terça-feira, 10 de novembro de 2020

O 'Viva la Muerte!' de Bolsonaro

Ontem, 9 de novembro de 2020, foi um dia feliz para a espécie humana: a Pfizer anunciou que a vacina contra a Covid-19 produzida pela empresa, em parceria com a alemã Biotech, obteve 90% de eficácia nos testes realizados até o momento. Até então, estimava-se que as vacinas em desenvolvimento poderiam ter, em média, 50% de taxa de imunização efetiva. É uma excelente notícia porque agora temos uma porta de saída mais larga para o flagelo que golpeia as nossas vidas, em qualquer latitude. Ainda vai demorar um pouco para atravessarmos o umbral que nos levará de novo a ter um cotidiano normal, visto que é preciso produzir e transportar bilhões de doses, mas a passagem existe e é alcançável.

Cerca de 24 horas depois do dia feliz para a espécie humana, os brasileiros foram presenteados pelo presidente Jair Bolsonaro com o dia da infâmia. Ele comemorou no Facebook o fato de Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ter interrompido os testes com a vacina do laboratório chinês Sinovac, comprada pelo governador de São Paulo, João Doria, e que será produzida também pelo Instituto Butantan. Um dos voluntários morreu e o estudo clínico foi suspenso pela agência para verificar se o óbito guarda relação com a vacina ou não (já se sabe que a resposta é negativa).

A comemoração de Jair Bolsonaro foi no Facebook. Ele compartilhou uma postagem de um admiradora, que escreveu o seguinte:


“Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha.”

Ele ganha…

“Viva la muerte!”, porque é disso que se trata. O presidente da República Federativa do Brasil comemorou a morte de um cidadão brasileiro. Comemorou a morte de um voluntário de um teste com uma vacina que pode preservar a vida de milhões de cidadãos brasileiros, igualmente. Comemorou a morte com uma notícia falsa, já que a vacina não causa invalidez e anomalia — pelo contrário, ela tem se mostrado bem segura — e a morte do voluntário, de acordo com as autoridades paulistas, não está relacionada à administração da vacina. Comemorou porque só tem olhos para o adversário político João Doria, não para a saúde dos brasileiros, como vem sobejamente demonstrando desde o início da pandemia. Comemorou sem lembrar-se de que os testes com a vacina da AstraZeneca, produzida em parceria com Oxford e comprada pelo governo federal, também foi interrompido por causa da morte de uma voluntária — e logo retomado.

A Anvisa anunciou a suspensão ontem à noite e pegou o Instituto Butantan de surpresa. “Falha de comunicação” e “preocupação exagerada”, contemporizou Dimas Covas, presidente da instituição. As evidências mostram o contrário: tem cheiro, cor e forma de politicagem para satisfazer Jair Bolsonaro, que considera uma vitória pessoal a suspensão do teste com a vacina comprada pelo governador João Doria. Suspensão causada pela morte de um cidadão brasileiro, repita-se.

De acordo com este site, Doria disse a um interlocutor que “Bolsonaro jogou gasolina nas suas próprias vestes, não merece nenhuma resposta”. Não sei você, mas estou enojado com mais esse ato de psicopatia do presidente da República Federativa do Brasil. Precisamos atravessar também esse umbral. Será a melhor resposta.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Donald Trump era um exemplo para Bolsonaro, Joe Biden é bom aviso

Na contramão dos principais líderes do mundo, Jair Bolsonaro ignorou a vitória de Joe Biden. Absteve-se de parabenizar o vitorioso. Não se deu conta de que ignorar é a pior forma de lidar com a ignorância. Natural. A derrota de Donald Trump deixou Bolsonaro zonzo. Ele demora a enxergar duas obviedades: Trump nunca foi um bom exemplo. Mas Biden tornou-se um fabuloso aviso.

Bolsonaro não gosta de ler. Mas deveria desperdiçar um naco do seu domingo lendo o discurso da vitória, pronunciado por Biden na noite de sábado. É um discurso curto. Pode-se atravessá-lo em 15 minutos. A leitura será mais proveitosa se o capitão prestar atenção a trechos como o que vai reproduzido abaixo:

"A Bíblia nos diz que para tudo existe um tempo, um tempo para construir, um tempo para colher, um tempo para semear. E um tempo para curar. Esta é a hora de curar na América." Trocando-se América por Brasil, o discurso poderia ser lido por Bolsonaro em rede nacional de rádio e tevê.

Biden não esclareceu, mas referia-se a uma passagem do livro de Eclesiastes (3:1-8). Ensina que há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. Tempo de matar e tempo de curar. Tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las. Tempo de rasgar e tempo de costurar. Tempo de odiar e tempo de amar. Tempo de lutar e tempo de viver em paz

A exemplo dos Estados Unidos, o Brasil amarga duas patologias: a Covid e a polarização. Contra a primeira, ainda não há vacina de eficácia comprovada. O número de mortes declina. Mas o vírus continua matando. Contra a segunda, há dois velhos imunizantes à disposição: sensatez e moderação.

"Prometo ser um presidente que não vai dividir, mas unificar", declarou Biden. "É hora de colocar de lado a retórica dura, baixar a temperatura, nos vermos novamente, nos ouvirmos novamente e, para progredir, temos que parar de tratar nossos oponentes como nossos inimigos. Eles não são nossos inimigos. Eles são americanos."

De novo: substituindo-se "americanos" por brasileiros, o discurso poderia ser lido num pronunciamento do presidente brasileiro em rede nacional. Mas não passa pela cabeça de Bolsonaro dizer algo parecido. Sua ascensão à Presidência, assim como a chegada de Trump à Casa Branca, foi uma consequência direta da polarização.

O lógico seria que, depois de eleito, Bolsonaro virasse um presidente de todos os brasileiros, inclusive dos que não votaram nele. Mas ele passou a governar para um terço da população. Trump fazia parecido. Deu no que está dando.

A exemplo do ídolo americano, Bolsonaro coloca na receita do seu pudim raiva e desinformação em doses que podem ser letais. Abusa da sorte. Num instante em que o vírus apresenta a Trump a conta do negacionismo, Bolsonaro faz política com uma vacina contra o coronavírus.

A melhor hora para mudar é quando a mudança ainda não é necessária. Trump perdeu a sua hora. Bolsonaro desperdiça o seu momento desde o dia da posse. É como se desejasse ser engolido pela lógica de um outro conhecido preceito bíblico. Está no mesmo livro de Eclesiastes, no capítulo 1, versículo 9.

Diz o seguinte: "O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol." Ao macaquear Trump a ponto de ser derrotado junto com ele, Bolsonaro parece convidar o eleitor brasileiro a mimetizar os americanos que elegeram Biden. O ano de 2022 pode ficar parecido com 2020.

O caminhão da mudança chegou: a nova ordem mundial do despejo

Junte tudo que é seu - os comprimidos de hidroxicloroquina, as bíblias de araque que você não leu, os tweets em caixa alta, a bílis escorrendo no canto da boca – e, vá, se mande, faz o que mais dia menos dia se torna inevitável na vida de todo ignorante empoderado. Sai de fininho, o rabo entre as pernas, deste palácio que não te pertence mais. Tudo passa, chegou a hora de pastar longe daqui.

Hoje é você, amanhã será o outro que te arremeda, e esta ordem de despejo que ora aqui se apresenta devia estar pronta, afixada desde sempre, na porta dos fundos dos gabinetes de todos os adoradores da morte, do autoritarismo e do preconceito. O pé na bunda lhes é destino e ponto final, seja na Pensilvânia, Roraima ou Irajá.

Fora, malandragem, com a tralha de tacos de golfe, camisas de time de futebol, piadinhas homofóbicas, caneta Bic, e volta ao condomínio da tua insignificância municipal. O mundo gira, a Lusitana roda, e o caminhão de mudança já está na porta para carregar os cacarecos dourados da cafonice, a máquina de bronzear laranja, a arma embaixo do travesseiro, o muro na fronteira e toda a traquitana maligna da falta de consideração pelo próximo. Deu pra ti, grosseirão!

