quarta-feira, 26 de maio de 2021

Deus, FH, Lula e o Brasil

Corre nas altas esferas celestes uma anedota instrutiva sobre as preocupações de Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e a opinião de Deus Todo-Poderoso.

Aflito com a polaridade brasileira, preocupado com o número de almas que, por causa da pandemia, estão lotando o céu e fazendo com que os anjos do purgatório façam jornadas duplas de atendimento, as Altas Esferas chegaram a pensar em ampliar o espaço de recepção do purgatório devido a essa dramática emergência.

Soube disso por meio de um amigo médium. O astral, disse-lhe uma entidade espiritual adiantada e de muita luminosidade, está muito assoberbado, precisamente pela quantidade de almas que vem recebendo. Nessa emergência, comentou que os ex-mortos brasileiros são difíceis. Dão trabalho, pois a maioria chega ao purgatório demandando tratamento privilegiado. 

- Já tivemos que intervir em discussões de caráter político — absolutamente proibidas no outro mundo — quando controvertiam que morreram por sabotagem de vacinas... Os espíritos brasileiros (que são brasileiros de espírito), prosseguiu o médium, demoram a aprender que, no outro mundo, não há disputas de poder, pois o poder do Absoluto Poder é total. E não é fascista, porque é obra da eternidade, que se fez num quando não havia tempo ou espaço.

Um dos maiores problemas das almas brasileiras é a igualdade cósmica. Elas querem manter suas hierarquias materiais nacionais, e isso torna difícil lidar com políticos, juízes, militares, empresários e policiais, bem como com os criminosos por eles mortos em algum confronto.


O médium relatou que, em muitas preleções de adaptação, anjos superiores e poderosos dissolveram manifestações de queixosos que, mesmo no outro mundo, exigiam atendimento usando o “você sabe com quem está falando?”, que não é válido no astral. Aqui, disse a alma por meio do médium, não se pode negar a regra da fila, segundo a qual quem primeiro chega, primeiro é atendido. Numa certa ocasião, tivemos que chamar o Arcanjo Gabriel e seu irmão, Rafael, ambos com estatura suficiente e prontos a usar suas espadas de lâminas de fogo para obrigar as relutantes almas brasileiras a obedecer à fila final que os levaria ao infinito glorioso do nada.

As almas nativas do Brasil querem manter suas prerrogativas sociopolíticas, e uma delas perguntou a um anjo se aqui havia um STF, ficando muito decepcionada ao descobrir que, no plano imaterial, a alma já se encontra no Supremo e já passou pelo umbral, presidido por São Pedro, em cujo gigantesco cinema astral ela vê o filme de sua vida e testemunha todos os seus pecados, devidamente conferidos pelo anjo cobrador em seu computador da velha maçã.

Um dia essas almas recusaram o maná. Queriam pizza ou feijoada. Disseram que o maná celestial não tinha gosto. Houve um novo tumulto, debelado pelos anjos exterminadores comandados por Luis Buñuel.

Foi nesse ambiente um tanto conturbado que Deus resolveu conceder a FH e Lula um encontro. Coisa raríssima, mas concedida porque o almoço que fraternalmente os reuniu tornava-os dignos de uma graça especial.

— Vou conceder a cada um de vocês, ex-presidentes desse Brasil machucado com a pandemia, que o demo vos enviou sem minha expressa permissão, uma grande graça. Perguntem o que mais os preocupa, e Eu responderei.

(Ao ouvir a pergunta, Lula cochichou a FH: “Deus é populista...”.)

— Quem vai perguntar primeiro? —retumbou o Altíssimo, criando uns dois ou três buracos negros.

Fernando Henrique sorriu e, com sua voz melodiosa, falou:

— Deus, Você, que é um ente dos mais capazes e cultos que conheço, um ser cosmopolita e civilizado, quando é que vamos liquidar a má-fé, a hipocrisia e a corrupção no Brasil?

Deus respondeu:

— Meu filho, um dia isso vai acabar. Houve avanços, nas não foi na sua administração.

Voltando-se para Lula, Deus indagou:

—E o que você, Luiz Inácio, pensa disso?

Lula foi veemente:

— Bem, Deus Todo-Poderoso, nos meus governos não houve corrupção, muito menos má-fé e hipocrisia. A herança maldita era enorme. Toda essa narrativa foi inventada por gente que queria condenar a mim, o PT e a política.

Deus ouviu, recordou o conto de Machado de Assis “A igreja do diabo”, que motivou revolucionários debates no céu e no inferno, e, olhando para os dois, respondeu:

— Fiquem tranquilos. Continuem praticando a sagrada comensalidade que une aqui no céu e elege nesse vosso mundo sofrido. Mas prestem atenção: a corrupção, a má-fé e a hipocrisia um dia vão acabar no vosso país, que será justo e democrático. Mas não será na minha administração.

Se há uma ventura na clausura

A janela e sua gelosia em um esboço de praia em suas linhas fundamentais de céu, areia e mar, desfocando e balouçando ao rumor da maresia e do vento. Um horizonte incompleto de prédios forma um skyline recortado em quadrados baixos, provinciano, aparentemente desabitado. Uma usina de gás, puro esqueleto, utilidades esquecidas que agora mais proveitosas parecem por ainda ocuparem seu espaço, além de renderem uma homenagem aos engenhos desaparecidos. O mundo é de mentiras perfazendo nas janelas.

Por que a vida exterior adquiriu uma aparência irreal, enquanto a vida interior se tornou a quadratura da realidade? Precisamos sair para atestarmos que a existência prossegue reunida em suas frações todas? A conjugação das ruas, das árvores, dos postes, das lojas: haverá algo se alterado? Podemos esperar que algum novo tipo de milagre finalmente tenha se desvencilhado da terra dos homens terríveis, para se desenhar diante dos nossos olhos atomizados? O Sol terá sofrido qualquer quebra em sua aparente trajetória expecta? E a sequência: manhã, tarde, noite – terá ela se solucionado em algum outro tipo de divisão?

Reconheceremos rosto, voz e corpo com simpatia? Será de uma futilidade nauseante ou de uma sensibilidade programada a tentativa de transformar os acontecimentos de isolamento pandêmico dos privilegiados em uma fantástica jornada? Conseguiremos, isso sim, enfim pensar nos animais de vida confinada, estes sim completamente apartados de seu habitat? Os encontros quedarão já desinteressados, ou frenéticos, naturais, impensados? Um encantamento pré-pandemia poderá ser revisitado, ou, caso não, se provará um peixe que cedo morre pela boca? Melhor do que se arraste na linha aos poucos, se um bem-querer não se reitera.

E nas esplanadas, os habitantes e os turistas que iniciam a desconfinar bradam ao mundo sua valentia desusada, recostando-se folgazãos no encosto fofo das cadeiras. Tudo vai dar certo. Nem que seja na base da arrogância. Andaremos, na medida e no sentido contrários ao imposto, seremos para já ansiosos, nessa sequência de embaraços, tossindo propositalmente para as mãos ou para os ares, caminhando ledos e fortes sem máscara, tocando indiscriminadamente, um em direção ao outro, em uma fúria, como um estranho orgulho de não ter medo. Haverá madeira ilegal, cloroquina, mísseis interceptados, Ceuta, Bielorússia, Odemira, projetos de leis debatidas sob nosso desconhecimento, alterações à nossa revelia, cuja posterior aceitação tácita por alguns será disposta como uma institucionalização do recrudescimento dos radicalismos desumanos e ilegais?

A exterioridade disposta em quadrados de janelas e varandas, em céus de quintais. Se há uma ventura na clausura… Quando estamos assim, dentro, a realidade exterior se dispõe em retalhos, peças coloridas dispersas. Teremos que as juntar para uniformizar e completar o jogo novamente? A exterioridade do corpo, esta também a ser reconstituída, a ser reconstruída, a ser vestida com o aceitável ou o atraente. E as verdades inventadas a serem confrontadas que os aproveitadores e os ditadores, inicialmente, apenas nos oferecem?
Elisa Andrade Buzzo

terça-feira, 25 de maio de 2021

Um mau soldado

Bolsonaro está levando os militares a uma situação limite, como, aliás, fez constantemente enquanto estava na ativa. Capitão, planejou atentados terroristas para reivindicar melhores salários, foi condenado por um conselho de justificação, mas absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) em 1988, meses antes de ir para a reserva, num aparente acordo.

