terça-feira, 6 de julho de 2021

A hipótese militar

Uma hipótese para que Bolsonaro, diante da denúncia dos irmãos Miranda, nada tenha feito: que a tradicional corrupção no Ministério da Saúde, operada por esses barros e seus afilhados, tenha sido encorpada pela adesão competitiva de militares ao esquema. Não seria só o Centrão a amarrá-lo.

O governo é militar. Sim: abrigou mobília testada como Roberto Dias, que Bolsonaro chegaria a indicar a cargo de direção na Anvisa; só recuando ante a notícia de que assinara contrato suspeito para compra de 10 milhões de kits-teste. Recuou da indicação, sem se acanhar, porém, para mantê-lo como diretor do Departamento de Logística do ministério em que, ora, ora, firmara o convênio acusado.


Manteve Dias, cheio de padrinhos e alcolumbres. Mas, sendo o governo militar, acrescentar-se-iam à dinâmica tipos como coronel Blanco, aquele que, ex-assessor de Dias até janeiro, abriu uma empresa de representação comercial de medicamentos três dias antes de se sentar à mesa, em 25 de fevereiro, com o ex-chefe e o policial Dominguetti, intermediário do intermediário, para presenciar conversa em que um diretor do Ministério da Saúde teria pedido propina ao atravessador que oferecia inacreditáveis 400 milhões de doses do imunizante AstraZeneca por meio de uma companhia, a Davati, de que procuração não tinha.

Assim se manifestou o CEO da Davati, Herman Cárdenas, sobre o que ofertava: “No começo deste ano, fomos procurados pelo nosso representante no Brasil para ajudar a localizar vacinas contra Covid-19. Descobrimos um possível lote de vacinas sendo oferecido por um vendedor privado no exterior”. Diga-se que a ponte entre a descobridora Davati e o governo, antes de Dominguetti entrar na jogada, coubera a outro militar, o coronel Criscuoli, amigo de Bolsonaro e próximo a Eduardo Pazuello e Elcio Franco.

Cárdenas também falou sobre Dominguetti, o desconhecido que, no entanto, operava por sua empresa e que incluíra em e-mail ao ministério: “Nos disseram para incluí-lo, mas ele não estava nos representando. A Davati não tinha conhecimento de quem ele era, então presumimos que era representante deles”.

Deles quem?

Nada disso — essa várzea — impediria que Dominguetti fosse recebido, no dia seguinte, no Ministério da Saúde; nem que, adiante, chegasse ao gabinete do secretário executivo, coronel Elcio Franco.

Para isto serve o rolo Dominguetti/Davati: para mostrar como era fácil alcançar o centro decisório do ministério bastando ter/ser um intermediário, independentemente de haver vacinas a comerciar. Este, o atravessador, o elemento que dispararia o interesse do governo Bolsonaro — não por imunizantes necessariamente, mas por contratos. Era o negócio — a fatura, uma carta de intenções — que fazia a máquina girar. E tudo bem que fosse irreal a oferta, se real fosse a intermediação. Eram necessárias a Precisa, a Belcher, a Davati, até um Dominguetti. O agente que faltara à Pfizer.

Voltamos, pois, ao caso Covaxin. O caso-mãe.

Eis a cronologia, segundo a última versão do Planalto. Em 20 de março, os Mirandas falaram a Bolsonaro sobre traficâncias no Ministério da Saúde relativamente à aquisição dessa vacina. Terceirizando a prevaricação, o presidente mandou Pazuello investigar. Era dia 22. (Não há documento que formalize a ordem.) O general matou no peito. O chefe determinara mesmo que apurasse; que, claro, o ministro da Saúde investigasse seu Ministério da Saúde. Pazuello, por sua vez, terceirizando a terceirização, repassara a demanda a seu braço direito, conforme explicaria, em 29 de junho, à PGR:

— Impende destacar que o secretário executivo Elcio Franco foi responsável pela negociação, contratação e aquisição de todas as vacinas pelo Ministério da Saúde. Por consectário lógico, o agente público com maior expertise para apreciar eventual não conformidade contratual quanto às vacinas era o secretário executivo.

Note-se que o “consectário lógico” de Pazuello é a própria razão para que não fosse Elcio a investigar “eventual não conformidade contratual”. Ou não será uma anomalia — a defesa do vício — estabelecer que o “responsável pela negociação, contratação e aquisição de todas as vacinas” seja o designado a apurar o produto (degenerado, segundo a denúncia) de sua expertise?

Pazuello recebera a ordem — repita-se — em 22 de março. (O mesmo 22 de março em que Regina Célia Silva Oliveira, fiscal do contrato em xeque, autorizaria a abertura do processo de importação da Covaxin, mesmo ante pedido por pagamento antecipado — não previsto — a ser feito a offshore não constante no tratado.) Pazuello seria exonerado no dia seguinte, 23, quando se formalizou demissão anunciada ainda no dia 15. Foi a 24 de março, aliás, já fora da pasta, que associaria a sua queda à falta de “pixulé”; à “crise com liderança política que nós temos hoje, que mandou uma relação pra gente atender e nós não atendemos, e aí você está jurado de morte”. (O mesmo dia 24 em que a Anvisa reclamava, ao ministério, de ser diretamente assediada por e-mails da intermediária Precisa pressionando pelo aval à importação da Covaxin.) A 26 de março, seria Elcio Franco o exonerado, mas não sem que informasse — após três dias de averiguação — estar tudo bem com o contrato; o mesmo suspenso ao fim de junho.

Estará tudo bem até ficar tudo ruim. A crise é também militar. O risco de quando se manda Elcio Franco investigar elcios-francos. Já não dá para culpar apenas “a liderança política que temos hoje” nem cantar somente “se gritar pega Centrão...”.

A cobrar de Bolsonaro um dia

Se se provar que Jair Bolsonaro, por omissão ou cálculo, foi responsável por cerca de 400 mil das quase 530 mil mortes até agora pela Covid no Brasil, ele entrará para um rol de que talvez se orgulhe: o dos genocidas oficialmente reconhecidos pelos tribunais internacionais. Fará companhia nos livros de história a, entre outros, o ugandense Idi Amin Dada, o iraquiano Saddam Hussein e o sudanês Omar al-Bashir. Já é possível, aliás, que estes, somados, tenham matado menos que Bolsonaro.

Mas a contabilidade de um genocídio comporta outros números a apurar. Há que saber, por exemplo, quantos infartos, tumores e tromboses levaram pessoas a óbito porque elas não tinham condições de sair para exames que talvez os prevenissem ou foi impossível atendê-las nos hospitais superlotados. Quantos tratamentos não foram interrompidos com resultados fatais? Quantos infelizes não agonizaram em casa, sozinhos, e só foram encontrados pelos vizinhos dias depois?


Como avaliar as doenças provocadas pelo estresse oriundo da pandemia? Ao ver Bolsonaro na TV cuspindo na nação, como conter sentimentos de medo, raiva ou tristeza, causadores de depressão, úlceras, inapetência, insônia? Quantos não aumentaram seu consumo doméstico de álcool por terem agora mais tempo e pretexto para beber e menos compromissos que os obrigassem a moderar? Quantos casamentos não terão acabado por súbita apatia sexual?

Sem playground, parquinho ou pracinha para brincar, quantas crianças não estão confinadas em casas ou apartamentos e perdendo oportunidades de socialização em períodos decisivos de sua vida? Por causa das aulas online, quantas não estão sendo submetidas ao suplício de uma câmera que talvez não se sintam à vontade para encarar?

Bolsonaro pode não estar em pessoa por trás do drama ou tragédia de cada brasileiro. Mas, de fato, está. Sua maldição paira sobre tudo isso — e sobre nós.

Falta Lalau pra rir do falso moralismo

Valei-me, Stanislaw Ponte Preta! Há 55 anos, num julho como este, você lançava o primeiro Festival de Besteira que Assola o País, o Febeapá, uma espécie de balanço do golpe dos militares – e eis-me aqui a lamentar sua ausência para contar as histórias bizarras protagonizadas agora pelos súditos daqueles. Todo dia tem uma.

A mais recente é a da ministra (que Deus nos perdoe) da Família. Sempre tão proba, carola a ponto de negar aborto a uma adolescente estuprada, no fim de semana ela se viu denunciada em suposto pecado por ex-colega de igreja, um outro cidadão de bem que, por sua vez, é notório na fé de distribuir fake news.

Foi aí, divino mestre da fina flor dos Ponte Preta, todos moradores da então pacata Boca do Mato, foi aí que me lembrei de sua frase, e de como ela ainda é na medida para identificar o falso moralismo do Brasil de hoje: “O homem sensato, quando soube que todos seus vizinhos eram pessoas exemplares, mudou-se imediatamente para outro bairro”.