Os votos demoram a ser contados, alguns chegarão apenas no próximo domingo, outros ainda em dois anos, mas eis que já se fazem evidentes os trovões de volta à civilidade e eles estão mostrando a porta da rua para que você saia sem alguém lhe bater. Prazo de locação vencido. A tristeza não é mais senhoria. Faz as malas, pica a mula, puxa o carro, vaza, sebo nas canelas, rala peito - e não tenha o topete de aparecer tão cedo.

Deixa as emas na santa paz laica do quintal. De resto, encaixota os demônios vermelhos com que você assustava a vizinhança. Leva também a seringa para injetar desinfetante na veia dos seus doentes, a luz ultravioleta para combater o vírus da família e todas a cristaleira de mentiras, decretos de incentivo ao caos, ao tiroteio, ao golden-shower e ao uso do leite moça no recheio do pão. 

Desta vez não é uma gripezinha, é o cartão vermelho, o fim de jogo e o suspiro aliviado por quem já vai tarde. Os supremacistas, os milicianos, a Fox News, os guardiões dos hospitais, os juízes conservadores, os generais de pijama, todo esse exército de homens de bem, com Deus no peito e a suástica no coração, foi insuficiente para convencer os demais inquilinos de que o ódio seria bom pastor e vizinho. Hoje não tem cantoria de pastor gospel, mas a decisão unânime dos moradores - você está despejado!

Pela vulgaridade ideológica, por falar aos gritos, palavrões aos berros, desprezar máscaras, gays, negros, mulheres e todos os funcionários do palácio. Posto isso, enquanto não se faz obrigatória aos governantes a vacina do bom senso, a assembleia aqui reunida resolveu aplicar em vossa ex-excelência este artigo primeiro, parágrafo único, da lei internacional do ponha-se-no-olho-da-rua. Favor deixar a chave na portaria e pagar os atrasados. Atenção: o condomínio não aceita dinheiro vivo.

Entre a águia e o dragão

— Espera! — exclamou Ega. — Lá vem um “americano””, ainda o apanhamos.
— Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
— Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma…
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atribulando as pernas magras:
— Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…
A lanterna vermelha do “americano”, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
— Ainda o apanhamos!
— Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o “americano”, os dois romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
("Os Maias", Eça de Queiroz, 1888)

Essa alegoria do escritor português que tanto influenciou nossa literatura encerra um grande “afresco” literário sobre a atávica e parasitária elite lusitana e a situação de estagnação de Portugal no final do século XIX. Serve sob medida para a situação em que se encontram o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das não-Relações Exteriores, Ernesto Araujo, que agora correm atrás do prejuízo como a dupla Carlos Maia e João da Ega, por causa da vitória de Joe Biden, candidato do Partido Democrata nas eleições para a Presidência dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, um demagogo tresloucado que ocupou a Casa Branca por 4 anos e levou muitos a acreditarem no naufrágio da civilização ocidental, foi escolhido por ambos como aliado incondicional. Entretanto, mais uma vez, a democracia americana se recuperou de um desastre político e retomou o seu curso histórico.

No mundo globalizado — traumatizado por uma pandemia que já matou 1,4 milhão de pessoas, a recessão dela decorrente e o aprofundamento das desigualdades —, falta uma autoridade moral, portadora de valores universais capazes de influenciar a marcha da História, à qual a sociedade contemporânea possa recorrer. O Velho Mundo, com suas ideias iluministas e protagonista da história mundial do século XV ao XIX, hoje não é o candidato natural a essa posição. Somente os Estados Unidos podem exercer esse papel de liderança global nos fóruns internacionais, pela universalidade de seus fundamentos políticos, sua composição étnica e multiculturalismo, além do inegável poder que adquiriu no século passado, após vencer duas guerras mundiais e a “guerra fria”. Nenhum outro país reúne, simultaneamente, capacidade de produção industrial, força militar, pesquisa científica, conhecimento, tecnologia e influência política e cultural para isso.


Misógino, homofóbico e chauvinista, Trump havia abdicado desse protagonismo, lançando os Estados Unidos na contramão da História. Mas é um erro supor que tudo começou com o republicano. Na verdade, o erro histórico dos Estados Unidos foi continuar a tratar os vencidos na “guerra fria” — a antiga União Soviética e os países do Leste europeu — como inimigos a serem humilhados, espoliados e isolados politicamente. É esse hegemonismo truculento que está na gênese do trumpismo, marcadamente após a Guerra do Iraque, com o seu intervencionismo para derrubar regimes e refundar nações, alterando abruptamente a geopolítica de regiões inteiras. O ponto de inflexão dessa política, porém, foram os fracassos nas tentativas de derrubar os governantes da Síria, Bashar al-Asha,d e da Venezuela, Nícolas Maduro, por subestimar o poder de intervenção militar da Rússia e a emergência da China como potência econômica e diplomática.

No seu livro Sobre a China, Henry Kissinger, ex-secretário de Estado norte-americano, que no governo Richard Nixon negociou com êxito o restabelecimento das relações dos Estados Unidos com os chineses, chamou a atenção para o fato de que as duas guerras mundiais do século XX resultaram de uma disputa pelo controle do comercio mundial no Atlântico por uma potência continental, a Alemanha, e uma potência marítima, o Reino Unido. Agora, o eixo do comércio mundial se deslocou para o Pacífico e a disputa continua sendo entre uma potência continental e uma marítima: China e os Estados Unidos, respectivamente. É preciso evitar que essa guerra comercial não se transforme numa guerra quente, não se cansa de advertir Kissinger, o ex-diplomata hoje nonagenário.

O erro estratégico de Bolsonaro e seu não-chanceler, Ernesto Araujo, foi acreditar que isolamento diplomático em que o país mergulhou, por causa de uma agenda negacionista, reacionária e antiambientalista, seria compensado pela aliança imediatista, não com o Estado norte-americano, mas com o presidente Trump. Deu errado. A águia do Norte novamente alçou voo, em busca da liberdade, mas o dragão chinês, nosso principal parceiro comercial, espreita o processo em curso antes de estrugir labaredas de fogo. A China dispõe de recursos humanos e financeiros, capacidade industrial e tecnologia para sustentar essa disputa por longos anos. O maior desafio para a diplomacia brasileira é não virar marisco nessa disputa, que continuará com Biden, em outros termos. Bolsonaro colecionou agressões aos chineses, que pacientemente observam o curso de nossas relações com os Estados Unidos. Se forem toscamente discriminados, principalmente no caso do 5G, vão se reposicionar política e comercialmente, com um poder de retaliação muito grande. Se tem uma coisa que falta ao governo Bolsonaro é politica externa independente e pensamento estratégico. O alinhamento com Trump foi o melhor exemplo.

Pensamento do Dia

 


Trump, Bolsonaro e o manual do golpe de Estado

Quando um governante não tem votos para ficar no cargo, ele pode sair de forma graciosa ou se agarrar à cadeira. Os autocratas que escolhem o segundo caminho costumam recorrer a um arsenal conhecido: 1) apoio dos militares; 2) mobilização de grupos partidários nas ruas; 3) colaboração do Judiciário; 4) adesão do establishment político.

Nem todas as armas precisam ser acionadas de uma vez, mas a combinação de algumas pode garantir a sobrevivência do derrotado. Nos EUA, Donald Trump arquitetou um plano para contestar a eleição e continuar na Casa Branca, mas deve ter dificuldade para preencher os requisitos desse manual do golpe de Estado.

Na esfera da força, o americano tem o apoio de extremistas que ele fez questão de afagar ao longo do mandato. Esses radicais são úteis para criar um ambiente de instabilidade que pode estimular a reversão do resultado das urnas. De outro lado, seria mais difícil contar com líderes militares, que já demonstraram incômodo com os métodos de Trump.