Antes, escrevera um artigo na revista “Veja”, em setembro de 1986, denunciando uma “situação crítica da tropa no que se refere aos vencimentos”. Pegou 15 dias de cadeia por indisciplina. “Um mau soldado”, como o classificou o general Ernesto Geisel. Na política, Bolsonaro fazia panfletagem na porta de quartéis nas eleições. Frequentemente era pedido que se afastasse do quartel para fazer sua campanha. Alguns dos generais hoje no governo fizeram essa intermediação com o então deputado Bolsonaro, que chegou à Presidência da República com o apoio e condescendência dos militares, convencidos de que somente ele poderia derrotar o PT em 2018. Hoje, a possibilidade de um novo confronto entre Lula e Bolsonaro em 2022 fortalece sua posição entre os militares.


Incentivado por Bolsonaro — que já quebrara a regra de ouro de não levar a política para dentro dos quartéis quando fez um comício em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília —, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello rompeu com a máxima do Exército, de hierarquia e disciplina, ao participar de um ato político no domingo no Rio, sendo general de divisão da ativa.
A partir dessa evidência, o ministro da Defesa, general Braga Netto, e o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, tentam achar uma saída que não desmoralize o Exército, nem crie uma crise institucional com a Presidência da República. Mas Pazuello não pode ser tratado com excepcionalidade.

Não puni-lo seria péssimo sinal de que a política está tomando conta dos quartéis. O que não pode, e é o que Bolsonaro está fazendo, é usar o Exército como instrumento político. Está na hora de os militares levarem isso a sério, sob o risco de desmoralização completa da ideia de uma corporação de Estado, hierarquicamente bem definida, e de todos se sentirem autorizados a fazer política nos quartéis.

O ministro Luiz Eduardo Ramos, hoje no Gabinete Civil, teve a sensibilidade de pedir para ir para a reserva quando se viu envolvido, na rampa do Palácio do Planalto, numa manifestação política conduzida por Bolsonaro.

Estava “disfarçado”, em meio a vários assessores, quando o presidente o chamou para a frente da manifestação. Admitiu que não poderia estar ali como general da ativa e pediu para ir para a reserva para poder continuar no governo. Durante muito tempo, tentou convencer Pazuello a fazer o mesmo, sem ter tido sucesso, muito porque Bolsonaro não considerava necessário.

A presença do presidente Bolsonaro em, na média dos primeiros dois anos de seu governo, uma formatura por mês de militares membros das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) e das polícias Militar, Federal e Rodoviária Federal indica uma tentativa de sua parte de politização dos quartéis. O especialista Adriano de Freixo, professor do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (Inest-UFF), num estudo já analisado aqui sobre os militares no governo Bolsonaro, ressalta que uma variável que não deve ser ignorada nessa conjuntura é a “bolsonarização” dos estratos inferiores da corporação.

Outro aspecto da “bolsonarização” que começa a se tornar motivo de preocupação, para o professor da UFF, são as polícias militares estaduais, definidas na Constituição como forças auxiliares e reservas do Exército. Ele considera que “o quadro se torna mais complicado quando se leva em consideração a simbiose que existe em diversos estados da Federação entre parte das corporações policiais e forças parapoliciais, as chamadas “milícias” — que, no Rio de Janeiro, já têm o controle efetivo de vastos territórios —, e os crescentes indícios de ligação entre elas e figuras relevantes do entorno de Jair Bolsonaro”.

Bolsonaro prepara o golpe

Jair Bolsonaro vai tentar dar um golpe em 2022. Ninguém tem a menor dúvida sobre isso. A única dúvida é se, depois do golpe, ele vai acabar no Palácio do Planalto ou na cadeia.

O destino de Eduardo Pazuello pode revelar o alcance do apoio do Exército ao golpe bolsonarista. O general foi usado como isca. Uma isca gorda, suculenta. Ao chamá-lo para o palanque, no domingo, Jair Bolsonaro pretendia testar a fidelidade dos comandantes militares, e ver com quais deles ele poderá contar no ano que vem, em seu putsch bananeiro. Inúmeros generais já desertaram do Exército e se alistaram na falange bolsonarista. Nem o próprio Bolsonaro, porém, deve saber o tamanho exato de suas tropas – e se elas estarão dispostas a segui-lo até o fim.

Em vez de tanques nas ruas, teremos motocicletas nas ruas. Mas o resultado será o mesmo: um golpe. Prepare-se.

Pazuello desafia o Exército

Jair Messias cutucou com vara curta o Alto Comando do Exercito. O ex-ministro Eduardo Pazuello não foi obrigado, mas, convidado pelo Presidente da República, participou de ato politico estritamente vedado pelo Regulamento Disciplinar do Exercito Brasileiro.

Bolsonaro e Pazuello conhecem bem o Regulamento. Em 1987, o Capitão feriu os códigos do Exército e acabou expulso da tropa. Dizem que pediu para sair. Pouco importa. O Capitão foi punido por infringir regras estabelecidas. No caso de Pazuello, diz o item 57 do anexo I do decreto 4.346/02: é transgressão o ato de “manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”.

Pazuello e Bolsonaro são responsáveis por conflito institucional que se avizinha. O País vive instabilidade política crescente, crises sanitária e econômica. A tensão militar é desnecessária, nesse momento. O Exército deve se posicionar com rapidez e energia, sob risco de ver desmoralizado seu Alto Comando. Se correr frouxo, militares da ativa ficarão a vontade para endossar publicamente os disparates de Bolsonaro.

Brasil do 'pátria amada'

 


Negacionismo de resultados

Negação não é ideologia. Pode ser “coisa de internet”, versão aloprada que o ex-ministro Eduardo Pazuello deu à CPI da Pandemia para as bravatas do presidente, tidas como farsa até pelo depoente. Poderia ser fé, crença. Nada disso. O negacionismo de Bolsonaro é puro oportunismo, sustentado pela mentira compulsiva e má-fé. Um tripé perverso que, por interesse de inescrupulosos e ignorância de muitos, faz o país acelerar velozmente para trás.

Agir ao avesso dos ditames da ciência, da lógica e do bom-senso é prática aplicada por Bolsonaro em todas as frentes, não só na pandemia, a mais visível delas. A negação tem propósito e consequências medidas. É o instrumento escolhido para “destruir muita coisa”, meta assumida publicamente em março de 2019, em um jantar em Washington, nos áureos tempos de Donald Trump. Portanto, vai muito além do desprezo à máscara, da provocação de aglomerações ou da defesa de drogas comprovadamente ineficazes e até da automedicação, como fez na live da última quinta-feira.

Irmãs siamesas, negação e mentira são ferramentas usadas conscientemente pelo governo Bolsonaro.


No trato com a Covid-19, a CPI vem demonstrando que a ideia parecia ser mesmo a de multiplicar velozmente o contágio viral, mesmo às custas de milhares de vidas, para preservar a economia, cujo desempenho é essencial para a reeleição. A loucura da tal imunidade de rebanho que não funciona nem em vacas.

Nega-se tudo. Se o satélite captou desmatamento alarmante na Amazônia, o “erro” é da tecnologia, das nuvens, da Nasa, do renomado físico Ricardo Galvão, que, por essa conta, acabou demitido da presidência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nas hostes do ministro boiadeiro Ricardo Salles, quase tudo já foi destruído. Desmantelaram-se o ICMBio e o Ibama, colheram-se recordes de queimadas e árvores abatidas.

Parte dos motivos de tanta agressão ambiental por quem deveria preservar o ambiente começa a brotar na Operação Akuanduba, da Polícia Federal, na qual floresce o escancarado benefício a madeireiros. Salles, que deve ser investigado também nos Estados Unidos, onde três lotes de madeira ilegal foram apreendidos, foi elogiado por Bolsonaro logo depois do estouro da operação. “Excelente ministro.”

Aqui, o negacionismo também não é à toa. O presidente conta com Salles para liberar mineração em áreas indígenas e com isso turbinar a economia, mesmo de maneira indecente. Quer ainda ampliar estradas e hidrelétricas em áreas de preservação. E tornar real o sonho vingativo de criar uma “Cancún” em Angra dos Reis. Vale lembrar que, depois que virou presidente, Bolsonaro demitiu o fiscal que o multou por pescar nas águas proibidas de Angra.