Esses “homens exemplares” retomaram o poder e ao estilo daqueles de 1964 – com Deus no coração e um revólver engatilhado embaixo do travesseiro. “E o homem honesto?”, você se perguntava. “É aquele que se vende caro?” Pois é, Lalau, o Centrão manda responder que sim. Os teus três volumes do “Febeapá” colecionaram as asneiras militares entre 1964 e 1967. Parecia aquela seção da revista Readers’ Digest, Piadas de Caserna, mas era tudo verdade. Os generais proibiram o balé Bolshoi para combater o comunismo, permitiram um jogo da seleção contra a Alemanha Oriental “desde que não tivesse cunho político”. Confundiram “A capital”, do Eça, com “O capital”, do Marx, e mandaram recolher o portuga das livrarias.

Eu gosto também da notícia em que um delegado mineiro, “para evitar ofensa às forças armadas”, proibiu no carnaval fantasias em que as mulheres ficassem de pernas de fora. Você, o mui digno criador das Certinhas do Lalau, concluiu sábio: “como se perna de mulher alguma vez tivesse ofendido as armas de alguém”.

Lalau, os cronistas que te sucederam em 2021 estão naturalmente enfurecidos com esses moralistas do sétimo dia que sonham o pesadelo de uma nova ditadura. Na ânsia louca de botar o maluco presidenciário no olho da rua, fecharam os punhos, cerraram fileiras e partiram para o discurso. Os cronistas perderam a leveza. Você cutucava a pança gorda dos que zelavam pelos bons costumes com a facada do humor.

Diante de instituições do tipo “Liga da Decência” e “Associação de Pais de Família”, todas metidas a reformar os hábitos alheios, você era só o mais risonho escárnio. “Quem tem a consciência tranquila não entra para clube nenhum. A consciência é como a vesícula, a gente só se preocupa quando dói.”

No Brasil 2021 os novos homens de bem praticam um cristianismo de mercado, onde quem dá aos pobres acha que eles merecem R$ 150 de auxílio emergencial. Zombam da fé, os insensatos. Já mataram 500 mil pessoas e avisaram que a vida é assim mesmo, vão morrer outras tantas porque, como você debochava, “quem não morre não vê Deus”.

A avacalhação é geral, mente-se como nos tempos do Febeapá original, “com tanta ênfase que até o contrário do que se diz está longe da verdade” – e eu sinto falta de teu humor para documentar o chorrilho de tantas sandices. Locupletam-se todos, ninguém restaura a moralidade. Muito lalau, meu caro, e pouco Lalau, os males do Brasil são.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

O bolsonarismo e sua paixão mórbida pela Bíblia

Na Comissão do Senado que investiga os possíveis crimes cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro por ocasião da pandemia, a Bíblia foi citada várias vezes. São especialmente os defensores de Bolsonaro que a usam como arma de defesa na chamada CPI da Pandemia.


Já o hoje presidente, quando era um simples deputado, defendeu no Congresso que o Estado é laico, mas “o Brasil é cristão”, e acrescentou: “E quem não gostar, pode ir embora”.

Quando foi eleito presidente, levantou a Bíblia nas mãos junto com a Constituição. Em seu lema como chefe de Estado, escolheu a frase bíblica: “a verdade vos libertará” e acrescentou: “Deus acima de tudo”. Essa paixão pela Bíblia do bolsonarismo raiz, além de mórbida, é perigosa, porque está próxima do teocentrismo de alguns países islâmicos envolvidos com o terrorismo. E nada é mais perigoso do que usar a Bíblia como instrumento de violência.

O Governo Bolsonaro já teve um ministro da educação que pretendia substituir os livros didáticos pela Bíblia nas escolas. O que os bolsonaristas ignoram é que é precisamente a Bíblia, e especialmente o Novo Testamento, que condena a mentira, que é um dos elementos mais usados pelo bolsonarismo.

O capitão genocida já nos habituou a usar as crianças para seus ensinamentos a favor da violência e das armas. Já durante sua campanha eleitoral, uma foto se tornou viral e escandalizou. Foi quando, rodeado de seguidores, tomou nos braços uma menina de cinco anos e ensinou-a a fazer o gesto de disparar um revólver com suas mãos inocentes.


É estranha essa paixão e simbolismo mórbidos de usar crianças em gestos relacionados com a violência. Assim foi dias atrás sua violência moral levada a cabo em sua visita ao Rio Grande do Norte, com uma menina e um menino de 10 anos. Pediu a ela, que ia recitar um poema, que tirasse a máscara. Ao garoto, que pegou nos braços, ele mesmo a arrancou em meio às pessoas, expondo ambos ao perigo do contágio. É difícil saber o que esses dois gestos de violência com essas crianças podem representar um dia em suas vidas.

O que está claro é que Bolsonaro usa até com os pequenos seu fascínio pela violência e pela morte. Não por acaso transmitiu aos três genros essa paixão desesperada pelas armas e pela morte. É impressionante, por exemplo, uma foto em que aparecem ele e seus três filhos, Flávio, Eduardo e Carlos, imitando com as mãos o gesto de disparar uma arma enquanto riem às gargalhadas.

Depois do novo escândalo de corrupção das vacinas que está aterrorizando o presidente, é visível seu nervosismo e seu pavor de que possa ser deposto do cargo. Aquele que se apresentou como o Savonarola contra a corrupção, alardeando que não existia em seu Governo, hoje aparece nu sem saber onde se esconder. Sua única defesa é o ataque, que a esta hora soa falso e revela mais sua fraqueza do que sua força.

Nas manifestações de protesto convocadas para este sábado contra Bolsonaro e sua política de morte na gestão da pandemia, deveriam ser destacados os escândalos de corrupção com as vacinas, considerado um crime sem perdão porque custou muitas vidas, bem como o gesto de violência cometido com as crianças a quem tirou as máscaras.

Bolsonaro, que gosta tanto da Bíblia, deveria ser lembrado de que a única vez que Jesus pede a pena de morte é contra aqueles que “escandalizam uma criança”. É uma passagem que também deveria ser destacada nas manifestações. Essa página bíblica em que Jesus pede a pena de morte para quem escandaliza uma criança, explica que seria melhor “que lhe pusessem o pescoço em uma roda de moinho e que o jogassem ao mar”.

Nas manifestações, se voltará a exigir a saída de Bolsonaro do poder por conta dos escândalos de corrupção na compra de vacinas. Há quem peça a pena de prisão. Mas se o crime de corrupção é grave, não é menos grave o gesto violento de arrancar a máscara do rosto de uma criança inocente.

Desde suas origens a Igreja deu importância especial àquela passagem dos Evangelhos canônicos em que Jesus pede a pena de morte para quem escandaliza uma criança. Essa afirmação tão dura deve ter impressionado tanto os primeiros cristãos que aparece em três dos evangelhos canônicos (Mt, 18; Mc, 9 e Lc, 9), sinal de que foi um dos episódios da vida de Jesus que mais chocaram as primeiras comunidades de seus seguidores.

Se não há perdão para os abutres que se alimentam da carniça da corrupção das vacinas, tampouco deve haver para quem que escandaliza e corrompe uma criança. Que nem a CPI nem o Supremo se esqueçam disso, já que o Congresso aparece com os ouvidos surdos ao grito da rua que pede “fora, Bolsonaro, já”.

A lei e a família

O Estado Democrático de Direito exige a investigação de fatos suspeitos e indícios de crime. Ninguém está acima da lei. Para isso, é fundamental que as instituições possam, dentro de suas respectivas competências, funcionar de forma independente.

O governo Bolsonaro atua em sentido contrário à elucidação dos fatos, seja negando qualquer possibilidade de corrupção no governo federal – daí que toda investigação seria por princípio desnecessária –, seja tentando que as instituições operem dentro de uma lógica de lealdade pessoal. O critério já não seria apenas a lei, mas principalmente as relações pessoais.


Tal modo de agir do governo Bolsonaro não é nenhum segredo. Ao explicar no ano passado a escolha que havia feito para o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Bolsonaro foi explícito: “Kassio Nunes já tomou muita tubaína comigo. (…) A questão de amizade é importante, né?”.

Diante desse exercício do poder despudoradamente antirrepublicano, são especialmente relevantes duas recentes decisões do Supremo, determinando o prosseguimento de investigações que envolvem o presidente Jair Bolsonaro e três de seus filhos.

No dia 28 de junho, os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Fabiano Contarato (Rede-ES) e Jorge Kajuru (Podemos-GO) enviaram ao STF notícia-crime pedindo a abertura de inquérito para investigar se o presidente Bolsonaro cometeu crime de prevaricação no caso da negociação da vacina indiana Covaxin. De forma um tanto esquisita, tendo em vista a gravidade dos fatos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) não tomou nenhuma providência. Disse que era preciso esperar o término da CPI da Pandemia.