Falta proteção no campo institucional. O presidente ocupou espaços em tribunais federais e construiu uma maioria confortável na Suprema Corte. O Judiciário pode até legitimar questionamentos sobre a contagem de votos se Trump apresentar provas, mas há dúvidas sobre o grau de fidelidade dos juízes diante de um movimento golpista.

O americano também precisaria de respaldo do establishment republicano para sustentar um governo com origem na derrubada de uma apuração. Líderes do partido se dividiram quando Trump fez acusações vazias de fraude: Mitt Romney e Chris Christie foram críticos ao presidente, Lindsey Graham defendeu a tese, e muitos ficaram em silêncio.

Faltou proteção também no campo institucional. O presidente ocupou espaços em tribunais federais e construiu uma maioria confortável na Suprema Corte. O Judiciário ainda pode legitimar questionamentos sobre a contagem de votos se Trump apresentar provas, mas há dúvidas sobre o grau de fidelidade dos juízes diante de um movimento golpista.

O americano ainda precisaria de respaldo do establishment republicano para sustentar um governo com origem na derrubada de uma eleição. Líderes do partido se dividiram quando Trump fez acusações vazias de fraude: Mitt Romney e Chris Christie foram críticos ao presidente, Lindsey Graham defendeu a tese, e muitos ficaram em silêncio.

O desfecho dessa jogada pode dar pistas sobre o Brasil. Jair Bolsonaro tem chances de se reeleger, mas já deu sinais de que não pretende reconhecer uma derrota nas urnas. O presidente também dependerá da disposição dos generais, da agitação de seus radicais, da boa-vontade de juízes e do desejo do centrão.

Leão precisa de voz


Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador
Eduardo Galeano

A ignorância especializada e a cegueira autoritária

A tecnologia e a sociedade do conhecimento revolucionaram o conceito de ignorância.

Em tese, ler, estudar, pesquisar, escrever ficaram mais fácil: basta um clique. Porém, este clique pode sufocar as pessoas com informações e besteirol que fundem a cabeça e, no limite, adoecem.

Com efeito, os desatinos do vício tecnológico criaram dois tipos de ignorantes: o generalista e o especialista.

O ignorante generalista dá impressão de que sabe muito de muita coisa. Atende, com prazer, quem está a fim de escutar lições sem a profundidade de uma polegada. A preferência é a autoajuda, ensinar como ser feliz e bem-sucedido. Eles articulam banalidades solenemente. Têm opinião sobre tudo. O pior, opinam. Nos últimos dias, deitaram e rolaram sobre política externa.

O ignorante especialista, em tempos analógicos, lia a orelha do livro e arrotava saber e erudição. Mas façamos justiça: é o cara que sabe cada vez mais de cada vez menos. Não por modéstia, mas para figurar em debates para vencer e ter razão, sem compromisso com o esforço de iluminar novas ideias.

Por vários motivos, Umberto Ecco jamais será esquecido. Lúcido e mordaz, detonou a internet: “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar do que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”.

Em tempo de eleição, o tema invadido é a política, assunto complexo, agravado pelo vigor editorial sobre a “crise da democracia”. Em se tratando da eleição americana, vieram à tona “especialistas” nos mecanismos da democracia representativa estadunidense, construção secular robusta e que, por isso, supera ameaças, inclusive, dos que chegaram ao poder pelos seus caminhos.

A histórica eleição americana vai na contramão da atual regressão democrática, representada por autocratas que seriam reforçados com a reeleição de Trump. Ainda assim, perduram, mundo afora, ameaças ao regime democrático.

Sem cair na tentação de ignorante especialista (até porque compartilho com Karnal: “A ignorância é uma benção”), muito me agrada a definição minimalista de democracia de Adam Przeworski, inspirado em Schumpeter, Popper e Bobbio: “Democracia é simplesmente um sistema no qual os ocupantes do governo perdem eleições e vão embora quando perdem”.

Aí está a essencialidade do regime democrático que é a possibilidade de alternância pacífica do poder. E a capacidade de resistir aos ímpetos da tentação totalitária.

O espetáculo da eleição americana tem um ator/espectador que não apenas ignora a simplicidade do que os eleitores disseram: “Vá pra casa Trump". E não é a Casa Branca. A "soberância", mistura de soberba com ignorância (seletiva, especializada), expõe mais do que a legítima dor de uma derrota eleitoral: evidencia uma personalidade doente com graves traços de desequilíbrio mental.

Começa por um autoritarismo devidamente identificado; vai se ampliando na medida em que sofre o ataque do voluntarismo infrene e infantilizado (quero tudo agora e sempre, esperneia, grita, berra, mas não vai conseguir); atinge o clímax, quando a ferida narcísica passa a ditar comportamentos patológicos.

A origem? O mito de Narciso. Ele cultuava uma beleza que julgava possuir e, ao se ver refletido no espelho d’água, apaixonou-se pela própria imagem, em tamanha autoadmiração que ali morreu sufocado pela própria libido.

O transtorno mental segue presente: a realidade é inaceitável, daí a negação de evidências o que revela a dissonância cognitiva a agravar a perturbação psíquica.

O remédio para um cara que se constituiu, enganando, iludindo, não seria de bom tamanho chegar como um aventureiro ao poder da maior potência mundial? Será que a leitura das eleições que revela um equilíbrio de forças, ainda que polarizada, não o satisfaz? Nada satisfaz ao Ego desse senhor. Se fosse presidente de uma república menos sólida, daria sem pestanejar um golpe de estado. Um homem sem qualidades para liderar os Estados Unidos, colocando em risco a paz mundial.

Não me venham com argumentos falaciosos sobre o sistema eleitoral americano. Tem duzentos anos de funcionamento sem interrupções. Os americanos discutirão, democraticamente, uma agenda de aperfeiçoamentos.

Ao fim e ao cabo, a democracia cumpriu seu papel primordial e simples. Segue globalmente ameaçada, mas tem anticorpos, vacina suficiente para prevenir e curar o pesadelo de uma pandemia autoritária.

Eleições e redes sociais

As eleições americanas saíram do cardápio de quatro anos atrás, assim como das últimas eleições brasileiras. Se nessas e naquelas a política do ataque e do uso intensivo das redes sociais foram a tônica preponderante, a situação agora mudou completamente. O novo presidente eleito, Joe Biden, é um político moderado, sem o dom da palavra, chegando a gaguejar, e o seu emprego das redes sociais foi em muito inferior ao de seu adversário.

Trump é um político destemido, demagógico que parece acreditar em tudo o que diz por maiores que sejam suas mentiras, em flagrante contradição consegue mesmo. Não recua diante de nada. Se se pode dizer que a sua derrota se deve em muito à pandemia, não é menos verdadeiro dizer que sua comunicação social pandêmica não convenceu os seus eleitores. Suas ginásticas verbais e digitais, em muito semelhantes às do presidente Bolsonaro, foram ineficazes. Quando pessoas adoecem e morrem, não há argumentos, por mais engenhosos que sejam, que possam mascarar a realidade. A sorte, neste sentido, do presidente brasileiro consiste em que a próxima eleição presidencial não está logo ali, havendo dois longos anos pela frente. No caso dos EUA, o mundo real tomou o lugar do “mundo” digital.



Em redes sociais, o presidente Trump tem mais de 100 milhões de seguidores. Certo deste apoio acreditou em poder menosprezar a imprensa e a mídia tradicionais, mormente representada pela televisão. Não cansava de atacá-las, crendo disto extrair os maiores benefícios, mobilizando seus apoiadores, em boa parte fanáticos. Joe Biden muito longe se situava neste quesito, tendo feito uma campanha muito mais tradicional. Tinha se tornado quase um dogma que eleições, doravante, se ganhariam ou perderiam nas redes sociais. Ora, as eleições americanas mostram a falácia de tal afirmação. O número de seguidores digitais não se traduziu por votos, muitos dos quais utilizaram o meio mais tradicional: correios, como se estivéssemos no século XIX. O país do Google, da Microsoft, da Apple, do Facebook entre outros não cessa de ser o país da imprensa, das redes de televisão, do rádio e dos correios.