A escalada negacionista se repete na Educação, cujo projeto prioritário é o ensino domiciliar, método que isola crianças e jovens do convívio social e do aprendizado formal, para satisfazer as crenças dos pais – e, claro, a cobiça desenfreada da base evangélica. Há um esforço maquinado para aniquilar as universidades, o conhecimento e tudo mais que possa colocar em risco o projeto de continuidade de Bolsonaro, seu clã e seus asseclas. Decidiu-se ainda pela suspensão da avaliação do Ensino Básico (Saeb), quebrando a série histórica de aferição do aprendizado. Afinal, para quem já escolheu andar para trás, fazer avaliações que têm como objetivo buscar melhorias não tem qualquer serventia.

O corte de verbas para realizar o Censo, adiado de 2020 para 2021 e agora para 2022, vai no mesmo diapasão. Para que impactar negativamente a campanha de 2022 com dados sabidamente danosos sobre a sociedade brasileira, mais empobrecida e em piores condições de vida? Melhor adiar as entrevistas de campo e a divulgação do quadro calamitoso para depois das eleições. De novo, a opção é negar, desta vez, de antemão.

A corrente pró-negacionismo é tamanha que, no momento de declínio do dinheiro de papel – cresce vertiginosamente o uso do PIX –, a Casa da Moeda foi instada para produzir 450 milhões de cédulas de R$ 200, ao custo de R$ 146 milhões. Apenas 13% delas foram colocadas em circulação.

Para se manter no poder a qualquer custo, mais mentira e negação. Bolsonaro insiste no voto impresso, colocando em dúvida a lisura das urnas, agredindo a democracia. Uma vacina para um provável revés na disputa de 2022.

Relato do hospital

Tiramos a sorte no pátio para ver quem ia vê-lo.
Fui sorteado. Levantei-me da mesa.
Já estava chegando o horário de visitas no hospital.

Não respondeu nada quando o cumprimentei.
Quis tomar a sua mão - ele a retirou
como um cão faminto que não entrega o osso.



Parecia se envergonhar de morrer.
Não sei o que se diz para alguém como ele.
Nossos olhos divergiam como numa fotomontagem.

Não me pediu para ficar nem para sair.
Não perguntou de ninguém da nossa mesa.
Nem de você, Bolek. Nem de você, Tolek, Nem de você, Lolek.

Minha cabeça começou a doer. Quem está morrendo para quem?
Elogiei a medicina e as três violetas num copo.
Falei sobre o sol e fui me apagando.

Que bom que tem escadas por onde se desce correndo.
Que bom que tem um portão que se abre.
Que bom que vocês me esperam junto à mesa.

Cheiro de hospital me dá náusea.

Wislawa Szymborska (Prémio Nobel - 1996)), "Para o meu coração num domingo"

Bolsonaro resiste a que o Exército puna o general Pazuello

Segue a valsa. Valsa, segundo um político que trafega com desenvoltura entre fardados, significa que ainda não há solução para um problema complicado que se arrasta. O problema, neste momento, não atende pelo nome de Eduardo Pazuello, general da ativa, portador de três estrelas, ex-ministro da Saúde.

O problema é Jair Bolsonaro, presidente da República, que discorda de qualquer punição a ser imposta a Pazuello pelo fato de ele, ontem, ter participado de manifestação político-partidária no Rio. Convocada pelo próprio Bolsonaro e comandada por ele, a manifestação atraiu milhares de motociclistas.


A levar em conta o que está escrito no Regulamento Disciplinar do Exército, uma das transgressões sujeitas a punição é a seguinte: “Manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”. Foi o que fez Pazuello, estimulado por Bolsonaro.

O general sabia que não poderia fazê-lo. Bolsonaro, também, quando nada porque já foi militar, embora tenha sido afastado do Exército por indisciplina e “conduta antiética”. Em telefonema para o comandante do Exército, general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, Pazuello reconheceu seu erro.

O que falta para que seja punido? Por que a valsa não parou de tocar? Não parou porque Bolsonaro, como chefe supremo das Forças Armadas, não deixa. Ao carregar Pazuello para o Rio, mandá-lo subir num carro de som e discursar, a intenção de Bolsonaro era clara: provocar uma nova crise que veste farda.

A anterior foi deflagrada por ele quando demitiu o general Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, e forçou a saída dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Azevedo e Silva cedeu o lugar a Braga Neto, como Pazuello, amigo de longa data de Bolsonaro e obediente às suas ordens.

Bolsonaro quer que o Exército, como a força armada de maior poder de fogo, faça por merecer o tratamento de “o meu Exército”. O Exército dele, para que pressione o Congresso e o Supremo Tribunal Federal a satisfazer seus caprichos, e, no limite, apoiar a instauração no Brasil de um regime autoritário.

Se o Exército não punir, e com rigor, Pazuello, desmoraliza-se. Se punir, desagrada o presidente da República, provando mais uma vez que não é o Exército dele, mas do Brasil. Daí porque o general Paulo César anunciou que decidiu abrir um procedimento formal para apurar se Pazuello transgrediu regulamentos militares.

Apurar o quê? Se foi Pazuello o cidadão que subiu no carro de som e que ao lado de Bolsonaro discursou para os motociclistas? Se ele, como general, estava impedido de fazê-lo? Se o arrependimento do general é suficiente para perdoá-lo? Brincadeira! Este é o ponto da situação. E a valsa continua tocando.

A lenta erosão da liberdade

Faço parte de uma geração que recebeu dos seus pais um País que tinha recentemente emergido de quatro décadas de ditadura. Um País que deixara para trás anos de imobilismo social, de pobreza, de atrofia do pensamento. Um País que se abrira ao mundo, que conquistara a liberdade de traçar o seu próprio destino.

Faço parte de uma geração que recebeu dos seus pais um País que era largamente uma promessa por e para cumprir. Não há, convenhamos, privilégio maior. Herdámos a liberdade de fazer o nosso próprio futuro.


Infelizmente, estou cada vez menos seguro de fazer parte de uma geração que transmitirá aos seus próprios filhos, esperançoso e incólume, o legado que recebeu: a liberdade de voltar a fazer o futuro que será o seu. Pode parecer paradoxal, quase ofensivo para quem por ela tanto lutou, mas vou consolidando a ideia de que um dos nossos maiores falhanços coletivos dos últimos 30 anos foi termos sido complacentes com a lenta erosão da liberdade na sociedade portuguesa.

É evidente que não me refiro às liberdades formais conquistadas no 25 de Abril. Tal como nós, os nossos filhos votam em liberdade. Tal como nós, vivem num mundo sem os lápis azuis da censura estatal, sem polícias políticas. E, no entanto, não é verdade que sejam inteiramente livres.

Herdarão, desde logo, os desmandos das nossas políticas económicas. Herdarão um País que não cresce há duas décadas, mas, muito pior, herdarão um País que empurrou para as gerações futuras o ónus de pagar esse nosso falhanço. A dívida, colossal, com que os brindaremos é obviamente cerceadora da sua liberdade. Fecha-lhes caminhos, corta-lhes opções, impede-os de poder escrever, como nós pudemos, o seu próprio futuro.

O mesmo se pode dizer da herança que lhes deixaremos em termos ambientais. Também nesta matéria, usámos o que era nosso e o que deveria ser seu. Deixamos-lhes um planeta crescentemente ameaçado e pedir-lhes-emos que paguem, com a ausência de alternativas, um esforço colossal para o salvar.

Como se não bastasse, herdarão, além do mais, um País bloqueado em termos políticos. Ao longo dos últimos 30 anos, fizemo-nos, funcionários públicos e respetivas famílias, cidadãos tragicamente dependentes de ajudas públicas, mas também “empresários de sucesso” resgatados pelo erário público, crescentemente dependentes de um Estado gordo e ineficiente, que não parou de alargar os seus tentáculos (o mito de que fomos governados por políticas neoliberais é um dos mais bizarros da história económica recente). E se é verdade que os nossos filhos continuarão a votar com total liberdade formal, não me parece difícil de sustentar a tese segundo a qual as opções de que dispõem são mais aparentes do que reais. A paralisia económica, a captura da economia pelo Estado, limita, de facto, a verdadeira alternância política. Uma democracia substantiva precisa de eleitores livres. E definha quando se faz apenas de clientelas.

