez do tudo,
por todo o lado, a vida invertida
e o rasto do monstro chavelhudo.

Natureza morta conspurcada,
oferta a pintor alucinado,
paisagem cagada e mijada,

pra futuro museu excomungado.
A loucura a inventar uma arte,
que erga, no inferno, seu estandarte!

Eugénio Lisboa

Um país muito doido

É muito doido o que virou o Brasil. Com uma introdução ao que viria no governo golpista do Temer até a consolidação da loucura no governo Bolsonaro, vivemos hoje o desmonte total do estado, da política e das instituições. Claro que não se concretizou totalmente e graças a isso continuamos resistindo com o que sobra. Mas o plano é esse. Se deixar eles acabam o serviço e estabelecem um estado fascista disfarçado de populista com o povo “decidindo” através de plebiscitos, arma típica dos governos autoritários que desprezam a democracia, as minorias e as diferenças.

Eles armariam e muita gente nem perceberia. Parte do mercado financeiro continuaria, os ricos ficariam mais ricos, os pobres mais pobres e aqueles que acreditam que deus está acima de tudo viveriam o destino como se estivesse escrito. Democracia não é nada disso e ainda temos muita energia nessa resistência à barbárie. Por isso se diz que essas eleições são as mais importantes desta era.


Não gostaria de viver essa experiência do estado totalitário pela segunda vez. Fantasiadas de capitalismo neoliberal as imposições e limitações estabeleceriam as regras. O país sem fiscalização, sem apoio do estado, o vale tudo disfarçado também de liberdade deixaria todo o poder e as possibilidades nas mãos dos mais ricos e mais fortes. Um pouco já é assim e você sente isso no dia a dia das cidades, dos bairros e das ruas. É um verdadeiro milagre as cidades ainda funcionarem, o trânsito mal ou bem fluir e as pessoas ainda darem bom dia quando se cruzam. O brasileiro é antes de tudo um forte e certamente há de resistir.

Nas ruas você pode ser atacado se discute no trânsito, esfaqueado se volta pra casa a pé, assassinado se for assaltado, eliminado da vida se entrar por acaso numa comunidade sem avisar e daqui a pouco se der uma opinião contrária. É a lei da selva no seu mais alto grau. A polícia sumiu das ruas, os guardas de trânsito só existem para multar de vez em quando quem estaciona em local proibido, as pessoas circulam de moto ou bicicleta na contramão, as regras de convivência vão sendo esquecidas e o brasileiro em geral e o carioca em particular vai criando maneiras alternativas de sobreviver.

Tudo isso é resultado de falta de escola, de apoio e presença do estado, de assistência social e tudo o mais que dá ao cidadão a sensação de fazer parte de alguma coisa. O individualismo é estimulado, a meritocracia enaltecida e com isso o povo se sente abandonado, totalmente. Como não vai sucumbir paralisado acaba descobrindo sua maneira pessoal de sobreviver e isso pode incluir inclusive a violência e a intolerância.

Cabe a nós interromper esse ciclo terrível que nos países pobres e despolitizados como o nosso acabam criando condições para o estado fascista. Ainda restam as eleições, o Supremo, o Congresso, apesar de tudo. Vamos mudar o rumo dessa prosa e retomar nossa responsabilidade no futuro do Brasil. Chega de palhaçada, de compras patéticas, de motociatas fora da lei, de atitudes violentas e antidemocráticas. O Brasil é muito mais do que isso e dessa vez, até agora, as eleições vão correr de modo mais justo. Espero. Esperamos todos e só restará a lei para punir quem riu e zombou das nossas vidas esse tempo todo. A hora é essa.

Bolsonaro e o liberalismo do medo

Judith Shklar (não me peça para pronunciar o sobrenome) precisou de menos de trinta páginas, divididas entre dois ensaios, para deixar sua marca na história do pensamento político. O primeiro ensaio, de doze páginas, chama-se “A Crueldade Antes de Tudo” (“Putting Cruelty First”). O segundo, de dezessete, “O Liberalismo do Medo” (“The Liberalism of Fear”). Ela escreveu muito mais, é claro, e seus livros são valorizados por quem trabalha com teoria política e história das ideias. Mas esses dois textos curtos são considerados sua contribuição mais forte e original.

Shklar morreu em 1992, aos 63 anos. Há um revival em torno dela. Eu, que jamais havia lido uma linha da sua obra, fui dar uma espiada e achei seus dois textos célebres extraordinariamente úteis para o momento atual. No Brasil, especialmente, há gente trabalhando o tempo todo para obscurecer os significados do liberalismo e da democracia. Shklar oferece o antídoto. Ela delimita com simplicidade e nitidez absolutas o mínimo denominador comum das sociedades desse tipo – aquilo de que elas não podem abrir mão, sob pena de se corromperem.

A graça dos argumentos de Shklar está na maneira como ela os desenvolve, mas o sentido é fácil de resumir. Segundo a autora, as raízes do liberalismo estão fincadas no século XVI, quando a Europa enfrentava as sangrentas guerras de religião entre católicos e protestantes.

Diz ela: “As bases mais profundas do liberalismo foram assentadas pelos primeiros defensores da tolerância religiosa. Estão calcadas na convicção, forjada no horror, de que a crueldade é um mal absoluto, uma ofensa contra Deus e a humanidade. É dessa tradição que o liberalismo do medo surgiu e continua a ter relevância em meio aos terrores do nosso tempo.”


O liberalismo do medo não diz qual o melhor tipo de sociedade. Como afirma Shklar, ele está preocupado apenas com a “contenção de danos”. Seu propósito é evitar que as pessoas vivam com receio de quem as governa. É desenvolver anteparos contra a possibilidade de que regimes arbitrários e violentos se consolidem no poder. É, finalmente, um alerta contra políticos que transigem com a crueldade, e não acreditam que ela é o mal que precisa ser evitado antes de tudo.

Jair Bolsonaro, hoje mesmo, repetiu que é importante ficar neutro diante da invasão da Ucrânia pela Rússia. Depois de quase sessenta dias em que as evidências da perversidade russa vão se empilhando, junto com escombros e cadáveres de ucranianos, ele ainda acha que nem mesmo uma palavra de repúdio deve ser apresentada contra Putin. Claramente, para ele, a crueldade não é o pior de tudo.

Semanas atrás, seu filho Eduardo primeiro zombou da tortura a que a jornalista Miriam Leitão foi submetida durante a ditadura militar, e depois pôs em dúvida a própria existência da tortura, num requinte de estupidez. Ele também não acredita que evitar a crueldade vem em primeiro lugar.

Apesar disso, políticos e pastores de todo o país não apenas acham belo o bolsonarismo, como ainda o misturam com religião e vontade divina.