Diante dessa passividade – muito conveniente, por sinal, aos interesses do Palácio do Planalto –, a ministra Rosa Weber foi contundente. “No desenho das atribuições do Ministério Público, não se vislumbra o papel de espectador das ações dos Poderes da República. Até porque a instauração de Comissão Parlamentar de Inquérito não inviabiliza a apuração simultânea dos mesmos fatos por outros atores investidos de concorrentes atribuições, dentre os quais as autoridades do sistema de justiça criminal.”

Na decisão, a ministra Rosa Weber determinou a reabertura de vista dos autos à PGR. Então, só então, o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, pediu a abertura de inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro a respeito da acusação de prevaricação. Vê-se como é importante insistir na defesa do Direito.

O segundo caso em que o Supremo precisou contornar o desinteresse da PGR em contrariar Jair Bolsonaro refere-se à investigação dos atos antidemocráticos. Apesar de a Polícia Federal ter encontrado indícios de crime, a PGR pediu o arquivamento do Inquérito (INQ) 4.828, que apurava a realização e o patrocínio desses atos.

Em deferência às atribuições do Ministério Público, o ministro Alexandre de Moraes acolheu o pedido da PGR, arquivando o INQ 4.828. No entanto, na mesma decisão, o ministro determinou a abertura de um novo inquérito com o objetivo de investigar grupos que atacam a democracia.

“A análise dos fortes indícios e significativas provas apresentadas pela investigação realizada pela Polícia Federal aponta a existência de uma verdadeira organização criminosa, de forte atuação digital e com núcleos de produção, publicação, financiamento e político absolutamente semelhantes àqueles identificados no Inquérito 4.781, com a nítida finalidade de atentar contra a Democracia e o Estado de Direito”, escreveu Alexandre de Moraes.

Na decisão, os três filhos mais velhos do presidente – Flávio, Carlos e Eduardo – são mencionados na condição de arrolados pela Polícia Federal como possíveis integrantes de organização criminosa destinada a atacar a democracia.

O Estado deve ser capaz de investigar com isenção todos os fatos suspeitos, sejam quais forem os envolvidos. Não existe imunidade ou impunidade por parentesco. Numa República, todo cidadão é responsável perante a lei pelos seus atos, sem discriminações nem privilégios.

Desmatar, matar e roubar

Matar e desmatar são verbos que têm uma forte relação entre si. Na verdade, a violenta tarefa de desmatar predispõe o ser humano a matar.

Uso o verbo desmatar num sentido mais amplo de devastação da natureza. Pensadores alemães, com diferentes trajetórias e visões políticas, chegaram a conclusões semelhantes ao analisar o país no fim da Segunda Guerra.

Martin Heidegger afirmava que, ao transformar o mundo num objeto de inescrupulosa dominação sobre a natureza, o sujeito humano acabava se concebendo como uma coisa entre coisas.

Num outro ponto do espectro ideológico, Theodor Adorno e Max Horkheimer, em “Dialética do esclarecimento”, argumentavam que a violência que se impõe à natureza acaba se voltando contra a própria natureza interna do ser humano.

Ambos queriam explicar, entre outras coisas, as atrocidades do nazismo.


Durante todo este período do governo Bolsonaro, matar e desmatar sempre estiveram no centro de nossa crítica. Animais queimados, árvores derrubadas e índios dizimados e amedrontados por garimpeiros e desmatadores foram apenas um lado da moeda.

O outro lado: mais de meio milhão de mortes parcialmente provocadas por uma política negacionista, agravada por uma absoluta falta de empatia.

Durante quase dois anos, fixamos nossas denúncias no eixo montado pelos verbos matar e desmatar. Não foi inútil, uma vez que quase um terço dos eleitores de Bolsonaro já se mostrou arrependido de sua escolha em 2018.

Creio que um número maior ainda poderia se descolar de sua base de apoio ao se convencer de que desmatar e matar são políticas com que não concordam.

Estávamos nessa toada quando surgiu um outro verbo em nosso escasso vocabulário: roubar.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, caiu por causa de duas robustas investigações que apontam sua cumplicidade com desmatadores ilegais.

Logo em seguida, as denúncias que caem sobre a destruição da natureza e o negacionismo no combate ao coronavírus são associados a suspeitas de corrupção na compra das vacinas indianas.

Todo o paciente e diuturno esforço para descrever matar e desmatar, assim como a profunda relação entre eles, ganha um novo impulso com a aparição da terceira ponta do triângulo: o verbo roubar.

Pessoalmente, considero mais grave matar e desmatar. Mas a entrada do verbo roubar, nas circunstâncias brasileiras, torna a denúncia muito mais compreensível.

É ainda difícil estabelecer conexões entre o desmatamento e a perda da biodiversidade. Poucos se interessam por estarmos saindo da era dos mamíferos para a era da solidão, em que desaparecem as espécies em ritmo alucinante. Poucos se dão conta de que Homo sapiens se transformou no "Homo rapiens”.

Da mesma maneira, foi preciso o depoimento de cientistas na CPI da Covid para definir que poderíamos ter salvado um terço dos mortos se houvesse uma política correta no combate ao coronavírus.

Mas o verbo roubar, quando se trata de governo, é de uma simplicidade cristalina. Todos compreendem o que é pedir US$ 1 por vacina. Ou então, noutro caso, compreendem o que é tentar pagar US$ 45 milhões por um lote de vacinas que não foi entregue.

Ao longo destes anos, seja pela leitura dos jornais, seja pela experiência cotidiana, os brasileiros fizeram um doutorado em corrupção. Conhecem os mecanismos de desvio de grana, as desculpas do tipo “eu não sabia”, manobras para apagar os rastros.

Será por esse caminho, a incrível transparência do verbo roubar, que talvez possamos também fazer justiça aos mortos na pandemia, às arvores derrubadas, aos animais queimados vivos.

Não sei se posso chamar isso de otimismo. Mas é o que as circunstâncias históricas nos oferecem, e temos de nos apegar a elas.

Como dizia Hannah Arendt, a democracia é sempre uma chance de recomeço, gente de origem e trajetórias diferentes pode se encontrar e recomeçar.

P.S.: Errei ao dizer que Inocêncio de Oliveira morreu. Fez uma operação complicada, discurso de despedida dizendo que ia para o céu, mas sobrevive. Perdão.
Fernando Gabeira

Pensamento do Dia

 


O genocídio invisível

Graças ao trabalho da CPI. O Brasil está confirmando o genocídio que vem sendo praticado há mais de um ano, por omissão e ação do Presidente da República e outras autoridades nacionais, provocando a morte de centenas de milhares de brasileiros. Comprova-se o descaso do governo, especialmente do Presidente, na compra de vacinas, na necessidade de distanciamento e uso de máscaras. Além da publicidade em defesa de drogas sem comprovação científica. O conjunto deste comportamento serviu para elevar o número de vítimas ao total de mais de meio milhão e das muitas vítimas que ainda teremos no futuro. A CPI servirá para mostrar ao Brasil e ao Mundo nossa triste versão de genocida.



Mas ainda fica faltando a investigação e a denúncia de uma outra forma de crime contra a humanidade, ao comprometer o futuro do Brasil pelo descuido com a educação de nossas crianças: o genocídio invisível de mentes e inteligências que assassina o futuro da nação.

Nenhum país teve suas crianças por tanto tempo sem aulas presenciais, nem acompanhamento tão deficiente no uso de aulas por vias remotas; sobretudo, em nenhum outro país houve desigualdade tão gritante na educação de suas crianças conforme a renda de suas famílias.


Talvez a atual CPI já não tenha tempo nem motivação para apurar este outro tipo de genocídio perpetrado por dolo contra o Brasil inteiro, decorrente do abandono e irresponsabilidade como está sendo tratada a educação de nossas crianças neste momento da epidemia. Ao deixarem as escolas fechadas por tão longo período, sem as medidas sanitárias necessárias e sem cuidados para utilizar-se as novas tecnologias da informática, estamos condenando 50 milhões de crianças a um atraso em parte irreversível na formação delas. Em consequência, sacrificando o futuro da nação brasileira nos próximos anos, talvez décadas.

A morte de meio milhão de brasileiros adultos é uma tragédia imensa do ponto de vista humanitário, mas o sacrifício da mente de 50 milhões de crianças, toda nossa infância, é uma tragédia de consequências abismais para o futuro do Brasil. Ameaçando a construção de uma sociedade eficiente, justa, sustentável, equilibrada, democrática.

Por esta razão, o Brasil precisa investigar e apurar a dimensão e a responsabilidade, por omissão ou ação, dos que provocaram este assassinato da mente, ao corromper a formação da inteligência brasileira. O Brasil precisa encontrar respostas para perguntas tais como:

– Quais as consequências para o futuro do Brasil diante da tragédia educacional que a epidemia provocou?