Por fim, a liberdade de expressão já viveu melhores dias. Não tanto porque não tenhamos (por enquanto) uma Imprensa essencialmente livre (que falha, todavia, ao não resistir ao abraço de urso das ajudas estatais), mas porque o ambiente tóxico das redes sociais, as guerras culturais e as suas agendas de “cancelamento” e a polarização da sociedade tornam, de facto, cada vez mais exíguo o espaço da liberdade de expressão efetiva.

Perdoem-me esta crónica tão sombria. Ainda vamos a tempo de honrar os deveres de uma geração. Mas isso não se fará com mais complacência.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Pensamento do Dia

 


Bolsonaro, porcos e sardinhas

Rogério Marinho, atual ministro do Desenvolvimento Regional, faz parte de uma linhagem da qual pertenceram Fernando Bezerra, Ramez Tebet, Ney Suassuna, Ciro Gomes, Geddel Vieira Lima, Mário Negromonte, Gilberto Kassab, Fernando Coelho e Helder Barbalho, entre outros. Em comum, são políticos com forte base local e que tiveram sob suas mãos a distribuição de verbas para a realização de obras Brasil afora. Trata-se da árvore genealógica do novo escândalo que ronda o governo Bolsonaro: o orçamento secreto - ou “tratoraço”, como preferem alguns.

Em qualquer lugar do mundo, político adora uma obra pública. Seja no lançamento da pedra fundamental ou no descerramento da placa de inauguração, não podem faltar o discurso das autoridades, a banda de música, a entrevista para a rádio local, as fotos para as redes sociais e aquele “banho de povo” que pode render muitos votos nas próximas eleições.

Enquanto educação, saúde e segurança são políticas públicas difíceis de serem atribuídas a um político em particular - pois resultam da cooperação entre União, Estados e municípios e apresentam resultados apenas no médio e longo prazos -, obras são entregas concretas que levam a marca de quem conseguiu os recursos em Brasília e viabilizou a construção da ponte ou do açude, o asfaltamento da estrada ou o embelezamento da praça da Matriz.


Houve uma época, nos Estados Unidos, em que ter uma despensa cheia de carne de porco era sinal de fartura e boa situação financeira. Daí vem a expressão “pork barrel”, usada na ciência política para designar a prática em que políticos tentam garantir recursos para agradar suas bases eleitorais. Assim, na discussão do Orçamento cada parlamentar tenta “puxar a brasa para a sua sardinha” - outra expressão alimentícia que talvez faça mais sentido em português do que o “pork barrel” dos americanos.

No Brasil, graças ao desenho da Constituição de 1988, esse jogo se dá em três etapas: 1) o Poder Executivo elabora a proposta de orçamento anual; 2) o Congresso Nacional a analisa, podendo modificá-la por meio de emendas e 3) a bola retorna ao Executivo, que executa o que foi aprovado, de acordo com a disponibilidade de dinheiro.

Dadas as características de nosso processo orçamentário, a pesquisa sobre o presidencialismo de coalizão brasileiro sempre atribuiu papel central a essa dimensão. Como é o presidente da República quem, em última instância, tem a chave do cofre, decidindo como vai aplicar os escassos recursos arrecadados, isso vira uma moeda de troca valiosa nas negociações com deputados e senadores. Atire a primeira pedra o presidente que nunca liberou dinheiro para a execução de emendas parlamentares nas vésperas de votações importantes no Congresso.

A prática do “é dando que se recebe” tem origem em tempos imemoriais - e vale aqui a indicação do clássico “Coronelismo, Enxada e Voto”, de Victor Nunes Leal (1948). A ditadura militar ressuscitou o Ministério do Interior, ao qual ficavam vinculadas todas as autarquias e estatais criadas para atuar em âmbito local, como a superintendências de desenvolvimento (Sudene, Sudam, Sudeco), o Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs), a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), os bancos da Amazônia (Basa) e do Nordeste (BNB) e o Banco Nacional da Habitação (BNH), entre outros.

Já na Nova República, o balcão foi rebatizado como Ministério da Integração Regional por Itamar Franco, que o entregou ao então senador maranhense Alexandre Costa, do antigo PFL (atual DEM). Nos governos seguintes, os nomes mudaram - Integração Nacional, Desenvolvimento Regional - e houve desmembramento e depois reincorporação no Ministério das Cidades. Mas a lógica permaneceu a mesma: o governo concede a pasta a algum partido ou cacique regional, que decide onde alocar o orçamento para obras de infraestrutura, geralmente com fins eleitoreiros ou de barganha legislativa. E dá resultado.

O cientista político Fernando Meireles defendeu em 2019 uma tese de doutorado intitulada “A Política Distributiva da Coalizão”, da qual recebeu, com justiça, menção honrosa no Prêmio Capes. Utilizando técnicas econométricas modernas, Meireles demonstra relações de causalidade que comprovam que: 1) prefeitos de mesmo partido dos ministros recebem mais dinheiro público, especialmente em anos de eleição; 2) ministros tendem a favorecer municípios de seus Estados; e, fechando o ciclo, 3) localidades contempladas pelas políticas distributivas tendem a entregar mais votos para seu partido nas eleições seguintes para a Câmara dos Deputados.

Como Meireles alerta em sua tese, ao distribuir recursos orçamentários de forma estratégica, buscando conquistar votos ou apoio no Congresso, o governo acaba criando distorções. Sem dados ou evidências, aplica o dinheiro público nos lugares que dão maior retorno político aos políticos que patrocinam as emendas, e não onde é realmente necessário. E abrem as portas para a corrupção - tema que não é objeto da pesquisa do pesquisador.

Nos tempos de vacas gordas, quando o país crescia após o Real ou pelo “boom” das commodities, FHC e Lula construíram um arranjo político e econômico que gerava um superávit primário de 3% do PIB ao ano e ainda sobrava recursos para os partidos de sua base aplicarem nos seus redutos eleitorais. Com a crise a partir de 2015, a fonte secou e os parlamentares trataram de garantir sardinha para a sua brasa colocando na Constituição a execução obrigatória de parte de suas emendas individuais ou coletivas.

Com Bolsonaro, inaugura-se uma nova etapa do “pork barrel” brasileiro. Da boca pra fora, o presidente se gaba de não ter incluído seus ministérios no toma-lá-dá-cá com o Centrão. Entre quatro paredes, porém, Rogério Marinho e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil) criaram o orçamento secreto das emendas de relator (RP9), distribuindo bilhões a quem se dispõe a apoiá-lo, sem transparência ou controle, facilitando a corrupção.

Tudo muda, para continuar igual.

Quem quer dinheiro?

Nós jogamos na defesa nos primeiros três anos, controlando despesas. Agora vem a eleição? Nós vamos para o ataque. Vai ter Bolsa Família melhorado, BIP [Bônus de Inclusão Produtiva], o BIQ [Bônus de Incentivo à Qualificação], vai ter uma porção de coisa boa para vocês baterem palma. Tudo certinho, feito com seriedade, sem furar teto, sem confusão
Paulo Guedes

Ninguém governa: esta é a verdade dita por Pazuello

Não há governo, ninguém manda, ninguém é responsável por erros e omissões cometidos no Palácio do Planalto e no seu entorno desde o surgimento da pandemia. Ninguém falhou, na chamada administração federal, quando o Ministério da Saúde mandou cloroquina em vez de oxigênio a Manaus, enquanto doentes morriam sufocados. De uma ou de outra forma, essas mensagens – com um terrível toque de verdade – foram passadas pelo ex-ministro Eduardo Pazuello em declarações à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid. Catorze mentiras foram ditas pelo depoente, segundo balanço do relator da CPI, senador Renan Calheiros. O desfile de falsidades foi evidente, como em outros depoimentos, mas convém levar em conta a verdade sinistra embutida nesse falatório.

Governo existe formalmente, assim como formalmente há um presidente da República. O candidato Jair Bolsonaro foi eleito para o cargo, tomou posse legalmente e ocupa o gabinete principal do Palácio do Planalto. Mas – e isto o diferencia de outros ocupantes do posto – nunca assumiu seriamente as funções e responsabilidades da Presidência. Aparentemente, jamais entendeu as suas atribuições.

Além de manter os interesses pessoais e familiares no topo das prioridades, sempre confundiu presidir com mandar, ordenar, impor sua vontade. Mandou e desmandou no Banco do Brasil, interferindo até em sua propaganda, e na Petrobrás, dando palpite na formação de preços e demitindo seu presidente para agradar a caminhoneiros. Não há como pensar no desastre humanitário da pandemia sem lembrar, de novo, o uso desastroso do verbo mandar. A cena, gravada em vídeo, foi revista nos últimos dias.