Bolsonaro gosta de usar a palavra liberdade, inclusive para elogiar a ditadura militar e defender as delícias de um golpe de estado. Quando a linguagem política se deturpou a esse ponto, é bom voltar ao básico. O liberalismo do medo não diz que o repúdio à crueldade é o único critério para escolhas políticas, mas diz que, sem ele, não se pode falar em democracia, ou desenvolvimento ou qualquer outro ideal pomposo. A utilidade da doutrina de Shklar está no seu minimalismo. E Jair Bolsonaro, seus filhos e apoiadores mais entusiásticos – inclusive os religiosos – não atingem a nota de corte.

domingo, 17 de abril de 2022

Pensamento do Dia

 

Oguz Gurel (Turquia)

Tão cedo não vejo é país algum

Meu imortal Ignácio de Loyola Brandão parece mesmo ter previsto intuitivamente o que viria quando escreveu e publicou, em 1981, “Não verás país nenhum”, uma de suas premiadas obras de ficção, quase real 40 anos depois. Eu, hoje, apenas digo mais: a esta altura da vida, nunca pensei que veria, testemunharia, as coisas que acontecem diante de nós diariamente, seguidas de outras e tantas outras, como se nada mais importasse, numa estranha caminhada

Tão cedo não vejo é país algum

E não saberemos ainda de muitos fatos que agora tentam nos negar até o próximo século, como se eles se sentissem tão importantes para que, daqui a cem anos, seus malfeitos sejam lembrados, pesquisados e divulgados por historiadores, quando precisamos apenas é que hoje sejam contidos antes que se efetivem, antes que marquem ainda mais esse tempo de terror. Não entendem que seus nomes já estão marcados, e da pior forma possível, e porque os detalhes do que praticam são antevistos.


Espero não parecer exagerada aos olhos especialmente de quem anda desligado dos fatos – e cada vez mais sei de pessoas que estão fazendo isso, se desligando, como se assim as coisas possam se transformar. Não fico sabendo, então, não me importo, pensam uns. Outros, desistiram, quedando apenas cansados. Há os umbigueiros que, se não atingidos de alguma forma, dão de ombros à toda a comunidade.

Talvez por profissão que me mantém ligada, talvez pelo signo, Gêmeos, diretamente ligado à comunicação, à curiosidade, talvez sei lá por que, estou sempre sintonizada nos fatos aqui do meu cantinho. E eles andam bem impressionantes. Pioraram na pandemia, principalmente os ligados à idiossincrasia humana. E os que pensaram que sairíamos melhores desses tempo terrível – e cheguei a acreditar nisso – perderam feio a aposta.

Saímos piores, mais pobres, mais amedrontados, mais loucos, mais feios, impacientes. Mais violentos. Mais egoístas. Como se ter sobrevivido não tivesse sido significativo, não obrigasse a uma renovação interior depois de tantas perdas, angústias e sofrimentos.

Saímos com casca mais dura, parece. Porque estamos suportando – protestando apenas baixinho, ou em letrinhas nas redes sociais – ataques diários à nossa integridade, à nossa inteligência e especialmente à nossa paciência. Vivemos tempos difíceis mundialmente, compreendo, mas em nosso país vivemos tempos particularmente perigosos e levianos, com a estrutura política abalada, e o incentivo à divisão cada vez mais danoso para aquele futuro, lembram? – aquele lá que nunca chega. Ou quando chega queremos gritar.

Senão, vejamos, para onde se olha: a miséria, a violência nas metrópoles incontrolada, tornando qualquer ida à padaria esporte de alto risco. Tudo será rigorosamente investigado, dizem, mas o que se vê é polícia perdendo tempo ocupada em controle e repressão ao comportamento diferente, justamente à diversidade que conquistamos. Assassinatos de mulheres, o feminicídio, fato diário e corriqueiro; assassinato de transexuais e travestis nos posiciona como um dos locais mais perigosos do planeta. Crimes contra turistas que nos afastam cada dia mais de uma de nossas principais fontes de renda e investimento. Como se não bastasse o extermínio dos povos indígenas e seus habitats. A construção desenfreada que nos faz temer se em uma noite não seremos expulsos de nossas casas impiedosamente, tudo substituído por torres horrorosas.

E agora essa que tentam nos impor negando por decreto informações para tudo que perguntamos com direito na base na lei, na transparência de dados, sigilo de 100 anos, sobre tudo que esse desgoverno faz no escurinho do cinema, os encontros que mantêm sob nossas barbas, combinando malditos planos corruptos com uns seres que saíram das trevas sob mantos inclusive religiosos. Não basta apenas o que esfregam com sua inoperância, há a provocação insidiosa à luz do dia, o incentivo ao armamento, à burla da democracia.

Não vemos país nenhum. Vimos e já vivemos o terror do passado. Não veremos mais nada se não nos ligarmos e agirmos.

Aliás, se acaso avistar alguma luz, avisa, que o verbo ver tem muitas flexões. E reflexões.

Por cima da lei

Na sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro voltou a torrar dinheiro dos impostos dos brasileiros para mais uma motociata, a 13ª em menos de um ano. Indiscutíveis atividades de campanha eleitoral, sem vínculo com qualquer ação de governo que justifique os gastos – segundo a Folha de S.Paulo, os passeios anteriores somaram R$ 5 milhões -, ele continua a fazê-las. Impunemente.

Impunidade, como se sabe, é estímulo para desvios, malfeitos ou crimes. No caso de Bolsonaro isso se eleva à enésima potência. Ele detesta cumprir leis, diverte-se em desafiá-las, ameaça usar mundos e fundos contra elas. Não raro terceirizando responsabilidades – a corrupção nos ministérios da Saúde e da Educação são as provas mais recentes disso -, negando o que todo mundo vê, invertendo o significado das coisas.

Sempre finge que nada é com ele. Faz das suas e se irrita com normas que o prejudicam desde as estripulias que o afastaram da carreira militar, quando planejou detonar bombas em quartéis para reivindicar reajuste salarial.


De lá para cá, acobertou-se por quase três décadas no manto da imunidade parlamentar para ganhar notoriedade com agressões homofóbicas, misóginas, de apoio escancarado à ditadura e à tortura. Além de golpes, erroneamente tratados como de pequeno porte, como o de manter apartamento funcional – “para comer gente”, como ele próprio explicou -, mesmo tendo residência em Brasília. Ou contratando funcionários fantasmas, como a agora notória Wal do Açaí, que em 15 anos de holerite jamais pisou no gabinete do chefe, nem para a posse. Caminho que ensinou à sua prole, perpetuando a indústria familiar das maravilhas das rachadinhas e de outros rolos.

Enriqueceu às custas da política do baixo clero e, no exercício da Presidência, divide com os seus o botim.

Na sua ótica, os adjetivos antônimos público e privado têm o exato sentido inverso. Lambuza-se com o dinheiro dos impostos dos cidadãos para a promoção pessoal e tenta esconder o que por lei é público. É só ver a quantidade de informações lacradas por 100 anos, incluindo até mesmo sua carteira vacinal, os encontros que teve com o mensaleiro Valdemar Costa Neto, presidente do PL, partido ao qual se filiou, e o número de vezes que seus filhos foram ao Palácio do Planalto.