A política do ataque, designando o adversário como um inimigo a ser aniquilado, não produziu os resultados esperados. Note-se que o discurso de extrema direita de Trump foi utilizado para combater um candidato moderado, acostumado à prática do diálogo e da articulação política, não se encaixando no perfil do candidato de esquerda, “socialista”, “comunista”. Para Trump, o concorrente ideal teria sido Benny Sanders, contra quem sua demagogia teria tido melhores condições de ser bem-sucedida. Contra um político de centro foi ineficaz. Não conseguiu alcançar a polarização almejada. Eis mais um ensinamento da eleição americana: a polarização ideológica entre extrema direita e esquerda cessa de ser eficaz quando um candidato de centro entra como contendor, sabendo manter-se nesta posição.

A cena democrática não foi capturada por um discurso demagógico, de extrema direita, que desconfia e menospreza as suas instituições. A tentativa de Trump de judicializar o processo eleitoral, a mobilização de seus seguidores mais fanáticos e a busca do confronto estão fadadas ao fracasso. As instituições americanas são sólidas e o que mais prezam os seus cidadãos é a segurança jurídica e a estabilidade institucional, fontes mesmas do seu progresso enquanto nação. Quando da controvérsia eleitoral entre Bush e Al Gore, a propósito da contagem dos votos da Flórida, por mais indefinida que tenha sido a situação, a Suprema Corte interveio, declarou o resultado final e a vida política e social voltou ao normal. O recomeço tomou o seu curso e a sociedade americana voltou ao trabalho e à sua normalidade. Estabeleceu uma linha divisória.

O tensionamento agora desejado por Trump certamente terá vida curta, por situar-se para além da democracia e dos valores americanos. Eis o limite da demagogia e do uso intensivo das redes sociais.

Make White House Great Again

A dinâmica político-social a que estamos a assistir nos Estados Unidos vai muito para lá do que se poderia considerar um confronto entre direita e esquerda. Aliás, tais conceitos são estruturalmente diversos dos europeus e é necessário esforço de análise e algum conhecimento da sociedade americana para poder entender a razão de ser dos acontecimentos. De qualquer forma, como escreveu Manuel Carvalho, no Público, aludindo a uma democracia “doente”: “Não é a velha clivagem saudável entre esquerda e direita, entre progressismo e conservadorismo que está em causa: é a oposição entre a decência e a falta de escrúpulo. Se a democracia hesita nesta escolha, é porque se tornou uma banal formalidade.”

É nesta mesma linha que se manifesta Onésimo Teotónio de Almeida, o académico açoriano que vive há décadas nos EUA e ensina na universidade de Brown, em texto de opinião no DN: “Se as instituições americanas não tivessem acumulado mais de dois séculos de experiência democrática, o actual ocupante da Casa Branca já teria transformado este país numa ditadura, já que não lhe assiste o mínimo respeito pelo processo democrático.”



Portanto, a cultura trumpista está para lá da política. É sobretudo uma questão de decência. Como alguém disse, Trump é o mestre da mentira e está infectado pela desonestidade. Negou sempre a gravidade da pandemia, levando a que, tendo os Estados Unidos 4% da população mundial tenham contado 20% das vítimas mortais do globo por covid-19.

Descreditou constantemente a ciência tratando ao pontapé o Dr. Fauci, um dos maiores especialistas mundiais na matéria. Ridicularizou a utilização da máscara, difamou a Organização Mundial de Saúde, efabulou com a hidroxicloroquina, chegou ao ponto de sugerir publicamente injecções de lixívia para matar o coronavírus, abrindo assim a porta a algumas mortes de pessoas para quem a voz de Trump é a voz de Deus, e sempre a apadrinhar as mais delirantes teorias da conspiração.

Apoiar Trump, sendo o tipo de indivíduo que é, retira a qualquer pessoa o direito de se indignar depois contra a injustiça, o abuso, a difamação e o crime. Durante os últimos quatro anos ele dedicou-se a escrever todos os dias, no Twitter e fora dele, uma espécie de “Manual para destruir um grande país”. Comportou-se sempre como um líder de tipo feudal.

A derrota de Trump é boa para os EUA e melhor para o mundo, no contexto das relações multilaterais, Portugal incluído, tendo em conta o recente ultimato do embaixador a propósito da tecnologia 5G. Mas também será positiva para as organizações internacionais, incluindo a OMS e a ONU, assim como o regresso de um dos países mais poluidores do globo ao Acordo de Paris é igualmente fundamental para travar as alterações climáticas. Até Wall Street parece ter reagido bem à vitória democrata.

Crê-se que com Biden as relações externas americanas serão menos tensas e mais democráticas e o fascínio saloio pelos ditadores passará à história. Os republicanos do Lincoln Project afirmam que desde 2013 Trump paga 125 vezes mais impostos na China – que ele diaboliza – do que no seu próprio país. Para quem se diz nacionalista e trabalhar pela grandeza da América estamos conversados. Trump foi eleito com a promessa de afastar os lóbis de Washington, mas apenas os usou a favor das suas empresas.

Donald Trump é um homem indigno. Não revelou dignidade ao ganhar nem ao perder. Quando tomou posse mentiu descaradamente ao dizer que a sua cerimónia de tomada de posse tinha mais gente do que a de Obama, quando talvez tenha reunido cerca de metade. E agora começou por declarar vitória quando ainda faltavam escrutinar milhões de votos. Ao perceber que iria perder a eleição falou em irregularidades que não provou, que ninguém viu e que o sistema eleitoral doméstico e os observadores internacionais desmentiram.

Na quinta-feira passada as principais televisões americanas cortaram o discurso mentiroso em pleno directo e desmentiram-no, acusando-o de insistir em afirmações falsas, e até a trumpista Fox News referiu que tais acusações eram infundadas. Altos dirigentes do Partido Republicano como os senadores Mitch McConnell e Marco Rubio, demarcaram-se das acusações delirantes de Trump e da atitude de se ter declarado vencedor das presidenciais antes da eleição terminar, defendendo a contagem dos votos até ao fim.

Bem sei que Joe Biden nunca entusiasmou, mas parece ser o homem certo para devolver a dignidade à Casa Branca. Voltaremos a ter um ser humano na presidência do país mais poderoso do mundo. Biden terá que lidar com a corrosiva herança trumpista mas parece ter estofo e experiência política para tal, até porque já trabalhou sob liderança de outrem e foi aprovado, estando portanto em melhores condições para liderar. Já quanto a Trump, ninguém o imagina a trabalhar sob autoridade de ninguém…

Insisto. Esta eleição era sobre dignidade. Deixemos então o apóstolo Pedro falar: “Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados. Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades” (2 Pedro 2:9,10).

domingo, 8 de novembro de 2020

Brasil, um 'órfão' à procura de adoção

 


O que Trump prometeu e não entregou

Uma das lições a serem aprendidas a partir do resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos é a de que são inviáveis propostas políticas para solução da atual crise baseadas no populismo nacionalista.

O presidente Donald Trump foi eleito em 2016 porque prometeu devolver o emprego e a renda para o cidadão da classe média e a prosperidade para os negócios das empresas dos Estados Unidos. Esse programa protecionista, desenhado em pranchetas carregadas de xenofobia, foi empacotado sob o rótulo do make America great again.

A rejeição a Trump que se viu nos mapas eleitorais do chamado Cinturão da Ferrugem (do qual fazem parte os Estados de Michigan, Pensilvânia e Wisconsin) demonstra o desapontamento do eleitor médio com a administração Trump, que não entregou o que prometeu.