– Quais medidas poderiam ter sido tomadas e não foram para reduzir o tamanho desta tragédia?

– Quais as pessoas sobre as quais, por omissão e ação, pesa responsabilidade deste crime contra a nação?.

O que fazer para reduzir a tragédia histórica adiante?
Cristovam Buarque

Longo inverno

A decisão estava tomada: mudar de assunto ao menos neste domingo de inverno, para não agravar ainda mais nosso estoque de dores e perdas, raiva e desalento. Embalado pelo poema “Um pouco sobre a alma”, da maravilhosa Wislawa Szymborska, o artigo de hoje tinha a intenção de trazer leveza. Até porque os versos da Nobel de Literatura, recebidos de véspera de um amigo querido, haviam me trazido acalento. Foi fácil levantar voo e planar por algum tempo com o poema que começa assim: “Às vezes temos uma alma./ Ninguém a tem o tempo todo/ e para sempre. /Dia após dia, /ano após ano/ podem se passar sem ela. / Às vezes ela só se aninha / por mais tempo/ nos enlevos e medos da infância. / Às vezes só no espanto de estarmos velhos…”.

Duro foi despencar do universo rarefeito da poesia, essencial à expressão humana, e voltar a pousar no cotidiano local que a cada dia se apresenta mais desumano — por doentio e doente. O Brasil está doente de Covid-19, cuja origem a ciência ainda não desvendou 100%, mas cuja feroz mortandade, em solo pátrio, já tem responsabilidade e origem escancaradas — o governo Jair Bolsonaro. Como doenças, mesmo as mais perversas, se curam ou são combatidas pela ciência, algum dia os sobreviventes do horror atual haverão de respirar melhor e sem medo, com o resto do mundo.

Já a violência nacional não é doença. É, sim, doentia, cria da própria sociedade e não curável pela ciência. Continuará a ser estrutural até que gerações futuras queiram mudar a história do país.


A semana começou em cavalgada. O desfecho da caçada ao assassino em série Lázaro Barbosa, com toques de “Götterdämmerung” tupiniquim, foi o retrato da ostentação policial do Brasil atual. Ao faroeste cinematográfico somou-se até mesmo uma deputada federal de 72 anos, Magda Mofatto (PL-GO), que apareceu nas redes sociais a bordo de um helicóptero, como se rumasse à caça ao bandido. Tinha um fuzil de uso militar em punho e envergava uniforme de campanha. O simulacro fez sucesso.

Para os moradores de Goiás e do Distrito Federal, onde o assassino múltiplo disseminara mortes e pânico ao longo de 20 dias, poder aplaudir a ação policial e festejar o fim do medo foi mais do que compreensível. Já a celebração de vitória por parte do presidente da República, via Twitter e em maiúsculas —“LÁZARO: CPF CANCELADO” —, ilustra a necropolítica miliciana do chefe da nação. Segundo registro da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás, Lázaro foi alvejado por 115 disparos: 58 com pistola Sig Sauer, 32 com pistola Taurus, 25 com fuzil Bushmaster.

Lázaro era um criminoso de alta periculosidade, talvez até psicótico. Era dever do Estado capturá-lo a todo custo. De preferência vivo, para melhor explorar suas eventuais conexões e rastros. Mas ainda não foi desta vez. Sempre foi e continua a ser raríssima no Brasil a captura com vida de bandidos com a cabeça a prêmio — seja porque morto não fala, seja porque matar é mais fácil, e rajadas são mais midiáticas. O método acabou se tornando prática corrente também no abate de pés de chinelo do crime, ou meros “suspeitos”, ou ainda infelizes moradores pretos, pardos e/ou pobres no caminho de operações policiais.

Nos últimos tempos, instituições criadas para proteger o cidadão de ameaças externas (Forças Armadas) e internas (Polícias Militares) têm dado sinais de desvio de função mais acentuado. À medida que Bolsonaro se dedica a seduzir o baixo clero do Exército, este pode vir a sentir algum compadrio com policiais militares. E, à medida que as PMs estaduais se sabem apoiadas pelo capitão de Brasília, mais elas podem vir a se aproximar de práticas milicianas. Quanto aos milicianos de raiz, estes já vivem no país que gostam de chamar de seu. E servem de modelo oculto a “cidadãos de bem” armados, apreciadores da violência.

A semana iniciada com o esperado desfecho para o matador em Goiás se encerra numa calçada de São Paulo com o exercício casual do pequeno poder policial. Na quinta-feira, um rapaz e outras dez pessoas esquentavam mãos e corpo em torno de uma fogueira no estacionamento de um varejão da capital. O frio já havia feito 12 mortos por hipotermia no estado, segundo o Movimento Estadual da População em Situação de Rua. Chega uma viatura de polícia, o grupo se dispersa, mas o rapaz de 18 anos não conseguiu escapulir. Foi agredido a pauladas de ripas de madeira e socos pelos PMs, e sua bicicleta foi jogada em cima da fogueira. A cena foi registrada em celular, e a vítima apresentou queixa na delegacia.

Já, já o Brasil completará 200 anos. Quantos invernos mais de violência doentia?

Exército marcha com Pazuello em ação por improbidade por desastres na Saúde

Ao assegurar a impunidade a Eduardo Pazuello, livrando-o das sanções disciplinares por ter participado de comício ao lado de Bolsonaro, o Exército meteu-se numa encrenca de mão dupla. Abriu as portas dos seus quarteis para a política. E marchou junto com Pazuello para dentro dos rolos judiciais que o general colecionou na sua passagem pelo Ministério da Saúde.

Ninguém disse ainda, talvez por pena. Mas o Exército faz companhia a Pazuello na ação por improbidade administrativa que o Ministério Público Federal protocolou contra o general na Justiça Federal de Brasília. Subscrita por oito procuradores da República, a peça corre em segredo de Justiça. Nela, Pazuello é acusado de produzir no Ministério da Saúde um desastre sanitário orçado em R$ 122 milhões..

Parte do Estado-Maior do Exército alega que Pazuello cumpriu missão civil na Saúde. Lorota. O argumento era de vidro, pois Pazuello promoveu uma ocupação militar no Ministério da Saúde como oficial da ativa, não como paisano.

A tese trincou quando o general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, enviou para o arquivo o processo disciplinar que abrira contra Pazuello. O raciocínio estilhaçou-se na hora em que a blindagem de Pazuello ganhou o selo de segredo de estado, com prazo de validade de cem anos.

Ao enumerar os fiascos produzidos por Pazuello na Saúde, os procuradores sustentam que o general teve "comportamento doloso ilícito." Significa dizer que tinha noção dos danos que causou. Empilharam-se os erros do general.

Por exemplo: retardou a compra de vacinas anti-Covid, adotou um "tratamento precoce" cloroquínico, negligenciou a política de testagem, absteve-se de coordenar a compra de remédios e insumos vitais.

A certa altura, os procuradores anotaram que Pazuello tomou decisões sem critérios técnicos e "por força de influências externas" (pode me chamar de Bolsonaro. Ou de gabinete paralelo). Aos pouquinhos, o general vai descobrindo que, ao adotar o lema segundo o qual "um manda e o outro obedece", aproximou-se da beirada da Terra plana que dá para um precipício judicial..

Nesse contexto, o Exército marcha ao lado de Pazuello como um asterisco incapaz de deter a infecção que Bolsonaro impôs aos quartéis ao converter Pazuello num general de palanque. De repente, os bordões do "meu Exército" e das "minhas Forças Armadas" ganharam concretude.

Não matarás, não roubarás

A opção pela burrice e atraso, no Brasil, é escolha ideológica. Não é acaso ou acidente. Como justificativa, esconde-se atrás de preconceitos religiosos (sempre o cristianismo de oportunidade), da invenção de inimigos imaginários (ah, os comunistas) e de um astucioso patriotismo (de resultados).

Num registro mais amedrontador, uma vaga ameaça à família dó-ré-mi também é usada como pretexto. Cazuza, o grande poeta brasileiro da minha geração, ainda nos anos 1980, alertava os suspeitos de sempre: suas ideias não correspondem aos fatos. Certamente, Bia Kicis está informada de quantas famílias o Bozo montou nas últimas décadas.

Atrás de um patriota de galocha e de um tiozão da moto, sempre se esconde um miliciano digital.

Desculpe, eu sei, é uma análise sofisticada para flagrar gente tosca. Mas, entre uma motociata e uma comunhão sem confissão, os bons cérebros escapam do Brasil, aos borbotões, em reação à dilapidação empreendida pelos bozofrênicos.