Sem contestação legal, Bolsonaro colocou na rua a campanha pela reeleição no segundo dia de mandato – e acelerou. A utilização de recursos públicos para fins de sua promoção pessoal cresce em volume e intensidade de acordo com o calendário eleitoral. Fora os passeios de motocicleta, que agora devem replicar o esquema de São Paulo, com o candidato do coração ao governo do Estado à tiracolo, Bolsonaro tem intensificado os ataques a Lula nos palanques pelo Brasil afora.

Protege-se com o discurso gaiato de que não faz campanha eleitoral porque ninguém pede voto. Não é bem assim. Em entrevistas a rádios do interior a reeleição é tema recorrente. Em um palanque no Pará, chegou a mostrar ao público uma camiseta com os dizeres “Bolsonaro 2022”, algo terminantemente proibido. O modelito atual, que apareceu no passeio paulista, retira os dois primeiros algarismos, mantendo o 22, o número do PL, que estará estampado na urna eletrônica. Coisa de malandro. Se alguém questionar, dirá que se refere ao ano em curso.

A Justiça, incluindo a vertente Eleitoral, responsável por coibir abusos de poder e garantir isonomia entre os candidatos, nada faz. Deixa-o impune. E há tempos.

Quase todos os dias, Bolsonaro fere a impessoalidade do cargo, colocando-se acima das instituições. Diz que não ultrapassa “as quatro linhas” da Constituição, mas o faz com frequência, a ponto de já ter ameaçado em alto e bom som que não cumpriria ordem de ministros da Suprema Corte. Usa e abusa de uma visão torta de “liberdade” para justificar seus arroubos autoritários contra tudo que o desagrada: STF, TSE, urnas eletrônicas.

E inventou mais uma: garantiu que não vai cumprir a decisão do WhatsApp de só incluir a ampliação das mensagens em massa no aplicativo após as eleições, ação combinada com o TSE para reduzir o alcance de fake news. Só não explicou como pretende descumprir algo que não existe. Portanto, papo diversionista que tem ainda o condão de evitar que a boiada durma.

O interesse pelo tema não é gratuito, até porque ele é o principal beneficiário da geração de notícias falsas, parte delas de sua própria lavra. A começar pela insistência em dizer que não há corrupção em seu governo. Isso mesmo depois de se ver obrigado a afastar da Saúde o seu querido e obediente general Eduardo Pazuello pela folia das vacinas superfaturadas. Ou dos achaques dos pastores a prefeitos no âmbito do FNDE, que acabou por tornar insustentável o também fiel pastor Milton Ribeiro à frente da Educação.

Nos dois casos, há farta comprovação de que Bolsonaro nada fez para evitar o avanço dos assanhados contra o patrimônio público. Ao contrário: é suspeito de prevaricação no episódio das vacinas e de ser cicerone dos pastores lobistas, apresentados por Ribeiro em uma reunião que, para infelicidade de ambos, foi gravada.

Ainda assim, continua impune em todas as searas. Sob a proteção do fidelíssimo procurador-geral da República, Augusto Aras, e sem ação do Ministério Público Eleitoral.

Passa da hora de dar um basta, ou os “acelera Bolsonaro” – disfarçados ou não em Acelera para Cristo – vão se multiplicar.

Conversações sobre o regime em que queremos viver

Um país que se prepara para uma eleição historicamente decisiva precisa colocar em sua pauta os temas desta conversação. Eles mostram que estamos vivendo uma realidade fantasiosa, à beira do abismo. Uma realidade tem como pano de fundo uma sociedade marcada pela violência estrutural, a desigualdade, o racismo e outras formas de discriminação e violência estatal contra os pobres e os direitos básicos das pessoas

Este não é um momento para mudar de assunto, de dar um tempo, de escrever sobre o começo do outono, sobre as pequenas esperanças e aflições que surgem no meio do caminho. Isto faz bem, mas no meio do caminho cresceu e se ramifica um projeto de poder autoritário bloqueando a passagem do futuro. O projeto bolsonarista de um segundo mandato representa uma ameaça real à democracia brasileira e precisa ser enfrentado. Trata-se uma escolha de vida.


Isto que os juristas chamam nos livros de Estado Constitucional de Direito, com maiúsculas, está sendo desconstruído em nossa frente diante da apatia preocupante dos demais poderes da República e da sociedade. Vale tudo. Do elogio da tortura à prática de corrupção e defesa de formas ditatoriais de governo. As anomalias são abertamente manifestadas, diante da omissão de órgãos dos demais poderes encarregados de opor limites aos abusos do executivo.

Aos poucos, os mecanismos de controle institucional e social sobre o governo Bolsonaro foram afrouxados. Exausta, a sociedade parece insensível e assiste sem reação à desembaraçada movimentação dos fascistas no governo.

Basta uma comparação com os mandados de outros presidentes eleitos no período pós-ditadura, em especial Lula e Dilma, para constatar uma nítida diferença. Bolsonaro reduziu a vigilância institucional sobre seu governo, ampliando largamente seu espaço de tolerância na mídia. Do impeachment há muito nem se fala. Um acerto com o presidente da Câmara encerrou a questão. Não se sabe a que preço.

Seu governo é considerado um fracasso político, econômico e social, com inflação e desemprego em níveis catastróficos. Conduzido por uma gestão primária e corrupta, em que ministros e funcionários são escolhidos por afinidades com a igreja evangélica, a extrema direita e os negócios paralelos. Qualquer outro governante estaria sob pressão mais intensa, conforme prescrito pelas leis de funcionamento da democracia.

O capitão investido de presidente limita-se a brincar e a fazer piadas quando indagado. Uma estatal manobra verbas via orçamento secreto, distribuídas para congressistas do Centrão. E daí? Na semana seguinte, Bolsonaro se reúne com pastores do MEC, pivôs de um escandaloso esquema de negócios dentro do ministério da Educação. São fatos que envolvem pessoalmente o presidente, em seguida colocados sob sigilo. Ato de censura que a Constituição proíbe.

Um país que se prepara para uma eleição historicamente decisiva precisa colocar em sua pauta os temas desta conversação. Eles mostram que estamos vivendo uma realidade fantasiosa, à beira do abismo. Uma realidade tem como pano de fundo uma sociedade marcada pela violência estrutural, a desigualdade, o racismo e outras formas de discriminação e violência estatal contra os pobres e os direitos básicos das pessoas.

Constitui um mistério que essa discussão seja mantida à sombra, encoberta pelas pesadas nuvens de uma ditadura que já passou e se arrastam de novo em nossa direção. É uma conversação necessária que não chega às ruas e à mesa do brasileiro. Não transita pelas esquinas, entra nas escolas, nas academias de pilates, nas antessalas dos teatros, nos botequins.