O presidente preferiu culpar a China e os imigrantes cucarachos pelo sumiço dos empregos e pela redução de salários. E apontou a União Europeia como grande responsável pela destruição dos negócios ligados à energia convencional (indústrias do petróleo, do gás de xisto e automobilística). Mas os lances da guerra comercial, os ataques aos fluxos migratórios e o pouco-caso com as aflições das minorias nem recompuseram a renda do cidadão médio e a renda familiar desidratada pelo juro negativo, nem devolveram os postos de trabalho.



Os analistas políticos vêm avaliando quanto o desleixo para com a pandemia e o menosprezo darwiniano diante do sofrimento alheio não se tornaram fator de derrota do presidente Trump.

Independentemente disso, por trás do colapso eleitoral também há uma falha de diagnóstico.O presidente Trump não entendeu que a globalização, a incorporação de mais de 600 milhões ao mercado de trabalho e de consumo na Ásia (e não só na China), as migrações, a rápida disseminação da tecnologia de informação (altamente poupadora de mão de obra) e a incorporação da energia limpa na matriz energética global vêm produzindo profunda transformação na economia e na natureza do trabalho. E não soube como lidar com essa novidade.

De mais a mais, o eleitor copiou do próprio Trump a resposta que este deu ao amador fracassado: “Você está demitido!”. Foi o que Trump repetiu, com notória satisfação, por 10 anos, no programa de reality show conduzido por ele levado ao ar pela rede de TV NBC, chamado O Aprendiz. Os aprendizes eram sistematicamente despachados por ele com um sonoro You’re fired. Ironicamente, essa experiência não serviu para prepará-lo para a derrota eleitoral, para a situação em que ele próprio se tornaria um “loser”, um dos qualificativos que o americano médio mais teme.

O desfecho da eleição nos Estados Unidos parece indicar algo mais do que a simples rejeição ao populismo nacionalista. Parece indicar que não há saída para a crise econômica e social dos nossos dias senão a cooperação, o diálogo, a negociação e a busca de saídas multilaterais.

Isso sugere que a administração Biden deverá não só abandonar as decisões unilaterais que marcaram o governo Trump, mas também deverá retomar os contatos com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e acatar as disposições do Acordo de Paris rejeitadas pelo governo Trump.

Falta saber se, no país agora profundamente rachado e altamente polarizado, o Congresso e, especialmente, o Senado conseguirão dar apoio aos programas de recuperação da atividade econômica, que poderão lembrar os investimentos promovidos pelo governo do presidente Roosevelt nos anos 1930, o New Deal, com o objetivo de buscar a retomada e a saída do labirinto. Parte importante desse programa tende a ser os incentivos para substituição da energia de fonte fóssil pela energia renovável.

E o Brasil?

Se for confirmada essa guinada na condução da política econômica dos Estados Unidos, o governo Bolsonaro não poderá conduzir os interesses do Brasil com o espírito que prevaleceu até agora: o de aproveitar a confusão e a reclusão social da pandemia “para deixar passar a boiada”.

Mas essa reacomodação de um governo também contaminado pelo populismo, se houver, ainda está envolta em enormes incertezas. Essas incertezas se misturam a outras duas: à maneira como o País sairá da pandemia e à maneira como tratará o rombo fiscal, o flagelo que ameaça engolir a política econômica e desorganizar a vida social.

Alerta sobre o 'vermelho'


E vocês estão vendo as questões no mundo, como está a política no mundo. Cada um tem sua opinião, vocês têm que discutir. Tem que ver a América do Sul, vários países estão sendo pintados novamente de vermelho
Jair Bolsonaro

Três lições de Biden para a oposição a Bolsonaro

A certa altura, pareceu que Donald Trump ficaria no poder para sempre. O bilionário transformou a presidência dos Estados Unidos num palco de autopromoção permanente. Com sua oratória agressiva, ele eletrizou as redes sociais, dominou o noticiário e impôs a mentira como arma política. Inspirou uma onda reacionária que varreu democracias em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.

Deslumbrado, o republicano chegou a anunciar que não se limitaria a buscar o segundo mandato. Já planejava o terceiro, o que exigiria rasgar a Constituição americana. Ontem o projeto autocrático foi interrompido pela vitória de Joe Biden. Trump ainda deve espernear por algum tempo, mas terá que deixar a Casa Branca.

A derrota do ídolo de Jair Bolsonaro pode ensinar algumas lições para o Brasil. A primeira: o populismo de direita não é imbatível. O discurso do ódio atrai votos, mas não resolve problemas concretos dos eleitores. Com o tempo, a realidade se impõe ao obscurantismo. Líderes que insistiram em negar a ciência, como Trump, foram atropelados pela pandemia.



Segunda lição: no confronto com um extremista, é preciso apostar na discussão de valores. Biden tem pouco carisma, mas cresceu ao se apresentar como antítese do rival. Conseguiu transformar a eleição num plebiscito sobre a democracia e a decência que se espera de um governante.

No último debate, o democrata se diferenciou ao mostrar solidariedade com as vítimas da Covid e do racismo. “Vocês sabem quem eu sou, e vocês sabem quem ele é”, disse, olhando para a câmera. “O caráter do país está em jogo. Nosso caráter está em jogo”, reforçou. Essa estratégia depende da realização de debates, que Bolsonaro boicotou em 2018.

A terceira lição está ligada à escolha do candidato e à união das forças democráticas. Biden já havia fracassado em duas tentativas de disputar a Presidência. No início da terceira, chegou a ser visto como carta fora do baralho. Moderado e conciliador, ele convenceu os democratas de que tinha o melhor perfil para derrotar Trump. Progressistas como Bernie Sanders e Elizabeth Warren deixaram a disputa para apoiá-lo. A vice Kamala Harris acrescentou diversidade e energia à chapa.

O sistema político brasileiro é muito diferente do americano, mas quem tem planos para o Brasil de 2022 precisará refletir sobre os EUA de 2020. “A vitória de Biden é uma vitória de frente ampla”, afirma o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Ele sustenta que a esquerda só derrotará Bolsonaro se conseguir atrair forças de centro. “Quem não fizer isso não ganhará a eleição”, sentencia.

Na centro-direita, o triunfo democrata empolgou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “Biden é defensor da democracia e dos direitos humanos, e o Brasil tem falhado nos dois campos. A derrota de Trump mostra que os grandes absurdos têm um fim”, diz o tucano, que apoiou Bolsonaro em 2018 e hoje é inimigo do capitão.

O ex-presidenciável Fernando Haddad (PT) considera que a discussão de estratégia eleitoral ainda é prematura. Mesmo assim, ele festejou um efeito da derrota de Trump sobre o país. “Agora o Bolsonaro é um cachorro que caiu do caminhão de mudança”, ironizou.

Para a América voltar a ser grande

"Parece ter sido reservado ao povo deste país, por sua conduta e exemplo, o veredicto da importante questão: se as sociedades humanas são de fato capazes de estabelecer um bom governo a partir da razão e da escolha, ou se elas estão para sempre destinadas a depender do acaso e da força”.

As palavras de Alexander Hamilton, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, em seu artigo ‘O FEDERALISTA NÚMERO UM” (assim mesmo, em caixa alta), de 30 de outubro de 1787, se encaixam como uma luva para definir o que estava em jogo na disputa entre Joe Biden e Donald Trump.

Em última instância, os americanos foram às urnas para decidir se os Estados Unidos retornariam a ser um país fundado em ideias sacramentadas em sua Constituição – chamadas de “estas verdades evidentes” por Thomas Jefferson e Benjamin Franklin - ou se aprofundariam a divisão e o ódio entre os americanos.


A vitória de Joe Biden na eleição mais concorrida da história do país, indica que os Estados Unidos podem se reconciliar consigo mesmo. O democrata demonstra ter clara noção de qual será sua principal missão: unir os americanos, com base nos valores que fizeram dos Estados Unidos a democracia mais resiliente do mundo e por isso mesmo admirada mundialmente.