Além dos mais de 520 mil mortos, o Brasil enfrenta a tragédia de uma diáspora de pessoas bem preparadas e um massacre estruturado à educação. Se antes eram solteiros com ensino superior a deixar o país, agora são mestres, doutores, casais e até famílias inteiras. Em relação a 2013, apenas em 2019, mais que o dobro (alta de 125%) de pessoas resolveu pular fora definitivamente do barco brasileiro. O número é bem maior se pensarmos na quantidade daqueles que tentaram entrar ilegalmente somente nos Estados Unidos.

Pelo jeito, só nos sobrarão o capacho do Lira, o murista do Pacheco e as falsas orações (com trilha sonora) da Zambelli. Ah, também os negócios imobiliários do Flávio Bolsonaro.


Não é só na desesperança do presente que opera a ação maléfica do bozonazismo. Na educação ocorre o desmonte do futuro. Discutem-se ideias bozofrênicas como a escola sem partido, o homeschooling e o conteúdo das questões do Enem.

Imagino o Malafaia e o Bozo, secundados pelo André Mendonça e pelo Milton Ribeiro, criando as perguntas das próximas provas.

— Ô Malafa, precisamos de uma pergunta sobre a Idade Média —diz o Bozo.

O sempre serviçal do André Mendonça se antecipa e oferece:

>— Que tal “quais foram as últimas palavras de Cristo?”

O lobista evangélico Milton Ribeiro corre com sua sugestão sobre a Idade Média:

— Em qual ano o catolicismo se tornou religião oficial em Roma?

— Mas não são questões ao tempo da Idade Média? —pergunta o garçom que serve o café.

— Deixe de ser ímpio, moleque —ralha Malafa. —Cristo não tem idade.

— Deus seja louvado — grunhe o Bozo.

Como se percebe, nossos problemas acabaram. O homeschooling, outra obsessão tamanha, como o voto impresso e o amor hétero, paira como ameaça às melhores práticas educacionais. Basta imaginar como o ogro da Fundação Palmares distribuiria seu conhecimento em seu sacrossanto ambiente doméstico.

— Pai, Jesus era comunista?

— Tá louco, moleque?

— Então, por que ele dizia que somos todos iguais?

— Sei lá.

—Ele também disse para dividirmos nosso pão…

— Bem, isso é bem complexo para a sua idade —disfarça o ogro.

— Pai, o tio Malafaia é comunista?

— Nada disso, ele é cristão.

— E Cristo não era comunista?

— Por hoje chega, todos para a cama —vocifera o educador bozonarista.

Parece brincadeira, ilação religiosa, mas é sério. Porque é estratégia. Cazuza refletiu à sua maneira e com licença poética: “Transformam um país inteiro num puteiro/Pois assim se ganha mais dinheiro”. Ele já prenunciava o manjaléu da Fundação Palmares.

Em prova viva do axioma posto por Pedro Malan (no Brasil, até o passado é incerto), o cuca da Fundação Palmares denunciou a doação de títulos de autores supostamente comunistas, pedófilos e perigosos à família. E anunciou títulos de alguns autores negros. Uau. Entre eles, Luís Gama, Cruz e Souza e Carolina de Jesus.

De novo, mostrou que estava brincando de amarelinha ou tira a meleca no dia em que o professor deu a aula sobre o movimento abolicionista. Para ter ideia, estivesse vivo, Luís Gama consideraria Freixo um tipo de direita. E o que achar do simbolista Cruz e Sousa, autor de “O emparedado”: “…acordando chamas mortas, fazendo viver ilusões e cadáveres… pela condenação do Pensamento, dentro de um báratro monstruoso de leis e preceitos obsoletos… Tu és dos de Cam, mal dito, réprobo, anatematizado!… Como se tu fosses das raças de ouro e da aurora, se viesses dos arianos, depurado por todas as civilizações”.

— Pai, o que é báratro?
Miguel De Almeida

domingo, 4 de julho de 2021

Segredos de Maringá: Xadrez, dinheiro, Centrão e Barros

O escândalo da compra superfaturada da vacina da Covaxin, que explodiu semana passada na CPI da Covid, no Senado, nos depoimentos dos irmãos Miranda, e segue causando estragos – depois de passar por caminhos suspeitos que começam nos labirintos de Nova Delhi, entram por empresas fictícias ou de fachadas, em paraísos fiscais e intermediários cabulosos no Brasil, tomam gabinetes no Ministério da Saúde, até cair no colo do presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto – joga foco também sobre a cidade paranaense de Maringá. O país descobre que o bucólico e progressista burgo sulista é berço político do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, manda chuva nacional do Centrão e pivô de um dos mais maléficos casos de corrupção nos intestinos do Governo Federal, por envolver desvios vultosos de dinheiro da saúde pública, em tempo sombrio de pandemia, que já matou mais de 520 mil brasileiros.


Maringá é bem mais do que se mostra ao visitante em seu tradicional city-tour: A cidade planejada, super arborizada, detentora de um dos melhores índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Além disso, também é pólo submerso de transações empresariais, políticas e partidárias, de gente que atua nas sombras e opera tenebrosas negociatas, contratos e acordos com a marca do Centrão, principal grupo de sustentação atual do governo. Sempre com antena ligada para captar novos sinais do vento a favor, para aderir ao poderoso da vez em Brasília. É nos desvãos deste espaço cinzento – que se abrem ou se fecham negócios envolvendo o poder público em mistura espúria com interesses privados (a exemplo da compra da vacina da Covaxin) – que atua o chefe maior do grupo, filiado ao PP (uma das “grifes” políticas mais notórias da corrupção nacional nas últimas décadas), o deputado Barros, que todos os sinais e revelações conhecidos até aqui apontam como envolvido até o pescoço nesta escandalosa negociata. Segundo revelou o deputado Luiz Miranda (DEM-DF), que levou dados do malfeito ao presidente em seu gabinete, e ouviu dele: “Isso é coisa do Barros, esse…”.

O estuário da política e dos negócios de Ricardo Barros, sabe-se agora, é também a cidade onde o líder do governo cuida de seu bunker dos acordos e jogadas. Aí, ele mantém um tabuleiro de xadrez, de pedras em mármore verdes e brancas, cores da bandeira do Paraná, sobre a mesa de reuniões de seu escritório político, no centro histórico de Maringá, principal reduto do parlamentar, que já foi prefeito do lugar, transformado em feudo de seus familiares, sócios, cabos eleitorais e amigos.

“As peças estão sempre arrumadas como que aguardando o movimento inicial, e servem de testemunhas silenciosas das reuniões deste líder do Centrão com prefeitos, empresários, parlamentares e altos funcionários públicos, como aparece em fotos nas redes sociais”, relata o atento e competente repórter Gil Alessi, em reportagem do jornal espanhol El País. Tem mais, muito mais, mas ficamos por aqui, por enquanto, até por questão de espaço. Semana que vem está marcado o depoimento de Ricardo Barros na CPI, aguardado com grande expectativa de revelações por alguns, e evidente nervosismo e temor por outros, instalados no núcleo do poder federal. Quem sabe a nação ficará sabendo a função e significado de cada peça do tabuleiro em Maringá. A conferir.

A milícia da Covid informa:

A correnteza encontra o seu leito natural. Espera de dois anos e meio, só toleráveis pelo acúmulo de certezas e comprovações que conduzem a correnteza para percursos legítimos, menos incivilizados, convincentes —o que golpes não oferecem.

"As instituições estão funcionando", diziam, e não era verdade. Por si mesmas, instituições não funcionam, nem se imobilizam. O que as move e lhes dá funcionamento coerente com seus meios e fins, ou os contrariam, são os seus ocupantes por direito ou privilégio.

A ministra Rosa Weber —uma garantia de integridade— submete Jair Bolsonaro à investigação que pode refazer a dignidade nacional. O Supremo Tribunal Federal, por maioria dos ministros, está reconhecendo as suas responsabilidades e dando-lhes vida. Chama o procurador-geral da República a comportamento decente, conduz com eficácia inquéritos sobre manifestações antidemocráticas, redes de desinformação/difamação e seus financiadores no empresariado.


Contribui para o andamento da CPI da Covid em passos legais. Faz pressentir a disposição de examinar, para valer, a conduta do ocupante da Presidência. Tudo à parte do aparente procurador-geral.

Augusto Aras desfez-se cedo de sua autoridade moral. É exemplar da dependência que o funcionamento das instituições tem. Seu desempenho é faccioso e imoral. Característica que o candidata a novo mandato para mais serviços desavergonhados a Bolsonaro e ao bolsonarismo. Se reconduzido, um movimento de resistência dos procuradores será tão necessário quanto justificado. E exigido pelos fatos como esperado pela população não fanatizada.

Gente de esquerda e gente de direita experimenta o entendimento no repúdio a Bolsonaro. Na Câmara, 11 partidos enfrentam a chantagem da adoção de voto impresso ou convulsão.