No entanto, está em jogo nossa escolha fundamental sobre como queremos viver, se sob opressão ou se prezamos o direito à liberdade, ameaçada por um sombrio silêncio a respeito do discurso e das práticas autoritárias da caricatura bisonha de um candidato a ditador fascista.

Um clima de violência política espalha-se sorrateiramente pelos ares e corredores, como um gás que sufoca e encobre a visão. Diante dessa tentativa de normalização da barbárie, o historiador e professor da UFRJ Francisco Carlos Teixeira propõe aos democratas uma saída. Diz ele que nesta eleição não vamos simplesmente eleger o novo presidente da República. “O momento histórico que vivemos é de combate ao fascismo. Não educar a opinião publica e ir de imediato para as trincheiras travar essa luta será um erro fundamental.”

sábado, 16 de abril de 2022

Brasil em 365 dias de Paixão

 


O Almirante sem navio!

O orgulho da Marinha russa, o maior cruzador do mundo, construído no tempo da URSS, navio-almirante da Frota do Mar Negro, "Moskva" de batismo, lá se foi. Ao fundo, como na batalha naval. Ainda flutuou, a tripulação foi evacuada, o almirante e o Estado Maior mudaram para a segunda classe, foi rebocado, mas afundou-se. Moscovo, claro, diz que foi um incêndio e uma explosão a bordo. Os ucranianos, 24 horas antes, anunciaram que tinham atingido o navio com dois mísseis. Vá lá saber-se.


O drama, agora, é pungente: como é que um almirante explica que perdeu o navio? Não deve ser fácil. Não é uma peça que se esqueça num carro, num armário, ou que se deite para um caixote do lixo. Será que o incêndio começou na cozinha, com uma frigideira, a alastrou ao paiol? E por azar pegou fogo a um dos mísseis de cruzeiro, preparadinho para ser lançado contra uma cidade ucraniana? Tudo isto é uma grande chatice. Um imenso aborrecimento. Uma saída vergonhosa. Perder dez tanques não custa nada, nem mesmo dez aviões, mas explodir e afundar um navio-almirante dá muito nas vistas.

Este rombo, numa fase tão crítica do plano Z de Putin – já percorreu todo o abecedário – não anima. Só faltava isto. E logo na Frota do Mar Negro, onde se vivia tranquilamente, a milhas de distância da confusão do sul da Ucrânia. Este almirante, sem navio, vai ser purgado. Não há outra forma de explicar este tiro mortal no "Flagship", sempre rodeado e protegido por uma pequena frota.

A fúria de Putin não tem limites. Está amarelo de raiva. Não sabe o que fazer. Enviar o único porta-aviões que a Rússia tem? Talvez sim, talvez não. Ainda fica sem ele, com mais uma explosão e um incêndio a bordo. Esta guerra é um fracasso. Um desespero. Uma maçada. Só más notícias. Péssimas. Tudo poderia acontecer, menos o "Moskva" ir ao fundo.

Como Jair Messias Bolsonaro ameaça o estado de direito no Brasil


Na última quinta-feira, o jornal Le Monde estampou em manchete de primeira página: “Como Marine Le Pen ameaça o estado de direito”. Le Pen é a candidata da extrema direita que disputará o segundo turno da eleição presidencial francesa com Emmanuel Macron, atual presidente, de centro-direita.

Em declaração recente, Le Pen deixou claro o que pretende fazer se eleita. Ela quer governar “livre do controle constitucional, do Parlamento e de uma parte da Imprensa”. Dito de outra maneira: ignorando a Constituição, o Congresso e a imprensa que não compartilha suas ideias claramente antidemocráticas.

Le Pen, pelo menos, é sincera. Não esconde que jogará fora das quatro linhas da Constituição. Quem votar nela não poderá dizer depois que votou por engano. A eleição na França será sobre a democracia, de resto como a do Brasil em outubro próximo. Quando a imprensa, aqui, estampará isso em suas manchetes?

Jornalistas e o ovo da serpente

Relatórios publicados recentemente por entidades do setor jornalístico (Fenaj, Abraji e Abert) revelam uma explosão de violência contra profissionais da comunicação no Brasil. São insultos, ataques físicos, atentados, assassinatos, censura e restrições à liberdade de imprensa.

A hostilidade contra jornalistas é estimulada pelo presidente da República e seus apoiadores. Bolsonaro já quis dar "porrada" em repórter e mandou jornalistas à "pqp". A truculência mira os profissionais e também o jornalismo como atividade essencial à democracia.

Ele não dá entrevistas coletivas formais e ministérios não se dão ao trabalho de atender à imprensa. É um generalizado "E daí?". Não há o menor respeito e compromisso com a informação de interesse público. O presidente se comunica por redes sociais e veículos patrocinados pelo bolsonarismo.

As milícias digitais fazem o resto. Ao jornalismo profissional resta reverberar as barbaridades exaladas por uma máquina de mentiras e mistificações. Tudo isso é método de sabotagem ao papel da imprensa. Faz parte da estratégia da extrema direita em todo o mundo na escalada de processos autoritários.

Um caso brutal aconteceu na noite desta quinta-feira, em Brasília. O jornalista Gabriel Luiz, da Rede Globo, foi esfaqueado perto de casa. É preciso investigar se a tentativa de assassinato está relacionada ao trabalho jornalístico de Gabriel Luiz. Dias antes do crime, ele havia publicado reportagem mostrando um conflito entre moradores da cidade-satélite de Brazlândia e um clube de tiro ao ar livre. Depois da publicação, o repórter informou que o clube fora fechado por oferecer risco à vizinhança.

Em todo o período democrático, nunca vivemos nada parecido. O ovo da serpente eclodiu. A imprensa não pode repetir em 2022 a fraude cognitiva dos dois "extremos" de 2018. Só há um extremista. Não diferenciá-lo dos demais candidatos contribui para a violência contra nós mesmos e contra toda a sociedade.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Um lamento amazônico

Nos últimos dias de uma nova viagem pela Amazônia, leio que o Facebook derrubou uma rede de perfis falsos que espalhavam fake news sobre a região, composta, entre outros, por dois militares da ativa. Lembrei-me de uma das tarefas básicas para salvar a Amazônia de uma destruição irreversível: convencer as Forças Armadas e obter uma sintonia de todas as energias nacionais nesta gigantesca tarefa.

Creio que é necessário intensificar o debate. A visão de desenvolvimento da Amazônia articulada no governo militar não corresponde à realidade dos fatos. Considerar a floresta um inferno verde e supor que o melhor caminho é construir estradas e levar para ali o que chamamos de civilização é equívoco não só econômico, mas também estratégico.

Passei três semanas falando com empreendedores na floresta. Eles são incontáveis na Amazônia, desde produtores de chocolate até criadores de abelhas, dizimadas pela plantação de soja, sem falar em quem trabalha com o açaí e a castanha, dois produtos vitoriosos inclusive no mercado internacional.