Sua liderança veio não apenas da sua pujança econômica, mas também do poder de seus ideais. Entre eles, o da liberdade e o que vem da afirmação da Constituição fundadora de que todos os homens nascem livres e têm direitos iguais.

Isso não faz da América uma sociedade perfeita e sem desigualdades. Mas a superação de suas mazelas e o papel positivo que pode desempenhar no cenário internacional dependem da sua coerência com valores que, de resto, são de toda a humanidade.

Seria ilusório acreditar que, com a vitória de Biden, o trumpismo – essa corrente anti-histórica – desapareceu. Tanto está vivo que Donald Trump subverte a democracia americana ao tentar fraudar a verdade das urnas por meio de um tapetão amplo, geral e irrestrito, onde perdeu para Biden. Em sua insanidade, Trump passa recibo de sua derrota e revela profundo desrespeito ao pronunciamento soberano de 160 milhões de eleitores americanos.

Difícil de crer que, sem qualquer evidência de fraude, a Justiça americana avalize uma chicana jurídica que faria dos Estados Unidos uma república bananeira. Isto jogaria o país em uma crise institucional sem precedentes.

A última eleição a não ser aceita foi a de Abraham Lincoln. A contestação levou à Guerra da Secessão, com muito derramamento de sangue e uma ferida que levou muito tempo para cicatrizar.

O trumpismo não está morto, mas recebeu um duro golpe. A derrota no chamado “Cinturão da Ferrugem”, onde venceu em 2016, é o maior atestado de que sua demagogia não resolveu os problemas dos Estados Unidos. Em vez de fazer a América Grande Novamente apequenou-a tanto no concerto das nações como internamente. Em seu governo, a vocação cosmopolita da América deu lugar à xenofobia e ao isolacionismo, abdicando, assim, da vocação americana de liderar o mundo em sintonia com os valores democráticos. Hoje a supremacia americana está seriamente ameaçada pela China.

Há quatro anos a vaga nacional-populista chegava ao auge com sua vitória na maior economia do mundo. A derrota de Donald Trump em 2020 tende a ser o marco do refluxo da onda que varreu o mundo na segunda década do século. Soma-se à derrota de Matteo Salvini na Itália, da Alternativa para a Alemanha no país de Ângela Merkel, e no isolamento da extrema-direita na Espanha.

Os “engenheiros do caos”, para usar a definição do livro de Giuliano da Empoli, estão sendo derrotados porque negaram a ciência na maior pandemia do mundo, em cem anos. No caso de Trump, seu negacionismo teve peso enorme para sua derrota, como evidenciam os resultados eleitorais nos grandes centros urbanos, exatamente onde a Covid 19 mais se espraiou e mais matou. A virada de Biden em estados decisivos se deu quando os votos por correio e antecipados foram abertos. Esse era o eleitorado que mais levou a sério a pandemia e mais percebeu o desastre do desempenho de Trump diante de uma doença que tirou até agora a vida de 230 mil americanos.

Sai derrotada também a política quântica, pautada na exacerbação da polarização, na disseminação de fake news, em teorias conspiratórias e na disseminação do ódio. Ela não desaparece, mas perde fôlego. Há uma chance para que a política deixe de ser a continuidade da guerra por outros meios, ou a guerra sem derramamento de sangue, para voltar a ser forma civilizada de as sociedades dirimirem seus conflitos.

Voltando a Alexander Hamilton: Joe Biden é a possibilidade dos Estados Unidos terem um bom governo pautado pela razão. Por aí a América voltará a ser grande. E admirada por todos os que amam a liberdade.
Hubert Alquéres

Pensamento do Dia

 


A possível derrota do trumpismo enfraquece ou fortalece o bolsonarismo?

Poucas vezes o Brasil acompanhou uma eleição norte-americana com tanta atenção e apreensão como desta vez. A pergunta que se impõe é como o trumpismo continua vivo em metade dos norte-americanos e que pelo visto levará tempo para morrer. Bolsonaro encolherá com a possível derrota de Trump ou ficará ainda mais encorajado com a tentativa de tomar hoje sua bandeira no continente? 

Assim como o histriônico presidente norte-americano não aceitou o resultado das urnas, não é impossível que Bolsonaro e seus filhos agora se sintam incitados a agarrar o bastão do trumpismo. É possível que Bolsonaro também continue alimentando seu pânico e sua obsessão em ver comunistas até debaixo da cama e que continue a combatê-los como moinhos de vento. Ainda será preciso explicar como Trump – com todas as suas estridências, com sua política incorreta, seu racismo comprovado e sua política de perseguição das minorias – ainda consegue manter tanta força eleitoral. A democracia no mundo está entrando em crise para voltar aos tempos do obscurantismo, das guerras e do olho por olho? É uma análise que está por fazer. 

A antropologia e a psicologia também deverão explicá-lo, pois está estreitamente ligado aos instintos mais primitivos, inconscientes e destrutivos do ser humano. O trumpismo, que não morreu, é um fenômeno cada vez mais difundido e está contagiando até países europeus como Hungria, Polônia e Itália, juntamente com o ressurgimento dos movimentos de extrema direita fascistas e até mesmo nazistas. 


Não podemos nos iludir que, com a derrota de Trump e com a volta dos democratas, desaparecerão o ressurgimento e o fortalecimento dos grupos extremistas cada vez mais vivos e ativos. É como um novo vírus que poderia se tornar uma pandemia sem a vacina de uma política democrática renovada e capaz de entusiasmar as pessoas, capaz de saber dialogar com todos ao invés de semear o ódio e as cizânias que o passado nos ensina que costumam acabar em guerra civil. E isso porque esses movimentos extremistas, autoritários e antidemocráticos não nascem do nada, mas de uma insatisfação geral com a política vista hoje mais como uma acumulação de privilegiados que se apropriam da riqueza universal. 

O  mundo estaria se cansando da democracia? O ser humano é instintivamente violento, egoísta, predatório, racista e acumulador. É um lobo para seu semelhante sem as barreiras impostas pela cultura, pela ciência e pela política de coexistência que contrabalançam esses instintos enraizados desde os tempos das cavernas. São sentimentos destrutivos, de medo, que nunca morrem e que veem o próximo como um possível inimigo. Basta despertá-los para que surjam com sua força primitiva. E é isso que os movimentos radicais estão fazendo com os fenômenos do trumpismo e do bolsonarismo.

 E quando falo em bolsonarismo não me refiro aos 57 milhões de brasileiros que deram seu voto nas urnas ao capitão aposentado, muitos deles hoje decepcionados e até envergonhados. Refiro-me ao chamado bolsonarismo raiz, que apela aos sentimentos mais primitivos da convivência pacífica e que se alimenta do pior que existe no homem e goza revirando as latrinas que sujam a convivência civil e pacífica. Todos esses movimentos destrutivos pertencem à ordem dos impulsos que para podermos conviver felizmente reprimimos. 

A guerra se baseia no medo do outro e na ambição de possuir, enquanto a paz se constrói com a cultura e com uma educação que ensina desde a infância a aceitação dos diferentes, o respeito pelo outro e pela natureza. Não é por acaso que o bolsonarismo, por exemplo, revela desprezo pela ciência, pela cultura, pelo ensino livre de imposições autoritárias e defende a política do enfrentamento, enquanto fomenta o politicamente incorreto, zomba da defesa da terra, arrasta para o negacionismo e se opõe aos avanços civilizatórios que contribuem para a convivência pacífica. 

Por tudo isto, esperar que a possível queda de Trump faça desmoronar automaticamente o bolsonarismo é uma vã quimera. Talvez o exacerbe ainda mais como sempre aconteceu com os ditadores que, quanto mais acossados estão, mais aumentam a dose de sua loucura, de suas paranoias e de suas frustrações reprimidas. Por isso as forças democráticas e progressistas brasileiras devem ser capazes de, nas urnas em 2022, colocar um freio ao perigo cada vez mais real de ver destruídos os valores da democracia que impedem entrar no túnel da barbárie. Desse bolsonarismo que acaba envenenando as relações sociais e humanas, empobrecendo o país, afastando-o do diálogo com os outros povos e fechando-se cada vez mais em si mesmo. 