No Senado, até agora a CPI é o mais importante acontecimento não natural desde a posse de Bolsonaro. Comparável, com qualidade inversa, só à entrega do Ministério da Saúde à execução de meio milhão (por ora) de vidas brasileiras indefesas. Os fatos em apuração pela CPI foram agora levados ao encontro de sua origem e fins. Da verdade por trás de Bolsonaro: a corrupção.

O crime de desmatamento e o contrabando de madeira movem muito dinheiro, aqui e fora. Bolsonaro veio proporcionar-lhes proteção contra ações repressivas. De graça? O garimpo ilegal e a extração clandestina de minerais preciosos movem fortunas imensas. Bolsonaro veio lhes assegurar o afastamento dos obstáculos legais e a tranquila exploração em reservas indígenas. De graça? Com o controle dos recursos policiais e militares, completado pela ação corrosiva de marginais como Ricardo Salles, o projeto Bolsonaro não foi investigado e exposto.

A CPI inaugura a rota: descobre a milícia da Covid. A rede de patifarias que recusou vacinas e esbanjou dinheiro público em cloroquina, vista como expressão do negacionismo ideológico-religioso, teve a mesma sede e as principais figuras da gigantesca falcatrua construída, e já engatilhada, para compra de vacina Covaxin com o mais alto custo por dose.

Bolsonaro ainda diz que "não pode saber o que se passa dentro dos ministérios". No dia 22 de abril de 2020, naquela pornológica reunião ministerial, Bolsonaro gabou-se não só de ter um serviço de informação próprio, como de ser muito superior aos serviços oficiais. Em eventual falha desse FBI particular, saberia da trama o filho Flávio, de comprovada ligação com operadores da falcatrua bilionária. E, para dispensar mais citações indiciais, o próprio Bolsonaro documentou sua presença no que chamou de rolo. É bem clara a carta que mandou ao premiê da Índia para apressar a compra --já apressada aqui, com burlas também na tramitação e nas exigências técnicas.

Era um general. Acusado de incompetência e algumas condutas culposas. Já são o general, um tenente-coronel e dois coronéis no front do caso Covaxin. Sem contar os também militares que tomaram providências no Planalto, com o mesmo fim. E há mais no Ministério da Saúde.

Os militares que forçaram o resultado eleitoral e os do governo já podem iniciar a contabilidade do que o Exército não ganhou e o que perdeu, identificado, por intermédio deles, com Bolsonaro e seus feitos.

Mais um crime de Bolsonaro

Jair Bolsonaro prevaricou. Sabia das irregularidades envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin pelo menos desde o dia 20 de março, talvez antes. Mas só depois de um vexaminoso puxão de orelha da ministra do STF Rosa Weber, a Procuradoria-Geral da República se coçou e pediu a abertura de inquérito contra o presidente. Preferia não fazê-lo, repetindo a omissão deliberada que tem caracterizado sua atuação desde que Augusto Aras chegou por lá.

No avesso das atribuições do Ministério Público – “defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis” -, a PGR tem se primado pelas vistas grossas a qualquer delito que passe perto de Bolsonaro, sua prole e os queridinhos do governo. Foi assim diante da participação do presidente em atos antidemocráticos e na investigação das fake news que militantes, o próprio Bolsonaro e seus zeros espalham. Esfriou as investigações sobre o envolvimento do ex-ministro do Meio-Ambiente Ricardo Salles com madeireiros e finge desconhecer as pregações diárias contra a legitimidade do voto e as ameaças de ruptura caso a cédula não seja impressa. Não move um dedo para impedir que Bolsonaro continue na sua cruzada em favor da disseminação do vírus.

A Procuradoria-Geral já havia sido instada a se pronunciar quanto à conduta do presidente na pandemia, sua pregação contra o distanciamento social e o uso de máscaras, incentivando, com seu comportamento pessoal, práticas que provocam danos coletivos, contágio e até morte. Negou-se a dar qualquer providência. Nada fez também quanto ao famigerado tratamento precoce, comprovadamente ineficaz, mas com o condão de levar milhares de brasileiros a crer na falsa cura e se infectar.


Diante de mais de meio milhão de mortes, a instituição, se séria fosse, nem precisaria ter motivação externa – e foram várias, incluindo uma por genocídio. Com fartura de provas, a começar pelas falas do presidente, deveria ter a iniciativa de abrir procedimentos. Mas optou por defender “Bolsonaro versus o Povo”, invertendo a lógica que deveria inspirar o Ministério Público.

Pressionada por Rosa Weber, a PGR voltou atrás na decisão inicial de só investigar o presidente no caso Covaxin depois da conclusão da CPI da Pandemia. Na sexta-feira, se viu forçada a solicitar ao STF a abertura de inquérito contra Bolsonaro, obtendo deferimento no mesmo dia. A prontidão da ministra não surpreende, vista a marca de diligência que construiu ao longo dos anos. Já a reação célere da PGR causa estranheza pelo histórico de inação diante de casos envolvendo o presidente.

A rapidez talvez se explique pela certeza de que esse inquérito pode empacar como o outro que corre no STF contra Bolsonaro – e pelos mesmos motivos. No ano passado, o presidente foi denunciado pela tentativa de intervir na Polícia Federal, ato exposto em áudio e vídeo da reunião ministerial de abril, a mesma da passagem da boiada defendida por Salles. A ação está parada porque o Supremo ainda não decidiu se o presidente tem de depor presencialmente ou se a ele é dada a deferência de fazê-lo por escrito. Mirando nesse (mau) exemplo, a PGR já adiantou que pretende ouvir Bolsonaro. Terá, portanto, de aguardar o pronunciamento do STF, previsto para setembro, para saber se de viva voz ou não. Um tic-tac de 90 dias que coincide com o prazo auto-estabelecido pela Procuradoria para a apuração dos fatos.

Mas o pior está por vir. Para além da prevaricação, a abertura de inquéritos sobre o que a CPI já colheu – opção do governo Bolsonaro pela imunidade de rebanho via contaminação em massa (mesmo ao custo de milhares de vidas), estímulo ao uso de medicamentos ineficazes, demonização do isolamento social e da máscara, atraso na aquisição de vacinas – também depende da turma de Aras. Ou de uma ação política poderosa capaz de fazer o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) dar sequência a pelo menos um dos 120 pedidos de impedimento que dormem na sua gaveta.

Difícil imaginar que Aras, cuja indicação para o STF ou para renovar o mandato fala mais alto, muito menos Lira, chefe da trupe do “quanto mais o governo se enrolar mais caro vamos cobrar”, farão algo em favor do país. Para qualquer lado que se olhe, só as ruas, na direção do impeachment ou das urnas, podem restabelecer “O Povo versus Bolsonaro”.

Pensamento do Dia

 


Uma milícia de picaretas

A vacina com pixuleco de um dólar humilha um país onde já morreram mais de 500 mil pessoas e, entre os vivos, há 14,8 milhões de desempregados. Passados dois anos da promessa de uma “nova política” com Jair Bolsonaro, chegou-se a algo muito pior. Sabia-se que as tais “bancadas temáticas” que dariam suporte ao governo eram uma fantasia, prima do nióbio, do grafeno e da cloroquina. Tudo acabou nas mãos do Centrão, reforçado pelo primarismo das milícias.

Nenhum dos picaretas que atacou a bolsa da Viúva equiparou-se ao cabo da PM mineira Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Ele denunciou que Roberto Ferreira Dias, o então diretor de logística do Ministério da Saúde, pediu-lhe um pixuleco de um dólar para cada unidade da vacina da Oxford/AstraZeneca numa encomenda de 400 milhões de unidades.

A um dólar por vacina o pixuleco seria de 400 milhões de dólares. Isso não existe, como não existe um rato de 400 toneladas. Na tarde de quinta-feira o senador Tasso Jereissati, com sua experiência de empresário bem-sucedido, demonstrou que o laboratório AstraZeneca não teria como entrar numa operação desse tipo. Se isso fosse pouco, a empresa nunca teria capacidade para fornecer 400 milhões de vacinas a quem quer que seja.


Num governo normal, o cabo Dominguetti seria desqualificado como um simples Napoleão de hospício, mas o de Bolsonaro não é um governo normal. Nele, os Napoleões internam o diretor do manicômio.

Em dezembro do ano passado, o coronel Elcio Franco, com seu brochinho de punhal ensanguentado, disse que o governador João Doria sonhava acordado ao prometer vacinas para janeiro: “Não brinque com a esperança de milhares de brasileiros. Não venda sonhos”. No dia 17 de janeiro a enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose da vacina CoronaVac, aquela que Bolsonaro garantia que não seria comprada.

Um mês depois da vacinação de Mônica Calazans, o cabo Dominguetti encontrou-se com Dias num restaurante de Brasília. Ele estava acompanhado pelo seu assessor, o coronel da reserva Marcelo Blanco, um dos 21 militares da ativa e da reserva que escoltavam o general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.