É uma região fabulosa para o turismo, com uma infra ainda precária, e tem 15% das águas do planeta. É mais ou menos como ter, no século passado, 15% das reservas planetárias de petróleo. A diferença é que água é vida.

Atuei mais uma vez com as principais ONGs que operam na região e considero um equívoco supor que estejam a serviço de forças estrangeiras que cobiçam nossas riquezas minerais.

Creio que todos esses mitos estão por trás da rede de fake news composta por militares, embora os dois estivessem atuando, ao que tudo indica, por iniciativa própria, sem consentimento da cúpula.

A única saída é atrair as Forcas Armadas para um debate cordial. A Aeronáutica, por exemplo, colocou Jacareacanga no mapa nacional. Construiu um aeroporto no lugar. O nome de Jacareacanga era o destino dos oficiais rebelados contra o governo, na década de 1950. Hoje, Jacareacanga é um lugar onde se explora ouro. Mas o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade é um dos piores do País. Como defender isso?

As populações ribeirinhas de Santarém e de outros pontos do Pará são contaminadas pelo mercúrio no Rio Tapajós. O ouro enriquece poucos e empobrece e ameaça a saúde de muitos.

Creio que é necessário, também, falar um pouco da retenção de carbono. Conheci uma árvore chamada castanha-de-macaco, da família do jequitibá, que tem 1.400 anos de idade e 47 metros de altura. Pesquisa baseada no seu diâmetro indica que, derrubada, ela vai emitir a mesma quantidade de emissões anuais de 4 mil brasileiros. A dimensão econômica da retenção do carbono é uma decorrência de sua importância ambiental.

Não é possível que todos esses argumentos escapem aos militares, que ainda veem a floresta como centro da cobiça estrangeira e concentram suas críticas nas ONGs que, na verdade, são financiadas por indivíduos no mundo inteiro preocupados com o aquecimento global.

Uma das ONGs, a Renctas, por exemplo, dedica-se ao combate ao tráfico de animais. Parece algo simples, mas não é. Os traficantes exportam micos até em garrafas de café. O movimento descontrolado de animais para a cidade é um perigo. Ao lado do desmatamento, é a grande ameaça de novas epidemias.

Sou favorável a uma exposição transparente do trabalho das ONGs. Mas o governo não as vê da mesma maneira. Missionários, por sua vez, atuam ali de forma descontrolada. Relata-se que o encontro do grupo norte-americano New Tribes Mission pode ter trazido doenças para os zoés. Os índios fugiram para a mata e decidiram não se reproduzir, até ganharem confiança novamente. Só recentemente voltaram a nascer zoés.

A razão da disparidade de tratamento é simples: os missionários representam uma posição cara ao governo Bolsonaro e à cúpula militar: a integração e dissolução dos índios na sociedade abrangente.

A ideia de conversar e convencer parece romântica. Mas os fatos demonstram o contrário. Durante a pandemia, governo e ONGs atuaram em conjunto na Amazônia. Avião e barcos do Greenpeace levaram medicamentos, comida, oxigênio. Da mesma forma, no Pará, a ONG Saúde e Alegria, que é dirigida por um médico, trabalhou intensamente na região numa vasta área banhada pelo Tapajós.

Se uma indiscutível emergência foi capaz de quebrar os preconceitos, por que não rompê-los também por meio do debate? A preservação da Amazônia é uma grande causa planetária e pode representar, simultaneamente, uma importante saída econômica para a região.

Do ponto de vista da defesa nacional, creio ser importante também levar às Forças Armadas os dados da nova realidade: aquecimento global, eventos extremos, elevação do nível dos mares. Sem considerar essa realidade, assim como a da guerra cibernética, o País estará se preparando para situações que aconteceram no passado, mas que não se repetem. Não vamos combater de novo os paraguaios, espero. A propósito, no momento em que o noticiário nacional foca nos gastos do Ministério da Defesa, jornais destacam a compra de uma grande quantidade de Viagra e de remédio contra a calvície.

É preciso superar esses problemas conjunturais e chegar à essência do problema: sem a adesão das Forças Armadas, a Amazônia será destruída com mais rapidez e o desmatamento nos levará a um ponto de não retorno.

Governo Bolsonaro faz do Palácio do Planalto um endereço suspeito

Talvez sob o efeito de estimulantes comprados para turbinar as Forças Armadas, militares que cercam Bolsonaro tiveram a ideia de aconselhá-lo a esconder sua agenda de encontros com dois pastores evangélicos investigados por corrupção.


Se ela se tornasse pública um dia, sempre se poderia dizer que os pastores foram ao Palácio do Planalto visitar ministros, Bolsonaro não. E se a desculpa não soasse convincente, que estiveram com Bolsonaro rapidamente para um alô, uma reza, ou um abraço.

Sob o pretexto de que a segurança pessoal do presidente e dos seus familiares não deveria ser posta em risco, decretar-se-ia o sigilo da agenda por 100 anos. É um recurso controverso, mas seria sustentável. Já fora adotado em ocasiões passadas.

Os artífices de mais uma Operação Tabajara se esqueceram de levar em conta duas coisas. A primeira: em ano eleitoral, danos à imagem do governo podem provocar hemorragia de votos. A segunda: a Constituição em vigor fala em transparência.

Parecer recente da Controladoria-Geral da República diz que a agenda de trabalho do presidente deve ser tornada pública em obediência ao princípio da transparência estabelecido pela Constituição. O povo tem direito de saber o que ele faz. Simples.

Às pressas, deu-se então o dito pelo não dito, algo muito comum neste governo. E assim pôde-se saber que em três anos e três meses da profícua gestão de Bolsonaro, os dois pastores estiveram no Palácio do Planalto, ao todo, 45 vezes.

O pastor Gilmar Silva Santos, recomendado por Bolsonaro ao ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, foi 10 vezes recebido em audiência no Palácio do Planalto. Por Bolsonaro? Por Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil e um dos líderes do Centrão?

Por ora, é um mistério. O pastor Arilton Moura esteve no palácio 35 vezes no mesmo período. Não é pouco. Gilmar e Moura foram acusados por prefeitos de cobrarem propina em troca da liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Há 15 dias, o Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, domínio de Augusto Heleno, o mais vovô dos generais de Bolsonaro, negou informações sobre visitas do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) ao palácio.

Se as paredes do Palácio do Planalto falassem… Mas Heleno dá um jeito para que não falem.

A Ucrânia é aqui

 A cacica Juma Xipaya denunciou na noite de quinta-feira, em vídeo publicado em uma rede social, que a aldeia Karimaa, na Terra Indígena Xipaya, foi invadida por garimpeiros armados. 

É preciso um holofote sobre os segredos de Jair

Jair Bolsonaro gosta de esconder segredos sobre seu governo. Amante confesso de ditaduras e outros regimes autocráticos, o presidente brasileiro resolveu, desde que assumiu, revogar na marra artigos da Constituição sobre a publicidade de atos da administração pública e a Lei de Acesso à Informação.