“Já mandei cancelar”, disse Bolsonaro em 21 de outubro do ano passado, referindo-se a um documento de intenção de compra da vacina Coronavac pelo Ministério da Saúde. “O presidente sou eu. Não abro mão da minha autoridade”, acrescentou.

O ex-ministro Pazuello afirmou várias vezes, no depoimento, nunca haver recebido ordem do presidente da República. Ou sua memória é péssima, ou ele mentiu, ou desconhece o sentido do verbo mandar. Ou, enfim, estaria acusando o presidente de mentir naquela declaração pública, registrada pelos meios de comunicação e transmitida para todo o País? Esta última hipótese é improvável. O obediente Pazuello dificilmente atribuiria a seu chefe uma ação de valor duvidoso.

Os fatos acessíveis ao senso comum são conhecidos. O presidente mandou, ele obedeceu e o protocolo de intenções foi cancelado. A Coronavac, chamada de “vachina” pelo chefe de Pazuello, permaneceu amaldiçoada por Bolsonaro e seu séquito ainda por muito tempo, até se tornar, por necessidade, o primeiro e principal imunizante usado no País contra o coronavírus. Mas Bolsonaro nunca se rendeu inteiramente a esses fatos nem se tornou defensor de orientações baseadas no melhor conhecimento disponível.

No mundo bolsonariano, onde a cloroquina é remédio contra a covid, onde as frases gravadas nunca foram ditas e as ordens anunciadas nunca foram transmitidas, a noção de governo continua estranha ao presidente da República. Até as ações anticrise, deflagradas como reação ao primeiro impacto da pandemia, foram efêmeras.

Se houve algo parecido com ação governamental, naquele momento, a impressão logo se esfumou. Num país sem orçamento durante mais de três meses, com auxílio emergencial suspenso e sem sinalização de rumo econômico, qualquer reação da economia, no primeiro trimestre, deve ser atribuída, em primeiro lugar, ao impulso de sobrevivência de trabalhadores e de empresas. A política monetária ainda frouxa deve ter ajudado. Apesar da inflação já preocupante, o Banco Central (BC) preferiu o caminho da “normalização parcial” dos juros básicos.

A ação do BC foi excepcional na paisagem brasiliense. No Executivo, a equipe econômica permaneceu perdida durante a maior parte dos primeiros cinco meses, enquanto o presidente atendia às demandas do Centrão e os ministros “políticos” cobravam gastos. Nessa bagunça, criou-se, como denunciou o Estadão, um orçamento paralelo, destinado à liberação de recursos para os parlamentares de boa vontade. Apesar das dificuldades econômicas e das limitações fiscais, o presidente manteve seu jogo eleitoreiro, alheio à função de governar.

Desde o começo do mandato, ficou clara a incompatibilidade de Bolsonaro com as atribuições presidenciais. O País ainda se recuperava, lentamente, da recessão de 2015-2016, mas o novo presidente cuidou prioritariamente de facilitar o acesso à posse e ao porte de armas. O primeiro ano de mandato encerrou-se com desempenho econômico inferior ao de 2018, mas ninguém, no Executivo, pareceu muito incomodado com isso. Os meses finais de 2019 e os primeiros de 2020, antes da covid-19, foram economicamente desastrosos. Com a pandemia, alguma ação seria inevitável, mas a reação seria efêmera. Nada parecido com um governo duraria muito tempo, sob o comando de Bolsonaro. Qualquer dúvida sobre isso deve ter sido eliminada pelo depoimento de Pazuello, fidelíssimo pelo menos a esse fato.

Está comprovada a ação de (outra) quadrilha no governo e no círculo de Bolsonaro

A primeira função da CPI está realizada, embora ainda em andamento: já ficou bem demonstrado a que classe de gente o Brasil está entregue. Entre (ex) ministro das Relações Exteriores, (ex) dirigente da comunicação governamental com as altas verbas, e (ex) ministro-general da Saúde, o governo só teve para apresentar, e representá-lo, impostores. Falsários das atribuições dos respectivos cargos, falsários no cinismo mentiroso com que tentam evadir-se dos próprios atos e palavras no entanto gravados, impressos, criminosos.

A função subsequente da CPI não contará com a contribuição da corja proveniente do governo. Dependerá de como e quanto o relator Renan Calheiros (MDB-AL), até aqui com desempenho competente, e o preciso presidente Omar Aziz (PSD-AM) conduzam a formação das conclusões submetidas à comissão. De conhecimento público antes mesmo da CPI, os fatos em questão não suscitam dúvida, mas a altivez e a coragem política para relacioná-los com o Código Penal e gravíssimas consequências será de ordem pessoal.

O problema não acaba aí. Renan Calheiros faz supor a disposição de uma atitude à altura do episódio, com um relatório rigoroso. Mas aprová-lo, alterá-lo ou recusá-lo caberá ao corpo da comissão. E, em qualquer dos casos, essa etapa será de luta sem freio e sem compostura, a exigir muito de Omar Aziz. Posta tal perspectiva, pode-se ouvir que Bolsonaro, à vista de derrota na comissão de maioria opositora, tentaria algo para impedir a CPI de consumá-la. Algo?


Será, então, a hora do inestimável Ministério Público. Para dividi-lo mais, não falta muito à percepção de ações e omissões do governo articuladas no gênero próprio de quadrilha. Amazonense e conhecedor indignado do que se passou na crise do oxigênio em Manaus, o senador Omar Aziz está convicto de que o povo ali foi “feito de cobaia”, para indução da cloroquina, como para a imunização coletiva pelo vírus mesmo.

Em paralelo ao que houve, e não terminou, na Saúde e morte de quase 450 mil pessoas, está comprovada a ação de (outra) quadrilha no governo e no círculo de Bolsonaro. Da derrubada à entrega da madeira amazônica no exterior ou aqui mesmo, o número de operações combinadas é bem grande. Todas criminosas. Não pode ser coisa de poucos e amadores. A maior apreensão de madeira ilegal, que custou ao delegado Alexandre Saraiva sua transferência na Polícia Federal, e a denúncia americana de madeira contrabandeada e apreendida nos Estados Unidos puseram, enfim, algemas por ora morais nos pulsos do ministro (sic) Ricardo Salles.

Já na campanha Bolsonaro anunciava a desmontagem do Ibama, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (acompanhamento ambiental por satélite), Funai, das reservas indígenas e de toda a defesa ambiental. O já precário sistema de fiscalização florestal foi, de fato, destruído na Amazônia e no Pantanal. Por Salles e seus prepostos. Por ordem de Bolsonaro.

A proibição, sem sequer hipótese de justificativa, de destruição do maquinário de garimpo ilegal e de tratores e serrarias do desmatamento clandestino foi óbvia proteção de Bolsonaro aos criminosos e seu enriquecimento compartilhado. A dispensa ilegal, mas acobertada, de licenciamento para exploração da terra amazônica é objeto de iniciativa do governo para legalizá-lo. E por aí segue a sequência de ações contra a riqueza do solo e do povo amazonense.

Ou a ação de cima e a operação direta são coordenadas, ou a madeira, o ouro e minerais valiosos nem sairiam do chão, quanto mais chegar a portos dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia. E essa coordenação numerosa, profissional, de cima a baixo, tem nome no Código Penal: quadrilha. No caso, como disseram os americanos, quadrilha internacional.

Nada surpreendente. Relações várias, próximas e financeiras com milícias. Apropriação de dinheiro público por extorsão dos vencimentos de funcionários reais e fantasmas. Controle da Abin e da Polícia Federal com direções subservientes. Entrega do Meio Ambiente a um condenado por improbidade quando secretário do Meio Ambiente de Geraldo Alckmin. O desmantelamento anunciado e realizado. Ah, sim, e milhares de militares da ativa e da reserva do Exército compondo um exército de guarda-costas políticos e judiciais, em proteção ao grande assalto. O que poderia sair desse conjunto não é mais nem menos do que saiu.