Em março, ao deixar o cargo, o próprio Pazuello denunciou “a liderança política que nós temos hoje”. Atribuiu sua queda a um grupo de “oito atores (...) um grupo interno nosso” que “tentou empurrar uma pseudonota técnica que nos colocaria em extrema vulnerabilidade, querendo que aquele medicamento, a partir dali, estivesse com critérios técnicos do ministério, e ele (o medicamento) não tinha”.

O general deixou o ministério, subiu no carro de som de Bolsonaro e hoje está no Palácio do Planalto. Nunca explicou quem eram os oito, nem qual era o medicamento.

Três dias antes do jantar com o cabo Dominguetti, o tenente-coronel Blanco, assessor do então diretor de logística do Ministério da Saúde, abriu a empresa Valorem Consultoria em Gestão Empresarial. Já o diretor Roberto Dias estava com a cabeça a prêmio, pois Pazuello havia decidido demiti-lo, mas o senador Davi Alcolumbre segurou a lâmina na Casa Civil da Presidência. A mesma lâmina que meses depois cortaria o pescoço da médica infectologista Luana Araújo, nomeada pelo ministro Marcelo Queiroga para a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19. Ela não merecia a confiança do governo, pois condenara o uso de drogas milagrosas.

O cabo Dominguetti operou a compra de vacinas vindo do andar de baixo.

Pelo andar de cima conhecem-se duas operações. Uma veio da autodeclarada Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas. Ela trabalhava com a Covaxin indiana, representada por Francisco Maximiano, o Max.

No braço da Oxford/AstraZeneca, que reiteraria nada ter a ver com a proposta, notáveis operadores tentaram, sem sucesso, formar um consórcio de empresas que trariam ao Brasil 33 milhões de vacinas. Como no caso dos 400 milhões de Dominguetti, ofereciam uma produção que a empresa não seria capaz de produzir.

Essa operação teve a simpatia de Fabio Wajngarten, então secretário de Comunicação do governo, do diretor jurídico do grupo Gerdau e do doutor Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo. Skaf desmentiu que tivesse perfilhado a proposta e ela sumiu na orfandade.

A dose da AstraZeneca do cabo custaria US$ 3,5 (sem contar o dólar do pixuleco). A do andar de cima sairia por US$ 23,79. Ainda não se conhece ainda a identidade do operador dessa proposta.

Enquanto toda sorte de espertalhões que tentavam atravessar contratos de vacinas e os çábios do governo obstruíam negociações com a Pfizer, foi o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, quem desemperrou as conversas.

Não disse uma palavra antes, durante, nem depois.

Os bárbaros mandam notícias

A primeira coisa que ouvi foi que ela era louca. Comportava-se como louca. Fiquei pensando, doidice faz isso? Quem tem alteração nas faculdades mentais age assim? A noção compartilhada por muitos é que, se alguém tem atitude desarrazoada, a bradar desaforos, sem respeito pelos outros, é sinal de loucura.

Louco ou louca não fica por aí agredindo a dignidade das pessoas, tentando desqualificar, humilhar o próximo. Foi o caso daquela mulher. De louca, não tinha nada. Doente mental não é racista. Quem se comporta com essa característica é criminoso, perigoso, inviável. Não podemos negar nem relativizar as questões: aquela mulher era – e continua sendo – um exemplar da barbárie dos nossos dias.

Na manhã de quarta-feira, uma senhora que se auto-identificou aos gritos, mas cujo nome não será citado, entrou descontrolada numa agência bancária de João Pessoa (PB), dizendo ofensas racistas contra um funcionário. Ela se postou diante da câmera da sala e esbravejou coisas indescritíveis, chocantes de ouvir. E espumava:

– Eu sou a maior racista do planeta. Tenho orgulho de ser!

Ela se enxerga como racista, declara-se como racista e tem orgulho de ser racista. Ao ser contida por seguranças, a não-louca-porém-criminosa foi conduzida à delegacia, juntamente com a pessoa que recebeu as ofensas. Depois, o vídeo foi parar nas redes sociais. Algumas pessoas que o assistiam, certamente sem saber como classificar aquela selvageria, diziam que a atitude era coisa de uma louca. Louca, não. Respeitemos ou loucos.

Vivemos tempos terríveis, com a sociedade assumindo, sem constrangimento, o processo de desumanização. A cena, que ocorreu na Paraíba mas poderia ter sido em qualquer lugar deste País, não é novidade alguma e mesmo assim ilustra os nossos dias mofados pelas faltas de ética individual, de políticas sérias e de leis eficazes.

Eu fico me perguntando, o que leva uma pessoa a se achar no direto de negar o valor humano da outra? Que deformação é essa que abre espaço para uma mulher como aquela a pensar e a julgar, segundo os próprios critérios, que outra pessoa, somente por causa da cor da pele, é menos digna da vida do que ela? O que permite alguém achar que a outra, por ser negra, é merecedora da humilhação, da opressão, da exploração?

Dizem que uma das diferenças entre o animal e o humano é a capacidade de o racional ser diabólico e cruel. Nas atitudes e palavras. Somente o humano é capaz de fazer uso do mal como projeto. Ou seja, de ser bárbaro. Assim caminha a humanidade: a extrema direita passa de um estágio para o outro, com aptidão. Evolui a olhos vistos.

 Cícero Belmar

Engasgos e soluços

“...un nobre potrillo que justo
en la raya afloja al llegar”
Carlos Gardel

Em 1958, quando publicou seu clássico Os Donos do Poder, Raymundo Faoro apresentou-nos uma tese deveras preocupante: a de que, desde os tempos coloniais, um “patronato político” se apropriara do Estado, apagando praticamente a distinção entre o público e o privado.

Curioso é que tal tese, por mais preocupante que fosse, permitia duas interpretações diametralmente opostas. Uma, pessimista, sugeria que tal sistema de domínio, o chamado patrimonialismo, fincara raízes profundas, a ponto de ninguém descortinar um caminho para a sua erradicação. Essa vertente sugeria que, do ponto de vista político, nossa melhor chance seria chegar a uma fachada democrática, atrás da qual o patronato prosseguiria com seus negócios; economicamente, estaríamos condenados ao mesmo grau de mediocridade, uma vez que tal sistema jamais permitiria uma transição efetiva para o capitalismo nem a opção para um totalitarismo dinâmico, como o da China atual. Na vertente otimista, asseverava-se que o patrimonialismo não resistiria ao crescimento econômico, à urbanização, à crescente intensidade da competição política – à modernização, enfim.

Retomando a questão original, a que conclusão chegaríamos hoje? Atrevo-me a afirmar que o cenário pessimista não só prevaleceu, como se tornou muito pior do que o concebido por Faoro. Não levo essa afirmação ao extremo de contestar que avançamos bastante na construção da democracia, tese que defendo em meu livro Da Independência a Lula: dois séculos de política brasileira, cuja segunda edição está no prelo. Parece-me, porém, certo que não logramos o mesmo índice de progresso em termos econômicos, sociais e educacionais. E mais certo ainda que a estagnação econômica e a degradação institucional das últimas duas décadas já ameaçam seriamente as próprias conquistas democráticas. Para substanciar essa avaliação, nossa renda anual per capita e nossos índices educacionais são mais que suficientes.


O gosto pelos eufemismos leva-nos a empregar termos como estagnação, cenário preocupante e análogos, mas o buraco é bem mais embaixo. O que estamos vendo, desde muito antes da pandemia, é um abismo profundo, ou um colossal retrocesso, como queiram. Nesse sentido, limito-me a sublinhar um fato. Com dez minutos de reflexão, qualquer cidadão é capaz de discorrer com propriedade sobre as consequências de uma radicalização entre Lula e Bolsonaro – ou da vitória de qualquer um dos dois – na eleição presidencial de 2022.

Para bem entender a hipótese do retrocesso, penso que dois importantes fatores precisam ser levados em conta. Primeiro, nossa cultura política, que sempre teve dezenas de defeitos, submergiu em mais alguns que nós, por indiferença, medo ou hipocrisia, não nos dispomos a discutir. Éramos atrasados, mas não éramos boçais. Como sociedade, nunca chegamos ao convívio pacífico e fraternal que os acólitos da ditadura Vargas tentavam nos vender como mercadoria valiosa, mas tampouco chegávamos sequer perto do radicalismo grosseiro que se configurou plenamente a partir da eleição de 2018. E aqui preciso suscitar o segundo fator novo a que acima me referi. Essa aceitação preguiçosa da realidade de um país em decomposição explica-se sobretudo pela inexistência, entre nós, de uma elite digna do nome, quero dizer, no sentido sério do termo.