É preciso um “revogaço” dos atos inconstitucionais que, em vários órgãos, decretam sigilo de até cem anos em toda sorte de informação relevante que, por ser pública, tem de estar acessível.

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo general Augusto Heleno, tem sido a casa das máquinas da tentativa de Bolsonaro de evitar que atos seus, dos filhos e de auxiliares ganhem a luz.

Nada melhor para garantir transparência a um regime opaco como o de Bolsonaro que aumentar a carga dos holofotes. Diante da publicação das justificativas inacreditáveis para a recusa em fornecer ao GLOBO a lista com todas as vezes em que os pastores lobistas do MEC, Gilmar Santos e Arilton Moura, foram ao Planalto, Heleno teve de retroceder e entregar ao jornal aquilo que é do público por lei.


Mas esse não era um episódio isolado de tentativa de sonegar informações. Desde os gastos com cartão de crédito da Presidência, passando pelo cartão de vacina de Bolsonaro (!), a ordem nessa gestão é manter tudo o possível trancafiado nos porões, se der por até cem anos, para que nem a História possa fazer o justo registro de uma das épocas mais pródigas em retrocessos que o país já viveu.

Não é só o gosto pela escuridão que dita esta política. Claramente existe muito a esconder. Agora que o jogo de esconde-esconde acabou, descobrimos que um dos pastores esteve nada menos que 35 vezes no Planalto, enquanto o outro por lá passou em dez ocasiões. Segundo o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, havia um “pedido especial” de Bolsonaro para atender prioritariamente aos dois chefes religiosos na liberação de verbas na pasta.

O acesso regular de Carlos e Jair Renan Bolsonaro ao palácio, que o general Heleno também se prontifica a manter longe da vista do público, não se deve a saudades do papai, mas à necessidade de construir a partir do Planalto a rede da campanha à reeleição dele, no caso do filho Zero Dois, e de tráfico de influência junto a empresários, no caso do Zero Quatro.

Essas informações são relevantes e urgentes, pois delas dependerá uma série de iniciativas para investigações já requeridas — algumas andando a passos lentos, a contragosto do procurador-geral da República, outras simplesmente abafadas, por obra e graça deste ou do Congresso.

A Lei de Acesso à Informação (LAI), um marco na transparência de dados no Brasil, completou dez anos em novembro de 2021. Ela faculta a qualquer cidadão o direito de solicitar informações aos três Poderes e exige destes a prestação ágil e objetiva dessas informações.

Desde que assumiu, Bolsonaro investe de forma calculada na redução da transparência alcançada com esse e outros institutos legais. Em recente viagem presidencial à Rússia e à Hungria, o governo alugou trituradoras de documentos. Para quê? Quem regulamenta o tipo de papéis que podem ser destruídos numa viagem oficial? A opacidade vai se tornando regra, de forma que esses episódios passem batidos.

As desculpas para decretar sigilo de cem anos a informações que têm de estar ao alcance de todos são as mais estapafúrdias. Tanto que nem Heleno conseguiu segurar o rojão.

Cabe ao Supremo julgar de forma sistemática as várias representações que há contra medidas dessa natureza, reiterar o princípio constitucional da publicidade e que a LAI continua em pleno vigor.

Não pode ficar para depois da eleição, pois o escrutínio do eleitor em outubro tem de se dar de posse de todas as informações sobre o que se praticou nos gabinetes do poder com o dinheiro público.

A hipocrisia por trás da estigmatização política

Nos meses que precederam as eleições de 2018, uma das formas de estigmatizar a esquerda era a de apontar em Lula o apreço pela cachaça. Na verdade, entre os operários do ABC, havia e talvez ainda haja a tradição de ir ao boteco próximo da fábrica e tomar uma dose de pinga.

Em certa ocasião antes de eleito vice-presidente, o general Hamilton, já reformado, confessou a um jornalista seu apreço pelas praias do Rio de Janeiro e pelo prazer de uma cervejinha na praia. Havia um tom de carinho pela bebida, tão próprio da função dos diminutivos em nossa língua.

A cerveja e o vinho têm um lugar decisivo na história social neste mundo ocidental de que fazemos parte. Certa vez, levado por uma amiga antropóloga, fui tomar uma cerveja numa cervejaria de aldeia perto de Frankfurt. Naquele lugar, 500 anos antes, Martinho Lutero, um dos fundadores do protestantismo, fora tomar uma cerveja, de que era aficionado.

Quando ainda papa, Bento XVI, em visita à Alemanha, sua terra, encontrou-se com amigos. Aparece numa foto tomando um canecaço de cerveja. Cristo, que era o próprio filho de Deus, transformou o vinho num sacramento, e o pai dele não estranhou nem um pouco. No entanto, em países como o Brasil, muitos hipócritas, que se dizem cristãos, têm opinião oposta à do próprio Deus.

Na Itália, na França, na Espanha e em Portugal, crianças, desde pequenas, são ensinadas a tomar vinho como parte da refeição. Meus pais, imigrantes ibéricos, ensinaram-me e a meu irmão a tomar vinho, com um pouco de água e açúcar, desde antes dos cinco anos de idade, vinho feito em casa.

De modo que discriminar pessoas que seguem essas divinas tradições é manifestação de ignorância e preconceito. Aqui, um gole de cachaça macula para sempre o perfil de políticos de esquerda, nunca os de direita.


Cachaça na boca do trabalhador significa complemento alimentar. Na boca do mandador, significa usurpação cultural. Quando alguém diz que um trabalhador toma cachaça é para acentuar-lhe na identidade pública a suposta inferioridade social de quem trabalha.

Quando um membro da elite diz que toma cachaça é para fazer supor que é tão ousado que tem a coragem democrática de misturar-se com os subalternos e ingerir a bebida forte dos simples e valentes.

Só que rico não toma cachaça, toma aguardente de cana, que é coisa bem diferente, no mais das vezes submetida a sucessivas destilações em alambiques especiais. É daí que vem a “cachaça tipo exportação”, cachaça de rico, avaliada em dólar e não em pobres reais. Seria interessante vê-los tomar cachaça de boteco e continuar de pé.

O conhecedor dos mistérios e ritos com a cachaça relacionados sabe que o gole de pinga é precedido pelo ato de jogar a primeira talagada “para o santo”, atirando-a para o chão, num gesto disfarçado, como um segredo.

Mesmo que a pessoa não saiba, o “santo” é Exu, a entidade do candomblé que abre caminho e que tem precedência em relação a tudo e a todos, negros e brancos enegrecidos pelo trabalho bruto e mal pago. De modo que o gole de cachaça é comparativamente muito pouco em face do tamanho de uma garrafa de cerveja. Se é para pegar pesado, como se diz, é justo começar pelos da cerveja e não pelos da cachaça.