Coisas de internet

O presidente Bolsonaro, ao que tudo indica, conseguiu convencer os militares de que a política vive de aparências e de promessas vãs, que não precisam ser cumpridas. Seria uma espécie de prestidigitação para enganar o cidadão eleitor. Militar que saiu dos quartéis diretamente para a arena política defendendo seus companheiros em reivindicações salariais e corporativas que os fardados não podem fazer, Bolsonaro ficou quase 30 anos praticando a baixa política, que deu a ele e aos filhos uma vida confortável através de artifícios como a “rachadinha” dos salários dos funcionários dos seus gabinetes, e a manipulação de outras verbas de representação, fundos partidários e eleitorais. 

Pequenos assassinatos morais cotidianos, que não são exclusivos dos Bolsonaros mas, levados ao centro de decisão do país, distorcem permanentemente a prática política. Deve-se a essa distorção moral o grave fato de o General de Divisão da ativa Eduardo Pazuello ter a audácia de dizer, em uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que a frase emblemática que proferiu - “A questão é simples, um manda, e o outro obedece”- era “coisa da internet”, apenas para impressionar o público das redes sociais, que estava cobrando de Bolsonaro uma posição depois que ele, como ministro da Saúde, havia anunciado a compra da vacina Coronavac, “a vacina chinesa do Dória”. 

Essa encenação revelada candidamente por Pazuello demonstra a que ponto Bolsonaro conseguiu condicionar os militares que o rodeiam e apoiam para assumirem situações de envergonhar uma pessoa de bem. É sabido que Bolsonaro, eleito por 57,7 milhões de votos no segundo turno, sempre disse a seus assessores que quem entende de política é ele, cortando-lhes qualquer possibilidade de argumentação contrária. 

Essa crença foi fazendo com que os militares que o cercam fossem perdendo a condição de aconselha-lo, como parecia ser o papel que exerceriam no governo Bolsonaro. Mas, acreditar nessa expertise política a ponto de se submeter a situações vexaminosas, vai uma grande diferença. 

O General Braga Neto, que já exerceu a chefia do Gabinete Civil, continua, na visão de muitos militares, fazendo política no ministério da Defesa, embora ele mesmo tenha garantido que as Forças Armadas jamais aceitariam politizar os quartéis. O General Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), ficou marcado durante a campanha eleitoral por uma declaração forte contra o Centrão, agrupamento político de centro-direita. 

“Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”, sucesso dos “Originais do Samba”, onde pontuava o grande Mussun, cantou, surpreendentemente, o circunspecto general, para mostrar sua rejeição ao Centrão. Era o tempo em que a candidatura de Bolsonaro representava,  vê-se agora que não no sentido de “simbolizar”, mas no de “encenar”, a tolerância zero com a corrupção, se contrapondo às gestões petistas marcadas pelos mensalões e petrolões da vida recente do país. 

O que esperar de um austero General quando o presidente Bolsonaro se aproximou do Centrão, fechando uma parceria política no Congresso para se proteger de um impeachment? Ainda mais depois que o ex-ministro Sérgio Moro fora pressionado a sair do governo pelo empenho do presidente em “controlar” os órgãos de controle para proteger seus filhos de acusações de corrupção? 

Deveria pedir o boné metafórico e ir para casa, não? Pois não apenas ficou no cargo como, dias atrás, deu uma explicação inacreditável: “Mudei de opinião. Vi que o Centrão faz parte do show político”. É uma confissão de capitulação, a mesma que o General da ativa Eduardo Pazuello fez ao afirmar que o que o presidente diz nas redes sociais, não se escreve. Serve apenas para distrair seus milhares de seguidores, base ativista de sua força política. Ou que a aliança com o Centrão, que antes via como um antro de ladrões, agora é aceita como parte necessária da luta político-partidária. 

Longe vão os dias em que essa turma prometia chegar ao poder central para mudar essa prática. Mas eram apenas promessas para enganar os otários dos eleitores, coisas de internet.
Merval Pereira

sábado, 22 de maio de 2021

Quem sobreviver verá

Que a economia vai se recuperar, eu não tenho dúvida. A questão é quando e quem estará vivo até lá
João Carlos Brega, presidente da Whirlpool na América Latina, dona das marcas Brastemp e Consul

Brado de um ressurgido da Casa da Morte

Estou internado há quase um mês com Covid. Estive próximo à morte. Estive na UTI. Por pouco, meus filhos não ficaram órfãos. Internado, assisti à CPI da Covid. Vi um general se comportar como estafeta. Vi o Exército brasileiro se associar a uma experiência macabra e quase satânica em que os brasileiros se tornaram cobaia da maldade.


Reconhecer que temos um governo inepto e irresponsável não torna ninguém de esquerda ou de direita. É só ver que estamos à deriva, que nos encaminhamos para algo terrível e sob o comando macabro e irresponsável de gente podre. Não que a oposição seja boa ou razoável. Não é. A oposição de hoje possui parcela de culpa pelo sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas o que vivemos no Brasil, hoje, é algo sem comparação, sem precedentes.

Os brasileiros estão sendo exterminados. Brasileiros estão sendo tratados como escória pelo próprio governo. Quantos mais terão que morrer? Quantos mais ficarão órfãos? Eu, por sorte, por graça e misericórdia divina, escapei. Quantos não terão a mesma chance? Até quando o sofrimento causado pelo atual governo nos manterá anestesiados?

1984, distopia premonitória

Raramente releio livros. Ocorreu com alguns clássicos. Mas olho para os livros enfileirados nas livrarias e vejo que ainda gostaria de ler muita coisa na vida. E tendo consciência da finitude de meu tempo pessoal e da infinitude da literatura universal, procuro ler sempre coisas novas. Vez ou outra, consulto livros de economia, ciência política, sociologia ou história para a elaboração de um artigo, texto ou palestra.

O boom de lançamentos e vendas de “1984” e “Revolução dos Bichos” de George Orwell, no entanto, me chamou a atenção e despertou minha curiosidade. Como explicar que os dois livros estejam na lista dos dez mais vendidos nos últimos meses, já que “1984” foi publicado em junho de 1949, refletindo o ambiente do pós-guerra, e o autor tenha morrido há 71 anos?


“1984” é um brado contra o totalitarismo. Li quando tinha 18 anos – 42 anos já se vão – e o Brasil vivia a fase terminal da ditadura militar e a ascensão do movimento pela redemocratização, no qual já militava. Já era um bestseller na época. E agora volta a ser um campeão de vendas.

George Orwell é considerado um dos maiores escritores do Século XX e “1984” sua obra-prima. A qualidade do texto é impressionante e como assinalou o New York Review of Books “... 1984 é uma leitura obrigatória absorvente e indispensável para a compreensão da história moderna”.

As grandes obras-primas muitas vezes são herméticas e difíceis. “1984”, não. Além de encarnar um momento raro da literatura universal, se tornou popular.

A alegoria distópica sobre a vida em Oceânia, o Grande Irmão (Big Brother), o Partido único e totalitário, e o controle ferrenho sobre a dinâmica da sociedade e das vidas individuais, desprovidas de qualquer liberdade, poderiam ser materializadas em diversos eventos históricos reais. As teletelas – que tudo ouviam e transmitiam as notícias e orientações oficiais, os helicópteros espiões, os cartazes e pinturas dizendo “O Grande Irmão está de olho em você”, se espalhavam por todos os cantos de Oceânia.

Os três slogans do Partido, “Guerra é paz”, Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é força”, eram difundidos permanentemente. Como parte da lavagem cerebral e anulação do passado era previsto a substituição da língua, a Velhafala daria lugar até 2050 à Novafala, para atender às necessidades ideológicas do Socing e do duplipensamento, cultura dominante em “1984”. A fakenews era institucionalizada e oficial. A verdade não importava.

O Grande Irmão e o partido poderiam ser a encarnação de Stalin e do PCUS, de Hitler e seus nazistas, de Torquemada e a Inquisição, de ditadores latino-americanos ou africanos. No mundo contemporâneo poderíamos fazer um paralelo com as grandes plataformas de internet e sua capacidade invasiva sobre a privacidade de todos, manipuladas pelos “Engenheiros do Caos” em eleições no mundo todo.

A grande ideia vitoriosa no final do Século XX parecia ser a da democracia e da liberdade após a dissolução da URSS, a queda do Muro de Berlim, a decadência de ditaduras mundo afora. Mas provando que a História, ao contrário do que queria Fukuyama, não tem fim, em anos recentes a democracia passou a ser ameaçada, Trump à frente, por diversos governos populistas autoritários.