A reversão do cenário pessimista que tentei delinear nos parágrafos precedentes exige a superação do patrimonialismo e, portanto, o robustecimento do setor privado da economia, e respeito pelas instituições democráticas e pela esfera pública, valores que não estão à vista. Essa revolução – sim, porque essa é a revolução de que necessitamos – requer o fortalecimento, dentro da elite, de uma parcela efetivamente voltada para o bem comum, expressão antiga, mas ainda útil. Um pedaço ao menos de uma elite orientada por objetivos públicos, e não “amigos do rei”, voltados para a obtenção de vantagens pessoais e para o favorecimento de grupos privados.

Justiça seja feita, um embrião de uma elite desse tipo existiu em vários momentos de nossa História, e existe ainda hoje, mas ela permanece exígua em relação ao conjunto. Permanece e permanecerá exígua enquanto a parte maior se deixar pautar pela indiferença, pelo medo e pela hipocrisia.

Esse é o quadro com que nos deparamos quando examinamos o funcionamento do nosso sistema político, expressão que compreende os três Poderes, as empresas estatais e toda a miríade de organizações que gravita em torno deles. Refazê-lo de alto a baixo tem de ser o alfa e o ômega de uma verdadeira reforma política do País.

Desde os tempos de Faoro, quando esperávamos a debilitação do tosco patrimonialismo de origem portuguesa, o que vimos foi a transformação dele numa grande máquina corporativista e corrupta, perpetuando a subjugação do País por interesses exclusivistas. A manter-se tal engrenagem, o que gostaríamos de chamar de desenvolvimento sustentável será apenas a mesma interminável série de engasgos e soluços que temos testemunhado desde pelo menos a 2.ª Guerra Mundial.

Fim às bastardas

Filhas bastardas do egoísmo e da avidez, as chamadas “elites” brasileiras não estão preparadas para a ética, o bom senso e a moralidade. É inútil tentar consertá-las. Mas como livrar-se delas? 
Joel Silveira, “Guerrilha noturna”

O legado da barbárie

O legado do desgoverno de Bolsonaro não se limitará às milhares de vidas perdidas pela falta de uma política decente de combate à pandemia, às florestas criminosamente devastadas ou à violência contra povos indígenas sob o auspício das autoridades constituídas; nem mesmo se restringirá à degradação de serviços públicos essenciais, obstruindo nosso processo de desenvolvimento econômico e social.

A absoluta falta de postura do presidente também se projetará sobre a própria disposição dos brasileiros de respeitarem a lei e os direitos dos outros. Não me refiro apenas à longa lista de alegados crimes de responsabilidade, que têm sido sistematicamente objeto de pedidos de impeachment, de denúncias de crimes comuns que começam a ser investigados pela Procuradoria-Geral da República, ou de eventuais crimes contra a humanidade sob escrutínio de tribunais internacionais.


Falo de condutas mais corriqueiras que expressam uma espécie de obstinação do presidente em demonstrar que não aceita se submeter à regra da lei, como não usar capacete, trafegar do lado de fora do veículo, aglomerar ou não usar máscara. Nenhuma dessas atitudes que simbolizam sua insubordinação ao direito se equiparam, no entanto, ao gesto do presidente de abaixar, com um sorriso escancarado, a máscara de uma criança, em meio a uma pandemia que já ceifou mais de meio milhão de vidas, numa atitude ao mesmo tempo negligente e de clara exploração política daquela criança.

Como dispõe o código moral mais básico da maioria das pessoas, incorporado pelo artigo 227 da Constituição Federal, crianças devem ser objeto de um cuidado especial por parte de todos, devendo ser colocadas a salvo de toda forma de negligência ou exploração. Ao abaixar a máscara de uma criança, profanando esse código moral elementar, o presidente demonstrou não apenas seu desprezo pela lei, mas também pelo outro, como sujeito de direito, mesmo que seja uma criança.

Convido a leitora e o leitor a pensar nas consequências desse tipo de conduta sobre nossa capacidade de viver sob o governo das leis, pelo qual autoridades e cidadãos se dispõem a pautar as suas condutas e resolver os seus conflitos com base no direito.

Múltiplos são os fatores que contribuem para que os cidadãos se submetam à autoridade do direito. Entre esses fatores, certamente, está o da disposição de adultos e autoridades de respeitar as leis, os direitos e os compromissos que eles mesmos estabeleceram para regular o próprio comportamento.

Somente a partir do momento em que os cidadãos tenham confirmadas as suas expectativas de que as autoridades respeitam direitos e compromissos estabelecidos pela lei, tenderão a reciprocamente respeitar as leis e os direitos dos outros. Isso é particularmente relevante para a educação das novas gerações.

A insistência dos governantes de plantão de explicitar, às escâncaras, o seu desprezo pelos direitos de grupos vulneráveis e pelos limites estabelecidos pelo Estado de Direito terá um efeito devastador sobre a disposição dos demais membros da comunidade em se comportar de acordo com o império da lei. Pior do que isso, servirá de incentivo ao oportunismo e mesmo à delinquência como padrões de comportamento a serem normalizados.

Reverter esse legado da barbárie é o desafio imediato de nossas instituições e, no limiar, do eleitor de 2022.

Vacina, impeachment, genocídio e, agora, corrupção animam as ruas

Por que o governo do presidente Jair Bolsonaro emprega tantos militares (quase sete mil), a maioria em lugares antes reservados a civis pelos próprios governos da ditadura de 64?

A justificativa oficial é de que os militares são tão capazes quanto os civis. Pode ser, mas como a comparação dispensa exames para atestar sua veracidade, tome-se isso como mera opinião.

O mais provável é que Bolsonaro militarizou seu governo com a pretensão de tornar-se “imbrochável, imorrível e incomível”, como disse um dia. Acrescente-se: inderrubável.

Como dono de um vocabulário primário e raso, tais expressões, ausentes de ilustres dicionários, são contribuições que ele dá para enriquecer a língua portuguesa.

A quantidade recorde de militares foi a maneira que Bolsonaro encontrou de retribuir o apoio que recebeu deles para eleger-se presidente. Essa história está à espera de ser bem contada.


Foi vista também por muitos civis como o modo de os militares voltarem legitimamente ao poder, de onde saíram pelas portas dos fundos quando a ditadura se esgotou em 1985.

De resto, ocupando posições de destaque, os militares poderiam controlar de perto o ex-capitão indisciplinado que eles mesmos afastaram do Exército por conduta antiética.

Falharam na missão. É o ex-capitão que os controla, demitindo ou calando os que o contrariam e estimulando generais, quando acha conveniente, a rasgarem os regulamentos militares.

A compra de vacinas a preço superfaturado trincou de vez a narrativa veladamente cultivada dentro dos quartéis de que os militares são também mais patriotas e honestos do que os civis.

O general Eduardo Pazuello não saiu do Ministério da Saúde porque recusou-se a pagar “pixulé” a políticos que o assediavam por mais verbas para seus redutos eleitorais e seus bolsos.

Saiu porque a pandemia se espalhara a tal ponto que alguma cabeça teria de ser entregue para salvar a cabeça do presidente, sócio do coronavírus e responsável pelo avanço da doença.

Agora, os militares que Pazuello levou para o ministério, e que ficaram por lá, estão encrencados com a roubalheira que só veio à luz porque um deputado bolsonarista decidiu denunciá-la.

Não o fez por amor ao país acima de tudo, só abaixo de Deus. Mas por amor ao irmão, servidor do ministério, exonerado por discordar da maracutaia que estava em curso.

A ação do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) reverteu a exoneração do irmão, mas empurrou Bolsonaro para uma sinuca de bico: como defender-se sem sacrificar ex-colegas de farda?

É por isso que, em pouco mais de 10 dias, o governo já ofereceu pelo menos três versões diferentes para o que possa ter acontecido nos porões do ministério. É por isso que Bolsonaro está calado.

Quem, como ele, no passado, dizia, em tom desafiador, “Me chama de corrupto”, convencido de que a pecha jamais colaria em si, hoje começa a ser chamado de corrupto por ruidosas multidões.

Mais vacinas, impeachment, Bolsonaro genocida foram slogans que alimentaram as duas manifestações de rua anteriores contra o governo. A de ontem deu passagem à acusação de corrupção.

A voz do bolsonarismo nas redes sociais está confusa e fraca. Como defender seu guia sem jogar a culpa no líder do governo na Câmara Ricardo Barros (PP-PR) e nos militares da tropa de Pazuello?

Como defendê-lo se, de uma hora para outra, poderá surgir a vacina na cueca, quer dizer, o áudio onde Bolsonaro prometeu ao deputado Miranda que investigaria a denúncia e não investigou?

Forçada pelo Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República abriu inquérito contra Bolsonaro por suspeita de prevaricação. Ao fim e ao cabo, ele não será denunciado.