O Brasil ainda tem tempo. Amanhã talvez seja tarde demais.

Vacina obrigatória

O obscurantismo bolsonariano faz-nos retroceder no tempo mais de um século. Em 1900 a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, era conhecida como empesteada, vítima de febre amarela, peste bubônica e cólera. Oswaldo Cruz, diretor de saúde pública no governo Rodrigues Alves, enfrentou as duas primeiras a partir de 1902 e em 1904 deu início ao combate à varíola, cuja imunização poderia dar-se pela aplicação de vacina já conhecida havia décadas.

Depois de muita discussão, foi aprovada no Congresso Nacional a Lei n.º 1.261, de outubro de 1904, que determinava a vacinação compulsória. Houve, então, já naquele tempo, tanto fake news, difundindo ser perniciosa a vacina, como exploração política de positivistas, seguidores de Augusto Comte, e florianistas, adeptos de Floriano Peixoto, que tomaram a questão da vacina como pretexto para tentar derrubar o presidente.

A contestação à obrigatoriedade, liderada por parlamentares, antes oficiais do Exército, ganhou cores gravíssimas, pois entre 10 e 20 de novembro as ruas foram ocupadas por revoltosos, com um saldo terrível de 30 mortos e mais de 900 presos, dos quais 450, por antecedentes criminais, foram enviados para o Acre. Muitos feridos.



Até Rui Barbosa se pôs contra a vacina, ponderando que, “assim como o Direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”. A obrigatoriedade foi revogada. Em 1908 muitos morreram de cólera e a população acorreu, então, para tomar a vacina. Rui alterou sua posição e em 1917 homenageou Oswaldo Cruz, reconhecendo dever-se a ele a vitória sobre o flagelo e a diferença entre o “Brasil pesteado, que encontrou, e o Brasil desinfectado, que nos veio a legar”.

Em plena pandemia, antes do meio do mandato, Jair só pensa na reeleição. E por interesse político, como em 1904, lança suspeitas sobre a vacina e nega sua obrigatoriedade para contentar seguidores e atacar governadores, contrariando os valores básicos da Constituição e os termos da legislação específica por ele mesmo sancionada. E daí?

No campo legal, a Lei n.º 6.259/75 e o Decreto n.º 78.231/76 impõem a obrigatoriedade da vacina a todos os adultos, aos quais incumbe submeter à vacinação os menores sob sua guarda.

A prevenção da contaminação da covid-19 é, especificamente, disciplinada pela Lei n.º 13.979/20. No artigo 3.º da lei, dispõe-se: “Para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional de que trata esta Lei, as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências, entre outras, as seguintes medidas: (...) III - determinação compulsória de (...) d) vacinação”. Essa conduta pode ser adotada, segundo o parágrafo 7.º desse artigo 3.º, pelos gestores locais de saúde, ou seja, pelos governadores, desde que cientificamente recomendada a providência.

Na Constituição da República consagra-se o valor da solidariedade no artigo 3.º, segundo o qual é objetivo fundamental da República construir uma sociedade livre, justa e solidária. Ser vacinado é ser solidário, pois não apenas se protege a si mesmo, mas todos da comunidade, visando a alcançar a imunização. A solidariedade, na expressão de Dworkin, vem a ser “considerar a vida dos outros como parte de suas próprias vidas” (Uma Questão de Direito, pág. 297), significando “a pessoa se abrir à outra, pensá-la, sofrer com”, no dizer de Arias Bustamante (Alternativa Ideológica: Comunitarismo, pág. 40), unidos todos por grande cordão umbilical.

Pela via da solidariedade social pode-se cimentar, orientar e construir concretamente nossa unidade como povo, surgindo em face desse objetivo da República o dever de solidariedade que a todos vincula (André Corrêa, Solidariedade e Responsabilidade, pág. 313).

Como transmissores, somos todos iguais perante o vírus. Ninguém, por nenhuma razão, pode colocar-se acima dos demais e negar-se a colaborar com a comunidade na precaução contra o malefício da infecção. Rejeitar a vacina, autorizada pela Anvisa, é atuar com desprezo pelo outro, em superioridade antissolidária.

Como elucida o Supremo Tribunal Federal (Oscar Vilhena, Direitos Fundamentais, pág. 388, reproduzindo votos de Celso de Mello), “a proteção à saúde representa um fator que associado a um imperativo de solidariedade social impõe-se ao Poder Público”, em qualquer plano da organização federativa, tomando medidas preventivas e curativas.

Em outro voto, Celso de Mello observa que a negação de qualquer tipo de obrigação a ser cumprida com base nos direitos sociais significa a renúncia a “reconhecê-los como verdadeiros direitos” (pág. 399), em arrepio ao princípio da solidariedade.

Assim, campanha contra futura vacinação, por motivação política, significa não reconhecer a precaução eficaz contra o vírus como um direito da comunidade, a ser explicado e exigido de todos pelo chefe da Nação. Tal conduta infringe o artigo 7.º da Lei n.º 1.079/50, ou seja, pode ser crime de responsabilidade consistente em violar o direito social à saúde, pois incita a impedir a imunização, objetivo solidário de todo o povo. Que flagelo!

Rastro de morte


Donald Trump deixa para trás um rastro de destruição. Sua forma de governar através da mentira causou danos duradouros à confiança nos processos e instituições democráticos

Metamorfose pela metade

Na noite eleitoral de 2016, muitos norte-americanos foram dormir sonhando com uma mulher na presidência. Despertaram de um sonho intranquilo, com o presidente metamorfoseado num Trump gigantesco. Quem achava que este 3 de novembro daria fim ao pesadelo, entrou em insônia prolongada.

E, em vez de sediar a ansiada marcha dos civilizados sobre os bárbaros, a quarta foi de cinzas, entre festa e ressaca. Na quinta, Biden, tudo indica, venceu; mudará a configuração política do planeta. Não é pouco. Mas foi por pouco. Governará no meio a meio, Câmara e Senado partidos, Suprema Corte adversa.

As urnas atestaram o tamanho do apoio à pessoa, aos valores e às atitudes do presidente. Depois de quatro anos sob sua égide, o inaceitável para a metade azul soou bom o bastante para a vermelha. Trump perdeu a rodada, mas o conservadorismo ostentou seu enraizamento.

A derrota é tranco para adeptos do "make my country great again" mundo afora, mas não é antídoto que reponha o Ocidente no jazz de Clinton-Blair. Embora Trump fosse sua face mais vistosa, uma rede internacional de extrema direita se desenvolve desde a valsa Reagan-Thatcher.



A internet está infestada com suas publicações, campanhas, movimentos. Há conspiratórios e patéticos, mas não faltam os astutos. Santiago Abascal é desta espécie. Embora trumpistas de carteirinha em momento barata tonta, os Bolsonaros não ficarão no desamparo. Como são bons em diversificar investimentos, já tinham incluído o líder do Vox em sua carteira.

Quem cuida da bolsa internacional da família é o 03. Depois de se enlaçar com os reacionários norte-americanos e organizar convenção internacional conservadora, aproximou-se da extrema direita espanhola. Em junho, Eduardo entrevistou Abascal no YouTube. Gentilezas de lado a lado, o espanhol se excedeu: elogiou o domínio do castelhano pelo brasileiro.

Em cinco anos, o Vox virou o terceiro partido no país. Segundo Eduardo, Abascal segue "el mismo camino exacto" de seu pai. De fato, embora mais elegante e informado que a família presidencial brasileira, compartilha a autodefinição como "patriota" e a imodéstia na avaliação do próprio peso.