“1984” nos chama à eterna vigilância na defesa da democracia como valor universal e inarredável.

Falador passou mal

Cadê o telão?

Foi a primeira pergunta que me fiz, na abertura da CPI do Genocídio. Não havia. Uma CPI municiada apenas por depoimentos, papelada e gravações de áudio, pareceu-me um retrocesso tecnológico diante das possibilidades visualmente comprobatórias oferecidas pelo vídeo.

Até agora, os desmentidos e tira-teimas limitaram-se às evidências arquivadas nos celulares dos senadores da oposição. Ainda é pouco.

Só após o depoimento do ex-ministro Pazuello cogitou-se de contratar uma agência de checagem online e em tempo real, um VAR das afirmações negacionistas feitas à Comissão, inclusive por seus integrantes governistas.

Se essa varredura já se mostrara urgente e crucial na inquirição do ex-chanceler Ernesto Araújo, as contradições e mentiras despejadas na CPI pelo ex-ministro da Saúde a tornaram imprescindível, até para conter o ímpeto falaz da tropa de choque do governo, que, alinhada com o modus operandi bolsonarista, não economiza dados, no mínimo discutíveis, quando não comprovadamente defasados e falsos, para livrar a pele do presidente, tumultuar e desacreditar o trabalho da Comissão.


Alguns deles são tão alinhados com o presidente que ainda nem aprenderam a usar a máscara direito, como demonstrou o senador cearense Eduardo Girão, no segundo dia de depoimento de Pazuello.

O escritor J.P. Cuenca resumiu em quatro frases como operam os jagunços parlamentares do Genocida: “Eles sabem que estão mentindo. Nós sabemos que eles estão mentindo. Eles sabem que nós sabemos que eles estão mentindo. Nós sabemos que eles sabem que nós sabemos que eles estão mentindo”.

Políticos mentem para sobreviver e superviver, mas nada se compara aos que compõem e servem ao atual governo. Mentir é a segunda natureza dos bolsonaristas - ou mesmo a primeira no caso do presidente, que, segundo o jornalista José Geraldo Couto, só disse uma verdade desde que assumiu o governo: “Se a esquerda voltar ao poder, vamos todos para a cadeia”. A ver.

Se o depoimento de Ernesto Araújo foi quase um show de rinocerontite à Ionesco, ao qual faltou, para ser completo, quem lhe perguntasse sobre suas crenças terraplanistas, o de Pazuello tirou 10 em cinismo, omissões, enganosa soberba e espantoso autossacrifício.

Embora nada supere, a meu ver, aquele momento em que o ex-chanceler respondeu a Renan Calheiros: “Fui orientado a isso”, o relator insistiu: “Por quem?”, e Araújo confessou: “Não sei”. Não tenho dúvida de que se combinassem encenar, num quartel qualquer, O Mágico de Oz, nem mesmo um marechal tiraria do ex-ministro da Saúde o papel do Leão Covarde.

Poucos aqui talvez ainda se lembrem do caubói medroso consagrado por Bob Hope na comédia O Valente Treme-Treme. Pois bem, Pazuello revelou-se um tremendo general treme-treme. Com ilustre lastro literário-cinematográfico.

Metáfora de ferimento em combate popularizada pelo escritor Stephen Crane, no romance O Emblema Rubro da Coragem, ambientado na Guerra Civil americana e publicado em 1895. Nele, um medroso soldado do Exército da União, perdido de seu batalhão e com vergonha de ser punido como desertor, procura neutralizar sua covardia deixando-se ferir por uma bala inimiga.

O primeiro “emblema rubro da coragem” de Pazuello foi, ironicamente, a covid. Ao tentar fugir da raia, virou chacota na TV e nas redes sociais, comprometendo a imagem do Exército. Tão evidente ficou seu pânico de enfrentar a CPI que Zé Simão não resistiu à tentação de identificá-lo como um “general da Activia”.

O segundo “emblema” foi o apelo a um habeas corpus, que, autorizado, com ardilosa ressalva, pelo ministro Lewandowski, condenou-o à autoincriminação até sem abrir a boca. Só aí, exposto à implacabilidade do se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, o ex-ministro, convencido de que só quem vai a campo ganha por w.o., surpreendeu a todos abrindo o bico. Falou pelos cotovelos e pazuellos. Não sem antes submeter-se a um treino intensivo de lorotagem. Lascou-se.

E nos lascamos. Ouvir Pazuello falar, com todos aqueles ‘esses’ chiados, por alguns e poucos minutos, já é um suplício auditivo, imagine ao longo de seis horas. O general prestaria enorme gentileza aos circunstantes de modo geral se evitasse o uso do plural em público.

Seu terceiro “emblema rubro da coragem” foi o piripaque de que foi providencialmente acometido no intervalo do primeiro para o segundo tempo, depois de confrontado com uma afirmação em contrário da AGU.

“Falador passa mal”, alertava um velho samba gravado por Jorge Veiga, mote retomado, com umas três décadas de distância, por outros sambistas. Falar mentiras, numa CPI, pode “dar cana”, para usar a expressão do ministro Salles, naquela fatídica reunião ministerial em que ele recomendou “passar a boiada” enquanto a covid monopolizava as atenções de suas eventuais futuras vítimas.

O quase desmaio do general foi outra demonstração de bolsonarismo explícito. Na campanha para a prefeitura do Rio, em 2016, Flávio, primogênito do presidente, quase desfaleceu diante das câmeras da Band, quando debatia com Marcelo Freixo. O confronto direto de ideias parece ter sobre a familícia Bolsonaro o efeito de uma criptonita vagotônica.

Gozaram à beça o Pazuello por ter dito que deixou o governo ao dar por cumprida sua missão. O general, ao menos daquela vez, não mentiu. Sua missão não era salvar vidas, nem sua reputação, e sim o presidente, blindá-lo a qualquer custo. É preciso ter um bocado de coragem para ser tão subserviente.

Pensamento do Dia

 


Um desanda, o outro obedece

Finalmente consegui entender tudo. O Brasil não é um país, o Brasil é um reality show. É o BBB, Big Brother Brazil. Sigam-me o meu raciocínio: ninguém pode sair daqui de dentro e todo dia milhares de participantes são “eliminados”por diversos motivos que vão de Covid, fome e até chacina no Rio.

Neste momento terrível, eu gostaria de falar sobre o pancadão sofrido pelo MC Kevin, eu queria dar a minha opinião a respeito da barba do William Bonner, mas não tem jeito: sou obrigado a escrever sobre o General Pançuello, ex-sinistro da Saúde. Fiel como um cão de guarda, o general mostrou na CPI da Covid que é um grande especialista em logística sincronizada: ao mesmo tempo que não comprou as vacinas da Pfizer, deixou de enviar oxigênio para Manaus.



Bem treinado, Panzoeiro livrou a cara do seu dono, o presidente Jair Bolsovac, que prometeu lhe dar uma ração extra de Purina se desse um depoimento a seu favor na TV Senado, a MTV dos velhos. Agora o militar está louco para dar a sua patinha (qualquer uma das quatro) e rolar no chão do Alvorada. Eu não sei por que o senador Renan Canalheiros não deu voz de prisão e mandou o general pro canil.

Mas chega de metáforas caninas, mesmo porque o general Pardiello parece mais um porquinho de desenho animado da Disney. Aliás, a única coisa robusta no “depoimente” do general amestrado foi a sua figura rotunda e adiposa. O peso acima de tudo e Deus acima de todos!

A CPI (Cumichão Parlamentar de Inquérito) agora descobriu a internet e muitos participantes, ao invés de encostar os envolvidos na parede, ficam postando selfies pro Instagrana e até dancinhas pro Tik Tok. Outros, mais espertos, aproveitam para monetizar suas participações e estão fazendo merchandising de automóveis, roupas e até maquiagens, muito utilizadas para esconder as rugas e emendas parlamentares.