O Exu, na cultura popular brasileira de influência africana, é o ente dissimulado que responde por uma hierarquia do invisível. Pode estar presente onde menos se espera. Há muitos anos, no bairro do Arriá, na Serra das Araras, num 20 de janeiro, fui a uma procissão de roça, de São Sebastião. Mas à frente não ia o pobre santo todo flechado, cujo sofrimento me causava uma pena enorme. Ia bem lá atrás.

À frente, liderando o cortejo, ia São Benedito, santo preto. Perguntei a uma prima o motivo disso. Explicou-lhe que São Benedito tem precedência porque, se não a tiver, pode atrapalhar a participação dos devotos na cerimônia. Ela não sabia, mas São Benedito, ali, representava Exu.

No período colonial havia uma hierarquia na classificação das aguardentes, todas bebidas de uso medicinal, vendidas na botica, isto é, na farmácia. A própria alimentação de branco era considerada medicinal e oferecida ao escravo quando estivesse doente, como o pão de trigo e a carne de frango. As escravas paridas, nas fazendas cujos documentos estudei, imediatamente após o parto, recebiam um “kit”: frango para reforçar a alimentação, cachaça e pano de baeta para a fralda do bebê.

Até hoje, aliás, entre os pobres, em muitos cantos do Brasil, ficar doente ou ficar grávida é um privilégio porque a pessoa passa, temporariamente, a ser tratada como gente. Numa favela de São Paulo conheci uma senhora que engravidava todos os anos para ser tratada como ser humano num hospital público.

Do general George Patton para o general Braga Netto

Ontem almocei com a turma na casa do Franklin Roosevelt. Ele saiu daí há exatos 77 anos. O presidente estava com a mulher, Eleanor, e a namorada, Lucy. Encontrei o general George Marshall, meu chefe durante a Segunda Guerra, e o Eisenhower, comandante das nossas tropas na Europa. Não sei quem trouxe o assunto, mas a conversa tomou um rumo picaresco: o senhor foi ministro da Defesa, e as Forças Armadas brasileiras compraram 35 mil comprimidos de Viagra. Essa droga não existia no meu tempo, apesar de eu nunca ter precisado dela. Aqui onde estamos, ninguém precisa de estimulantes.

O Marshall estava horrorizado. Ele lembrava que o senhor havia usado seu nome durante a pandemia para fazer publicidade de um programa de gastos do governo. Marshall é um grande sujeito, reservado e casto. Imagine que, em 1943, numa visita a Hollywood, um magnata da indústria cinematográfica pediu-lhe que escolhesse uma atriz para acompanhá-lo ao jantar. Ele atravessou a sala e convidou Margaret O’Brien, uma menina de 6 anos. Ninguém faria mexericos à sua custa.

Não me horrorizei, mas achei a compra esquisita. A imensa maioria da tropa não precisa de Viagra. Fico imaginando um general pedindo ao ajudante de ordens ou à moça da farmácia a sua dose de comprimidos. Situação constrangedora. Imaginei o Eisenhower nessa situação. Digo-lhe isso porque é pública a fofoca de seu caso com a motorista. A Kay era uma irlandesa ruiva, ex-modelo, divorciada e linda. Ela nunca reconheceu intimidades horizontais, e acredito na moça.


Eu gostava de matar inimigos e de dizer palavrões. Dei uns tapas num soldado medroso e fui obrigado a pedir desculpas em público. Fanfarrão? Talvez. Quando eu marchava sobre a Alemanha e cheguei às margens do Rio Reno, mijei nele, com gente vendo e fotografando. Se não tivesse feito isso, passaria o resto da vida me lamentando. Afinal, meus blindados desceram na Itália e só não entraram em Berlim porque me impediram.


Não posso julgar o sistema nervoso dos outros. Para mim, a véspera de combate sempre foi coisa excitante. Sei que o general Lee, comandante dos rebeldes na Guerra Civil Americana, teve diarreia durante a Batalha de Gettysburg, em 1863. Oitenta anos depois, em Stalingrado, o mesmo aconteceu ao marechal alemão Von Paulus. Ambos perderam. No Dia D, em junho de 1944, o Eisenhower estava com os olhos congestionados, e seu ouvido zumbia. O colega Omar Bradley comandou o desembarque com o nariz inchado. Meu sistema é outro, a adrenalina revigora-o.

Depois que nossas tropas entraram em Paris, a saúde dos meus soldados preocupava-me, e sugeri que distribuíssem penicilina para as moças dos bordéis. O Eisenhower, furioso, escreveu-me que a ideia era inaceitável, pois poderíamos ficar sem aquele remédio tão importante. Ele queria proteger a demanda; eu, que conheço a vida, queria controlar a oferta. Imagino o que ele diria se lhe propusessem distribuição de Viagra para uma tropa conquistadora, na França.

Eu me renderia ao primeiro sargento alemão antes de deixar registrado na farmácia do regimento que o general Patton mandou buscar sua cota de Viagra.
É dura a vida de um chefe militar formado na cavalaria em tempo de paz. Passei por isso e sofri muito.

Com meus respeitos, despeço-me porque o sargento trouxe o Big Red para minha cavalgada matinal. Cheguei aqui montado nele.

General George S. Patton

Elio Gaspari

Há uma violência totalitária que subsiste e ameaça

Tão execráveis quanto foram os atos de violência praticados pela ditadura é a tentativa insólita de reescrever a sua história para mudar o passado. História recente que ainda nos assusta, a ditadura não acabou. Sobrevive nas pequenas e grandes coisas que se manifestam no nosso cotidiano, que incluem as feridas e as cicatrizes deixadas nos corpos dos que resistiram.

Iniciada com o golpe de Estado de abril de 1964, a ditadura pode não ter existido, é o que dizem oficiais militares das Forças Armadas que se proclamam revisores da historiografia. A marcha dos tanques para depor o presidente Goulart foi relembrada neste 1º de abril com protestos de organizações da sociedade civil e de grupos de ativistas defensores da Memória, da Verdade e da Justiça, que mantêm ativas suas formas de mobilização, para preservar as imagens do terror e condenar sua repetição.

Nenhuma garantia temos, a não ser a resistência, os atos de desobediência civil e as barricadas. Como continuam fazendo esses movimentos defensores da verdade e da memória, que promovem debates, montam acampamentos em frente ao prédio do Dops, produzem documentários e espetáculos teatrais nas universidades. São grupos que se intitulam Coletivos pela Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

A Comissão da UFRJ criou e produziu uma série audiovisual denominada Histórias Incontáveis, envolvendo diversas coletividades atingidas pela repressão. Os episódios são debatidas em público tendo como narradores testemunhas dos acontecimentos. Cada documentário transmite imagens da violência da ditadura contra essas comunidades, sejam de negros, mulheres e povos indígenas.

Nos postos do governo e fora dele, os mesmos inimigos da democracia apontam suas armas e atacam com a desfaçatez de sempre, usando os poderes e os instrumentos de manipulação e coação de que dispõem. Creem que com a violência de apagar seus crimes anteriores, eliminam da Historia a violência real do terrorismo de Estado insepulto, agora em busca de mais um mandato totalitário.


