O governo é militar. Sim: abrigou mobília testada como Roberto Dias, que Bolsonaro chegaria a indicar a cargo de direção na Anvisa; só recuando ante a notícia de que assinara contrato suspeito para compra de 10 milhões de kits-teste. Recuou da indicação, sem se acanhar, porém, para mantê-lo como diretor do Departamento de Logística do ministério em que, ora, ora, firmara o convênio acusado.
Assim se manifestou o CEO da Davati, Herman Cárdenas, sobre o que ofertava: “No começo deste ano, fomos procurados pelo nosso representante no Brasil para ajudar a localizar vacinas contra Covid-19. Descobrimos um possível lote de vacinas sendo oferecido por um vendedor privado no exterior”. Diga-se que a ponte entre a descobridora Davati e o governo, antes de Dominguetti entrar na jogada, coubera a outro militar, o coronel Criscuoli, amigo de Bolsonaro e próximo a Eduardo Pazuello e Elcio Franco.
Cárdenas também falou sobre Dominguetti, o desconhecido que, no entanto, operava por sua empresa e que incluíra em e-mail ao ministério: “Nos disseram para incluí-lo, mas ele não estava nos representando. A Davati não tinha conhecimento de quem ele era, então presumimos que era representante deles”.
Deles quem?
Nada disso — essa várzea — impediria que Dominguetti fosse recebido, no dia seguinte, no Ministério da Saúde; nem que, adiante, chegasse ao gabinete do secretário executivo, coronel Elcio Franco.
Para isto serve o rolo Dominguetti/Davati: para mostrar como era fácil alcançar o centro decisório do ministério bastando ter/ser um intermediário, independentemente de haver vacinas a comerciar. Este, o atravessador, o elemento que dispararia o interesse do governo Bolsonaro — não por imunizantes necessariamente, mas por contratos. Era o negócio — a fatura, uma carta de intenções — que fazia a máquina girar. E tudo bem que fosse irreal a oferta, se real fosse a intermediação. Eram necessárias a Precisa, a Belcher, a Davati, até um Dominguetti. O agente que faltara à Pfizer.
Voltamos, pois, ao caso Covaxin. O caso-mãe.
Eis a cronologia, segundo a última versão do Planalto. Em 20 de março, os Mirandas falaram a Bolsonaro sobre traficâncias no Ministério da Saúde relativamente à aquisição dessa vacina. Terceirizando a prevaricação, o presidente mandou Pazuello investigar. Era dia 22. (Não há documento que formalize a ordem.) O general matou no peito. O chefe determinara mesmo que apurasse; que, claro, o ministro da Saúde investigasse seu Ministério da Saúde. Pazuello, por sua vez, terceirizando a terceirização, repassara a demanda a seu braço direito, conforme explicaria, em 29 de junho, à PGR:
— Impende destacar que o secretário executivo Elcio Franco foi responsável pela negociação, contratação e aquisição de todas as vacinas pelo Ministério da Saúde. Por consectário lógico, o agente público com maior expertise para apreciar eventual não conformidade contratual quanto às vacinas era o secretário executivo.
Note-se que o “consectário lógico” de Pazuello é a própria razão para que não fosse Elcio a investigar “eventual não conformidade contratual”. Ou não será uma anomalia — a defesa do vício — estabelecer que o “responsável pela negociação, contratação e aquisição de todas as vacinas” seja o designado a apurar o produto (degenerado, segundo a denúncia) de sua expertise?
Pazuello recebera a ordem — repita-se — em 22 de março. (O mesmo 22 de março em que Regina Célia Silva Oliveira, fiscal do contrato em xeque, autorizaria a abertura do processo de importação da Covaxin, mesmo ante pedido por pagamento antecipado — não previsto — a ser feito a offshore não constante no tratado.) Pazuello seria exonerado no dia seguinte, 23, quando se formalizou demissão anunciada ainda no dia 15. Foi a 24 de março, aliás, já fora da pasta, que associaria a sua queda à falta de “pixulé”; à “crise com liderança política que nós temos hoje, que mandou uma relação pra gente atender e nós não atendemos, e aí você está jurado de morte”. (O mesmo dia 24 em que a Anvisa reclamava, ao ministério, de ser diretamente assediada por e-mails da intermediária Precisa pressionando pelo aval à importação da Covaxin.) A 26 de março, seria Elcio Franco o exonerado, mas não sem que informasse — após três dias de averiguação — estar tudo bem com o contrato; o mesmo suspenso ao fim de junho.
Estará tudo bem até ficar tudo ruim. A crise é também militar. O risco de quando se manda Elcio Franco investigar elcios-francos. Já não dá para culpar apenas “a liderança política que temos hoje” nem cantar somente “se gritar pega Centrão...”.




