Por falar nisso, outro que está enrolado é o ministro de Meio Ambiente, Ricardo Malles. A PF agora quer saber porque o ministro tirou uma comprometedora foto com várias toras de madeira roçando nas suas costas (não tão quentes). Em sua defesa, o ministro cara de pau alegou estar cumprindo ordens do presidente. Como bom militar, Bolsonauro quer pintar de branco até a metade todas as árvores da Amazônia e transformar os pastos em campos de futebol que, quando não tiver pelada, podem servir de pasto para o seus ministros e parentes.
Agamenon Mendes Pedreira é ambientalista de Cristo

Cara de pau também veste farda

[Pazuello] apresentou as razões dele, aí tem aquele contraponto de sempre: ‘Ah, tá mentindo, tá isso, tá aquilo’. Isso faz parte do dia a dia da CPI. Eu acho que o Pazuello foi firme, foi seguro e não deixou nada sem resposta.
Conheço o Eduardo Pazuello já há bastante tempo. Não tenho ele como um mentiroso. Para mim, ele falou a verdade
Hamilton Mourão, general vice-presidente

Mentem, e a CPI nem aí

O general Eduardo Pazuello desferiu o mais grave ataque contra a democracia brasileira desde o início da CPI da Covid. Um ataque que não foi suficientemente apontado. E um ataque que tem por cúmplice involuntário o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM). Não há gente suficiente percebendo a gravidade da naturalização da mentira que está ocorrendo ao longo destes depoimentos e de que a CPI é cúmplice. Não estão percebendo que é abrir mão da verdade no debate público que faz corroer a democracia.

O primeiro a mentir foi o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten. Afirmou que nada tinha a ver com uma campanha desferida sob seu comando contra a política de isolamento social. O relator, Renan Calheiros (MDB-AL), quis prendê-lo em flagrante. Aziz não topou — e a decisão é dele. Aí o ex-chanceler Ernesto Araújo negou ter atacado a China. Há tuítes, artigos assinados, vídeos. Não importa. Fez na cara dura, escondeu-se atrás da máscara e simplesmente mentiu.

Nunca havia se mentido numa CPI de forma tão descarada, com provas do contrário a um Google de distância. E é por isso que o depoimento do ex-ministro da Saúde é muito mais grave do que o dos outros. Wajngarten e Araújo mentiram fingindo falar a verdade. Pazuello não. Ao dizer que jamais recebeu ordens para não comprar vacinas do Instituto Butantan, foi confrontado com o vídeo em que afirmou “um manda, o outro obedece” perante justamente essa ordem. Dada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. Pazuello não titubeou: “é coisa de internet”, feita por “agente político”.



Ou seja, na lógica torta do ministro, o presidente mente para seus eleitores e fãs, e isso é normal. Pazuello não fingiu que a mentira era verdade. Pazuello chamou a mentira de mentira e falou que é assim que se faz política.

Talvez seja essa a impressão que os generais tenham de políticos. Que seu trabalho é mentir. Se for, estão errados. O trabalho dos políticos é trazer à mesa as diversas correntes de opinião presentes numa sociedade e negociar as diferenças. Sim, sempre houve mentiras. Mas, quando pegos em mentiras, políticos sofriam consequências.

Quem estuda o assunto vem usando um termo — truth decay. Decaimento da verdade. Em química, decaimento é o lento processo pelo qual o núcleo instável de um elemento perde energia por radiação. Em biologia, é o igualmente lento apodrecimento de um corpo pela ação de bactérias ou fungos. A palavra está em voga nas Ciências Humanas. Decaimento da verdade é quando lentamente uma sociedade deixa de ligar para a verdade, para o consenso a respeito de um conjunto básico de fatos.

Decaimento democrático é o que vivemos quando há decaimento da verdade.

Jair Bolsonaro mente. É sua prática corriqueira. Seus eleitores sabem disso — apenas não ligam. Para eles, é até engraçado. Mas, para que a mentira se estabelecesse a ponto de ameaçar a democracia, ela precisou antes ir lentamente se esgueirando até se legitimar. Naquela campanha dura, agressiva e canalha que foi a da eleição presidencial de 2014, Dilma Rousseff tirou Marina Silva do segundo turno com publicidade de TV que mentia. Escancaradamente. Agora, Ciro Gomes, candidato à Presidência em 2022, contratou o marqueteiro que produziu aquilo para ajudá-lo a chegar ao Planalto.

Políticos estão legitimando a mentira.

Alguém precisa fazer algum gesto. O gesto é a prisão de quem mentir sob juramento escancaradamente dentro do Congresso Nacional. Sem um gesto grande, estamos entregues ao apodrecimento da democracia, acelerado pelas redes sociais. É preciso ação. O decaimento lento da verdade está em suas fases finais.
Pedro Doria

Pior mal da Índia é a crônica falta de ética

Não há dúvida de que o governo indiano tem sido altamente incompetente no tratamento da pandemia de covid-19. Antes de desejarmos uma mudança de governo, é necessário compreender o nadir dos valores éticos que desempenhou um papel vital na maior crise humanitária da Índia independente.

Muitas pessoas foram privadas de sua saúde mental, sanidade e dinheiro nesta pandemia. Não há mais regras se você quiser salvar alguém. As pessoas estão pagando até 50 mil rúpias (R$ 3,6 mil) por uma ambulância; e o dobro disso ou mais por dia para internar seu ente querido em um hospital. Estamos pagando preços de mercado negro para comprar itens de necessidades básicas, como oxigênio medicinal e medicamentos antivirais.
Sistema ético fracassado

Como chegamos a esse estágio de desequilíbrio ético e revogação moral?

Tivemos quase 75 anos para criar uma democracia para proteger os necessitados e criar oportunidades para pessoas de diferentes castas e classes. Em vez disso, os privilegiados acumularam mais privilégios, e os pobres ficaram mais pobres.

Nas últimas sete décadas, necessidades básicas como saúde de qualidade ficaram confinadas ao setor privado, que atende principalmente aos privilegiados ou aos que têm bons relacionamentos. Quando a pandemia pressionou o setor privado, os ricos e privilegiados exerceram toda a influência possível para beneficiar seus entes queridos, deixando os necessitados à deriva.


Hoje, o homem mais rico da Índia não está disposto a desperdiçar nem mesmo 10% de sua riqueza para ajudar o mesmo país cujo sistema quebrado lhe permitiu ganhar até um quarto do PIB do país. Enquanto isso, celebridades pedem doações de cidadãos de um país onde quase 30% da população vivem abaixo da linha da pobreza.

A pandemia também revelou a grosseira falta de ética de altamente qualificados membros da administração e policiais. Por que a maioria de nossos burocratas é incapaz de administrar o país com eficiência ou responsabilizar políticos mas pode ser encontrada na linha de frente para garantir favores para si e seus filhos?

Há um ditado comum na Índia que diz que, em qualquer coisa que envolva o governo, o processo será lento e os funcionários públicos serão preguiçosos. Isso aconteceu porque construímos um sistema que reduziu os competentes à incompetência.

Um país que deseja se tornar uma economia de 5 trilhões de dólares deve primeiro inspirar confiança em seu sistema antes de estabelecer metas mais ambiciosas.

É hora de os indianos pararem de procurar modelos para escapar de sua realidade e começarem a defender uma reforma real. Temos que aceitar que nossas vidas não serão resolvidas por dinheiro, bons diplomas, imigração para o Ocidente, gurus religiosos ou por nos tornarmos servidores do governo.

Nossa vida neste país é muito maior do que perseguir objetivos superficiais, e é nossa responsabilidade trabalhar coletivamente para o desenvolvimento.

Mas desenvolvimento é um termo pluralista e requer esforço coletivo. O primeiro passo é valorizar nossa estrutura federal e trabalhar para fortalecer nossos governos estaduais.

O centro político, liderado pelo Partido do Povo Indiano (BJP), do premiê indiano, Narendra Modi, existe para facilitar a administração, mas não para se tornar o palco central do vil fanatismo religioso. A política religiosa simplesmente fará mais mal do que bem à Índia, pois vai dividir a nação. O conceito de dividir para governar foi usado pelos britânicos para dividir a Índia em duas religiões, mas não devemos voltar a essa rota se realmente queremos nos livrar de nossa ressaca colonial.

O partido no poder deve estar à frente da curva e se preparar para a próxima onda da pandemia e criar salvaguardas para os necessitados. O primeiro passo nesse processo é não fazer das vacinas, uma necessidade básica, uma reserva dos privilegiados.

É verdade que a Índia precisa ver mudanças, o mais rápido possível. Mas, antes de clamarmos por mudanças, é necessário que enfrentemos essa podridão dentro de nossa ética que vai rasgar o tecido de tudo que vier em seu caminho – até mesmo um novo governo.
Ankita Mukhopadhyay