Chefes militares adestrados divulgam ordens do dia virtuosas em que se passam por democratas, escondendo todo o atraso e a sujeira que deixaram. Suprimem as prisões e a tortura, os atos institucionais, os ataques à cultura. Copidescam a longa noite de arbitrariedades, os banimentos e as condenações à prisão perpétua. Nada disso consta das notas forjadas nos antigos quartéis. Os generais querem adulterar a História pela via da intimidação.

Vestidos em seus uniformes de guerra, pensam que podem tudo em nome de Deus, das tropas, das milícias, do evangelho, de congressistas, dos indiferentes, dos financistas e dos corruptos que tomaram o Estado. Ao redor, os novos fascistas surgem em profusão. São fascistas de uma espécie nova, sem sequer consciência do significado do termo. Cafajestes e oportunistas, praticam a ideologia defendida pelo líder, que anuncia a redenção totalitária.

Não se arrependeram dos crimes anteriores porque não foram punidos. Receberam a anistia por crimes classificados como imprescritíveis. Na sinistra ordem do dia dirigida a seus parceiros, o ministro da Defesa diz que “no pós-64 a sociedade brasileira passou por um período de estabilização, crescimento e amadurecimento político, que resultou no restabelecimento da paz e o fortalecimento da democracia”. Bolsonaro e Mourão repetiram o mesmo discurso tortuoso e provocativo de negação da história.

Os jovens que foram ao Lollapalooza e proclamaram não aceitar a censura precisam saber que em outros tempos os jovens se opuseram ao regime de arbítrio. Alguns desapareceram, tiveram seus corpos tragados nos subterrâneos do Estado policial. Foram valentes diante das bestialidades. É sobretudo importante que saibam também que aqueles jovens iam a festivais, que as cartas trocadas de dentro dos cárceres entre os namorados contam uma história de amor, resistência e esperança.

Para que as imagens dessa história verdadeira não sejam esquecidas nem destruídas, será necessário preservar os registros que estão nos museus, nas bibliotecas e nos arquivos dos jornais. Tombar os imóveis que guardam as vozes e os gritos sufocados dos prisioneiros. Abrir em especial para os jovens os sonhos e pesadelos daquele reinado de trevas contido nos 21 anos de duração da ditadura.

A eleição presidencial que se aproxima porá a democracia brasileira frente a frente ao fascismo. Talvez seja a mais importante e decisiva de nossa história. De um lado Lula, de outro Bolsonaro. Com os avanços da história, acabou o tempo em que os regimes totalitários aconteciam em países distantes, longe de nossos olhos, durante guerras e confrontos por território. Não é mais na Itália, Alemanha, Espanha, Tchecoslováquia ou Hungria. O totalitarismo está aqui.

Víamos com temor os filmes de denúncia política de Costa-Gravas, como Z e A Confissão. Livros queimados, traições e perseguições, presos interrogados em calabouços, confissões obtidas sob tortura. Pesquisas feitas até agora indicam que Bolsonaro perderá a eleição. Mas ele passará a faixa presidencial a seu sucessor ou dará um golpe antes, tentando de todas as formas impedir que sejam realizadas? Esta realidade precisa ser enxergada, estamos enfrentando um tempo de barbáries pessoais e coletivas.

2022 veio para acabar com nossas (supostas) certezas?

Para a grande maioria da classe política alemã, a invasão russa da Ucrânia foi um choque. Acreditava-se que as relações econômicas com a Rússia evitariam conflitos desse tipo, não vistos na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mas aconteceu, e trouxe junto graves interrupções nas cadeias de produção e distribuição. Agora temos que repensar toda a estrutura de comércio e cooperação internacional construída durante as últimas décadas.

E há sinais vislumbrando no horizonte de um segundo choque no Ocidente, dessa vez em relação à China. Acreditava-se, como no caso da Rússia, que as interligações econômicas abafariam as diferenças (geo)políticas.

Para a Europa, esse choque de realidade traz um novo espírito de unidade e energiza a cooperação. A União Europeia, como a Otan, também se rejuvenesceu. Teve que repensar as dependências energéticas e seu sistema de defesa.

Mas o ano de 2022 ainda conta com eleições na França e as eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, que podem dar vitórias a Marine Le Pen e aos republicanos americanos, e assim enfraquecer a posição conjunta atual do Ocidente.


E para o Brasil? Quais são as "certezas" que o ano pode "matar"?

Primeiramente, a de que o setor financeiro brasileiro entraria numa época de juros baixos, seguindo o mundo afora. Mas, ao contrário, a Selic está em 11,75% e subindo, entrando em patamares vistos nos governos Dilma e Temer. Claramente, a inflação deriva de um problema na oferta, e não na demanda. Assim, diminuir a demanda ainda mais, através de juros altos, não parece a resposta certa.

E não se esperava isso de um governo cuja política econômica é guiada por um "neoliberal" como Paulo Guedes. Com a Selic alta e as sequelas da guerra na Ucrânia, bem como os efeitos da pandemia, está de volta um real mais forte, surpreendendo a maioria dos especialistas.

Outra surpresa é a força do presidente Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Em parte, deve-se isso ao fracasso da "terceira via", que até agora não conseguiu oferecer uma alternativa viável. Antes, vislumbrei uma divisão em "terços": um terço da população apoiando Bolsonaro, um terço fiel a Lula e o outro terço buscando uma terceira via. Seria esse terceiro terço que decidiria as eleições de outubro.

Parece que tanto a desastrosa resposta do governo à pandemia quanto os atuais problemas econômicos não atingem tanto Bolsonaro como muitos esperavam. Se ele conseguir convencer os eleitores de que são problemas externos e, portanto, não gerados por ele, suas chances de reeleição aumentam significativamente.

Por outro lado, me surpreende a lentidão de a candidatura de Lula se concretizar. Por que tanta hesitação em falar claramente que é candidato, quando todos já sabem que ele é? Até agora, não se vê uma agenda clara de um eventual governo Lula parte 3.

E por que falar abertamente a favor do aborto e da demissão dos militares do governo? A questão do aborto é desnecessária, já que é o Congresso que decide o tema, e não o governo. Em relação aos militares, é óbvio que Lula não quer ter 8 mil fardados em seu governo. Mas por que "ofender" os militares publicamente?

Será que Lula, a velha raposa, o animal político, perdeu seu faro? No fim do ano passado, uma vitória de Lula parecia certa. Agora a corrida parece surpreendentemente aberta.

Nesta semana, o poderoso Bayern de Munique, que forma a espinha dorsal da seleção alemã, foi eliminado da Liga dos Campeões pelo time do Villarreal. Não dá nem para ter certezas no futebol. Teremos surpresa na Copa do Catar, em dezembro? Fecharia este ano tão surpreendente com chave de ouro.