Em entrevista, no fecho das eleições que fizeram do partido andaluz força incontornável, foi categórico: o Vox mudou o debate na Espanha. Como Trump e Bolsonaro, quebrou a cerca do politicamente correto: "O marxismo cultural tinha decretado quais eram os debates proibidos, diziam do que se podia e do que não se podia falar". Agora a agenda pública se disputa.

Abascal projeta a sua globalmente. Criou a Fundación Disenso e, mês passado, o "Foro de Madrid", para "frear o avanço comunista", o aborto e a "ideologia de gênero". Arregimentou para sua "Carta de Madrid" 17 líderes de direita de 15 países, entre gente de governos, partidos, think tanks, proselitistas, jornalistas e empresários, muitos na casa dos 40 e 50 anos. Trata-se de nova e aguerrida geração de conservadores.

A carta denuncia o "sequestro" de parte da "iberoamérica" por "regimes totalitários de inspiração comunista, apoiados pelo narcotráfico", que, liderados por Cuba, Foro de São Paulo e Grupo de Puebla, imporiam seu "projeto ideológico e criminoso" de "desestabilizar as democracias liberais."

É extremismo distinto dos parentes dos anos 1940. Seu lema é "Iberoesfera e liberdade". Não joga contra as instituições liberais, joga dentro delas. Em vez de destruí-la na base da quartelada, interpreta capciosamente regras e brechas da democracia. Luta por moldá-la à sua maneira, disputa seu sentido.

Os extremistas são muitos e estão em muitos países. Neste mundo kafkaniano, Trump não é um Gregor Samsa solitário, nem sairá de cena com a mesma discrição.

Como escolher um candidato

Houve tempo em que era fácil escolher candidato, pelo partido ou pensamento – esquerda ou direita. As transformações no mundo ocorreram mais depressa do que as adaptações dos partidos e dos blocos, deixando os eleitores sem referências. A globalização fez impossível dividir os políticos entre nacionalistas plenos ou totalmente globalistas. O fracasso do Leste Europeu fez com que a esquerda deixasse de se identificar com a estatização, que passou a significar fábrica de privilégios, desperdícios, ineficiência e corrupção, mas as sucessivas crises provocadas pelo liberalismo fizeram a direita perceber a importância do Estado na economia e mesmo na sociedade, adotando e até ampliando programas de transferência de renda que eram bandeiras progressistas. A impressão é que os partidos e os políticos ficaram todos parecidos.

Mesmo assim, eles são diferentes e não é difícil escolher em quem votar, se, sem apego às siglas que pouco significam, leva-se em conta três fatores, nesta ordem de importância.



Primeiro, o passado do político: corrupto ou íntegro. No mundo de hoje, estas são características fundamentais que diferenciam radicalmente os candidatos.

Segundo, se nas suas histórias pessoais e propostas eles são responsáveis ou irresponsáveis no uso dos recursos públicos, os recursos fiscais que o povo paga a cada ano ao Tesouro Nacional, e os recursos ecológicos que recebemos da natureza. A moral do comportamento - corrupto ou honesto – é fundamental, mas a ética da responsabilidade – populista ou responsável – é igualmente importante, porque os irresponsáveis provocam desastres ainda maiores e muito mais difíceis de corrigir. A inflação, consequência da irresponsabilidade, rouba cada pessoa, especialmente aos pobres que não dispõem de instrumentos de proteção.

Terceiro, entre os honestos e responsáveis, há a divisão entre os progressistas e os conservadores. Embora cada um destes dois blocos também se dividam, é possível escolher o candidato conforme suas posições em relação ao respeito às instituições democráticas, aos costumes, à garantia de liberdade, à defesa de direitos humanos, ao papel eficiente e social do Estado, às reformas estruturais, à defesa do meio ambiente, às prioridades no uso dos recursos públicos.

Ao eleitor, depois de identificar os honestos responsáveis, cabe escolher quais prometem para o futuro o que mais se aproxima dos seus sonhos para o país e para o mundo: conservar o que temos ou progredir a um país eficiente, justo e sustentável.
Cristovam Buarque

sábado, 7 de novembro de 2020

Imagem do Dia

 

Marian Kamensky (Áustria)

Um chamado às pessoas civilizadas

O presidente norte-americano, Donald Trump, não decepcionou seus mais fanáticos seguidores e fez o que prometeu há meses: contestou, nos mais rasteiros termos, a contagem de votos que indicavam a eleição de seu rival, o democrata Joe Biden, à presidência dos Estados Unidos. Em pronunciamento na Casa Branca, Trump declarou, sem apresentar qualquer dado concreto, que, se apenas os votos válidos fossem contados, ele seria declarado vencedor. Ato contínuo, exigiu a interrupção da apuração em Estados onde havia avanço da votação em Joe Biden e acusou os opositores de tentarem “roubar a eleição”.

Se Donald Trump seguiu um roteiro que foi exaustivamente anunciado, algo absolutamente inusitado aconteceu: três das principais emissoras de TV dos Estados Unidos, que mostravam ao vivo o pronunciamento de Trump, interromperam a transmissão e informaram seu público que a fala do presidente estava repleta de falsidades e imprecisões.

As redes sociais, por sua vez, haviam tomado providência semelhante ao longo do dia, classificando como “contestáveis” ou “incorretas” as mensagens de Trump que denunciavam fraude na eleição.

Isso mostra que há um limite concreto para a escalada do populismo niilista liderado por Trump e secundado por dedicados sabujos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil: é o limite imposto pelo vigor dos sustentáculos da democracia – especialmente a imprensa livre, mas não só.

Ao mesmo tempo, o Judiciário norte-americano, demonstrando sua independência, rejeitou, por falta de provas, diversas demandas da campanha de Trump para interromper a contagem de votos ou para contestar a lisura do pleito, enquanto muitos parlamentares republicanos, correligionários do presidente, manifestaram seu inequívoco repúdio à tentativa de Donald Trump de colocar em dúvida o processo eleitoral.

A reação generalizada à farsa de Trump mostra a saúde da democracia norte-americana, apesar de tudo. Para funcionar, uma democracia depende da manutenção de uma base comum, sustentada na verdade dos fatos e nas leis aceitas por todos. É sobre essa base comum que a sociedade debate, no espaço público, as soluções para seus problemas, seja qual for a preferência ideológica ou partidária. Quando um presidente da República incita seus compatriotas a duvidar dos fatos e a desrespeitar a lei, destrói esse entendimento mínimo e ergue, em seu lugar, um mundo de absoluta desconfiança – nas instituições democráticas e entre os próprios cidadãos. Nesse mundo em que a verdade é hostilizada e a lei é para os fracos, só os delinquentes triunfam.

Por isso, é fundamental que as pessoas civilizadas, seja qual for sua preferência política, impeçam os vândalos da democracia de prevalecer, como está acontecendo nos Estados Unidos. O exemplo norte-americano nos é particularmente importante, pois neste momento o presidente Jair Bolsonaro, imitando seu mestre Donald Trump, reiterou suas dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro. Sem nenhuma evidência, Bolsonaro afirma que o sistema de votação nacional é suscetível a fraudes.

Em meio ao vergonhoso escarcéu causado por Trump e suas denúncias infundadas de manipulação de votos, Bolsonaro informou que vai patrocinar uma proposta de emenda constitucional destinada a acabar com o sistema eletrônico de votos e substituí-lo pelo voto em papel, que ele diz ser “confiável”.

Pode-se argumentar que o sistema que Bolsonaro considera mais “confiável”, o voto em papel, é justamente aquele que está sendo colocado em dúvida por Trump, mas é ocioso esperar qualquer discussão racional com quem deliberadamente estimula a irracionalidade. O fato a se tomar nota, e que deve alarmar todos, é a clara estratégia de Bolsonaro de estimular a farsa segundo a qual o sistema de votação não é confiável, alimentando um clima de suspeita permanente no País e preparando o terreno para, como Trump, desrespeitar o resultado da eleição presidencial de 2022, caso lhe seja desfavorável, alegando “fraude”.

O nome disso, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, é tentativa de golpe.